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o croqui do arquiteto e o ensino do desenho
Anna Paula Silva Gouveia
Orientador: Prof
a
. Dr
a
. Élide Monzeglio
Tese de Doutorado
FAU USP
1998
Volume I
Croqui:
representação
e simulação
Giovanni Battista Piranesi
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1
Volume I
Croqui:
representação
e simulação
Volume II
O desenho e o
processo de
projeto
Volume III
O ensino do
desenho para
arquitetos
Tese de Doutorado
FAU USP
1998
o croqui do arquiteto e o ensino do desenho
Anna Paula Silva Gouveia
Orientador: Prof
a
. Dr
a
. Élide Monzeglio
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2
Dedicatória
a meus pais
3
Agradecimentos
À Prof
a
. Élide Monzeglio, pela dedicação, apoio e amizade,
sem os quais esta tese não teria sido possível.
Aos professores e colegas arquitetos que colaboraram direta
ou indiretamente neste trabalho, em especial aos arquitetos
Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes e Abraão
Sanovicz.
Aos alunos e colegas do curso de Arquitetura e Urbanismo
da Universidade de Mogi das Cruzes, em especial aos
Professores Neide de Melo Nunes Machado e Sérgio
Carneiro.
Ao Laboratório de computação da FAU USP, em espe-
cial à Carla Risso e ao Sílvio Geres.
À CAPES e à Universidade de Mogi das Cruzes pelo
apoio e custeio parcial deste trabalho.
Em especial, pela colaboração, a Enéias Moura, Lício
Moura, Patrícia Gimeno e Neide Dantas.
4
Esta Tese está dividida em três volumes:
I - Croqui: representação e simulação
II - O desenho e o processo de projeto
III - O ensino do desenho para arquitetos
Os três volumes tratam do mesmo objeto de estudo: o
desenho do arquiteto e para a arquitetura, mas sob um
enfoque diverso.
No Volume I, além de uma abordagem teórica sobre as
premissas metodológicas, o desenho é visto sob três outros
enfoques: enquanto conceito relativo à problemática inerente
à arquitetura, ou seja, representação e simulação do espaço;
enquanto instrumento de projeto adaptado a cada momento
da arquitetura; e também enquanto objeto artístico.
No Volume II, estreita-se a relação entre desenho e projeto
de arquitetura, tentando estabelecer relações entre um e
outro método. São apresentados os resultados do
acompanhamento e análise do trabalho de vários arquitetos,
bem como entrevistas, na íntegra, com os arquitetos Paulo
Mendes da Rocha, Joaquim Guedes e Abrahão Sanovicz.
No Volume III, o ensino do desenho tem destaque com base
nas teorias da escola ativa, os métodos de ensino-apren-
dizagem e sua adaptação ao universo da arquitetura.
Nos três volumes, a intenção principal é sempre verificar os
pressupostos básicos para o ensino de desenho para futuros
arquitetos. Os três volumes são permeados por conclusões
inerentes ao enfoque sobre o qual se referem. No final do
terceiro volume, apresenta-se uma conclusão sobre o
enfoque geral, tratado nos três volumes, relacionando
imagem, desenho e projeto para fins didáticos.
Apresentação
This Thesis is divided in three volumes:
I - Croquis: representation and simulation
II - Design and process of the project
III - Teaching of the design to architects
The three volumes deal with the same object to study: the
design of architect and to architecture, but under a different
focus.
In the first volume, besides a theoretical aproach about the
metodological premisses, the design is seen under three
other focuses: as a concept conected to the problematic
inherente to the architecture, I mean, representation and
simulation of the space; whereas instrument of the project
adapted to each moment of the architecture; and even as
artistic object.
In the volume II, narrows the conection between design and
project of architecture, trying to stablish conexions between
one and other method. Here are presented the results of the
attendance and analyse of the work of various architects, as
well as briefinga, as a whole, with the architects Paulo
Mendes da Rocha, Joaquim Guedes and Abrahão Sanovicz.
In the volume III, the teaching of the design has a prominence
based in the theories of the active school, the methods of
teaching-apprenticeship and its adaptation to the architecture
universe.
In the three volumes, the main target is always verify the
basic pressuposed to the teaching to the future architects.
The three volumes are interposed by conclusions inherents
to the focus on which they refer. At the end of the third
volume, we present a conclusion about the general focused,
treated in the three volumes, linking image, drawing and
project to didacts aims.
Abstract
5
Introdução - Uma abordagem fenomenológica
Notas e referências bibliográficas
Objeto de estudo
Notas e referências bibliográficas
Objetivos
Desenho e Percepção do espaço
Notas e referências bibliográficas
Desenho enquanto representação do espaço
Notas e referências bibliográficas
A didática do desenho em arquitetura enquanto simulação do espaço
Os desenhos da arquitetura
A querela do desenho de projeto no renascimento
O moderno racionalista e o pós-moderno apriorístico
Racionalismo, empirismo e apriorismo. Considerações filosóficas
A arquitetura habitacional holandesa - A razão no espaço coletivo
A ideologia do Movimento Moderno -Os CIAM e a Carta de Atenas
A racionalização no projeto e no canteiro na reconstrução das cidades européias
Tipo, standard, modelo e paradigma.
A crítica ao Moderno
A transformação da cidade tradicional em moderna leva à degradação - A crítica inglesa
Notas e referências bibliográficas
O croqui do arquiteto como objeto artístico
Croqui - Imagem mental
Arquitetura - arte do desenho
A mimese e a abstração
Abstrair ou Desumanizar
Notas e referências bibliográficas
Índice das ilustrações do Volume I
Volume I - Sumário
6
10
11
13
14
15
20
21
24
25
27
31
36
37
38
40
43
44
45
46
48
50
53
54
55
60
61
63
I.1.
I.2.
I.2.1.
I.3.
I.3.1.
I.3.2.
I.4.
I.4.1.
I.4.2.
I.4.3.
I.4.4.
I.4.5.
I.4.6.
I.4.7.
I.4.8.
I.4.9.
I.5.
I.5.1.
I.5.2.
I.5.3.
I.5.4.
I.6.
6
Este texto preliminar tem por objetivo demonstrar o percurso
realizado, que envolve questões multidisciplinares; com
ênfase na psicologia no que se refere à percepção da
imagem; na pedagogia (ou melhor seria andragogia, por
se tratar de ensino superior) no que se refere à didática do
desenho; na estética por se tratar também de uma
abordagem artística; e na
arquitetura, ambiente na qual e
para a qual se dá o desenho em questão.
A leitura de autores ligados à Fenomenologia desencadeou
uma pesquisa paralela sobre este universo filosófico, levando
a uma abordagem ampla, na qual pontos pendentes puderam
encontrar lugar dentro de uma estrutura. Como tais podem
ser considerados:
O fato da pesquisa ter sido realizada por uma
profissional que utiliza o desenho como forma de expressão,
tendo conseqüentemente uma postura e uma visão
preestabelecida sobre o objeto de estudo.
O fato desta mesma pesquisadora ser professora
e de conhecer os problemas pertinentes ao seu grupo de
alunos, que de certa forma tem características peculiares e
não formam um grupo representativo do universo de
estudantes de arquitetura, para serem utilizados como base
de pesquisa.
O fato desta pesquisadora já ter passado por esse
tipo de aprendizado e memorizado as dificuldades, suas e de
colegas, que, também, dentro de uma abordagem restrita,
não podem ser consideradas como base de pesquisa.
Essas pendências poderiam ser resumidas em três palavras:
arquiteto, docente e aluno. Esses três mundos coabitam
em um mesmo sujeito, a autora da pesquisa. A relação sujeito
- objeto deixa de ser evidente, quando de uma maneira
genérica, conceitua-se, como objeto de estudo, o “saber
relativo ao desenho” e verifica-se que ele permeia os três
mundos, e em cada um sob uma abordagem diferente. O
I.1. Introdução
Uma abordagem fenomenológica
7
saber (neste caso o croqui) se encarado como fruto do
trabalho pessoal do arquiteto, não se encontra nos livros, mas
na vivência de cada profissional. Sob este enfoque o saber é
também parte integrante do sujeito que pesquisa.
Segundo Yolanda C. Forghieri
(1)
, na classificação de
Binswanger
(2)
, são três os aspectos do mundo: circundante,
humano e próprio. O mundo circundante
consiste no relacionamento da pessoa com o que
costumamos denominar de ambiente.
(3)
Deste mundo fazem parte
as condições externas e o meu próprio corpo e é
este que me proporciona os primeiros contatos com
aquelas.
(4)
O humano é o ser-com no mundo, ou seja, a relação do
indivíduo com seu semelhante define propriamente o existir
humano, pois este é originariamente ser-com o outro.
(5)
O mundo próprio define a relação do indivíduo consigo mesmo
e tem como função peculiar o pensamento.
Karl Popper
(6)
, filósofo de linha não fenomenológica, também
classificou o mundo do homem em três aspectos: mundo 1,
mundo 2 e mundo 3.
Para Popper, o mundo 1 é a própria biologia humana e sua
evolução, responsável pelo corpo e cérebro humanos.
Pertencem também a esse mundo todos os objetos materiais,
inclusive aqueles produzidos pelo homem, que também
pertencem ao mundo 3. Em suma, o mundo 1 é a realidade
material e física. O mundo 2 trata dos estados-mentais, ou
estados de consciência e disposições psicológicas e estados
de inconsciência.
(7)
O mundo 3 é o dos produtos da mente
humana (histórias, mitos, artefatos, teorias científicas, etc),
é o mundo do conteúdo do pensamento.
Pode-se dizer que a principal diferença entre as duas
classificações, que em alguns pontos se assemelham, está
no fato da primeira, de linha fenomenológica, classificar as
relações entre dois fatores, sendo um deles sempre o in-
divíduo; a segunda classificação é dada por coisas par-
cialmente independentes e não pelas relações entre elas.
Esta visão de inter-relação de aspectos, que numa postura
fenomenológica não pode ser descartada, pois geraria um
falso produto de pesquisa, ou alienado de seu contexto
global, foi sempre preocupação presente dentro deste
trabalho. Neste enfoque, arquiteto, docente e aluno podem
e devem se aliar na figura da pesquisadora, pois todos são
fundamentais na problematização do objeto. Também deve-
se ressaltar que o material relativo aos trabalhos dos alunos
caracteriza uma visão dos problemas mais comuns em
desenho dentro desta perspectiva; ou seja, como escolha
pessoal do pesquisador, não querendo significar uma amostra
percentualmente objetiva, dentro do universo discente como
um todo.
Voltando à questão dos mundos sob o ponto de vista feno-
menológico, o mundo próprio
caracteriza-se pela significação que as
experiências têm para a pessoa, e pelo conhe-
cimento de si e do mundo; sua função peculiar é o
pensamento. O pensamento con-siderado de um
modo amplo que abrange todas as funções
mentais como o entendimento, o raciocínio, a
memória, a imaginação, a reflexão, a intuição e a
linguagem.
(8)
Linguagem e pensamento encontram-se es-
sencialmente ligados.
(9)
Assim, conclui-se que desenho é linguagem e está
essencialmente ligado ao pensamento.
Forghieri também coloca que pensar não significa representar-
se algo, ou seja, conceituar através de características rela-
cionadas, mas implica em emissão de juízos através de
diálogos, que consiste na forma de pensamento discursivo.
Assim, também se pode dizer que o desenho não é só
representação, mas uma forma de pensar.
O pensamento intuitivo está sempre presente frente à nossa
percepção do mundo e, geralmente, as pessoas primeiro
intuem e depois refletem sobre. A comunicação se dá pelas
duas formas, cada uma estabelece um tipo de linguagem, e
estas expressam a vivência do indivíduo.
Segundo Rudolf Arnheim,
a intuição e o intelecto se relacionam com a
percepção e o pensamento de uma forma um tanto
complexa. A intuição é mais bem definida como
uma propriedade particular da percepção, isto é, a
sua capacidade de apreender diretamente o efeito
de uma interação que ocorre num campo ou
situação gestaltista.
(10)
Historicamente, o desenho foi melhor compreendido e
conceituado como uma linguagem intuitiva, mais que
reflexiva. Assim, é difícil definí-lo como expressão dos dois
tipos de pensamento, ao mesmo tempo, intuitivo e reflexivo,
e daí todas as dificuldades em problematizá-lo.
Outra característica do mundo próprio é a transcendência.
no mundo próprio a pessoa percebe-se, ao mesmo
tempo, como sujeito e objeto; ela dá-se conta de
si mesma como um ser existente no mundo,
colocando-se tanto na situação concreta do
momento como, também, vislumbrando a
variedade de suas possibilidades. Assim sendo, a
consciência de si e o autoconhecimento implicam
a autotranscendência; esta é a capacidade do ser
8
humano transcender uma situação imediata, ou, em
outras palavras, a capacidade de ultrapassar o
momento concretamente presente, o aqui e agora,
o espaço e o tempo objetivos. Pela auto-
transcendência a pessoa traz o passado e o futuro
para o instante atual de sua existência e se
reconhece como sujeito responsável por suas
decisões e seus atos. É essa capacidade que
constitui a base da liberdade humana, pois, permite
ao ser humano tanto voltar-se para o passado como,
ao mesmo tempo, lançar-se no futuro para refletir
e avaliar seus próprios recursos e as possibilidades
que possui para enfrentar, não apenas a situação
imediata, mas para ir, imaginativamente, muito além
dela.
(11)
O desenho, gráfico ou entendido como a maneira pela qual
se dispoem objetos no espaço, sempre transcende a
realidade. Uma criança quando assim desenha, o faz para
transcendê-la de forma mais concreta.
Entrar no quarto da criança, terminada a brincadeira,
mas aonde ainda estão presentes os seus vestígios,
é entrar em contato com um recorte da história
daquela criança. É a possibilidade de conhecer
aquela criança através de uma outra linguagem: o
desenho do seu espaço lúdico.
(12)
O desenho é uma forma objetiva de transcendência da
situação imediata, que em arquitetura significa projeto. O
arquiteto cria um espaço não existente, transcende-se para
aquele espaço-tempo imaginário de forma a poder concretizá-
lo em projeto gráfico, para que seja construído. Aqui o desenho
tem caráter de
simulaçãosimulação
simulaçãosimulação
simulação.
Forghieri também coloca que a maneira com a qual
vivenciamos o espaço em nossa existência consiste em
espacializar. Racionalmente, objetivamos nossa espa-
cialidade, localizamos e denominamos lugares e as coisas
que nele se encontram. Consideramos dimensões, volumes
e distâncias entre as coisas e também sobre nós mesmos e
os outros. Mas espacializar vai além disso, a autora o
conceitua como uma forma de expansividade.
O nosso espacializar não se limita ao “estar aqui”,
pois inclui o “ter estado lá” e o poder vir a “estar
acolá”, reunidos numa compreensão global.
(13)
Este conceito pode ser considerado básico no pensamento
arquitetônico e, sem dúvida, presente no desenho de
representaçãorepresentação
representaçãorepresentação
representação. Segundo Edmond Couchot,
Representar é poder passar de um ponto qualquer
de um espaço em três dimensões a seu análogo
(seu “transformador”) num espaço de duas
dimensões. Mas estabelece também uma relação
imediata entre o objeto a figurar, sua imagem e
quem organiza o encontro de ambos. A Re-
presentação alinha, no espaço e no tempo, o
Objeto, a Imagem e o Sujeito.
(14)
Mas, representar graficamente a realidade observada,
embora o arquiteto tenha a intenção de concretizar em
desenho a realidade da paisagem, locus projetivo, implica
na verdade em representar o modo pelo qual ele a vê, como
esta lhe aparece. É a própria intenção, sob o ponto de vista
fenomenológico, como explica Merleau Ponty:
Trata-se de reconhecer a própria consciência como
projeto do mundo, destinada a um mundo que ela
não abarca nem possui, mas em direção ao qual
ela não cessa de se dirigir - e o mundo como este
indivíduo pré-objetivo cuja unidade imperiosa
prescreve à consciência a sua meta. É por isso
que Husserl distingue entre a intencionalidade de
ato, que é aquela de nossos juízos e de nossas
tomadas de posição voluntárias, a única da qual a
Crítica da Razão Pura falou, e a intencionalidade
operante (fungierende Intentionalität), aquela que
forma a unidade natural e antepredicativa do mundo
e de nossa vida, que aparece em nossos desejos,
nossas avaliações, nossa paisagem, mais
claramente do que no conhecimento objetivo, e
fornece o texto do qual nossos conhecimentos
procuram, ser a tradução em linguagem exata.
(15)
Assim, a questão da expansividade está ligada à capacidade
do indivíduo ver o mundo. Este ver está intimamente
relacionado com a vivência do indivíduo. Logo, toda visão de
mundo carrega em si uma relação do indivíduo com o meio,
que é única e singular, o que implica na singularidade de todo
projeto e de todo desenho.
O projeto de arquitetura é também uma escolha frente às
possibilidades, o que também implica em renúncia. Quanto
maior for a capacidade do indivíduo em perceber e
compreender sua vivência no mundo, maior será sua liberdade
de escolha entre as alternativas. O desenho, como forma de
pensamento e expressão da vivência do indivíduo auxilia no
seu desenvolvimento perceptivo e, assim sendo, amplia a
liberdade de escolha.
Fenomenologicamente, chega-se à compreensão do
fenômeno, pelo afastamento do que não é essencial ao
conhecimento, ou seja, pela redução fenomenológica, que
é realizada em três etapas, segundo Milton Vargas:
A primeira redução é de todo o subjetivo: a posição
diante do fenômeno a ser ob-servado e descrito
deve ser inteiramente objetiva; a segunda é a
redução de tudo que é teórico a respeito do dado
feno-menológico, inclusive toda e qualquer for-ma
de saber prévio sobre o fenômeno, de forma que
entre só o dado em ques-tão; a terceira é a redução
de tudo o que a tradição diz a respeito do
fenômeno.
(16)
9
Forghieri coloca, no entanto, a redução em dois momentos,
mas que também, em sua essência, consiste em
colocar entre parênteses, ou fora de ação, os
conhecimentos adquiridos anteriormente sobre a
experiência que está investigando
(17)
Tal procedimento, pela própria intenção do pesquisador,
caracteriza-se pela impossibilidade de redução completa,
segundo M. Ponty.
O maior ensinamento da redução é a impossibilidade
de redução completa. Eis por que Husserl sempre
volta a se interrogar sobre a possibilidade da
redução. Se fôssemos o espírito absoluto, a redução
não seria problemática. Mas porque, ao contrário,
nós estamos no mundo, já que mesmo nossas
reflexões têm lugar no fluxo temporal que elas
procuram captar (porque elas sich einströmen,
como diz Husserl), não existe pensamento que
abarque todo nosso pensamento.
(18)
Forghieri também coloca que
além de se utilizar da redução fenomenológica para
investigar sua própria vivência, o pesquisador dela
se utiliza, também , para estudar a vivência de outras
pessoas.
(19)
Esclarece, citando M. Ponty:
Nada impede que entre as coisas por mim vividas a
reflexão fenomenológica se dirija para o outro, pois
percebo o outro e suas condutas.
(20)
Somos um para o outro colaboradores numa
reciprocidade perfeita; nossas perspectivas
deslizam uma na outra, coexistindo através de um
mesmo mundo.
(21)
Os dois momentos da redução por Forghieri são:
envolvimento existencial, caracterizado pela espontaneidade
onde fluem a percepção intuitiva, os sentimentos e as
sensações; e distanciamento reflexivo, caracterizado pela
compreensão e enunciação da vivência, não em termos
científicos mas em linguagem cotidiana, que Milton Vargas
denomina de exegese. Merleau Ponty coloca:
O real deve ser descrito, não construído ou
constituído.
(22)
Na prática, no entanto, não existe uma nítida separação entre
os dois momentos.
Ela inicia-se com o envolvimento existencial que
consiste no retorno do pesquisador à vivência e
sua penetração na mesma; prossegue com o
distanciamento reflexivo que consiste na reflexão
sobre a vivência e na enunciação de seu significado
para a pessoa que a experencia.
(23)
Forghieri também coloca que é possível ao pesquisador partir
dos enunciados de outros,
decorrentes de reflexões feitas por estes sobre
sua própria vivência.
Neste caso,..., procura penetrar na vivência deste,
para compreendê-los, relaciona-os à sua própria
vivência e a das outras pessoas, reflete sobre tudo
isto e chega às suas próprias enunciações a
respeito do assunto.
(24)
Esta última citação da autora expressa com fidelidade o
processo da pesquisa realizada, na qual arquiteto, aluno e
professor constituem uma única vivência na pessoa da
pesquisadora. Segundo M. Ponty:
Deve-se compreender de todas as maneiras ao
mesmo tempo, tudo tem um sentido, nós
reecontramos sob todos os aspectos a mesma
estrutura de ser. Todas essas visões são
verdadeiras, sob a condição de que não as
isolemos, de que caminhemos até o fundo da
história e encontremos o núcleo único de
significação existencial que se explicita em cada
perspectiva.
(25)
Dos autores analisados, arquitetos como Le Corbusier, com
extensa obra, tanto em textos quanto em desenhos,
professores como Itten, Klee e Kandinsky, se que destacaram
na pesquisa de novos conteúdos e métodos de ensino, e
alunos que tiveram suas dificuldades vivenciadas e refletidas
em desenhos, pôde-se extrair a base para uma reflexão
menos pessoal, presente no volume III. Dois outros trabalhos
foram realizados segundo a mesma ótica: o primeiro derivou
do acompanhamento de uma disciplina de projeto da pós-
graduação e o outro refere-se a entrevistas com os arquitetos
Paulo Mendes da Rocha, Joaquim Guedes e Abraão Sanovicz,
presentes no Volume II, no qual também se encntra uma
reflexão sobre a relação entre o croqui e o projeto de
arquitetura enquanto método.
O volume I conceitua o desenho enquanto processo de
representação e simulação da imagem. Faz também uma
abordagem histórica de seu uso, vendo-o também como
objeto artístico.
10
Notas e referências bibliográficas
01. FORGHIERI, Yolanda Cintrão. Psicologia Fenomeno-
lógica. Fundamentos, Método e Pesquisas. São
Paulo: Pioneira, 1993.
02. BINSWANGER, L. El caso de Ellen West; La escuela de
pensamiento de analisis existencial; El caso de Ilse.
In: MAY, R. (org.) Exintencia. Madri: Gredos, 1967.
Cit. in: FORGHIERI, Y.C., op. cit., p.29
03. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.29
04. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.29
05. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.31
06. POPPER, Karl & ECCLES, John. O cérebro e o pensa-
mento. Campinas:Papirus, 1992
07. POPPER, K. op. cit., p.62
08. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.33
09. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.33
10. ARNHEIM, Rudolf.
Intuição e Intelecto na Arte. São
Paulo: Martins Fontes, 1989. p.14
11. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.32-3
12. MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho:
A educação do educador
..
..
. São Paulo: Loyola, s.d.
p.17
13. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.44
14. COUCHOT, Edmond. Da representação à simulação. In:
PARENTE, André (org.) et al. Imagem - Máquina:
A era das tecnologias do virtual. Rio de Janeiro:
Ed. 34, 1993. p.40.
15. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Per-
cepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994. pp.15-
6.
16. VARGAS, Milton. Metodologia da pesquisa tecno-
lógica
..
..
. Rio de Janeiro: Globo, 1985. p.45.
17. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.59
18. MERLEAU-PONTY, M. op. cit. pp.10-1
19. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.59
20. MERLEAU-PONTY, Maurice. Ciências do homem e
fenomenologia. São Paulo: Saraiva, 1973 p.40. In:
FORGHIERI, Y. op. cit. p.60.
21. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da
Percepção. São Paulo: Freitas Bastos, 1971. p.338.
In: FORGHIERI, Y. op. cit. p.60.
22. MERLEAU-PONTY, Maurice. op. cit.,1994. p.5.
23. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.60
24. FORGHIERI,Y.C., op. cit., p.61
25. MERLEAU-PONTY, Maurice. op. cit.,1994. p.17.
11
De um modo genérico, pode ser definido enquanto
desenhodesenho
desenhodesenho
desenho,
expressão artística individual geralmente adquirida, no caso
do arquiteto, após um longo percurso discente-profissional.
De modo mais específico, como
croquicroqui
croquicroqui
croqui, instrumental de
compreensão, análise, intervenção ou idealização do espaço,
podendo ser considerado como linguagem da arquitetura
segundo Vilanova Artigas
(1)
, ou como metalinguagem segundo
Carlo Maggiora
(2)
, já que para este último a forma construída
é a linguagem. É também linguagem do projeto arquitetônico,
como também do arquiteto. Pode ser definido como o registro
imediato da imagem mental, geradora do projeto. Caracteriza-
se por um desenho expressivo, rápido e espontâneo,
geralmente não instrumental e que interage no processo de
projetar, promovendo um registro imediato da imagem mental
(caracterizada por vezes nesse processo pela instabilidade e
pela indeterminação de detalhes), criando possibilidades de
controle e escolha de alternativas. É, assim, instrumento de
comunicação do arquiteto com ele próprio.
Para Karl Popper
(3)
,
Enquanto o pensamento não for formulado é, mais
ou menos, parte de nós mesmos. Somente quando
formulado em linguagem, ele se torna um objeto
que é diferente de nós mesmos e contra o qual
poderemos adotar uma atitude crítica.
O projeto arquitetônico, para se concretizar enquanto
processo e enquanto produto, passa por várias fases, que
vão da análise do locus, local onde dar-se-á a intervenção, à
proposta finalizada e representada para fins construtivos: do
estudo preliminar ao projeto executivo, passando pelo
anteprojeto, fase esta que se caracteriza pela aprovação do
cliente.
Outras fases, que podem estar ou não inseridas dentro do
processo projetivo propriamente dito, caracterizam-se por
desenhos de apresentação, bem como desenhos evocativos
I. 2. Objeto de estudo
01.Croqui de Oscar Niemeyer.
1940-1942, Pampulha, Belo
Horizonte (MG).
12
realizados para explicar a obra ou o projeto, geralmente
encontrados em peças gráficas editoriais. Tais desenhos não
se caracterizam como objeto de estudo neste trabalho;
somente os desenhos inerentes ao processo projetivo em
sua primeira fase, geralmente denominada como estudo
preliminar. (O que exclui também o desenho técnico de caráter
executivo.)
Numa primeira fase do estudo preliminar, que aqui denominar-
se-á leitura, o arquiteto seleciona (segundo intencionalidade
própria e particular) dados do ambiente e da paisagem, ou
seja ele analisa através do croqui o locus projetivo. A leitura
da paisagem tem aqui uma conotação específica, para fins
de intervenção e modificação do locus. Configura-se
geralmente como desenho de representação da realidade
observada - disegno dal vero segundo Franco Purini
(4)
. No
entanto muitas vezes são utilizadas fotografias, notas verbais
escritas, mapas e esquemas em planta e corte, pesquisas e
entrevistas, como complementação. (É importante ressaltar
que nem todos os arquitetos desenham in loco, ou dão a
importância necessária a esse tipo de desenho).
O croqui, relativo à fase projetiva propriamente dita, na qual
se planeja a intervenção, o discurso do arquiteto, segundo
Paulo Mendes da Rocha
(5)
, caracteriza-se por variadas formas
gráficas - perspectivas (planas e ou isométricas),
configurações diédricas (plantas, cortes, fachadas),
esquemas e símbolos gráficos - cada um com uma
especificidade, mas todos com caráter predominante de
simulação. Purini
(6)
assim os descreve, incluindo o desenho
de observação como parte do discurso:
Al primo posto vanno ricordati i disegni o gli
schizzischizzi
schizzischizzi
schizzi
dal vero”dal vero”
dal vero”dal vero”
dal vero” con i quali l’architetto non solo decifra il
reale ma conferisce ad esso un senso. Seguono
subito dopo i
disegni di classificazionedisegni di classificazione
disegni di classificazionedisegni di classificazione
disegni di classificazione, il cui ruolo
é quello di conferire un ordine accettabile
all’incredibile eterogeneitá degli elementi che
formano il mondo fisico. Accanto a questi occorre
02. Croqui de Oscar Niemeyer.
1978-1979 .O parque e o
centro cívico em uma cidade
histórica: Vicência.
13
collocare i
disegni programmaticidisegni programmatici
disegni programmaticidisegni programmatici
disegni programmatici, vale a dire
tabulazioni, elenchi, istogrammi, con i quali
l’architetto rende visibile e operabile, per tipologie
precise, il proprio universo teorico. Successi-
vamente e d’obbligo chiamare in causa
gli schizzigli schizzi
gli schizzigli schizzi
gli schizzi
di progetto e gli elaborati tecnicidi progetto e gli elaborati tecnici
di progetto e gli elaborati tecnicidi progetto e gli elaborati tecnici
di progetto e gli elaborati tecnici - da quelli che
approfondiscono i vari aspetti della proposta alle
scale opportune, fino alle definizioni esecutive - che
da questi discendono. Va tenuto presente per inciso,
che lo schizzo rappresenta un vero e proprio codice
genetico nella cui struttura e impresso ogni possibile
sviluppo futuro del progetto. Infine, ma si tratta dei
disegni piú importanti, e necessario citare i
“paesaggi teorici”“paesaggi teorici”
“paesaggi teorici”“paesaggi teorici”
“paesaggi teorici”. Sono rappresentazioni
complesse che mettono in scena con gli strumenti
grafici interi sistemi di problemi architettonici.
Svincolati da preoccupazioni progettuali dirette, tali
disegni raggiungono spesso un valore autonomo di
opere d’arte che fanno del contenuto disciplinare
la loro stessa forma. Iconograficamente sapienti,
costruiti con una esatezza tematica e visiva che
traduce nelle bidimensionalità della superfície del
foglio la logica tettonica che é propria dell’edificare,
i paesaggi teorici costituiscono il luogo piú elevato
della ricerca architettonica. Immaginarli e
rappresentarli permette inoltre di non cadere nel
difuso equivoco consistente nello stabilire relazioni
troppo dirette tra disegno e costruizione. L’unico
limite di simili disegni e che pochi architetti li
pensano e li realizzano.(grifo meu)
Interessa-nos particularmente
(7)
o croqui entendido como
instrumento projetivo, perspéctico e não instrumental (a mão-
livre), principalmente aquele no qual as primeiras imagens do
edifício ou da paisagem modificada são transcritas para a
forma gráfica, constituindo-se enquanto figuras, segundo
Vittorio Gregotti
(8)
. Geralmente são desenhos expressivos,
acompanhados de plantas, cortes e também esquemas e
anotações verbais, que podem ser definidos sob os aspectos
simulação e representação, se no caso admitirmos a leitura
do ambiente já como parte do processo projetivo:
Desenho de observação:Desenho de observação:
Desenho de observação:Desenho de observação:
Desenho de observação: tende a ser considerado como
representaçãorepresentação
representaçãorepresentação
representação mimética da realidade visiva; no entanto, no
caso específico do arquiteto, este desenho é uma
leitura leitura
leitura leitura
leitura
desta realidade. Diferente de uma representação analógica
direta, mecânica, como por exemplo a fotografia, manifesta-
se como uma
análiseanálise
análiseanálise
análise e uma
seleçãoseleção
seleçãoseleção
seleção dos aspectos inerentes
ao lugar, enquanto possibilidades projetivas.
Desenho de simulaçãoDesenho de simulação
Desenho de simulaçãoDesenho de simulação
Desenho de simulação: constitui-se conceitualmente por
um desenho no qual a realidade é transformada, recriada ou
totalmente projetada. É o desejo tornando-se virtualidade
concreta. Graficamente inclui as diversas fases do projeto:
da análise prospectiva da paisagem observada, os primeiros
croquis de ideação programática e formal, à concepção
figurativa do edifício.
Notas e referências bibliográficas
01. ARTIGAS, João Vilanova. O desenho. Natal: Nossa Ed.,
1984.
02. MAGGIORA, Carlo. Disegno in architettura come
metalinguaggio
..
..
. Firenze: L.E.F., 1971.
03. POPPER, Karl & ECCLES, John. O cérebro e o Pensa-
mento
..
..
. Campinas: Papirus,1992. p.43
04. PURINI, Franco. Autointervista sul disegno. Domus.
n.763. Settembre 1994.
05. MENDES DA ROCHA, Paulo. Palestra realizada pelo
arquiteto na FAU USP, Pós-Graduação, 16 de maio
de 1995.
06. PURINI, Franco. op. cit.pp.103-4.
07. O interesse particular deste trabalho para com o croqui
perspéctico tem relação com a configuração da
imagem do edifício projetado. (v. Volme I.2.)
08. GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura
..
..
. São
Paulo: Perspectiva, 1994.
O termo
figurafigura
figurafigura
figura, abordado por vezes neste trabalho,
ou outros por ele gerados (figurativos, figurati-
vamente, etc), correspondem ao sentido dado por
Vittorio Gregotti ao aspecto comunicativo que se
tem do edifício arquitetônico, substituindo o termo
formaforma
formaforma
forma por razões de ambigüidade inerente a este .
A palavra forma leva implícita, entre outras, uma
ambigüidade de significado que seria útil evidenciar.
A forma arquitetônica de um fenômeno é, por um
lado, o modo como as partes e os estratos estão
dispostos, mas também o poder de comunicação
daquela disposição. Estes dois aspectos estão
sempre presentes, enquanto não existe objeto sem
forma, esta possui poderes de comunicação
estética dispostos em níveis muito diferenciados.
Poder-se-ia chamar forma ao primeiro aspecto e
figura ao segundo; o valor de figura não se propõe
jamais como valor zero, pois podemos sempre
reconhecer seus vestígios ainda que em níveis
extremamente degradados, É, portanto, a partir da
figura que podemos descobrir o sentido do
fenômeno e reconstruir sua totalidade, a pluralidade
de seus elementos constitutivos, de suas
propostas. pp.27-8
14
Sinteticamente, poder-se-ia colocar como principais objetivos
deste trabalho:
Explicitar como o desenho, mais especificamente
o croqui, é uma forma de compreensão, análise e construção
do espaço arquitetônico, constituindo-se como instrumento
de projeto; e como essa relação pode auxiliar propedeu-
ticamente o aluno no desenvolvimento projetivo.
Elaborar as bases de uma metodologia didática,
aplicável a faculdades de arquitetura para alunos a partir do
primeiro ano, abordando a linguagem do croqui nos moldes
já anteriormente aqui descritos. Não se deve confundir tal
proposta com metodologia de projeto de edificações ou
desenho urbano, já que essas envolvem outras colocações
sobre a questão projetiva do espaço. Apesar da relação
existente e interdependente entre desenho e projeto, não
se pode garantir que um bom desenho (nas especificações
de um croqui eficiente, aquele que se configure de forma
legível com base nos dados anteriormente imaginados e
assim necessários para o desenvolvimento da atividade
projetiva até a elaboração da proposta final) reflita um bom
projeto e vice-versa. A qualidade da arquitetura está além da
capacidade do arquiteto de imaginar e representar formas
arquitetônicas; ela envolve uma capacitação intelectual e de
avaliação crítica, que está vinculada à lógica, estética, ética,
e a outros ramos do conhecimento, que não são pertinentes
a este trabalho.
I.2.1. ObjetivosI.2.1. Objetivos
I.2.1. ObjetivosI.2.1. Objetivos
I.2.1. Objetivos
15
O desenho enquanto linguagem e por isso acessível a todos
(1)
,
pode ser ensinado, entendendo-se ensino como um agente
catalisador da percepção e compreensão do processo de
representação por parte do aluno. Didaticamente, tal
colocação pode ser encarada como um axioma, no sentido
euclidiano, pois é um fato de intuição evidente por si mesmo
(2)
.
Para tanto, a fundamentação de uma metodologia de desenho
(desenho enquanto linguagem da arquitetura) nas teorias da
percepção e da representação da imagem, estrutura o
conhecimento, de forma que se possa ensinar o aluno a
perceber, conhecer, avaliar e intervir no espaço através do
desenho.
Assim, desenhar envolve pensar em imagens visuais.
Qualquer desenho expressa uma imagem visual; mesmo um
gráfico ou um esquema matemático transforma uma idéia
abstrata (não visual) numa relação visual.
Segundo Umberto Eco
(3)
,
um esquema gráfico reproduz as propriedades
relacionais de um esquema mental.
Manfredo Massironi
(4)
coloca sobre o desenho:
De fato, esta técnica essencial e primária, baseada
nos processos da visão, encontra meios e matizes
para se adaptar às mais variadas exigências. Ela
vai desde a ilustração das funções taxonômicas
das ciências da natureza, às descrições expressivas
da ilustração artística; da coordenação dos traçados
na elaboração de um projeto técnico, à explicação
num diagrama do complexo conjunto dos dados
interrelacionados entre si; do porem-se sinais
sistematicamente modificados, que caricaturando
coisas e pessoas os tornam reconhecíveis de um
filtro interpretativo, ao esquematizar-se a realeza
nos brasões, nos ferretes, nos sinais; ao contribuir
I. 3. Desenho e Percepção do espaço
16
para tornar compreensível, porque traçada como
um sinal, a hipótese teórica da interligação das
partículas da matéria; até exprimir, talvez com uma
garatuja, a projecção do mundo afetivo da criança.
Exemplificando, Sérgio Los
(5)
escreve:
Carlo Scarpa resolvia seus problemas
desenhando. No início esforçava-me por
compreender o que às vezes me
pareciam inúteis complicações que a
lógica verbal ou aritmética teriam
resolvido imediatamente. A descoberta
da riqueza propositiva oferecida à
imaginação e à capacidade de resolver
arquitetonicamente problemas não
arquitetônicos, era um acontecimento
intelectual e existencial extraordinário.
Desenhar o espaço é pensá-lo através de imagens visuais; e
projetar, no que se refere às edificações na arquitetura, é
formular intervenções organizadas no espaço, através de
imagens visuais.
Isto implica na compreensão da percepção do espaço segundo
Amos Rapoport
(6)
, que defende a relação do indivíduo com o
meio através das imagens (não só visuais) e no entendimento
da importância da imagem visual através do trabalho de Paul
Schilder
(7)
sobre os aspectos fisiológicos da imagem, no qual
estabelece que toda relação indivíduo - espaço físico se dá
através de imagens visuais, e principalmente com relação à
sua própria imagem corporal.
Isto implica também em estabelecer, que a visão, segundo
alguns autores, é o sentido predominante no homem normal,
principalmente em nossa sociedade. Em primeiro lugar porque
a visão humana é estereoscópica, ou seja o homem tem a
capacidade para enxergar o ambiente através de relevos, o
que se deve ao fato da visão humana ser binocular, auxiliando
03. Croqui de Carlo Scarpa.
Projeto para apartamentos,
Feltre (Bellino), 1949.
17
a ver as coisas nitidamente como corpos tridimensionais. Mas
também sabemos, hoje, que os sentidos humanos não atuam
isoladamente e sim através da sinestesia, ou seja, se inter-
relacionam mutuamente na geração de um produto final. Pode-
se então considerar que a visão sintetiza através da experiência
os demais dados sensoriais em uma imagem visual. Segundo
Paul Schilder
(8)
, isto acontece com a percepção de nosso
próprio corpo; as sensações táteis e de movimento se
condensam em um esquema corporal através de uma imagem
visual. Esta seria uma função inata do sistema perceptivo
humano.
Yi Fu Tuan
(9)
explica por outro aspecto o domínio da visão, que
para ele não é inato, mas determinado pelas necessidades
socioculturais:
Que orgão do sentido seja mais exercitado, varia
com o indivíduo e sua cultura. Na sociedade
moderna, o homem tem que confiar mais e mais
na visão. Para ele, o espaço é limitado e estático,
um quadro ou matriz para os objetos. Sem objetos
e sem fronteiras o espaço é vazio. É vazio porque
não há nada para ver, embora possa estar cheio
de vento. Para os esquimós, o espaço não é
pictórico ou fechado, mas algo sempre em
movimento, criando suas próprias dimensões de
momento a momento.
Para J. Gibson
(10)
, no entanto, para se perceber o espaço é
necessário captá-lo hapticamente, ou seja, através do tato.
É necessário sentir o espaço, ter contato físico, proximidade.
04.(à esq.) Croqui de Carlo
Scarpa. Tumba Brion, San Vito
d’Alti-vole (Treviso). 1969.
05. (sup.) Croqui de Carlo
Scarpa. Projeto para o teatro de
Vicenza, concurso, 1968-69.
18
Sem este primeiro conhecimento , não se tem uma verdadeira
imagem, não se pode produzir uma imagem visual multi-
sensorial completa.
Sendo inato ou não, ou se depende de outros fatores, o fato
é que o predomínio da visão no processo de formação das
imagens é determinante, e por isso elas se tornam
preponderantemente imagens visuais. A imagem que temos
do espaço em que estamos inseridos é uma imagem visual,
composta também de aromas, sabores, temperaturas e sons;
e quando nós, arquitetos, pensamos em intervir neste espaço,
o fazemos através de imagens visuais.
A transformação de uma imagem visual mental em uma
imagem representada, no caso o desenho do espaço, de
maneira que se tenha uma relação de correspondência e de
semelhança entre as duas, só acontece através de um
adequado desenvolvimento perceptivo do espaço, ou seja do
processo de formação de imagens visuais.
Isto decorre, como explica Élide Monzéglio
(11)
, porque
a ação de ver e a ação de interpretar são duas ações
coordenadas que sempre se conjugam completando
o ato perceptivo e encaminhando para o ato
comunicativo. Na comunicação humana a co-
existência das duas ações é parte de sua própria
estrutura, e perguntamo-nos então qual a diferença
entre o que é percebido e o que é comunicado e
por conseqüência, entre o ato perceptivo e o ato
comunicativo.
Segundo James Gibson
(12)
:
uma interpretação seria considerar que existem dois
tempos, um para se aprender e outro para ser
tornado cientes de alguma coisa. No primeiro caso
algo é percebido e no segundo algo é informado.
Se, no entanto, o espaço não for percebido adequadamente
(e isto inclui percebê-lo nas suas relações físico-fisiológicas:
posições, direções, distâncias, grandezas, movimentos,
formas, assim como a luz e as cores) não poderá ser re-
presentado de forma semelhante.
O desenho, enquanto imagem mental representada, torna-
se um elemento de comunicação, no caso do espaço
percebido e interpretado pelo indivíduo.
Enquanto elemento de comunicação, pressupõe-se que
apresente linguagem própria e uma conseqüente sintaxe
visual. Por sintaxe visual entende-se uma série de relações
entre os elementos básicos da composição visual, o que
inclui as ilusões óticas, os efeitos de contrastes entre formas
06. Desenho de Gionanni B.
Piranesi.
19
e cores, as tensões e equilíbrios entre as massas, as questões
de escala e proporção.
Vale ressaltar que, segundo o Prof. Dr. Luiz Lima
(13)
:
A língua falada e a linguagem visual são fenômenos
informacionais de natureza diversa.
Segundo Donis A. Dondis
(14)
, o modo visual se constitui em
um corpo de dados que como linguagem pode ser utilizado
para compor e compreender mensagens situadas em níveis
muito distintos de utilidade, desde a puramente funcional às
elevadas regiões da exploração artística. É um corpo de dados
composto de partes constituintes e de um grupo de unidades
determinadas por outras unidades, cujo significado em
conjunto é uma função dos significados das partes.
Isto implica em considerar que todo desenho do espaço, assim
como a percepção deste espaço, dá-se através de um todo
organizado, o que nos leva a estruturar parte deste trabalho
na Teoria da Gestalt.
Segundo M. D. Vernon
(15)
, para
os psicólogos gestaltistas, Wertheimer, Koehler e
Koffka, a percepção do ambiente se baseia
fundamentalmente na percepção de forma. O
ambiente completamente homogêneo não pode ser
percebido, parece vago, indefinido, sem localização
no espaço. A percepção só ocorre na medida em
que surge alguma forma ou padrão, e na medida
em que são discriminados em virtude do contorno
que os separa de seu fundo. Essa é a experiência
conhecida como experiência de figura-fundo,
fundamental para toda percepção.
Assim, pode-se dizer que a percepção é um todo onde as
partes se relacionam de maneira interdependente e
organizada. Em suma, toda imagem visual tem uma estrutura
que pode ser decodificada e analisada, e que a percepção
humana está vinculada a esta estrutura, de forma que
existem certas tendências para organizar a imagem
percebida segundo alguns parâmetros.
Ainda, segundo Vernon
(16)
,
parece haver um mecanismo visual de primeira
ordem que abrange os olhos, os nervos ópticos,
os corpos geniculados laterais e o córtex estriado,
constituídos inatamente de tal forma que medeiam
a descriminação de brilho, cor, movimento e forma
simples, independentemente de qualquer
aprendizagem através da experiência. Apesar
disso, a partir da infância tais funções são cada
vez mais subordinadas a processos cognitivos de
ordem mais elevada que ocorrem em outros níveis
do córtex, e interagem com funções de excitação
da formação reticular, do tronco cerebral e do
tálamo. Portanto, a forma simples e a percepção
do movimento são integradas e suplementadas
por processos de identificação, classificação e
codificação através da operação de esquemas
perceptivos que, em grande parte, dependem de
aprendizagem, memória, atenção, raciocínio e
linguagem. Indiscutivelmente os processos
perceptivos simples continuam a atuar, e na
realidade apresentam dados sensoriais de que
depende a operação dos processos mais
complexos.
Assim, fora as interferências socioculturais, a percepção
primária (captação sensorial) do espaço se dá de forma
semelhante nos seres humanos, assim como a fase seguinte,
a cognição, se dá, segundo Jean Piaget
(17)
, também através
de esquemas cognitivos comuns.
Portanto, o desenho do espaço, enquanto linguagem e
enquanto comunicação, pode ser estruturado e interpretado
07. Croquis de Leonardo Da
Vinci.
20
segundo certas normas compartilhadas pela maioria das
pessoas.
No entanto, estudar a sintaxe visual, sem vínculo com o
espaço, leva a um desenho descomprometido com a realidade
do espaço arquitetônico e a trabalhar o desenho de forma
subjetiva (por exemplo, quando se faz uma análise estética
da composição dos elementos visuais de uma pintura
abstrata).
Existe outra questão que também pode ser inserida dentro
do problema da sintaxe visual: a representação da imagem
através da arte e da arquitetura. Estudar como o homem
aprendeu a representar pictoricamente a realidade física
através dos tempos nos leva a compreender como a percebia.
Assim, pode-se verificar que as imagens evoluem na sua
configuração, porque a percepção do homem também evolui.
Mas o fundamental é que o estudo desse desenvolvimento
pictórico é a maneira mais adequada para se aprender a
desenvolver as técnicas que fazem com que uma imagem,
desenho ou pintura, tenha equivalência com o modelo
representado. Seria por assim dizer preparar o aluno para o
uso do instrumental de ordem gráfica, exercitar suas
habilidades, associar e fixar idéia e estrutura gráfica, através
do estudo do trabalho de outros e da prática resultante desses
estudos.
E. Gombrich
(18)
escreve:
Todas as pinturas, como disse Wölfflin, devem mais
a outras pinturas do que à observação direta.
Mas ressalva:
mas isso (ver a natureza através da ótica de outras
pinturas) é verdade, não somos levados então àquilo
que os filósofos chamam de infinito retrocesso, a
explicação de uma coisa em termos de outra
anterior, a qual, por sua vez, exige o mesmo tipo
de explicação?
Esta colocação vem confirmar a importância dada à
percepção direta do espaço. Assim, deve-se salientar que
uma metodologia de desenho para arquitetos deve estar
vinculada também a uma análise da problemática da
representação da imagem, a fim de fornecer enriquecimento
visual, abordando um desenho ou uma pintura enquanto
modelo a ser analisado, mas nunca copiado, pois isto levaria
a um retrocesso ao academismo.
Existe uma condição básica para que as colocações
anteriores se realizem. Refere-se à questão da práxis do
desenho, enquanto prática e enquanto análise crítica, tanto
na percepção e confecção do desenho, como na sua
interpretação a posteriori. O desenho só pode ser aprendido
através da prática constante e só evolui através da análise
crítica comparativa.
Notas e referências bibliográficas
01. ARTIGAS, João Vilanova. O Desenho
..
..
. Natal: Nossa
Editora, 1984.p.15
02. ARNHEIM, Rudolf. Intuição e Intelecto na Arte
. .
. .
. São
Paulo: Martins Fontes, 1989. p.24.
03. ECO, Umberto. A estrutura Ausente. São Paulo:
Perspectiva. 1974.
04. MASSIRONI, Manfredo. Ver pelo desenho
..
..
. São Paulo:
Martins Fontes, s/d. p.17.
05. LOS, Sérgio. Prefácio In: MASSIRONI, Manfredo. Ver
pelo desenho
..
..
. São Paulo: Martins Fontes, s/d.
p.10
06. RAPOPORT, Amos. Aspectos humanos de la forma
urbana
..
..
. Barcelona: Gustavo Gili, 1977.
07. SCHILDER, Paul.
A imagem do corpo. As energias
construtivas da Psique. São Paulo: Martins
Fontes, 1980.
08. SCHILDER, Paul. op. cit.
09. TUAN, Yi Fu. Topofilia. São Paulo: Difel, 1980.p.
10. GIBSON, James J.
La percepcion del mundo visual
..
..
.
Buenos Ayres: Infinito, 1974.
11. MONZEGLIO, Élide. Apontamentos didáticos para a
disciplina AUP-725
..
..
. FAUUSP,1978, 1979, 1980.
Pós Graduação.
12.GIBSON, James J. La percepcion del mundo visual
..
..
.
Buenos Ayres: Infinito, 1974. cit. in: MONZEGLIO,
Élide. op.cit.
13. LIMA, Luiz Gastão de Castro. Comunicação e metodolo-
gia para o ensino de desenho
..
..
. FAU USP, 1972,
Tese de Doutorado. .
14. DONDIS, Donis A.. La sintaxis de la imagen
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..
. Barcelona:
Editorial Gustavo Gili, 1986.p.
15. VERNON, M. D.. Percepção e Experiência. São Paulo:
Perspectiva, 1974. p.33
16. VERNON, M. D..op. cit.p.3
17. PIAGET, Jean.
A epistemologia genética
..
..
. Coleção Os
Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
18.GOMBRICH, Ernest H.
Arte e Ilusão. Um estudo da
psicologia da representação pictórica
..
..
. São
Paulo: Martins Fontes Editora, 1986.
21
Em relação a projeto de arquitetura, trabalha-se com um
espaço ainda inexistente, mas real enquanto imagem mental.
Isto implica não só em perceber o espaço e representá-lo de
forma fiel, mas compreender suas relações e memorizá-las
para que sejam elementos básicos para futuros projetos.
Segundo Karl Popper
(1)
,
a compreensão é um processo ativo.
Para ele, o processo de compreender e o processo de
produção real das idéias são muito parecidos.
Ambos são processos de criar e comparar.
Ainda segundo Popper
(2)
, a memória, essencialmente
fisiológica e baseada no cérebro, é um dos pré-requisitos da
consciência. Além disso, para o autor, todas as percepções
estão colocadas dentro de nossa experiência consciente.
Assim para ter consciência é necessário memória. Os
produtos perceptivos, por exigirem estado consciente, são
alimentados ou influenciados pela mesma, mas também a
alimentam, fornecendo sempre novos produtos, entre eles
as imagens visuais.
Logo, podemos associar percepção, compreensão e memória
à consciência. Perceber e compreender implicam em estar
consciente e estar consciente implica em utilizar-se da
memória. A memória é o elo de ligação entre os produtos da
consciência. Sem memória não há consciência.
Mas, se analisarmos a imagem segundo as colocações de J.
P. Sartre
(3)
,
Não há, não poderia haver imagens na consciência.
Mas a imagem é um certo tipo de consciência. A
imagem é um ato e não uma coisa. A imagem é
consciência de alguma coisa.
II
II
I.3.1. Desenho enquanto representação do
espaço
08. Desenho de Frank Lloyd
Wright. Casa da cascata, 1936.
podemos admitir, considerando como válidas as colocações
de Popper, que é a memória que transforma a imagem em
ato de consciência de um objeto.
Para Minoru Naruto
(4)
, segundo os estudos de Husserl, mais
tarde complementados por Sartre , pode-se distinguir dois
tipos de consciência, uma perceptiva, a que percebe, que
detém a consciência dos dados reais e outra imaginativa,
que imagina, cria e recria.
Logo, se imagem é consciência, pode também ser distinguida
por essas duas categorias.
As duas consciências, no entanto, interagem e se
complementam, o que caracteriza o processo de produção
de novas imagens, genericamente conhecido como
imaginação e o seu produto como imaginário.
Segundo Karl Popper
(5)
, o começo da imaginação (atividade
mental exclusivamente humana) deve-se certamente à
origem da linguagem e da mentira; esta última explicita o
caráter ilusionista e irreal da imaginação.
Reportando-nos às colocações anteriores sobre a memória
e sobre a imagem, lembrar-nos-emos de um estágio de
consciência intermediário. Aquele que tenta, pelos dados da
memória, recompor o que já foi vivido como uma situação
real, esta última é, no seu conjunto, reestruturada pela
imaginação.
Poder-se-ia considerá-lo como um estágio intermediário. Este
tipo de consciência (nem de todo perceptiva, nem de todo
imaginativa) é, na essência, responsável pela boa con-
formidade do espaço projetado com relação às experiências
sensoriais do arquiteto. Exemplificando, o arquiteto, ao
perceber um espaço que lhe agrade ou não em suas relações
de forma, dimensão, luz, etc, as memoriza e as utilizará ou
não, segundo seus critérios, ao projetar um novo espaço.
22
Como vimos, para A. Rapoport a imagem é produto, mas
segundo Sartre, imagem é consciência, mas para J. Piaget é
também ação:
A imagem não constitui um simples prolongamento
da percepção, mas ela comporta um elemento
motor.(...)Em suma, a imagem e o aspecto figu-
rativo do pensamento derivam das atividades
sensório-motoras assim como do aspecto ope-
rativo do pensamento e as operações mesmas.
(6)
Objetivando a representação, imagem é a interação dos três
conceitos. Enquanto processo de produção, necessita da
memória e da criatividade,esta última definida segundo as
colocações de A. Moles
(7)
:
é a aptidão de criar ao mesmo tempo o problema
e sua solução, em todo caso a de cerrar formas
constituídas de elementos disparatados,
fragmentos de pensamento, átomos de raciocínio,
que denominaremos: semantemas. Aqui reto-
mamos o quadro da teoria da Informação definindo
a Criatividade como: a aptidão particular do espírito
no sentido de rearranjar os elementos do “Campo
de Consciência” de um modo original e suscetível
de permitir operações em um “campo fenomenal”
qualquer.
Não se pode esquecer, no entanto, o caráter de instabilidade
e mobilidade da imagem mental. Para Sartre isto se deve por
ser a imagem ato de consciência de algo e não uma coisa.
Mas segundo Karl Popper
(8)
, experimentamos nossas idéias,
imagens e pensamentos, ou seja os produtos da mente
humana como coisas,
nós os experimentamos, mais ou menos, como
se fossem coisas materiais.
porque
as coisas são nossa metáfora-padrão para algo que
tenha duração.
Ao tentarmos resolver os problemas,
durante estas tentativas, existe alguma coisa que
consideramos como sendo um objeto de
pensamento. E este objeto, o problema que
estudamos, tem que ser experimentado como
durável no tempo, como uma coisa material.
Segundo o autor, isto é o que se chama de hipostasiação.
Temos que hipostasiar todas nossas idéias
abstratas porque, caso contrário, não poderemos
voltar a elas com freqüência, sendo que nós
necessitamos daquela espécie de duração no
tempo.
Nesta linha de raciocínio pode-se encarar esta coisificação
da imagem mental como uma pré-representação, um estágio
intermediário entre o que está na mente humana e aquilo
que a atividade motora registrará no papel. Esta é a chave
para se compreender os problemas que envolvem a
representação, entendendo-a no sentido latino do vocábulo,
como define Minoru Naruto
(9)
: repraesentare, tornar presente,
por diante dos olhos; de praesens, praesentis - presente, no
tempo e no espaço, imediato e que está à vista. Ainda,
segundo o autor
(10)
, pode-se definir representação como
o processo através do qual a imaginação, fluida e
móvel, se condensa, se fixa e se completa, de
maneira gradativa e interagindo com a razão.
A representação tem, assim, por característica e finalidade a
imobilização da imagem mental e sua transposição para um
meio material.
Parte dos problemas relativos à dificuldade da representação
da imagem são de natureza própria deste processo, enquanto
parte imobilizadora da atividade imaginativa e não de ordem
técnica ou material, enquanto resultado.
Segundo pesquisa realizada com grupo de arquitetos (v.
Volume II), verificou-se que apesar de alguns desses não
apresentarem boa qualidade gráfica, ao imaginar o edifício, o
faziam nitidamente, em imagem tridimensional (quadrimen-
sional às vezes, pois alguns relataram que podiam se mover
nos espaços imaginados) e colorida, como se a tivessem
observado na realidade.
Entretanto, representação implica em escolha objetiva, no
que se refere a projeto de arquitetura. Se considerarmos que
a razão é, assim como outros atributos da mente humana,
condicionada por uma aprendizagem e que se desenvolve
segundo padrões socioculturais, então pode-se colocar que
com a representação, dá-se o mesmo.
O condicionamento da representação das imagens espaciais
se dá enquanto processo e enquanto resultado, em parte
pela teoria da perspectiva plana ou linear, através do sistema
de educação escolarizado atual.
Para Andre Barre
(11)
, toda e qualquer perspectiva é um modo
de transformação e um sistema de ordenamento da realidade
percebida. Para G. M. Zuccotti
(12)
, é um tipo de projeção, é
uma disciplina que permite racionalizar a visão humana.
Segundo a autor, conhecer a linguagem da perspectiva para
o futuro arquiteto, significa também aprender a ver a
arquitetura; a perspectiva não é apenas um instrumento
técnico de representação da forma, mas um método de
pesquisa, já durante a fase de criação, para traduzir em forma
visual a idéia e ao fim verificar sua validade.
Segundo E. Panofsky
(13)
, na Antiguidade clássica deveria ser
óbvia a visão do mundo real através de curvaturas próprias
de um tipo de perspectiva curvilínea, já que se atribuía ao
campo visivo uma configuração esférica. Nos escritos antigos
23
de teóricos de arte, segundo o autor, são comuns as
observações sobre retas que são percebidas como curvas e
curvas percebidas como retas. Tais curvas ilusórias eram tão
perceptivamente nítidas que levaram à procura de soluções
arquitetônicas que as eliminassem oticamente.
Zuccotti
(14)
acrescenta que já mesmo Kepler acreditava que
apenas a educação, a aprendizagem da visão do mundo, sob
a ótica da perspectiva plana, fosse responsável pelo fato de
se renegar essas aparentes curvaturas.
Tal educação e, por assim dizer cultura da percepção plana
do mundo, tem seu início no Renascimento. A substituição
do campo visivo esférico por um plano transparente
imaginário, sobre o qual se projetassem os raios visivos, foi a
grande mudança conceitual. Este plano imaginário, para os
pintores, torna-se a tela.
Assim escreve L. B. Alberti
(15)
no século XV:
Os pintores devem saber que com suas linhas
circunscrevem as superfícies. Quando enchem de
cores os lugares circunscritos, nada mais procuram
que representar nessa superfície as formas das
coisas vistas, como se essa superfície fosse de
vidro translúcido e atravessasse a pirâmide visual
a uma certa distância, com determinadas luzes e
determinada posição de centro no espaço e nos
seus lugares.
09. Croquis de Leonardo Da
Vinci. Plantas e detalhes de
igrejas.
E continua mais adiante,
Não será, pois, a pintura outra coisa que a
intersecção da pirâmide visual representada com
arte por linhas e cores numa dada superfície, de
acordo com uma certa distância e posição do
centro e o estabelecimento de luzes.
O engano da civilização ocidental moderna foi admitir que a
imagem percebida pela visão humana coincidisse com a
imagem projetada em um plano, esquecendo que nossa retina
possui uma configuração côncava. Zuccotti
(16)
explica que a
construção em perspectiva difere radicalmente da estrutura
do espaço psicofisiológico; sua finalidade é propriamente
aquela de transformar o espaço perceptivo em espaço
matemático e isto é uma abstração, mas que permite analisar
o espaço de modo imediato e direto.
A perspectiva influenciou não só a percepção do mundo real,
do seu espaço físico tridimensional, mas também o
imaginário, a consciência imaginativa em relação a este
mundo. Projetos de arquitetura começaram a ser realizados
a partir das regras da perspectiva, transpondo, para o espaço
real, imagens de um espaço imaginário reto, imóvel, e com
pontos de observação precisos. Um dos primeiros exemplos
é uma obra realizada por Bramante
(17)
, arquiteto do século
XV, na qual a nave da igreja “Santa Maria presso S. Satiro”
foi ilusoriamente ampliada em suas dimensões de
profundidade, integrando arquitetura, pintura e plástica,
utilizando-se de recursos da perspectiva.
A arquitetura moderna, com sua perspectiva exata e precisa,
seus espaços matematicamente organizados, principalmente
segundo uma visão de perspectiva aérea, distanciando ainda
mais a percepção do observador da concepção do espaço,
apenas se diferencia pela riqueza de pontos em que se pode
obter a sensação de profundidade; ilusoriamente gerando a
idéia de que o espaço foi projetado como quadrimensional,
ou seja, levando em conta a movimentação do observador
24
pelo espaço, o que implica no conceito de espaço temporal
e não estático na arquitetura.
Ainda hoje, apesar dos estudos realizados sobre a imagem
retiniana, que tentam valorizar os aspectos de uma realidade
perceptiva curva, nossa percepção, imaginação e
representação do espaço tridimensional, é condicionada pelas
regras da perspectiva plana. De certa maneira a aprendizagem
da perspectiva, nos moldes em que é realizada, inibe o
desenvolvimento perceptivo “primitivo” do espaço,
promovendo a concepção de espaços racionalizados,
distantes de uma adaptação sensorial humana.
Mas o problema maior da imaginação do espaço
(configuração do edifício) não está diretamente relacionado
com a perspectiva plana; esta, aliás, ainda se mostra como
técnica mais apropriada para representação gráfica
bidimensional de uma espaço tridimensional, na qual se quer
destacar as sensações visuais percebidas pelo observador,
usuário do espaço. O problema está na relação da perspectiva
com os outros tipos de desenho: diédricos e perspectiva
isométrica.
O espaço de arquitetura, denominado por Zuccotti
(18)
como
ambiente cultural, não pode se basear no comprometimento
de satisfazer as exigências sensíveis do espírito humano, se
estiver comprometido mais com uma concepção de espaço,
originada da razão e da pesquisa científico-matemática, do
que com uma concepção de espaço psicofisiológico humano.
A questão relevante é a de se rever a aprendizagem e os
métodos de desenho na Arquitetura.
Notas e referências bibliográficas
01. POPPER, Karl R. & ECCLES, John C. O cérebro e o Pen-
samento. Campinas: Papirus, 1992. p.56.
02. POPPER, Karl R. & ECCLES, John C..op. cit. p.81
03. SARTRE, Jean-Paul - A imaginação. Col. Os Pensadores.
São Paulo: Abril,1984. p.107.
04. NARUTO, Minoru. Imagem e projeto. FAU USP, 1988,
Dissertação de Mestrado. pp.61-2.
05. POPPER, Karl R. & ECCLES, John C.op. cit. p.63
06. PIAGET, Jean. A epistemologia genética. Os Pen-
sadores São Paulo: Abril, 1983. p.251.
07. MOLES, Abraham A. A criação científica. São Paulo:
Perspectiva, 1971. p.59.
08. POPPER, Karl R. & ECCLES, John C.op. cit. p.57.
09. NARUTO, Minoru.op. cit. p. 100.
10. NARUTO, Minoru.op. cit. p. 104
11. BARRE, Andre y FLOCON, Albert. La Perspectiva Cur-
vilinea. Del espacio visual a la imagen cons-
truida. Barcelona: Flammarion, 1968. p.17
12. ZUCCOTTI, Giovanna Maria. La Prospettiva. Firenze:
Alinea, 1986. p.17
13.PANOFSKY, Erwin.La perspectiva como “forma sim-
bolica”. Barcelona: Tusquets,1985. p.23.
14. ZUCCOTTI, Giovanna Maria. La Prospettiva come me-
diazione tra lo spazio della realtà e lo spazio
matematico. Torino: C.E.L.I.D., 1983. p.22
15. ALBERTI, Leon Battista. Da Pintura. Campinas: UNI-
CAMP, 1992. pp.82-3
16. ZUCCOTTI, Giovanna Maria. La Prospettiva come me-
diazione tra lo spazio della realtà e lo spazio
matematico. op. cit.p.17.
17. COMITATO NAZIONALE PER LE CELEBRAZIONE
BRAMANTESCHE. Bramante: Tra umanesimo e
maneirismo. Roma: Mostra storico-critica, 1970.
18. ZUCCOTTI, Giovanna Maria. La Prospettiva. op. cit. p.17
O desenho, entendido como croqui, está intimamente
relacionado com o processo projetivo em arquitetura e não
pode ser dele totalmente desvinculado para finalidade de
ensino, ou seja, determinadas características do processo
de projeto condicionam o processo de desenho (v. Volume
I.5.)
Da mesma forma, o croqui, enquanto instrumento, determina
ou condiciona o processo projetivo, pois a maturidade ou o
domínio do desenho por parte do arquiteto está em parte
relacionado com o domínio do espaço, em suas caracte-
rísticas sensíveis e perceptivas.
Assim, um curso de desenho específico para arquitetura deve
se basear no caráter de transcendência do desenho. Os
exercícios devem sempre ter uma finalidade além do registro
gráfico, devendo também estar associados a conceitos de
espaço arquitetônico (v. Volume III).
O croqui também é expressão particular e requer domínio
mínimo de técnicas gráficas e sintaxe visual, como também
instrumentação técnico-científica para representação do
espaço tridimensional, a perspectiva. Nesses termos, o
processo de ensino-aprendizagem do desenho em arquitetura
envolve instrumentar a mente, para poder imaginar, criar,
elaborar respostas espaciais e concomitantemente
representá-las graficamente de forma expressiva e
comunicativa, enquanto linguagem.
A imagem do edifício, mesmo que ainda embrionária, surge
imediatamente à definição do uso do espaço, antes mesmo
do desenvolvimento particularizado do programa. Ao se
estabelecer o projeto para um cinema, por exemplo, já se
possui de início, um conceito de cinema, que para o arquiteto
é sempre um conceito de espaço. Tal conceito, muitas vezes
apresentado apenas em esquemas e gráficos de forma
bidimensional, análises de possibilidades espaciais frente às
necessidades e não ainda estudos em planta, já traz consigo
um embrião da imagem a ser perseguida ou negada no
25
I.3.2. A didática do desenho em arquitetura
enquanto simulação do espaço
10. Croquis de Erich Men-
delsohn.Torre Einstein, 1920.
desenvolvimento do projeto, ou seja, traz consigo uma
estrutura espacial básica, cuja qualidade em imagem implica
em memória, capacidade imaginativa e conhecimento
adquirido pela experiência de projeto (incluindo aqui também
a construção, a materialização do projeto).
Na realidade enquanto a metodologia clássica de projeto parte
da análise para a síntese (das necessidades à concepção do
programa e à formulação espacial), o arquiteto, na prática,
trabalha de maneira inversa: de uma síntese figurativa
preliminar num primeiro momento, passando à análise
programática e técnica e retornando então novamente à
síntese na qual todos os dados preliminares se encontram
articulados em uma solução espacial.
26
11. Croqui de Le Corbusier.
Chandigarh, 1952-57.
Essa capacidade varia de acordo com a vivência profissional
do arquiteto. Arquitetos inexperientes, ao se fixarem na idéia
da síntese criativa, geralmente elaboram soluções formalistas,
de conteúdo estético e técnico duvidoso, pois confiam em
uma primeira imagem que não foi eficientemente analisada,
dissecada e novamente sintetizada. Pode-se dizer que
arquitetos como Carlo Scarpa, embora analisassem
graficamente todos os pormenores pertinentes ao projeto,
podiam prever de antemão qual forma ou figura seria
condizente com determinadas necessidades de espaço.
A identificação desta imagem - figura, pertinente ao processo
preliminar de projeto em arquitetura, e sua qualificação
enquanto desenho, permite formular exercícios que
instrumentem o aluno a pensar o espaço, a projetar pelo
desenho, atingindo com maior rapidez um estágio satisfatório
de desenvolvimento projetual. Identificação e qualificação im-
plicam em investigar quais as características pertinentes,
tornam a imagem simulação da realidade. Isto implica tam-
bém, fenomenologicamente, em não isolar o desenho do
processo de projeto e do arquiteto que o constrói. O fenômeno
imagem deve ser compreendido na sua totalidade existencial.
O desenho do arquiteto tem características próprias que não
são pertinentes ao processo gráfico, apesar de expressas
nele. O desenho é um instrumento, estritamente vinculado à
concepção espacial, ao projeto. Vale lembrar que este último
é um processo mental, antes de ser gráfico. Assim, conclui-
se que o aluno que domine com destreza técnicas e processos
gráficos, nos primeiros anos da faculdade geralmente não
está ainda capacitado e instrumentado para desenvolver
projeto de arquitetura, o que só se tornará viável pela
integração do desenho com determinadas características
básicas de projetação arquitetônica.
27
O desenho de projeto tem relação com a intencionalidade -
no sentido fenomenológico, ou seja, a intencionalidade ope-
rante de Husserl - do arquiteto ao projetar. A querela entre
planta, corte, fachada, perspectiva e modelo se revela como
essência de uma outra que envolve arte e construtibilidade.
Investigando-se a relação entre a arquitetura do século XX,
moderna e pós-moderna, particularmente entre métodos
pelos quais são geradas, do racionalismo da modernidade
ao apriorismo de certas correntes da atualidade, pode-se
demonstrar que tais métodos pressupõem visões de
arquitetura diferentes, portanto intencionalidades diversas por
parte dos arquitetos e conseqüentes tipos de desenho
diferentes para realizá-la.
Em outubro de 1995 foi organizada pelos professores da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de
São Paulo, campus de São Carlos, uma exposição intitulada
Os desenhos da arquitetura (The drawings of architecture)
(01)
, cujo objetivo principal estava em difundir para o público
leigo os diversos tipos de desenhos empregados na
elaboração de um projeto de arquitetura. Constavam desta
exposição projetos de arquitetos renomados, entre os quais
destacam-se Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha,
Joaquim Guedes, Ruy Othake e outros, expostos em
categorias diversas: croquis, desenhos de apresentação,
projetos e detalhes executivos, além de desenhos evocativos
para publicação. No entanto, deve-se aqui fazer uma ressalva,
pois era de se esperar que constassem também os desenhos
digitais ou concebidos infograficamente, já amplamente
disseminados no mercado.
(02)
O catálogo que acompanhava a exposição trazia, no entanto,
explanações mais cuidadosas sobre o tema, com ensaios
dedicados exclusivamente à questão do desenho e da relação
deste com a criação, com o ato projetual. Destaca-se uma
colocação de Renato Sobral Anelli, curador da exposição, a
respeito de uma suposta relação de identidade entre a
arquitetura moderna e o desenho de caráter executivo, que
I.4. Os desenhos da arquitetura
28
por norma é realizado em sistema diédrico ou projetivo e em
arquitetura se compõe de planta, corte e fachada.
A importância deste conjunto de desenhos
executivos não se limita ao rigor na definição e
representação dos detalhes construtivos.
Demonstram que a espacialidade da arquitetura
moderna pode ser representada eficientemente
através de projeções ortogonais. Tornam-se até
mesmo dispensáveis as perspectivas cenográficas
para a compreensão dos conceitos espaciais
agenciados nestes projetos.
(03)
Este discurso propicia ver, entre a estética modernista e o
desenho utilizado para representá-la, uma relação de
identidade e de reciprocidade, que não é totalmente eficaz
para quem se propõe a estudar o desenho como instrumento
de projeto. Certamente a arquitetura moderna, caraterizada
por volumes simples e linhas retas, pode ser compreendida
em projeto sem o auxílio de perspectivas que configurem
tridimensionalmente o espaço; mesmo um leigo, em
determinados casos, poderia ler os desenhos e apreender o
espaço por estes representado.
A identidade da arquitetura moderna com este tipo de
desenho, como tentar-se-á demonstrar não é de caráter
estético, mas metodológico ou seja a maneira pela qual o
projeto é abordado pelo arquiteto, mais especificamente com
as intenções primordiais deste: figurativa
(04)
, se as formações
acadêmica e experiencial do projetista forem de caráter
predominantemente artístico, e construtiva, se de formação
predominantemente técnica.
Poder-se-ia dizer que todo método se caracteriza por uma
determinada técnica no sentido conceitual de técne, ou seja
saber-fazer. No entanto, a técnica moderna, surgida conco-
mitantemente com o aparecimento da ciência moderna, é
assessorada por uma nova disciplina, a tecnologia. Segundo
Milton Vargas
(05)
, esta última
é definida como o estudo científico dos materiais,
utilizados pela técnica, e dos processos de cons-
trução, fabricação e organização.
(06)
O método de projeto no âmbito da arquitetura é ao mesmo
tempo de caráter técnico e tecnológico, tanto em relação ao
objeto projetado, quanto ao método propriamente dito. Este
último é, no entanto, a estrutura pela qual a inteligência
cognitiva opera, como relaciona os dados e elabora soluções.
Sem isso, não se faria projeto, mas apenas uma criação
espontânea.
Em uma publicação recente, Pierre Lévy
(07)
, faz uma
explanação sobre as tecnologias da inteligência e o futuro
das mesmas com a informática. Explica que procurou
mostrar a quantidade de coisas e técnicas que
habitam o inconsciente intelectual.
(08)
Para Lévy,
As tecnologias intelectuais desempenham um
papel fundamental nos processos cognitivos,
mesmo nos mais cotidianos; para perceber isto,
basta pensar no lugar ocupado pela escrita nas
sociedades desenvolvidas contemporâneas. Estas
tecnologias estruturam profundamente nosso uso
das faculdades de percepção, de manipulação e
de imaginação. Por exemplo, nossa percepção da
cidade onde vivemos muda dependendo se
costumamos ou não consultar seus mapas. Muitas
vezes, os métodos para resolver certos problemas
são incorporados nos sistemas de representações
que a cultura nos oferece, como é o caso, por
exemplo, na notação matemática ou nos mapas
geográficos.
(09)
Em arquitetura o desenho é o meio pelo qual o método de
projeto se desenvolve. O desenho (mental - enquanto
12. Croquis de observação ”in
loco”de Le Corbusier.
29
imaginação formal - ou gráfico - representação desta última)
é a técnica pela qual a inteligência cognitiva do arquiteto
opera. É geralmente através do registro gráfico que o arquiteto
se expressa, ao mesmo tempo que analisa dados e propõe
soluções espaciais. Nesta fase, ao mesmo tempo
organizacional e criativa, vários são os tipos de desenhos
utilizados. Cada qual com uma especificidade diferente, tais
desenhos podem ser caracterizados como croquis,
geralmente feitos a mão-livre, abordando a representação
do locus original a ser trabalhado, esquemas de organização
de dados por gráficos, planilhas, associados a plantas, cortes,
fachadas e perspectivas. Muitos ainda se utilizam de modelos
ou maquetes.
Assim, pode-se dizer que o desenho diédrico não está
13. Croquis de projeto de Le
Corbusier enfatizando o as-
pecto técnico construtivo.
somente relacionado ao caráter executivo do projeto, o
mesmo acontecendo com a perspectiva, que comumente é
associada com a fase de apresentação ao cliente.
Com relação a esta primeira fase do processo de projeto,
caracterizada pelo croqui, ao mesmo tempo em que se
escolhe um determinado tipo de desenho adequado ao
método pelo qual se projeta, este último é dialeticamente
condicionado pelo primeiro. Deve-se compreender que o tipo
de desenho não está neste caso relacionado com seu aspecto
gráfico, mas com o conhecimento, ou mais especificamente,
com a geometria que o gerou. Tanto perspectivas quanto
plantas podem ser feitas a mão-livre, mas requerem que a
mente imagine o espaço de maneira diversa. Assim, método
e desenho, enquanto meio, estão em parte relacionados. A
14. Le Corbusier. A planta
acompanhada da perspectiva
ou vice-versa.
30
representação diédrica caracteriza-se por uma ênfase na
racionalidade matemática do espaço, enquanto que a
perspectiva (neste caso a cônica ou plana - intersecção da
pirâmide de luz de Alberti - pois a axonométrica aproxima-se
da análise matemática da projeção diédrica, propiciando ao
arquiteto a visualização do edifício enquanto espaço-objeto
do qual ele arquiteto não participa) tem suas regras
construtivas advindas da análise da percepção visual do
espaço tridimensional, através de uma superfície plana
transparente. Apesar de simplificadoras e geométricas, suas
regras construtivas levam em conta a deformação do espaço
visto pelo observador que dele participa. Sua essência está
na percepção sensorial do espaço e, assim quando o arquiteto
projeta com tal recurso gráfico, coloca em relevância os
aspectos sensoriais e figurativos, em detrimento da
racionalidade construtiva. Deve-se ressaltar, no entanto, que
alguns arquitetos (entre eles Le Corbusier, Carlo Scarpa, Mario
Botta, etc) trabalham em permanente diálogo com as duas
formas, como também é o caso de Vilanova Artigas nos
croquis de projeto do edifício da FAU USP, cujas cópias estão
à disposição na Biblioteca da mesma faculdade. Pela análise
deste material, percebe-se que com o mesmo traço que
expressa a rapidez do registro, tanto plantas e cortes como
perspectivas do interior, muitas vezes nas mesmas pranchas,
vão se definindo conforme avança o projeto. Não é possível
distinguir o que foi feito ou imaginado primeiro, se o espaço
em planta ou em perspectiva; o que o desenho demonstra é
que eram imagens coetâneas e interdependentes.
O mesmo tipo de relação não pode ser verificado entre o
desenho gráfico e o desenho materializado (forma
construída), a obra arquitetônica propriamente dita. Os meios,
pelos quais alguns acreditam estar identificados com a
estética modernista foram parcialmente descritos por
Vitrúvio, tornaram-se instrumentos fundamentais na
construção gótica e foram fonte de uma querela de séculos,
que perdura até hoje, sendo que neste período é sabido que
estilos e linguagens muito se modificaram.
15. Croqui, desenho diédrico
(planta) e foto da obra aca-
bada. Mário Botta.
O desenho, enquanto instrumento de projeto (seja ele de
elaboração, execução ou apresentação) não tem, assim,
relação de identidade com uma determinada obra específica,
ou com determinado tipo de linguagem ou estilo (já que tanto
o gótico, o clássico, o moderno e o pós-moderno se utilizaram
das mesmas estruturas representativas, apesar de
caracterizações gráficas diferentes).
O desenho (planta, corte e fachada), pelo qual a arquitetura
moderna se difunde enquanto estilo, pouco tem a ver com a
sua configuração espacial, enquanto elaboração artística, mas
muito com a racionalidade inerente aos processos de
reprodução e industrialização diretamente relacionados com
a idéia da universalidade do homem. Por outro lado, a crítica
ao moderno e algumas correntes da pós-modernidade de
cunho apriorístico revalorizaram a perspectiva enquanto meio
de pesquisa e análise do ambiente urbano, assim como para
visualização e criação de espaços arquitetônicos mais
apropriados às necessidades dos usuários, segundo suas
particularidades e identidades sócio-culturais.
31
A querela que envolve desenho e arquitetura, ao contrário
do que se imagina, data do renascimento. Verifica-se uma
disputa sobre o desenho do projeto, advinda das primeiras
edições impressas e conseqüente difusão do tratado de
arquitetura de Vitrúvio. É importante ressaltar que o texto
original não dispunha de nenhuma ilustração, o que gerou
muitas discordâncias, principalmente sobre a interpretação
do termo Scenographia, como é tradicionalmente conhecido,
tendo sua raiz etimológica no radical grego skene (cena) .
Outro termo utilizado em muitas edições é Sciographia,
originário de skia, que significa sombra ou coisa sombreada.
José Maria Gentil Baldrich
(10)
, em seu artigo, faz uma breve
mas densa análise desta disputa, tentando identificar as
variáveis interpretativas e sua relação com a história da
arquitetura.
I.4.1. A querela do desenho de projeto no
renascimento
Como es sabido, Marco Vitrubio Polión, arquitecto
de la época augustea, definió, en su famoso tratado
de Arquitectura tres términos tradicionalmente
identificados con planta, alzado y perspectiva:
icnographia, ortographia, scenographia;
(11)
Segundo o autor, as versões ilustradas, sendo a primeira a
de Fra Giocondo em 1511, mostram a scenographia como
uma vista em possível perspectiva (cônica) da edificação.
Em edições posteriores, como a de Fabio Calvo em 1519, o
termo é traduzido como scienographia. Neste, como em
outros casos posteriores, aparece correlata à vista em
perspectiva, uma relação entre o interior do edifício e seu
exterior. Em uma carta dirigida a Leão X, atribuída com
diversidade de opiniões a Rafael e a Baldessare Castiglione,
e interpretada por Alberti, o termo vitruviano em questão é
abordado enquanto seção ou corte perspectivado.
De igual manera, cuando aborda la tríada de
métodos gráficos del arquitecto, la Carta definirá
la planta y el alzado y, cuando alcanza al tercer
procedimiento, lo interpretará como la seccion o,
como dice, la parete di dentro, excluyendo los
métodos y la intervención del pintor.
(12)
A querela se estende além do renascimento. Mas, não se
pode esquecer que nesta época, desde Brunelleschi - e
referências disto podem ser encontradas em Vasari - o
arquiteto, mais que projetar e representar o projeto pelo
desenho, o fazia também por modelos ou maquetes de
madeira.
Assim, numa terceira hipótese, o termo vitruviano é
interpretado por Guillermo Philandro como modelo em três
dimensões, tendo repercussões muito maiores do que se
16. (sup.) Fra Giocondo. Ilus-
tração da Scenografia, 1523.
17. (inf.) Fra Goicondo. Ilus-
tração da Scenographia (1511,
1512, 1522).
32
poderia imaginar, sendo que em outra edição é por Lázaro
de Velasco assim descrito:
Tercera es mostarar la frente y respaldo del edificio
con las resensiones de todos los traços y miembros
acatándole sus luzes, entradas salidas o
respiraderos como cuando hazemos el modelo.
(13)
Philandro, que em sua versão adotou o termo sciographia,
explica que a vantagem do modelo sobre as outras
representações está no fato da confecção da maquete
propiciar a visualização de erros antes da obra ser construída.
Seus textos datam de 1549, em Roma, e 1545, em Paris.
Miguel Ângelo trabalhava com maquetes e desenhos em
planta exata e segundo Vasari, confeccionava primeiro o
modelo em barro e depois em madeira. Deve-se ressaltar
que, nesta época, os arquitetos advinham da pintura e da
escultura como áreas de formação básica, sem o qual não
eram considerados como tais; assim Baldrich coloca que a
disputa pela legitimidade da significação do termo vitruviano
representa a luta entre a pintura e a escultura, para se
estabelecerem como artes maiores.
Apesar disto, a prática projetiva com modelos em finais do
século XVI (1580 aproximadamente) estava em franca
decadência.
A versão francesa de Sebastiano Serlio, de 1545, mostra o
termo vitruviano como uma seção perspectivada do Panteon
e substitui a sciografia pela scenografia, o que foi decisivo
para a perpetuação deste termo tradicionalmente, embora a
disputa sobre seu significado tenha continuado.
A seção ou corte como hoje o conhecemos, desenvolveu-se
no centro da Europa na baixa idade média, época na qual
chegou-se a uma perícia gráfica só absorvida pelos países
do sul no renascimento. Tal resultado foi obtido devido à
necessidade de construir (principalmente no caso das
catedrais) com maior precisão. Através do corte detalhado a
18.Guillermo Philandro. Ilus-
tração da Scenografia, 1550.
construção da arquitetura e dos apliques decorativos era
melhor controlada e provavelmente mais rápida, pelo menos
no que se referia à organização do canteiro de obras.
Este tipo de desenho, em projeção (principalmente o corte)
só terá seu uso difundido no sul da Europa, como no caso da
Itália, após Brunelleschi ter desenvolvido seu sistema de
representação em perspectiva através de planta e fachada
relacionadas; e sua utilização será enfatizada principalmente
após Gaspar Monge (1795) ter estabelecido cientificamente
o método diédrico de representação plana, coordenada por
projeções ortogonais, base da geometria descritiva.
No renascimento muitos arquitetos artistas eram desprovidos
de uma experiência construtiva, e os arquitetos construtores
não possuíam formação nas chamadas artes maiores. Para
estes últimos a perspectiva cônica ou linear era de pouca
utilidade, como destaca Baldrich. A postura por eles adotada,
oposta à dos arquitetos artistas, será cada vez mais de vínculo
à linguagem do novo método diédrico. A este respeito cita
uma versão comentada da obra vitruviana por Daniele Barbaro
de 1556, com assessoria técnica de Palladio.
La interpretación de Barbaro es muy significativa.
Nos muestra la aparición de un nuevo tipo de
arquitecto, como lo representa Palladio, separado
del mundo de las disputas teóricas de la perspectiva
cónica y necesitado de un lenguaje gráfico más
racional, para poder definir y controlar la medida
de la obra.
(14)
33
19. Claude Perrault. Ilustração
da Scenographie & Scio-
graphie, 1684.
20. Sebastiano Serlio. Ilus-
tração da sciografia, Livro III.
21. (sup.) Daniele Barbaro.
Ilustração da Sciografia da
edição de 1567.
22. (inf.) Miguel de Urrea.
Ilustração da Sciografia, 1582.
34
23. Planta baixa idealizada por
Villard de Honnecourt, desen-
volvido numa discussão com
Pierre de Corbie, desenho,
1235.
24. Reims, catedral, conjunto
contra-forte-arcobotantes
segundo Villard de Honnecourt,
desenho, 1235.
25. Reims, catedral, trifório na
nave central, segundo Villard
de Honnecourt, desenho, 1235.
35
Hoje a querela sobre o desenho apropriado ao projeto
arquitetônico revitaliza-se. Até pouco tempo, cerca de vinte
anos, as publicações, principalmente sobre arquitetura
moderna, constituíam-se figurativamente de desenhos
técnicos em plantas e cortes e algumas fotos. A partir de
meados dos anos 70, além da qualidade da cor e da impressão
(avanço da tecnologia gráfica)e de certa “irreverência” na
diagramação da página, aparecem croquis de projeto -
desenhos a mão-livre, perspectivados, oriundos de uma fase
de elaboração espacial. Este fato nada teria de especial, se
neste mesmo período não tivessem se tornado mais
contundentes as críticas à arquitetura moderna e se outros
pressupostos inerentes à concepção do espaço arquitetônico
não tivessem sido criados ou mesmo revitalizados por
algumas correntes do pós-moderno.
Os arquitetos da pós-modernidade, mais que construir rápido
e uniformemente, procuram a multiplicidade na configuração
espacial, mas não mais como um jogo de montar, no qual
peças geométricas se encaixam de forma modular, mas em
função do ponto de vista daquele que habita, vive e convive
naquele espaço. É a visão do usuário do espaço que importa
e, com isto, valoriza-se novamente a perspectiva de ponto
de fuga, não só como representação do espaço, mas
enquanto instrumento projetivo.
Pode-se dizer que o desenho da arquitetura moderna,
representado pelas projeções planas instrumentadas, não foi
adotado por razões estéticas, mas por adequação à
racionalidade inerente ao processo construtivo que dela
derivou, incluindo aqui a industrialização.
26. Ilustração para a edição de
Fra Giocondo de Lyon, 1523.
36
Não se pode entender a contemporaneidade arquitetônica
sem compreender a modernidade (no que se refere à
arquitetura, início do século XX). Os modernos, revolucionários
para uns, castradores para outros, instituíram uma nova
arquitetura, não só na sua materialidade física, mas na própria
maneira de abordar o problema do espaço e de como deveria
ser gerado e produzido. Do problema à resposta edificada
existe uma essência comum: a racionalidade.
A racionalidade, exposta em padrões e esquemas repro-
duzíveis, gerou crítica e revolta. Na visão de Paolo Portoghesi,
a arquitetura moderna se caracteriza
como um conjunto de proibições, de renúncias, de
reduções, de inibições, se quisermos, que define
em negativo uma área lingüística, consentindo a
degradação e esgotamento, a metamorfose con-
tínua, mas não a renovação substancial e o
relançamento vital.
(15)
Certos autores colocam, no entanto, que os princípios
construtivos da forma da arquitetura moderna têm sua origem
nos pressupostos idealizadores do século XVIII.
O que fora erigido, nas Luzes, como princípio
compositivo torna-se, em nosso século, princípio
construtivo da forma: remontar ao elementar, dar-
lhe a configuração precisa (segundo sua função) e
situá-lo, ótimo, para o desempenho máximo.
(16)
Emil Kaufmann
(17)
, por exemplo, vê em Claude Ledoux o
precursor da nova arquitetura moderna. O XVIII é para ele
um tempo raciocinante, no qual buscam-se as regras e o
discernimento.
Mas a razão do XVIII que culminará com as idéias de Kant,
será a mesma da propagada pelo movimento moderno? Ver-
se-á que esta colocação pressupõe uma visão simplificada
da história da filosofia e da arte. A relação existente é muito
I.4.2. O moderno
racionalista
e o pós-
moderno
apriorístico
mais ideológica - na busca do homem universal - do que
formal ou metodológica. Além disso, Kant não foi um
expoente do racionalismo, enquanto sistema filosófico, como
se costuma colocar, mas criou um sistema novo, o apriorismo.
Este, enquanto formulação eidética, está muito mais ligado
às questões colocadas pela pós-modernidade arquitetônica
do que ao modernismo.
Ricardo Azevedo explicita nesta citação a relação entre os
dois períodos:
Não é pelas premonições de alguns heróis do XVIII,
nem por um putativo vanguardismo das Luzes _
afirmado onde não poderia existir _ , que se pode
relacionar as postulações das vanguardas e as das
Luzes. O que há de comum entre estes momentos
é, de modo geral, a prevalência da utilidade, o
resgate desejado da origem imaginada, a ênfase
na natureza humana como base da construção de
um Novo Mundo, o conceito de progresso do
conhecimento como agente da perfectibilidade
social e a recusa da autoridade de místicas ou
metafísicas.
(18)
37
O racionalismo, segundo Johannes Hessen, pode ser definido
como
A posição epistemológica que vê no pensamento,
na razão, a fonte principal do conhecimento hu-
mano,... Segundo ele, um conhecimento só merece
na realidade este nome quando é logicamente
necessário e universalmente válido.
(19)
O pensamento impera com absoluta independência
de toda a experiência, seguindo somente as sua
próprias leis.
(20)
O empirismo por outro lado
opõe à tese do racionalismo..., a antítese que diz:
a única fonte do conhecimento humano é a
experiência. Na opinião do empirismo, não há
qualquer património a priori da razão. A consciência
cognoscente não tira os seus conteúdos da razão;
tira-os exclusivamente da experiência.
(21)
Assim, como os racionalistas procedem da matemática, os
defensores do empirismo advêm das ciências naturais, para
as quais a experiência tem uma papel decisivo.
Entre tais correntes opostas destacam-se outras duas que
procurarão um meio termo, no qual tanto a razão como a
experiência serão a base do conhecimento humano, tendendo
mais a uma ou a outra corrente extremista.
A primeira delas é o intelectualismo.
O intelectualismo sustenta com o racionalismo que
há juízos logicamente necessários e universalmente
válidos, e não apenas sobre os objetos ideais - isto
é também admitido pelos principais representantes
do empirismo -, mas tém sobre os objetos reais.
Mas enquanto que o racionalismo considerava os
elementos destes juízos, os conceitos, como um
I.4.3. Racionalismo, empirismo e apriorismo.
Considerações filosóficas
património a priori da nossa razão, o intelectualismo
deriva-os da experiência.
(22)
A segunda é o apriorismo.
Também este considera a experiência e o
pensamento como fontes do conhecimento. Mas
o apriorismo define a relação entre a experiência e
o pensamento num sentido directamente oposto
ao intelectualismo. Como o próprio nome do aprio-
rismo indica, o nosso conhecimento apresenta, no
sentido desta corrente, elementos a priori,
independentes da experiência. Esta era também a
opinião do racionalismo. Mas enquanto que este
considerava os factores a priori como completos,
como conceitos perfeitos, para o apriorismo estes
factores são de natureza formal. Não são conteúdos
mas formas do conhecimento. Estas formas
recebem o seu conteúdo da experiência e é nisto
que o apriorismo se afasta do racionalismo e se
aproxima do empirismo.
(23)
O fundador do apriorismo, enquanto sistema filosófico, foi
Emanuel Kant, para quem
a matéria do conhecimento procede da experiência
e que a forma procede do pensamento.
(24)
Se o modernismo é um movimento, no qual impera a razão
na busca de um conhecimento universal, as críticas, que a
ele se sucedem, poderiam ser classificadas como o ponto
gerador de um processo apriorístico, que estética e
ideologicamente tomou várias frentes entendidas no conjunto
da pós-modernidade. Josef Montaner
(25)
as classifica como
“neo-empiristas”, que, como já visto, não é também o termo
mais apropriado.
38
Quando se fala de movimento moderno, algumas perso-
nalidades destacam-se em nossa memória com mais
veemência do que outras, por exemplo nomes como Le
Corbusier e Walter Gropius, dois expoentes modernos, mas
com idéias diferentes.
Mas há outros importantes arquitetos pensadores, menos
conhecidos, devido a uma visão ideológica, na qual o moderno
deveria aparecer como um movimento unitário, autêntico,
com pressupostos estéticos claros, para uma suposta
universalização. Por exemplo, M. Ginzburg e os irmãos Vesnin:
Aleksandr, Viktor e Leonid, o primeiro considerado por Le
Corbusier
(26)
como criador do construtivismo internacional.
Com o uso de elementos estruturais puros, enriquecidos de
supra-estruturas técnicas (cabos, antenas, etc), esta lin-
guagem é fruto da idade madura do construtivismo russo,
movimento que iniciou a pesquisa por uma nova linguagem
arquitetônica, baseada não mais na composição mas na
construção, na qual a racionalidade amparada por uma ide-
ologia estandardizante de uma sociedade igualitária,
concebeu espaços matemáticos, da casa (célula mínima) à
cidade.
Em outros países da Europa, esta pesquisa também vigorou,
mas com um catalisador ideológico de menor intensidade.
No entanto, a racionalidade era a mesma. Um dos primeiros
exemplos desse período, no qual destaca-se a racionalidade
na elaboração de uma estrutura organizada, se dá na Holanda
sob coordenação do arquiteto H. P. Berlage. O plano de
ampliação de Amsterdam Sul, por ele elaborado e aprovado
em 1917, revela uma cidade organizada, estruturada em
grandes blocos habitacionais, tendo como unidade básica o
quarteirão.
L. Benevolo
assim descreve o esquema de Berlage:
Como unidade de edificação fundamental, ele
estabelece um quarteirão de cem a duzentos me-
tros de comprimento e de cinqüenta metros de
I.4.4. A arquitetura habitacional holandesa
A razão no espaço coletivo
27. J. J. P. Oud. Casa para
trabalhadores, Rotterdam,
Holanda, 1927. Vistas gerais
de grupo de habitações.
Plantas que mostram a
disposição das unidades
individuais.
39
largura, com construção marginal de quatro andares
e jardim interno, a ser tratado como unidade
arquitetônica.
(27)
A Holanda se destaca por ser o primeiro país da Europa a
instalar uma política habitacional que interfere na estrutura
da cidade, embora o Planejamento, enquanto instrumento
de organização do território, remonte neste país à idade
média, principalmente sobre questões de engenharia
hidráulica e higiene pública. O Plano de Amsterdam dá suporte
a projetos de conjuntos habitacionais, onde destacam-se pá-
tios internos com área verde de uso semi-privado. A
homogeneidade da linguagem é garantida, devido ao mesmo
arquiteto projetar vários quarteirões.
Berlage pensava que a habitação planejada era uma forma
de equilibrar a desigualdade entre os cidadãos, mas não sob
o ponto de vista figurativo. Essa talvez seja a razão principal
pela qual tais projetos não foram considerados pelos
historiadores, a exemplo de S. Giedion e L. Benevolo, como
produtos do movimento moderno.
Os instrumentos do plano de Berlage - o uso de
traçados simétricos para a rede viária e o uso do
quarteirão com fachadas unitárias - fazem parte da
tradição acadêmica, tanto assim que a aplicação
que é tentada por ele é chamada de “uma espécie
de revival urbanístico”.
(28)
Bruno Taut talvez seja o único simpático à escola de
Amsterdam, reconhecendo nessa arquitetura a valorização
do indivíduo, apesar da monumentalização aparente.
Outros exemplos holandeses merecem destaque, por
exemplo, os projetos em Rotterdam, cujo planejamento foi
assumido por J. J. P. Oud, com uma linguagem figurativa mais
próxima ao que depois foi estabelecido como moderno, pois
concebidos pelos preceitos básicos do De Stijl.
Deve-se salientar que neste texto prefere-se o termo
figurativo ao estético, pois este último, numa concepção
mais abrangente, refere-se ao todo da obra e não só aos
aspectos formais e visuais da arquitetura.
É um equívoco imaginar que a configuração formal está
desligada de outras questões. A escolha de posicionamento
de uma esquadria pode definir uma colocação mais rápida,
sem necessidade de cinta, permitindo um pé direito mais
baixo, o que implica num custo conseqüente menor. Todos
os fatores (visuais, formais, funcionais, tecnológicos) formam
um conjunto estético, no sentido de F. Schiller.
Todas as coisas capazes de manifestação
fenomênica podem ser consideradas sob quatro
aspectos diferentes. Uma coisa pode se relacionar
diretamente com os nossos sentidos (com o nosso
ser e bem-estar): este é o seu caráter físico. Ou
pode se relacionar com o nosso intelecto e nos
proporcionar conhecimento: este é o seu caráter
lógico. Ou pode se relacionar com a nossa vontade,
e ser considerada como um objeto de escolha por
um ser racional: este é o seu caráter moral. Ou,
finalmente, pode se relacionar com a totalidade das
nossas diferentes funções sem ser um objeto
definido por nenhuma delas singularmente: e este
é o seu caráter estético.
(29)
No caso de Amsterdam, o moderno se apresenta enquanto
estrutura, na qual a racionalidade representa a ideologia de
igualdade social. No caso de Rotterdam, apesar de ainda
manufaturada, a arquitetura racionalizada, assim o era em
função de uma estética industrial nascente.
O moderno, enquanto movimento arquitetônico, começa a
se estruturar pela construção industrializada real ou
pressuposta, necessitando de uma linguagem própria,
adequada aos mecanismos inerentes a uma construção
industrializada parcial ou total.
40
Nos livros e manuais de arquitetura, geralmente se associa
o surgimento do movimento moderno com as realizações na
Alemanha pós primeira Guerra Mundial. A situação alemã
era delicada, pois endividada, espoliada em bens e
territorialmente, e com uma inflação galopante. Esse quadro
começa a reverter-se a partir de empréstimos americanos,
criando em 1925 uma certa estabilidade, que por sua vez
permitiu que arquitetos e planejadores começassem a
elaborar planos de reconstrução e construção de novas
edificações.
É neste contexto que se inserem alguns dos primeiros projetos
revolucionários de construção popular em larga escala. Novas
pesquisas técno-construtivas e extensos debates têm como
tema central a habitação popular. A inovação, neste caso,
está centrada na realização em série das unidades
habitacionais e em uma coordenação interna e externa das
mesmas, condizendo respectivamente com estudos
ergonômico-funcionais dos espaços em planta e a inserção
da unidade na cidade. Na origem destes projetos, destacam-
se organizações como a Werkbund, presidida por Hans
Poelzig, os estudos da Bauhaus, de Walter Gropius e, pos-
teriormente, o trabalho de jovens como Ludwig Hilberseimer
e Ernest May.
Os escritos de Hilberseimer, segundo Manfredo Tafuri
(30)
,
mostram uma nova visão da arquitetura em relação à cidade.
Esta depende da solução e da correspondência de dois
fatores: a célula e o conjunto do organismo urbano. A cidade
é vista como uma unidade, uma enorme máquina social.
(31)
Esta desvinculação da unidade habitacional do locus será o
cerne da querela entre arquitetura e industrialização, como
ver-se-á mais adiante.
A casa mínima de Ernest May, em Frankfurt, se destaca, no
entanto, por ser classificada atualmente como um dos três
conjuntos de noções que compõem o movimento moderno,
ao contrário da tradicional visão deste como um movimento
I.4.5. A ideologia do Movimento Moderno
Os CIAM e a Carta de Atenas
28. Tipos de edificação do
Dammerstock (W. Gropius) e
do Siemmensstadt (H. Scha-
roun.). Berlim, 1930.
41
unitário, homogêneo e de premissas figurativas pré
estabelecidas.
Estudos sobre ergonomia, circulação interna, mobiliário e
hábitos da população proletária realizados na época, são a
base sobre a qual May desenvolve seu projeto. O esforço
para redução da área construída deve ser compensado pela
produção de novos equipamentos domésticos compatíveis
com a era industrial; a exemplo disto, podem-se citar os
estudos de uma nova cozinha, pela arquiteta Grete Schütte
Lihtozky de 1927, algo que era concomitantemente desen-
volvido, mas por razões ideológicas opostas, pela vanguarda
russa e pelos arquitetos americanos.
O cliente desta nova etapa da história da arquitetura não é
específico, mas um grupo social: o proletariado, que na visão
da vanguarda é o homem universal, com valores universais.
A proposta arquitectónica, o modelo urbano que
com base nela se articula, as premissas
económicas e tecnológicas que ela pressupõe -
propriedade pública do solo e estruturas de
industrialização da construção civil dimen-sionadas
com base em ciclos de produção programados para
o âmbito urbano - estão indiscutivelmente ligados
entre si. A ciência arquitectónica integra-se
totalmente na ideologia do plano, e as próprias
opções formais não passam de variáveis que dela
dependem.
Toda a obra de May em Frankfurt pode ser
interpretada como expressão máxima de uma tal
“politização” concreta da arquitectura.
(32)
Figurativamente, a arquitetura dos siedlung nos primeiros
conjuntos enfatiza a esquina dos grandes blocos. Em outros,
empregam-se soluções não homogêneas (casas térreas,
edifícios, etc) onde o branco entendido tradicionalmente como
básico da fachada modernista não é utilizado, ao contrário,
29. Frankfurt sobre o Meno,
planimetria dos novos bairros
residenciais além do vale do
Nidda (em preto, a parte
executada antes da crise, em
branco a projetada; de C.
Bauer, Modern Housing, 1934);
planta do bairro Riedhof-West,
duas vistas do bairro Römer-
stadt e uma dos tipos de edi-
ficação unificados.
42
os conjuntos são extremamente coloridos. Já em Römerstadt
(1927-8) destacam-se os grandes blocos, não tão aconche-
gantes como os de Berlage, pois aqui o espaço visual
promovido pelos blocos parece infinito; o grande bloco é
modular e se coloca repetitivamente um após o outro, não
mais definindo o espaço semi-público. Este mostrar-se
extinto nos conjuntos que se farão após a segunda Grande
Guerra, orientados mais pelas interpretações que se fez da
Carta de Atenas do que pelos próprios princípios nela
expostos, muito vagos por sinal, ao contrário do que colocou
Bernard Huet
(33)
.
Além das contradições presentes, o texto
deste autor - como por exemplo, se de início coloca que a
carta nada inventa, mais adiante escreve que o modelo de
cidade proposto por ela e ilustrado por Le Corbusier, implica
um espaço de tipo novo - confunde os pressupostos da carta
com a própria obra de Le Corbusier e a linguagem
arquitetônica nesta empregada. A carta em nenhum momento
expõe regras de concepção figurativa, mas apenas indícios
abstratos de reorganização urbana, que estes, sim, podem
ser discutidos como cerne de um problema mais que
arquitetônico e urbanístico, ideológico, fruto de uma utopia
de igualdade social promovida pelo desenvolvimento técno-
científico, como coloca Carlos Eduardo Comas.
(33)
Por outro lado, historiadores como L. Benevolo, S. Giedion,
B. Zevi apostam numa ideologia figurativa, como base e
unidade do movimento moderno. Colocam os CIAM - do
inaugural em La Sarraz em 1928 até a publicação por J. L.
Sert das (supostas) idéias do último congresso antes da
guerra em 1941 - como uma progressão ininterrupta e
coerente de estudos que vão da célula mínima à estrutura
urbana.
Os documentos originais dos congressos, no entanto,
mostram que a preocupação ou o foco de interesse não é o
mesmo em todos os congressos. Le Corbusier, por exemplo,
pretendia, num primeiro momento, estabelecer uma relação
pessoal de compromissos, enquanto para os holandeses a
essência discursiva estava na querela “NEUES BAUEN” (nova
arquitetura dos conjuntos habitacionais) x “ARCHITEKTUR”
(arquitetura como especulação formal); a primeira tem
objetivos construtivos a priori de qualquer outro, enquanto a
segunda mantém a visão tradicional de arquitetura como arte
do espaço habitável, colocando a concepção figurativa à
frente dos outros objetivos. Acresce-se a isto que as
traduções das atas não conferem entre si e a maioria dos
congressos termina sem uma conclusão majoritária, do que
se deduz que essa visão unívoca não é verdadeira.
Aqui, volta-se à questão do desenho, pois as projeções
ortogonais condizem com o exposto pelos holandeses. Os
trabalhos apresentados em alguns congressos constituem-
se de plantas com raríssimos cortes esquemáticos, como no
caso do 2
o
. CIAM em Frankfurt, organizado por E. May.
Nesses projetos não há fachada, nem perspectiva de qualquer
tipo, o que indica que a discussão não gira em torno da figura,
mas da organização e construção racional do espaço, melhor
identificados pela planta e pelo corte.
A perspectiva ressurgirá com maior força após as primeiras
críticas à reconstrução realizada sobre as bases da urbanística
moderna. No entanto, a sua importância, enquanto método
30. O tipo de edificação Exis-
tenzminimun discutido no
CIAM de 1929.
projetivo, já se verifica em Le Corbusier, nos textos e nos
projetos, quando supera a questão da unidade mínima como
máquina de habitar e concebe espaços também pela
perspectiva, onde a planta ganha mentalmente sua tridimen-
sionalidade, enfatizando a visual do usuário do espaço.
(35)
Após a segunda guerra, soma-se ao déficit habitacional
existente, a parcial ou quase total destruição de muitas
cidades européias e um crescimento demográfico exacer-
bado, conhecido como baby-boom. A reconstrução, além
de rápida e eficiente, deveria ser ao menor custo possível,
mantendo-se determinadas condições básicas: qualidade e
adequação dos espaços, dos materiais construtivos, etc.
43
Segundo Paulo Bruna, na tentativa de melhorar esta relação
(qualidade x preço), o caminho seguido foi o da indus-
trialização da construção através da
RACIONALIAZAÇÃO máxima da estrutura tecno-
industrial existente. Procurou-se racionalizar a ação
de todos os que intervêm na construção desde a
fase de programação até a da entrega dos trabalhos
“a fim de diminuir o desperdício de material, reduzir
as operações de mão-de-obra e o tempo de
execução, e ao mesmo tempo realizar obras que
prestem melhores serviços.
(36)
Benevolo assim descreve o período:
Por toda a parte, tanto nos países de Leste como
nos do Ocidente, se impõe a necessidade de um
planeamento organizado das modificações
territoriais e os métodos da teoria arquitectónica
moderna, estabelecidos no período anterior, são
considerados como parte integrante da “pla-
nificação”. Os arquitetos modernos encontram-se
assim, pela primeira vez, a projectar um elevado
número de empre-endimentos de grande escala,
podendo-os comprovar na prática.
(37)
Na França, várias etapas se seguiram, inclusive a da
racionalização dos projetos,
abandonando partidos e soluções que de-rivassem
de modismos passageiros ou das sempre
presentes influências acadêmicas, (...). Foi
constatado que havia uma estreita correlação entre
a forma da construção e o seu custo, isto é, que a
diminuição do número de painéis-fachada, mais
complexos e caros de executar, (...), beneficiava
de maneira apreciável o preço final da obra; (...).
Procurou-se, portanto, empregar projetos
normalizados, compostos por algumas plantas
I.4.6. A racionalização no projeto e no
canteiro na reconstrução das cidades
européias
modelo, suscetíveis de serem industrializadas
eficazmente.
(38)
A isto associou-se um processo de racionalização da
construção, num primeiro passo, fazendo com que concepção
e construção se tornassem uma unidade.
Tratava-se de pedir ao construtor que elaborasse
todos os detalhes de execução, procurando com
isso evitar a ruptura entre o arquiteto e o em-
preiteiro, entre concepção e a construção.
(39)
Com tal objetivo, são criados os BET (Bureau d’etudes tech-
niques), grandes empresas nas quais se desenvolvia todo o
projeto (arquitetura, estrutura, hidráulica etc.), que planejado
com precisão, não permitia nenhum tipo de improvisação na
obra.
Num segundo momento, dá-se a mecanização do canteiro,
substituindo em determinadas operações o homem pela
máquina.
Na Inglaterra do pós-guerra, a racionalização ganha ares
estratégicos de controle estatal; o planejamento centralizado
faz com que setores como o de energia, transporte ferroviário,
siderurgia, entre outros, sejam estatizados. O partido
Trabalhista, então no poder, faz da habitação seu tema central
de governo, o que provocará profundas mudanças nas
políticas de uso e ocupação do solo urbano, criando novas
comunidades e até novas cidades, visando uma ocupação
mais homogênea e mais racional.
A industrialização da construção, baseada na racionalização
de todo o processo (política , gerenciamento, projeto e cons-
trução) reforça o uso de termos ligados propriamente com a
execução em larga escala, introduzidos na primeira fase do
movimento moderno, nas experiências do período entre
guerras.
44
A questão principal está no fato da arquitetura não mais ser
vista como objeto, mas como uma abstração, que pode ser
produzida sem relação com o locus. Concebe-se assim o
espaço elaborando tipologias. O conceito de tipo estabelece
uma abstração racionalizada a ser reproduzida, identificando-
se assim respectivamente com modelo e standard.
Tafuri relaciona particularmente este modo de pensar a
arquitetura moderna com o trabalho de Hilberseimer, para o
qual a unidade habitacional (célula) e a estrutura urbana
estavam completamente relacionadas, portanto a cidade é
também vista como produto do mesmo gênero.
A célula não é apenas o primeiro elemento da
cadeia de produção contínua que tem a sua
resultante na cidade, mas também o elemento que
condiciona a dinâmica dos agregados de cons-
truções. O seu valor de tipo permite que seja
analisada e solucionada em abstrato.
(40)
A unidade habitacional, o tipo, segundo Tafuri prescinde agora
dos antigos conceitos arquitetônicos de lugar e espaço.
Mas o tipo, enquanto abstração, advém da procura da
essência do homem moderno, pressuposto como universal,
o que leva a propostas de estandardização das formas, à
arquitetura internacional, igual para todos em qualquer lugar,
em qualquer cultura. A globalização em contraste à regio-
nalização. No entanto, o lado positivo do standard, é assim
por Giulio Carlo Argan definido:
O tipo, o standard, é função da reprodução
mecânica em série. Embora possa parecer um
paradoxo, o standard é uma garantia do respeito
pela autenticidade da ideação, e um remédio contra
o perigo da monotonia. Enquanto a indústria repetia
aproximadamente formas pensadas para o trabalho
artesanal, isto é, peça por peça, a monotonia nascia
da repetição das mesmas particularidades formais;
I.4.7. Tipo, standard, modelo e paradigma.
se o objecto é pensado como generalização formal
e a máquina não mais faz que reproduzí-lo em
milhares de exemplares, obtêm-se identidade e não
uniformidade, porque cada objecto conservará
intacta a sua qualidade de “original”: um texto
poético, do mesmo modo, também não perde nada
do seu valor apenas pelo facto de ser reproduzido
em milhares de exemplares. O standard elimina
assim a mediação do objecto como coisa que
responde a uma utilidade prática, e determina o
contacto directo do público com o valor ou a
qualidade” da forma.
(41)
O conceito de modelo
esteve ligado nas artes e na arquitetura
num primeiro momento - clássico - à mimese e num segundo
- principalmente a partir de J.J. Winckelmann no final do
século XVIII - à idealização formal. Expressa a idéia de algo a
ser seguido, copiado ou reproduzido de maneira idealizada,
respectivamente.
Desde a década de 70, na qual acirraram-se as críticas ao
moderno, destacando-se as publicações de Charles Jenks
em 71, R. Venturi em 72, C. Moore em 74, o termo modelo
foi substituído pelo de paradigma. Este último foi na mesma
época enfatizado nos EUA pela Reengenharia, técnica de
reorganização empresarial então nascente, desenvolvida
pelos norte-americanos, que deu origem nos anos 90 à
normalização ISO 9000 - a princípio utilizada para produtos e
posteriormente também para serviços e outros. Em tal
procedimento pessoas não pertencentes à empresa são
contratadas para reestruturá-la. Assim, o paradigma é um
modelo abstrato, estimado a partir de levantamento e análise
da empresa. No entanto, paradigma neste caso tem também
a conotação de algo a ser superado, pois envolve os
problemas nos quais a empresa se encontra.
À primeira vista parece coerente o uso deste termo na crítica
ao moderno, por este ter apregoado modelos rígidos, teóricos
ou formais, arquitetônicos ou urbanísticos a serem superados.
No entanto o que se verifica atualmente (principalmente na
década de 90) é o uso indiscriminado, gerando um modismo
intelectual, cujos exemplos são facilmente encontrados em
teses, livros e ensaios.
(42)
45
A evolução tecnológica propiciada pela reconstrução européia
não foi acompanhada por uma correspondência na arquitetura
e no urbanismo. Em grande parte dos grandes conjuntos
habitacionais, o desenho, enquanto concepção formal e
figurativa do espaço, é de qualidade duvidosa, onde predo-
minam blocos monótonos, gigantescos e repetitivos, gerando
construções de baixa qualidade arquitetônica, mas tecno-
logicamente perfeitas.
A racionalidade expressa nestes espaços não tem identidade
com a vida cotidiana de seus moradores. A universalidade
proposta do homem utópico moderno não coincide com as
necessidades de grupos sociais diversos; o tipo sem vínculo
com o locus, traz a perda de identidade com a paisagem e o
standard universalmente aceito empobrece a identidade
cultural.
As primeiras críticas surgidas nos finais dos anos cinqüenta
e, conseqüentemente, as primeiras propostas de refor-
mulação deste processo, tinham que levar em conta a
experiência. Da análise de cada caso é que deveria resultar
um projeto específico, para com as pessoas e com o lugar. A
pós-modernidade começa a configurar-se como apriorística.
I.4.8. A crítica ao Moderno
46
Benevolo assim descreve a situação da arquitetura em finais
dos anos 50:
A arquitectura moderna tem já uma história de
quarenta anos e produziu um certo número de
novas cidades e de bairros - ainda limitados e mino-
ritários - e um grande número de edifícios, que, no
conjunto, transformaram de forma relevante a
fisionomia dos centros urbanos e das periferias.
(43)
Mas o clima cultural dos anos 60 indica conscientemente
que a reconstrução não era satisfatória. O debate sobre essa
arquitetura e os frutos por ela deixados começa a se instalar,
principalmente através das revistas, das quais se destaca a
inglesa Architectural Review, carro - chefe do processo de
renovação, contra o que considerou destruição da paisagem,
além dos congressos dos quais um possui particular
relevância: o CIAM de 53 de Aix en Provence.
Neste congresso, Alison e Peter Smithson trazem a público
as fotografias de Nigel Henderson sobre a vida nas ruas de
Londres, desencadeando uma série de publicações sobre a
questão da cidade e da paisagem urbana, visando a qualidade
de vida do habitante. Destaca-se o primeiro livro de Kevin
Lynch, The Image of the City (1960); Townscape (1961) de
Gordon Cullen, entre os mais importantes. Tais trabalhos par-
tem da análise direta da realidade.
Cullen documenta e sistematiza as intervenções urbanas e
entende que os ambientes que julgamos agradáveis não o
são por acaso. O desenho (muitas vezes associado a
fotografias) é usado de forma investigante. Cullen trabalha
com efeitos óticos através de retículas aplicadas, registrando,
através de poucas linhas, às vezes as características de
determinado lugar e seu significado específico, estabelecendo
uma abordagem psicológica da paisagem. A perspectiva
cônica, do ponto de vista do usuário pedestre, ganha novo
sentido. É através deste recurso que se evidenciarão as
questões relativas à qualidade do ambiente urbano. Este
I.4.9. A transformação da cidade tradicional
em moderna leva à degradação
A crítica inglesa
32. Ilustração “Visão serial”.
Desenho a mão-livre em
perspectiva na visual do pe-
destre, bico de pena com
aplicação de retícula. Gordon
Cullen.
31. Gordon Cullen. Mapa indi-
cando vistas da ilustração 32.
47
desenho não expressa uma racionalidade pura, mas faz parte
de um processo apriorístico, no qual a experiência indicará
conteúdo pelo qual a razão conformará adequadamente o
projeto .
Outro crítico que continua o trabalho de Cullen, é Kenneth
Brown. Faz uma análise minuciosa, através de pesquisa
elaborada visualmente, para compreensão do impacto das
construções em ambientes já caracterizados.
Os dois podem ser classificados como críticos da paisagem
sob o ponto de vista formal. Por outro lado, destacam-se os
funcionais: Theo Crosby, o mais conhecido, autor de Archi-
tecture: City Sense (1965) e The necessity of monumentality,
que se tornará importante na crítica da arquitetura inglesa,
perguntando-se quais eram as razões da degradação das
cidades inglesas. Sinteticamente, suas idéias colocam que
as funções urbanas na cidade tradicional estavam interligadas,
o que produziria unidade na diversidade. Na cidade moderna,
as funções separadas fazem com que a mesma se
desagregue. A qualidade de vida não derivaria do tamanho
da cidade, mas do arranjo destas funções. Em suma, que a
arquitetura não forma uma cidade, pois são de outra ordem
os fatores envolvidos.
Na prática, há um conjunto de críticos articulados que
escrevem, desenham, e publicam; e sociedades de preser-
vação, como um movimento organizado contra a degradação
do ambiente construído.
Nesse contexto se colocam os Smithsons, aliados a outros
também jovens arquitetos (Candilis, Bakema, Van Eyck, etc),
que organizados sob a designação de Team X, prepararão o
décimo CIAM em Dubrovnik em 56.
O Team X - (...) - fica como um ponto de referência
para os indivíduos ainda interessados na elaboração
de uma metodologia colectiva, utilizando como
meios de comunicação a revista holandesa Forum
33. Ilustração “Somente para
pedestres”. Gordon Cullen.
48
e a revista inglesa Architectural Design.
(44)
Os Smithsons têm também suas próprias publicações, nas
quais expõem suas idéias sobre a cidade, elaboradas passo
a passo, através de projetos para concursos públicos, dos
quais nunca foram vencedores. O ponto de partida da análise,
que gerou as premissas básicas da arquitetura promovida
pelo casal, está no estudo das relações entre a casa e a rua,
no relacionamento humano de vida comunitária que tal
concepção tradicional de espaço propicia.
Charles Jencks assim os define :
Em reuniões dos CIAM, os Smithsons e outros
activistas defendiam a ideia de um novo urbanismo
baseado em determinantes sociológicas espe-
cíficas. Referiam ideias como “identidade, lugar,
conjunto”, em oposição às ideias do CIAM, que
salientavam o universal. Justapunham a produção
urbana concreta à abordagem urbana genérica.
(45)
Apesar da crítica aos pressupostos modernos, e do método
apriorístico de concepção de projeto, a linguagem figurativa
das obras do casal é essencialmente moderna, sem
artificialismos vernaculares ou saudosistas, como acontecerá
mais tarde com determinados arquitetos, que defenderão
este tipo de formalidade estilística, de cunho historicista, em
nome da recuperação de antigos arquétipos arquitetônicos,
a exemplo de Michael Graves, Charles Moore, Robert Venturi
e outros.
Na linha dos ingleses apriorísticos, destacam-se trabalhos
mais recentes como o de Ralph Erskine, um dos membros
do Team X, com a comunidade de NewCastle (1972-4). Byker
Wall é um conjunto de espaços variados, na escala do
pedestre, de qualidade arquitetônica excelente, se comparado
a outros conjuntos de mesmo padrão sócio -econômico. É
um exemplo no qual a mão do arquiteto predomina, em
relação à participação da comunidade no processo de projeto,
ao contrário do exemplo americano, no qual esta é deter-
minante e poder-se-ia dizer de cunho empirista.
Jencks, no entanto, ironicamente o descreve como
Mistura ad hoc de materiais - chapa ondulada,
amianto, madeira pintada de verde - reduz o bloco
modernista a uma escala mais doméstica. Os
arquitectos consultaram os habitantes para
produzirem o alojamento público mais humano do
mundo.
(46)
Notas e referências bibliográficas
01. Exposição realizada à Galeria AS studio, Alameda Santos,
1787, São Paulo, S.P., de 14 setembro a 14 outubro
de 1995. Coordenação Estela Sahm. Curadoria:
Carlos Ferreira Martins, Fernando Vásquez y Ramos
e Renato Luiz Sobral Anelli.
02. Como isto não ocorreu a exposição tomou um caráter
quase arqueológico.
03. ANELLI, Renato Sobral. Os Desenhos da Exposição. in:
Os desenhos da arquitetura
..
..
. São Paulo: AS
studio, 1995. Catálogo da exposição. s/p.
04. GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo:
Perspectiva, 1994.p.27-8
05. VARGAS, Milton. Metodologia da pesquisa tecno-
lógica. Rio de Janeiro: Globo, 1985.
Milton Vargas é Professor da Escola Politécnica da
USP.
06. VARGAS, Milton. op. cit. p.25.
07.LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência: o futuro
do pensamento na era da informática.
Trad.
Carlos Irineu Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.
08. LÉVY, P. op. cit. p.11
09. LÉVY, P. op. cit. p.160
10. BALDRICH, José Maria Gentil. La interpretacion de la
SCENOGRAFIA Vitrubiana o una Disputa Renas-
centista sobre el Dibujo del Proyecto. EGA. Revista
de Expresion Grafica Arquitectonica. año 1.
n.1 Valencia: 1993.
11. BALBRICH, J.M.G.op. cit. p.15
12. BALBRICH, J.M.G.op. cit. p.19
13. BALBRICH, J.M.G.op. cit. p.25
14. BALBRICH, J.M.G.op. cit. p.24
15. PORTOGHESI, Paolo. Depois da Arquitectura Moderna.
Lisboa: Ed. 70, 1985. p.12
16. AZEVEDO, Ricardo Marques de - Metrópole e Abstração
. Tese de Doutorado. Depto. de Filosofia, FFLCH,
USP, 1993. Volume 2 - Os Usos da Razão.
17. KAUFMANN, Emil. Tres Arquitectos Revolucionarios:
Boullée, Ledoux y Lequeu. Barcelona: Gustavo
Gili, 1980.
___________, ___. De Ledoux a le Corbusier: Origen
y Desarollo de la Arquitectura Autónoma. Bar-
celona: Gustavo Gili, 1982.
18. AZEVEDO, R.M.de. op. cit. p.205
19. HESSEN, Johannes. Teoria do Conhecimento. 8
a
. ed.
Trad. Antonio Correia. Coimbra: Arménio Amado,
1987. p.60
20. HESSEN, J. op. cit. p.62
21. HESSEN, J. op. cit. p.68
22. HESSEN, J. op. cit. pp.74-5
23. HESSEN, J. op. cit. pp.77-8
24. HESSEN, J. op. cit. p.79
25. MONTANER, Josep Maria. Después del Movimiento
Moderno. Arquitectura de la segunda mitad
del siglo XX.
Barcelona: Gustavo Gili, 1993.
26. QUILICI, Vieri. L’architettura del costruttivismo . Bari:
Laterza, 1969.
O autor ainda classifica o Leningradskaja Pravda
(1923) como a obra marco do nascimento do
construtivismo arquitetônico. Neste edifício A.
Vesnin, sintetiza numa unidade orgânica estilística
a massa das pesquisas completadas nos anos dos
construtivismo pictórico, inaugurando uma
49
linguagem construtivista arquitetônica.
27. BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura
moderna. São Paulo:Perspectiva, s/d. p.365
28. BENEVOLO, L. op. cit. p.365.
29. SCHILLER, F. On the aesthetic education of man. Oxford:
Clarendon, 1982. p.141. cit. in: GOROVITZ, M.
Apresentação. in: RÜGER, M. J. T..Teorias e Ana-
logias em Arquitetura. São Paulo: Projeto, 1986.
p.9
30. TAFURI, Manfredo. Projecto e utopia. Arquitectura e
desenvolvimento do capitalismo. Lisboa: Pre-
sença, 1985.
31. TAFURI, Manfredo. op. cit. p.71
32. TAFURI, Manfredo. op. cit. p.78
33. HUET, Bernard. A Cidade como Espaço Habitável.
(alternativas à carta de atenas). in: Arquitetura e
Urbanismo. pp.82-7, dezembro / janeiro 1986-7.
34. COMAS, Carlos Eduardo Dias. O espaço da arbitrariedade.
Considerações sobre o conjunto habitacional BNH
e o Projeto da cidade brasileira. Projeto. n.91
pp.127-30. setembro 1986.
35. Le Corbusier escreveu : (in: Por uma Arquitetura. São
Paulo: Perspectiva, 1977.p.123)
O homem vê os objetos da arquitetura com seus
olhos que estão a 1,70m do solo. Podemos contar
somente com objetivos acessíveis ao olho, com
intenções que mostram os elementos da arqui-
tetura. Se contamos com intenções que não são
da linguagem da arquitetura, atingimos a ilusão das
plantas, transgredimos as regras da planta por
ausência de concepção ou por inclinação para as
vaidades.
36. BRUNA, Paulo J.V.
Arquitetura, Industrialização e
desenvolvimento
..
..
. São Paulo: Perspectiva, 1976.
p.90
37. BENEVOLO, L. O último capítulo da arquitectura
moderna. Lisboa: Ed. 70, 1985. p.51
38. BRUNA, Paulo J.V. op. cit. p.91
39. BRUNA, Paulo J.V. op. cit. p.91-2
40. TAFURI, Manfredo. op. cit. p.71
41. ARGAN, Giulio Carlo. Walter Gropius e a Bauhaus.
2
a
. ed. Lisboa: Presença, 1990. p.38
42. Merecem destaque os aqui op. cit. AZEVEDO e MON-
TANER.
43. BENEVOLO, L.O último capítulo da arquitectura mo-
derna. op. cit. p.93
44. BENEVOLO, L.O último capítulo da arquitectura mo-
derna. op. cit. pp.16-7
45. JENCKS, Charles. Movimentos Modernos em Ar-
quitetura. Lisboa: Ed. 70, 1992. pp. 243-2
46. JENCKS, Charles. op. cit. p.354 (legenda)
Bibliografia complementar
BRUNA, Paulo. AUP-819 História Social da Arquitetura
e do Urbanismo Modernos. Disciplina Pós-
graduação FAU USP. 2
o
. semestre 1995. Notas de
aula.
DE FUSCO, Renato. Storia dell’architettura contem-
poranea. Roma: Laterza, 1985.
GALLEGO, Juan A. Sánchez. Geometria descritiva y teoria.
EGA. Revista de Expresion Grafica Arqui-
tectonica
..
..
. año 1. n. 1 Valencia: 1993.
SMITHSON, Alison & SMITHSON, Peter. The Shift.
Architectural monographs 7. London: Academy,
1982.
50
O desenho do arquiteto, mais especificamente o croqui,
representa uma idéia, um conceito ou uma imagem? Será
mesmo que representa algo, ou já em si uma coisa, uma
construção no sentido positivo do termo?
Para responder tal pergunta, um dos caminhos é analisar o
trabalho de arquitetos conhecidos e que possuíam uma rela-
ção profícua com o desenho. Le Corbusier por exemplo, car-
regava sempre consigo os seus livros de notas, no qual
registrava verbal e pictoricamente tudo que lhe interessava
no cotidiano e nas suas viagens pelo mundo. No livro Oeuvre
Complète 1952-1957
(02)
, encontra-se um croqui do Palácio
da Justiça em Chandigarh, Índia, na mesma página encontra-
se também uma foto da obra já construída, do mesmo ponto
de vista que o arquiteto imaginou ao fazer o croqui. O mais
importante a ressaltar nesta comparação não é a qualidade
gráfica do desenho , feito com poucas linhas, de contorno
apenas, mas o reflexo pelo qual o edifício impressiona o
espelho d’água que compõe seu entorno. Esta imagem, este
efeito proporcionado pela arquitetura, inserida dentro da
paisagem, já estava pelo mestre, claramente definido no
croqui.
Sobre trabalhos de Mario Botta, pode-se fazer o mesmo tipo
de análise, já que algumas das publicações
(03)
disponíveis,
possuem, na sua diagramação, fotos e croquis das obras, na
mesma perspectiva. A arquiteto Lina Bo Bardi teve, embora
tardia, uma publicação
(04)
na qual podemos nos deleitar com
belíssimos croquis e compará-los para nossa sorte, não só
com fotos mas com a própria arquitetura, a exemplo do MASP.
Uma análise pormenorizada do croqui, que apresenta uma
vista do vão, no nível da avenida Paulista, revela, embora
numa perspectiva distorcida, a impressão da obra sobre o
observador; o impacto causado pela grande laje sobre nossas
cabeças pode ser pressentido com extrema clareza.
Não se pode deixar de relatar, também, a figura de Carlo
Scarpa neste panorama da linguagem do desenho, que
atualmente vem recebendo cada vez mais publicações, que
I.5. O croqui do arquiteto como objeto
artístico
(01)
35(sup.) e 36(esq.). Le Corbu-
sier. Croqui e foto do Palácio da
Justiça, Chandigarh, Índia.
34. Caderno de desenhos de Le
Corbusier. Prédio da ONU, Nova
York, 1947.
51
fazem jus à qualidade de sua obra. Uma análise de suas
pranchas de projeto
(05)
, na maioria das vezes repleta de dese-
nhos e pequenas anotações, revela um pensamento visual
preciso, coincidente com uma riqueza gráfica e expressiva
incomum e envolvente.
Em seu último número, a Revista Projeto publicou alguns
artigos e ensaios acadêmicos, voltados para a questão do
desenho do arquiteto. No artigo “O croqui e a paixão”
(06)
, de
natureza mais poética que analítica e investigante, o texto é
acompanhado por croquis de arquitetos brasileiros atuantes
no mercado nacional.
Em outro artigo
(07)
, mais propriamente um ensaio científico
sobre as relações entre “Desenho e arquitetura”, Jorge Sainz
faz algumas colocações que merecem uma análise mais
pormenorizada. Seu intuito principal é o de estabelecer
possíveis relações entre essas duas naturezas. Para ele, o
valor de um desenho arquitetônico não depende da obra, ou
seja, a qualidade gráfica de um desenho não implica na
qualidade arquitetônica do edifício que se representa,
pressuposto aqui também colocado como verdadeiro. No
entanto, o autor complementa que, como prova deste fato,
é que os esboços, que poderíamos entender como croquis,
estão isentos do vínculo com a escala, a proporção humana
ou as dimensões físicas e espaciais
(08)
. Esta última colocação,
como tentar-se-á demonstrar, é totalmente equivocada e fora
de propósito.
Os artigos citados abordam o croqui como todo e qualquer
desenho do arquiteto, parte do processo de projeto, ins-
trumentado ou não. Este tipo de classificação engloba
desenhos de observação da cidade ou do entorno, onde se
edificará a obra, vistas perspécticas internas e externas da
edificação, detalhes, como também plantas, cortes e
fachadas, de caráter mais analítico e técnico. Neste capítulo,
no intuito de estabelecer uma relação de proximidade entre
as teorias da arte aplicadas à figuração e o croqui, este deve
ser entendido somente como desenho não instrumentado,
37. (inf.) Mario Botta. Resi-
dência em Losone. 1987-89.
38. (dir.) Mario Botta. Resi-
dência em Viganello. 1980-81.
perspéctico e da fase de projeto referente à criação da obra
propriamente dita.
52
39. Lina Bo. Croqui do MASP.
Primeiros estudos. 1957-68.
53
O croqui se caracteriza pelo traço expressivo, como uma
assinatura, uma identidade entre o que o arquiteto pensa,
ou melhor, imagina e o que desenha. Como saber se esta
relação é verdadeira? Uma solução: comparar o croqui e a
obra já edificada. Outra: avaliar a qualidade da representação
espacial gráfica do espaço imaginado, o que envolve conhecer
perspectiva, por esta já ser culturalmente assimilada como
representação mais próxima daquilo que vemos, como o são
também a fotografia e o cinema. No entanto, Erwin
Panofsky
(09)
demonstra claramente, como visto no item I.3.,
as impropriedades desta colocação, se aceita como absoluta,
ou seja, como representante legítima de nossa percepção.
A perspectiva, normatizada por Brunelleschi no renascimento,
implica numa abstração da nossa percepção, para que o
produto, ou melhor, o desenho realizado segundo suas
normas, represente algo real, no caso, um espaço arqui-
tetônico. Exige observá-lo com um único olho, fixo no espaço.
Este espaço, que percebemos curvo pela própria configuração
da nossa retina, é no entanto, representado como a inter-
secção da pirâmide visual por um plano.
A primeira solução envolve uma comparação entre duas
coisas concretas, um desenho e um espaço edificado; a
segunda requer um conhecimento mais específico sobre a
representação visual, algo que esteve sob o domínio da arte
até este século. Característica básica do desenho do
arquiteto, especificamente do croqui, é a relação de
semelhança entre aquilo que se representa e a sua imagem
mental, ou aquilo que se deseja tornar verdadeiro, o desígnio,
tão bem colocado por Vilanova Artigas
(10)
e Luís Carlos
Daher
(11)
. Neste contexto, o croqui está mais próximo da
verossimilhança de Aristóteles. Mas o que estabelece a
equivalência entre uma e outra coisa é a experiência
perceptiva desenvolvida através da representação gráfica,
do desenho. Observar espaços, percebê-los em suas relações
formais, de escala, luz, cor, sem falar na questão do tempo
que implica na movimentação do observador neste espaço,
e representar tais percepções graficamente é a forma de
apreender uma realidade e configurá-la dentro de padrões
I.5.1 Croqui - Imagem mental
de escolha, inerente a um processo de ensino-aprendizagem,
institucionalizado ou não. Isto envolve captar esta realidade
através da mimese.
No entanto, o processo pelo qual se projeta, do qual o croqui
é ao mesmo tempo produto e instrumento, também envolve
outro conceito inerente a toda reapresentação, a abstração.
Estes conceitos serão abordados em sua evolução na história
da arte, a fim de elucidar a sua efetiva relação no desenho
do arquiteto. Essa abordagem no âmbito da história da arte,
coloca, no entanto, outra questão: conceber o croqui do
arquiteto como objeto artístico.
54
A arquitetura sempre foi considerada como uma arte do
desenho, pois se apresenta como um desenho (desígnio)
materializado. Contudo nos últimos anos alguns teóricos
defenderam o fim dessa disciplina nas faculdades, e o
desenho para alguns arquitetos tornou-se cada vez mais
supérfluo, frente a duas justificativas diversas mas relativas:
o desenvolvimento tecnológico da computação gráfica; e o
conceito de uma arquitetura industrializada, componível por
peças modulares, advinda de relações puramente racionais
e matemáticas, fundamentada cientificamente.
Como visto, são características do croqui do arquiteto a
mimese e a abstração. A primeira pela similaridade que o
croqui deve ter com a realidade, no qual se edificará o obra e
com a imagem mental do arquiteto. A abstração, de maneira
mais simples, implica também em estabelecer os conceitos
fundamentais na elaboração do projeto da edificação,
conceitos estes que determinam uma forma concreta. Ver-
se-á que estes dois conceitos, aparentemente diferentes
estão muito próximos, ou mesmo coincidem dependendo
do objeto analisado e da forma como se processa tal análise.
Pode-se dizer também que a arquitetura é uma arte abstrata
(com relação ao que a arte abstrata produziu neste século),
pois, exceto pelos apliques ou baixos relevos em motivos
inspirados em elementos da natureza, como flores, animais
e até pessoas, se qualifica pela sua independência frente
aos aspectos miméticos, característicos da pintura e da
escultura ocidentais pelo menos até o começo do século
XX.
No entanto, se forem consideradas as referências de escala
humana, de movimento no espaço físico e as relações de
proporção e luz-cor inerentes, associa-se a arquitetura com
o processo de mimese, porque é pela observação e pela
representação propícia, que estas características poderão
ser abordadas. Neste aspecto, a arquitetura (e não somente
o desenho desta) é uma arte realista, pois elabora coisas
reais e concretas.
I.5.2. Arquitetura - arte do desenho
Gabo
(12)
, artista do período construtivista russo, acreditava
que a arte, outrora representativa, havia se tornado criativa,
mas, ao contrário dos espaços matemáticos de El Lissitzky
(13)
,
baseava seu senso de espacialidade em recordações
naturalistas, de um espaço real. Em uma carta a H. Read
(14)
ele diz encontrar o conteúdo das suas formas em nuvens
levadas pelo vento, nas pedras sobre as colinas ou pela
estrada, ou mesmo nas curvas formadas pelas ondas do mar.
E ainda, que estas aparições, apesar de instantâneas, deixam
impregnada a imagem de uma dinâmica eterna.
Nesta situação, a mimese é fonte de conhecimento e, através
da abstração, ou seja, escolha de alguns elementos mais
importantes ou relações essenciais é que dar-se-á início ao
processo de projeto. Com referência ao desenho
propriamente dito, os croquis, geralmente são desenhos a
traço. O fato de representar-se planos de cor, de luz e sombra
através de linhas, que só excepcionalmente nos aparecem
observáveis na realidade, é um ato de abstração. Numa
relação contrária, quanto menos mimético o desenho se
apresentar, mais exigirá de nossa capacidade de abstração
para compreendê-lo enquanto representação.
Para alguns autores, como Carlo Maggiora
(15)
, Prof. da
disciplina de desenho da Faculdade de Arquitetura de Firenze
- que defendem a idéia de arquitetura como estruturação,
não de espaços, mas de pessoas, num espaço elaborado
através de massas construídas, edificações - o desenho e
particularmente o croqui, não é a linguagem, mas a
metalinguagem da arquitetura, pois a linguagem fica por conta
da própria edificação. No entanto o croqui é linguagem quando
se refere ao arquiteto, é a expressão deste, contém sua carga
de individualidade, que não perece, mesmo quando se busca
uma arquitetura standard, universal. A exemplo disto, podem-
se citar os desenhos dos construtivistas russos que constam
em Pioneers of Soviet architecture
(16)
, uma das mais
completas publicações, no que se refere a fotos e desenhos
do período.
A arquitetura construtivista russa, vanguarda que tem seu
desenvolvimento entre a revolução de outubro e o início dos
anos trinta, tem a razão, como o conceito norteador mais
importante, reestruturando as formas, para delas tirar todo o
supérfluo, toda arrogância burguesa do ornamento, das
curvas, das cores mal definidas, das variações de claro escuro.
Essa estética, difundida pelas vanguardas do primeiro pós-
guerra, em quase toda Europa, tem, como representantes
oficiais na arquitetura do ocidente, tanto pela importância de
suas atividades, quanto também pelo fato de serem
divulgados com maior freqüência, Gropius e Le Corbusier,
apesar das diferenças que os separam.
Para as vanguardas construtivas, a pintura e a escultura
deixam de ser representação para tornar-se construção de
uma nova realidade. A arquitetura perde seu caráter
compositivo clássico e sua simbologia. A concepção de
espaço é regulamentada pela física de Einstein - assim coloca
El Lissitzky
(17)
- a questão espaço-tempo é agora indissolúvel,
o que implica em imaginar não mais um espaço estático,
estabelecido por um único ponto perspéctico, mas um espaço
dinâmico, onde o usuário se movimenta e dele obtêm
informações diferentes. Para o arquiteto a mimese ou a
imitação se dá não mais da relação com um espaço natural,
mas de um espaço fruto de uma abstração matemática. Esta
mimese moderna se verifica não só na reprodução em larga
escala , na estandardização, na industrialização, mas na
elaboração de um sistema, conceito que Giulio Carlo Argan
(18)
opõe ao de método, diferenciando assim, respectivamente,
os pensamentos de Le Corbusier e Gropius. O sistema leva
ao estilo, que pela mimese será perpetuado, enquanto o
método permite busca de novas soluções, dentro ou não
de um determinado estilo.
55
A evolução do conceito de mimese ou imitação, passa por
diversas fases durante a história, variando apenas sutilmente
do elaborado pelos gregos desde o século V a. C.. Para
Sócrates, a mimese está associada à idealização; o artista
não imita, mas idealiza o modelo. Platão desprezará a pintura
e a escultura como artes menores, justamente por não
imitarem a essência, intrínseca ao conhecimento intelectual,
à idéia, e sim a aparência sensível de algo. Mas é em Arís-
toteles que se encontra, talvez, a argumentação mais precisa
e ainda contemporânea sobre a mimese.
Aristóteles, ao falar da poesia e suas espécies como imitação,
estende em alguns casos suas colocações às outras artes.
Pois tal como há os que imitam muitas coisas,
exprimindo-se com cores e figuras (por arte ou por
costume), assim acontece nas sobreditas artes:
na verdade, todas elas imitam o ritmo, a linguagem
e a harmonia, usando estes elementos separada
ou conjuntamente.
(19)
A imitação de Aristóteles, no entanto, não confere com a
idéia neoplatônica, que hoje possamos inadvertidamente ter
da cultura grega, sob sua influência: a mimese ligada
exclusivamente a um padrão ideal de beleza e esta como
sinônimo do bem.
Mas, como os imitadores imitam homens que
praticam alguma ação, e estes, necessariamente,
são indivíduos de elevada ou de baixa índole
(porque a variedade dos caracteres só se encontra
nestas diferenças (e, quanto a caráter, todos os
homens se distinguem pelo vício ou pela virtude),
que necessariamente também sucederá que os
poetas imitam homens melhores, piores ou iguais
a nós, como o fazem os pintores: Poligoto
representava os homens superiores; Pauson,
inferiores; Dionísio representava-os semelhantes
a nós.
(20)
I.5.3. A mimese e a abstração
56
Eis o conceito que diferencia: representação. O artista quando
imita, representa, traz à obra os aspectos que julga
importantes para elaborar determinada situação, valorizando
a característica de semelhança com a realidade, sua
aparência. A obra de arte, para Aristóteles, está a caminho
da existência, ponto que denominou de verossimilhança. Esta
estabelece um nexo, não com a realidade presente mas com
o que pode tornar-se possível. Aristóteles também concebe
a representação artística como uma possibilidade de
acréscimo ou correção da forma na busca da perfeição,
conceito este que difere da acepção neoclássica ligada à
beleza. Perfeição está associada à verdade, esta como
fidelidade intrínseca a um acontecimento sob um dos três
aspectos:
coisas quais eram ou quais são, quais os outros
dizem que são ou quais parecem, ou quais deveriam
ser.
(21)
Assim a verdade se confunde com persuasão pela arte,
mesmo que erros de representação sejam cometidos .
Pois falta menor comete o poeta que ignore que a
corça não tem cornos, que o poeta que a represente
de modo não artístico.
(22)
Para Aristóteles, a mimese, natural aos seres humanos, é
também um método de aprendizagem. Esta idéia foi a
essência dos métodos de ensino, principalmente no campo
da arte, que perduraram até o final século XIX, período no
qual se começou a substituir a representação pela criação.
Na Idade Média prevalece a tendência platônica da busca da
essência, mais de caráter espiritual que intelectual, em
detrimento da valorização do trabalho manual. A beleza está
associada ao divino e a relação entre esta e as artes é
meramente acidental. A pintura, a escultura e a arquitetura
eram consideradas artes servis, mundanas, e só com o
Renascimento isto viria a se modificar.
O conceito de mimese, difundido no quatrocento italiano pelos
mestres e teóricos renascentistas Leon Batista Alberti no Da
pittura, e posteriormente por Leonardo da Vinci no seu
respectivo tratado, ainda tem por definição a observação da
natureza como fonte para imitação pictórica. Alberti ressalta
o fato da aprendizagem do desenho e da pintura, arte a este
associada, estar vinculada à observação direta da natureza e
à escolha daquilo que melhor se assemelha ao belo. Leonardo,
no entanto, além da observação direta, preconiza, no seu
tratado, uma idéia que será a base do maneirismo: a
observação de obras de mestres já reconhecidos, que para
Da Vinci tem somente efeito de aprendizagem e não da
essência da arte. Aprender o desenho pelo desenho de
outrem, facilita a representação do observado diretamente
como fenômeno natural.
El jóven debe ante todas cosas aprender la
Perspectiva para la justa medida de las cosas:
despues estudiará copiando buenos dibujos, para
acostumbrarse á un contorno correcto: luego
dibujará el natural, para ver la razon de las cosas
que aprendió antes; y últimamente debe ver y
examinar las obras de varios maestros, para adquirir
facilidad en paracticar lo que ya ha aprendido.
(23)
No século XV predomina o espírito aristotélico, pelo qual a
beleza está presente na natureza e ao artista é dado o dom
de poder dela retirar e representar esses aspectos, essas
particularidades da aparência, já que se representa somente
partes dessa natureza, aquelas que se consideram providas
de beleza. A beleza é inerente ao objeto que se observa .
Deve-se ressaltar que, analisando os desenhos de Leonardo
Da Vinci, verifica-se muitas vezes uma tentativa de captar
peculiaridades pertinentes somente àquele objeto. Esta
clareza de observação, da verdade, fornece variedade e
multiplicidade à criação artística. No entanto, a preocupação
do mestre não estava relacionada particularmente à imitação
pura e simples, mas através dela realizar uma análise da
natureza e de seus processos. Aqui, a idéia da perfeição não
é aquela idealizada pelo homem, mas a que realmente se dá
enquanto processo natural. A perfeição está no entendimento
correto de tais processos. A arte, e principalmente o desenho,
é para Da Vinci forma de conhecimento; ela colabora, ou
melhor, é através dela e da observação que se pressupõe,
que se descobre a verdadeira realidade dos fenômenos, às
vezes modificados pela aparência. Este conhecimento não
têm finalidade em si mesmo, mas como fonte criadora. Esta
forma de pensar de Da Vinci o torna tão contemporâneo
quanto Paul Klee.
Argan
(24)
relaciona esses dois artistas quanto à posição
artística que viveram. Assim como Klee, Leonardo separou-
se conscientemente das características centrais da tradição
histórica vigente. Para Argan, os dois artistas não estavam
muito preocupados com o objeto artístico, mas com a maneira
pelo qual este é produzido. A forma, para eles, perde seu
valor imutável e se valoriza enquanto processo. Uma análise
dos escritos pedagógicos, durante o período como docente
na Bauhaus
(25)
, permite dizer que, na visão de Klee, a mimese
estava relacionada não à imitação, mas à compreensão da
essência da forma. Forma, para Klee, refere-se ao produto
gerado por um movimento. A mimese visa apreender o
desenvolvimento da forma, o ritmo da natureza e passá-lo
para o observador da obra. Esta idéia de movimento, que
relaciona forma e tempo, é o conceito chave para entender a
mimese no século XX.
No maneirismo, prevalece a idéia de uma natureza repleta
de imperfeições, pela qual os gênios, assim define Vasari,
como Miguel Ângelo, podem dar perfeição através de sua
representação pictórica.
No XVI, passa-se para um espírito platônico, onde prevalece
a Idéia, a essência a ser buscada não na particularização,
mas na generalização de um conceito, o de beleza. Tal
conceito, não material, pois é interno ao homem, se vinculará
no XVII ao gosto. Cada vez mais a idéia de beleza estará
57
relacionada a um padrão eidético preconcebido, clássico.
Mesmo no barroco, como afirma Germain Bazin
(26)
, eram
poucos os artistas que conscientemente se afastavam dos
princípios clássicos, geralmente por um processo de
exacerbação formal, por repetição ou deformação de
elementos, como Borromini e Guarini, ou por uma intensidade
da escala tonal, valorizando luzes e sombras, como Cara-
vaggio; Ressalta ainda a inexistência de tratados de estética
tipicamente barrocos, o que não descartou a tentativa de
alguns artistas na busca de uma individualidade expressiva.
A Arte, como representação de uma Idéia, terá o ápice de
seu desenvolvimento conceitual no XVIII, destacando-se Kant,
no que concerne aos aspectos relacionados à filosofia, e
Winckelmann à teoria da arte. Com este último, a relação
arte - essência se fortalece. A mudança sutil está no fato de
que se aconselha ao artista a imitação dos antigos, dos
mestres da antigüidade, e não a imitação da natureza, ou
dos mestres da renascença, como acontecia no maneirismo
frente ao renascimento. A imitação não estava propriamente
vinculada à individualidade do artista - da sua maneira - já
que a maioria das obras da antigüidade são de autoria
desconhecida, mas à essência que permeia a arte deste
período, na qual se baseia sua conformação plástica.
...Eles desejavam atingir a Beleza mais geral e mais
constante, e assim chegavam a dela eliminar tudo
o que era apenas acidente, a cor e mesmo a
sombra; o desenho, ao contrário, que, circuns-
crevendo a forma, é o elemento plástico mais
intelectual, tornava-se o único importante e se
reduzia à indicação dos contornos; o desenho a
traço, essa abstração, parecia-lhes o meio razoável
de realizar suas concepções.
(27)
A base romana do classicismo do renascimento transfere-
se agora para a Grécia. O ideal de beleza é grego e a natureza
exaltada por Winckelmann é o próprio homem. Este fato fará
o autor dar maior importância às esculturas.
..., o que cai por terra é simplesmente o ideal
barroco de uma arte total. Winckelmann tem horror
ao sentido de monumentalidade e de pompa, tão
característicos do barroco, e busca um elemento
puro, o mais simples possível. Nesse sentido,
poderíamos quase dizer que encontramos aqui um
comportamento abstrato, que não é evidentemente
absoluto, por encontrar-se sempre intrincado com
uma dimensão valorizadora e uma intenção
pedagógica. No barroco, nenhum elemento pode
ser isolado. E o isolamento de um elemento é
precisamente a obra de Winckelmann.
(28)
Esta citação é importante, pois compreende três aspectos:
primeiro, o Ideal defendido pelo autor, que Bazin não identifica
enquanto pressupostos teóricos dominantes. Segundo, a
questão da abstração, que ilustra a tentativa deste ensaio de
ver o processo mimético, associado ao da abstração para
sua existência; ou seja a mimese, cópia ou imitação ide-
alizada, pressupõe um nível mínimo de abstração, para que a
representação se configure; e, por fim, a questão diferencial
entre o barroco e o classicismo de Winckelmann.
O processo de depuração formal pleiteado pelas normas
neoclássicas, envolve colocar a razão como elemento de
discernimento e de escolha. A cidade é regida pela geometria;
a igualdade promulgada pela Revolução Francesa dá-se
através da régua e do compasso. Arquitetos como Boulée,
Ledoux e Poyet rejeitando frivolidades, fazem triunfar as
formas puras tratadas com economia, mas com
eloqüência: cubo, cilindro, esfera, cone, pirâmide.
Com eles, a arquitetura quer voltar às verdades de
sua função, a seus elementos constitutivos.
(29)
O mesmo se dá com os materiais, reconduzidos à sua
verdadeira natureza.
A nova doutrina reprova a arte barroca e rococó
como uma arte do efêmero, excitando fugidias
impressões segundo o inconstante capricho da
moda; quer que a arquitetura volte a ser uma arte
da permanência, e que nessa permanência o
homem reconheça não apenas a autoridade das
formas geométricas, simples e eternas, mas o
decreto de uma consciência que impôs sua marca
sólida na duração das coisas.
(3
0)
A teoria dos Corpos
(31)
, elaborada nesta época por Étienne-
Louis Boullée, representa, para efeito deste ensaio, um
exemplo preciso, no qual os conceitos de mimese e abstração
são interdependentes. Para se chegar à identificação da
essência da forma, ao conceito do que aquela determinada
forma representa, em termos de sensação, e por isso sim-
bólica, passa-se por um processo de abstração, no sentido
racional do termo. Mas primeiro foram os sentidos que a
perceberam; é da observação, inerente ao ato de mimese,
que a forma é primeiramente apreendida.
No projeto do cenotáfio de Newton, Boullée coloca
no centro da esfera imensa uma representação sol:
é à centralidade de um princípio luminoso, é à
expansão irresistível de seus raios que deve
subordinar-se todo o edifício.
(32)
O final do XVIII é marcado pela regeneração e restauração,
mais que pela inovação. A arte e a filosofia buscam a origem
do homem, situada no passado. Pintores e teóricos lêem
Mengs e Winckelmann, tentando recolocar a arte sob a
autoridade do pensamento.
A querela entre sensação e razão do século XVII, culmina no
XVIII com Kant. Sob a primazia da razão frente aos sentidos,
a imagem será despojada do estranho, do sensual. A arte
tem, para o filósofo, a função de transmitir pensamentos
elevados, complementando o conhecimento objetivo.
A beleza, no entanto, há muito deixou de ser algo inerente à
58
natureza, mas é obra do homem, da sua forma de ver o mundo
e representá-lo; daí a querela sobre o gosto apresentada por
David Hume.
Starobinski, ao fazer referência a Goya, como único pintor da
época alheio à doutrina do neoclassicismo, que permanece
fiel à cor e à sombra, o classifica como hostil à abstração
idealizante
(33)
. Citação interessante na qual a mimese ou
imitação de Winckelmann se transforma nitidamente em
abstração.
O retorno a uma percepção particularizada da natureza se dá
com o realismo pictórico do XIX. A beleza ideal perante a
era das revoluções - assim denominado por Eric Hobsbawm
(34)
o período entre a Revolução Francesa e o ano de 1848 , e
que poderíamos estender por todo o XIX até a Comuna de
Paris em 1870 - insere-se na busca da verdade.
Durante os trinta anos que antecedem 1848, as
idéias es os sentimentos que tinham encontrado
uma vitoriosa afirmação na Revolução Francesa
alcançam a sua maturidade. Nessa época, ganha
consistência a moderna noção de povo e os
conceitos de liberdade e de progresso adquirem
nova força e concretude.
(35)
Os artistas se engajam na luta revolucionária, Michelet,
Daumier, Baudelaire. Este último faz nascer o Le Salut Public,
jornal revolucionário. Hegel, por volta de 1830, defenderá que
o artista pertence ao seu tempo, e que o público tem o direito
de exigir de seus artistas obras que sejam compreensíveis
ao povo e que dele estejam próximas.
Diferentemente do formalismo estético kantiano,
o idealismo objetivo de Hegel reintegrava na
atividade estética um conteúdo histórico espe-
cífico.
(36)
A arte tenta representar a realidade humana como ela se
apresenta, com suas imperfeições, com suas desigualdades
e suas injustiças. O tema não é mais a natureza, mas a
artificialidade criada pelo homem, este dentro de um mundo
criado por ele mesmo.
A realidade histórica torna-se, assim, conteúdo da
obra através da força criadora do artista, o qual,
em vez de trair suas características, colocava em
evidência seus valores. Em outras palavras, a
realidade - conteúdo, agindo com seu prepotente
impulso dentro do artista, determinava também a
fisionomia da obra, a sua forma.
(37)
Por volta de 1860, era Courbet o artista realista mais
conhecido e admirado. Suas idéias também incluíam o artista
ligado ao seu tempo, percebendo o belo e a verdade, cabendo
à arte a função de encontrar a expressão mais completa desta
existência.
Para Hegel, o conteúdo é sempre a Idéia. Para outro teórico,
cujos pensamentos a esse respeito datam de 1858, De
Sanctis
(38)
, o fato da preexistência da Idéia compromete a
unidade forma-conteúdo. Para ele, a forma não é uma idéia,
mas algo concreto, uma coisa; e ao referir-se à poesia, dizia
que o poeta tem diante de si coisas e não idéias. Este
pensamento antecipa uma corrente filosófica de cunho
psicologista, que precedida por Konrad Fiedler, terá, em Alois
Riegl, na Escola de Viena e no suíço Heinrich Wölfflin, seus
principais representantes.
A próposito, Fiedler colocará, anos mais tarde (sem referência
explícita a De Sanctis):
Se equivocan quienes creen que el poeta maniobra
con conceptos, porque maneja palabras; poé-
ticamente, las palabras representam imágenes, no
conceptos.
(39)
A distinção entre o pensamento de De Sanctis e Fiedler é
sutil, mas importante para entender a linha que seguirão os
estetas a partir dele. A coisa concreta de De Sanctis, externa
portanto ao artista, representando objetivamente uma
realidade, transforma-se na visão de Fiedler em imagem, ou
seja, realidade interna do artista, seu mundo interior, mas
não uma idéia ou um conceito, uma imagem. Esta querela
será a base da teoria do autor.
Fiedler
(40)
faz uma análise do processo cognoscitivo humano,
como o homem apreende a realidade. Tenta demonstrar que
compreender o mundo é sempre criar uma nova realidade
interior. Critica as teorias que propõem, como única forma
de conhecimento, o distanciamento do aspecto sensível,
favorecendo o processo intelectivo, racional, responsável pela
formação da linguagem verbal, conceitual portanto. Para ele
quanto mais o homem se atrela aos conceitos, mais se
distancia da fonte primeira de toda realidade, o que leva
somente à limitação e não à liberdade. Para Fiedler a imagem
é o elemento - oposto ao conceito, à linguagem verbal -
característico do processo artístico, frisando o fato que
restringe suas colocações às artes figurativas (pintura e
escultura). Assim, postula que a diferença entre idealismo e
realismo é totalmente ociosa, já que para ele arte é em
essência ideal, ou não seria arte. Mas a arte é também
realista,
...., porque trata de producir aquello que para el
hombre es primerísima realidad, y es siempre
idealista, porque toda la realidad que crea es
producto del espíritu.
(41)
Si desde antiguo dos grandes principios, el de la
imitación y el de la modificación de la realidad, se
disputaban el derecho de ser la verdadera expresión
de la esencia de la actividad artística, parece ser
que sólo es posible un arbitraje en esta disputa, si
se crea un tercer principio y se lo coloca en lugar
de aquellos dos: el de la producción de la realidad.
Porque el arte no es otra cosa que uno de los
59
medios por los cuales el hombre llega a conquistar
la realidad.
(42)
Fiedler, ao associar a arte à criação e ao conhecimento de
uma realidade, sempre espiritual, estabelece que o que é
verdadeiramente significativo é a expressão da individualidade
do artista, é a construção da sua realidade, que não está
vinculada necessariamente à imitação, para que exista. Com
relação à arquitetura, pressupõe que sua configuração,
enquanto arte, derive de um impulso de conhecimento e que
estabeleça como meta este desenvolvimento. Fiedler
também coloca que não é pelo fato da sua aplicabilidade
prática, que a arquitetura deixa de ser arte como pensam
alguns; esta finalidade é na verdade a essência da arquitetura.
Se assim entendido, o croqui do arquiteto pode ser colocado
além de seu aspecto técnico de instrumentação projetiva,
como objeto artístico, já que é através dele que se conhece
e se constrói uma nova realidade, interior do arquiteto. É pelo
croqui que sua individualidade se expressa em primeira
instância para depois se materializar em espaço. (O que não
permite a simplificação de que desenho e obra arquitetônica
se equivaleriam enquanto objetos artísticos). O processo de
projeto, através de croquis, envolve conceber o projeto por
imagens e às sensações espaciais a esta inerentes.
Geralmente, as imagens não são muito nítidas e vão se
consolidando enquanto são plasmadas para o papel, ou seja,
não são mera representação; elas são produto e instrumento
de uma atividade cognoscitiva, na qual se busca uma síntese
do espaço. A arte, numa analogia a Klee, torna visível.
El pensar arquitectónico no es un simple combinar
e inventar, ni tampoco un formar y forjar de acuerdo
con leyes dadas, sino un proceso que lleva su única
ley en sí mismo, y que si quiere merecer el nombre
de pensar, deberá afanarse por elaborar el material
que le es dado y transformarlo en un producto
espiritual más y más puro. Sólo podremos
reconocer una conciencia arquitectónica, en
sentido artístico, cuando se haga visible en las
formas un proceso de desarrollo espiritual, cuando
aparezca en el desarrollo da las formas arqui-
tectónicas un afán vivo hacia una expressión
espiritual cada vez más pura. Y con respecto de
eso debemos recordar siempre que la forma, de la
que hablamos aquí como de algo espiritual, no debe
ser imaginada como si tuviese una existencia
independiente, desligada de toda materia, como si
el espíritu pudiese forjar una forma basándose en
ciertas reglas y leyes y la pudiese expresar en la
obra arquitectónica y corporizarla en ella; más bien
debe comprederse que la forma no tiene existencia
sino en la materia, y que, para el espíritu, la materia
no es simplesmente un medio de expressión de la
forma, sino el material en el cual la forma llega por
sí misma, a la existencia.
(43)
Fiedler determina que, para o processo de plasmação se
efetivar é necessário ao artista o domínio da técnica. No caso
do arquiteto, e do desenho deste, poder-se-ia supor que a
técnica não é material, mas intelectual, estaria ligada ao
domínio da representação perspéctica, da construção de um
espaço segundo normas advindas da nossa percepção,
mesmo que abstraídas. A mimese no desenho do arquiteto
é condição essencial. Fiedler a estende à arquitetura.
Así como es fácil reconocer que la pintura y la
escultura no pueden alejarse de la naturaleza sin
prejuicio, es menos fácil comprender la íntima
relación que también debe exigirse, neces-
sariamente, entre la arquitectura y la naturaleza.
Aquí lo que importa es una unión íntima de la forma
artística con el núcleo de la estructura. La naturaleza
ofrece aquí un modelo eternamente cambiante,
pero que en principio permanece fiel a sí mismo, y
sólo el arquitecto que, e ese sentido, retorne
siempre a la naturaleza, realizará obras
excelentes.
(44)
60
Na busca do pictórico na natureza, ou seja, na mimese, tanto
imitação como representação de um ideal de beleza, se
identifica um processo de abstração. A abstração, enquanto
conceito, significa literalmente, segundo José Ferrer Mora
(45)
,
pôr de parte, isolar. Quando isto se dá por um processo mental
e não físico, a abstração passa a ser um modo de pensar,
pelo qual separamos algo de algo, conceitualmente.
No século XX, a arte moderna, mais especificamente a
corrente abstrata - termo impróprio segundo alguns autores
- se desvincula da representação da realidade. Influenciada
pelos conceitos primeiramente elaborados por Fiedler, a arte
se propõe como uma forma de conhecimento, diversa
essencialmente do processo cognitivo racional e objetivo,
que se dá através de conceitos e idéias, e no qual a abstração
está corretamente inserida. Nas vanguardas do começo do
XX, esta suposta abstração poderia ser melhor entendida
dentro do pensamento de Ortega y Gasset
(46)
, quanto à obra
intitulada A desumanização da arte. A arte do período, na
verdade, nada abstrai, mas se desumaniza, na medida em
que, na obra de arte, não se vê projetada a experiência
humana real, mas simplesmente a experiência estética. No
caso da pintura, a essência da obra está nela mesma,
supremacia da sensibilidade pura; o suprematismo de
Malevitch é o zero na arte, numa analogia matemática
elaborada por Lissitzky. A quebra deste vínculo milenar
possibilitou às artes, sem dúvida, uma enorme liberdade
criativa.
No entanto, a arquitetura, enquanto atividade artística - até
o modernismo, mais compositiva que criativa ou construtiva
- nunca abdicou do desenho, este entendido agora como
projeção de uma experiência humana, de uma realidade, que
no processo de projeto encontra-se num estágio de vir a ser,
tornar-se materialidade (verossimilhança). O croqui do
arquiteto, ainda hoje prescinde de uma identidade, de uma
afinidade com a realidade. O croqui materializa, ainda no papel,
imagens que tornar-se-ão realidade. É neste contexto que o
pensamento de Jorge Sainz (Ensaio Desenho e arquitetura),
I.5.4. Abstrair ou Desumanizar
relatado no início é equivocado. O croqui, como instrumento
de projeto, necessita, sim, de um vínculo com a escala, com
a proporção humana e, principalmente, com relações
dimensionais do espaço. Sem isso, não se consegue pensar,
imaginar ou criar arquitetura.
61
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Studi per il propetto e la sezione. Matita e patelli su cartoncino,
440x 995 mm.”In: DAL CO, Francesco. op.cit. p.276.
5. “Progetto di concorso per il testro Comunale di Vicenza,
1968-69. Studio per la pianta, matita e pastelli su velina, 299x
434 mm.” “Schizzo assonometrico, matita su velina, 93 x
157 mm.” In: DAL CO, Francesco. op.cit. p.92.
6.”DOMED CHURCH, OBELISK AT LEFT. Pen and black chalk;
a few extraneous lines in red chalk. (112 x 178 mm).”In:
STAMPLE, Felice. Giovanni Battista Piranesi. New York:
Dover, 1978. p.119.
7. “Églises à developpements pluricoupolaires.”In: SARTORIS,
Alberto. Léonard - Architecte. Paris: Mansart, s/d. p. 127.
8. “Edgar J. Kaufmann House Fallingwater , Bear Run, Penn-
sylvania, 1936.” In: DREXLER, Arthur. The Drawings of frank
Lloyd Wright. London: Thames and Hudson, 1962. p.139.
9. “Plans et détails d’églises à coupoles. “ In: SARTORIS,
Alberto. op.cit. p. 169.
10. “Erich Mendelsohn. Almacenes Schocken, Stittgart. Cons-
truido em 1926-1928. Grafito y sanguina. 32,9 x 24,3 cm.
Kunstbibliothek Berlin.”In: LAMPUGNANI, Vittorio Magnano.
Dibujos e textos de la arquitectura del siglo XX. Uto-
pia y realidad. Barcelona: Gustavo Gili, 1983. p. 43.
11. “Chandigarh, Main Ouverte. La Fosse de la Considération.”
In: JEANNERET-GRIS, Charles Édouard. Le Corbusier er son
atelier rue Sèvres 35. Oüvre Complète 1952-1957. Vol.
6. Zürich: Artemis, 1957. p.92.
12. Croquis de observação in loco de Le Corbusier, durante a
visita à Grécia. In: JEANNERET-GRIS, Charles Édouard. To-
wards a new architecture. London: The architectural Press,
1987. p. 190 2 194.
13. Diferentes estágios da Maison de L’Homme em Zurich.
In: JEANNERET-GRIS, Charles Édouard. Le Corbusier er son
atelier rue Sèvres 35. Oüvre Complète 1952-1957. Vol.
8. Zürich: Artemis, 1957. p.144.
14. Foto de Schulh, Zollikon. In: JEANNERET-GRIS, Charles
Édouard. op.cit. Vol. 3, 1957. folha de rosto.
15. “Maison individuelle à Morbio Superiore. Project 1982,
Construction 1983.” In: BOTTA, Mario. Architectures 1980-
1990. Barcelone: Gustavo Gili, 1971. p.72.
16. In: BALDRICH, José Maria Gentil. La interpretacion de la
SCENOGRAFIA Vitrubiana o una Disputa Renascentista sobre
el Dibujo del Proyecto. EGA. Revista de Expresion Grafica
Arquitectonica
..
..
. año 1. n.1. Valencia: 1993, p.19.
17. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit. p.18.
18. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit. p.21
19. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit. p.28
20. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit.
21 e 22. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit. p.28
23. In: PANOFSKY, Erwin. Arquitetura Gótica e Escolástica.
Sobre a analogia entre arte, filosofia e teologia na Idade
Média. São Paulo: Martins Fontes, 1991. il.57.
24. In: PANOFSKY, Erwin. op. cit. il. 19.
25. In: PANOFSKY, Erwin. op. cit. il.45.
26. In: BALDRICH, José Maria Gentil. op.cit. p.29.
27. In: SHARP, Dennis. Historia en Imagenes de la Arqui-
tectura del siglo XX. Barcelona Gustavo Gili, 1973. p.90
28. In: BENEVOLO, Leonardo. Historia de la arquitectura
moderna. 2
a
. ed. Barcelone: Gustavo Gili, 1976. p.564.
29. In: BENEVOLO, Leonardo. op. cit. p.557.
30. In: BENEVOLO, Leonardo. op. cit p. 565.
31 e 32. In: CULLEN, Gordon. El Paisaje Urbano. Tratado
de estética urbanística. 4a. ed. Barcelona: Blume, 1981.
p.17
33. In: CULLEN, Gordon. p.120.
34. “L”ONU à New York sur l’East Rivar, 1947”. “Ce carnet de
poche de L-C contenent 61 pages, avait disparu pendant deux
années du coffre-fort de l’institut de Boston. Ces 61 feuillets
datés du 28 janvier au 11 mai 1947, contiennent de
développement révélateur des études du siège de L’ONU”.
In: JEANNERET-GRIS, Charles Édouard. op. cit. vol.5. p.39.
35 e 36. In: JEANNERET-GRIS, Charles Édouard. op. cit. Vol.6.
p.57.
37 e 38. In: BOTTA, Mario.op. cit. p.103 e 50
39. In: BARDI, Instituto Lina Bo e P. M. Lina Bo Bardi. São
Paulo: I.Lina Bo e P.M. Bardi, 1973. p.101.
I.6. Índice das ilustrações
o croqui do arquiteto e o ensino do desenho
Anna Paula Silva Gouveia
Orientador: Prof
a
. Dr
a
. Élide Monzeglio
Tese de Doutorado
FAU USP
1998
Volume II
O desenho e o
processo de
projeto
Abrahão Sanovicz
1
Este volume apresenta-se como resultado da pesquisa com
arquitetos sobre a questão do desenho e do processo de
projeto. Está dividido em duas partes, denominadas res-
pectivamente: Laboratório de Pesquisa e Entrevista com
arquitetos.
Da primeira constam os resultados obtidos com arquitetos,
pós-graduandos da FAU USP, que cursaram a disciplina
AUP842 - Projeto de Arquitetura Urbana. O termo laboratório
foi escolhido devido às possibilidades geradas pelo
acompanhamento do trabalho de um grupo restrito,
constante, em um determinado período de tempo, em um
mesmo ambiente, tendo, de certa forma, um mesmo
problema a ser resolvido.
Da segunda parte constam a transcrição literal das entrevistas
realizadas com os arquitetos Abrahão Sanovicz, Joaquim
Guedes e Paulo Mendes da Rocha e algumas considerações
importantes para compreender a relação entre desenho e
projeto, que fundamentam as conclusões finais apresentadas
no terceiro volume.
Apresentação do Volume II
O desenho e o processo de projeto
2
Sumário
Estudo de caso - Laboratório de Pesquisa - Apresentação
O perfil dos entrevistados
As entrevistas
A disciplina AUP - 846. Laboratório de pesquisa
A. A postura docente
B. O perfil do aluno arquiteto
Conclusões
Notas e referências bibliográficas
Alunos matriculados na disciplina AUP -846. 1
o
.semestre 95
Entrevistas com arquitetos - Apresentação
Notas e referências bibliográficas
Paulo Mendes da Rocha
Entrevista / Perguntas
Entrevista / Respostas
Joaquim Guedes
Entrevista / Perguntas
Entrevista / Respostas
Abrahão Sanovicz
Entrevista / Perguntas
Entrevista / Respostas
Conclusões
Notas e referências bibliográficas
Anexo
Obs.: Os desenhos deste volume foram fotografados diretamente dos originais fornecidos pelos
arquitetos, com exceção dos apresentados nas páginas 69 e 87. (v. legenda)
II.1.
II.1.1.
II.1.2.
II.1.3.
II.1.4.
II.2.
II.2.1.
II.2.2.
II.2.3.
II.2.3.
3
4
5
6
6
8
36
38
39
40
41
42
44
67
69
77
79
95
105
106
3
As considerações a seguir foram formuladas a partir de
pesquisa realizada com os alunos da disciplina AUP - 846 /
Projeto de Arquitetura Urbana, durante o primeiro semestre
de 1995. A disciplina em questão, de responsabilidade do
Prof. Dr. Joaquim Guedes e com colaboração do Prof. Dr.
Adilson Macedo, tinha por finalidade o desenvolvimento de
um projeto, em predeterminada localização, no caso, o
quarteirão formado pelas vias: Avenida Faria Lima e ruas
Pinheiros e Teodoro Sampaio. A área caracteriza-se pela
crescente modificação devido ao alargamento da Faria Lima
e conseqüente desapropriação e demolição de imóveis; além
disso, está prevista futura instalação de estação do Metrô,
da qual decorre uma imediata valorização do solo vinculada
à mudança, ou certa elitização do uso.
A disciplina foi acompanhada passo a passo: todas as aulas
foram registradas por escrito, o que inclui, além do
pronunciamento dos professores, discussões informais, visita
ao local e seminários de apresentação de trabalhos. Também
se procurou registrar o desenvolvimento dos projetos,
fotografando os croquis e os desenhos de apresentação nos
seminários em diapositivos coloridos. Desses croquis, muitos
foram desenvolvidos nas próprias aulas.
Para efeito de obtenção de dados mais específicos,
relacionados com a problemática do desenho - já que as
discussões na disciplina priorizavam a questão do projeto
arquitetônico e não propriamente o desenho para o projeto,
ou mesmo o projeto através do desenho - foram entregues
aos alunos duas entrevistas, cujos modelos são apresentados
em anexo (V. final vol.II)
II.1. Estudo de caso
Laboratório de pesquisa
Apresentação
4
Dentre os alunos inscritos (23 no total), compareceram
inicialmente 19. Destes houve 2 desistências; um deles ainda
teve parte do trabalho registrado, mas foram desconsiderados
para efeito de tabulação e análise dos dados. Totalizou-se,
então, 17 entrevistados, considerados como o total para
cálculos percentuais. Destes, 15 são arquitetos projetistas,
ou seja, trabalham com projeto de edificações, como
profissionais liberais. Apenas dois são funcionários públicos
(excluindo aqui professores de universidades públicas) e 10
são professores universitários em faculdades ou cursos de
arquitetura.
Quanto à experiência profissional, sete (7) são recém-
formados, com menos de três (3) anos de conclusão de curso,
portanto, aqui considerados arquitetos juniores. Quatro (4)
têm entre 3 a 10 anos de experiência na área, considerados
arquitetos plenos e seis (6) têm mais de 10 anos de
conclusão, para efeito desta pesquisa, arquitetos seniores.
O alto número de arquitetos plenos e sêniores é importante
para validar uma pesquisa, na qual se constata que a
legitimidade e a pertinência das respostas obtidas variam
com a experiência profissional e com a própria vivência do
entrevistado.
Quanto à formação propriamente dita, cinco (5) cursaram a
FAU USP, dois (2) vêm de escolas federais, nove (9) de
particulares ( um destes têm também formação anterior em
Desenho Industrial no Chile) e 1 do exterior (Alemanha).
Destes totais pode-se dizer que a formação é bastante
heterogênea, com certa predominância das escolas
particulares, o que oferece pesquisa em maior abrangência
e diversificação do perfil.
No entanto, verificou-se ser mais importante para a
pertinência das respostas, mesmo para o que se refere ao
desenho propriamente dito, a experiência do entrevistado e
não sua formação. Isto, aliado a outros dados, vem
demonstrar que as escolas encaram o ensino do desenho na
arquitetura como secundário ao aprendizado profissional, não
II. 1.1. O perfil dos entrevistados
fundamental para o desenvolvimento do aluno no curso e na
vida profissional. O desenho, utilizado como instrumento para
projeto de arquitetura, tem, então, seu aprendizado com a
prática profissional, a vivência e a experiência, na medida
em que as necessidades se apresentam.
5
Foram duas as entrevistas realizadas com os alunos. A pri-
meira de caráter mais amplo, na qual se pediu ao entrevistado
algumas considerações sobre:
o seu processo de projeto.
a relação desenho e projeto (especificamente projeto
de edificações). O desenho enquanto instrumento (ou
não) de projeto.
a(s) característica(s) da imagem mental do edifício (do
todo ao detalhe).
as facilidades e/ou dificuldades quanto ao Desenho.
Retrospectiva de aprendizagem: problemas e soluções
alternativas.
No entanto, foi explicado ao entrevistado, no ato da entrega,
em meados do curso, que tais considerações não se res-
tringiam ao trabalho relacionado à disciplina. Também, nesta
entrevista foram pedidas ao entrevistado maiores infor-
mações sobre sua formação e atividades atuais.
A segunda entrevista, elaborada e entregue aos alunos
somente nas últimas aulas do curso, possuía um caráter mais
específico, tanto no que se refere ao conteúdo das questões
e à forma com que foi elaborada (múltipla escolha, na es-
trutura geral), quanto à restrição dos entrevistados se aterem
exclusivamente ao projeto desenvolvido na disciplina em
questão.
Em primeira instância, eram os objetivos desta parte da
pesquisa:
aproximar o discurso do âmbito do projeto, já que, no
estágio em questão, não mais se podia dissociar
desenho de projeto arquitetônico, no que se refere ao
ensino de desenho na arquitetura.
a partir da observação do desenvolvimento dos projetos,
tentar estabelecer como se dava a formação da imagem
do edifício que estava sendo projetado e estabelecer
as etapas de projeto utilizadas pelo arquiteto, reestru-
II.1.2. As entrevistas
turando o método e se este estava de acordo com o
método apresentado pelos professores.
Adotou-se, como metodologia de pesquisa, além de notações
por escrito, fotografar os desenhos em diapositivos coloridos
(slides), conforme se desse a execução dos mesmos. Foram
ao todo 143 diapositivos, fotografados in loco, sob luz natural.
Quase todos os alunos (exceto aqueles que não
desenvolveram o projeto por meio de desenho ou desistiram
da disciplina) tiveram seu trabalho fotografado até o estágio
do seminário ou antes da entrega final. Esta última etapa, ou
seja, as pranchas entregues para exposição, com o projeto
de acordo com representação gráfica adequada para tal, não
teve registro fotográfico por dois motivos: o primeiro de ordem
técnica - as pranchas foram montadas sob superfície de
acrílico e em lugar com luz insuficiente para fotos; o segundo
de ordem conceitual: o desenho relativo à apresentação de
projetos não é de interesse desta pesquisa, apesar de alguns
projetos terem sido modificados ou, em alguns casos, só
aparecido enquanto estrutura física, volumétrica, definida, nas
pranchas finais.
No decorrer da pesquisa, além das aulas proferidas pelos
professores, seminários e debate sobre os trabalhos, também
conversas e colocações informais sobre determinados
assuntos relacionados ao entrevistado e à sua postura frente
à disciplina foram anotados. As entrevistas surgiram
posteriormente quando se verificou a viabilidade das mesmas,
pois sem a participação, o interesse e a gentileza dos alunos,
tal resultado não teria sido possível. A interpretação e análise
dos dados não pode ser coerente em uma pesquisa como
essa, sem levar em conta o processo e a vivência dos
entrevistados. Como se verá, nem sempre as respostas
escritas conferem com o que foi dito informalmente, com o
que foi colocado no papel, ou com a maneira com a qual foi
elaborado o projeto.
Com a pesquisa em andamento, outros objetivos tornaram-
se importantes:
verificar a validade da pesquisa com relação à realidade
do projeto, constatando se o método e o processo
desenvolvidos no projeto desta disciplina eram
compatíveis com os que o entrevistado fazia uso
habitualmente.
relacionar imagem mental do edifício e os desenhos
(croquis) desenvolvidos para o projeto, ou seja, verificar
se o desenho utilizado pelo arquiteto era representação
direta da imagem mental (o que indica uma relação de
semelhança mas não de igualdade), já que uma imagem
é mental e a outra é material. Por outro lado, poder-se-
ia verificar também se o desenho estava sendo usado
como simulação do espaço tridimensional (pers-
pectivas), ou somente como código visual em duas
dimensões, (plantas , cortes, esquemas de fluxo, etc) a
ser posteriormente decifrado como correspondente
tridimensional.
É necessário colocar que nem todas as fichas de entrevistas
foram devolvidas. Apenas 11 alunos devolveram a primeira,
o que resulta em 64,7% do total e 15 devolveram a segunda,
aumentando para 88,2%. No entanto, para conformação do
perfil dos entrevistados, foram consideradas também as
informações obtidas em conversas informais.
6
Não cabe aqui um relatório completo das aulas e dos
seminários, devido às proporções que seriam alcançadas. A
opção encontrada propõe sinteticamente três etapas:
A. Relacionar os principais pontos destacados pelos
professores, concernentes ao método de projeto e
outras questões correlatas.
B. Traçar um perfil de cada aluno frente às informações
obtidas.
C. Estabelecer conclusões para os objetivos, predefinindo,
assim como outras que se façam necessárias quando
da análise e cruzamento dos dados.
II.1.3. A Disciplina AUP-846
Laboratório de Pesquisa
A. A postura docente
Pode-se dizer que a postura adotada pelos professores
durante o curso diz respeito, na sua estrutura eidética e
metodológica, à forma de pensar do Prof. Joaquim Guedes,
apesar da discordância, em alguns pontos, do Prof. Adilson
Macedo.
Inicialmente, ficou claro que a preocupação principal estava
no fazer arquitetônico. O Prof. Guedes, na sua aula inaugural
(17/03), advertiu os alunos de que hoje ninguém sabe mais
com certeza o que é fazer arquitetura.
(1)
Associado a isto,
outra preocupação que permeou as discussões princi-
palmente nas primeiras aulas e seminários: o desenho urbano.
No seu discurso, este aparece vinculado à arquitetura e esta
a ele:
Entendemos arquitetura como fazer urbano.
Arquitetura isolada não é arquitetura.
Arquitetura nos obriga a fazer para a cidade.
Às questões anteriores alia-se uma terceira, que permeou
as discussões dos seminários: a construção. Conceito
colocado como condição necessária ao projeto, e que não
se refere à edificação da obra propriamente dita, mas à sua
lógica intrínseca, ou ao raciocinar o projeto em termos
construtivos, desenhar tecnicamente com critérios de
tecnologia rigorosos.
Inventar enquanto projeto é inventar a construção.
O projeto de arquitetura foi colocado, de início, também como
uma solução das necessidades do cliente, para depois
aparecer problematicamente como um todo, um sistema.
O sistema, ou projeto como um todo, aparece
descobrindo a síntese, que muitos perseguem a
vida inteira.
7
Complementando esse pensamento, colocou o Prof. Adilson
que a finalidade do projeto arquitetônico estava em
estabelecer relações entre espaços, movimentos e
atividades. Ressaltou a importância dos croquis, pois a
disciplina alcançaria somente a fase de um estudo preliminar
avançado e terminou explicitando a orientação metodológica
docente com relação ao fazer arquitetônico na disciplina:
No fundo, é a metodologia clássica do projeto.
Esta é talvez a questão mais difícil a ser respondida; será
que existe uma metodologia clássica, fora dos livros? Todos,
já que tiveram formação acadêmica, trabalham desta
maneira?
Tal método clássico, foi, pelo Prof. Adilson, explicitado
segundo o esquema:
Numa 1
a
. etapa
análise do sítioanálise do sítio
análise do sítioanálise do sítio
análise do sítio
solicitação do projetosolicitação do projeto
solicitação do projetosolicitação do projeto
solicitação do projeto
programa de necessidadesprograma de necessidades
programa de necessidadesprograma de necessidades
programa de necessidades
teoria do projetoteoria do projeto
teoria do projetoteoria do projeto
teoria do projeto
programa do arquitetoprograma do arquiteto
programa do arquitetoprograma do arquiteto
programa do arquiteto
estudo preliminarestudo preliminar
estudo preliminarestudo preliminar
estudo preliminar
estudo preliminarestudo preliminar
estudo preliminarestudo preliminar
estudo preliminar
anteante
anteante
ante
-projeto-projeto
-projeto-projeto
-projeto
projeto executivoprojeto executivo
projeto executivoprojeto executivo
projeto executivo
p/ efeito dessa disciplina
Etapas posteriores:
Também foi ressaltada pelo Prof. Adilson a idéia de ir refazendo
coisas em função da crítica, refazer espaços e alternativas.
O Prof. Guedes enfatizou a racionalidade na decomposição
das necessidades, por conjuntos e sub-conjuntos. A
arquitetura deve, segundo ele, ser produzida por reflexões.
Desta análise resulta o programa e só então as primeiras
idéias de volumes úteis abrigáveis. Esta “metodologia de
particularização”, se assim pode ser chamada, se justifica,
segundo o professor, para poder retornar ao todo, a partir de
um pleno conhecimento de cada parte, com maior
determinação e rigor investigante, procurando chegar a um
subsistema de espaço.
Aconselha que, numa primeira fase, deve-se retardar o projeto
propriamente dito; o desenho deve favorecer a análise gráfica
do sistema de espaço, não se tratando ainda de concepção
em planta. Tal procedimento amadurece as carências do
cliente, amplia o programa, gera o programa ampliado do
arquiteto.
Dá-se, então, só posteriormente ao escrutínio do problema
pela reflexão, a transformação desta análise em planta. Nesta
fase é interessante, segundo o professor, ficar disponível aos
volumes que vão surgindo. Esta investigação é tão rica que
ela vai atendendo aos volumes. Dá-se, assim, a conformação
do projeto.
Voltando à questão da arquitetura como desenho urbano, o
Prof. Guedes, com relação ao trabalho da disciplina, alertou
os alunos para que se perguntassem sobre como seria
possível modificar aquela paisagem no projeto, como poderia
vir a ser a nova cidade com o desenho. Insistiu para que os
alunos visualizassem a transformação da realidade física com
a eclosão de novos edifícios.
Antes do desenho, a formulação dos acessos. No desenho,
enfatizar desenhos parciais e sub-desenhos. Mas antes ir ao
terreno verificar o entorno:
8
Situar-se do sítio no local.
Nas primeiras aulas o desenho foi colocado numa concepção
mais abrangente, em todas as possibilidades e não como
forma do edifício propriamente dita.
Nós vamos produzir desenho, nosso instrumento
intermediário de reflexão.
Outra sugestão metodológica proposta pelo Prof. Adilson ao
dar-se conta do descompasso de experiência na turma :
Dentro do método de análise do programa, vai-se
obrigatoriamente passar pelas garagens,
circulação, elevadores, dimensionamentos preli-
minares. Procurem ver outros projetos, códigos de
segurança, insolação, ventilação, coisas que num
prédio grande envolvem espaço e influem no
projeto.
Um dos caminhos possíveis, comentou ainda, seria relembrar
quais os bons edifícios em São Paulo, ou internacionais, e
também arquitetos importantes do setor. Fazer uma análise
dessas obras, tentando estabelecer o que é o edifício
inteligente.
Ver-se-á mais adiante que tais observações foram seguidas
“à risca” por dois alunos, um sênior e outro pleno, que nem
por isso deixaram de receber críticas ao projeto na
apresentação dos seminários. No entanto, nenhum arquiteto
júnior mostrou o mesmo empenho ao seguir tais orientações.
Colocaram-se também outras discussões, aqui descon-
sideradas, talvez muito mais longas, como, por exemplo, o
papel do poder público em relação ao solo urbano e seus
usos, a preservação ou não do edifício do CREA no projeto
em questão, etc.
Com a apresentação dos seminários e o debate sobre os
trabalhos, a posição do Prof. Guedes em relação às posturas
metodológicas dos alunos - arquitetos ao desenvolverem o
projeto - foi ficando mais clara. No entanto, é difícil esta-
belecer o limite no qual terminavam as críticas do processo
e começavam propriamente as críticas ao projeto enquanto
edifício.
De maneira geral, essas críticas giravam em torno da
preocupação formal dos alunos para com o projeto, antes de
se ter resolvido os problemas de análise do programa
expandido. Tal vínculo à forma, que aqui se classifica enquanto
imagem, e Vittorio Gregotti
(2)
enquanto figura, leva, segundo
o Prof. Guedes, ao formalismo vazio, à forma pela forma, à
escravidão figurativa. A criação subjetiva da forma, antes de
resolvidos os problemas de programa e de tecnologia
construtiva, foi colocada como um fator secundário e, na maior
parte dos casos, como prejudicial ao andamento do processo
de projeto. A forma do edifício, a figura deveria ser a última a
aparecer.
B. O Perfil do aluno - arquiteto
As considerações aqui realizadas não são acompanhadas
pelos respectivos nomes dos entrevistados. Estes integram
uma lista anexa ao final desta primeira parte.
Tais considerações não têm por objetivo estabelecer um perfil
de caráter psicológico, no sentido científico do termo, devido
à não formação desta pesquisadora na área. O que aqui se
pretende é fornecer ao leitor, e mesmo para fins conclusivos
deste trabalho, elementos ou subsídios que esclareçam ou
tornem mais fácil a compreensão de determinados
comportamentos frente ao desenvolvimento do trabalho e
das respostas dadas. Também não se pode deixar de relatar
que as impressões aqui relatadas são de ordem estritamente
individual e dependeram, também, de como esta pes-
quisadora se relacionou com os entrevistados. Alguns destes
permaneceram todo o curso afastados, dificultando uma
aproximação que pudesse revelar mais sobre si mesmos.
Outros só tornaram possível um contato mais pessoal na
última aula, quando da exposição dos trabalhos.
9
Consideração importante sobre o perfil deste aluno é ele ser
orientando do Prof. Guedes. A responsabilidade deste fato,
frente aos colegas e ao professor orientador, justifica seu
comportamento durante o todo o curso. Professor de projeto
de edificações, foi um dos últimos a se expor em seminário
(9
a
. aula).
Este aluno participou amplamente de todas as discussões e
debates, pesquisou com tenacidade bibliografia relacionada
ao projeto e foi o que relatou ter dedicado maior número de
horas no desenvolvimento do projeto. Foi também quem
respondeu à 2
a
. entrevista com maior afinco, redigindo muito
mais do que o sugerido. No entanto, do seu trabalho só foi
possível fotografar um único croqui, retirado de um caderno
comum, pautado, depois de muita insistência, pois sempre
dizia que ainda não havia decidido o que fazer. Fica claro, e
isto coincide com sua resposta, que o desenho enquanto
grafismo, seja este instrumento de projeto ou de repre-
sentação de imagens mentais, não foi utilizado. O entrevistado
coloca o desenho como um conjunto de atos, desígnio. Fala
arquiteto 1
de maneira genérica, pois todo o processo por ele utilizado,
ou o que pode ser constatado pelo pouco que deixou exposto,
é de natureza mental. O projeto é construído mentalmente e
só mais tarde passado para a linguagem gráfica. E esta
linguagem, no caso, parece apenas representar algo, e não
auxiliar no seu desenvolvimento. A primeira imagem do
edifício, responde, é uma idéia, um conceito, espacial mas
não figurativo e acrescenta: estratégia de controle da natureza
própria para uso humano, econômica e elegante.
Não passou a imagem diretamente para o papel, quando esta
surgiu, mas esperou amadurecer. Na seqüência, também,
coloca que quando a grafou, foi de forma lógico-figurativa,
por esquemas e organogramas. Esta forma de raciocínio, não
figurativa por excelência, não precisa no projeto do desenho
enquanto aliado. O entrevistado admite que o curso modificou
o seu método, ordenando as etapas de reflexão, como se
verá mais adiante do relato do seminário.
Voltando à questão da postura de “não se expor”, reclamada
por outro aluno como um dos principais problemas do curso,
este caso revela a não exposição do projeto, de uma escolha
frente às várias alternativas possíveis, embora este
entrevistado sempre expusesse suas idéias, opiniões e
críticas em aula ou em reuniões informais, com os colegas
do curso, desde o início, ressaltando-se como uma pessoa
simpática, cordial e extrovertida.
Também não foi possível fotografar as pranchas apresentadas
em seminário, pois estavam desenhadas a grafite muito claro
e fino, provavelmente uma mina 0.3 F ou H, tanto que para
serem lidas tinha-se que observá-las a pequena distância.
Apesar do interesse desta pesquisadora no registro das
pranchas e na insistência em pedir para que fossem trazidas
para foto, isto não ocorreu.
No seminário, o aluno procurou mostrar que seguiu a
metodologia especificada pelo professor orientador. Primeiro,
uma explanação enfatizando a elaboração do programa do
cliente, a pesquisa bibliográfica, os cálculos - que levaram à
constituição do programa expandido, estudos técnicos como
os de insolação, e desenhos tênues - por ele mesmo assim
definidos- onde dá para ver a imagem do edifício. Os
desenhos constantes das pranchas não eram croquis à mão-
livre, mas desenhos instrumentados (com uso de réguas,
compasso, etc.), diagramados para apresentação, acom-
panhados de textos e tabelas, assim como de outros dese-
nhos, cópias de ilustrações de bibliografia consultada.
A prancha entregue como trabalho final também não
apresentava o projeto, ou melhor, a proposta de edifício, como
seria o caso, mas apenas uma leitura das considerações
técnicas e também de abordagem histórica, para explicar o
partido adotado no projeto e não o projeto propriamente dito.
arquiteto1. Página de caderno
com anotações e croquis.
10
Esta aluna, também professora da área de projeto de
edificações, também teve uma correspondência entre suas
ações e respostas nas entrevistas. De natureza bastante
amigável, extrovertida (apesar de ruborizar-se com freqüência
em situações em que sua pessoa era envolvida diretamente),
também participou com afinco das discussões e debates,
em aula ou informais. No entanto, sua peculiaridade reside
na sua origem, Pernambuco, lecionando na Paraíba. Está sob
licença para cursar as disciplinas e morando temporariamente
em São Paulo, onde segundo seu parecer, os nordestinos só
se ressaltam quando o trabalho é muito bom, devido ao
preconceito e discriminação.
Esta preocupação com a apresentação de um bom trabalho,
fez com que também dedicasse um grande número de horas
ao desenvolvimento do projeto, expondo seu trabalho por
duas vezes em seminários diferentes, sempre de maneira
clara e confiante.
Da primeira apresentação constaram várias pranchas com
os primeiros croquis (a mão-livre, sem instrumentos) a grafite
e hidrocor preta (implantação, plantas e uma perspectiva
aérea). A imagem do edifício aqui já pré-configurada sofreu
alguma transformação, o que não chegou a descaracterizá-
la da imagem inicialmente apresentada. No segundo
seminário, com material mais organizado, mas em croquis, o
mesmo tipo de desenhos: bidimensionais (plantas e
fachadas) e perspectivas aéreas. A perspectiva foi definida
pela aluna, em seminário, como um meio apropriado de
representação, pois, segundo ela, a gente não vê nada assim,
referindo-se às fachadas, a gente vê em perspectiva. No
entanto, raramente temos a oportunidade de ver um edifício
como um objeto, como nos mostra uma perspectiva aérea;
na maioria dos casos, o vemos como usuário do espaço,
com os olhos de quem está com os pés no chão. Em suma,
toda a forma - figura do edifício - e as conseqüências
sensoriais desse espaço, visto por esse ângulo, não foram
verificadas ou estudadas como tal. Há que se acrescentar
que foram poucos os alunos que tomaram tal atitude, que
arquiteto 2
arquiteto 2. Primeiros croquis
de projeto.
11
conseqüentemente está ligada à postura metodológica
adotada, e nenhum deles se preocupou com a pré-figuração
de ambientes internos, além dos limites impostos por uma
organização formal esquemática, como uma planta.
Apesar de ter, nesta segunda exposição, colocado como
postura metodológica, uma ordem de etapas de trabalho que
se segue à colocada pelos professores, - acrescida de uma
particular preocupação do comportamento dos usuários
relativo ao programa resultante, - nota-se que o trabalho da
aluna, assim como de muitos no curso, difere quanto à
importância dada à concepção da forma. Esta não surge após
o término total dos cálculos e análise programática, mas
durante o processo; vai sendo ajustada face às mudanças
que se façam necessárias. É ela o projeto, ou melhor, ela
representa, sintetiza, a escolha do arquiteto para resolver o
problema que se coloca. Esta foi uma crítica constante feita
pelo professor nos seminários, associada à questão da
tecnologia construtiva. Neste caso, colocou: pra fazer forma
se deixa de pensar em coisas importantes.
No entanto, parece ser mais essa postura metodológica a
dominante no meio arquitetônico, os arquitetos trabalham a
forma, não “pela forma” como acontece em alguns casos,
mas como uma resposta ao programa, e as soluções
tecnológicas vêm para satisfazer os problemas criados pela
forma e não o contrário. Talvez seja esse o método clássico
de se fazer projeto, não se querendo dizer, com isto, que seja
o correto, ou o único, muito menos o que leva às melhores
soluções, mas apenas que é a maneira mais comum de se
pensar projeto.
arquiteto 2. Croquis de finais
projeto.
12
Também professor da área de projeto de edificações, este
aluno teve duas facetas marcantes no desenvolvimento do
projeto, uma de caráter metodológico e outra de com-
portamento. De início, sua postura em aula passava a
impressão de uma pessoa muito séria, distante da
cordialidade dos dois alunos anteriores. Suas inserções nas
aulas iniciais eram feitas com firmeza e austeridade. Com o
desenrolar do curso mostrou-se uma pessoa de extrema
amabilidade, interessada pelo trabalho dos colegas e pela
presente pesquisa. A faceta típica de seu comportamento e
que todos ao final perceberam, diz respeito ao processo de
trabalho angustiante e fonte de penoso sofrimento, por ele
mesmo admitido.
Metodologicamente, este fator teve como correspondência,
uma árdua pesquisa em termos de projeto, muitas pranchas,
muitos croquis coloridos e sobrepostos, que iam modificando
a configuração do edifício com uma rapidez única no curso.
Sua imagem final, que nada deve à primeira, mal pôde ser
vista pelos colegas, pois, após a apresentação, o aluno
desmontou sua prancha para finalizá-la melhor, para uma
entrega posterior, que aconteceu na forma de folhas
encadernadas.
O processo por ele utilizado também é clássico, busca a forma
como solução de projeto, mas com a diferença de não
trabalhar as etapas linearmente, mas de forma cíclica, indo e
voltando, buscando soluções diferentes, mesclando-as às
anteriores, ou renovando-as totalmente. No seminário, no
entanto, apresentou apenas duas pranchas com desenhos
instrumentados, coloridos, com o edifício configurado e
disposto em implantação, e perspectivas áereas. Tal projeto
caracterizava-se pela complexidade formal, o que gerou
severas críticas da parte do Prof. Guedes, que comentou: Os
dois trabalhos (com relação também ao trabalho elaborado
pelo aluno seguinte), me deixaram muito preocupado. Os dois
se aproximaram da arquitetura de maneira muito subjetiva.
Vocês param na forma que têm na cabeça. Sem análise, em
profundidade, do uso do espaço não pode haver forma.
arquiteto 3
arquiteto 3. Primeiros croquis.
13
arquiteto3. (à esq.) Primeiros
croquis. (abaixo) Desenhos
apresentados em seminário.
14
Além de professor na área de edificações, este aluno é
também coordenador de um curso de arquitetura, recém
criado. De início chamou a atenção pela quantidade de vezes
que, de repente, desviava sua atenção da aula para anotar,
numa folha já repleta de informações, alguma coisa que
deveria fazer. Parecia ter em mente um “arsenal” de coisas
diferentes, que eram trabalhadas ao mesmo tempo.
arquiteto 4
arquiteto 4. Croquis apresen-
tados em seminário.
Graduado pela FAU USP, foi o único aluno que escolheu seu
tema-programa antes da visita ao local, apesar de na
entrevista ter respondido o contrário. Tal escolha foi revelada
em conversas durante as primeiras aulas, assim como a
primeira imagem do espaço (e não do edifício) que projetou.
Em uma dessas conversas relatou, e chegou a desenhar ,uma
grande praça com uma fileira de palmeiras imperiais. A praça
e as palmeiras permaneceram nos croquis, na prancha
apresentada no seminário e na entrega final. Assim, a imagem
descrita pelo aluno na entrevista como inicial não confere.
Em conversa com o entrevistado, foram-lhe relatadas tais
divergências; e grande também foi a sua surpresa ao lembrar-
se desses fatos, passados despercebidos. Este fato deixou
claro para esta pesquisadora que nem todas as respostas
podem ser consideradas verdadeiras, ou coerentes com o
que realmente se passou, principalmente por estarmos
falando sobre imagens mentais, que nem sempre foram
registradas e que têm por característica principal a fluidez.
No seminário, o aluno apresentou uma única prancha, com
desenhos a mão-livre, mas muito esquemáticos, plantas dos
vários pisos, um corte e uma perspectiva volumétrica aérea.
Deixou claro, para surpresa dos professores, que a forma é
sua preocupação principal, sendo por ela que começa e
concebe o projeto. Na entrevista, ainda, acrescentou que,
se necessário, modifica o programa, para preservá-la. O Prof.
Guedes, diante desta atitude, segundo ele formalista e pouco
racional em termos de programa e de tecnologia construtiva,
chegou a perguntar-lhe se trabalhava freqüentemente com
projeto e como era a sua relação com os clientes. Comentou:
Seu projeto me parece feito de referências visuais, sem
comprometimento construtivo técnico. Novos arquitetos não
se dão conta dos caminhos que se tem que enfrentar para
realizar a forma pensada. É a construção que dá a qualidade
ao edifício. E em resposta à pergunta de um aluno se seria
possível fazer projeto dessa forma, o professor acrescentou:
Eu acho que não, mas...
15
Não ficou claro se esta aluna, também graduada pela FAU
USP, além de professora e funcionária do DPH, trabalha com
projeto de edificações. Também não esclareceu se leciona
disciplinas da área em questão.
Sua presença só se tornou constante em meados do curso,
o que dificultou sua integração efetiva à turma, apesar de já
se relacionar com alguns dos alunos. Raramente opinando
nos debates ou discussões, teve a apresentação do se-
minário na última aula, antes da entrega final, por sinal aula
na qual o Prof. Guedes estava ausente. Nesta aula foi possível
fotografar alguns croquis _ a grafite e a mão-livre _ constantes
das quatro pranchas apresentadas, contendo implantação e
algumas perspectivas, quase no nível do pedestre. No entanto
explicitou que sua maior preocupação estava com a cidade,
com o traçado urbano, mais que com o edifício. Isto a fez
desviar a avenida F. Lima, criando uma nova praça, proposta
criticada como principal problema do trabalho pelo Prof.
Adilson, já que não era a proposta da disciplina este tipo de
interferência.
Há que se ressaltar uma relevante resposta da aluna sobre a
utilização de desenhos de terceiros; respondendo afir-
arquiteto 5
arquiteto 5. Primeiros croquis.
mativamente, acrescentou (o que foi uma resposta única,
apesar de todos sempre terem feito uso do desenho de ter-
ceiros dessa mesma forma): conversando com os colegas
sobre o projeto e trocando idéias através de desenhos.
Evidências à parte, esta colocação não foi por nenhum outro
aluno descrita ou sugerida, o que revelou que as atitudes,
muitas vezes comuns e corriqueiras relativas ao processo de
projeto, passam despercebidas, quando se tem que discutí-
lo e esclarecê-lo metodologicamente.
16
Arquiteto sênior, com vários edifícios na cidade de São Paulo
e professor na área de projeto de edificações, este aluno
surpreendeu pela qualidade gráfica de seu desenho. Não
respondeu a nenhuma das entrevistas, mas o fato de ter
cursado outra disciplina e desenvolvido trabalho em grupo
com essa pesquisadora, fez com que muito se soubesse sobre
o método e a maneira com que encara o desenho nesse
processo.
O trabalho apresentado no seminário, apesar de constar
apenas de algumas pranchas de estudo, levantamentos, e
análise da paisagem, já delineava um potencial metodológico
muito interessante. É patente o uso do desenho enquanto
instrumento de projeto e de pesquisa em projeto. O primeiro
se refere a uma representação de imagens mentais, ou seja
o arquiteto imagina o espaço, a paisagem e depois os
desenha. No segundo caso, o desenho parece ter certa
autonomia criativa; a configuração vai se dando passo a passo
com o desenho, podendo às vezes gerar expressões ou “erros
gráficos”
(3)
, que se tornam soluções espaciais não imaginadas
de início, ou seja, o desenho enquanto instrumento criativo
espontâneo.
É significativa a qualidade do grafismo, que se deve a um
domínio das técnicas, tanto materiais, quanto da perspectiva,
para fins de observação direta, ou de fotos, e para
manipulação do espaço, segundo uma visual tridimensional.
Além disso, o aluno faz uso da cor de forma não ilustrativa,
como na maioria dos trabalhos apresentados.
Sem dúvida, contribuem para isso a experiência e a vivência
do arquiteto. O traço fluido, mas ao mesmo tempo seguro,
nos remete, não ao grafismo imediato, mas a uma idéia de
paisagem, ao local em que se trabalha; é o próprio espacializar
fenomenológico
(4)
.
Segundo o aluno, o projeto realizado na disciplina tem um
caráter diferente do realizado comercialmente. Tem-se a
oportunidade, por se tratar de um trabalho acadêmico, de se
arquiteto 6
arquiteto 6. Primeiros croquis.
Estudo do sítio, levantamento
do entorno.
17
pesquisar, teorizar e debater muito mais amplamente. Neste
processo, utilizou como apoio teórico além do texto de Franco
Purini
(5)
, dois artigos sobre o projeto do edifício do jornal
Economist
(6)
, dos arquitetos Alison e Peter Smithson.
Seu método consistiu, primeiramente, em uma análise da
paisagem do lugar, dos pontos focais mais importantes.
Através do desenho, por perspectivas no nível do usuário
pedestre - pois segundo o aluno, parafraseando Walter
Benjamin, arquitetura a gente enxerga a pé - tentou verificar
que tipos de espaço existem, sua qualidade ambiental, se
merece ou não preservação, as mudanças que poderiam
ocorrer naquele local, e quais elementos da paisagem seriam
fixos, para, com base nisso, estabelecer o limite de expansão
do projeto e o perfil do edifício projetado. Segundo palavras
do próprio aluno, seu método consiste em um estudo
pormenorizado do entorno imediato, em uma análise formal,
estética, e sobre a função no espaço urbano. Este processo
permite estabelecer o ponto focal apropriado ao edifício, e
seu gabarito, que não tem sua verticalização no sentido de
“torre”, mas de escalonamento em transição com o entorno.
Durante o seminário, mostrou-se pouco à vontade,
queixando-se: Não gosto de mostrar (os desenhos), pois é
meu processo de trabalho, lugar de formação da idéia e não
representação.
Esta metodologia foi criticada pelo Prof. Guedes, pois para
este, de cunho estritamente estético. Segundo o Prof. Dever-
se-ia seguir um caminho de investigação a priori do desenho,
estabelecendo dimensões e números, fazendo as devidas
considerações técnicas e tecnológicas, antes da síntese
formal. Críticas à parte, acredita-se que esta metodologia
propiciaria excelentes exercícios de caráter didático-prope-
dêutico em uma disciplina de desenho, para o desenvolvi-
mento deste, enquanto instrumental de projeto em um curso
de arquitetura, no que se refere ao estudo da paisagem urbana
e da inserção de um edifício à mesma.
arquiteto 6. Croquis de estudo
do entorno.
18
arquiteto 6. Croquis de projeto,
inserção do edifício na pai-
sagem.
19
Arquiteto pleno e também professor na área, este aluno teve
um processo muito parecido ao da aluna 2, com relação à
clareza e objetividade no desenvolvimento do projeto,
cursando um caminho quase linear quanto às etapas de
desenvolvimento, com a diferença de ter dado maior ênfase
à questão da pesquisa de projetos afins.
Inicialmente, mostrou-se um pouco tímido, mas, no
andamento das aulas, integrou-se aos colegas, tendo também
participado da comissão organizadora da exposição dos
trabalhos. Este aluno foi o único que, no dia da visita,
desenhou e tomou nota do lugar e do entorno, seguindo à
risca a orientação dos professores de não confiar na memória.
Outros dois o fizeram em visitas posteriores. Este desenho
foi fotografado em duas fases, a primeira ainda no começo
da visita, e a segunda após o debate no auditório do CREA.
Detentor de expressivo domínio gráfico, este aluno utiliza o
desenho como instrumento de projeto e também como
instrumento de pesquisa. Em outras palavras, elabora
relatórios visuais sobre obras do mesmo tema, procurando
com o desenho enfatizar determinados aspectos, que lhe
parecem importantes.
No seminário apresentou cerca de dezesseis pranchas A4,
sulfite com desenhos a grafite, hidrocor e lápis de cor. Tais
pranchas continham graficamente todo o processo e
revelavam conseqüentemente as fases metodológicas. No
entanto, quando da explanação, frisou demais a pesquisa e
os problemas inerentes ao entorno (metrô, shopping, etc.),
deixando pouco tempo para exposição do projeto, ou das
primeiras idéias sobre este. De fato, na semana seguinte, ao
escrever algumas considerações sobre os seminários, foi
difícil lembrar do edifício projetado em comparação com os
pesquisados.
Tal cuidado na análise, nas várias fases do projeto, foi ponto
de elogio por parte do Prof. Adilson, que acrescentou: o
processo de fazer está correto. No entanto, o Prof. Guedes
arquiteto 7
arquiteto 7. Croquis de levan-
tamento do sítio, realizados “in
loco”.
20
criticou, de forma incisiva, que não se tratava de uma boa
exposição, pois o aluno não havia abordado o edifício da
maneira adequada, dizendo que não lhe interessava como
tal arquiteto (referindo-se àqueles pesquisados / Ungers,
Sanersbrich, Heep) havia resolvido seu problema, mas como
o aluno estava pensando o seu projeto, embora em aula
anterior o Prof. Adilson tenha colocado esta fase de pesquisa
como muito importante em um projeto desse porte.
A crítica principal do Prof. Guedes relacionou-se à questão
da elaboração formal, antes da elaboração técnica e
programática adequadas, ou desvinculada destas: Sem
estruturas organizadas a flor não seria flor. Quando você não
trata as condições básicas antes, de maneira conveniente,
você destrói o projeto.
arquiteto 7. Croquis de projeto.
Perspectivas aéreas e vistas
parciais, observador pedestre.
21
Este aluno, arquiteto e professor, desenvolve um trabalho de
pesquisa sobre tecnologia construtiva para habitação popular,
mais especificamente, alvenaria de tijolos de barro sem
cozimento e sem amarração convencional.
Sempre muito extrovertido, teve sua postura modificada no
decorrer das aulas. Muito crítico a tudo e a todos, terminou o
curso relatando diversas desavenças com os colegas e
críticas veementes à disciplina, quanto ao método e aos
resultados, por ele considerado muito abaixo das expectativas
iniciais.
A análise das respostas desse aluno, quando comparadas a
alguns fatos e também ao seu próprio projeto, revela certas
disparidades e incongruências, como também curiosidades.
Vale ressaltar que este aluno, arquiteto senior, também com
experiência na área de projetos de hotelaria, frisava o fato
de estar cursando doutorado, além de mencionar, sempre
que possível, suas palestras e o desenvolvimento da pesquisa
no canteiro de obras. Quando da visita, sem inteirar-se com
o devido rigor dos objetivos desta pesquisa, colocou que
estava sendo realizada de maneira equivocada, pois o
desenho não era importante, tanto que ao comentar sobre o
aluno 7, único que havia desenhado e tomado notas,
acrescentou que os arquitetos não desenham in loco, isto
era algo incomum, fora da realidade de projeto, fazendo
entender também que tal aluno só o fazia visando destacar-
se.
Tal atitude ou colocação sobre o desenho entram em total
discordância com o que escreveu nas entrevistas sobre o
tema, deixando registrado não suas opiniões contundentes,
mas aquilo que todos teoricamente admitem como correto.
Assim, o desenho aparece definido como puro instrumental
de projeto. Na segunda entrevista, ainda, assinalou na questão
17, a alternativa que se referia à utilização de desenhos de
observação in loco. Como veremos, nenhuma das colocações
pôde ser comprovada na prática.
arquiteto 8
arquiteto 8. Croqui de projeto.
Uma das plantas apresentadas
em seminário.
22
Expôs por duas vezes em seminário, na primeira sem nenhum
desenho; relatou somente o tema - programa (hotel)
associado a algumas possibilidades de implantação e os
condicionantes que o levaram àquela escolha. Tal proce-
dimento foi de imediato criticado pelo Prof. Adilson, pois,
segundo ele, já estavam em fase de apresentação de
propostas, através de desenhos ou maquetes.
Na segunda exposição foram apresentadas cinco pranchas,
quatro delas com plantas dos andares e implantação e uma
com perspectiva volumétrica, somente do edifício, sem
vínculo com o entorno, apesar de relatar esta preocupação
oralmente. Os desenhos, de qualidade gráfica regular (linhas
a grafite contornadas com hidrocor), não se mostravam como
croquis de elaboração de projeto, mas como desenho técnico
instrumentado, de apresentação. O desenho, como
instrumento de projeto, não pode ser verificado.
As críticas que se seguiram, em relação ao projeto, giraram
entorno da solução formal e das conseqüências dela advindas.
Algumas respostas revelaram, no entanto, certas incoe-
rências também em relação à experiência profissional. Por
exemplo, quando perguntado sobre o norte, o aluno
respondeu que era usual no ramo hoteleiro não se preocupar
com isto, e, sim, com o entorno e a vista, algo que parece
razoável para um administrador do ramo, mas não para um
arquiteto.
Prof. Guedes começou a crítica ao projeto relatando que o
aluno fazia as plantas definindo objetos com muita
particularidade, mas sem saber como era a cidade ao lado,
ou seja, ignorando-a, não dando referência ao desenho, o
que gerou um volume indiferente aos diversos planos de
construção da cidade. A isso o aluno respondeu que o entorno
seria totalmente modificado.
As plantas, apesar de detalhadas, foram na visão do professor,
feitas sem critério: os quartos são desiguais, os ângulos, não
sendo retos, geram problemas de espaço, como a relação
inadequada entre área de banheiro e quarto, etc. Ao que o
aluno respondeu que o fato dos quartos serem assim, é
produto da forma.
Pode-se, então, verificar que, se o desenho tivesse realmente
sido usado como instrumento de projeto, de reflexão sobre
qualidade de espaço, tal solução formal teria sido modificada,
antes de se concluirem os vários pavimentos; assim como
um estudo de insolação, aliado a uma inserção planejada do
edifício ao entorno, o que requer a utilização do desenho,
teria possivelmente propiciado uma alternativa mais
adequada.
arquiteto 8. Croqui de projeto
apresentado em seminário.
Perspectiva volumétrica.
23
Esta aluna, como outros alunos especiais, pertencem ao grupo
dos arquitetos recém-formados, aqui denominados juniores.
Assim como os demais, caracteriza-se pela inexperiência
profissional e por uma formação acadêmica deficiente. Tais
alunos recorrem à pós-graduação não buscando um
aperfeiçoamento, mas uma complementação ao que
deveriam ter aprendido ou desenvolvido na graduação.
Esta aluna apresentou um projeto insipiente, considerando
todos os níveis aqui relatados: metodologia, participação nos
debates, desenho, pesquisa, e discurso de apresentação em
seminário, assim como as respostas às entrevistas. Mas há
que se ressaltar que a entrevistada confirma, com suas
respostas, esta inexperiência e insipiência do projeto, o que
a torna coerente e confiável quanto às respostas.
O projeto foi apresentado na ausência do prof. Guedes, em
quatro pranchas A4, contendo mapa xerografado, com vias
e quarteirões em destaque, outras cinco pranchas do mesmo
formato, contendo plantas muito simplificadas e uma
perspectiva aérea no mesmo estilo, e uma última prancha
A3 contendo implantação. Também neste caso, excluindo o
mapa, não existe qualquer referência ao entorno quanto aos
volumes, fachadas, etc.
A qualidade gráfica também deixou a desejar, não tanto pelo
traço, regras de perspectiva ou normas de desenho, mas
pela simplificação do mesmo, mostrando uma fraca
compreensão daquele espaço que estava sendo imaginado.
Os desenhos mostravam uma prévia organização para
apresentação, não se tratando assim dos croquis originais
de projeto.
As críticas feitas pelo Prof. Adilson disseram respeito
principalmente a esses aspectos - não consideração para
com o contexto do entorno e projeto ainda muito esquemático
- acrescidos de um terceiro problema que se refere à questão
da tecnologia construtiva, que não foi pensada. O projeto era
somente formal, segundo o professor, que ganhou o apoio
arquiteto 9
da maior parte dos alunos.
No entanto, o aluno 16, experiente profissional, ressaltou que
não existe relação direta entre função e forma; esta é
subjetiva. Não é pelo fato de ser essa forma que é ruim.
Ao final, a discussão girava em torno de problemas que nem
sequer estavam expostos no projeto, o que levou o Prof.
Adilson a cancelar o debate - neste ponto sobre a questão
dos vidros - exclamando: mas ela nem falou se o prédio é de
vidro!
Tal projeto demonstra que o desenho não foi utilizado de forma
adequada em nenhuma das possibilidades possíveis no
desenvolvimento do projeto (registro do local, notas,
pesquisa, criação e apresentação, enquanto representação
de um conceito de espaço e simulação de uma realidade).
arquiteto 9. Desenhos apresen-
tados em seminário. (sup.)
Perspectiva volumétrica. (esq.)
Planta.
24
Apesar de fotografados os desenhos, esta aluna desistiu da
disciplina, não entregando o trabalho final, nem respondendo
às entrevistas. Como o contato com a aluna não permitiu
maiores investigações sobre o método e o desenho, foi, para
efeito de resultados, considerada desistente, não fazendo
parte da tabulação geral dos dados.
arquiteto 10
arquiteto 10. Croquis. Planta,
fachadas e perspectiva volu-
métrica.
25
Este aluno também não respondeu a nenhuma das
entrevistas, devido à dificuldade de escrever em português,
mas fez diversos comentários sobre o assunto, em ocasiões
oportunas. De origem e formação em arquitetura na
Alemanha, teve seu interesse pelo Brasil despertado pelo
estudo de Brasília, tema de seu trabalho de graduação.
Recém-formado, trabalhava durante o curso no escritório do
Prof. Guedes, que o convidou a cursar a disciplina, a título de
experiência e maior contato com outros arquitetos. Falava
português, mas não muito fluentemente e quando escrevia o
fazia em alemão.
Teve participação dedicada e influente, debatendo e se
relacionando com simplicidade e amabilidade particulares.
Confeccionou uma maquete de uso comum, em escala
1:2000, com o quarteirão em questão, móvel, podendo a ela
ser anexado outro projeto, desde que na mesma escala, e a
ofereceu aos colegas para demonstração em seminário e
para exposição final dos trabalhos.
Em conversa informal, revelou que a maquete não se tratava
de mero apetrecho para apresentação, mas que funcionava
para ele muito melhor que o desenho; este,a partir de certo
ponto, deixava de ser suficiente para a compreensão do
espaço que estava sendo projetado. Há que se ressaltar que
antes da maquete vieram muitos desenhos: tabelas,
esquemas, organogramas, plantas e perspectivas. Rígido
metodologicamente, estudou e calculou meticulosamente os
espaços. No entanto, verificou-se que a forma resultante já
estava predefinida quando da escolha do tema,
posteriormente à visita. Seu projeto, como o de muitos, foi
baseado no estudo do entorno e das visuais mais importantes.
O quarteirão em questão tido como ponto focal de maior
importância na Faria Lima, gerou de início o conceito de torre,
conceito este que já implica em uma concepção figurativa
de espaço, ou seja, imagem do edifício. Esta imagem pode
ser verificada logo nos primeiros croquis e permanece até o
final, sofrendo, é claro, as modificações necessárias após o
aperfeiçoamento do programa, do cálculo de áreas, estudos
arquiteto 11
arquiteto 11. Croquis e notas
de projeto fotografados do
caderno do autor.
26
de insolação, tecnologia construtiva e de manutenção.
Metodologicamente, se aproximou mais das colocações do
Prof. Guedes do que os alunos 2 e 7, com os quais teve uma
certa similaridade de projeto. Tal aproximação deve-se à
postura de coerência lógica e segura com que defendia a
proposta. Isto não o poupou totalmente das críticas, tendo,
no entanto, recebido elogios dos dois professores. Prof.
Adilson colocou que havia chegado ao problema de forma
objetiva e que o processo, que podia ser verificado pelo
caderno repleto de desenhos sistematizados, parecia um
trabalho muito interessante. Prof. Guedes acrescentou que
não via neste projeto nada de negativo ou problemático, que
o conjunto de desejos estava bem colocado, que nada parecia
fora de propósito, colocações que despertaram certo
desconforto em alguns alunos anteriormente criticados, pois
não viam seus trabalhos tão distantes deste. Apesar dos
elogios iniciais, o Prof. Guedes colocou que faltou na exposição
um conjunto de explicações que justificassem o porquê do
edifício ser como era, que não foi feita a ponte com esse
lado subjetivo do desenho (fachadas, ângulos, etc.). Esse
processo, continuou o professor, que deve ser muito
interessante, você não mostrou. Geralmente é misterioso e
não se sabe como se passa. Esse processo de invenção
depende da cultura de cada um, seja dos aspectos
construtivos, volumétricos, etc. Ao que o aluno respondeu:
para mim é reflexão; eu faço muito desenho e o prédio vai
tomando forma. Prof. Guedes acrescentou que não é tanto
fazer reflexão posterior, mas reflexão presente enquanto
pensa, é ter o máximo de consciência do que realizamos
enquanto projetamos. Esta reflexão é suporte para imaginação
organizada, que em se tratando de uma obra de arte não se
exige.
arquiteto 11. Maquete do sítio
e entorno apresentada em se-
minário.
27
Esta aluna, apesar de ter comparecido à maior parte das aulas,
não apresentou seminário, trabalho final, nem desenhos,
durante o curso. Sua participação nos debates de seminários,
ou informais, foi muito fraca e, não tendo respondido às
entrevistas, foi considerada, para efeito dessa pesquisa, como
desistente.
arquiteto 12
28
Este aluno, apesar de recém-formado, mostrou um
desempenho acima da média, em relação aos colegas com
a mesma experiência, com exceção do aluno anterior. Foi o
segundo a expor em seminário com um trabalho já no nível
de uma proposta definida através de croquis, apresentados
em duas pranchas A2 (papel manteiga e grafite). Isto não o
poupou de uma série de críticas, pois puderam, a partir deste
trabalho, enunciar diversos problemas de ordens diferentes:
programa, escolha do cliente, e até da maneira como deve
se expor um trabalho, a forma correta do discurso.
Este aluno revelou-se muito curioso em relação às entrevistas,
querendo sempre saber o porquê de cada pergunta, não
entendendo algumas delas e novamente perguntando, e, ao
final do curso, querendo saber quais as conclusões a que se
havia chegado. Muito participante e atencioso, integrou-se
bem ao grupo.
Sua inexperiência, no entanto, revela, como na maioria dos
casos dos arquitetos júniores, um desconhecimento das
potencialidades do desenho nos seus diversos usos, no
processo de projeto. O aluno coloca, num primeiro momento,
o desenho como suporte técnico e ilustrativo, como forma
de aproximar o cliente do projeto. Este conceito - desenho
enquanto ilustração - é comum ao pensamento da maioria
das pessoas, arquitetos ou leigos.
arquiteto 13
arquiteto 12. (sup.) Prancha
com primeiros croquis. (inf.)
mesma prancha com notas
para alterações do projeto.
29
Este aluno se caracteriza por sua formação original em
Desenho industrial, em 79. De origem chilena, formou-se em
arquitetura posteriormente, no Brasil, em 89, onde atualmente
reside e trabalha, bem adaptado aos costumes e à língua.
Sua formação anterior enquanto designer condicionou todo
o processo de projeto na disciplina, o que também acontece
no dia-a-dia.
Mostrou-se inicialmente, também, muito interessado na
pesquisa, sempre perguntando e mostrando seus desenhos.
Com o passar das aulas, as perguntas foram ficando mais
incisivas e ao final mostrava-se curioso sobre as conclusões
a que esta pesquisa havia chegado, qual a opinião sobre os
trabalhos, etc. A explicação de que a intenção não era avaliar
o projeto, que esta pesquisadora não estava lá para julgar
quais eram os bons projetos, e de que não havia ainda
terminado a pesquisa, pois muitos alunos ainda não haviam
devolvido as entrevistas, não fora suficiente. Pareceu
desiludido, chegou a usar o termo “enrolando”, referindo-
se às explicações dadas.
Quanto ao trabalho por ele desenvolvido, algumas
considerações são importantes. Seus desenhos foram
fotografados em duas fases diferentes, a primeira logo no
início do curso, quando mostrou seus desenhos de
observação, realizados em uma visita posterior à da turma.
Tais desenhos possuíam boa qualidade gráfica, apesar de
algumas pequenas distorções de proporção. Foram realizados
a partir da observação direta no local, segundo o autor, e a
mão livre. Mas não se tratavam de desenhos de análise, onde
se busca, através do desenho, conhecer o lugar, para nele
intervir posteriormente (a exemplo do aluno 6); evidenciavam-
se as características de representação e ilustração. Isto ficou
muito claro quando da exposição em seminário, na qual os
desenhos de projeto tinham uma linguagem muito diferente
e os de observação estavam colocados sem vínculo algum,
apenas como ilustrações, e nem sequer foram utilizados para
explicar algo sobre a implantação ou o entorno.
arquiteto 14
arquiteto 14 . Desenho de ob-
servação do sítio e entorno.
30
O projeto, apresentado em pranchas papel manteiga, grafite,
lápis de cor e hidrocor, através de desenho técnico
instrumentado, mostrava implantação, plantas dos andares,
e um corte esquemático do edifício, que se destacava pela
altura (aproximadamente 50 andares), e por duas paredes
cegas , na visual da avenida Faria Lima, que seriam utilizadas
para propaganda. Este foi o ponto central das críticas que se
seguiram. O conceito de torre, que se destaca no ponto focal
da avenida, foi também explorado por outros alunos, mas,
em todos os casos, o destaque estava para o edifício
propriamente dito. Prof. Adilson colocou que o trabalho trazia
para a sala a discussão sobre a comunicação visual na
arquitetura e que, no caso, era mais visível que o próprio
edifício. Prof. Guedes complementou que se tratava de um
problema ético, quando se pensa nas conseqüências da
comercialização das fachadas no nível da concepção do
projeto. Vence aquele que tem mais dinheiro para agredir a
retina do observador. Em outros termos, é direito do cidadão
andar numa cidade onde não seja agredido pela propaganda.
Os desenhos não podem ser classificados como croquis, nem
os de observação, nem os de apresentação de projeto; pôde-
se apenas fotografar, neste caso, um croqui, que, na ocasião,
não queria ser dado para foto, pois o aluno não compreendia
que o importante era aquele primeiro desenho, onde a
primeira idéia havia sido grafada, de maneira descontraída.
Dizia que o desenho estava muito ruim, que o passaria a limpo
para ser fotografado. Tal desenho feito a lápis, muito indefinido
ainda, já deixava clara, no entanto, a configuração da torre.
Esta imagem - síntese reflete o partido de projeto adotado,
ainda na primeira fase, quando o tema - programa estava
sendo definido.
Compreende-se, no entanto, que fotografar tais desenhos é
de certa forma, uma invasão da privacidade do arquiteto,
que nem sempre quer torná-la pública. Outras vezes, o que
ameaça tal registro é a extrema autocrítica dos autores, que
não vêem naquela linguagem algo passível de demonstração.
As duas demonstram o quanto o desenho, aqui caracterizado
enquanto croqui, expressão única e pessoal, traduz o seu
autor. Ao domínio do traço, ou à configuração da figura, pode
estar associada uma certeza de projeto. No caso em questão,
a formação anterior de designer, para o qual a apresentação
do produto confunde-se com o próprio projeto, explicaria a
situação.
arquiteto 14. Primeiros croquis
de projeto, fotografados do
caderno do autor.
arquiteto 14. Croquis de proje-
to apresentados em seminário.
31
Entre os recém-formados, este aluno destaca-se pela
qualidade gráfica dos desenhos, tanto com relação ao croqui,
quanto de apresentação em seminário e trabalho final, apesar
de serem na maioria instrumentalizados. Os croquis,
pertencentes a um pequeno caderno que trazia às aulas,
também só puderam ser fotografados após explicações mais
amplas sobre a intenção da pesquisa.
No entanto, este é um caso típico para demonstrar que um
bom desenho, principalmente pela qualidade do grafismo,
não implica diretamente em um projeto da mesma qualidade.
arquiteto 15
Como os outros arquitetos júniores, também cometeu
deslizes na exposição oral, sentindo-se pouco à vontade e
inseguro. Esta insegurança ficou patente, quando perguntado
sobre algumas formas dadas aos edifícios que constituíam o
projeto. Declarou que aquilo não era bem assim, poderia ser
de outra maneira, que ainda não havia decidido... No entanto
Prof. Guedes deixou claro que se estava desenhado era porque
algum tipo de escolha havia sido feita. Complementou a
crítica, retornando como sempre à questão da arquitetura
pela forma, concebida sem razão consciente: por formação
a gente acaba apreendendo e usando coisas sem pensar,
como se fosse uma verdade universal, ... é a facilidade como
se decola fazendo formas.
arquiteto 15. (sup.) Primeiros
croquis, fotografados do ca-
derno do autor. (dir.) Croqui de
projeto apresentado em semi-
nário.
32
Arquiteto sênior, com larga experiência no desenvolvimento
de projetos de edifícios de grande porte, e também professor
na área, este aluno destacou-se pela racionalidade e
linearidade com a qual desenvolveu o trabalho e participou
da disciplina. Sua postura, de total coleguismo para com
professores e alunos mais velhos, fez com que esta
pesquisadora o confundisse de início, com um professor
convidado.
Foi o primeiro a expor o trabalho em seminário, de forma
coerente, pois, apesar do projeto ainda estar em fase
preliminar (disse na ocasião ainda não ter definido o programa)
deu ênfase às questões tecno-construtivas pertinentes a um
edifício de grande porte, antes da definição figurativa de
espaços. Aqui, vale lembrar que dimensionar ambientes não
significa dar forma aos mesmos. Sua explanação contribuiu
para enriquecer o repertório dos alunos mais novos, falando
sobre sistemas de ar condicionado (tradicional e alternativo),
problemas advindos com grande número de andares como
estacionamento, caixas d’água, segurança contra incêndio,
etc.
Os desenhos apresentados na ocasião são coerentes com a
postura adotada, pois não definem formas, apenas refletem
algumas alternativas colocadas em planta simultaneamente,
dando ao croqui um aspecto indefinido, no qual o edifício
ainda não aparece formalmente definido.
Posteriormente, pôde-se fotografar o projeto já na sua
concepção formal, quase totalmente definido. A postura do
aluno reflete a característica principal de seu pensamento
de projeto - a racionalidade, tanto na escolha dos problemas
a resolver, na ordem de estudo destes problemas, nos
desenhos de projeto (instrumentados e bidimensionais:
plantas e cortes ), nos desenhos de apresentação (lineares,
limpos e claramente diagramados), e no próprio edifício,
compacto, com fachadas lisas e predominância de ângulos
retos. Nenhuma perspectiva foi apresentada, vista ou
fotografada.
arquiteto 16
arquiteto 16. (sup.) Croqui de
estudo do sítio, implantação e
acessos. (inf.) Croquis apre-
sentados em seminário.
33
Também recém-formada, esta aluna fez sua apresentação
logo no início dos seminários, sendo que o que foi apresentado
ainda estava muito insipiente, mas nem por isso deixava de
ter qualidades. Apresentou duas pranchas em papel manteiga,
com desenhos a nanquim e hidrocor, e a mão-livre. Em uma
das pranchas encontrava-se um mapa com estudo dos fluxos
da região. Em outra havia estudos do entorno com
representação em planta dos volumes, duas fachadas do
edifício projetado e uma perspectiva no nível do pedestre
(algo raro até para os alunos mais experientes).
Seu discurso mostrou uma maior preocupação com a
complexidade do entorno e como trabalhar com ela. Também
deu ênfase ao posicionamento do conjunto de edifícios,
aproveitando-se do ponto focal da avenida, trabalhando-os
como um marco, destacando-os, não com efeito de torre
mas diferenciando-os formalmente com a preocupação de
integrá-los ao entorno.
O Prof. Guedes, no entanto, criticou essa postura, por
considerá-la apenas formal, um jogo de volumes, pois a aluna
estava totalmente desinteressada do ambiente interno (não
mostrou nenhuma planta), ou seja, não estava sendo infor-
mada dos usos que se faziam necessários no edifício.
Outras questões vieram à discussão, inclusive sobre a
identificação do cliente, algo ainda anterior ao projeto
propriamente dito.
Prof. Guedes elogiou o desenho (forma) dos prédios: o
desenho é lindo, tem ar entre eles. Mas acrescentou que
isso não era suficiente, que poderiam ser um fracasso
enquanto arquitetura.
arquiteto 17
arquiteto 17. Prancha de
desenhos apresentados em
seminário.
34
Também recém-formada, sem experiência de projeto, esta
aluna demonstrou deficiências na formação da graduação,
verificada pelas dúvidas e pelo baixo desempenho no trabalho
e nas atividades da disciplina (debates, discussões e
seminários).
Quanto ao trabalho apresentado em seminário, não consistia
de croqui, mas de duas pranchas preparadas para
apresentação, utilizando grafite e lápis de cor, e desenho
totalmente instrumentado, inclusive na aplicação das cores,
resultando num trabalho gráfico de qualidade, original e
expressivo. Continham implantação e perspectivas aéreas,
que não chegavam a mostrar o topo do edifício.
Do processo de projeto e dos desenhos que geraram tal
intervenção, pouco se pode saber, já que o pouco contato
com a aluna não o permitiu. A inexperiência da aluna também
foi revelada pelo discurso em seminário, dizendo que a cada
exposição que assistia pensava em mudar tudo.
O edifício, em forma de torre triangular, teve sua forma advinda
do estudo das linhas de visão de um observador no térreo,
mas teve tal estudo realizado em planta e não em perspectiva,
o que causou erros neste tipo de abordagem, bem observados
pelo Prof. Adilson: o que seria uma passagem para se ver a
praça localizada atrás do quarteirão, se transformou
visualmente numa rua sem saída. Este tipo de erro não
ocorreria se os arquitetos fossem ensinados a se utilizarem
de outros tipos de desenho, mais coerentes com a elaboração
e visualização prévia de espaços arquitetônicos.
Prof. Guedes enfatizou o aspecto gráfico e radical do projeto,
mas que dava margem a muitos problemas de insolação e
sem nenhuma preocupação quanto à técnica construtiva.
Acrescentou, ainda, que por trás da aparente disciplina,
demonstrada pelo desenho, havia um certo caos.
arquiteto 18
arquiteto 18. Prancha com de-
senhos apresentada em se-
minário.
35
Arquiteta júnior, demonstrou muita insegurança, causando
durante o seminário um certo embaraço nos ouvintes, que
evitaram de lhe fazer maiores críticas ou perguntas sobre o
projeto, tamanha parecia sua desorientação e nervosismo,
não conseguindo entender algumas das perguntas que lhe
estavam sendo feitas.
Durante as aulas só assistiu, não debatendo, não conversando
informalmente.
O trabalho, apresentado em seminário, consistia de xerox de
desenhos a lápis, tradicionais: plantas, vários cortes e
fachadas, nenhuma perspectiva. Desenho instrumentado,
mas de pouca qualidade gráfica. Havia marcações de cor no
xerox em forma de legenda, identificando os diversos
espaços. Nenhum estudo do entorno foi também mencionado
ou apresentado. Os desenhos não mostravam domínio de
projeto, não sendo aqui classificados enquanto croquis.
O edifício consistia em um grande e maciço bloco horizontal,
cujas entradas laterais por longos corredores, desprezavam
a fachada nobre da Faria Lima. Perguntada se conseguia
visualizar tal espaço de circulação, para verificar sua qualidade
ambiental, evidentemente comprometida, respondeu que
havia ficado presa em função de locar a circulação pela
escada. Eis aqui outro exemplo de que o desenho se bem
empregado, poderia ajudar na pesquisa de qualidade destes
espaços, principalmente para aqueles com pouca vivência
espacial e de projeto.
Seu discurso também foi condicionado por uma descrição
de quantidade de banheiros, elevadores, áreas úteis, mas
colocadas de maneira estritamente técnica (o mínimo
estabelecido pelo código de obras). Talvez tenha sido o único
caso em que não houve pesquisa formal ou estética em
nenhum nível, e sem esta também não existe arquitetura.
arquiteto 19
arquiteto 19. Croquis apre-
sentados em seminário.
36
Métodos
A investigação ou o processo de projeto propriamente dito,
dividido sistematicamente e metodologicamente em fases,
com caráter didático ou não, segundo Prof. Guedes deveria
obedecer o esquema A, que segundo ele não dá margem a
concepções puramente formais, o que leva a um projeto de
cunho estilístico ou esteticista. No entanto, salvo raras
exceções, a maior parte dos alunos utilizou, conscientemente
ou não, o processo representado pelo esquema B.
Esquema A
Esquema B
Verificou-se que, em 100% dos casos analisados, o edifício
foi trabalhado de fora para dentro, a primeira imagem-síntese
sempre exterior. Na verdade, toda forma externa define por
conseqüência um espaço interno. No entanto, não foi
verificado nenhum caso em que a imagem-síntese fosse
interna ao edifício, ou seja, o exterior definido pelo interior;
nem ao menos durante o desenvolvimento do projeto
apareceram perspectivas internas de algum ambiente, o pode
ter sido reforçado pelo enfoque da disciplina na relação edifício
x ambiente urbano. Este seria um dos métodos de projeto
utilizado pelos arquitetos; a exemplo pode ser citado o projeto
do edifício da FAU USP, realizado por Vilanova Artigas
(7)
, no
II.1.4. Conclusões
análise dos condicionantes
programa expandido do arquiteto
dimensionamento preliminar
síntese formal
imagem do edifício
análise projetual
desenvolvimento tecno-construtivo
síntese final
imagem definida para projeto executivo
1
2
3
4
análise dos condicionantes
programa expandido do arquiteto
dimensionamento preliminar
análise projetual
desenvolvimento tecno-construtivo
síntese formal
imagem do edifício
1
2
3
37
qual se verificam vários croquis na mesma prancha, com o
mesmo traço que expressa a rapidez de registro. Tanto
plantas e cortes, como perspectivas do interior, vão tomando
maior definição conforme o andamento do projeto. Não é
possível dizer o que foi feito ou imaginado primeiro, se as
plantas ou as perspectivas; o que o desenho demonstra é
que eram imagens coetâneas e interdependentes.
Pudemos, no entanto, com esta pesquisa, evidenciar outros
quatro tipos de processos, classificados para efeito deste
trabalho como:
1. tradicional linear
2. tradicional cíclico
3. formal com definição do edifício independente.
4. formal com definição do edifício dependente do
entorno.
O primeiro caso pode ser considerado o mais próximo do
exposto como modelo pelos professores, contando aqui que,
mesmo os alunos que tiveram o projeto realizado em fases
metodologicamente claras e bem definidas, tiveram como
elemento norteador uma imagem-síntese, que pode de início
ter sido rejeitada (não colocada graficamente no papel), para
desenvolver o projeto de acordo com dados matemáticos e
técnicos em primeira instância. Verifica-se, pois, mesmo
nesses casos, que a força do pensamento do arquiteto está
nesta concretização, no figurar para poder desenvolver.
O segundo caso caracteriza-se por esta imagem aparecer
com maior força e ser utilizada como recurso de projeto,
embora se transforme à medida que se faça necessário. Mas
o que define propriamente o processo não é a linearidade
racional das fases como no primeiro caso; existe um fazer
cíclico, que faz com que o arquiteto avance e retroceda
quando necessário, aborde conjecturas de ordens diferentes
ao mesmo tempo, até chegar num produto.
Nesses dois casos, prevalece como elemento determinante
da análise e das reflexões de projeto o programa; é a ele que
se reportam os arquitetos quando a crítica se faz necessária
à continuidade reflexiva e criativa.
O terceiro caso, raro (pois equívoco no meio acadêmico), é a
concepção do edifício exclusivamente pela sua forma,
independentemente de exigências internas programáticas
rígidas ou condicionantes externos como o entorno. Alguns
o utilizaram sem consciência de que o faziam, por
inexperiência ou por opção, como o aluno que colocou que
para ele é na concepção formal que reside toda arquitetura,
confirmando que, se necessário, modifica o programa mas
não a forma. Esta também deve ser aqui entendida como
volume e espaço e não só como fachada.
O quarto exemplo, preponderante (levando em conta não só
os dados da entrevista 1, que não tinham relação com a
disciplina, mas o acompanhamento dos alunos e dos
desenhos), refere-se ao condicionamento do processo de
projeto ao estudo do entorno, e este como determinante do
partido de projeto e em alguns casos até da escolha do tema-
programa. Deve-se ter em conta que na disciplina em questão
o arquiteto também era o cliente ou, pelo menos, se
imaginava no lugar deste, escolhendo o tema desejado,
estabelecendo as necessidades e prioridades, o que
geralmente não acontece na realidade de mercado. A forma,
a figura, o volume, surgem de uma investigação minuciosa
do entorno, dos edifícios, dos usos, dos fluxos, da própria
cidade. O edifício surge como conseqüência reflexiva, crítica
desta análise.
A classificação apresentada não descarta a possibilidade,
também verificada em alguns dos casos analisados, de um
processo fruto de uma mistura dos acima apresentados.
Não está em questão, neste trabalho, fazer uma crítica aos
métodos, principalmente porque eles não determinam
necessariamente como conseqüência uma bom projeto,
como pôde-se verificar na entrega final. Percebe-se que,
nestes casos, a vivência, a experiência, e as características
e potencialidades próprias de cada indivíduo, podem levar a
resultados bem diversos, mesmo se utilizando de um mesmo
processo semelhante.
Desenho
Verificou-se que a palavra desenho é entendida e utilizada
de maneiras diferentes, mesmo quando o assunto é comum
a todos, como no caso das entrevistas. A relação entre o
desenho e o projeto teve respostas das mais diversas, desde
meio de visualização da forma, até o próprio lugar
acontecimento da arquitetura, de instrumento de análise a
meio de configurar uma intervenção. O fato de entender o
desenho, como na maioria dos casos, como instrumento de
projeto, também não assegura ao arquiteto um bom projeto,
como pôde ser verificado. O cerne do problema está no
entendimento das características deste desenho específico,
que aqui denominamos croqui. Quando da exposição dos
trabalhos finais, a colocação do Prof. Adilson pareceu muito
coerente e reafirma uma das hipóteses anteriormente
colocadas na pesquisa: para aqueles que deixaram para última
hora, não croquizaram, confiaram no tato oral, teórico, o
resultado foi menor. As coisas vão tomando consistência à
medida em que se colocam. (referindo-se ao ato de grafar,
desenhar as idéias)
Com relação à entrevista 2, quando perguntados sobre se
utilizaram de desenhos de terceiros, a maioria negou, mas
todos se utilizaram das plantas do metrô, ou mapas-guias. O
desenho aqui foi interpretado somente como algo pessoal e
como projeto.
Com relação às dificuldades relativas ao desenho, parece
consenso a importância do fazer e da experiência para o
38
desenvolvimento adequado. O computador, no entanto, já
aparece como auxílio para solução de problemas, princi-
palmente de ordem tridimensional do espaço.
Imagem mental / Imagem-síntese
Verificou-se que em alguns casos a “imagem-síntese” surge
com a definição do partido de projeto, ou advinda da definição
do programa (tema/usos), com diferentes intensidades na
clareza espacial (de esquemas espaciais simplificados em
corte ou planta esquemáticas a perspectivas detalhadas). A
escolha do partido quase sempre implica na aparição desta
primeira imagem, aqui definida como síntese, pois traz
consigo os elementos definidores do projeto, que
permanecerão até o final, apesar de certas modificações. A
exemplo desta predominância da imagem-síntese, pode-se
citar o aluno 16; este destacou em seminário a torre, para
apresentar seu edifício ainda não desenhado graficamente,
afirmando inclusive que o programa não estava totalmente
definido. Torre pode ser entendido como conceito espacial,
muito insipiente ainda, mas no que concerne à arquitetura
de ordem figurativa.
Outra verificação interessante se deu quanto à relação entre
características da primeira imagem mental, aqui definida
como imagem-síntese
(8)
e o desenho advindo do registro
gráfico desta, correspondentes às questões 1 e 5 da
entrevista 2. Nove alunos (quase 50%) responderam que esta
imagem se caracterizava por um aspecto similar a uma
imagem real memorizada, tridimensional. No entanto, destes
nove, cinco quando a desenharam, ou a colocaram grafi-
camente no papel o fizeram por descrição geométrica plana
(planta, corte fachada); outros três não a registraram, e
somente um aluno a desenhou enquanto perspectiva, o que
mais se aproximaria de um registro de uma imagem com
tais características de realidade tridimensional.
Também, verificou-se que a relação entre esta primeira
imagem e o desenho de projeto, como também do resultado
do projeto, enquanto compreensão de um espaço habitável
por pré-visualização mental e gráfica, não correspondeu ao
esperado enquanto hipótese de pesquisa. De início, colocou-
se como fator básico uma relação de dependência entre
qualidade de projeto (tanto com relação ao processo, como
em relação ao produto) e qualidade da imagem mental, mais
especificamente desta primeira imagem-síntese. Isto não
pôde ser verificado na prática. Dos alunos acima relatados, a
julgar pelas críticas dos professores nos seminários e na
apresentação final, pode-se considerar que apenas dois
tiveram bom desenvolvimento de projeto e um, bom produto
como proposta; dois outros poderiam ser classificados de
nível médio, e o outros quatro como ruins em relação à
produção da turma. Esta verificação faz lembrar o Prof. Flávio
Motta
(9)
, que certa vez em aula colocou que os artistas
dividem-se em dois tipos, uns que trabalham com a facilidade
e outros com a dificuldade, sendo que os dois podem chegar
aos mesmos resultados qualitativos. Esta colocação parece
muito pertinente também aos arquitetos, ou seja não é a
facilidade ou a dificuldade da imaginação enquanto
capacidade de pré-visualização que garantem um bom
projeto, mas a qualidade da cognição em termos imaginativo,
criativo e reflexivo.
Notas e referências bibliográficas
1. GUEDES, Joaquim - comentários do professor na disciplina
AUP-846, FAU USP, Pós-graduação, 1
o
. semestre
1995.
Na seqüência do texto aparecem outras citações
do professor com ou sem apresentações iniciais.
Quando apresentadas citações do Prof. Adilson
Macedo, estas serão anteriormente explicitadas.
2. GREGOTTI, Vittorio. Território da Arquitetura. São Paulo:
Perspectiva, 1994.
3. PURINI, Franco. Autointervista sul disegno. Domus. N.763.
pp.103-4. Settembre 1994.
4. FORGHIERI, Yolanda Cintrão.
Psicologia Fenome-
nológica. Fundamentos. Método e pesquisas.
São Paulo: Pioneira, 1993.
5. PURINI, Franco. op. cit.
6. CULLEN, Gordon & FRAMPTON, Kenneth. Cuadernos
Suma. n.14. Nueva Vision.
7. Os croquis em questão foram xerografados das pranchas
originais e encadernados sob a forma de livro, que
se encontra a disposição na biblioteca da FAU USP,
cidade universitária.
8. V. Vol.II.2: “Imagem-síncrese.”
9. Pronunciamento realizado como professor convidado na
disciplina História da Arte, FAU USP, 1983.
39
Alunos matriculados na disciplina AUP-846
1
o
. semestre 1995
Projeto de Arquitetura Urbana
Docentes: Prof. Joaquim Guedes e Prof. Adilson Macedo
FAU USP - Pós-graduação
Alunos regulares freqüência / curso
Adalberto Retto Jr. não compareceu
Adriana Fernandes de Oliveira não compareceu
Aparecida Netto Teixeira não compareceu
Carlos Costa Amaral Jr.
Claudia Verônica T. Barbosa
Davi Cherman não compareceu
Edgard Tadeu D. do Couto
Enio Moro Jr.
Geni Takeuchi Sugai
José de Magalhães Jr.
Mario Arturo Figueroa Rosales
Ruy Arini
Alunos especiais
Cintia dos Santos Monteiro
Daniela Resende da Costa desistente
Dierk Schafmeyer
Eleusina L.H. de Freitas desistente
Igor Guatelli
Hernan Carlos W. Sanchez Garcia
Margarete Carvalho não compareceu
Maurício Cabral Duarte
Nelson Trezza
Patrícia Gizelle Van Hoesel
Rita de Cássia Meireles
Silmar Silva C. Anelli
40
A parte da pesquisa relativa às entrevistas com os arquitetos
teve seu desenvolvimento no segundo semestre 95 e primeiro
semestre de 96.
A pesquisa nesta fase consistiu basicamente de entrevistas
através de questionário básico formulado previamente,
gravadas em fitas cassetes e no registro fotográfico em
diapositivos coloridos de croquis cedidos pelos entrevistados.
A técnica utilizada na coleta dos depoimentos é a história
oral - relatos orais obtidos na situação de entrevista, segundo
as colocações de Maria Manuela Alves Garcia
(01)
associados
ao registro fotográfico dos desenhos quando possível.
História oral é termo amplo que recobre uma
quantidade de relatos a respeito de fatos não
registrado por outro tipo de documentação, ou cuja
documentação se quer completar. Colhida por
entrevistas de variada forma, ela registra a
experiência de um só indivíduo ou de diversos
indivíduos de uma mesma coletividade. Neste
último caso, busca-se uma convergência de relatos
sobre um mesmo acontecimento ou sobre um
período de tempo.
(02)
Garcia acrescenta:
Saindo dos domínios propriamente da pesquisa
histórica, a “história oral” tem hoje uma carac-
terística pluridisciplinar e abrange modalidades de
relatos que vão desde a “história de vida” aos
chamados “depoimentos orais” que enfocam
temas, fatos ou acontecimentos datados no tempo
e no espaço.
(03)
A coleta dos depoimentos se deu então por meio de uma
entrevista semi-estruturada, que tem por característica unir
depoimento biográfico ao temático. Ao mesmo tempo em
que abordou aspectos vivenciados por cada um dos
II.2. Entrevistas com arquitetos
Apresentação
entrevistados de forma única e singular sobre a trajetória
profissional, também tentou abordar questões comuns
relativas ao campo do fazer arquitetônico, dos métodos e
sua relação com o desenho.
Assim como Garcia, privilegiou-se um meio-termo entre e
diretividade e a não-diretividade. Coube ao entrevistado em
alguns momentos dar rumo à entrevista, depois de colocada
a questão, somente interrompido pelo pesquisador quando
outros esclarecimentos se fizeram necessários face à
temática tratada.
Tal tipo de abordagem metodológica priorizou a memória do
entrevistado como fator essencial para realização da pesquisa
e fonte do material a ser analisado. Garcia faz um estudo
sobre este problema em que relaciona autores com visões
diferentes. Cita Halbwachs
(04)
, segundo o qual
a lembrança é influenciada pelas percepções atuais do
indivíduo e por suas relações com diferentes grupos em que
está inserido.
(05)
Assim admite-se que se corre alguns riscos, e estes segundo
a autora advêm
dos compromissos e papéis sociais desem-
penhados por pessoas profissionalmente ativas e
sobretudo por pessoas que têm uma imagem
pública a preservar. Estas últimas estão mais
sujeitas ainda aos estereótipos e mitos de quem
procura se proteger da crítica, se justificar ou
corresponder a uma imagem oficial e pública.
É como se essas pessoas ou mesmo grupos com
essas características fossem os ideólogos de suas
próprias vidas e procurassem conservar a sua
imagem para a história, fornecendo, muitas vezes,
uma versão consagrada de si mesmos e dos
fatos.
(06)
A autora coloca também que este tipo de discurso, e os
documentos provenientes,
têm a característica de ser o resultado de um
processo de interação entre pesquisador e os
pesquisados. Ou seja, há todo um universo de
significados, de constrangimentos e censuras que
perpassa a relação da entrevista e que certamente
marca o seu conteúdo.
(07)
Segundo Garcia o pesquisador é de certa forma também co-
produtor dos discursos.
Os tópicos principais das entrevistas :
Formação e atividades atuais.
O processo de trabalho. Projeto - Metodologia.
(objetividade x subjetividade)
Sobre a criação do espaço: das características da
imagem mental, quando o projeto se concretiza
enquanto forma,figura. Sua relação com a
representação gráfica.
A relação desenho - projeto. O desenho enquanto
instrumento de projeto.
O prazer do desenho enquanto atividade,
facilidades e dificuldades.
Retrospectiva de aprendizagem: problemas e
soluções alternativas.
Estes tópicos foram básicos e se apresentam em todas as
entrevistas, mas existem outros que referem-se ex-
clusivamente ao trabalho de cada arquiteto.
Foram três os arquitetos escolhidos (relacionados por ordem
alfabética): Abrahão Sanovicz, Joaquim Guedes e Paulo
Mendes da Rocha.
Este grupo foi definido segundo alguns critérios, julgados
adequados às condições de sua representatividade no campo
de estudo desta pesquisa:
41
Conjunto de profissionais representativos do fazer
arquitetônico atual, especificamente no Brasil e em
São Paulo, com obras relevantes e experiência
significativa.
Têm experiência significativa também na área
didática, nos cursos de arquitetura em disciplinas
relacionadas ao projeto arquitetônico.
Têm opiniões muito diversas (em alguns casos
totalmente opostas) sobre projeto e arquitetura.
Ainda não aderiram à atividade de projeto com
auxílio do computador, no que se refere à fase de
Estudo Preliminar.
Pretendeu-se também resgatar a vivência, privilegiando a
investigação das memórias profissionais e do registro do
pensamento desses agentes, pois tais arquitetos e suas
memórias são fontes privilegiadas para uma aproximação dos
processos relativos à concepção do espaço arquitetônico
através do desenho.
Em última instância o objetivo foi o de demonstrar como o
desenho é utilizado no processo de projeto, classificando-o
em categorias quanto ao aspecto gráfico, técnico e
intelectual, associado ao método correspondente.
As entrevistas foram digitadas de forma literal, portanto
repletas de expressões coloquiais do nosso cotidiano. Tentou-
se preservar o máximo a integridade dos relatos, a
individualidade e as características de pensamento de cada
arquiteto para que o próprio leitor possa também compará-
las e tirar suas próprias conclusões. Alguns trechos nos quais
aparecem os sinais (...), não foram passíveis de digitação
devido a interferências sonoras que não permitiram a
identificação precisa das palavras.
Na seqüência são apresentados os depoimentos precedidos
dos questionários originais - nem sempre seguidos a risca -
na ordem em que foram realizadas as entrevistas.
Notas e referências bibliográficas
01.GARCIA, Maria Manuela Alves. A Didática no Ensino
Superior. Campinas: Papirus, 1994.
02.QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. Relatos Orais: do
indizível ao dizível. In: Von Simson, Olga de Moraes
(org.). Experimentos com histórias de vida (Itália -
Brasil). São Paulo: Vértice, 1988. p. 19. Cit. in:
GARCIA, Maria Manuela Alves , op. cit
..
..
., p.18.
03.GARCIA, M. M. A. op. cit., p.19.
04.HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo:
Vértice, 1990. Cit. in: GARCIA, M. M. A., op. cit.
05.GARCIA, M. M. A. op. cit., p.21
06.GARCIA, M. M. A. op. cit., p.22
07.GARCIA, M. M. A. op. cit., p.23
42
data: 31/10/1995
local: escritório do arquiteto, prédio do IAB, 5
o
. andar
Dados do entrevistadoDados do entrevistado
Dados do entrevistadoDados do entrevistado
Dados do entrevistado
data e local de nascimento: 1928, Vitória / ES
formação (data e instituição): Arquiteto / Mackenzie, 1954.
atividades atuais principais: Projetos (edificações,
cenografia, etc.) / Professor FAU USP
1. Atividades atuais. Como está organizado o escritório?
(número e qualificação de pessoal)
Como funciona tal estrutura em relação aos projetos de
arquitetura? Enquanto arquiteto, participa de todo o
processo? De que maneira?
2. Tal estrutura sempre se deu desta forma?
3. Existe geralmente um tempo médio para o
desenvolvimento do projeto em função do porte e
complexidade do programa ?
4. Existe uma metodologia definida (particular e de equipe)
em relação ao processo de projeto?
Como se dá a relação objetividade e subjetividade no
processo?
5. Com respeito à criação do espaço, do processo de
concretização do mesmo enquanto forma, figura, como
se caracterizam suas imagens mentais? (todo e/ou
detalhe , externo/interno, espaço/objeto, etc.)
Existe um momento específico do processo de projeto
em que tais imagens são visualizadas? Qual a relação
dessas imagens com o grafismo, o desenho?
Aparecem geralmente bem definidas e nítidas, enquanto
imagens similares às memorizadas, a partir da obser-
vação da realidade?
6. Baseado em suas próprias palavras em palestra realizada
II.2.1. Paulo Mendes da Rocha
Entrevista / Perguntas
na pós-graduação da FAU USP em 16/05/95 , e em
outras aulas da graduação, o projeto arquitetônico,
propriamente o ato de projetar, é antes de tudo uma
“estruturação do pensamento”, ativada pela volição, pelo
desejo de transformação do espaço, do ambiente,
colocando assim a arquitetura, a obra e o projeto,
enquanto discurso do arquiteto. Qual o papel do
desenho, enquanto atividade gráfica, neste processo?
Como se dá a relação entre o desenho e formulação do
seu discurso?
7. O “corte”, enquanto síntese do projeto, aparece com
destaque nas publicações e exposições. Qual a
importância deste em relação à planta ou à perspectiva?
8. O seu desenho, graficamente, caracteriza-se por
elementos lineares, sintéticos. Como se deu o desen-
volvimento desta linguagem? Quais os fatores deter-
minantes?
9. Existe diferença entre o desenho, croqui, de projeto e o
evocativo, ou seja, aquele feito mais tarde para ex-
plicação, ou do projeto ou da obra construída?
10. Segundo suas próprias palavras, “o programa não é
problema para arquiteto, é o seu discurso”. Neste
sentido, que envolve propriamente definições espaciais
concretas, como se dá o desenvolvimento do programa
do cliente para o programa expandido do arquiteto?
Como o desenho participa desse processo?
11. (Depende da resposta 5)
Segundo o artigo da AU no.60 jun./jul. 95, o partido da
sua arquitetura reside essencialmente na implantação.
Se correta a afirmação, como se dá esta concepção
enquanto imagem mental e gráfica?
Existe relação de dependência entre o desenho
(grafismo) e partido arquitetônico ou entre desenho
(grafismo) e racionalidade construtiva das estruturas? E
em relação ao método de projeto?
12. Em discurso anterior (Pós, 16/05/95) deixou claro que a
arquitetura se diferencia do “design” de um objeto sim-
ples, em termos imaginativos, devido à sua comple-
xidade. Existe no entanto diferenças metodológicas no
processo de se imaginar, projetar e desenhar grafi-
camente, mobiliário, arquitetura e cenário?
13. Neste mesmo discurso colocou que “ vamos sempre
ser racionalistas, funcionalistas, pois sem isso não dá
para construir”. No seu processo de projeto, como se
dá a relação entre desejo e razão?
14. O desenho é uma atividade prazerosa? Fale um pouco
sobre as facilidades e/ou dificuldades.
15. Fazendo uma retrospectiva da sua aprendizagem
acadêmica, como classificaria essa relação entre
desenho e projeto? Qual a postura docente e discente
na época?
16. Como vê o processo de projeto hoje com o
desenvolvimento da infográfica ? Houve mudanças
significativas no processo de projeto decorrentes da
implantação de sistemas informatizados para desenho
no seu escritório?
A entrevista - aspectos gerais
Um comentário feito pelo arquiteto antes da entrevista, mais
precisamente na ocasião do convite para a mesma, revelou
uma predisposição do entrevistado, que perdurou durante
toda a entrevista, em relação à possibilidade, requerida por
esta pesquisadora, de fotografar alguns desenhos: “Desenhos
Técnicos?” perguntou, e respondi que não, “talvez alguns
croquis de projetos”, e logo retrucou: “Isso não vai ser
possível, eu não trabalho desse jeito...” Acrescentando logo
43
a seguir que poderia desenhar enquanto falava, em uma lousa
que estava disponível no escritório. Talvez pelo conteúdo das
perguntas divergirem muito daquilo que talvez fosse sua
atração principal: a obra arquitetônica, ele nada desenhou
sobre a lousa durante as três horas nas quais se deu a
entrevista.
Como previsto, é muito difícil receber as respostas que se
deseja. Pessoas como Paulo Mendes, com sua experiência,
preferem falar sobre aquilo que lhes interessa, não importando
a pergunta que se lhes faça. Conquistou de fato o direito
para isso. Por vezes, quando a entrevista se dirigia a um ponto
que não era de seu interesse, se mostrava em desconforto
e, com um discurso, que certamente foi aprimorado durante
os anos de docência, retornava ao que lhe interessava dizer,
deixando bem claro que o importante é a obra construída, a
arquitetura propriamente dita.
Neste contexto, perguntar sobre o desenho e principalmente
sobre o croqui como instrumento de projeto foi uma tarefa
difícil.
O escritório do arquiteto se localiza no prédio do IAB. O edifício
é marcado pelo tempo e pelo descaso de seus condôminos,
que na maioria são arquitetos. O conjunto 51, onde se instala
o escritório, acompanha, de certa forma, o mesmo espírito;
tudo é muito antigo, com os sinais aparentes do tempo: as
paredes, os livros, canudos, e outros apetrechos. O barulho
do trânsito, que invade o escritório no horário de pico, parece
tornar o ambiente inadequado para atividades que exijam
elevada concentração. Trabalham no escritório, além do
arquiteto, dois estagiários e uma secretária.
Como se esperava, nenhum computador ou equipamento
sofisticado ou informatizado foi visto. Apenas os tradicionais
equipamentos de um escritório de arquitetura: pranchetas,
réguas paralelas, mapotecas e estantes com muitos livros.
Destacam-se na entrevista:
Algumas contradições: o desenho que não participa
do processo, quando efetivamente o faz e a
colocação de que o programa não é uma ordenação
espacial.
A visão poética da arquitetura racionalista.
A implantação como partido para uma visualidade
arquitetônica.
O desenho integrado com o partido e com o estilo.
A escola deficiente, ontem e hoje.
Arquitetura não se projeta desenhando, mas
imaginando; assim, é melhor andar e refletir, do
que desenhar para criar em arquitetura.
A perspectiva como redução da imaginação, pois
o espaço aparece na mente muito mais complexo
do que pode ser expresso em um desenho.
44
Atividades atuais e organização do escritório.
Bem... atualmente eu tô diante de ... uma série de
circunstâncias que são relativamente novas no âmbito da
produção mesmo dos projetos, né? O seu trabalho é um
trabalho de pensamento... intelectual... etc., mas você sabe
o que eu quero dizer... você tem que produzir um número de
desenhos que são a informação pras obras, né?... detalhar...,
tudo isso . Então fundamentalmente é a parte material do
trabalho do arquiteto. É interessante... porque material, mas
ela cruza muito com a questão da criatividade mesmo, porque
a medida que você desenha, você... estabelece uma reve-
lação de uma série de aspectos do projeto que se
transformam, né ? Como quem diz, a partir de uma concepção
básica, a construção daquilo, detalhamento estrutural ..., etc.,
vai se transformando. Portanto esta parte não é tão material
assim... Mas é a parte chamada material, que envolve trabalho
de terceiros..., tudo isso.
As circunstâncias atuais, que transformaram tudo isso que
eu quero te dizer são fundamentalmente às ligadas à
informática, computadores ... e tudo isso... Não é mais...,
quando você vê isso de perto, digamos, vê fazer, não é mais
possível desenhar...não se desenha mais com canetas... e
tintas... e réguas... Se desenha com computadores.
Diante disso... e é uma estratégia ligada às circunstâncias
da minha vida, a minha idade... tudo e tal, a minha
experiência... inclusive, permite fazer isso. E também o fato
de eu ter sido durante tantos anos professor na escola, eu
tenho um relacionamento extremamente feliz e propício com
jovens arquitetos extremamente capazes..., hábeis... que
constituíram escritórios muito bons com essas máquinas. O
que eu tenho feito então é... estou fazendo, pouco a pouco,
é transformando meu escritório numa célula..., num núcleo
de pensamento... Sempre estou acompanhado de um ou dois
estagiários pra fazer... pra ver o que eu estou fazendo, (...),
são interlocutores... me ajudam a preparar as matrizes
básicas..., e os raciocínios fundamentais e eu me associo
II.2.1.2. Paulo Mendes da Rocha
Entrevista / Respostas
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croqui de projeto, corte. Praça
do Patriarca, São Paulo,1992.
Projeto de arquitetura e enge-
nharia urbana.
45
oportunamente em cada projeto com um desses três ou
quatro escritórios com que já tenho contato e já estou
trabalhando, de ex-alunos meus... arquitetos mais jovens...,
mais jovens porque se submetem a trabalhar comigo nessa
condição. Eu sou o titular, não é?... uma coisa desse tipo.
Isso não quer dizer que eles não tenham nenhuma
colaboração... efetiva na invenção do projeto, não é bem
assim ... Por isso que eu falei tanto em ex-aluno e tudo
isso...Nós nos damos muito bem. Você podia fazer isso, do
ponto de vista puramente prático, com qualquer escritório...
que você contratava... Não é o caso. Eu quero dizer que há
também ..., com os escritórios com os quais eu trabalho há
uma estreita aproximação afetiva quanto à questão do
trabalho. Solidariedade naquele tipo de enfoque..., etc., que
mais ou menos caracteriza as coisas que eu faço, que eu,
devo ter na pior das hipóteses por vício, né? por hábito... E
eu to fazendo assim. Isso tá dando certo, porque me deixa
absolutamente tranqüilo..., eu lucro toda a eficiência desse
processo... tenho uma interlocução muito mais viva do que...
permanente....mais ou menos permanente com um pequeno
grupo que trabalhava comigo..., por necessidade...., meu
escritório sempre foi pequeno..., era um pequeno grupo... e
assim isso se amplia. Ao mesmo tempo eu acho que posso
aprimorar no sentido da... minha imaginação o que seria um
belo escritório pra mim. To gostando muito de que isso aqui
fique praticamente uma biblioteca..., um ateliê... Ele não vai
envelhecer. Eu tenho essa preocupação, porque eu já assisti
velhos colegas... que vão degenerando... Eu acho que não,
que vai ser o qualquer coisa do tipo, que vai se transformar
em algo melhor... Acho que tá muito bem assim. Essa é a
técnica, vamos dizer ... a estratégia que eu to enfrentando
uma situação de mercado, até pode-se dizer, mas não é bem
só a questão do mercado, ou melhor, a parte mais
interessante disso não é só a questão de mercado, que
naturalmente também tá sendo enfrentada também com este
modo de trabalhar... de maneira eficaz, mas não é essa a
questão fundamental. É mesmo uma nova maneira muito
rendosa de se produzir. Tá sendo muito bom.
De qualquer modo, isto não tem do ponto de vista da estrutura
mesmo do grupo de trabalho, ou dos grupos de trabalho,
muita novidade a não ser a questão do computador. Porque
seja de um modo ou de outro, seja concurso..., seja...trabalhos
imprevistos..., que te surpreendem pela magnitude, etc., faz
com que você constitua..., sempre foi assim..., fez com que
você... eu, constituísse equipes “alla ocasião”, equipes para
aquele projeto. Portanto(...) muito bem. É assim que eu estou
fazendo. To trabalhando assim.
Acompanha todo o processo?
Quanto ao acompanhamento, eu acompanho todos os
passos, por várias razões, até por implicância, por mau caráter,
já que eu desenvolvi, a essa altura do meu trabalho. Eu não
consigo delegar nada, eu faço questão..., mas é um hábito
já, porque... eu aprendi, por isso que adquiri este hábito, que
até o último instante você mexe pequenas coisas num projeto,
que resolve tudo. Às vezes são pequenas articulações entre
a fundação, isso e aquilo, você muda uma coisa por outra
que não muda propriamente o projeto em si, mas é como se
realizasse. A maioria dos projetos, quando tem um ponto de
partida conciso, e... ele se revela bom, justamente nessa
medida, ele começa a ter gênese própria, e lá pelas tantas
você descobre que projeto era aquele mesmo mas não se
faz assim... então faz assado, aquele mesmo projeto. Você
realiza melhor ele...
Existe um método definido, em relação a tempo e
etapas?
Essa questão é muito importante... do método e da seqüência
do pensamento no tempo, né? É como se fosse embaralhar
as cartas. Entretanto eu queria acrescentar em relação ao
que já vínhamos dizendo, que esse acompanhamento, talvez
seja importante explicitar que é um acompanhamento do
cálculo da estrutura... do desenvolvimento das redes de
instalações... e critérios, né? se você faz um forro iluminante
com luz indireta... ou se você faz pontual a iluminação..., coisas
desse tipo. Esse acompanhamento é que eu falo. Escolha
de materiais... etc., etc. mesmo porque esse acom-
panhamento é indispensável porque às vezes na escolha do
terceiro, digamos assim, material que vai entrar naquele
recinto até, (...) você muda todos os outros pra trás, porque
aparece qualquer coisa pr’o piso... que você não tinha
pensado antes..., já tinha pensado numa outra coisa... e que
obriga a mudar ... o tratamento da parede, etc., dada as
virtudes inexoráveis desse piso novo que... nem sempre é
uma descoberta, não é questão de catálogo nada. Te ocorre,
você tinha esquecido por exemplo que você pode usar um
tartam, que se usa em quadra de basquete, né? você pode
usar pra revestir uma sala de trabalho..., aí você muda outras
coisas... pra recompor aquilo tudo.
No fundo é o mesmo projeto sempre. É como se ele se
realizasse melhor, né?
A idéia de um projeto, a rigor, sempre se descreve por partes,
por que é uma questão até motora do nosso processo de
emitir sons, mas não é nada feito por partes. Entretanto o
que podia se dizer é que, se fosse escrever um livro sobre
um determinado projeto e qual seria o capítulo primeiro? Que
não é bem uma questão de partes, uma concatenação ideal
do raciocínio, caberia..., tomos, que não é bem partes, né? É
quase que uma dissecação posterior, tá certo ? pra descrever
aquilo, porque a idéia mesmo é interessante, não é uma idéia
teórica sobre o que deve ser um projeto, fazendo o que você
pediu que eu fizesse, uma rememoração, é uma integridade
mesmo, uma visão íntegra, formal portanto, uma forma, você
vê o projeto. O projeto não se desenvolve nos rabiscos, o
que as vezes se faz quando a coisa é muito complexa é
começar a tomar nota, através do que se chama croqui, etc.,
de algumas idéias que parecem que são fundantes daquilo,
quanto à forma já. A idéia entretanto do projeto que exige
essas..., as formas são aproximações mambembes da idéia,
a idéia mesmo não se realiza, se você imaginar uma idéia e
46
pensar que possa construí-la com tijolo..., pedra..., pedaços
de ferro..., é a coisa mais grotesca que pode acontecer, não
é verdade? É por isso que muito arquiteto, sem dúvida, tem
muita inveja da literatura..., da música ..., tudo isso. Entretanto
não trocaria. Porque ... não adianta você ouvir
sistematicamente uma sinfonia você acaba com pneumonia
se estiver debaixo da chuva, precisa um telhado. É uma
questão da condição humana, mas é uma... passagem difícil,
você construir uma idéia, porque arquitetura é isso. Mesmo
que você diga que uma casa é uma casa, não é uma idéia, a
história é que fez isso. Você fala em cadeira, já pensa naquela
cadeira, mas foi a história, porque de fato a cadeira é uma
idéia, que tanto realizada ela mais ou menos se configura
daquele modo. E sendo assim é difícil descrever por partes.
Mas então, quais seriam esses tomos? O primeiro capítulo.
Geralmente ele surge justamente porque a idéia da arquitetura
é concreta assim em que... diante do fato, o lugar..., a
dimensão..., ou mesmo o tema, um ginásio esportivo, ele
pode ser pra vinte mil lugares ou pra cinco mil lugares,
completamente diferente a escala..., coisas desse tipo,
público ou de um clube privado... O lugar é muito importante,
a situação dentro da cidade..., tudo isso.
Justamente essa concretude quanto aos ideais sobre um
projeto, que vem..., não vem dessas circunstâncias, quando
te apresenta o problema, né? Vem da sua condição de
arquiteto, você sempre pensou em tudo isso mesmo que
não fosse de modo muito objetivo. Ou seja, nós vemos a
demanda objetiva, a encomenda pra fazer um ginásio
esportivo, como uma chance de se fazer aquilo. Já tinha feito
um ginásio antes, nenhum projeto, nenhum programa
surpreende o arquiteto, né? Se você diz “uma casa com
vinte quartos”, se diz assim “puxa, nunca tinham visto antes”.
Geralmente, todos nós queríamos fazer uma casa com vinte
quartos, uma casa pequeninha, ou se disser “uma casa com
um quarto só”, também é muito curioso, seria uma casa que
eu sonhei pra mim, qualquer coisa assim.
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croquis de projeto, cortes e
detalhes. Praça do Patriarca,
São Paulo, 1992. Projeto de
arquitetura e engenharia ur-
bana.
47
Os projetos estão prontos na sua cabeça. O que atrapalha é
a circunstância objetiva, aí você diz “mas nessa perambeira?”
E nesse momento que você considera, necessariamente tem
considerar, a especificidade da questão, no caso,...o
ineditismo daquilo colocado naquele lugar, ou seja o que for,
que possa tornar inédito aquele problema que é
historicamente sempre, como fato particular agora, faz com
que na sua mente surja onde tá então a dificuldade então no
caso, e aí isso passa a ser o problema principal, não é? Por
exemplo o Ginásio do Paulistano na Rua Augusta, uma escala
adequada a um passeio público de compras! Aquilo é uma
rua... de shopping, de pessoas bonitas andando..., como é
que vai botar lá um trambolho, que a imagem que você tem
é sempre alto, porque precisa dez metros de pé direito..., e
então surge a solução para o caso. Você diz “este é o
problemas principal!” E ao mesmo tempo o enclausuramento
daquilo, são panelas fechadas com gente lá dentro, aquela
gritaria, a festa que tá lá dentro não participa da que já tava
aqui fora, essa incompatibilidade surge como a questão
primordial no lugar, e daí você fazer uma espécie de varanda...
com uma plataforma semi-enterrada pra baixar o pé direito...,
tudo isso, né? Que possa até, se bem que é um pouco de
exagero, mas enquanto forma visível, suscitar a admiração
como a vitrine do quarteirão passado também suscitava, tem
que ver algo belíssimo..., curioso..., imprevisto... e sem
ofender as exigências funcionais técnicas da coisa em si. É
um jogo. É um jogo bastante diletante até certo ponto, do
ponto de vista do psiquismo humano é uma farra, e ao mesmo
tempo seríssimo, enquanto tecnicamente tem que ser bem
resolvido. O arquiteto tem que ser tecnicamente muito
competente, no fundo por mais que sonhe..., fantasie..., ele
vai acabar fazendo uma construção. Arquitetura é construção,
é algo que tem que ser construído. E transformar a construção
em algo delicado..., gentil... , transparente..., submetido a
essas fantasias, né? que são ... a parte poética da linguagem
da forma, e primordial, quase que sem ela não vale a pena
construir. Nós podemos construir, demolir, construir, demolir
quantas vezes quiser né? Pra que os outros digam “Ah isso
aí, por favor deixa aí, não mexa mais”, né? Mesmo que não...,
a idéia não é seja eterno mas que encante aqueles que vivem
naquele tempo, pelo menos, né? Que no fundo é a huma-
nidade inteira. A humanidade, a história só é os que vivem.
É interessante o que eu te descrevi mais ou menos o Ginásio
do Clube Paulistano, que eu fiz em 1957. Portanto do ponto
de vista da concepção do projeto, eu não sei porque..., comigo
sempre foi assim. Já naturalmente a falta de experiência fez
com que, como nós desenvolvemos e desenhamos aquele
projeto foi muito complicado e tumultuado, não é como eu
faço hoje, digamos, quem me dera eu tivesse essa
experiência, né? Mas de qualquer maneira eu fui muito feliz
porque aprendi inclusive. Não tive problemas, entretanto,
porque aconteceu o seguinte nessa obra, particularmente
nessa obra, no fundo foi a minha escola, né? Não só essa,
mas essa foi a primeira, assim ...de grande importância.
Aconteceu que não houve concorrência pra construção, o
construtor já estava lá, o clube tava em obras...porque tinha
outras reformas..., tavam fazendo aquele pavilhão da rua
Colômbia, que é projeto do Warchavchik..., inclusive continuou
muito tempo aquela obra..., deu tempo da minha conviver
com aquela... eu acabei sendo amigo do Warchavchik, nós
íamos ver juntos a obra..., era uma coisa muito divertida,
pela diferença de idade...e tudo isso. E até de tamanho, ele
tinha dois metros de altura, parecia (...)
Mas o que eu queria te dizer é o seguinte: Como havia esse
engenheiro, essa firma de engenharia que já construiria aquilo,
nós sem querer, digamos assim, ou por uma razão fortuita,
trabalhamos de uma forma excelente pra arquitetura, que
inclusive até hoje não se trabalha por uma série de
idiossincrasias... negócio de concorrência... pública..., tudo
isso, qual seja a forma de você desde o início do projeto, do
seu desenvolvimento... etc., trabalhar com o que outros
chamam de “engineering”, que quer dizer, quem vai construir
é antes de mais nada..., bom, não pode ser um cúpido
construtor a fim do lucro, é um engenheiro, é uma engenharia
que opina também sobre as virtudes desse método ou
daquele, se vai rebaixar lençol..., se vai fazer estaca prancha...,
se vai, se convém levantar um pouco mais o piso e não
enfrentar lençol freático..., então como é que fica o pé direito...
e isso e aquilo..., se vamos usar, eu quis fazer aquilo
pendurado em cabo de aço... Por exemplo, não fui eu que fiz,
a idéia não é originalmente minha que cada pendural tivesse
um par de cabos, isso foi o Túlio Stook, que era uma
engenheiro fantástico, então, como ancora o cabo aqui no
concreto e como prende o cabo lá na cobertura de metal, na
estrutura de metal, e como estica pra afinar aquilo pra que
todos os cabos dos seis pilares tenham a mesma tensão,
então inventou-se uma maquineta que mede essa tensão
para afinar os cabos, e ao mesmo tempo o Túlio falou “Bom,
são seis toneladas por cabo”, que é nada, né? uma bobagem,
“nós vamos fazer assim, que tal fazer assim? A gente ancora
o cabo aqui e em vez de ficar ele amarrando na cobertura
metálica”, porque aquele nó dele na cobertura metálica é
um problema técnico, ofende a telha... tem que vedar..., “que
tal a gente por uma roldana, a gente ancora o cabo aqui,
passa na roldana e volta, na volta aqui a gente põe o esticador,
fica mais fácil de trabalhar, etc. E a virtude é que em vez de
fazer um cabo pra seis toneladas, que já é um cabo
relativamente pesado, nós fazemos três toneladas por cabo,
um par de cabos, como uma talha.” Uma coisa brilhante! A
idéia é dele. E nós detalhamos...e tudo. Isto e uma maravilha
porque, a ancoragem na estrutura metálica é uma roldana...,
nós ancoramos o cabo aqui e já fundimos uma cabeleira como
eles chamavam, que é um feixe de ferros que mergulha de
uma forma mais ou menos desordenada no seio do
concreto..., depois sai o cabo de aço... a partir de um arranque
soldado com rosca..., e sai o cabo, passa na roldana, volta, e
na volta nós botamos o esticador, porque o esticador já fica
na em cima da cabeça do pilar, que ele vai ter que ser
protegido pra... ,engraxado..., enfim coisas deliciosas de se
resolver junto com a engenharia, uma consultoria permanente
de engenharia.
Portanto o desenvolvimento do projeto foi esse, primeiro a
solução depois o desenho. Não obriga ninguém a executar
desenhos caprichosos. Isto eu aprendi de cedo. O desenho é
48
registro de idéias interessantes, que já estão resolvidas e
também calculadas, quando se falou em seis toneladas já
tinham calculado a cobertura, etc., etc. ... Eu pude fazer isso
muito bem e aprendi a fazer sempre assim. Eu faço um projeto
inteiro com os calculistas..., com os especialistas, quando a
coisa é preponderante quanto a caixilhos... , peças móveis...,
mecânica..., tudo isso.
Tanto que cabe aqui uma observação antes que a gente
esqueça, que é a seguinte: Certos aspectos brilhantes da
arquitetura fora do país que estão publicados em revistas,
não representam um avanço dos arquitetos. Isso é muito
interessante, se os empresários de hoje considerarem aqui
quando eles defendem, tanto iniciativa privada... quanto
intercâmbio internacional..., coisas desse tipo, porque o
intercâmbio não seria de arquiteto para arquiteto, mas
colocarem, eles que tem poder econômico para isso, à nossa
disposição aquela tecnologia, ou aquelas técnicas mais
avançadas. Não sei se ficou claro o que eu quis dizer. Eu não
preciso me associar a nenhum arquiteto estrangeiro, se bem
que a idéia de associação quanto à beleza dos
empreendimentos... e o requinte é interessante, mas o que
me falta não é um colega de outro país, me falta os recursos
que ele tem lá, que aqui de fato não existem. Esta Loja Forma
mesmo que eu fiz, aquela chapa lá, não sei se já tem aqui,
mas foi importada do Estados Unidos.
Sobre as características da imagem que surge ao
projetar e em que momentos ela aparece.
Eu tenho a impressão, bom, eu to correndo o risco de, você
fala... e não foi isso que você fez. Mas como eu já tenho
alguma obra, isso pode ser sempre checado. O que eu podia
te dizer, é que eu não tenho imagem nenhuma. Os meus
projetos não seguem uma linha formal, que evolui uma das
outras. Há até arquitetos que fazem isso com grande brilho.
Eu imagino que comigo não é assim, eu tenho essa imagem
de mim mesmo, da minha obra, posso estar enganado, mas
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croqui de projeto, detalhes.
Praça do Patriarca, São Pau-
lo,1992. Projeto de arquitetura
e engenharia urbana.
49
acho que não.
Pra mim é uma invenção. O que é permanente... é a idéia do
desejo dos outros, pra mim a visão de tudo isso é uma visão
de caráter literário sobre o andamento da sociedade..., da
felicidade do homem mesmo, felicidade aqui no sentido bem
mundano, é alegria, podia dizer né? Eu estou interessado na
alegria dos outros, eu acho que eu invento cada projeto,
porque esse é uma coisa aquele é outra... Nós estávamos
falando de um Ginásio esportivo e mencionamos sem querer
essa Loja Forma, uma loja portanto, né? um Show room, um
lugar de exibição de artefatos que você vai... namorá-los, pra
dizer “eu não posso comprar todos, eu vou comprar em
preferência aquele”. É uma coisa muito curiosa essa do
comércio. Mesmo pra comer, no mercado..., você não pode
comer tudo aquilo..., e você escolhe o mais sedutor.
Mesmo as necessidades, digamos sérias da vida, saúde...,
habitação..., transporte, possuem entretanto essa mesma
condição, no fundo. Porque se o transporte falta e é horrível
faltar, não precisamos aqui mencionar..., por outro lado possuí-
lo, ter a disposição um sistema eficiente de transporte numa
cidade, é um prazer imenso. No segundo dia, por hipótese
que fosse instalado, você esquece as amarguras que já
passou e aquilo é puro divertimento. Eu nunca consigo ver...,
mesmo uma casa, quem não sabe como se inaugura uma
casa? Seja que casinha for, a casa que você precisava e não
tinha, e agora tem, de algum modo, alugou...Então espana
aquilo tudo..., pinta uma parede..., arruma os seus móveis,
não é? No fundo fala-se mais das amarguras da vida, e acho
que com muita justeza, porque principalmente hoje o mundo
não tá uma brincadeira. Mas nessa vidazinha nossa de todo
dia..., os prazeres são imensos, tá sabendo disso, né? Nós
somos muito animados. E... arquitetura satisfaz essas
questões. Você vê que ela se realiza com extrema proficiência,
até em casos extremos como o da medicina, quando
ultrapassa-se a dimensão da estrita necessidade das coisas,
não é? Esses hospitais que o Lelé tem feito... Eles são... Não
sei se vale a pena quebrar a perna pra ir lá propriamente...
mas são coisas muito boas... muito bem feitos..., procuram...
Porque sabe-se que, inclusive o remédio melhor pra curar o
mal é o auto espírito, né? Nós somos só isso. Farra pura,
apesar de tudo.
A imagem da Loja forma
Eu tô falando coisas assim tão... flóridas e fluidas, mas...tudo
se transforma em arquitetura e vai pro lado portanto da
competência da técnica... e tal, no momento em que você
transforma toda essa brincadeira em problemas objetivos
quanto à construção. É uma passagem curiosa, muito ligada
à história da engenhosidade humana... e tudo isso...né?
Fabricar uma canoa, no fundo é uma maravilha, depois você
que ficou aqui em terra, vê aqueles personagens lá longe,
flutuando sobre o mar e ainda dando adeus e morrendo de
rir, né? Pescando..., e passeando. Portanto são realizações
de desejos mesmo, mas você tem que transformá-los num
certo momento em... objetivos problemas, então se você
chega na loja Forma e diz assim “bem aqui, a via é muito
rápida, a avenida é de tráfego rápido, eu preciso
estacionamento e não adianta arranjar um funil para o carro
entrar, ele tem que entrar ao largo, são muitos carros, mais
ou menos, ... de forma... imponderável, quanto mais melhor,
porque ninguém sabe quantos clientes vão chegar , o que
que é o pique deste estacionamento, se fosse o terreno
todo...”, você transformou uma idéia vaga ... “queria bastante
estacionamento..., bem folgado..., eu quero entrar de qualquer
jeito, porque eu posso ficar piscando, piscando e entrar em
ângulo reto numa avenida, ou nem sair, onde o tráfego é
rápido. Isso é um problema, então é um problema. O melhor
modo de resolver o problema, e já estou criando inúmeros
outros problemas, quando eu digo isso, é fazer o terreno
todo estacionamento, porque aí não tem mais loja nenhuma,
como é que eu vou fazer? Imediatamente te ocorre que a
vitrine é alta, até certo ponto é boa porque os carros do outro
lado da rua, podem ver também a vitrine, senão o próprio
tráfego da mão de cá atrapalha, e o próprio estacionamento
não estará nunca na frente da vitrine. Vamos levantar então
esta vitrine, até há muito exemplo, tá cheio ali na Faria Lima,
há muitas lojas com vitrine alta. Porém, outro problema, que
já é de competência de quem, é problema pra quem tem um
tino competente, se eu ponho muito alta eu não vejo nada...,
eu tenho que por numa altura..., se eu puder por a dois metros,
dois metros e dez..., porque é uma boa altura para um pé
direito pra garagem , não precisa mais que isso, até, você
veja como vão se desencadeando as idéias, até para tornar
o mais vil possível o espaço do estacionamento para agora
não roubar a beleza da loja, senão se estaciona..., conversa...,
vai embora e não compra nada. E imediatamente surge um
outro problema, que essa vitrine para ser vista nessa via
expressa deve ser o mais longa possível, não adianta eu fazer
uma sucessão de pequenas vitrines, porque você confunde
com a vitrine do vizinho..., você não sabe se é a mesma... O
único jeito de fazer a mesma coisa é fazer uma mesmice,
portanto fazer a vitrine de todo comprimento do terreno e
baixinha, e surge um novo problema, tudo o que você imagina
torna-se problema, técnico. Se eu vou fazer baixinha e vou
fazer estacionamento, eu não quero fazer muito pilar, trinta
metros é um vão razoável, mas a viga para vencer trinta
metros, já estou fazendo uma viga só, só com apoios
extremos , só com dois apoios, mas uma viga com esta
dimensão tem uma altura muito grande, não adianta eu fazer
a garagem com dois e dez se tem mais um e cinqüenta de
estrutura, a vitrine vai pra três e cinqüenta. Eu tenho que
inventar uma viga que possa ter um desdobramento em duplo
“T”, que a aba inferior possa chegar a zero, eu volto com o
cristal, e se o plano vertical é um cristal, porque que o inferior
(...)
(...) os temas que se resolve a arquitetura, não são problemas
propriamente de teoria da arquitetura, é um modo peculiar
que um arquiteto pode ter e deve tornar cada vez mais aguda
esta capacidade de realizar numa obra, de estabelecer o
elenco numa obra, dos radicais extremos e nítidos problemas
que realiza aquela idéia. Transformar a idéia em problemas.
Espessura de viga..., a totalidade do estacionamento..., etc.,
50
etc. Outra coisa interessante de considerar ainda na loja
Forma, é, como há muita loja de mobília lá e se você envidraça
aquilo tudo, você vai ver tudo lá dentro, esta é uma visão de
caráter cinematográfico..., ou de óculo de concentrar a
imagem, você mede, avalia o tamanho das peças, cadeirinhas,
e faz a vitrine pequena, com um metro e setenta, um metro
e oitenta, em altura, por trinta metros, o que acentua a visão,
de dimensão horizontal, de demora daquela imagem e surge
de novo um problema, essa loja vai ser uma coisa minguada,
então tem que fazer muito pra cima, pé direito alto, etc., cuja
superfície em fachada será o que? Enfeitar uma coisa dessa?
é difícil... Bem, a loja já possui um marca, vamos fazer a
marca da loja como se fosse um cartão da loja... branco com
a letra, etc., o logotipo, são decorrências... O que se diz, eu
acho que já disse a você agora mesmo, é que um bom
desenho inicial, um conjunto de idéias com consistência sobre
uma questão passa a ter gênese própria do seu
desdobramento, né.
Como se daria então o desenvolvimento da figura que
surge a partir dos problemas? Pelo desenho ou não?
É um pouco fracionada esta questão. Vamos voltar ao Ginásio
do Paulistano. Ele estava visto, com aquela varanda circular...,
porque a forma circular é boa..., as arquibancadas mais ou
menos embutidas naquela esplanada onde haveria
convivência com os personagens, que nos intervalos de jogos
saem para aquela varanda..., convivem com quem está na
rua... Porém a forma específica daqueles pilares que se
afastam do centro do círculo, que ficam em balanço
contraditório, um balanço aparentemente contraditório, para
de novo serem puxados pr’o centro através dos cabos de
aço..., a forma, objetivamente falando, a forma específica
daquela figura, bem , isto você pode experimentar em dois,
três rabiscos, pode ser um pilar inclinado..., fica meio sem
graça, acabou ficando aquela espécie de vela que tá lá...,
etc. Uma massa, que é justo que haja uma massa pra
contrabalançar o esforço centrípeto dos cabos..., uma espécie
de gesto centrífugo pra neutralizar o centrípeto. Além de uma
efetiva sobrecarga, não é? em sentido contrário. De fato o
desenho daquela figura pode, eu acho até que experimentei
umas duas, três figuras infelizes..., achei que aquela mais ou
menos daria, né? bem, ficaria bem. Isto você pode fazer com
um rabisco ou outro, como quem diz “se eu quero fazer isso,
assim, eu faria bem, assim não. Mais pra cá... isso se faz.”
Agora mesmo nós estávamos desenhando pra lá e pra cá
uma simples piscinazinha pr’um amigo meu..., fica melhor
assim porque tinha um matinho aqui..., ela é curvilínea, né,
no caso.
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croqui de projeto, cortes. Praça
do Patriarca, São Paulo,1992.
Projeto de arquitetura e enge-
nharia urbana.
51
O porquê da escolha do corte e da planta como ele-
mentos gráficos básicos de estudo do aprimoramento
da figura.
Todo raciocínio arquitetônico é volumétrico. E como cada vez
mais nós trabalhamos com técnicas precisas, viga e pilar...,
pórticos..., treliças metálicas para realizar aquele volume, os
dois desenhos que esclarecem bem isto e são concomitantes,
e não se faz primeiro um ..., são as plantas e os cortes, porque
perspectiva, não sei se eu tenho razão inclusive, é um grande
desaforo porque a maioria dos arquitetos, eu mesmo faço
umas perspectivazinhas, mas ela é muito enganosa, né?
Como a fotografia, a arquitetura fotografada tudo bem, precisa
se fazer um registro, mas é uma coisa muito infeliz, aquilo é
aquilo mesmo e na sua mente você vê a coisa pronta, você
não consegue imaginar uma perspectiva, não é assim. Você
imagina-se andando pra lá e pra cá, medindo..., quatorze
metros, não dezoito, é duas vezes essa sala... Você tem
parâmetros de coisas conhecidas desde já, a avenida Paulista
tem dois quilômetros e meio, até para espaços amplos...,
urbanismo..., pra decisões, você compara com algo que você
já conhece. Nós somos cravados, montados numa
experiência, né? Toda esta conversa nossa esta calcada numa
experiência, a mais antiga junto quase com a formação da
linguagem, da consciência , da construção né? E isso tá
situado hoje em dia, essa circunstância, da nossa vida, da
nossa condição humana, tá muito acentuada. É uma
constante histórica mas que não tem o mesmo andamento
hoje. Tá muito acentuada. Por causa das ciências, né?
Principalmente. Do aspecto de verdade do conhecimento da
natureza, do universo, calcado no discurso das ciências, nas
revelações das ciências. Os cientistas sabem, e dizem com
clareza, que se tudo começou, pra descobrir o que é aquilo,
que hoje não se faz mais isso. Você reproduz os fenômenos
e vê como aquilo se deu. Ou seja ninguém tá preocupado
que cor tem o universo, é como se deu essa configuração
que tá aí das estrelas, etc. Mede-se o tempo das coisas, a
velocidade da luz..., a idade do universo. Ou seja, nós temos
uma visão agora, que diante de nós é claro, o próprio universo
é histórico, torna-se histórico. Você reproduz os fenômenos.
Portanto o que se imagina com a arquitetura, não são espaços
estáticos propriamente, é como se dissesse “eu não imagino
arquitetura nenhuma, eu imagino-me lá, eu ando pra lá e para
cá lá dentro”, e a perspectiva é muito infeliz, é de uma pobreza
tão grande em relação ao que tá na sua mente, que ou você
fala ou você faz logo a planta e o corte, porque isso é burrice
mesmo, mas é uma configuração que nós nos acostumamos
com isso, a medir exatamente a altura, que seria o pé direito,
a distância e principalmente os elementos estruturais que
aparecem em seção, a dimensão da viga..., tudo isso... E já a
planta, geralmente é uma sucessão desse elemento
estrutural..., como se fosse um sólido de revolução quase,
né? .... a arquitetura. Portanto, quanto mais bem se imagina,
menos perspectivas se, com certeza, eu estou inventando
agora, mas eu acho, porque eu não tem... a paixão de fazer,
a tendência de fazer, o ímpeto de fazer a perspectiva? Porque
você está imaginando aquilo e olha a própria perspectiva que
você desenhou, você fala assim “mas que crime, que coisa
horrível, não é nada disso...” Entretanto faz-se, pr’o outro
ver, porque o outro que não imaginou nada ainda, com esta
perspectivazinha ele começa a entrar quem sabe ... mas pra
você mesmo é um horror. É mesmo planta e corte que
configura o volume, a volumetria, o espaço, o espaço interno,
o espaço externo...
Sobre o desenho sintético, linear.
Tudo o que nós imaginamos e nunca fizemos é muito perto
do que se faz, faz-se muito pouco, nós realizamos o que
queremos, os homens não os arquitetos, a humanidade, a
sociedade, etc., não tem todas as creches que queria ter,
não tem o trem que queria ter, não mora na casa que queria
morar, ou seja a arquitetura é feita muito mais de desejos do
que obras realizadas. As obras realizadas são por exemplo...,
veja isso... como podia ser tudo belíssimo! E a pior coisa que
você pode fazer é enfeitar muito, porque... esta constante
em relação ao Classicismo, tudo isso, né? ... na frente do
que se chama moderno, eliminar os adereços..., eliminar o
... por isso mesmo! Porque me parece que naquela época,
entre outras coisas que se possa dizer sem dúvida nenhuma,
havia uma certa complacência em que só se faria poucos
mesmo. Só se faria castelos pro rei. Os outros vão só ver o
castelo. Portanto era uma simbologia, pra não ser
propriamente invejável. Era como se você carregasse uma
mula de adereços e ela tivesse quase infeliz de estar tão
enfeitada... Eu não sei como te dizer. Não eram realizações
de desejos amplos da sociedade, as construções. E se hoje
até certo ponto já são, ou se ainda não são mas tem que ser
mostrado como seria bom aquilo, o maior enfeite é aquilo
mesmo... realizado, né?
Existe uma relação entre o grafismo e o edifício?
Talvez seja uma coisa também da nossa época, dentro dessa
mesma..., desse mesmo raciocínio de... caráter... um tanto
quanto..., podia se dizer... ilegítimo hein, não to procurando
coisas rocambolescas..., eu quero dizer, muito patente, um
aspecto... como é que eu podia dizer... transgressor não é o
caso..., um aspecto de incentivo, né? ... revolucionário se
você quiser, demonstrar que entretanto falta por puro
desencontro dos entendimentos humanos, porque é muito
fácil fazer. Então demonstrar que é belo e fácil, talvez seja
também uma das premissas hoje, do objeto..., desta... do
momento que estamos vivendo, pra não entrar nessa
bobagem de moderno..., não tem nada que ver.
A criatura contemporânea, ela tem também o desejo de
demonstrar pr’os outros que aquela maravilha se faz
simplesmente. Não é difícil de fazer, né? ... Porque senão...
Eu tenho a impressão que o próprio... Você vê, mesmo a
atitude de um professor no princípio do século, ele se vestia
com uma beca, né? Aquilo era uma cerimônia, o
conhecimento era difícil. “Preste atenção, todo mundo cala
a boca, eu vou dizer...” O cara tá vestido com uma beca,
etc.... A tendência de simplificação de tudo isso, dá
52
desmistificação da figura do professor e tal..., não é outra
coisa, ou principalmente é, esse desejo latente da
humanidade de dizer que o conhecimento é patrimônio
universal, e que é tudo fácil, não tá feito por razões políticas,
de desencontros da sociedade..., de discriminação, etc. ...
que também são históricas, né? Escravo... trabalho escravo...
o aviltamento do trabalho... na Grécia, o trabalho era um
trabalho vil, só escravos e mulher trabalhava... o que era vil
duplamente. Você veja, porque a idéia de escravo ainda, você
faz uma guerra...você pega aqueles míseros prisioneiros...,
tudo bem que eles passem o resto da vida quebrando pedra...
Mas as próprias mulheres do lugar!... também, porque tinham
que trabalhar, lavar as roupas, providenciar a higiene das
crianças, inexoravelmente eles tinham que produzir trabalhos,
que não eram relevantes, eram simples trabalhos de
manutenção da vida, era mais, como dizem os filósofos, uma
ação ativa, atividades, não eram Fídias que faziam uma..., o
trabalho não tinha um resultado monumental, era só a
reprodução da vida. Isso é o que caracterizava a condição
secundária dessas pessoas, e isso que justificava incluir junto
ao trabalho dos escravos o trabalho da mulher. Por exemplo,
é um exemplo muito interessante das transformações do...
conhecimento digamos assim, da consciência sobre nós
mesmos e tudo isso... Hoje...o trabalho passou por uma idéia
que ele dignifica, que é uma visão horrível..., os americanos
tem muito isso, então louva-se o dinheiro, etc. ... E hoje
justamente o que nós queríamos demonstrar é que uma
inteligência capaz de produzir tudo sem muita dificuldade,
né? Senhores do universo. A natureza diante da humanidade.
Ela possui virtudes. Ela transmuta-se em virtudes, a força da
gravidade..., etc.
A diferença entre o desenho evocativo e o de projeto.
A idéia de diferença não é muito boa, se você quiser usar o
significado das palavras estritamente. Ele é diverso, como
modo, como maneira. Aquele é um rabisco, é um desenho
feito para expor aos outros, que não viram nada daquilo
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Primeiros croquis, plantas.
MUBE, Museu Brasileiro de
Escultura, São Paulo,1988.
53
alguma coisa sobre aquilo. O projeto é outro desenho,
mambembe também, que é linguagem para dimensionar as
ferragens..., o tamanho das coisas. Só existe mesmo a coisa
pronta e a imaginação. As pontas são essas. O resto são
intermediações, é como se você dissesse assim, sobre outro
âmbito de questões humanas, de invenção humana, “que
diferença tem entre a imaginação do Shakespeare e os versos
imprimidos em negrito no papel manteiga, ou então escritos
a giz na pedra?” Se um professor de literatura resolve porque
quer se demorar sobre aquilo..., e não adianta ele falar e
repetir, e escrever no quadro negro um verso de Shakespeare
vamos supor, e você quer estabelecer a diferença entre aquela
imagem de giz branco que tá lá e o verso propriamente dito,
não há nem..., há todas as diferenças que você quiser, mas
não há diferença nenhuma! São modos de... rever aquilo, de
comentar aquilo, etc. Tanto que ele poderia recitar e recitar e
recitar, ele resolveu escrever, porque vai virar de costas, os
outros tão lendo aquilo, ele vai dizer “a terceira estrofe” e
tão lendo lá a terceira estrofe. A constituição do discurso
que você quer fazer, obriga a você desenhar aquilo de muitos
modos. Na questão do verso, o produto final é sempre o
verso, como se você estivesse lendo os pensamentos do
Shakespeare. São instrumentos de fazer aquilo permanecer,
transportar de um lugar para o outro... e tal , a impressão...,
a escrita... A própria linguagem escrita, o próprio recurso
léxico... e... são instrumentos pra você dizer aquilo. Quer ver
uma coisa engraçada de considerar, quanto a isso, quanto a
essa instrumentação toda, seja pedra..., ferro... ou letras, ou
notas musicais..., que é uma sinfonia. É a maneira do privado
se realizar, se tornar público, e se tornar real o pensamento.
A única realidade de um pensamento é a sua enunciação.
Então você vê que coisa interessante quem defende a
privacidade com ênfase hoje, porque não compreende bem
essas coisas, ou pensa que a privacidade está em botar
cerca..., grade... tudo isso. Nada mais privado que uma
paixão! Mesmo strictu sensu, paixão masculina e feminina.
E nada mais possível de ser escondido e aparentemente
desejável de ser escondido do que essa paixão,
principalmente quando não é correspondida. No entanto um
poeta, a primeira coisa que ele faz é escrever isso, e publicar.
Então, as técnicas de publicação é que fazem aparecer esses
vários artefatos, uma maquete..., tudo isso. Mas não têm
nada que ver com a idéia, naturalmente colabora... e, você
pode corrigir um projeto a partir do que tinha na mente, na
medida em que faz a maquete, mas sempre porque você
sabe que vai ter que construir, e você corrige pra dizer..., não
tá corrigindo propriamente o pensamento, tá corrigindo o
modo de construir aquilo melhor. Ao contrário, o pensamento
sempre fica um pouco, diz assim “Ah esse eu já perdi” e
você retoma no outro..., etc., porque não é possível realizá-
lo plenamente, né? São metáforas..., são por exemplos... de
aproximações ... e isso eu vou fazer assim pra você quando
vir dizer “Ah!, mas podia ser assim...” É dinâmica também, a
obra... Outra coisa interessante de considerar sobre a
dimensão arquitetônica na construção, portanto enquanto
linguagem, é que ela, além de não se realizar plenamente,
ela vai realizar até futuras situações, de desejos..., deve
demorar no tempo se for feita com sutileza..., ela pode se
sustentar durante muito tempo. Ela alimenta situações reais
da vida, entrar num museu..., ver a parede onde pendura o
quadro..., como alimenta o próprio imaginário futuro durante
algum tempo, séculos..., não sei, às vezes pra sempre.
O programa, assim como o projeto, já é uma orga-
nização espacial?
São dois discursos aí..., de novo não, diversos, mas eles
colaboram..., mas dois momentos do mesmo discurso.
Nem sempre quem elabora o programa, digamos, de um
estúdio de televisão, tem desde já a visão espacial, senão
ele mesmo faria. Ele só faz um elenco de necessidades. Eu
preciso de uma sala climatizada pra guardar o equipamento...,
preciso de uma sala refrigerada para guardar equipamento
virgem..., preciso de um arquivo de tudo o que eu já produzi,
enquanto empresa, que eu quero mostrar depois e tem que
ser climatizado também porque este material é perecível,
são filmes..., fitas..., eu preciso de um estúdio de gravação,
de filmagem, que a experiência mostrou que tem que ter
vinte metros no mínimo, a outra dimensão, pode ser de novo
vinte, um quadrado..., ou...seria melhor trinta por vinte, tirado
da experiência, preciso de um pé direito de dez metros porque
eu vou ter que pendurar refletores..., preciso gruas..., fundo
infinito..., essas dimensões não são nada de abstrato, tiradas
da técnica com que se faz isso hoje, a reprodução de imagens,
e essas imagens podem ser um elefante..., um caminhão...,
tem que enfiar isso no estúdio..., a porta tem que ser
grande..., preciso de uma praça de manobras do lado pra
encostar o caminhão... Você vê que eu me contradisse um
pouco, já existe uma visão espacial, mas é tirada da
experiência.
Utiliza o desenho para desenvolver o programa do
cliente?
Desenha..., você ensaia ou desenha. Mas a partir de uma
idéia. O que eu queria te dizer é que, sei porque eu tô te
dizendo isso, pode ser até grosseiro, como quem diz “mas
eu não ia pensar uma bobagem dessa!”, Eu não sei porque...,
por causa da escola..., eu vejo muito menino na minha frente...
Eu já percebi que muita gente pensa que rabiscando pra lá e
pra cá, pra lá e pra cá, dentro daquela idéia mais ou menos...,
acaba saindo; não sai nada! É melhor você passear no campo,
ficar só pensando. Quando algo mais ou menos consistente
se configurar na sua mente..., você pode tomar alguma nota
pra não esquecer, sob a forma de desenho. Mas não é
desenhando, desenhando que sai nada. É diferente de um
objetivo fixo, por exemplo, os grandes desenhistas do
passado, os primeiros que fizeram... desde as cavernas
aquelas coisas bonitas, até Michelangelo..., Leonardo da
Vinci..., a anatomia..., tudo isso. Bem o joelho, a mão, seja o
que for, as posturas, tão lá, o homem não muda em um milhão
de anos, muito. Então você pode imaginar um exercício de
desenho, de comando entre o seu gesto pra copiar, captar
54
aquelas formas..., anatomia, no caso..., seja o que for, os
bisões... É um outro tipo de desenho, ele não é propriamente
inventivo, ele é... indagativo, ele é... de perquirição, você
desenhando acaba descobrindo que aquilo deve ter um
esqueleto por dentro... e... algo flexível que articula aquilo
tudo..., você está descobrindo através do desenho. Outra
coisa é... a idéia de realizar algo que é só desejo como
construção e você precisa desenhar para transformar aquilo
em pilar..., viga..., e tal, é diferente, né? Quase que você
pode ser objeto amanhã do desenho do outro, que vai
copiando aquilo, descobrir “que diabos esse cara tinha na
cabeça”, né? O desenho é um instrumento, o desenho dito
assim, o risco do lápis no papel, é um instrumento de trabalho,
é uma linguagem de comunicação..., de memória...
O desenho não participa da concepção do espaço?
Muito pouco... pra mim muito pouco. Pode ser... uma
aberração... Não deve ser inédito, deve ter muita gente que
faz como eu. Deve ter muita gente que desenha..., desenha...
e não faz disso nada mal, porque associa a imaginação aos
rabiscos..., o rabisco significa pra ele..., não serve para o
outro, o outro olha aquilo, não entende nada. Sim, pode-se
pensar isso. Eu não gosto de desenhar como se fosse uma
aflição, como se eu fosse prejudicar o que eu estou
imaginando, sabe? Eu não vejo o desenho... Mas é uma
peculiaridade, tanto que o pessoal me pede croqui... e tal,
não tenho. Eu já fiz até a malandragem, porque eu acho que
enfeita..., eu sei que enfeita..., os outros fazem..., eu faço
croqui depois.
Sobre o croqui evocativo de Niemeyer.
Esse da catedral é lindo inclusive..., porque não é nem a
estrutura, parecem bandeiras penduradas... Isto é muito
bonito! Isto é muito bonito... E já não é... o que vulgarmente,
o que usualmente se chama de croqui de arquiteto, que é
um ensaio, feito a lápis num papel, seja o que for, do tamanho
daquelas vigas..., da proporção daquilo, né?
O desenho técnico enquanto croqui e a precisão na
escala.
Agora..., talvez eu tô dizendo pra você umas bobagens, pelo
seguinte, enquanto desenho, no sentido de lápis no papel,
eu faço muito desenho técnico, duas três vezes, até os outros
fazem muito pra mim, desenham o projeto e redesenham
quase tudo de novo. Não são grandes transformações, aí
seria outro projeto e não se pode nem chamar de “se
redesenha tudo de novo”, né? Eu tô dizendo estritamente
isso, redesenha..., adapta proporções, diminui esse lado,
aumenta aquele lado um pouquinho..., de fato se faz. Mas eu
não consigo fazer isso muito com rabiscos, já põe então na
régua..., na escala certa... sabe? Inclusive todo mundo diz,
que quando eu faço, que às vezes faço um rabisco e... aí
quer assumir aquilo já como matriz, um primeiro ensaio..., aí
põe a escala em cima e tá numa escala sempre, ou um pra
duzentos..., conforme o porte da coisa, eu faço, se você disser
assim “faz aí em escala um pra cem, tantos quinze
centímetros, ou dezoito e meio”, eu faço, dá dezoito e meio,
dá dezoito e quarenta.
Eu não acredito que sejam virtudes, porque eu estou há
quarenta anos fazendo só isso, né? Eu do ponto de vista
profissional assim, eu sou um pouco louco. Eu às vezes preciso
disfarçar pra ninguém pensar que eu sou louco, eu tô contando
quantos passos tem aquilo, que eu achei bom... Não resisto,
sabia? Completamente maluco, a ponto de eu mesmo saber
e me policiar um pouco, porque que diabo?...
Sobre os croquis da revista (AU)
Ah, deixa eu... Você quer ver? Vou te denunciar os que são
mentira, os que são...
Quer ver que coisa engraçada? Isso aqui por exemplo, haja
croqui, né? Eu sempre imaginei isso, depois eu fiz num dia
que me pediram pra fazer uma “demonstration” do que eu
queria dizer, ou seja, o que? Que uma escultura, naquele
Museu lá da Escultura, lá trás, em relação à rua Alemanha,
de um grande porte, você ia ver cortada pela viga, se você
tivesse aqui é claro. Aí você vai se aproximando, entra
embaixo daquela viga, você fica como se tivesse numa casa...,
que eu fiz aquela escala de propósito pra te dar a relação e
ainda, e agora não vê cortado mas não vê toda a escultura e
vê que aquilo é imenso, que tá lá tapando a sua passagem, é
claro, e à medida que você vai saindo ali debaixo ela se revela
inteira. Essa imagem, pondo aquela peça de concreto naquela
altura quanto ao que se veria andando naquela esplanada...,
eu tinha como algo muito belo de se fazer, uma referência,
porque tudo ao ar livre, você não sabe mais que tamanho
tem, não é? Então eu achava que isso era importante, uma
referência de escala... Essa viga foi feita ali fora pra isso,
marcar o lugar..., uma série de razões, históricas inclusive,
arquitetônicas. Mesmo como construção..., Stonehenge...,
se você botar uma pedra..., dois apoios..., olha que
beleza!...agora podemos fazer isso, né? Mas eu nunca
desenhei isso. Desenhei direto a viga, fui calcular..., ela ficou
de quarenta metros porque o terreno..., senão ficava
apertado..., não é que eu queria fazer uma viga de quarenta
metros. Naturalmente deve ter dado trinta e oito e eu falei
vamos pra quarenta, é melhor né? Mas...ela não foi
planejada..., teria que ser a maior possível naquele terreno...
Imediatamente você vai dizer que esse maior possível é tão
grande quanto seja de fato bonito, porque de repente se o
terreno for muito pequenininho você não vai fazer uma coisa
assim, né?
Esse desenho que aparece, esse volume grande..., que é,
seria uma escultura, que eu até por pudor não fiz nenhuma
forma escultórica, qualquer escombro lá, um pedrão, pudor
diante dos meus colegas artistas, cortado pela viga... com
as pessoazinhas aqui na frente, foi pra mostrar para os outros
que idéia eu tinha tido, mas eu nunca rabisquei isso pra saber
55
se a idéia era boa. Isso só se vê, eu vi, falei “que maravilha
que pode ficar”...
Bem, eu já tinha visto o Pão de Açúcar cortado pela linha do
museu do MAM no Rio de Janeiro,... que é assim elevado, o
museu do (...), mas eu não quis copiar isto, eu não me lembrei,
é uma espécie de lembrança maluca essa. Depois, é que eu,
pra falar com você, que eu me lembro dessas coisas. Já
tinha me lembrado antes, é claro, mas quando fiz não tava
pensando no Pão de..., depois eu falei “imagina... eu me
lembro, que espanto, você vem aqui pelos jardins pelo lado
da avenida e vê a base do Pão de Açúcar, de longe você vê o
pico e o Museu que corta, de repente você vê só a base, aí
você entra em baixo e sai do outro lado no jardinzinho e vê
ele inteiro e a baíazinha toda, ... é muito bonito. Ou seja, a
paisagem desvendada aos poucos através de contrapontos,
que já são artefatos construídos, é muito bonita, quanto à
relação de cidade - paisagem..., e tudo isso que é sabido,
né? Quando o Jobim diz “da janela vê-se mar, o Redentor,
que lindo!” ele não diz que ele em pé na praia vê também.
Quando ele diz “da janela” já é a casa da cidade. É só com
aquela cidade que aquilo é estupendo! Por maior razão, porque
você tá vendo da janela ainda por cima, se você se aborrecer,
você vira pra trás, tem logo um cafezinho, fogãozinho..., as
crianças... A natureza é horrível né?
Sobre o Museu de Artes de Vitória, croqui publicado
na AU.
Isto é de fato um... rabisco, um croqui mesmo, isto é,
estritamente...
Esse croqui por exemplo que é do ensaio eu fiz lá pr’o Museu
Kraucberg em Vitória, o Museu de Artes de Vitória enfim, ele
é interessante, porque, aqui eu podia fazer o projeto inteiro a
partir daqui, tá tudo resolvido. São duas vigas paralelas..., a
vinte e cinco metros uma da outra, vinte e cinco porque é
um belo vão..., muito mais não convém..., menos não sei
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croqui, publicado na revista
AU. MUBE, Museu Brasileiro
de Escultura, São Paulo,1988.
56
porque, vinte e cinco tá bom, ...em concreto protendido,
qualquer coisa assim, pra fazer salões que se sucedem em
níveis diferentes. A idéia básica disso, é ... que... nesses
planos inclinados lá dentro, né, nos salões, isso aqui é um
salão, depois tem esse plano inclinado, o outro salão pra cá.
Esses planos inclinados..., esses, os horizontais são salões,
são pisos, os inclinados são cristais. E você então..., não sei,
deve existir já coisa assim... mas é uma sucessão de janelas
que nunca vão receber sol, e que é muito interessante quanto
a museu... Você vai receber uma luz refletida do chão, que
eu já vou fazer uma praça branca... Isso pode ser belíssimo
na minha idéia, e ao mesmo tempo uma área muito grande
de salão, que entretanto se divide em dois, três salões,
salõesões..., salõesinhos... e com uma rampa... Agora o fato
de realizar entre duas vigas é pra levantar do chão, porque a
avenida... é uma situação como manda o rio, e depois tem
uma bela enseadazinha do outro lado..., com as pedras das
andorinhas... inclusive, que são no mar. Portanto se eu fizer
esse museu levantadinho aqui, quem vem daqui, isso vai ser
aqui um jardim encantador, isso aqui é o jardim do museu,
aquela baía com a ilha do Boi na frente... e as três pedrinhas
das andorinhas..., uma coisa lindíssima! Em vez de você ficar
fazendo só jardinzinho..., tudo aquilo é um jardim! O jardim
do Éden...A natureza... Então são apropriações... já no lugar,
de desejos que tavam em nebulosa, mas que de repente ali
se realizam. E aí sim, aqui neste caso tem essa coisa particular,
essa situação, essa circunstância particular que eu achava
muito interessante, porque antes disso eu tinha passado lá,
tava estudando essas coisas, fui lá numa corveta da marinha,
lá no fundo da baía e vi armazenado, quer dizer, não jogado
de qualquer jeito, mas colocado uma do lado da outra, assim
direitinho, porque sempre... ninguém tem coragem de jogar
fora, esses... esses restos da antiga estrutura do porto de
minério de Pela Macaco, que foi desmontado... fizeram... Aí
eu fui ver de perto, não resisti, porque eu vi do outro lado da
baía, que é belíssimo! Mas que construção...e não é uma
construção, é um depósito de patas, de gruas..., cabreias...,
guindastes ... de vários tamanhos... coisas do Pela Macaco.
Aí eu fiz questão... fui lá, quando atracamos, que eu peguei
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Primeiros croquis, plantas e
corte. MUBE, Museu Brasileiro
de Escultura, São Paulo,1988.
57
um, me botaram num cabo... me levaram lá, eu vi de perto.
São artefatos ingleses... tão em perfeito estado! Então me
ocorreu, usá-los como apoio, porque a diferença de um pra
outro... Bom, por isso que eu fiz esse rabisco, tava mostrando
pr’os meninos aí depois fotografamos o quadro negro.
Quando eu fiz o Pavilhão de Osaka, eu achei interessante,
esta questão de situação... porque no caso era o pavilhão
do Brasil..., eu falei “o que é o Brasil, pra mim? O que é que
eu vou levar? No caso, na feira mundial?” Eu vou levar o teto
da FAU, né? Que seja exatamente o teto da FAU. Vou armar
de viga a viga..., fazer duas vigas boas pra isso..., o terreno
exigia que fosse cinqüenta metros..., não podia ser mais que
cinqüenta. Cinqüenta metros eu consigo fazer um belo
balanço..., apoio..., vão central..., vou fazer dois pilares em
cada viga. Aí me ocorreu, o discurso sobre tudo isso, inclusive
no mundo, a rigidez do plano ortogonal..., do
cartesianismo...,etc., dessa questão da racionalidade da
arquitetura moderna..., Oscar... que faz tudo assim...,
aparentemente sem, ele é muito racional... Eu falei “sabe o
que eu vou fazer?” Se essa viga for boa e essa for boa, a
cinqüenta metros uma da outra, elas não precisam ser iguais,
eu vou quebrar, essa coerção da rigidez, essa eu vou fazer de
um jeito, aquela eu vou fazer de outro, variar os balanços. E
aí eu comecei a ir em frente. E vou fazer essa tal paisagem
das andorinhas, que é posterior inclusive, mas que eu sei...
que lá não há, fazendo com que apóie numa..., menos um
que é a cidade, que eu vou configurar como dois arcos
cruzados, e... que como a carga é pesada... e é incompatível...
justamente é o vazio no meio, eu faço aquele balanço tão
grande..., e justamente nesse apoio o que há é quase
arranque, sabia? É nada! E ele pode ser frágil, que é o que se
faz nas fachadas..., porque o pilar tem meia carga..., né? Por
exemplo, essa fachadinha do sobradinho lateral que fica de...
o terracinho com os postizinhos de ferro..., mesmo a fachada
da FAU..., o Palácio da Alvorada... que vira aquela brincadeira,
é uma apropriação, o templo grego é assim, você tem uma
viga..., pilar..., pilar..., pilar... cada pilar desse tem essa
responsabilidade de carga, se você tem um pilar no fim, ele
não tem essa carga aqui, então ele pode se divertir, ele vira
uma brincadeira. Na FAU foi espaçado o vão... no Palácio da
Alvorada se transformou numa palhaçada... e aí vai. E no
templo grego também, porque aquilo é telhado..., tem
parede..., depois é o peristilo que vem aqui e pega aquelas
coluninhas, não é isso? É... quase... é só.. o peristilo, arcada
lateral, é meia carga, a carga mesmo do telhado, que é
telhado de madeira, tá na paredona aqui, não é assim o
templo? Isso é só enfeite porque é carga. Bom, aqui não é
meia por essas razões, mas eu posso enrijecendo a viga
protendida transformar numa..., é bacana, não é bobagem
não... E é cidade, enquanto brasileira, com seus arquinhos...
um tanto barrocos..., um tanto ... greco-romanos..., somos
nós, pr’os japoneses verem. E mais interessante ainda, como
o programa tinha uma implicâncias, sede da Casex..., sede
do Banco do Brasil..., sede do Itamarati..., administração do
Pavilhão... eu falei “isso aí vai me atrapalhar”, que é uma
imagem muito bonita de arquitetura, o anexo, que é você
mesmo com o seu vizinho. Porque aí se o japonês, o visitante,
for lá pra comprar um souvenir, ele ainda vai ver, que eu fiz
em semi-subsolo, o vidro na altura da vista, no asfalto do
chão lá, e você vê como você desenha tudo isso, assim, no
chão. Entendeu? Você quando desenha não faz assim? Você
nunca vai ver isso a não ser entrando no anexo do meu
Pavilhão, porque a vista tá daqui, você revê aquilo, eu fiz um
anexo, subterrâneo. Tem um cristal aqui no asfalto..., a laje...,
desce aqui, você fica aqui, daí você vê de novo. Esse ver de
novo, é... digamos a ... mágica do anexo. Você faz um edifício,
você chega na janela, tudo é o outro, de repente aquele é
você mesmo. Eu acho muito mágica a idéia do anexo.
O partido da sua arquitetura reside essencialmente na
implantação, como colocado na revista?
Tem que dizer sim, porque dizer não... mas... se não tiver
implantação, nenhum projeto se sustenta. A questão
fundamental de um projeto é o plano de acesso, a
implantação, com todas as implicações, o plano de acesso...,
as visuais..., isto que eu tô te falando é um problema de
implantação, como isso tá implantado, né?
Estão as visuais associadas a isso?
Mas a implantação é que assegura isso, a perspectiva... tá
na implantação. Você vê, rua Alemanha, avenida Europa,
quando você faz a marquise assim, é uma roubada, como é
que eu posso te dizer, é uma virtude que a arquitetura tem, a
implantação, o eixo da avenida Europa colabora, eu valorizo
o eixo da avenida Europa e me valorizo, se eu fizesse assim...,
seria, tá cheio de arquiteto que faz questão de fazer, é idiota.
Você acentua as virtudes que já havia lá e que ninguém tinha
percebido. As andorinhas aqui, na hora que ela ficar
enquadrada..., todo mundo sempre reverenciou aquilo, mas
tava lá. Agora é pra ficar, o nosso Henry Moore de graça do
nosso museu, entende?
O croqui e o partido.
Não, isso é o partido. Isso é o croqui... o partido... Agora
aquilo, você quer ver uma coisa? Conversando né? Fazendo
nosso discurso, não... mas ser gentil, porque mentiras...
Lembra que eu falei no começo? Eu fiz isso pr’os meninos
verem, eu vim de Vitória e fiz aqui pra contar pr’os meus
meninos. Eu não faria esse desenho nunca. Eu não ia chegar
aqui sozinho e dizer assim “agora eu preciso anotar aquele
troço que eu tive em Vitória...” Eu não tenho nenhum
desenhuzinho de papel disso aqui. Pra contar para eles... , eu
fiz o pavilhão... pra mostrar... o negócio... Ah sim! Porque eu
fiz os vão diferentes... porque tem pata pesada... porque eu
ponho uma pesada aqui, faço esse balanço, ponho três
pequenininhas, que eu já tinha visto lá, que desenhando aqui,
pra eles terem uma idéia, eu falei “cábrea..., pé de
guindaste...” ,não sabiam nada. Então faço o pezinho do
58
guindaste, que tem lá, e o outro pesado que tem três patas,
este aqui, etc., pra configurar pra eles verem, não é pra mim.
Eu fiquei aborrecidíssimo que saiu tudo meio fora de
proporção... e tal..., fiz aqui de banda....
Quanto à semelhança deste croqui publicado na revista
e o realizado na lousa na FAU em palestra na pós-
graduação.
Eu posso repetir essa porcaria quantas vezes eu quiser, porque
eu tenho na memória, entende? Como todo arquiteto faz,
pode fazer o croqui, ele faz o croqui daquele troço... pode
fazer... Então não é tanto instrumento de trabalho, como se
costuma dizer, o croqui do arquiteto, o que é que é isso...
Pode ter um sabor especial dizer, pede para ele fazer porque
o croqui é muito bonito, mas não é que isso tenha uma
importância no trabalho dele. Eu digo isso, mas não sei se eu
tenho razão.
Ao contrário, eu mesmo sei me criticar, dizer “puxa saiu tudo
torto”, porque na minha mente isso é muito mais interessante.
Eu não vou conseguir nunca fazer, eu vou ter que chamar o
engenheiro..., calcular..., tira um pouco aqui... Só a construção
vai ficar o que eu queria, mais ou menos ainda por cima.
Alguma vez já aconteceu da construção ser diferente
da imagem configurada mentalmente durante o
projetos?
Não... esse mais ou menos vem da circunstâncias, das
marcas, da técnica mesmo, tudo isso né? Você vê, mesmo a
loja Forma..., você tem problema acústico, você tem carga
estrutural nessa parede toda cega, se o camarada tiver, foi a
própria Método que... fez essa pesquisa..., porque enquanto
tava construindo... aquilo, tinha esse problema, havia esse
problema da realização desse grande plano. Eu já tinha
detalhado tudo. Era chapa metálica... um navio. Eu queria
até vê um pouquinho... não me importava, não é que eu queria
ver, isso não se encomenda, porque o trabalhador não sabe
fazer essas frescuras, mas eu sabia que ia resultar alguns
defeitos de solda entre as chapas... Pra mim isto tinha um
encanto especial, né? É esse navio que você vê belíssimo,
verde..., abóbora..., e preto... Se esfregar o nariz lá tem
rebite..., tem solda..., pra mim não são imperfeições. De
chapa metálica pintada com tinta Sherwin Williams, como
se pinta navio, branca, não tem problema nenhum. Apareceu
essa chapa. Importada..., americana.., que já é um sanduíche
de elastômero com alumínio..., muito menos carga..., já com
isolamento térmico...,eu não posso dizer não. Eu, com voz
fina... disse “não, pode ser”. Porque que eu não vou...
bancar..., eu tenho muita consciência também do prestígio
da nossa profissão, e eu não vou me exibir na frente de
engenheiros e de proprietários, como um arquiteto
caprichoso, que “quero a empatia da chapa...” Nem falei em
navio..., essas são minhas memórias. Eu sabia que pr’os
outros ia ficar belíssimo e pra muitos, sem saber porque!
Digamos, um navio. A forma não tem nada que ver com um
navio, mas é a ...história dessa técnica fantástica, né? De
construir vazios com caixas de metal. Eu não tava
absolutamente interessado nessa porcaria, mas eu tive que
conceder, porque... eu não vou fazer o papel de... bancar o
poeta na frente de comerciantes..., engenheiros apressados...
E mesmo em posições da técnica, diminuição de carga... já
com alguma virtude de isolamento acústico... que eu faria...,
e teve que complementar inclusive, lá tem, há um isolamento
aposto, depois, pra complementar... Não gosto. Ela é um
pouco besta... e... tá manchando..., não é tão bonita quando
se diz...entende? Preferia a chapa metálica. Então pra mim
não ficou... Agora, nunca a obra de arquitetura fica ruim,
porque os outros não sabem, aquilo sempre é aquilo. Se não
for uma porta que não abra à direita..., se não for uma escada
que o degrau é muito alto..., se não for um troço que prende
o dedo..., ninguém pode criticar muito, porque são valores
chamados de subjetivos, né?
Bom, nenhum arquiteto tem o direito de dizer “era aquilo que
eu queria”, tal... você mesmo contempla o que você fez e
tira suas conclusões, geralmente pr’o outro projeto, né?
Já houve alguma surpresa?
Não, não me lembro...
Sim, a luz...
Eu moro numa casa que eu fiz em 1962, 63. Um dia de
chuva...,mas... você vê que nem havia... uma mangueira
imensa, eu adoro mangueiras..., inclusive a mangueira está
lá porque eu comentei... “isso aqui parece a minha terra, só
falta uma mangueira”, no dia seguinte eu cheguei lá tinha
uma mangueirinha de um metro e oitenta, o baianinho foi
roubar não sei aonde, ele viu uma mangueirinha, ele já devia
saber, pegou a enxada, tão gentil, que ele plantou perto da
casa demais, eu não tive coragem de corrigir, ela ficaria melhor
um pouquinho mais, mas é linda, eu como debaixo daquela
mangueira, eu abro essas janelas aqui e to embaixo dessa
mangueira. Com chuva..., eu não podia prever tudo isso...,
mas eu já fiz assim..., que o vidro abrisse assim... e já plantei
aqui... que é uma grande árvore..., mas não pensei que essa
mangueira..., e a chuva... e tal, e tal, né ? O que é que eu
posso te dizer ? O imprevisto aparece sempre. Agora tem
uma goteira na minha casa, é um encanto, no instante que
põe uma bacia lá..., isso eu não tinha previsto.
A mangueira já tá aí, porque foi plantada na obra, aquela
escurinha lá trás, tá vendo? Pequenininha... Agora ela tá aqui,
a Naná sobe na mangueira e põe uma rede na mangueira,
em cima do telhado da casa. Muito bonito.
O interessante que é quando você faz assim, que é como eu
faço sempre, eu me surpreendo, começo a desenhar e (...)
Agora você veja aqui, quer ver? Instrumentos de trabalho,
59
veja aqui, abriu aqui...uma fotografia..., esse museu mesmo
né? uma maquete. Como é que esse cara faz essa maquete?
Não deu certo esse negócio..., nós inventamos os pilares...,
desenhamos..., já foi desenhista, desenhou... Desenhou a
partir do que? Sim... fez um croqui... cortes..., mas já é pra
ele poder trabalhar. Ele fez os desenhos pr’outro poder cortar
os pauzinhos... Eu já to vendo que isto aqui ficou um pouco
desproporcional..., vou botar o outro..., aí tá fazendo o projeto,
mas tá fazendo um projeto que já tá pronto, estou acertando,
afinando.
Tenho verdadeira angústia da idéia de alguém que imagine
que o arquiteto dibujando, dibujando, dibujando, e risca e
apaga, e sai o projeto, de jeito nenhum! Pode ser que alguém
faça assim. Mas aí eu tenho a impressão, eu sei que faz, são
imaginários inconsistentes demais. Começa a querer fazer
uma arquitetura..., eu não faço arquitetura, eu resolvo
problemas.
Eu não faço por mimese, muito pouco. Sim, a história toda te
leva por uma idéia de mimese, a Grécia..., o Egito..., as
formas..., as técnicas mesmo de..., mas hoje é tão abstrato,
o cálculo matemático..., o momento de inércia... Esses
balanços do Pavilhão de Osaka, é mimese do que? É mais
raciocínio, se eu vou fazer as vigas diferentes..., mas não é
os arcos diferentes... Sim, é como tem graça a diferença dos
arcos que o Oscar fez na Mondadori, mas não são arcos, é
uma viga. A disposição dos pilares que não é... idêntica.
Mas isso não envolve uma capacidade de memorização
muito grande, para não passar o desenvolvimento da
idéia para o papel?
Mas é só do básico, né? Suponha que fosse uma fábrica... ,
agora tem as instalações do layout..., eu já tinha lido antes...,
abri o corte... se não eu não posso fazer mais nada. Imaginar
o arcabouço, por causa da luz... etc. ..., onde fica o
restaurante..., a ala dos operários...,você vai desenhar muito
pra acertar os detalhes..., dimensionar... mas a configuração
geral, eu to falando da configuração geral do projeto. Só os
banheirinhos do MUBE, eu desenhei cinco vezes, não ficava
bem... Mas eles tinham que ser ali, tava feito o projeto. Até
que foi difícil porque tinha que ficar ali. Eu não ia mudar o
projeto por causa dos banheiros! Ficou meio atrapalhado. O
contrário, você até se atrapalha um pouco às vezes. Você
força até certos detalhes... funcionais, banheiros...copa...,
um pouquinho..., pra enfiar um..., pra fazer um projeto. A
copa aqui ficou meio mambembe, mas ela..., mas ela fica
muito bem aqui, o lugar dela, porque o pessoal sai do
auditório..., só que... Tudo bem, é melhor do que se ela ficasse
em outro lugar. É uma espécie de negociação, entre as partes.
Não existe o projeto ideal. Pode ficar... muito Rino Levi, tudo
muito bem feito mas... às vezes falta, que ele gostava tanto,
que ele fez, quando fez coisas vazias... aqueles pavilhões...lá
da Paraíba..., né? Da Tecelagem Paraíba em São José dos
Campos..., coisas lindíssimas, mas o rigor europeu às vezes
estraga um pouco, transferido pr’uma América que ele não
conseguiu... amar muito. Acho que nunca prestou muita
atenção.
Nós estamos aí enfiados nesta questão da natureza... hoje...,
ecologia...,etc. É muito bonito porque é uma consciência
mundial... sobre uma questão...de raiz, pra nós, pr’o gênero
humano. Mas você vê que beleza, se você considerar isso
aqui assim, esse Harold Bloom falando sobre a poesia..., a
criatividade..., etc. Ele cita aqui, 1790, conversa do Schelling,
que diz assim, é melhor você ler em inglês, né?
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croquis de desenvolvimento de
projeto, cortes. MUBE, Museu
Brasileiro de Escultura, São
Paulo,1988.
60
“Eu chego”, né?
“por um momento,
no sentido das árvores , da água, pareciam guardar
apesar de não ser ainda dia
uma madrugada
gentis traços”, né?
de luz, divina”
Não sei traduzir muito bem, não é divina.
Além do comum do sol”, não é?
Ah!
“Produzindo de uma forma não comum com o sol
sombras
e todo lugar
foi impregnado de um mágico som
levando você pra dentro de um inolvidável melodia
confuse sense
confundindo os sentidos”
É uma beleza ! “Confundindo os sentidos”.
O Vieira fez um verso, fez um discurso, que ele dizia assim:
“Suponhamos que diante de uma visão estupenda”, ele tava
falando da Bahia, que era Bahia, ele tava fazendo um discurso
indignado contra os próprios portugueses, que tavam tratando
mal aquele território. Tá falando da riqueza material. Ele diz:
“Suponhamos que diante de uma visão estupenda, saiam os
nossos sentidos de suas esferas, e tenhamos que inaugurar
o ver com os ouvidos e ouvir com os olhos”. Que é a visão da
idéia de... um discurso impossível, você ter que inventar a
forma, é a poesia..., é a arquitetura..., é as artes, enfim, a
manifestação de caráter artístico. Mas já mostrava isso...
Preocupação né?
“Saiam de suas esferas os nossos sentidos e tenhamos que
inaugurar,” etc.
E o Caetano diz isso “Luz do sol que a folha traga e traduz”. É
fotossíntese. São discursos sobre a ciência e sobre a natureza.
Como é que a folha traga e traduz? Traduz em matéria, em
energia, tá falando da fotossíntese. Ele que não é besta, que
ninguém ia gostar..., fazer um discurso científico, mas tá
falando... É a consciência do homem contemporâneo, mas
há muito tempo que isso vem sendo chamado a atenção de
forma espetacular, né?
Agora você vê, esse Schelling foi expulso de Oxford, porque
escreveu uma monografia com dezessete anos. “On the
necessity of Atheism”. Ele era um ateu, já era um materialista.
A questão é a transformação da natureza, o hábitat humano
é uma novidade no universo. Ele é construído. E nós somos a
novidade do universo, a parte inteligente do universo, que
nós conhecemos.
Isto pra te dizer que essas imagens, você vai dizer “ele entrou
em delírio”, não. Essas imagens que você põe a pedrinha...,
faz vê..., com arquitetura também, não, tá tudo lá dentro,
não é essa arquitetura erudita dos estudiosos..., Palladio... e
o arco... a fresta... Não é essa materialidade. É uma... é uma
configuração que te leva a raciocínios que te leva a
configuração de caráter mentais, uma espiritualizarão... da
questão. Mesmo com uma construção útil, né? A casa é um
desejo, por isso não tê-la é um absurdo, pra todos, com todos
os recursos que nós temos. Então todos esses discursos,
não é que o arquiteto é metido a socialista..., ao se preocupar
com a sociedade. A poesia só se preocupou com a sociedade.
Shakespeare não fazia outra coisa senão o que depois ... (fim
da fita)
Então você que coisas interessantes... sobre as suas
perguntas. Isso aqui é outra lingüista... e filósofa que eu gosto
muito, Julia Kristeva, né? Você vê que interessante,...
citações..., etc. Pra você ver como isso é tão antigo e
aproximações. Este Humboldt, que não era nem lingüista e
depois se tornou, ele fez algumas afirmações que
determinaram toda, reordenaram toda, reconsideraram como
se, reconsiderou porque ele fez muito antes dos propriamente
ditos lingüistas, que a questão do psiquismo também faz a
linguagem, não é uma questão de técnica só. Porque a
lingüística começou a se desenvolver como estudo a partir
de visões estruturalistas... de...formação..., da justaposição...
das palavras... ,coisas desse tipo. Uma visão de articulação.
E ele é que mostrou pela primeira vez que, as circunstâncias
da vida do local desenvolveram aspectos da lingüística. É o
que você falava sobre o croqui, etc. Mas não é essa
banalidade, porque, ele foi um dos primeiros que definiu a
linguagem como instrumento do próprio pensamento.
Portanto você, se usa a linguagem se já tinha pensado, mas
ao realizar aquela operação lingüística, discurso, etc., você
também descobre novas coisas, né? Ao expor o seu
pensamento daquele modo, que é técnico, humano, porque
é o único modo do outro ver o que você tá pensando. Você
mesmo pensa mais. É a idéia de que o croqui pode
desenvolver o projeto. Você tá certa, mas não é banal croqui...,
etc. E o Marx que diz que, a linguagem é a própria, é a única
realidade do pensamento. Pensamento não tem nenhuma
realidade, você pode pensar o que você quiser. Se você
imaginar, aceitar, aliás tem que aceitar, porque é verdade, o
poder de linguagem da arquitetura, pra não dizer que
arquitetura é só linguagem, ou é linguagem, mas é, aí é que
tá,...é a única realidade do pensamento. A casa não é a casa,
a casa é o que nós pensamos que seja uma casa. Eu quando
faço uma casa, to te dizendo entre outras coisas, que eu
penso que casa é isso. Portanto o absurdo por exemplo de
uma Alphaville, tem essa dimensão pra nós. Não é uma coisa
que eu possa fazer... depois não deu certo... é um absurdo.
Trancar... pra morar lá dentro... proteger... É uma visão
estúpida da casa. Casa hoje seria pra gente realizar, enfrentar
uma série de problemas, que tão aí, transporte... onde ficam
as pessoas... como é que se locomovem... a casa é outra
coisa. De fato é, já essa casa do trigésimo andar do Copam...,
certo? Então... a única realidade do pensamento que nós
temos sobre tudo isso, é aquilo mesmo que você faz. Portanto
faça excelentemente, faça em função desse discurso, dessa
necessidade dialógica e dialética que as coisas têm, porque
as coisas são o nosso discurso. É a única realidade do nosso
61
pensamento é o que nós fazemos. Portanto a cidade será o
que nós imaginamos que a história é, porque nós é que
fazemos a história. Outro dia eu li como epígrafe de uma
monografia muito bonita do Roberto Schuartz, ele pôs como
epígrafe um pensamento do Marx muito bonito, que diz assim:
A história mundial não existiu desde sempre. A história
enquanto história mundial é um resultado.” A história é o
resultado do que nós fizermos! Não existe “A História”, que
história você tá falando? Ela será esta ou aquela. Nós vamos
quebrar tudo... nós vamos ser extintos... deixar nos extinguir...
nós vamos nos tornar miseráveis... É um resultado. Portanto
a casa não é uma casa, é um resultado do pensamento
humano sobre aquilo que se imagina que seja o nosso habitat.
A sua evolução... a sua transformação... “Eis essa nova casa
que o arquiteto tal... fez.” Ele tem que dizer isso, os que não
dizem isso, não estão preocupados com isso...isso aí não ...
Nem toda construção é arquitetura. É de um humanismo
verdadeiro, mas é uma tolice, num discurso (...), como alguns
colegas meus dizem, porque é verdade inclusive, que se
chama o que? ... uma falsidade ideológica... não sei, “toda
construção é arquitetura”... Sim, se você imaginar o homem...
tudo o que ele faz, não é? Mas... se ele fosse sempre primitivo
e evoluído, e cada um de nós mesmo... não é. Você tem
obrigação, histórica, obrigação ética, obrigação... de já saber
tudo, quando você nasce de uma certa época, você não vai
voltar... Portanto aquela casa você não vai fazer de novo pra
dizer que é... Então onde taria a verdade? Você imagina um
(...), que não tem notícia de nada..., e que faz a sua casa...,
naturalmente ele não ia inventar aquilo, é a transmissão
popular..., de taipa..., de sopapo... Sim! É primordialmente,
aquela atitude dele é atitude de arquiteto, ele tá fazendo...
mas não é disso que eu to falando. To falando de problemas
nossos... então... É uma simbologia a respeito da consciência
sobre tudo isso, suponhamos que... diante de uma visão
estupenda, problemas podem configurar, visão estupenda não
é só um belo morrinho e um pôr de sol no mar. A miséria dos
meninos, eis uma visão estupenda! Saem os nossos sentidos
de suas esferas, e tenhamos que inaugurar... Porque você vê
pela visão um tanto surreal , ... cubista. Ver, “você viu isto?”
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croquis de desenvolvimento de
projeto, plantas e cortes.
MUBE, Museu Brasileiro de
EsculturArq. Paulo Mendes da
Rocha. Primeiros croquis,
plantas. MUBE, Museu
Brasileiro de Escultura, São
Paulo,1988. a, São Paulo,1988.
62
Não eu ouvi. Não só ouvimos, um tiro enorme. Não se diz
assim? “Você viu isso?” Começou a revolução. Configurações
que confundem os..., a consciência é feita de todos os
sentidos em concretude, não é um de cada vez. “Olha. Olhou?
Ah, desculpa, desculpa.” Isso faz o médico, tá fazendo um
exame, mas a idéia de... “Você viu isso ?”... O mundo mudou.
Se tem que ver assim. (...)
Existe diferenças metodológicas entre projetar
arquitetura, “design” ou cenografia?
É mais complexo fazer um teatro todo do que fazer um cenário,
mas a gênese da... realização daquilo é mais ou menos a
mesma. Você trata de confundir a mente, ver isso com
outro..., não aos pedaços, e configurar como será o cenário
da Ópera dos 40 anos..., como faria o cenário do Futebol pra
Bia Lessa... e tal né? O texto é um discurso, aí (o cenário) é
um adendo, agregado do discurso não é? O cenário no teatro
tem que ser um adendo, tem que ser uma... de repente a
complementação é uma idéia tola, fragmentária, é uma...,
um ingrediente da concretude daquilo que os outros vão ver,
ele não pode ver o cenário depois o ... Ele tem que ver um
espetáculo. O discurso começa no texto, além do texto a
diretora..., porque diante de um texto, (...) eu quero fazer
isso, isso e isso... e você diz assim, “Vamos fazer assim,
vamos fazer assim que os outros vão ver o que você tá
querendo, de uma forma espantosa, não é isso?” “É. Vamos
fazer.” E às vezes é tudo feito muito simples, O Futebol..., era
uma idéia de que..., muito bonita a peça, inédita, foi escrita
pelo assessor dela, (...) que trabalhava, Alberto Reneau. São
dois grupos humanos que não faz questão de distinguir, nada,
se é primitivo se não é, que vivem assim, tá mal, meio né,
litígio... como todo grupo humano... no lugar... começam a
brincar... porque eles viram não sei onde isso, aparece um
barco vem um inglês, que fala do futebol..., leva a bola
embora... Só que eles não tem nem uma esfera nem um
plano horizontal. E tudo se realiza quando o inglês traz uma
bola, e aí o cenário faz assim e fica horizontal. Eu fiz quatorze
metros de uma estrutura... metálica, bonita. O que você tá
fazendo aí? Realizando, né? um espetáculo, é um espetáculo
só, não pode dividir em partes. O cenário se dilui naquilo e
completa o discurso. Mas você perguntou outra coisa, como
é que isso surge né, na mente? Considerando no caso, porque,
é mais ou menos o mesmo caso, a natureza... só que um
caso concentrado, particular já de um discurso, né? Romeu
e Julieta. É tudo isso, as paixões... Só que vai fazer assim
“São dois meninos..., não sei o que..., então tem um balcão...
tudo bem.”
O desenho neste caso aparece da mesma forma que
na arquitetura?
Desenha..., detalha..., aí abre, vê como é que cola... faz um
pra um... um pra cinco. O desenho é técnico.
O espaço é concebido sem o desenho?
Ah é! Às vezes se faz até para os outros verem. Já pensou
fazer “três arcos..., isso vem em terceiro plano, põe na planta
isso”, aí pega a planta do teatro, “então vou fazer isso aqui,
vai ficar bom”. É para explicar para os outros.
Eu chego a consultar calculistas sem desenhar. Pra
preliminares pra não perder tempo, eu tenho intimidade...,
são meus amigos..., eu ligo , falo assim “eu quero fazer uma
casca de 20 por 20 suspensa, com aletas, como asa de avião.
Eu posso imaginar isso só com a casca superior e a inferior
de aço e essas lâminas como nervuras de asas de
aeromodelo? Tem vinte metros, suponha que eu fizesse de
cinco em cinco, então a primeira de borda, a primeira de
cinco eu faço uma espécie de barbatana para pendurar, depois
faço as outras e do outro lado simétrico, eu posso pendurar
isso, e tal? Não precisa saber nem aonde, mas posso? É
viável?” Às vezes o cara diz, “te ligo daqui a pouco”. Não
calcula propriamente. (...) É perfeitamente viável, vai dar
chapa doze, tal, a gente pode fazer isso, não é bobagem. Aí
eu continuo, vejo qual é a viga... Aí um dia eu vou lá, aí sim
eu rabisco pra ele, faço uns ensaios, ver se fica bonito..., põe
na praça... pra ver o tamanho..., onde o pilar vai cair, em
frente a casa São Nicolau..., põe mais aqui..., então não dá
trinta e dois..., dá quarenta..., tudo bem. Mas já é para que
dê certo o seu desenho, não é o desenho no sentido da idéia.
Aí levo lá, deixo uma cópia heliográfica, ele passa no
computador, vê vento..., problema de vento, ele diz “ oh tá
dando isso, isso e isso”, aí eu digo, tem que ser um pouco
sábio, tem que ser muito competente, porque é você que
diz, o cara tem outros problemas, ele não vai, eu digo “aqui
só tem rede de telefones..., eu vou me ferrar com a fundação”,
eu sabia, então vou fazer leve, eu queria que ficasse, eu
imaginei, eu queria saber se de fato dava leve, eu falei “e
quanto deu de peso?”, “oitenta e oito toneladas”. Quer dizer
que é quarenta toneladas em cada pé? Não é nada, eu posso
por isso num radie, eu to dizendo pra ele, de dois por dois...,
com certeza, uns trinta... que é a espessura, vinte e cinco...
que é a bolacha que a gente vê cortar no martelo de asfalto
com pedrisco... Portanto eu corto uma bolacha e ponho um
radie, dá quarenta toneladas, não é nada. Eu sei porque a
minha casa tem quatro pilares..., cada pilar pesa cem
toneladas..., a casa pesa quatrocentas toneladas..., você sabe
a resistência do solo..., cem quilos por centímetro quadrado,
quarenta toneladas não dá nada. É, porque também se eu
fizesse aqui uma fundação complicada... Dá tudo certo. Porque
eu já tinha pensado tudo isso. Se você não considerar tudo o
que é problema, você cria problema pr’os outros. Talvez não
consiga fazer..., avança, avança, faz maquete..., tira
fotografia..., depois aquele negócio não deu pra fazer. Eu não
posso ficar procurando onde cravar estaca lá naquela praça,
deve ser tudo minado lá em baixo. E não interessa mesmo,
né? É mais bonito assim, um radie. Você tem que conhecer
os problemas. Ah! isso eu conheço bem, sei avaliar, posso
um dia dar com os burros n’água, mas geralmente, eu vejo
tudo que está rolando lá, “aqui precisa mexer assim, rola
terra lá, deve ter isso, é melhor fazer radie, precisa ser carga
leve...”. Isso é competência. Bom, quarenta anos..., não tô
63
me vangloriando muito, se eu depois de quarenta anos eu
fosse meio arara eu tava frito. E mais, todos os meus colegas
devem ser assim, se fala com o Abrahão..., se fala com ...,
todos... depois de trinta..., vinte..., dez anos de profissão,
quinze, trabalhando. Tem gente que passa quinze anos, infeliz,
não teve... Eu desde cedo fiz coisas interessantes... e eu fui
muito bem educado, que eu fui educado pelo meu pai que
era um grande engenheiro, especialista em navegação... e
ele sempre me levou junto pra ver coisas incríveis. Não que
eu tivesse aprendido, mas eu vi que, o macaco é muito
engenhoso, e comecei, e depois eu fui vendo então o que
que era aquilo, tubulão pneumático..., rebaixamento de
lençol... Eu fui educado na engenharia, confiando.
Você quer ver uma coisa também que a escola não ensina
pra vocês, agora eu vou falar como se você fosse minha
aluna, concreto armado..., tá certo, vigas..., viga trapezoidal...
com cálculo da ferragem..., duas vigas... pra fazer uma
ponte..., invertidas... porque o estrado da ponte vai pra
cima..., parece uma coisa genial nos dias de hoje, não é?
Muito bem, o meu pai casou com a minha mãe porque ela
era filha do empreiteiro que fez a parte de terra das cabeças
de uma ponte de uma concorrência que ele ganhou lá no
Espírito Santo. Você quer ver a fotografia da forma dessa
ponte, portanto, ele e meu avô antes de serem parentes,
antes dele casar com a minha mãe, portanto mil novecentos
e... eu nasci em vinte e oito, minha mãe teve lá que eu sei...
ela casou em vinte e cinco, portanto isso é uma fotografia de
1922, têm um século agora,... Isso que eu disse pra vocês,
que é muito banal! Ah não trouxe, esqueci, não trouxe essas
fotos, da ponte ... É forma e ferragem de concreto armado,
uma maravilha, como o MUBE, não é novidade, isso é uma
porcaria muito antiga inclusive. E aí os meninos ainda falam,
o barro..., que é interessante..., vamos fazer uma experiência
de barro, tá ficando idiota? Meu pai casou com a minha mãe
por causa de uma ponte de concreto armado, em mil
novecentos e, lá numa barranca de um rio do interior do
Espírito Santo, e você vem pra Universidade de São Paulo,
com essa erudição estúpida, uma coisa é considerar isso,
Arq. Paulo Mendes da Rocha.
Croquis de desenvolvimento de
projeto, planta e cortes. MUBE,
Museu Brasileiro de Escultura,
São Paulo,1988.
64
sem dúvida, as origens..., mas aqui em São Paulo você vai
fazer ... experiência com casa de barro**, imbecil! Então fica
assim, o ensino é uma porcaria.
(** Nesta época havia uma exposição na FAU USP sobre
Arquitetura de barro. Nota da entrevistadora)
O que você aprendeu na escola? O que se fazia nos
anos cinqüenta na faculdade de arquitetura?
Eu de fato não posso me basear muito no ensino oficial que
eu recebi, eu sou muito auto didata. Eu passei essa vida que
eu te falei, visitando, conhecendo essas obras..., ouvindo
essas conversas..., me dediquei muito porque eu queria entrar
pra Escola Naval..., estudei no Rio de Janeiro... num curso
barato..., avancei muita coisa..., depois vim pra São Paulo...,
ficou muito fácil pra mim, eu passei fácil no vestibular... Eu
olhava as coisas como se eu fosse estrangeiro sabe, não em
relação à nação, mas em relação às instituições. Aí fiz um
curso no Mackenzie, que não era um curso difícil... enfim,
pra não dizer ruim... , mas é uma porcaria os cursos de
arquitetura..., você lê e você vê aquilo. Tá em outro lugar,
difícil tá na escola. Acho que já houve um tempo que algumas
escolas eram excelentes, acredito hoje é difícil. Acho que
elas devem voltar a ser, não é que eu não acredite no ensino,
tem que educar as crianças e tal, mas há muito tempo que o
ensino é muito relaxado. Eu estudei bem, de forma esdrúxula,
aqui, ali. Por exemplo, o Prof. Cristiano S. das Neves que era
diretor do Mackenzie, sempre foi tido, sabido, como um
homem um tanto quanto anacrônico já na época dele, né?
Nós estávamos em mil novecentos e cinqüenta afinal das
contas e... nós desenhávamos lá templos gregos... Mas isso
nunca me perturbou, porque eu achava o exercício
interessante de qualquer modo, e eu via nele uma figura
exemplar, porque se fosse um bobo, que não devia fazer
aquilo, ele podia fazer outras coisas, mas a postura dele como
arquiteto..., a reverência que ele tinha a essa profissão..., a
dignidade..., essa foi a minha escola, ele foi pra mim um
grande professor. Ele tava só um pouco enganado com essa
questão que a arquitetura tem esses paradigmas, tinha que
inventar mesmo, que os problemas eram outros, isso eu sabia,
tinha visto que era assim. E tirar, a arquitetura não se tira da
arquitetura, se tira de outros lugares, da literatura..., da vida!
Se falava isso na escola?
Até certo ponto se falava, precisa saber ligar as coisas, né?
Havia o pessoal da esquerda... interessado na sociedade...,
preocupado com o analfabetismo..., com a doença... das
crianças..., com a miséria..., com o atraso do Brasil ..., que
defendiam uma série de teses..., principalmente toda a obra
de Marx..., dos filósofos... Você vai ler tudo isso. Não precisa
fazer exatamente como eles. Você acaba descobrindo que a
questão não é um partido político radical..., mas é o
pensamento humano, o futuro da humanidade como uma
tarefa nossa e não algo que tá dado de presente, e a
arquitetura tem seu lugar nisso aí.(...) É interessante. Ela
também não resolve... nada, mas se quiserem resolver ela
vai ter uma bela participação, né? Se não quiserem, não
adianta. Você vê depois do Copam, você vender as porcarias
que se vendem no Itaim e tudo, é horrível, aqueles prédios...
com guarita..., aqueles terracinhos..., de setenta... por um e
vinte..., cada quarto tem um terracinho pra fazer uma estética
de carocinho..., mas se alguém sair naquele terracinho,
vomita, porque deve dar um mal estar. Tem nada que ver
com o prazer humano..., a dignidade..., quem é que vai ficar
naqueles terracinhos? É feito pra dizer que tá fazendo
arquitetura mas não é, tem nada que ver.
...isso é só um mais ou menos, é muito difícil você definir as
coisas. Não são definições, são considerações.
Mas com relação ao desenho ligado a projeto, o que
se fazia?
Nós fazíamos coisas interessantes, porque... a escola não
era exclusivamente acadêmica assim, havia alguns exercícios
de composição, com tema, que se reportavam até a
arquitetura grega..., mas havia exercícios também digamos
de matemática contemporânea. Bibliotecas..., eu fiz uma
biblioteca..., até museu, eu fiz um exercício sobre um museu,
casas..., conjuntos habitacionais..., enfim os exercícios
correntes. Mas havia essa parte que era insólito,
principalmente diante da Escola Politécnica..., do curso de
arquitetura da Escola Politécnica... e logo depois da FAU, de
ainda se fazer exercícios com aguadas..., e aquarelas..., eu
fiz coisas incríveis, Templo a Diana Aptera..., com planta
circular obrigatória..., fazia, depois punha tudo na parede pra...
Mas a gente também se divertia porque, eles não viam com
muita atenção, via muito de longe, aquilo se configurava assim
com sombras..., e eu e um colega inventamos uma ordem
brasileira, quando eles chegaram perto aqueles frisos, capitéis
eram tudo mico..., banana..., tucano..., a gente se divertia,
tamanduá..., me lembro, tamanduá fica muito bem num friso
porque tem aquele rabão, vai se adaptando ao triângulo. Broto
de samambaia dá um capitel lindo! ,um jônico mais
enroladinho. Mas você não pode debochar da arquitetura
grega, é uma bobagem de menino, eu fiz alguns perfeitos,
bonitos. Pra você ver a questão da modulação... na arquitetura
grega, é tão bonito, né? Algumas sabedorias incríveis..., o
corte da pedra..., as caneluras..., é muito difícil você fazer
um cilindro a prumo, se põe aquelas caneluras..., mesmo as
águas... como se comportam diante daquilo, não mancha.
As caneluras de coluna grega é uma das invenções mais
bonitas que eu já vi, do engenho humano. Fica um salsicha
sem graça, tudo... e você põe aquelas caneluras, acentua a
verticalidade...uma série de..., o prumo..., dividir o pilar em
seções... e fazer um pino de bronze já nos últimos, ... no
tempo da ordem jônica..., nos últimos momentos daquela
arquitetura, né? Já mais elaborada. As cariátides..., você botar
uma mulher como coluna, é uma maravilha, a figura de uma
mulher, né? É essa vontade de fazer fácil, pra dizer “É fácil !
,essas duas belezinhas agüentam o tempo inteiro.” Você vê
que eu tenho razão.
65
O desenho é uma atividade prazerosa?
Ah! é. Eu desenho.
É fácil desenhar?
Bem, se você pode desenhar até uma besteira dessa, é fácil.
Você desenha o que você quiser, né? (PMR falava sobre um
pequeno desenho feito por ele durante a entrevista)
Sempre foi algo fácil?
Não. Mas eu nunca me preocupei em fazer um desenho que
... me desse trabalho. Eu vou desenhar é pra me divertir, não
tem uma demanda assim...
Uma vez eu fiz um ensaio que me pediram, pra eu colaborar
em ilustração de artigos..., foi difícil, eu não acertava, porque
tinha um objetivo muito claro,... como é difícil fazer desenho
no sentido da (...), pra arquitetura, eu não quis dizer pra você
em nenhum momento que isso é fácil. A motivação, digamos
assim, meu estado de, o meu ânimo é dentro do quadro que
eu te descrevi, mas isso não quer dizer que eu pegue assim,
e faça o projeto da noite pr’o dia, eu sofri muito. Você quer
ver uma coisa? A Forma foi um projeto que eu sofri como um
cão. O que eu fiz de hipóteses absurdas diante daqueles
problemas, “então vou fazer assim, então vou fazer”... Você
não queira imaginar! Eu nunca fiz, dez hipóteses pr’ um
projeto, como eu fiz pra Forma. Até que de repente eu vi
aquilo,... “Meu deus! é assim, que tem que ser”. Porque eu
estava estudando a questão enquanto... um conjunto de
problemas. Fiz toda em subterrâneo... Porque? Você vai dizer
assim, “é mais fácil pensar em área elevada, se você queria
o terreno todo pra área de estacionamento”, não aí foi um
pequeno deslize de pensar que eu podia blefar um pouco
com a lei, porque como a garagem você pode fazer no terreno
inteiro, porque ali tem uns recuos né? Eu falei “oh, o único
jeito de eu fazer aqui mil metros de loja é botar dois ,como
se fosse a garagem do conjunto Nacional, só ponho um
qualquer coisinha de cristal pra fora, e estaciono em volta”,
mas é meio besteira né? Aí vão dizer, eu pensei também,
“vão dizer que é a pirâmide do Louvre que influenciou... né?”
Entra lá no buraquinho cristalino, isso eu não posso fazer.
Não posso fazer não por uma questão de vaidade, pra não
ficar pare..., quem tá me pagando não vai gostar, vai dizer
“Pô, paguei...”, aí eu desandei a fazer sozinho, né? ... Depois
é perigoso..., de repente a lei não per..., vê o uso, embarga...,
diz assim “não, isso não é garagem”, coisa desse tipo. Enfim
asneiras, eu nunca fiz tanta besteira...
O que eu quis te dizer que é claro, é a configuração das
questões, essa sim.
Estas dez hipóteses estão desenhadas?
Desenhei.
Acho até que eu tenho guardado, eu podia esconder de você.
Quer ver? Vou perguntar se tá fácil, porque revirar tudo aqui...
Mas devo ter jogado fora...
Quer isso aqui?
“Eu gostaria muito. Prometo que eu devolvo.”
Devolve, eu sei que você devolve. Até porque você não vai
saber o que fazer com isso... Não vai ter coragem de jogar
fora... então devolve.
Eu vou jogar fora, quando você devolver eu vou jogar fora.
Também é uma norma..., não é norma, mas um vício de
escritório, na hora assim você não tem coragem de jogar
fora. Não sei...você fica com uma certa angústia... de que
vai rever... Tá trabalhando. Logo depois você joga fora.
Sabe porque tá assinadinho tudo assim? Não é porque valoriza
não. Já me pediram emprestado pr’uma exposição do mesmo
babado, Croqui de arquiteto. Aí eu falei, “eu não tenho”. Aí
insistiram muito, eu falei “então leva esse”. Eu nem fui ver a
exposição...
Faz um ano já...
Sobre a exposição “Desenhos de Arquitetura”.
Ah! Mas aí era desenho de... técnico..., bonito...Tanto que o
desenho que eu mandei não é nem meu, era forma desenhada
pelo (...), mandei forma de concreto armado.
A informática mudará o projeto enquanto método?
Talvez mude, porque com o tempo as crianças vão começar
desde cedo, eles vão provavelmente desenvolver uma outra
mentalidade quanto à configuração do que imaginam.
Provavelmente, porque vão mais depressa configurar,
conseguir configurar, né? Mais depressa é o que? Aqui, eu
comecei a desenhar aqui... quando eu saí da escola, com tira
linhas, você abre o tira linhas pra limpar, depois fecha e nunca
mais o traço fica igual, você fica experimentando..., olhando...,
“tá fininho igual”. Bom, esse tempo, deve produzir alguma
coisa, enquanto a... Outra coisa, você desenha a nanquim no
vegetal, tá um pouco errado, a viga, você deixa, porque dá
tanto trabalho apagar... já tava admitido na... um certo... mal
feito. Como se você fosse fazer... Você não vai jogar a peça
toda fora, você diz “pô, esse nariz ficou meio torto, não tem
jeito”. E aqui não, você corrige, corrige, corrige. Prova-
velmente, essa mentalidade é imprevisível, ou então é
previsível por altos estudiosos aí que podem, (...) o que vai
acontecer com a mente. Eu tenho certeza que vai mudar, é
como se fosse antes da escrita e depois da escrita, né?
Mesmo antes do trem e depois do trem, se você pode ir lá,
você vai toda hora. Antigamente se diria, “não , não vou”,
66
eram doze horas a cavalo, ou doze dias, agora são duas horas
e meia de trem, depois foi trinta e cinco minutos de avião.
Então se você faz mais contatos, muda alguma coisa? Muda
né. Essa conversa que nós conversamos hoje por exemplo,
acho que é um pouco fruto disso, porque esses caras que se
viam pouco, deviam chegar e ficar horas assim olhando um
pro outro, coisa de japonês, porque o cara têm medo, não
vai se abrir.
Pretende informatizar seu escritório ?
O meu não.
Pode ser que eu compre um computador, lá pelas tantas,
mas eu não sei fazer aquilo lá e não vou aprender...
Até que eu gostaria sabia? Eu não posso me imaginar horas
olhando pra aquela tela, eu fui educado mais distraído, pra
me distrair mais. Por isso que eu to te dizendo que eu acho
que vai mudar sim, vai ter gente que vai ser educada nesse
meio, e provavelmente vão ser pessoas com aptidões ou
reações, metodologias diferentes de trabalho.
É muito engraçado até, muito estimulante que tudo isso possa
fluir de algum modo, né? Parece que minha cabeça ficou
mais leve. Agora que eu disse tudo isso eu posso sair pra
outra, não é nada disso ...
Não é um pouco o desenho? Quando se desenha e se
diz “não vai ser isso!”?
É.
67
data: 17 /11/1995
local: FAU USP / Pós-graduação
, Rua Maranhão, Higi-, Rua Maranhão, Higi-
, Rua Maranhão, Higi-, Rua Maranhão, Higi-
, Rua Maranhão, Higi-
enópolis.enópolis.
enópolis.enópolis.
enópolis.
Dados do entrevistado
data e local de nascimento: 1932, São Paulo, S. P.
formação (data e instituição): Arquiteto / FAU USP, 1954.
atividades atuais principais: Projetos de arquitetura /
Professor FAU USP
1. Atividades atuais. Como está organizado o escritório?
(número e qualificação de pessoal)
Como funciona tal estrutura em relação aos projetos de
arquitetura?
Enquanto arquiteto, participa de todo o processo? De
que maneira?
2. Tal estrutura sempre se deu desta forma? Como foi sendo
formada?
3. Existe geralmente um tempo médio para o
desenvolvimento do projeto em função do porte e
complexidade do programa ?
4. Em relação ao processo de projeto existe uma
metodologia de equipe definida ?
5. Na disciplina da pós-graduação AUP-846 , colocou que
“a arquitetura é produzida por reflexão e análise”. Nestes
termos a arquitetura seria fruto conseqüente de um
procedimento racional objetivo. Como se dá no seu
trabalho a relação entre tal procedimento e a questão
da subjetividade, inerente ao processo criativo?
6. Também comentou sobre “situar-se do sítio no local”, a
respeito da importância da visita ao local do projeto.
Nos seus projetos, tal procedimento dá-se também pelo
desenho ?
II.2.2. Joaquim Guedes
Entrevistas / Perguntas
7. O seu desenho relativo ao projeto, graficamente, poderia
ser caracterizado como croqui (desenho à mão livre)?
Como se deu o desenvolvimento desta linguagem? Quais
os fatores determinantes?
8. Como relaciona pesquisa e projeto em seu trabalho?
O desenho participa do processo de pesquisa? De que
maneira?
9. Na disciplina da pós-graduação AUP-846, refere-se, no
processo de projeto, a uma determinada etapa, que se
caracteriza pela “análise gráfica do sistema de espaço,
não se tratando ainda de concepção em planta.” De
acordo com tais colocações, se deduz que existem
dentro do método de projeto como um todo, ou seja do
programa do cliente à proposta detalhada do arquiteto
para fins de construção, algumas etapas que podem
ser descritas como métodos particularizados para
resolução de problemas característicos, como por
exemplo, quanto à “decomposição das necessidades
por conjuntos e subconjuntos”, uma fase intrin-
secamente analítica e reflexiva do projeto, que poderia
ser definida como metodologia de particu-
larização.(estrutura metodológica em árvore) Ela se
justificaria, segundo suas próprias palavras, “para poder
retornar ao todo a partir de um pleno conhecimento de
cada parte, com maior determinação e rigor inves-
tigativo, procurando chegar a um subsistema de espa-
ço”. Esta fase de investigação daria origem ao programa
ampliado do arquiteto. Como se dá este processo e
como o desenho é aqui utilizado?
No decorrer do processo de projeto existiriam outras
fases particularizadas como essa?
10. Nesta linha de abordagem, numa etapa posterior,
segundo suas próprias palavras, após “o escrutínio do
problema pela reflexão”, se dá “transformação desta
análise em planta”. Nos seus projetos, esta só se dá
em planta? Porque? Alguma vez já surgiu como um outro
tipo de esquema espacial gráfico, por exemplo, em corte
ou perspectiva?
11. Poder-se-ia, então, dizer que existe relação de
dependência entre o desenho (grafismo) e método de
projeto? O mesmo entre desenho (grafismo) e partido
arquitetônico ?
12. Na AUP-846, colocou o desenho como “instrumento
intermediário de reflexão”. Seria possível, dentro do
âmbito do projeto arquitetônico, o desenho assumir outro
aspecto que não somente o reflexivo? Seria possível
criar pelo desenho, aproveitando-se, por exemplo, de
uma gestualidade expressiva ou mesmo erros de
grafismo durante o ato de projetar?
Isto já aconteceu no seu trabalho?
13. Também na AUP-846, colocou o projeto como um
sistema que aparece descobrindo a síntese. Tal síntese,
no seu trabalho, é ou não figurativa?
Deixou claro, também, que a dependência do projeto a
uma forma previamente estipulada antes de definidos
todos os problemas de ordem programática e
construtiva, levam indubitavelmente à “escravidão”
figurativa. A figura deve ser, assim, a última a aparecer
no processo. Nos seus trabalhos ela geralmente se
define no Estudo Preliminar?
Alguma vez já apareceu antes, por exemplo, imaginou
uma síntese figurativa espacial ao se deparar com um
tema \ programa ? Qual a postura tomada?
Enquanto forma, figura, como se caracterizam suas
imagens mentais? (todo e/ou detalhe , externo/interno,
espaço/objeto, etc.) Aparecem geralmente bem
definidas e nítidas, enquanto imagens similares às
memorizadas a partir da observação da realidade?
Qual a relação dessas imagens com o grafismo, o
desenho?
68
14. Existe diferença entre o desenho, croqui, de projeto e o
evocativo, ou seja aquele feito mais tarde para
explicação ou do projeto ou da obra construída?
15. Existe diferenças metodológicas no processo de
imaginar, projetar e desenhar graficamente, arquitetura
e outros elementos espaciais ou objetos?
16. O desenho é uma atividade prazerosa? Fale um pouco
sobre as facilidades e/ou dificuldades.
17. Fazendo uma retrospectiva da sua aprendizagem
acadêmica, como classificaria essa relação entre
desenho e projeto? Qual a postura docente e discente
na época?
18. Como vê o processo de projeto hoje com a
informatização da linguagem gráfica? Houve mudanças
significativas no processo de projeto, decorrentes da
implantação de sistemas informatizados para desenho
no seu escritório? Prevê alterações metodológicas
futuras em função do desenvolvimento dessa
tecnologia?
A entrevista - aspectos gerais.
A entrevista realizada com o arquiteto Joaquim Guedes foi
realizada levando-se em consideração, principalmente, suas
colocações teóricas e críticas na disciplina da pós-graduação
AUP-846, da qual é professor responsável, no primeiro
semestre de 1995. Tal disciplina foi freqüentada por esta
pesquisadora, com permissão dos professores, para
recolhimento de dados relativos ao processo de projeto, que
resultaram na primeira parte deste mesmo volume, sob a
denominação “Laboratório de Pesquisa”.
No período da entrevista, o arquiteto desenvolvia o projeto
para o concurso do Museu do Prado em Madri, em parceria
com outros arquitetos europeus, viajando freqüentemente.
Dentro desse panorama, a entrevista foi realizada no prédio
da FAU à rua Maranhão, o que não permitiu conhecer o local
de trabalho do entrevistado. Também, pelo mesmo motivo,
não foi possível fotografar desenhos originais do arquiteto,
apesar das inúmeras tentativas feitas. Assim, o que aqui
aparece pertence a trabalho já publicado.(v. legenda p.69)
Joaquim Guedes é dos três entrevistados o mais analítico.
Seu pensamento e seu discurso são claros, mas como se
verá não excluem certas contradições, que caracterizam o
processo de projeto, justamente pela dialética entre razão e
intuição, na execução do projeto.
Destacam-se na entrevista:
O processo de projeto com ênfase para os aspectos
reflexivos e na análise de subsistemas.
O retardamento da figura em função da completa
análise das partes. A busca da não escravidão pela
forma.
A relação entre emoção e subjetividade no projeto.
O desenho como conseqüência direta do processo
de projeto.
O desenho para pensar.
69
Atividades atuais.
Eu sou professor em tempo integral na FAU e... faço alguns
trabalhos como consultor sob licença do departamento,
sempre que o trabalho tem uma configuração de pesquisa e
aperfeiçoamento do método no projeto, ou da investigação
do método no projeto. Nesse sentido, meu escritório hoje
está com as pessoas que trabalharam sempre comigo, eles
mesmos tomam conta, fazem a gerência de qualquer coisa,
eu não tenho mais nenhum tipo de gestão nenhuma direta.
Ingerência nenhuma direta, perdão, gestão tá errado.
O escritório e o processo de trabalho.
Por exemplo, eu já tive um escritório com cem pessoas,
setenta arquitetos. Hoje nós somos mais ou menos dez, lá.
Então o que se passa é que o escritório está habituado a
fazer as coisas de um certo jeito, que até se cristalizou como
eu sempre contei, muito por influência dos alunos, que foram
os que farejaram que havia um método por trás e me
obrigaram a explicitá-lo dizendo que eu escondia o jogo. Aí
eu fui ver o que que era, e me dei conta que era uma coisa
de fato muito útil e que era um procedimento de fato
cristalizado e sedimentado que consiste no seguinte: como
nós temos projetos muito grandes, eu decomponho o
programa em vários sub-programas de atividades afins, que
cada grupo ou pessoa analisa ao seu tempo, sem nenhuma
relação com o total do projeto e essas análises é que são
estudos de subsistemas de espaços, tentando ver que
autonomias estes subsistemas têm. Eu parto de que a
complexidade da vida é tal que faz sentido você querer
compreender em profundidade todas as partes dela, pra ver
que tipo de necessidades ela tem em termos de espaço,
que configurações esses espaços devem ter para atendê-la,
a vida, né. E... paralelamente vai se fazendo um estudo do
sítio com vista a começar a entender como as diversas partes
que estão surgindo e se configurando se ajustam melhor,
atendem melhor as suas finalidades às diversas posições no
Joaquim Guedes
Entrevista / Respostas
Arq. Joaquim Guedes. “Dese-
nho de reflexão sobre um
projeto (1995).” In: VALÉRY,
Paul. Eupalinos ou O arqui-
teto. Rio de Janeiro: Ed. 34,
1996. p.179.
70
sítio. Então é uma maneira de você ir pensando lentamente
as configurações do objeto final no sítio, independentemente
de qualquer preconceito formal. Porque eu penso que só
assim se faz arquitetura contemporânea, o resto é uma triste
reprodução do conhecimento conhecido, do conhecimento
passado, das idéias conhecidas do passado. E no caso o que
eu faço é o seguinte, eu me dirijo pra lá ... fugir porque aquilo
é aberto, eu digo o que tô pensando, e as pessoas mais ou
menos se orientam por aquilo e produzem as suas próprias
idéias, mas há uma direção geral do trabalho, todos tem que
mais ou menos chegar ao mesmo tempo (...)
É uma coisa lógica, como eu digo sempre, um processo de
conhecimento que até foi flagrado depois por alunos como
sendo uma coisa que eu escondia porque tinha uma existência
própria bem clara.
Sobre o tempo do projeto.
É muito lento o desenvolvimento, é lentíssimo. Meses e
meses de trabalho, em cima de quase nada.
Projetos da mesma complexidade levam o mesmo
tempo?
Em geral sim, em geral sim. Porém, evidentemente, a gente
sabe que pode fazer uma coisa rápida, você pode simplificar
a análise com a experiência que tem e dar uma solução aqui
e ali (...) Acontece que a elaboração do projeto, na medida
em que a gente tem que pensar detalhes de construção e
elaborá-las pra chegar à forma final, isso é muito lento. Por
exemplo, há pouco tempo atrás, um projeto que nós fizemos
do edifício do SESI, a cobertura tinha cento e oitenta detalhes,
só a cobertura em telhas de madeira, madeirite, pra você ter
uma idéia, e não pra complicar, mas para mostrar que tudo
era resolvido com a mesma família de detalhes e soluções.
A produção da arquitetura pela reflexão e análise.
O negócio é o seguinte: o meu método de trabalho, hoje, se
eu tenho direito a alguma consciência do que faço, ele é
muito calcado sobre a fenomenologia. Em uma ocasião, há
vinte e três anos atrás, quando eu fui fazer uma conferência
em Minas Gerais, numa certa altura, um filósofo disse “o
Guedes é um fenomenólogo do espaço”. Interessante porque
eu não conhecia esse sujeito e, de fato, no início da minha
vida, quando eu fiz a casa do meu pai, eu tive de fato uma
grande dúvida, que eu disse “não, assim como ensina a
fenomenologia, eu tenho que me ater aos atributos da minha
obra, e ficar tranqüilo. Eu não vou fazer beleza porque tomo
os elementos tidos como belos da arquitetura contemporânea
e os seus cacoetes, mas a minha arquitetura vai emergir
da... da sua própria lógica, e vai valer pelos seus atributos,
esses atributos ficam por conta dos detalhes..., e relação
dos detalhes e as funções e suas mecânicas, né? Isso fará
um todo, que será a face perceptível do meu trabalho.” Então,
nesse sentido, tudo é percepção, tudo é emoção. Porque
você parte, aliás a fenomenologia é muito clara neste sentido,
ela pergunta, é possível chegar a... conceitos e a
conhecimentos de caráter universal a partir de percepções,
de emoções e de contatos com o conhecimento tão subjetivo,
tão... tão emocional, particularizado, pessoal, etc.? Como é
possível atingir o universal a partir de... de um sistema inicial
de... de apreensão das coisas que é extremamente subjetivo
e tal...? Então acho que todo processo é mesmo um esforço,
é uma elaboração a partir da subjetividade e da emoção,
portanto, sempre impregnado dela.
Tudo é emoção... não existe, a razão é apenas um..., decorre
da percepção que você acabou de ter, ela é acionada pela
percepção e pela subjetividade. Você é catapultado a pensar
a partir do que sentiu e nessa tensão, a procura do universal
sempre, ... que no fundo acaba decorrendo dos particulares
que você vai criando e fazendo.
“Situar-se do sítio no local.”
Pra mim essa questão do conhecimento do local é
fundamental, porque tudo aquilo que você pensa
fragmentariamente a partir das suas percepções, tudo que
você elabora racionalmente, tudo isso não..., é imaterial, é
abstrato e só começa a tomar alguma forma possível em
confronto com o lugar. Por exemplo, você vai fazer um Centro
Cultural, você encontra uma série de... de partes, não é? ...
que têm exigências muito definidas em relação à iluminação,
auditório não precisa de luz, por exemplo, nem tomada de ar
fora direta, deve ser climatizado e iluminado artificialmente,
uma biblioteca. Então, quando você tá fazendo o seu projeto,
a constelação de espaços que você começa a entrever só
adquirirá... consistência na hora em que essas coisas vão
pr’os seus lugares, tendo em vista só paisagem, visuais, senão
eu vou colocar uma sala e cega entre você e a mais bela
paisagem, ou o melhor sol, né? Você vai situá-la onde ela
não impede a vista e onde, o fato dela ser fechada, né ?, não
tem conseqüências negativas, porque o sol é inclemente, já
que você fecha o sol, pode ser qualquer um, o pior, o mais
quente, ou nenhum sol, totalmente fria. Então você pode
pensar mais ou menos como é a natureza da organização
das coisas. Mas a forma, mesmo, o lugar de cada coisa, a
altura de cada coisa, o que está em cima, o que está abaixo,
só a medida em que você começa a entender o sentido(...)
Então como isso é de grande importância, você vê e é visto,
você tem que receber a natureza e com ela trocar...
iluminação, calor, prazer, né? Então é nesse processo que as
coisas vão encontrando o seu lugar e portanto que a forma
vai adquirindo sua consistência, ela vai se explicando e
encontrando a própria razão, a própria estrutura. Então, de
fato, acho que o sítio é muito importante. Depois a
aproximação de, a noção de distâncias... e essa relação com
a natureza que é fundamental. Natureza ou simplesmente
espaço artificial construído, né?
71
Como se dá a grafia dessas relações?
Eu desenho muito, eu desenho muito. Os meus desenhos...,
a diferença entre o que eu sinto, o que me choca muito em
função dessa diferença, é que a maioria das pessoas que
fazem isto, fazem um registro muito mimético da paisagem,
então a tal leitura deu origem a uma série de representação
direta. Muitas vezes é como se o meu desenho fosse uma...
fosse o braço de um sismógrafo, entendeu? Quer dizer, eu
vou vendo coisas e vou apontando o papel, é quase um não
desenho, é uma notação de impressões, de relações, é...
por exemplo, eu posso estar preocupado com uma coisa em
cima e outra embaixo, então uma é um traço mais acima,
outra um traço mais abaixo, mas isso pode virar planta e não
é mais nem acima nem abaixo, mas longe e perto. Então é
sobretudo um desenho muito..., ao mesmo tempo analítico
e emocional. Sempre esse velho processo de aprender pela
emoção e pela minha, a minha pessoa, toma conhecimento
das coisas, vê o que sabe ver..., o que quer ver..., não tem
saída, mas isso é sempre repassado por uma reflexão crítica,
que inclusive faz a crítica do que eu vi e do que eu deixei de
ver, do que eu não estou vendo. E... então esse desenho é
sempre um desenho de reflexão, é um desenho de reflexão.
Agora vai sair numa edição do Euphalinos uma série de
gráficos meus, ilustrando a... capa e internamente, e são
desenhos feitos assim, se você olha e não parecem desenhos
de arquiteto e eu insisto que isto é muito importante. De
quebra saem algumas coisas, decorrem algumas pequenas
perspectivas e imagens, mas é decorrente da percepção.
Eu comecei a minha vida como pintor, você sabia disso? Eu
desenhei dos sete aos quatorze anos, todos os dias. Eu tinha
um professor de desenho..., de pintura..., eu fazia desenhos
a bico de pena..., carvão..., pintava a óleo... Aquarela eu nunca
fiz, queria muito fazer. Aí, aos quatorze anos, eu entrei no
colégio pra me preparar para a faculdade, e eu não sabia
bem o que era arquitetura, se era engenharia..., se era
construção civil..., o que que era. Aos poucos eu fui me dando
conta. Porque a faculdade foi criada acho que no último ano
meu de..., ela foi criada em 48, no penúltimo ano meu de
cursinho, de colégio. Então não existia uma faculdade do
estado de arquitetura, havia só a Escola Politécnica que era
escola de engenharia, e arquitetura. A Politécnica, muito
melhor que a do Mackenzie, era uma extensão um
aperfeiçoamento do curso de engenharia. O Artigas fez
engenharia civil. E nesse processo de me preparar pr’o
vestibular, eu parei de desenhar. Aí comecei a desenhar aqui
dentro (obs.: a entrevista foi concedida no Prédio da FAU
USP, à rua Maranhão). E o confronto do novo mundo, eu tinha
um professor que tinha mania doentia do Piet Mondrian e
quem não fazia “mondrians” na escola era um débil mental.
Eu fiquei apavorado, quer dizer, podia ter sido um débil mental
minha vida inteira, era muito criança tinha dezessete anos
quando eu entrei, e esqueci, e aí pra não fazer Piet Mondrian
que eu não era nenhum imbecil, eu comecei a mergulhar na
arquitetura e aquela minha experiência de desenhista passou
totalmente para minha reflexão no projeto. Eu não fazia
projetos e desenhos pra educar o meu gosto como é tão do
viés crítico entender que há uma mudança do gosto... e
portanto uma mudança da arquitetura que vai junto. Não, eu
comecei a colocar toda minha experiência de desenhista, de
pintor, gráfico, de plástico não é? Ela naturalmente, sem que
eu me desse conta, foi totalmente utilizada para pensar o
espaço e a sua organização. Aliás(...), eu aprendi muito com
o desenho, a luz..., a iluminação..., a luz né?
Tem desenhos dessa época?
Não tenho idéia... Tenho, tenho. (...)
Ah! Eu tenho um lindo retrato meu, tenho um lindo retrato
meu que tá com a Ana.
Um auto-retrato?
Auto retrato. Porque quando eu tava fazendo cursinho, eu às
vezes, à noite, desenhava. Acabava de estudar, ia lá... e o
jeito de fazer era sempre o que eu tinha, era espelho e eu
mesmo, né? Então eu fiz muito... muito... despreten-
siosamente, mas fazia.
A relação entre pesquisa e projeto
Eu sempre acho que dentro de uma situação ampla, tenho
que entendê-la, conhecê-la e que eu devo chegar a um
desenho de espaço. Então, eu começo a organizar as coisas
que eu vou estudar pra conhecer o problema, isto em geral é
muito fácil de fazer. É claro que depois de iniciado o processo
de investigação surgem outras dimensões..., outras direções
a analisar.(...)
Eu levei isto tão a sério (...) que uma virada muito grande na
minha vida se deu quando em setenta e... quatro, portanto
há vinte e um anos eu fui chamado pra fazer uma proposta
pr’o Projeto de Carajás, que era..., ele se desenvolvia numa
extensão de mais de mil quilômetros, ia de Maguna a 700
metros na Amazônia, era um porto de mar com várias
alternativas de porto. Eu tinha sessenta dias pra fazer esse
trabalho na Amazônia, era um estudo preliminar. Então o que
é que eu fiz? Eu analisei, olhei o problema e de cara eu reduzi
o problema a três ou quatro alternativas, em seguida eu excluí
um dos caminhos pela própria reflexão inicial, que já era
possível, dessa colocação inicial do problema, e depois eu
reduzi o problema a vinte e três operações, o projeto a vin...
Por exemplo, primeiro, reunir com equipe e discutir tais
assuntos..., aprender o que o resto da equipe sugere...,
segunda etapa, decompor o trabalho segundo os diversos
núcleos de investigação da equipe..., etapa seguinte, ir ao
Pará com tais pessoas... e olhar tais e tais coisas..., entrevistar
tais pessoas... Tudo é decomposto em..., senão jamais
conseguiria fazer. Então eu passei quinze dias em São Paulo
fazendo essas reuniões e preparando o trabalho e a visita...,
e aí fomos, Ah! não...uma semana preparando..., uma semana
de viagem ao Pará..., aí viemos aqui pra São Paulo..., o trabalho
sempre debaixo daquelas vinte e três operações e nos últimos
72
quinze dias eu praticamente redigi o trabalho sozinho, depois
os desenhos..., e tal..., concluí e entreguei. Isto é pra você
ter uma idéia do que é essa fase de conhecimento. E eu
impeço, impeço a forma de aparecer a não ser na medida
em que este conhecimento vai se consolidando, eu retardo.
Aliás há uma expressão do Valery, muito grande também,
que ele atribui à Sócrates, neste sentido, em que ele retarda
o conhecimento, o prazer deste conhecimento. Eu retardo o
conhecimento.
Como retardar a forma?
Acaba sendo uma coisa natural. Se você tá conhecendo pra
fazer..., se você não sabe, você retarda, naturalmente você
impede. Porque na hora que você faz um pequeno croqui
você é escrava dele. E eu não acredito que numa atividade
intelectual a intuição prescinda do conhecimento. A intuição
intelectual é uma intuição, não é a intuição do Espinosa, aquilo
é outra coisa, a do Bergson, que se dá sob uma intensa
experiência do conhecimento, cultura e conhecimentos
científicos, inclusive.
A decomposição das necessidades por conjuntos e
subconjuntos como estratégia de projeto.
Essa decomposição do espaço em subconjuntos que não se
tocam, ela é uma maneira de retardar o projeto, porque eu
sei que, individualmente, nenhum desses espaços tem direito
a nada, a impor nada. E no escritório, feito por pessoas
diferentes. Às vezes, sequer nessa fase eles conhecem bem
o sítio, entendeu? Por essa razão, isso não tem, pelo que eu
já falei, nenhuma função de existir como forma, é apenas
reflexão e investigação, é conhecimento, você está tentando
compreender qual é a natureza intrínseca daquelas relações
e daqueles usos, a natureza dessas relações, quais são as
inter-relações..., as correlações...
Você sabe... eu hoje tenho o maior respeito por uma coisa
que me irritava muito, que ... um amigo meu, um arquiteto
francês em Estrasburgo, dizia, “Guedes arquitetura é como
fazer cozinha, é como fazer comida né?” Porque, na verdade,
você parte de elementos díspares, você vai selecionando
lentamente o que você quer, e pondo uma coisa com a outra...
e vendo o que falta... e lá no fundo aquilo tem uma unidade
poderosa, quase que as coisas não se dissociam mais e, no
entanto, foi do conhecimento delas que você chegou àquela
unidade extraordinária, que tem um valor muito maior que o
valor das partes, que, no entanto, cada uma delas tem uma
complexidade muito maior do que o todo; o todo no fim o
que que é? É tudo junto, nem ele mesmo não sabe porque é
tão bom, no entanto, cada coisa, ele é o resultado da
complexidade, do desenvolvimento de cada uma das partes,
que são: sal..., o suco da carne..., os legumes que eu
coloquei..., que eu cortei de um certo jeito..., que foram
cozidos até um certo ponto pra se desfazerem até uma certa
medida..., entendeu? Tudo se junta. Neste sentido é que
cada parte é muito mais complexa do que o todo, isto é um
paradoxo, também do Valery, do qual eu to me servindo pra
explicar pra você como eu penso.
Metodologia de particularização?
É necessário, e sobretudo (...), eu sou muito consciente disso
e falo em aula, eu acho que uma das características da
sociedade contemporânea é a impossibilidade de... de você
impor tiranicamente as coisas a um grupo muito grande de
pessoas. Sempre a sua ordem vai ser superada pela
manifestação de muitos projetos e vontades, e recursos
particularizados que limitam ou que expandem as
possibilidades de uma certa... de uma certa atividade, de
uma certa... de uma determinada produção... Enfim, você...,
veja, por exemplo, uma avenida, hoje, ela está longe de ser a
Paris de Napoleão III, você não faz mais uma fachada como
você quer, “eu quero assim... à rua tal...” Isso não existe
mais, porque cada projeto, cada uso, está sujeito a novas
tensões, a novas leis, a novas obrigações, inclusive de caráter,
inclusive ligados à economia particular de cada pessoa e seu
projeto, não é? Certos desejos só são viáveis dentro de certas
condições. Então, se você não dá condição, você frusta
desejos, você destrói desenvolvimento. Então, nesse sentido
é que eu penso, eu intuo, né?, que o método seja muito
aberto, tão aberto quanto possível, tão... submisso quanto
possível ao conhecimento das particularidades dos
problemas, das muitas tensões, solicitações, e tudo isso
ligado..., na falta de uma maneira mais racional..., e... e
trabalhar muito ligado à subjetividade..., à origem subjetiva
do conhecimento e da percepção. Eu acho que, fora disso,
não há salvação.
Hoje, inclusive, eu venho notando que a arquitetura mais...
mais avançada e que não seja uma decorrência direta de
manias formais, (...), mas o deconstrutivismo em si, não é?,
está muito ligado a essa percepção da diversidade e até da
necessidade de diversificar a construção, porque as partes
exigem construções diferentes, uma atenção diferente. Eu
penso que esta minha colocação é absolutamente atual, está
de acordo com a complexidade da sociedade e o seu direito
de ser complexa e de exigir coisas próprias, não é? Então,
assim, também o projeto reflete essa diversidade. Eu sempre
digo que o que eu quero é expressar as múltiplas autonomias
internas de um projeto.
Como é fazer isto sozinho?
Eu nunca consegui fazer, olha eu fiz muitas casas..., que eu
acho que é um problema fantástico, talvez um dos mais
interessantes, acho que a arquitetura contemporânea, ela
foi feita muito em cima da habitação individual, eu acho um
tema privilegiado. Eu fiz muitas residências, ganhei muitos
prêmios com residência. Houve um momento em que eu quis
racionalizar o meu trabalho e dizendo assim “não, eu vou
encontrar uma maneira mais fácil de fazer isso..., vou
reproduzir certos arquétipos..., certos modelos..., vou ganhar
73
mais dinheiro..., trabalhar com mais eficiência..., porque até
vou somar a minha experiência de casa em casa”. Bem, eu
nunca consegui duas coisas iguais, ou que se utilizassem
conscientemente de um limitado conjunto de estruturas e
nunca consegui começar um projeto que não partisse de uma
análise de como é cada cômodo..., cada banheiro..., cada
quarto..., aqui pode ser a entrada... nesse terreno..., vistas...,
e acho que os arquitetos fazem sempre muito isso. Então
também nos meus trabalhos eu começo partindo da análise
de cada ambiente de como eu os quero, em quantidade...,
quantidade de espaços... e... interações né?, inter-relações.
Então, respondendo aí, é mais ou menos isso.
Você coloca que esta fase dá origem ao programa
expandido do arquiteto. A partir daí, existem outras
etapas de particularização?
Eu acho que, antes de você começar a fazer investigação de
espaços, convém você pegar o que o cliente pediu e verificar
o que é isso em termos de área..., isso é você que vai fazer,
ele não sabe, área..., em termos de... por exemplo, coisas
que ele deixou de mencionar, ele sabe se é preciso um
banheiro pra homem ou mulher ?, por força de lei? ou
exigência de escada de incêndio? ou às vezes até coisas que
decorrem de algumas coisas que ele formula, de alguns
pedidos que ele formula, mas cujos desdobramentos ele não
leva até o fim. Por exemplo, numa casa com determinadas
dimensões, muitas vezes, ele não especifica bem como é
que ele quer a área de serviço, quais são os..., então isso pra
mim é desde os detalhes mais corriqueiros e técnicos até os
requerimentos relacionados com a qualidade do espaço, né?
Ele fala eu quero dar festa, então você imagina os pés
direitos..., pra onde olha..., como é que é o sol..., como é
que é a luz..., se vê a cidade a noite..., se não vê..., entendeu?
Então é tal o programa ampliado do arquiteto, você começa
a transformar aquilo em programas, em pré programas de
espaço e depois começa a trabalhar com essas autonomias,
né?
E após o programa expandido?
Aí tem que começar a fazer a análise de subsistemas de
espaço.
E dá-se outra fase de particularização?
Sim, porque, você veja, pra você começar a fazer qualquer
coisa, você precisa saber cada sala, né?, em termos ideais...,
em termos abstratos..., e em seguida já vendo mais ou menos
quais são as possibilidades dela no sítio, cada espaço
individualmente considerado, o que é que ele exige, o que
ele pede como, como... pra ser o melhor, resolvido da melhor
maneira, em termos de dimensão, em termos de qualidade,
por exemplo, não é só ter três por quatro, mas quero janela
grande..., pequena..., quero penumbra..., quero luz..., quero
ver..., o que não quero ver..., o piso é de pedra?, o piso é de
plástico?, o piso é de vidro?, como é que é isso?, ilumino por
baixo?, ilumino por cima? Então eu acho que a investigação,
você tem que excitar a sua imaginação, não é nem excitar,
ela não precisa disso, mas você tem que dar todas as
condições pra que a sua imaginação investigue todos os
cantos do seu problema, né? E... essa investigação então ela
poderia ser disciplinada, talvez deva ser, em... determinados...
determinados trabalhos ela tem que ser mais rigorosa e mais
controlada, então você tem que inventar os dispositivos de
controle da análise, de registro..., de alinhavar as
conclusões..., depois confrontar as conclusões parciais... pra
chegar às conclusões finais. Porém, na minha experiência,
isso se dá de maneira um pouco tumultuada, o que importa
é a seqüência das operações; faço isso, faço aquilo e eu vou
acumulando conhecimento e registrando muito, em croqui,
em anotações, né, e depois eu volto, fica como um repasse
sucessivo das conclusões a que se vinha chegando, e ficam
na memória, na memória. Até que depois de um certo
momento você..., como no caso da cozinha a que eu me
referia, as coisas vão indo pr’o seu lugar quando eu aumento
o fogo, não tem, eu não queria simplificar esse ensinamento,
mas na escala dos problemas em que eu tenho podido
trabalhar, com exceção da Caraíba que era muito grande né?,
isso tem acontecido assim.
A transformação da análise em planta. É sempre em
planta?
Não, não. Planta é uma metáfora, né? É claro que a
organização mais densa se dá, porque você anda em planta,
você anda basicamente na horizontal, então essa..., o uso do
espaço se expressa “mailing” em planta, mas os gráficos
são ao mesmo tempo em altura..., em corte...
(...)
Essas imagens vão se formando em três dimensões, eu diria
até que mais, porque imediatamente ao você começar a
pensar no sítio, a terceira dimensão, que é a distância, o
tempo, acaba ocorrendo também, acaba se inserindo no meio
do seu raciocínio.(...)
Existe uma interdependência entre grafismo e método?
É uma coisa só, eu acho. Eu acho que o registro é um suporte
do desenvolvimento da reflexão. Ele até é um suporte muito
preciso, porque, se você for ao escritório, você vai ver lá
a seqüência dos quadradinhos como é feita... Estou fazendo
o projeto de Madri assim (...), como é que é feito... É
interessante, porque os meninos ,que tão trabalhando nisso,
queriam começar, já haviam composto idéias, como se
produz... ,“entramos assim... restaurante...”Eu disse: “Corta
tudo, só quero saber dos quadradinhos. Não sei de nada,
não tenho nem como julgar o que você tá fazendo, nem como
apreciar a validade do que você está me propondo, se eu
não tenho essa análise mais aprofundada”.
74
O mesmo se pode dizer entre desenho e partido
arquitetônico?
Eu não sei o que é partido.
Vamos dizer, então, a configuração final...
Direta, a relação é direta, porque a configuração nasce da
análise, nasce do pensamento. Eu sempre digo esse negócio,
a arquitetura é o lócus, a reflexão é lócus do arquiteto, é o
método de conhecimento dele, do mundo real que ele tá
produzindo.
Vem da natureza do saber dele, esse negócio.
Seria possível o desenho assumir outro aspecto que
não o reflexivo? Seria possível criar pelo desenho,
aproveitando indícios gráficos, a gestualidade expres-
siva, ou mesmo, erros gráficos que levariam a novas
idéias de configuração espacial?
Eu não sei se entendi bem a sua pergunta... Eu acho que sim,
porque ele está dentro do processo... de induzir o projeto.
Quando eu digo desenho por reflexão, é uma maneira de
dizer aos alunos que o desenho não é só cópia daquilo, não é
só reprodução gráfica daquilo que eles gostam, depois
detalhar e dar a forma. O desenho é para pensar. É isso que
eu quero dizer, desenho é para pensar. E ele se transforma
também como o pensamento; da mesma maneira que ele
ajuda a pensar, o pensamento o ajuda a ser, é isso que eu
quero dizer com essa questão. Agora, nesse sentido é um
processo contínuo de vir a ser, então, eu não diria nunca que
há erros. Há descobertas..., há informações..., há
contradições..., e ele vai se resolvendo assim. (...)
Como ele é reflexão, ele vai dizendo o que ele está
conhecendo. Agora, uma pura gestualidade deve existir
também, mas é no nível inconsciente, eu não me preocupo
com isso.
Eu não acredito que a gestualidade “alla Pollock” vire
arquitetura(...) porque ela tem compromissos com a vida,
com a construção, que exige (...), não obstante, como o
desenho é o seu método, passa por ele, o tempo inteiro ele
está ensinando você como fazer, e esse ensinar é subjetivo,
na base que você é um ser emocional subjetivo, que
particulariza todas as coisas que conhece, que faz.
A Síntese final. Que imagem é essa?
Eu acho que você vê a coisa tridimensionalmente... e num
tempo inclusive como (...), e suas relações com a paisagem...
e isso é necessariamente figurativo ou objetual.
Leva à escravidão, leva a uma..., obriga, eu acho que a reflexão
obriga a um resultado. Eu chego a dizer e... causo muita
irritação nas pessoas, que a partir de certo início, de um certo
momento, eu sinto como se o projeto exigisse de mim a
solução que tá saindo, não mais eu impondo ao desenho a
minha vontade.
Surpresas com a imagem final e a escravidão inevitável
ao processo.
Eu me surpreendo, é... Eu me surpreendo. E é interessante
que quando eu falo da escravidão, é como se eu não tivesse
saída de fato. Então eu vou trabalhando aquilo..., trabalhando
aquilo... e tal, e mais de uma vez , pessoas trabalhando
comigo falam, “Mas Guedes nós nunca fizemos nada assim,
isso vai ficar horrível” e depois é o maior sucesso, né?
O prêmio internacional de arquitetura que eu recebi depois,
eu me lembro de uma arquiteta que disse “Guedes, é insólito
isto, isso não se faz”, no entanto eu não tenho saída, eu
tenho que fazer aquilo assim, eu começo a aceitar os termos
do problema e facilmente eu diria, sai a solução que depois
vai se consagrar de uma maneira ou de outra. Eu não estou
dizendo isso de maneira convencida, eu to tentando relatar
um pouco uma anedota, relativa ao acontecimento, não é?
Mas é mais ou menos isso. E essa escravidão não é negativa,
ao contrário, é a mesma escravidão do foguete, né?, que
sabe que sai às vezes da gravidade, mas a velocidade..., mas
a aceleração, tudo isso leva à realização de uma coisa bela e
perfeita, mas que no fundo é um processo de extrema
dependência e de uma lógica interna absoluta. Embora eu
não tenha um domínio racional dessa lógica, é nesse foguete
que eu quero estar, dá pra entender? Bem ou mal eu acabo
achando meu foguete, não tem conversa. É um prazer incrível.
Já ocorreu ter uma imagem figurativa quando da
apresentação do programa?
Isso deve acontecer muito, mas nem me preocupa, nem eu
tenho muita consciência disso. Porque, certamente, tudo o
que eu penso hoje tá ligado à minha experiência no passado,
então eu não tenho dúvida de que tenha dependências, tenha
informação..., tenha experiência..., mas eu não to nem aí. Eu
retardo, vou retardando tudo...
Alguma vez já chegou a ficar próximo daquilo que você
imaginou no início?
Muitas vezes, muitas vezes. Porque às vezes você...
especialmente hoje, em problemas muito pequenos, embora
eu passe sempre por essa fase de investigar cada espaço,
e... como o trabalho é muito penoso, muito difícil, até por
fraqueza, eu começo a acelerar o trabalho no final, então eu
logo percebo o que é mais importante, o que é determinante
e então eu digo: “vamos chegar e começar pela entrada, eu
tenho tanto de frente, como é que eu entro?”, entendeu?
Nesse sentido eu estabeleço simplificações e essas entradas
podem ter..., poder ter...
75
As características da imagem do edifício.
São sempre fragmentos, são sempre “flashes” e que, aos
quais eu nunca me apego.
Por exemplo, nesse instante você vai ver essas coisas sobre
o projeto de Madri. Então, o que está lá é inteiramente nada.
Agora, às vezes, eu percebo que este nada é muito, então
eu começo a trabalhar como é que eu poderia construir isso,
então ele passa a adquirir forma e face de objeto, não é, jeito
de objeto. Então, negando o que eu tava dizendo a você, que
eu não dou importância, de fato eu não dou, na verdade essas
intuições vão sendo muito pesadas pra mim. E eu até dizia
que é interessante eu me contradizer assim. Houve uma
ocasião que depois de um ano de trabalho, eu contei essa
história, alguns colegas um dia vinham comigo do almoço, e
aí vinham rindo... e eu percebi uma mudança no tratamento,
ao subir a escada, aí de repente entramos numa sala e aí
eles trancaram a porta e disseram “agora jogaram a chave
fora e você não sai daqui enquanto nós não tivermos feito o
anteprojeto desse negócio”, justamente com a Caraíba, não
é? Aí eu, brincando também, disse “eu sei exatamente o que
vai ser”, eu não sabia nada, né. Aí eles já tinham juntado
várias mesas, era um projeto imenso uma cidade inteira,
juntado várias mesas..., colocado papéis limpos... e tal. Era o
Miguel Pereira e a Cláudia, e acho mais o Paulo também, que
tinham acertado essa brincadeira. Aí eu comecei: “bem, como
a insolação é assim ou assado a direção principal das ruas é
leste oeste, portanto os terrenos são nessa posição, como
tal coisa..., haverá seis praças centrais, uma pra cadeia, uma
pra escola principal”, e fui riscando aquilo, “e como, e como,
e como”, bem, no fim do dia, duas horas depois eu tava
exausto e tinha brincando de riscar, riscar, eu nunca mais
consegui me libertar desse desenho. Entendeu? Nunca mais.
Eu sempre comparo. Porque? Evidentemente que essa
intuição ela de fato tinha sido retardada até aquele momento,
tava pronta pra sair e há várias histórias assim na minha
experiência de trabalho, e de eu não saber, não saber, não
saber como é que eu ia fazer certa coisa, e de repente num
almoço falando com outras pessoas eu digo: “Ah eu vou fazer
assim assado”, então pessoas que colaboraram comigo ficam
irritadíssimas, pensando que eu tinha escondido delas aquilo
que eu queria fazer. Entendeu? Tem que estar maduro e
pronto, então, nunca mais é outra coisa, vai ser até o fim
aquilo mesmo, uma espécie de anjo exterminador, sabe?
Conhece o filme do Buñuel, todo mundo vai a um jantar e
depois não consegue sair. É um pouco isso.
A imagem do edifício configurado é totalmente defi-
nida?
Não, eu não diria que é. Da mesma maneira que tudo é
informar, também esses detalhes, essas coisas estão em
gestação, embora eu não os conheça, como eu não conheço
um filho em gestação, mas tá tudo ali. E, numa certa medida,
estes elementos abrangentes e gerais devem conter a
possibilidade desses detalhes Assim como, também, em
detalhe, a qualidade dos espaços internos.
E pode-se dizer que a partir desse ponto usa a mesma
metodologia de particularização?
Exatamente, exatamente, de particularização sucessiva.
Nesta fase qual é o desenho?
Nem sempre é meu, né, As vezes passa pelo pessoal e eu
em cima daquilo começo a rabiscar..., rabiscar...
Existem diferenças entre o desenho de projeto e dese-
nho evocativo?
Eu acho que você tem um método de investigação e um
método de comunicação. São coisas distintas. Você pode
eventualmente pegar um velho desenho pra exemplificar
como que naquele momento você havia pensado. Já é um
outro discurso.
Como processo, o projeto do edifício e do Urbano se
distinguem?
Como arquiteto, acho que tudo é igual. Eu acho que a cidade
é arquitetura, também, não há desenho urbano e há
arquitetura. Então, neste sentido, eu to sempre fazendo
arquitetura. Até mobiliário é arquitetura em certa medida.
Homem..., espaço..., construção...
E o desenho é semelhante?
Eu acho que é a mesma reflexão. No meu campo é a mesma
reflexão, no que eu conheço, muito parecido.
A aprendizagem acadêmica.
O que eu acho que me faz falta, que me fez falta, é o intenso
trabalho com materiais e sensibilidade, com a expressão.
Aquilo que eu criticava naquelas Escolas inglesas, não era o
fato de eles ficarem riscando, é pensarem que estavam
fazendo arquitetura, fazendo aquilo. O que me interessaria
muito era fazer pintura na escola, sabe, arte a duas dimensões,
como forma de navegar... espaços com liberdade..., isso sim,
até hoje isso me faz muita falta. Eu gostaria de parar de fazer
o que estou fazendo só pra pintar.
Seu escritório está informatizado?
Medianamente.
76
Para desenho?
Sabe, eu não tenho nada contra, eu não uso porque a minha
formação é outra, eu não tenho grande interesse, nem a
ganhar muito em desenhar com computador ao invés de
desenhar com lápis. Acho que há muito equívoco em relação
a isso. A gente usa pra desenhar e pra animar projetos.
Medianamente, mandamos fazer muita coisa fora e pensamos
na mesa com lápis e papel.
Acha que haverá alterações metodológicas no projeto
com a informática?
Numa certa medida ele permite acumular informações e me
servir delas com muita rapidez, estabelecer médias...,
comportamentos... Eu só não sei se os métodos da máquina
não destroem parte daquilo que pra gente é muito importante.
Da mesma maneira que o CD, há quem diga, ao eliminar
certas freqüências alterou aquilo que a gente ouve, a música
que você ouve no CD não é a música que a gente ouve da
orquestra. Isso eu não sei, acho possível, mas acho que vai
ter uma aceleração muito grande da reflexão, porque
memoriza..., organiza..., é muito mais eficiente.
Acelera mas não muda a estrutura?
Acho que não. A invenção continua sujeita às mesmas
dificuldades... da nossa cabeça, e limitações.
77
data: 19/03/96
local: escritório do arquiteto, Rua Mourato Coelho, 325,
cj.1.
Dados do entrevistado
data e local de nascimento: 1933, Santos / S.P.
formação (data e instituição): Arquiteto / FAU USP, 1958.
atividades atuais principais: Projetos de arquitetura
(Habitação, Escolas, etc.) / Professor FAU USP / artista
plástico - gráfico
1. O Sr. coloca que o ato de projetar é uma atividade tão
criadora como qualquer outra atividade humana. Mas,
além da criatividade, quais as outras características ou
condicionantes do processo de projeto em arquitetura?
2. Coloca também que “projetar é sempre um ato individual
“ e “o seu desenvolvimento é um ato coletivo.” Existe
uma metodologia definida (particular e de equipe) em
relação ao processo de projeto?
3. No seu texto diz que “ao fazermos um projeto a
passagem do estado de pré-consciência para o estado
da consciência é o momento da nossa contribuição
pessoal.” Poderia definir ou exemplificar melhor tais
estados?
4. Poderia definir melhor o que é pesquisa em relação ao
projeto, a pesquisa seria o mesmo que projeto? Como
se dá a relação pesquisa e intuição no seu processo de
projeto?
5. Com respeito à criação do espaço, do processo de
concretização do mesmo enquanto forma, figura, como
se caracterizam suas imagens mentais? (todo e/ou
detalhe , externo/interno, espaço/objeto, etc.)
Existe um momento específico do processo de projeto
em que tais imagens são visualizadas? Qual a relação
II.2.3. Abrahão Sanovicz
Entrevista / Perguntas
dessas imagens com o grafismo, o desenho?
Aparecem geralmente bem definidas e nítidas, enquanto
imagens similares às memorizadas, a partir da
observação da realidade?
6. O Sr. coloca que ao lançarmos um esboço no papel,
começamos a fazer perguntas para o mesmo, pro-
curando respostas aos problemas propostos. O desenho,
neste caso, atua como um fixador, trazendo as imagens
para um nível em que possam ser analisadas. Existem,
no entanto, outras funções, para este tipo de desenho,
no processo de projeto como um todo? Como se dá a
relação entre o desenho e formulação final da proposta?
7. Relacione operativamente planta, corte e perspectiva,
assim como croqui e desenho técnico.
8. O seu desenho de projeto, na fase de estudo preliminar,
graficamente, como poderia ser caracterizado? Como
se deu o desenvolvimento desta linguagem? Quais os
fatores determinantes? A atividade, enquanto artista
plástico/ gráfico, influenciou no desenho da arquitetura?
9. Costuma realizar desenhos evocativos, ou seja, aqueles
feitos mais tarde para explicação ou do projeto ou da
obra construída? Existe diferença entre este desenho e
o croqui de projeto?
10. Como se dá o desenvolvimento do programa do cliente
para o programa expandido do arquiteto? O desenho
participa desse processo? De que maneira?
11. Existe relação de dependência entre o desenho
(grafismo) e partido arquitetônico ou entre desenho
(grafismo) e método de projeto?
12. Existem diferenças metodológicas no processo de
imaginar, projetar e desenhar graficamente, arquitetura
e outros elementos espaciais ou objetos?
13. Como poderiam estar associados projeto e produção,
ainda na faculdade? O desenho participaria desta
relação?
14. O desenho, é uma atividade prazerosa? Fale um pouco
sobre as facilidades e/ou dificuldades.
15. Fazendo uma retrospectiva da sua aprendizagem
acadêmica, como classificaria essa relação entre
desenho e projeto? Qual a postura docente e discente
na época?
16. Como vê o processo de projeto, hoje, com o
desenvolvimento da infográfica ? Houve mudanças
significativas no processo de projeto, decorrentes do
uso da implantação de sistemas informatizados para
desenho no trabalho do escritório?
A entrevista - aspectos gerais
Em um primeiro contato com o arquiteto no dia 09 de
novembro de 1995, em seu antigo escritório à Rua Maria
Carolina, Jardim Paulistano, pôde-se apenas apresentar a
pesquisa e receber alguns textos de autoria do próprio
arquiteto, que ajudaram na reargumentação da entrevista
propriamente dita, que se realizou quatro meses depois. Uma
terceira visita foi realizada ao escritório, agora somente com
a presença da secretária, para fotografar os desenhos.
Os textos cedidos pelo arquiteto, digitalizados e impressos
via computador, na data em questão, denominam-se “A
pesquisa na área de projeto” e “Por uma crítica Arquitetônica
- Pela recuperação da dignidade perdida no projeto.” Um
terceiro texto foi indicado e posteriormente encontrado na
biblioteca da FAU USP, cidade universitária, a saber: Desenho
Industrial e Programação visual para escolas de arquitetura.
Brasília: ABEA, 1977. A publicação tem ainda a parceria do
Arq. Prof. Júlio Katinsky.
78
Assim como Paulo Mendes da Rocha, Abrahão Sanovicz
também têm uma lousa, mais precisamente uma parede,
sobre a qual desenha seus croquis com giz.
O espaço do escritório, no qual se realizou a entrevista, ainda
estava sendo ajustado, pois a mudança acabara de se realizar.
Os instrumentos de trabalho são as tradicionais: pranchetas,
réguas paralelas, lapiseiras, etc. O computador começa a
ser utilizado através de serviços de terceiros e somente para
projeto executivo, quando todos os detalhes já foram
previamente definidos.
Sanovicz tem uma vantagem em relação aos outros
entrevistados, pois tem seus trabalhos arquivados com
precisão, desde os primeiros esboços, às vezes feitos em
suportes menos nobres, como guardanapos de papel. Este
zelo, deve-se ressaltar , dependeu quase que exclusivamente
do trabalho árduo e contínuo de sua atual secretária, Cláudia.
Este precioso material esteve à disposição desta pesqui-
sadora o que, após uma prévia seleção, resultou nas imagens
aqui apresentadas.
Destacam-se na entrevista:
O objetivo do projeto é garantir uma qualidade do
espaço arquitetônico.
Existe um intenso trabalho mental antes do primeiro
croqui, que praticamente configura o projeto final.
O desenvolvimento do projeto posterior a este
evento é pura técnica.
O projeto é pesquisa, se se levar em consideração
o lado intuitivo criador da ciência.
A ênfase no desenho enquanto meio, instrumento
para o projeto.
79
Aquele texto (...) da área de projeto, aquele texto* né?, aquela
é a minha maneira de projetar. Aliás aquela é a maneira geral
de projetar. Se não há..., arquiteto projetar não é nada de
excelso e o ato criador é um comum a todo ser humano, é
um ato humano, né. Que é, o ato criador é exatamente um
fato cultural, né, o fato de transformar a natureza ou não
transformá-la, hoje, por causa da ecologia. Então, e... o fato
de... que cada ato nosso é atitude histórica, porque ele é
fruto de atos anteriores não é, e... sendo uma atividade
humana ela não é desconhecida, claro! No que diz
especificamente em arquitetura, eu posso colocar dessa
forma como eu coloquei no texto, tá?, como eu coloquei no
texto. E... se um dia se quiser verificar, o arquivo tá todo
organizado já, e você tem projetos em que eu guardei todos
os croquis, por exemplo, então você pega desde o primeiro
croqui até a solução final. Você pode inclusive ver como é
que ele permanece desde o primeiro croqui até a solução
final, pra então você poder testar quando ele permanece e
quando ele não permanece, e o que (...) esses croquis. Então,
são croquis toscos, não tem nenhum sentido de... de
divulgação, nada disso, é um trabalho que você faz pra você
mesmo né?, mas você pode verificar e testar aquilo que eu
disse do ato criador.
Além da criatividade, o que caracteriza o projeto?
É uma atividade criadora como qualquer outra, eu digo, porque
é uma atividade humana, entende? O que caracteriza, o
objetivo do projeto é... você... garantir uma qualidade do
espaço construído. Esse é o objetivo do projeto, garantir uma
qualidade do espaço construído. Agora, o que que é esta
qualidade? Essa qualidade, se você destrinchar, são milhares
de coisas, são milhares de coisas, é se sentir bem..., é inserir
bem na paisagem..., é interpretar o programa de uma forma
contemporânea..., é usar os materiais mais adequados... em
função das situações locais..., é você criar condições de...
uso e bem-estar... e... relacionamento, inclusive até de
transformações de programa de acordo com a dinâmica da
Abrahão Sanovicz
Entrevista / Respostas
Em uma conversa preliminar o arquiteto, forneceu três textos*
(v. vol. II p. 77 )
de sua autoria sobre a questão do projeto, dos quais
resultaram certas alterações às perguntas originais. Também
é necessário lembrar que o arquiteto, entre uma e outra
entrevista, mudou de localização o escritório.
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
de projeto, Verkehrsamt Ber-
lim, 1990. Arquitetura e
desenho urbano. Projeto
realizado com colaboração do
Arq. Fernando Vasquez.
80
sociedade. É, trezentas mil coisas chama-se qualidade de
espaço construído. Em geral, a primeira sensação, é, não
passa de uma sensação, ou se sente ou não se sente. Depois
a gente começa a investigar mais profundamente.
Metodologia de trabalho.
A coisa mais difícil, se quiser derrubar um professor de projeto,
fala com ele sobre metodologia. Já teve essa experiência?
(...)
Eu tenho o meu método de trabalho, tá! É o meu método.
Dentro deste, geral, de como se dá esse ato de projetar,
objetiva e subjetivamente, objetiva subjetiva e objetivamente,
eu tenho o meu método de trabalhar, eu uso muito o quadro
negro, você já viu lá, aqui já tem também um quadro negro;
quer dizer, você viu lá os desenhos naquele dia, eu deixo,
eu... costumo resolver, tentar resolver o projeto na cabeça,
né?, na cabeça, quando eu sinto que... sinto que eu tenho
uma... consciência do que eu quero fazer, aí eu jogo pra frente,
aí eu começo a trabalhar com ele fora da minha cabeça, como
observador.
Tem alguns arquitetos que tem como método, eles ficam
procurando o projeto no..., desenhando, riscando né?,
riscando, eles ficam... A palavra desenho e riscar é que é
uma coisa um pouco complicada porque em português as
coisas querem dizer muitas coisas, as palavras querem dizer
muitas coisas, mas eles ficam riscando, riscando, riscando à
procura de um quase uma... uma... é um devaneio pra chegar
ao projeto. Eu não faço assim. Entendeu? Pra chegar àquele
primeiro croqui, que eu me referi, eu mastigo ele todo na
cabeça e aí eu chego a este primeiro croqui.
Mastigo tudo na cabeça quer dizer eu uso o processo objetivo
e subjetivo, uso a técnica, pra quando sair o croqui, sair
completo.
Muito bem, este é um processo pessoal, mas é um processo
pessoal fruto de um ato coletivo, quer dizer, existem milhares
de projetos, que, conscientemente ou não, acabam te
informando, né?, e que a posteriori ou a priori você..., a ordem
dos fatores não altera o produto, você enxerga as referências.
Aliado ao fato de que depois de uma certa idade, você
desenvolve uma linguagem própria. Apesar de tudo, quando
o projeto sai pra mim é uma surpresa. Este é um momento...
mais... interessante nesta fase, esta surpresa que o projeto
te dá, quando você coloca ele no..., esta primeira colocação
dele, essa surpresa com a qual você vai trabalhar. Aí você
usa a metodologia que todo mundo usa, vai desenvolvendo,
do geral pr’o particular, do particular pr’o geral, independente
da escala. É o projeto que sugere os materiais; tanto que eu
não tenho, não faço arquitetura de um material, de dois ou
coisa assim, mas o próprio projeto sugere os materiais. E...
quando você sente que... este projeto... está fechado, quer
dizer ele está com os seus componentes principais
respondido, então você passa pra prancheta, e aí faz um
processo de... de verificação de dimensões..., essa coisa
toda, e... posterior desenvolvimento. Esse posterior
desenvolvimento é uma técnica, (...) plantas, cortes,
fachadas, todos esses segmentos que é preciso pra mostrar
um projeto, pra ser construído. Eu já fiz experiências aqui,
por exemplo de tentar resolver projetos em muitas folhas e
tentar simplificar projetos e resolvê-los em poucas folhas,
com toda a informação... Fiz uma casa na praia uma vez pra
mim, em que eu fiz uma folha com toda ela desenvolvida.
Então, fiz já vários tipos de experiências, neste sentido. Mas
aí, segue-se, chega um ponto em que... você não comanda
mais o projeto, ele passa a comandar o seu desenvolvimento,
ele passa a ter vida própria. Aí você coloca ele para ser
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
de projeto, Verkehrsamt Ber-
lim, 1990. Arquitetura e
desenho urbano. Projeto
realizado com colaboração do
Arq. Fernando Vasquez.
81
desenvolvido. Entendeu? Tá claro?
Você coloca que a passagem da pré-consciência à
consciência é o momento da contribuição pessoal em
um projeto. Poderia explicar melhor esta fase?
O estado de pré-consciência é quando ele fica..., se fica
elaborando..., você sempre projeta, tá se elaborando... num
estado em que entram vários fatores mas que você não levou
ao plano da consciência. O arquiteto tem, ele se educa pra
isso. Se você dá pra um arquiteto um programa e esboça pra
ele a possibilidade de pegar um trabalho, ele já está
trabalhando. É incrível isso! Quer dizer, você, quando vai...
vai fazer um trabalho, quando vai assumir uma encomenda,
você já está praticamente com o projeto pronto, sua cabeça
elabora rapidamente. Entendeu? E essa elaboração é uma
elaboração que você educou, você se educou pra isso, ou foi
educado pra isso. E não é um estado totalmente consciente,
que, inclusive, é o que te dá a suficiente força pra você assumir
a incumbência. Entendeu esse detalhe? Muito bem, este
estado de pré-consciência... é um estado muito rico, porque...
é como se você tivesse estocado toda a tua vida, tua cultura,
teu conhecimento, tua origem social..., econômica..., ...teu
entorno próximo, essa coisa toda. Se ele comparecesse
totalmente, todo o tempo, na consciência te explodiria a
cabeça, tá? Porque quando o cérebro, a parte... consciente
dele seleciona os momentos, né?, senão dá confusão. No
estado de pré-consciência isso tudo existe lá, armazenado.
Então, existe, inclusive, o desejo que você tem do caráter
deste projeto, que é alguma coisa que independe de você
conscientemente, é aquilo que você tem, digamos,
introjetado, que é tua visão filosófica de como deve ser o
caráter deste projeto. E é aí que você dá a tua contribuição
pessoal. Entendeu?
Esse é o momento do croqui?
É.
Arq. Abrahão Sanovicz. Cro-
quis de projeto, Verkehrsamt
Berlim, 1990. Arquitetura e
desenho urbano. Projeto reali-
zado com colaboração do Arq.
Fernando Vasquez.
82
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, Verkehrsamt Ber-
lim, 1990. Arquitetura e de-
senho urbano. Projeto realizado
com colaboração do Arq.
Fernando Vasquez.
83
O projeto já aparece como uma configuração plástica,
espacial ...?
Já aparece como uma configuração..., tudo isso que
se...,todas essas palavras que a gente tem pra explicar projeto
né?
Você se projeta,... você se projeta, e aí você não engana
ninguém, nem a você mesmo. É aquilo que você é, e é aquilo
que você é. Eu sei que você é capaz de ler, você diz, “o
caráter de um projeto”, né? Quem é que imprime este caráter?
O arquiteto. Cada projeto tem um caráter. Entendeu?
(...)
A pesquisa é o projeto ou faz parte dele?
Olha... conversando com alguns pesquisadores, há muito
tempo atrás, pesquisadores de peso, eles, vários deles me
disseram, que eles usam a intuição para a pesquisa. Me
disse, “eu intuo que se eu fizer... desse jeito e inverter esse
processo..., pode ser que eu chegue a resultados x. Há um
aspecto intuitivo na pesquisa.” Aí fiquei pensando e disse,
“puxa vida, mas há um processo intuitivo em arquitetura”, e
arquitetura é um processo, porque..., assim como a pesquisa
é um processo, você chega a certas conclusões, fecha
naquele momento e depois você retoma e vai mais adiante.
Esse processo não para nunca, né? Essa tentativa de se
conhecer... de se conhecer... quem somos nós? ...como
funcionamos? ...ou de que forma podemos evitar..., ou, ao
contrário, absorver certos fenômenos da natureza?, essa coisa
toda e mesmo, corpo humano..., enfim, não só a pesquisa
biológica, mas também a pesquisa... como se pode dizer...
filosófica? do conhecimento da natureza humana, não só
conhecimento da natureza. E essa pesquisa a gente chama
de ciência, né? Ela tem um momento artístico também, esse
momento intuitivo criador, e a arquitetura tem essa intenção
artística, mas por outro lado ela tem a intenção intuitiva da
pesquisa, e... neste sentido ela é arte e ciência.
E porque que eu chamo uma pesquisa? Porque... sendo a
arquitetura um processo, como eu tinha dito antes, sendo a
arquitetura um processo, e...sendo um projeto sempre a
continuação de projetos ou projetos anteriores, por aceitação
desse processo, ou por oposição, ou por trabalhar nos vazios
dos trabalhos anteriores, eu reconheço neste trabalho uma
pesquisa, na qual eu chego a um determinado ponto, digo:
“neste ponto eu faço um código e este projeto está pronto”.
Porém, antes de eu fazê-lo, ele não existia. Eu tive que levar
em consideração toda esta parte anterior, aliado a um fator
pessoal, também, pra poder chegar a determinado projeto,
ou a projeto determinado. É diferente em outras coisas mas
é muito sutil. Então, eu posso continuar este trabalho mais
adiante, porque quando eu termino esse trabalho eu digo:
“bom, este projeto tá completo, porém ele deixa abertura de
problemas não resolvidos, para outros projetos que não são
possíveis resolver nesse sentido”. Ele não existia
anteriormente, ele é novo. E, de repente, ele pode ser
retomado..., retomado sobre..., retomado em outro lugar, em
outras condições, ele pode ser retomado..., pode ser
continuado..., pode ser re-elaborado..., e pode surgir um outro
fato. Você quer um exemplo? Eu tava lendo outro dia um
texto sobre o Erich Mendelson, de uma carta que ele manda
pra um amigo dele na Alemanha, depois da guerra, ele está
no Estados Unidos, ele diz: “Curioso”, o Wrigth que é um
grande amigo do Mendelson, (...) eles tinham uma grande
afinidade, aí ele diz pr’o amigo dele, “oh, eu não quero dar a
impressão de que”, isso em quarenta e poucos, quarenta e
seis, “eu não quero dar a impressão de que eu estou me
super valorizando, mas é curioso como o Wrigth, nos últimos
trabalhos dele, pega uma linguagem daqueles trabalhos,
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
de projeto, planta, cortes e
perspectivas, Centro Social
SESC, Araraquara, SP, 1990-
94.
84
daquelas experiências que eu desenvolvia durante a guerra,
aqueles croquis todos expressionistas..., coisas assim”. De
fato (...) os trabalhos do Wrigth têm um pouco esta relação.
Ele diz: ”Gozado, se eu tivesse que recomeçar eu repensaria
aqueles trabalhos que eu tava fazendo”. Entendeu? Então
existe esta troca de experiências entre os arquitetos. Posso
citar ene exemplos deste, lembro por acaso este texto entre
o Mendelson e um amigo dele na Alemanha, se referindo
sobre a pesquisa do Wrigth, né?, dos últimos trabalhos dele.
E é neste sentido que eu chamo o projeto de uma pesquisa.
E quando ele não existia anteriormente, você pode pegar
ene referências do Museu Guggenheim do Wrigth, mas ele é
uma pesquisa, ele é uma pesquisa, ele chega a uma solução,
e dessa solução se pode sair pra várias outras. Você tem a
Biblioteca do Vaticano que é um espaço assim..., o Johnson
gera esse espaço..., essa coisa toda, até eu ele chega a uma
solução em que ao mesmo tempo em que ele vê o quadro
ele vê o total, há uma espécie de quarta dimensão nesse
trabalho.(...) Então você está olhando o trabalho, você tá
olhando, você tá vendo o todo e o particular ao mesmo tempo.
Há uma intenção nisto, é alguma coisa que..., fora os aspectos
expressionistas do trabalho, aquele é um trabalho
expressionista. Então neste sentido eu chamo de pesquisa.
Nem todo mundo concorda com isso, hein! Tem quem prefere
chamar o trabalho de encomenda, eu já usei essa palavra aí.
O cliente..., não sei o que..., tal, tudo bem... Este é um fator
concreto, porém tem certos aspectos, que o cliente não
conhece, das especificidades da tua profissão. Mas você tem
que conhecê-las, o mínimo que se tem que fazer é atender
ao programa, mas existem coisas além deste programa que...
um arquiteto... deve ter consciência disto, né?
Como são essas imagens que geram o croqui?
Vou só te fazer um croqui..., vou só fazer um croqui pra você,
você vai entender. (desenhou os arcos do Palácio da Alvorada,
simulando um croqui de Niemeyer, que se apresenta num
dos textos...)
Entendeu? É isso. Quer uma imagem mais complexa do que
essa, e uma forma de simplificá-la? Ninguém mais hoje, dos
arquitetos, né?, eu faço isso aqui, essa experiência é o
exemplo mais clássico, hoje, tornou-se um clássico isso, não
precisa dizer mais nada, todo mundo sabe o que é isso aqui.
Mas, nos seus projetos, o que aparece primeiro é o
edifício como um todo..., é um espaço interno...?
Não...! É sempre o edifício como um todo. Sempre.
Volumetricamente.
Como um conjunto, inclusive visto de cima. É, não é um
ângulo..., visto de cima. Uma vista aérea.
Espaços definidos internamente?
Sim. É, eles já, de uma certa forma toscamente se ajeitaram.
Quando passa essa imagem para o papel o faz de
maneira mimética?
Sim. A mão é um instrumento que...
Em perspectiva?
Um volume...
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
de projeto, pequenas pers-
pectivas, Centro Social SESC,
Araraquara, SP, 1990-94.
85
E depois a planta e os cortes...?
Geralmente assim... quer dizer assim...às vezes é uma planta,
mas que tem um volume... é isso.
O desenho atua como fixador da imagem?
Você fixa e passa a ser observador, porque é muito menos
penoso pra se trabalhar, o fato de você ser observador, então
você coloca ele lá e depois vai desenvolvendo, mas sempre,
nunca procurando no papel uma solução, ela vem já de uma
elaboração.
O desenho é sempre algo que acontece depois de uma
configuração mental?
Depois de um configuração.
Outros tipos de desenho.
Aí eu coloco no papel, quer dizer, e alguém junto comigo, do
meu lado..., não tenho mais a paciência..., desenhei muito
na minha vida, então não tenho mais a paciência, então eu
fico do lado, põe três metros aqui..., tira quinze dali..., acerta
aqui..., não sei que... Qualquer esforço eu sempre chamo o
pessoal do cálculo antes, antes de se desenhar sempre faz
um pré-dimensionamento disto, porque e a estrutura já vem,
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, planta, cortes e
pequena perspectiva, Centro
Social SESC, Araraquara, SP,
1990-94.
86
ela já vem junto com o projeto, já vem completo. A estrutura,
eu já sei como vai se comportar estruturalmente.
Então, eu já faço pré-dimensionamento, que quando eu
desenho ela já sai com as tolerâncias todas. (...) Mas
estrutura..., pessoal de instalações..., depois coisas
complementares...Mas isso depende de cada projeto. Então
a gente desenvolve projeto inteiro, desenha, projeto inteiro
hoje só a lápis e todos os detalhes, porque aí é todo um
ritual, quando existe muito..., no último projeto que nós
fizemos aí, éramos, estávamos coordenando doze escritórios
complementares, era um projeto grande, uma série de...,
então o resultado: é um processo mecânico, você vem...,
discute..., passa por aqui..., fura ali..., não sei que... Mas aí
são pormenores, desenha tudo aquilo, coordena tudo pra
resolver os conflitos, e aí... Nos últimos três projetos, nós
passamos pr’o computador e aí o pessoal de computação
pega o desenho já todo resolvido e apenas passa pr’o
computador. Não usamos o computador como meio de
projeto, ainda. Ainda resolvemos destrinchar tudo na
prancheta e aí passamos pr’o computador para fazer o
desenho definitivo. Então, o projeto é desenhado duas vezes,
uma a lápis e outra ele é desenhado no computador como
produto final, tá? Com os seus memoriais... de
especificação..., essa coisa toda..., mas isso é uma técnica
mais que uma metodologia.
Perspectivas, plantas e cortes ao mesmo tempo?
Não... Faz-se algumas configurações de planta, que já estão
dentro do... e um corte ou dois pra... Eu tinha alguns...Um
dia eu fiz um projeto todo numa parede, por exemplo, então,
eu fotografei e publiquei numa revista, tem aí publicado, então,
você vê como é que eu trabalho. Tem isso publicado, saiu
publicado numa revista, na parede inteira lá em casa, tirei os
quadros, e... desenhei o projeto inteiro lá, depois foi
fotografado.
É uma AU, saiu publicado, era o ..., eu tava fazendo o ..., saiu
o projeto, era um...SENAC em Jundiaí, depois saiu publicada
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
de projeto, cortes e pers-
pectivas, Centro Social SESC,
Araraquara, SP, 1990-94.
87
a obra. O interessante, que você vê desde o croqui até a
obra, duas publicações, uma do croqui do projeto e outra da
obra.
Como é a relação do seu desenho quando arquiteto e
quando artista ?
O desenho que eu faço quando faço como artista, ele não
tem relação direta com a arquitetura. Quando eu faço, eu
costumo desenhar sempre, mas nunca..., nunca fiz uma vida
de artista plástico. Eu sou arquiteto. Mas acontece que...
antes de estudar arquitetura, eu... eu estudei gravura na
Escola de artesanato do Museu de Arte Moderna e... e eu
estudei desenho,... desenho, gravura, história da Arte, isto
antes de entrar na FAU, antes de ser aluno da faculdade.
Porque eu queria desenvolver desenho, e... quando eu
desenho arquitetura, eu me valho da minha... do meu treino
de desenho, da minha facilidade de desenhar. Não to
preocupado em fazer desenhos, bonitos, to preocupado em
fazer desenhos os quais eu entenda, né? É... uma forma de
eu me entender, e quando eu faço um gravura, um desenho,
aí é outra coisa, aí esquece, é uma forma de descansar a
cabeça, né?, descansar a cabeça, e...forma de divertir, não é
arquitetura ...(... mostrando alguns desenhos sulfite e
esferográfica) E é gozado, eu não consigo fazer esses
desenhos bonitos, entende? Eu consigo fazê-los assim. É uma
coisa estranha, né? (...)
Faz desenhos evocativos das próprias obras?
Normalmente eu faço isso.
Existem diferenças entre este e o croqui original?
Muito parecidos, ...muito parecidos.
Já houve casos em que você elaborou várias
alternativas diferentes para um mesmo projeto?
Existe,...existe...., existe..., existe. Existe alguns casos assim,
mas... são raros, são raros. Existe alguns casos assim.
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, giz sobre lousa,
Senac, Jundiaí, SP. Publicados
na revista AU 26, novembro
1989.
88
Essas imagens nunca foram para o papel?
Não...! Já houve casos de ir até pr’o papel.
Tem casos assim, mas são poucos, mas me constrange muito,
me constrange muito porque..., não sei, eu gosto de.... de
ter a certeza, né?, trabalhando na certeza. Neste caso, fico
um pouco constrangido. Já houve casos assim. Claro!, houve
de tudo né? Nem tudo é excelso né? Houve de tudo. Mas
quando acontece casos assim, eu fico meio... Porque o
problema é o seguinte, cada projeto é um teste que você faz
contigo mesmo. Eu tive uma surpresa, eu tive essa surpresa
agora que tinham me colocado um problema, que anos atrás
eu resistiria assim bravamente, aí vale o amadurecimento ou
o envelhecimento, chama como quiser, eu teria resistido
bravamente. Aí me colocaram o problema, eu aceitei. Cheguei
aqui, fiz um... depois de muito tempo pensei, pensei, ...uma
hora dessas digo “dá pra fazer assim”. Eu diria, anos atrás eu
teria resistido, não teria feito..., não sei que e tal, hoje eu
vejo que eu acho uma solução dentro legal, uma solução
complicada, é um problema complicado e a solução é
possível. Então, é uma forma de eu me testar e eu saí
felicíssimo. Não ganhei um tostão com isso, entende? Mas
saí felicíssimo.(...) Mas foi como se eu desse um respiro e
disse “estou vivo ainda”, entendeu?
O registro de desenvolvimento do programa do cliente
ao programa expandido se dá pelo desenho?
Desenho é um meio.
Pra mim isto é um meio. Este desenho é só um meio. É o
meio que eu uso pra... poder me entender, é minha linguagem,
entende? Mas cada vez mais tá chegando onde eu quero,
quer dizer, a gente faz os croquis todos e a máquina se
encarrega do resto, né? Porque ..., ainda estamos num meio
termo, né? Mas essa é minha linguagem, você não vai
encontrar coisa diferente disso aí, entendeu? Não são
desenhos de apresentação..., não são grandes
perspectivas..., é raro encontrar uma perspectiva, entende?,
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, planta e fachada.
Centro Social SESC, Arara-
quara, SP, 1990-94
89
é mais essas coisas, quer dizer, é aquilo, é como se eu jogasse
minha cabeça pra frente e procurasse me entender.
Então, no desenvolvimento do programa, o desenho
aparece de alguma forma?
Sempre ele aparece, sempre. É sempre com o croqui, e um
cara do lado, que eu chateio o tempo todo, pra passar tudo
isso aí em régua, esquadro e escala.
E o desenho de observação do local? Como se dá a
apreensão do sítio?
No máximo se fotografa, não faço desenho. Fotografa ou
ponho na memória de uma planta topográfica, entende? E aí
eu trabalho com as fotos..., a planta topográfica..., a minha
memória... pra chegar a isso.
Sempre foi assim ou já passou por uma fase de ir ao
local e desenhá-lo?
Não... ! Imagina..., eu sou um enorme preguiçoso, meu Deus
do céu! Eu sou um enorme preguiçoso. Se eu posso fazer
um traço, não faço dois, entendeu? Se eu posso fazer um
traço, não faço dois. Onde eu não sou preguiçoso é nestes
desenhinhos aqui, esses eu tenho aos milhares, tem aqui...,
tem em casa..., tem na faculdade..., vou fazendo. Não agüento
muito reuniões chatas, então eu vou desenhando, todo mundo
já sabe que é a forma de agüentar as reuniões, ninguém mexe
comigo e faz anos e anos que eu faço isso e a turma, então,
entende? Mas pra ir lá desenhar “alla Corbusier”, não... eu
sou um enorme preguiçoso, um enorme preguiçoso.
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, planta, cortes e
perspectiva. Centro Social
SESC, Arara-quara, SP, 1990-
94
90
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto e artístico, plantas,
cortes e perspectivas, Edifício
CEFAM - Centro de Formação
e Aperfeiçoamento do Magis-
tério, Itapecerica da Serra, SP,
1990.
91
Existe alguma dependência entre o desenho e o partido
arquitetônico?
Desenho é um meio, não...! Desenho é um meio, meu Deus
do céu! Desenho é um meio. Eu raramente desenho uma
fachada, por exemplo. Desenho é um meio pra eu mostrar
um partido, isto é uma escola, ...eu raramente, isto é um
banco, eu raramente desenho uma fachada, raramente você
vai ver uma composição de fachada. Não tem isso! Não tem
isso. Ou ele sai todo ou não sai, entendeu? Não faço uma
composição de fachada..., isto não na minha cabeça.
Existem diferenças metodológicas com relação à
arquitetura, “design”, gravuras? Quando se projeta, o
processo é o mesmo?
É muito semelhante... É muito semelhante, muito semelhante.
No design e na arquitetura, o processo é semelhante. Você....
você.... você.... No design, que eu acho mais difícil, no
design... você...dependendo do design, você... você às vezes
tem que fazer somente, vamos dizer, encapá-lo, e às vezes
você tem que criar um objeto qualquer, uma maçaneta.
Apesar de todo mundo saber que uma maçaneta é assim...,
ou é assim..., ou é como esta aqui (...), precisa usar um cálculo
pra fazer que é o giro da porta..., um dedo... pra não machucar
a mão, mas (...)o desenho da maçaneta, você pode, é ene
vezes desenhos de maçaneta a partir daquele desenho. Então
o processo é semelhante. Na gravura, na arte, nas outras
artes menores, na pintura não, porque eu não sou pintor, mas
no desenho, na gravura... eu sou figurativo, não consigo deixar
de ser figurativo, apesar de ter uma formação... digamos
abstrata..., concreta..., não abstrata, mas concreta...,
mondriânica... do tempo da escola..., bauhausiana..., essa
coisa toda, eu não consigo deixar de ser figurativo. Porque
eu fui educado nos anos cinqüenta, né?, em que todo o
pessoal da gravura era... todo ele figurativo (...), eu não
consigo deixar de ser figurativo. E esse figurativo..., cada
desenho que eu faço, quando faço uma gravura tem uma
Arq. Abrahão Sanovicz. Croqui
artístico, detalhe do pilar,
realizado durante o projeto para
Centro Social SESC, Arara-
quara, SP, 1990-94.
92
história, que eu não consigo deixar de me colocar em alguns
pontos, às vezes é uma pequena crítica a uma situação...,
sabe?, às vezes é um fato pessoal... Tem sempre um contexto.
Esses desenhos não, (referindo-se aos sulfites desenhados
com esferográfica), esses desenhos eu brinco..., solto eles
no papel..., são devaneios, às vezes eu acho..., são até...
desenhos até certo ponto viciados, porque são repetitivos, e
às vezes eu...Mas quando eu faço um desenho pra ser
impresso em algum lugar e tal, em geral tem um contexto.
No seu texto, fala em associar projeto e produção ainda
na faculdade. Como se daria isso?
Tem duas coisas. Tem a produção do projeto e tem a produção
da obra. O que eu to colocando, já há algum tempo eu venho
colocando, é que a direção técnica da obra tem que passar
para o arquiteto. Porque ele é educado pra isso. Se ele
organiza toda a obra, ele pré organiza toda a obra, ele é o
mais educado pra poder entender o significado desta obra
no geral e no particular, significado de detalhes, significado
geral. Porque... porque quando ela passa pra um terceiro...
que não é educado pra isso, ela pode passar para um terceiro,
mas se esse terceiro for educado pra isso, ele consegue fazer
com que a obra tenha seu objetivo pleno, o resultado dela
seja aquilo que foi pensado. Mas se o terceiro não é educado
pra isso, então as coisas começam a ter, a complicar um
pouco. Na maioria das nossas obras é assim, você projeta...,
um terceiro faz... e ele olha o papel e manda fazer o que tá no
papel sem entender o objetivo, porque tem um batente
assim..., porque tem uma luminária assado... Nesse sentido
eu acho que o futuro do ensino de arquitetura é formar
arquitetos, que além do projeto, sejam... sejam responsáveis
pela condução técnica da obra e que sejam construtores
mesmo, arquitetos construtores. Isso não é nada de
excepcional, você pega o segundo diretor da Bauhaus, Hannes
Meyer, ele diz isso no programa dele, ele é radical mas...
mas ele diz isso. Eu concordo perfeitamente com isso. Eu
acho que é a saída pr’os arquitetos, é a saída pr’os arquitetos,
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, planta, corte e
detalhe. Restauro - reciclagem
- ampliação do Edifício EEPSG
Conselheiro Crispiniano.
Projeto original: Arq. Vilanova
Artigas. Guarulhos, SP, 1992.
93
inclusive para a sobrevivência dessa profissão. O rolo de papel
debaixo do braço não resolve mais nada...
Facilidades e dificuldades do desenho. Como foi o
aprendizado?
Você tem dezoito anos..., dezessete..., dezoito anos..., eu já
tinha estudado desenho arquitetônico antes, aos quatorze já
tinha estudado desenho arquitetônico..., aos dezesseis fiz
meu primeiro projeto de casa em estilo mexicano... Então eu
não..., esse processo pra mim foi de forma natural, não é
que eu desenhe excelsamente..., tem coisas por exemplo
que eu não sei desenhar..., mas eu também não faço muito
esforço pra... pra superar, entende? Mas foi um processo
quase natural. Sem grandes traumas, aos dezoito você não
tem esses traumas, não é? Você entra lá numa escola e... eu
conto essa história, já contei várias vezes. Abriram uma bolsa
pra..., montaram uma escola de artesanato e abriram uma
bolsa pra... gravadores e ceramistas. Eu disse “Ah, vou fazer
gravura”. Naquela época, a gravura era uma forma
democrática de fazer arte, fazia um desenho..., fazia ene
cópias... e cada um deles era um original. Então naquela época
você tinha os artistas de São Paulo, fora Segall e aquele
pessoal da Semana, o resto era tudo origem agrária. Tem até
o livro da Aracy... por exemplo, e agora saiu o livrinho da
Maria Cecília, da Ciça, acabei de ler agora, também, aliás,
por acaso ela me cita lá no livro, né?, aluno da escola de
artesanato, foi aí que eu li o livro, até agradeci, achei que
esse troço não valesse nada. Então, você entra..., e sei lá, a
mulher que examinou os caras que tavam fazendo, tudo uma
garotada de dezoito anos, uns até mais velhos, velhos quer
dizer, vinte..., vinte e um..., ou uma mulherada que tinha lá,
uma mulherada no bom sentido, que ia fazer cerâmica, não
sei que, tinha até algumas que faziam gravura, mas... quem
examinou foi a Tarsila, a Tarsila que examinou, apareceu lá
uma senhora bonita..., essa pintora Tarsila do Amaral. Depois
quem dava aula de desenho era o Gomide, Antonio Gomide...,
obrigava a gente a desenhar academicamente... Quem dava
gravura era um gravador que agora já morreu, Illen Kerr, muito
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, perspectiva, Edifício
CEFAM - Centro de Formação
e Aperfeiçoamento do
Magistério, Itapecerica da
Serra, SP, 1990.
94
bom, uma espécie de versão carioca do Marcelo Grasman, e
...depois veio Lívio Abramo, quer dizer (...) essa coisa ia
acontecendo... O mais disciplinado lá era sem dúvida o
Antonio Gomide, o mais disciplinado. Mas eu desenhava, quer
dizer eu sempre desenhei a vida inteira, sempre. Não é que
eu desenhe bem ou mal, eu desenho, eu rabisco, não tenho
medo de... às vezes sai torto, eu to pouco ligando. Ontem fui
desenhar na pedra, um risco, de repente eu olhei, tava
inclinado... não é, ...to perdendo a horizontalidade, não to
preocupado com isso. Eu uso o desenho como um meio pra...
explicar melhor o que eu to falando, o que eu to pensando,
entendeu?
O processo de projeto se modificará com a
informatização dos escritórios?
O que está acontecendo é uma simplificação, que a máquina
é um meio. O que vai acontecer é uma simplificação. Eu posso
deixar armazenadso os detalhes, posso deixar armazenado
um monte de informações, e num determinado projeto eu
posso buscá-los. Me simplifica muito, quer dizer, se eu quero
fazer uma correção, corrigir no disco, é muito mais fácil que
corrigir apagando..., giletando... tantas coisas, entende? O
croqui nunca vai desaparecer, seja ele no papel, seja ele na
máquina com mouse, ou com pincel. Essa primeira idéia nunca
vai desaparecer. Por isso que eu to dizendo, tá chegando o
ponto que eu to querendo, porque eu sou preguiçoso..., “eu
quero esse ponto aqui..., depois o resto...”, entendeu? Então
isso nunca vai desaparecer, vai apenas simplificar, entendeu?
Vai chegar um momento por exemplo, que eu não vou saber
as cotas decor..., inclusive se os catálogos funcionarem
direito, vai se projetar com catálogos. Então você tem que
vencer um vão, você sabe que a estrutura é essa..., os
parafusos são esses..., você chama o catálogo e já..., hoje já
me mandam disquete com elementos aí, enfia lá e pá, pá,
pá... Eu não sei mexer no computador..., já aprendi e já esqueci
tudo, mas eu quero aprender novamente. Eu tenho
computador. Não to fazendo gênero nem coisa nenhuma, eu
realmente quero mexer nisso, eu fiz um curso de CAD na
escola e esqueci tudo. Mas isso porque eu não tinha ainda
um computador. Eu devia ter vindo pra casa e dedilhado,
entende? Mas vou ter que aprender isso, até pra tirar conta
em banco...
Arq. Abrahão Sanovicz. Croquis
de projeto, planta, corte e
perspectiva, Edifício Sede
Banespa, Recife, PE, 1986.
95
O desenho e o projeto
São inerentes ao termo desenho muitos conteúdos diferentes,
muitas vezes complementares e no caso da arquitetura
indissociáveis. Assim, difícil e incongruente é discutir, neste
âmbito, desenho sem alusão ao projeto. Ao projetar se
desenha, e não se está propriamente referindo ao aspecto
gráfico, mas à maneira pela qual o cérebro trabalha e,
também, em relação às características do produto imaginado,
que em arquitetura não é uma idéia abstrata ou uma seqüên-
cia lógica de códigos matemáticos ou literários, mas algo
concreto que pode ser materializado, pois foi para essa
finalidade pensado.
A própria literatura arquitetônica, tanto inglesa quanto
espanhola, relaciona desenho arquitetônico não só ao
processo gráfico, à linguagem gráfica, mas ao processo de
projeto, ou seja, do desenho mental acompanhado de sua
representação material.
Assim, é difícil desvincular a linguagem de seu processo,
sendo esta uma das questões mais polêmicas entre os
arquitetos. Que existe uma relação, parece consenso, mas a
dúvida está se é uma relação de dependência formal, de
causa e efeito, ou somente uma relação existencial, ou seja,
um (no caso, o mental) depende do outro (material) para se
realizar completamente, mas este último poderia adquirir
inúmeras formas sem que interferisse no primeiro.
Independentemente do tipo de relação entre o grafismo e o
processo, o fato é que não se pode explorar a questão do
desenho em arquitetura sem relacioná-lo ao projeto enquanto
processo, pois este último prescinde do primeiro, seja qual
for o instrumento utilizado para realizá-lo: lápis, esquadro,
computador...
Assim, da análise das entrevistas, firmam-se algumas
considerações gerais sobre a relação entre o desenho e o
projeto, que, complementadas por bibliografia específica,
serão na seqüência descritas.
II.2.4. Conclusões
Os novos métodos
A década de sessenta foi uma época fértil no
desenvolvimento e análise de métodos de trabalho na área
da arquitetura e do urbanismo, na qual nomes em oposição
como o de Cristopher Alexander e Amos Rapoport
começaram a se destacar. A primeira conferência importante
do período se deu em 62, em Londres, no Imperial College.
Em 65, houve um Simpósio em Birmingham e em 67 outro
em Southsea, que teve Anthony Ward e G. Broadbent como
organizadores. Segundo Ward
(01)
, no geral, as conferências
ressaltaram (contrário do proposto no início deste texto) a
independência entre os fins e os meios, exceto pela posição
de Christopher Alexander, cujo método implica uma conexão
direta entre as duas partes. Muitos outros autores,
influenciados ou não por Alexander, apresentaram propostas
pragmáticas, técnicas analíticas de projeto; outros, no
entanto, apresentaram propostas baseadas em valores
subjetivos, enfatizando aspectos perceptivos e culturais. No
entanto, o próprio Ward coloca que a estrutura da prática da
arquitetura não é estática e que as escolas começaram a
assumir um papel preponderante na produção de informação
sobre o projeto arquitetônico. Este é o centro do problema: o
ensino - aprendizado, no caso do desenho para o projeto.
Quais seriam os parâmetros fixos no desenvolvimento do
processo de projeto? Existiria uma metodologia clássica de
projeto, que enquanto estrutura de pensamento permaneça
imutável perante os novos problemas da arquitetura e da
cidade? E, se afirmativo, qual relação entre o desenho gráfico
e o processo?
Quanto à questão metodológica, baseada tanto nas pesquisas
de campo quanto nas bibliográficas, verifica-se que os
arquitetos desenvolveram uma maneira própria de pensar o
projeto, que é passada quase que individualmente de
professor para aluno, nas escolas, e que depende de três
capacidades básicas: imaginativa, criativa e reflexiva, sendo
as duas primeiras trabalhadas intuitivamente.
Quanto à questão do grafismo, apesar da colocação contrária
de alguns arquitetos, verifica-se que existe uma relação, não
propriamente de dependência, mas de reciprocidade entre o
desenho e o projeto. Ward coloca:
No creo que los medios puedan separarse de los
fines. Cuando escogemos qué fines son deseables,
limitamos ya el número de los medios utilizables.
Uno de los problemas com el que hoy se enfrenta
el arquitecto es de la decisión sobre qué fines desea
lograr. Los medios se derivan naturalmente de esta
decisión.
(02)
No entanto, o mesmo não pode ser verificado com relação
ao desenho do edifício, a forma propriamente dita, ou seja,
arquitetos que trabalham da mesma maneira, utilizando o
mesmo tipo de desenho, podem produzir arquiteturas de
naturezas, ou melhor, estilos muito diversos.
Outra questão importante está na definição do processo de
projeto. No simpósio de 67 definiu-se que:
El Processo de Diseño es la secuencia íntegra de
acontecimientos que lleva desde la primera
concepción de un proyecto hasta su realización
total.
(03)
Para este trabalho, optou-se por uma definição que engloba
acontecimentos preliminares à primeira concepção, fase de
trabalho extremamente intuitiva, que é na verdade o cerne
da criação arquitetônica. Assim, o processo de projeto
começa no primeiro contato com o cliente ou proposta de
projeto, antes mesmo do reconhecimento do sítio,
culminando no fechamento de uma proposta, que no meio
arquitetônico é definida como Estudo Preliminar. Se exclui,
portanto, para efeito deste trabalho, o desenvolvimento do
ante - projeto e do executivo, pois nessas fases, na maioria
dos casos, o arcabouço geral do edifício está definido e o
desenho não tem função primordial de instrumento de criação
96
ou auxiliar desta e sim de particularização para execução
construtiva ou técnica.
Definidas as fases, é necessário esclarecer seus conteúdos.
Vittorio Gregotti escreveu:
El proyecto es el modo com que intentamos realizar
la satisfacción de un deseo nuestro.
(04)
Mas isso é pouco, pois os desejos que devem ser realizados
não deveriam ser só os do arquiteto e sim do cliente e, além
de desejos, são problemas a serem resolvidos.
Mas Gregotti coloca então que:
Desde el punto de vista de la arquitectura, el
proyecto es el modo como se organizan y fijan, en
sentido arquitectónico, los elementos de cierto
problema. Estos han sido elegidos, elaborados,
dotados de intención a través del proceso de la
composición, hasta establecer entre ellos nuevas
relaciones en las cuales el sentido general
(estructural) pertenece, al fin, a la cosa arqui-
tectónica, a la nueva cosa que hemos construido
por medio del proyecto. Naturalmente, la actividad
proyectante no es propia tan sólo del hacer
arquitectónico, sino que se extiende a cuanto
implique construcción en el tiempo, a cualquier
operación que, según una dirección, haga y prevea,
y, en el caso de la actividad artística, se
autconstituya como significado.
(05)
A definição de Gregotti, neste caso, embora relacione projeto
e atividade artística, coloca o processo em arquitetura ligado
à composição e não à criação propriamente dita. É verdade
que os dois conceitos estão interligados, pois pode-se
compor matematicamente pela justaposição racional das
partes envolvidas e nisto se baseia Alexander, mas pode-se,
também, ao contrário, criar sem compor, para ser mais
preciso, pode-se construir sem compor, através da criação
genuína de um novo elemento. Para alguns, isso é impossível,
pois levada ao extremo, tal idéia induz a entender que o ser
humano trabalha só com o que conhece, com o que tem na
memória, assim a criatividade está na originalidade de uma
nova justaposição de partes já conhecidas.
Independente disto, o que se busca é propriamente a
invenção.
El ejercicio de la invención es central pra passar de
la percepción, de la memoria, hacia lo que aún no
existe, pero esta invención no es una gratuita
infracción de lo constituido, aunque siempre busque
un orden nuevo y distinto, institución de una nueva
posibilidad, de una nueva experiencia del mundo
realizada materialmente. No hay razón para creer
que la invención, justamente por ser un bien social
inagotable, no pueda ser cultivada y enseñada, y
sobre todo disciplinada.
(06)
Mas alguns autores definem o projeto, o processo
propriamente dito, de forma mais racional, sem entrar no
mérito da criação, portanto. O arquiteto e professor Alberto
Samonà coloca:
Si entendemos por <<proyectación>>, en
líneas generales, el conjunto de elecciones,
decisiones, operaciones y valoraciones críticas
necesarias para la transformación de la realidad
existente en la ciudad y en el territorio (...), no
podemos dejar de plantear, y de inmediato, la
cuestión de los métodos para conseguir la
<<proyectación>>; y la cuestión de las distintas
interpretaciones de ésta en sus varias acep-
ciones.
(07)
A relação, dialética e não de oposição, entre a razão e a
intuição e entre a reflexão e a invenção é na verdade o cerne
das discussões travadas em torno da problemática
metodológica em arquitetura.
Gregotti
(08)
coloca também o problema do projeto utópico,
aquele que se faz por decisão de projeto e não por diversão,
que teve função progressiva fundamental no século XIX,
ligado por um lado ao horizonte positivo e racional e por outro
aos aspectos romântico - socialistas. Estes projetos são,
segundo o autor, sempre acompanhados de uma definitiva
sistematização de todas as relações.
O sistema implica em partes identificáveis e relacionáveis, o
que pressupõe organização, e esta, conseqüentemente,
metodologia. O modelo, por outro lado, não se apresenta
como método, mas como objeto para mimese, o que
diferencia o trabalho de Le Corbusier do de W. Gropius.
(09)
G. Luca Giannelli, professor do curso de Composição
Arquitetônica da Faculdade de Arquitetura da Universidade
de Florença, coloca numa publicação sobre o curso de 1972,
no âmbito dessa discussão sobre métodos, a definição de
projeto:
La progettazione che ci compete è dunque ogni e
qualsiasi operazione che intervenga in una
situazione ambientale con l’intenzione e la capacità
di modificare realmente i valori spaziali fino a
stabilire una nuova situazione, utilizzando modalità
criteri e vincoli reali.
(10)
Isto permite desvincular a atividade do projeto arquitetônico
de outras áreas de projeto que não trabalhem especificamente
o ambiente ou espaço real. Ward coloca:
Mi opinión es que el acto lógico de diseñar un
entorno para otro ser humano es cualitativamente
diferente del acto lógico de diseñar una pieza de
maquinaria, porque supone un elemento de
<<selección recíproca>> entre el diseñador
97
com el mundo inanimado.
(11)
O texto de Giannelli
(12)
demonstra a desconfiança dos
docentes da época para com as práticas metodológicas,
baseadas exclusivamente em critérios racionais, segundo ele,
velhos mitos de inspiração neopositivista, que induzem a uma
hipótese de absoluta identidade estrutural entre o universo
físico e o social, imaginando-se que é possível agir somente
pelos fatos e prescindindo dos valores. Em oposição a este
mito, existe o conceito de uma continuidade entre o evento
de projeto e os valores humanos.
Giannelli (1972) coloca que é conveniente, então, substituir
a relação homem - realidade, pela de homem - sociedade,
que se legitima, pois substitui uma relação genérica por uma
outra entre dois eventos no processo.
Esta premissa, no entanto, levará durante a década de setenta
ao oposto do que se realizou e discutiu na década anterior.
Os arquitetos transformam-se em sociólogos e as faculdades
de arquitetura abrigam docentes e formam profissionais para
trabalho social, sem necessariamente intervir na estrutura
espacial real, mas nas estruturas de organização da
sociedade.
Hoje, a realidade da profissão exige recuperar ou reestruturar
os princípios de atuação do profissional, seja na área didática,
seja na prática de projeto. O arquiteto tem por função
modificar o meio ambiente, trabalhando concomitantemente
razão, intuição, conceitos da realidade física, da condição
existencial humana enquanto indivíduo e enquanto grupo
social, baseado nos valores culturais.
Mas como tal atividade interdisciplinar pode se dar? A
despeito das metodologias racionalizantes para invenção
arquitetônica - luta de alguns para trabalhar de modo mais
consciente, à luz da reflexão - existe um fio condutor no
processo, segundo relatos de arquitetos como Louis Khan,
Alvar Aalto, V. Gregotti, e os arquitetos entrevistados. Todo o
processo de projeto arquitetônico está baseado em imagens
visuais, formas, ou melhor, figuras. E é neste contexto que o
desenho tem sua colocação ideal, é ele o meio para melhor
materializar esta figura, ao mesmo tempo que representa,
conduz à reflexão e à transformação, ajustando a figura inicial
ao produto final, à proposta.
Hemos distinguido hasta aquí las dos fases que
componen la operación proyectual: la ligada, por
así decirlo, al proyecto como documento e historia
de la formación de una imagen arquitectónica, y la
de la organización de esta imagen en el proyecto
según una serie de notaciones esencialmente
orientadas a la comunicación del proceso mismo
en función de su correcta ejecución; estas dos
fases no son temporalmente sucesivas y
lógicamente causales, sino sólo funcionalmente
distintas y se influyen durante todo el proceso de
formación del proyecto.
(13)
Mário Krüger (1986) faz uma análise entre as teorias
existentes e estabelece uma distinção entre as que se
referem ao conhecimento da arquitetura como artefato e
aquelas que se referem à arquitetura como atividade de
“projetação”, respectivamente enunciadas como Teorias da
Competência e Teorias do Desempenho. Coloca também uma
relação de dependência entre as duas no âmbito didático:
Após análise dessas situações específicas sugere-
se que o desenvolvimento das Teorias do Desem-
penho terá de se basear no das Teorias de
Competência sendo estas, portanto, prioritárias nos
estudos de arquitetura.
(14)
Krüger identifica a teoria de Leon Batista Alberti (De Re
Aedificatoria), no caso a primeira no gênero a ser docu-
mentada, e a de C. Alexander, como teorias do Desempenho,
pois referem-se à arquitetura como processo e têm algo mais
em comum:
Tanto em Alberti como em Alexander podemos
encontrar analogias substantivas para justificar a
elaboração das regras ou métodos de projeto.
(15)
Entendendo-se por analogia uma relação entre dois produtos,
processos, que permita que sejam elaboradas inferências
sobre um deles baseado no que sabemos do outro.
(16)
As analogias, Krüger - baseado em Nagel
(17)
(1961) - divide
em substantivas e formais.
Nas substantivas, um sistema de relações
conhecido e facilmente apreensível é tomado como
modelo para a construção de teorias em outro
sistema, enquanto nas formais um sistema de
relações abstrato é tomado como modelo para a
construção de outro sistema.
(18)
Alberti e Alexander, como visto, são exemplos de Teorias do
Desempenho baseadas em analogias substantivas, pois no
caso de Alberti a arquitetura segue regras de composição,
tendo como referencial a disposição das partes do corpo
humano e suas interligações as sistema nervoso.
Note-se, no entanto, que essa analogia
renascentista não se fundamenta numa visão
antropocêntrica do mundo, mas sim cósmica, na
medida em que o homem, para o espírito da época,
é feito à imagem de Deus.
(19)
Em Alexander, a relação se dá com as forças físicas que regem
o mundo (a limalha de ferro colocada num campo magnético
exibe um padrão).
De acordo com Alexander, em cada problema de
projeto a tarefa do projetista é ajustar a forma às
exigências do contexto, de tal maneira que as
tendências presentes nas relações espaço -
comportamento não entrem em conflito.
(20)
98
Do indutivismo científico, proposto por Hannes Meyer (não
só por ele mas por quase todo movimento moderno), à
retomada da cultura regional por Amos Rapoport, como
conhecimento para o projeto, Krüger acrescenta a importância
de se entender o projeto informado por conhecimentos
disciplinares sobre situações passadas ou semelhantes, para
não seguir às cegas metodologias que levarão à omissão
histórica e que sugerem a passagem direta das exigências
do programa à concepção da forma. Segundo Rapoport, uma
questão de valor.
Em contraponto ao processo particular de transmissão de
conhecimento nas escolas de arquitetura, já anteriormente
relatado, e que Krüger assemelha às guildas medievais,
propõe:
A essa situação poderemos contrapor a elaboração
de um corpo de conhecimentos disciplinar que
informe o projetista sobre situações idênticas
passadas e sugira os instrumentos para
compreender e se apropriar conceitualmente do
seu objeto de intervenção - o projeto.
Com isso, queremos dizer que o conhecimento
adquirido pelo projetista, anteriormente ao ato de
concepção, poderá basear-se em sólida pesquisa
científica, sem, entretanto, sugerir que, por essa
razão, a concepção em arquitetura torne-se
científica.
(21)
As conclusões de Krüger propõem uma simbiose entre os
diferentes modos de cognição humana para o projeto. Esta
proposta, consenso entre os arquitetos atuais, não esclarece
o meios de sua viabilização acadêmica.
Os arquitetos desenvolveram historicamente uma maneira
peculiar de projetar - a maior parte dos arquitetos entre-
vistados trabalha assim, embora não estejam plenamente
conscientes disso. Baseia-se na pré - visualização do edifício,
que codificada graficamente, resulta no croqui inicial. Esta
tradicional “metodologia” sempre dependeu desta simbiose
multidisciplinar, nunca prescindiu da capacidade do arquiteto
em analisar, avaliar e tomar partido perante alternativas
diferentes, mas possíveis. Nunca prescindiu, também, por
um lado, da reflexão, do bom senso, da qualidade e da
quantidade da informação e, por outro, da capacidade
imaginativa, e criativa. Também, não prescindiu do desenho,
como instrumento de trabalho. O problema reside no fato
deste processo ser parte do indivíduo e de sua maneira
particular de interagir com os problemas, não é totalmente
visível, codificável ou mensurável, enquanto processo,
somente enquanto produto. Perante o rigor científico, é
ilegítimo, não passível de credibilidade.
Segundo Rapoport:
Parece extraño que los arquitectos estén ansiosos
por renunciar a sus modelos tradicionales, a los
que ya me he referido, que son únicamente suyos
y que son un instrumento flexible y poderoso, al
menos según muchos observadores esternos. En
vez de una actitud de < o esto o aquello>.
Necesitamos una actitud de <<esto y
aquello>>. Probablemente deberíamos
complementar nuestros métodos existentes en vez
de renunciar a ellos.
(22)
Mas segundo Broadbent
(23)
, seja qual for o método, o produto
é determinado pela maneira pela qual é realizado. Cita Alvar
Aalto como representante deste modo tradicional e
Alexander como expoente do método científico.
En el caso de Alexander, se notaba una tendencia
a convertir las líneas de su diagrama en las líneas
del proyecto; en Aalto, el primer croquis determinó
la <<forma>> del edificio, ...
(24)
A experiência didática e as pesquisas realizadas revelam que
o arquiteto, ao compor um organograma, tenderá a
transformá-lo diretamente em planta, assim como o primeiro
croqui condicionará na maior parte dos casos o
desenvolvimento formal do projeto e, com isto, todas as
implicações que a forma traz consigo em arquitetura, o que
Joaquim Guedes denomina escravidão formal.
Josep Montaner
(25)
destaca Louis Kahn pela postura
metodológica. Segundo o autor, são três os estágios básicos
do projeto arquitetônico relacionados pelo arquiteto: o inicial
e definidor da idéia - cuando la forma misma expresa su
primera voluntad concreta de existir y se elige entre la
diversidad de tipos formales
(26)
; os demais passos procuram
introduzir ordem, recorrendo aos critérios da composição
tradicional, sempre baseados no rigor da geometria e
resolvendo os detalhes de acordo com as qualidades de cada
espaço.
El momento inicial de la idea y de la forma es
esencial en la concepción arquitectónica de Louis
I. Kahn. Es el momento del croquis, de los primeros
dibujos; el momento que frente a los primeros datos
del programa y del lugar se deja que se manifieste
la estructura misma de la forma, que se exprese el
orden que precede al diseño.
(27)
Não se pode negar, então, a participação ativa do desenho
neste processo. Parte da problemática de projeto reside na
adequada utilização deste como instrumento de trabalho.
Não cabem aqui propostas sobre metodologias de projeto,
mas também não se pode prescindir desta problemática para
enunciação do caráter do desenho em arquitetura, mais
especificamente o croqui, pois, como visto, estão diretamente
relacionados. Como coloca Rapoport,
un método solamente es mejor que outro
(cualquiera que éste sea) si produce un edificio o
un entorno mejor.
(28)
99
Mas acrescenta que este “melhor” implica em um juízo de
valor. Assim, o melhor é aquele que responde aos objetivos
propostos e às circunstâncias. Coloca, também, que os
métodos tendem a se preocupar mais pelo manejo e
disposição da informação do que por seu conteúdo; assim,
qualquer que seja o método empregado, este será passível
de fracasso, caso as informações que o alimentam sejam
impróprias ou incorretas.
O intuito aqui é demonstrar que o aluno ou o arquiteto bem
habilitado, não só tecnicamente mas cognitivamente, pelo
desenho, tornar-se-á mais hábil no desenvolvimento do
projeto.
O croqui
Gregotti assim o define:
Son documentos de la formación de la imagen no
sólo los esbozos com los que fijamos algunos
órdenes provisionales, sino las anotaciones,
gráficos, y documentos com los que indagamos y
configuramos los datos del problema, poniéndolos
en discusión. El recorrido a través de ellos nunca
es rectilíneo, sino un paciente reharcerse continuo,
es una tentativa de solidificación del proyecto en
torno a algunos núcleos prestos a tornar al estado
líquido com la introducción de un dato imprevisto
o diversamente interpretable, com la apertura de
una posibilidad constructiva, com el hallazgo de
una incongruencia. A través de esta paciente tarea,
larga, fatigosa, manual ( quien no acepte este punto
de vista del trabajo nunca podrá ser arquitecto), el
tema es explorado; este conocimiento nuestro,
primero general y esquemático, es dirigido luego a
la búsqueda de la imagen, en todas las direcciones;
puede tener el proprio centro en cada punto del
proyecto, en una sección, en un detalle; se capacita
cada vez para una reelaboración que crece en
rapidez en cuanto a la reelaboración total del tema,
mientras que, juntamente com el conocimiento,
adquiere mayor precisión, cada vez, la figura. El
medio de representación desde este punto de vista
nunca es indiferente, ni objetivo y por ello no es
medio, lo cual indica que forma parte de la intención
proyectual, porque, de un lado, no se trata de la
representación de una cosa dada (el artista, dice
Merleau Ponty - tiene un solo medio para
representar la obra en que trabaja: hacerla), pero
de la conversación proyectual que instituimos,
además de com la materia de la arquitectura, com
la representación misma como materia que asienta
y sugiera, y que a su vez es invención funcional
com respecto al objecto o al conjunto.
(29)
Dos tipos de desenho que configuram o croqui, mereceu
destaque durante toda a pesquisa a verificação do real uso e
importância que os arquitetos atribuem à perspectiva plana,
pois, didaticamente, é fundamental para relacionar o espaço
real, vivenciado em três dimensões (quatro com a temporal)
com aquele representado em superfície bidimensional.
Constatou-se, ao contrário do que se colocou como hipótese,
que o desenho em perspectiva não é um instrumento
profissionalmente unânime, ou seja, que nem todo arquiteto
representa graficamente o edifício que imagina através desse
instrumento. Mas é fato que todo arquiteto, como mostra a
pesquisa, visualiza mentalmente ou imagina o espaço em
três dimensões - o pensamento espacial é na verdade o que
as escolas deveriam selecionar no exame de L.A. (Linguagem
arquitetônica) e não propriamente o desenho, o grafismo . É
comum a representação desta imagem tridimensional em
desenho diédrico, planta e cortes, com maior freqüência para
a planta. Mas é importante ressaltar que, para todos os
arquitetos entrevistados, esta imagem - neste trabalho
conceituada enquanto figura - o espaço criado mentalmente,
é sempre tridimensional.
No caso do arquiteto Paulo Mendes da Rocha a perspectiva,
ao contrário do desenho diédrico - na maioria das vezes
instrumentado e em escala - não é utilizada, pois é muito
insipiente se comparada à imagem mental do edifício criado.
Aliás, para o arquiteto, não é o desenho o instrumento de
projeto e sim a imaginação. O desenho é para ele apenas
representação, ao contrário do proposto por Gregotti na
citação anterior. A criação se deu antes, em um outro nível
de trabalho mental. Quanto ao desenho gráfico propriamente
dito, o arquiteto o faz tecnicamente, para detalhar, aprimorar,
mas não para construir o arcabouço geral do projeto. Assim,
o desenho é um instrumento de definição, de aprimoramento
da idéia e não da configuração da mesma. Só a imaginação é
capaz de criar espaço, o desenho disto é algo posterior ao
ato criativo. Neste sentido, e só neste, o desenho não é um
instrumento de projeto, ele é um instrumento de
comunicação.
O arquiteto Abrahão Sanovicz , assim como Paulo Mendes,
trabalha diretamente com calculistas antes do desenho,
quando o projeto envolve maior complexidade, o que garante
que grande parte do projeto, no que concerne à elaboração
geral do espaço, é feita antes do croqui inicial, ou seja pela
criatividade, imaginação e memória. No entanto, este
arquiteto enfatiza a qualidade de instrumental de projeto do
desenho. Sanovicz é o único dos três entrevistados que utiliza
a perspectiva ao projetar, pois transfere ao papel a imagem
mental, a figura imaginada como ela assim lhe aparece, um
volume como ele mesmo descreve.
Vale ressaltar Gregotti:
Hemos llegado aí a una idea que parece central en
nuestro modo de pensar la proyectación. La
estructura de la proyectación (lo que hace la obra)
es de naturaleza fundamentalmente figurativa, esto
es, consiste en una particular estructura de
relaciones entre las materias capaces de orientar
según un sentido los actos de la operación que
100
realizamos como arquitectos: en estas confron-
taciones, todos los demás aspectos (estilístico,
ideológico, técnico, económico, histórico) son sólo
material, aunque tal material orienta siempre, según
diversos niveles históricos de prioridad, el proceso
de la proyectación.
(30)
A imagem como definição espacial. A figura.
Paulo Mendes, ao citar o projeto do Ginásio Paulistano, se
refere a uma imagem que todos arquitetos têm, pré
concebida, de um edifício. Esta viria imediatamente à tona
ao arquiteto receber uma proposta para determinado projeto.
Geralmente, quando os arquitetos se referem à esta imagem,
utilizam o termo “cena”, como uma visual ou paisagem.
Abrahão Sanovicz também coloca o fato de que, ao arquiteto
receber o tema ou programa, intuir algum tipo de configuração
espacial, uma imagem. “... você quando vai fazer um trabalho,
quando vai assumir uma encomenda, você já está
praticamente com o projeto pronto, sua cabeça elabora
rapidamente.”
Descreve esta parte do processo de projeto como um estado
de “pré-consciência”, na qual os desejos e as soluções dos
problemas tornam-se propostas no plano da consciência.
Ao contrário de Joaquim Guedes, Sanovicz sente-se confiante
quando identifica a primeira imagem no anteprojeto. Esta
permanência lhe dá certeza de que está no caminho ade-
quado, enquanto que Guedes a descarta ou a retarda o
máximo possível, pois, a seu ver, ela não dá garantia alguma
de um bom projeto, pois lhe parece totalmente intuitiva, não
surgindo como decorrência de uma reflexão intensa. Isto não
descarta o fato deste arquiteto usar a intuição no processo
de projeto, mas não o faz com finalidade de gênese formal
ou figurativa.
Joaquim Guedes defende o retardo da figura, mas afirma
que, às vezes, isto se torna difícil e na prática dá-se a
contradição, pois inevitavelmente a imagem mental figurativa
do edifício aparece e tem peso decisivo no processo de
projeto, condicionando ou dirigindo o desenvolvimento do
mesmo. É o conflito entre aquilo que é ideal, e que tentamos
buscar, e aquilo que realmente acontece com todos os
imprevistos inerentes a um fenômeno humano.
Retardando ou não, desenhando ou não, o fato é que uma
configuração de espaço sempre aparece ao se iniciar um
processo de projeto, às vezes mais, outras menos definida,
essa imagem parece ser algo comum aos arquitetos. Saber
como utilizá-la é fundamental para o desenvolvimento do
projeto, pois relaciona-se com a criatividade, mas tê-la parece
ser um pré requisito para o arquiteto e conseqüentemente
para o aluno, pois define o nível de sua capacidade imaginativa
espacial. É necessário esclarecer que, para este trabalho,
diferencia-se imaginação de criatividade. A primeira é a
capacidade do indivíduo visualizar mentalmente e a
Criatividade segundo às colocações de A. Moles
(31)
:
é a aptidão de criar ao mesmo tempo o problema
e sua solução, em todo caso a de cerrar formas
constituídas de elementos disparatados,
fragmentos de pensamento, átomos de raciocínio,
que denominaremos: semantemas. Aqui
retomamos o quadro da teoria da Informação
definindo a Criatividade como: a aptidão particular
do espírito no sentido de rearranjar os elementos
do “Campo de Consciência” de um modo original
e suscetível de permitir operações em um “campo
fenomenal” qualquer.
Em suma, um indivíduo com imaginação aguçada tem
facilidade em visualizar algo que lhe é descrito ou que já foi
por ele memorizado, mas isso não qualifica o objeto imaginado
como algo diferenciado e original, isto fica a cargo de sua
capacidade criativa.
D. W. Mackinnon
(32)
, em seu estudo sobre arquitetos,
encontrou em suas pesquisas uma forte relação entre
criatividade e domínio de desenho. Na pesquisa realizada, os
arquitetos mais criativos desenhavam desde muito jovens e
demonstravam domínio desta linguagem.
Segundo a psicóloga M. L. J. Abercrombie, é muito fácil para
pessoas analíticas recomendar que se comece por recolher
todo tipo de informação, mas para muitos arquitetos, confirma
a psicóloga, o trabalho não se dá dessa forma.
Un bosquejo o garabato que hizo Gibberd cuando
en un principio se planteó el proyecto de la catedral
de Liverpool, y que luego reprodujo The Sunday
Times, se parece mucho al edificio que luego se
construyó. Muchos arquitectos dibujan sobre un
papel cualquiera algo que es identificable com la
<<imagen>> del edificio que diseñan. Lo que
creo que ocurre es que la <<sensación>> del
problema se obtiene intuitivamente y se dibuja
deprisa, del mismo modo que la
<<sensación>> de lo que es un rombo se dibuja
como um circulo, para sólo más adelante
convertirse en una figura de dos triángulos
rectlíneos. Este proceso psicológico de tener una
<<sensación>> no sólo es aplicable a las
imágenes visuales, sino también a outro tipo de
percepciones que son demasiado complejas para
poder comprobar por entero.
(33)
O método dos arquitetos entrevistados
Todos os três arquitetos entrevistados, apesar das diferenças
metodológicas com relação ao ato de projeto em si, afirmam
que se deve pensar ( no sentido mais abrangente do termo,
o que inclui todas as formas de cognição) antes de desenhar;
o desenho relacionado a projeto ou para o projeto é sempre
antecedido de uma reflexão do problema ou de uma
101
visualização espacial das soluções.
Paulo Mendes, assim como Abrahão Sanovicz, trabalha pelo
processo dedutivo, ou seja, do geral ao particular, da
visualização do edifício como um todo à sua particularização,
em detalhes, em função da identidade das partes com o todo.
Quando desenvolvem o programa, o fazem a partir de uma
idéia inicial, uma “síntese” figurativa de espaço.
Esta “síntese”, fase inicial do processo, em realidade não
pode estar identificada por este termo, pois a síntese é
produto da análise reflexiva, e esta ainda não ocorreu.
A palestra proferida pela Prof.a Dr.a Marilene Bitencourt
(34)
-
PUC São Paulo - especializada em Andragogia ( “pedagogia
para adultos) mostrou as correlações entre o pensamento
do adulto e o processo de comunicação. Coloca que Jean
Piaget identifica três estágios no processo de comunicação
entre as pessoas, que foram assim classificados: Síncrese -
primeira impressão, uma visão nebulosa do momento, mas
que determina a postura do indivíduo para atuar no decorrer
do processo - Análise e Síntese. O pensamento do adulto
passa, no entanto, por quatro estágios: observação concreta,
observação reflexiva, abstração conceitual e experimentação.
Para este trabalho emprestamos desta teoria o termo
Síncrese - que, relacionada ao processo de pensamento,
refere-se à observação concreta - para denominar a primeira
fase do processo de projeto. Em arquitetura, como verificado
na pesquisa, esta postura inicial frente ao problema vai além
da observação e é em si uma proposta com certo grau de
concretude, pois de ordem figurativa.
Joaquim Guedes, apesar de concordar que uma imagem
preliminar aparece, ou seja, com a existência da Síncrese, a
refuta ou retarda, como ele próprio coloca,. Isto porque este
arquiteto trabalha metodologicamente pelo processo indutivo,
ou seja das partes para o todo. Todas as partes ou particu-
laridades do problema são pensadas em relação às suas
especificidades e sem relação com o todo numa fase
preliminar, já que este ainda nem existe.
Segundo Rapoport,
John Weeks há sugerido que una información
demasiado detallada e introducida demasiado
pronto puede obstruir el proceso de diseño, por
exemplo, que la programación del input es
importante.
(35)
Pôde-se verificar que tais métodos requerem tipos de
desenhos diferentes, pois enquanto no primeiro caso o
desenho tem a função de representação de uma concepção
espacial, já com características volumétricas e estéticas, no
segundo o desenho se refere particularmente às exigências
de caráter reflexivo, abstrato, matemático, para só depois
tomar uma configuração formal, a figura propriamente dita.
Para Paulo Mendes, o desenho diédrico (planta e corte) está
relacionado com a facilidade em entender o projeto e também
é adequado à representação de uma concepção espacial
sintética e construtivamente simples. O prazer do desenho
está, também, para ele, relacionado com essa simplicidade
e facilidade, mas não que aconteça de forma efetiva. Está
mais para o desejo, como demonstra sua colocação sobre
as dez hipóteses da loja Forma, que de início, na entrevista,
parecia ter surgido de uma forma única, límpida e cristalina.
O locus ou o sítio - lugar do projeto
O lugar parece ser o elo entre os dois métodos. Paulo Mendes
fala com freqüência na exigência que o terreno requer, ou
seja, determina o construído a priori. Sem o conhecimento
do lugar, não só do ponto de vista técnico, mas principalmente
estético - as visuais - não se pensa arquitetura. Esta é em
essência uma abordagem imaginativa, visual do “locus”.
Para o arquiteto Joaquim Guedes, é em confronto com o
lugar que as idéias abstratas ganham forma, assim, é o sítio
que condiciona a forma, a configuração espacial, que une as
partes, antes pensadas individualmente, num todo.
A formação como determinante metodológico
Verifica-se que a formação do arquiteto, não só acadêmica
mas social e familiar, contribui decisivamente para sua visão
de projeto, de arquitetura e de desenho.
No caso de Paulo Mendes, sua vivência desde a infância na
engenharia configurou, moldou sua forma de pensar a
arquitetura. Os grandes vãos de concreto armado, soluções
engenhosamente elaboradas, têm sua gênese imaginativa
em dois pólos, a visual estética e a construtiva. Para a
primeira, basta ao arquiteto sua capacidade imaginativa e
criativa, quanto à segunda, por vezes algumas perguntas
formuladas através de descrições verbais também garantem
sua viabilidade. O desenho, que posteriormente é realizado,
tem caráter de definição executiva da proposta, portanto
diédrico.
Joaquim Guedes diz que a pintura ainda lhe faz falta e que
deveria aparecer no currículo das escolas. Abrahão Sanovicz
teve formação em gravura e é também reconhecido como
artista gráfico. Mas, para o primeiro a arte é fonte criativa
para arquitetura, mais em termos de alimentação da
expressividade como um todo, do que propriamente para
concepção formal restrita. Para Joaquim Guedes, a forma
em arquitetura deve surgir da reflexão, verdadeiro instrumento
do projeto.
Sanovicz enfatiza a questão do desenho enquanto instrumento
de projeto, que em conexão simultânea com a mente, grifa
no papel idéias, formas, que geradas pela intuição passarão
à particularização reflexiva numa fase posterior de
desenvolvimento. Aqui, arquitetura é criação da mente
102
intuitiva através do desenho.
Mas todos os três são unânimes quanto a uma equivocada
maneira de projetar, “o rabiscar” sem conexão com a
imaginação, buscar a criação - como o fazem muitos artistas
plásticos pois a outras formas de arte se aplica muito bem -
através do risco no papel com a mente (pelo menos a
consciente) totalmente vazia. Todos os três, como renomados
e experientes arquitetos, sabem que sem a consciência
imaginativa ou reflexiva, não se faz arquitetura.
A relação entre o grafismo e a forma do espaço
Tanto Paulo Mendes quanto Abrahão Sanovicz não associam
diretamente o desenho à criação da obra arquitetônica, ou
seja, o desenho em seu aspecto gráfico ao desenho do
edifício, mas concordam que ele colabora na medida que
registra o pensamento e configura o imaginário em algo
material, portanto mais real em termos construtivos.
Para Joaquim Guedes, a relação entre o desenho e a
configuração espacial é direta - uma das razões pelas quais
se pode relacionar Guedes e Alexander -pois é só através
dele e pelos resultados que seu uso fornece é que se
consegue percorrer todas as fases necessárias à finalização
da proposta; assim sendo, o desenho é para ele também um
instrumento de projeto. Vale ressaltar que seu desenho, nesta
fase preliminar, já é fruto da reflexão e não tem, segundo ele
próprio, caráter mimético, é um desenho de investigação do
problema mas ainda não relacionada à configuração do
espaço propriamente dita, à forma final.
Um equívoco por parte de todos os entrevistados é conceituar
a mimese somente como uma identificação formal e não de
relações de espaço, de escala humana, como já se fazia na
Antigüidade.
Para Sanovicz, essa relação não existe e é até um absurdo
pensar que possa haver alguma. O traço característico do
arquiteto nada tem a ver com o desenho, o aspecto formal
dado à obra.
Para Paulo Mendes, é, no entanto, uma questão mais filosófica
que artística. O desenho, para ele, é limpo e portanto fácil,
porque se relaciona com a idéia de que hoje temos a
necessidade de mostrar a todos que é fácil construí-lo ou
compreendê-lo, é uma questão de democratização do
conhecimento.
Da imagem mental ao croqui
Abrahão Sanovicz, assim como Paulo Mendes,
só realiza o croqui após a imaginação ter trabalhado e já
configurado o edifício. No entanto Sanovicz é o único dos
três que, ao desenhar essa imagem, o faz utilizando a
perspectiva, geralmente uma vista aérea. Seu desenho é
muito expressivo, pessoal, pois ao contrário de Paulo Mendes,
o faz para si e não para o outro. Também ao contrário deste,
desenha enquanto projeta, ou seja a idéia inicial não está
totalmente definida espacialmente, e tem seu desen-
volvimento através do croqui, pois, quando perguntado sobre
o desenvolvimento do programa recebido do cliente ao
programa expandido (já estudado pelo arquiteto), disse que
tudo se dá com o croqui. Assim, entende-se que ao configurar
mentalmente o projeto, o faz pelo programa original, para
depois determinar as modificações juntamente com o
desenvolvimento espacial. Neste ponto, Sanovicz é enfático:
“o desenho é um instrumento”.
Todos os três entrevistados ressaltam o fato de que a partir
de um certo momento o projeto tem uma “vida própria”, um
desenvolvimento inerente às relações anteriormente
definidas, ou seja, o que vai sendo produzido acaba como
que por conduzir-se até a fase final de desenvolvimento.
Joaquim Guedes, por exemplo, prega a não escravidão à
forma (discurso na disciplina) mas crê inevitável a escravidão
ao processo, àquilo que o desenrolar do projeto pede para
ele mesmo.
Assim, pode-se entender a relevância da adequada atitude
na fase inicial do processo de projeto, conhecida como Estudo
Preliminar, que, como vimos, varia de acordo com o método
abordado pelo arquiteto que aqui se classificam em dois
grandes grupos, Dedutivos e Indutivos. Esses dois grupos
podem ser subdivididos em outros, pois, baseados no
acompanhamento do Laboratório de Pesquisa e entrevistas,
verifica-se que passam por uma visão muito particular de
interação com o mundo, a vivência.
O método proposto por Guedes pode, como visto, em certos
aspectos ser comparado à metodologia defendida por
Alexander, essencialmente pela particularização dos
problemas, mas Guedes enfatiza a subjetividade do aspecto
criativo no projeto arquitetônico, o que não acontece no
método de Alexander, caracterizado por aspectos racionais
e matemáticos.
A lo largo de los años sesenta y setenta Alexander
realiza toda una serie de trabajos para cuantificar
cientificamente y establecer modelos sobre los
procesos funcionales y en su relación com el
contexto. La utilización de grafos y diagramas y la
defensa de una estructuración reticular para la
ciudad frente al vigente esquema arbóreo le
conducirán a una de la composición basada en la
articulacón de partes. Estas partes o “patterns”se
constituyen según relacionnes especiales de
diversas escalas que funcionarán adecua-
damente.
(36)
Broadbent coloca que o método de Alexander consiste em
decompor o problema em variáveis adequadas e não
adequadas.
En esta técnica, que está basada en la Teoría de
103
los Grafos, el problema se divide en sus
componentes constitutivos mínimos (las
<<variables inadaptadas o inadecuadas>>). Se
buscan las <<conexiones>> de cada uno de
estos componentes com los demás, formándose
así <<grupos>> de <<variables inadap-
tadas>>. El problema planteado por cada grupo
se resuelve mediante un <<diagrama>> que
resume geométricamente sus características
esenciales. Estos diagramas se unen, combinan y
modifican entre sí para lograr la solución global del
problema.
(37)
No simpósio de 67, muitos trabalhos foram apresentados
baseados neste autor. A crítica principal se fez em torno dos
diagramas, se eram significativos para o grupo em questão e
até que ponto soluções deles advindas são satisfatórias ou
válidas.
El problema planteado por cada grupo se resuelve
mediante un <<diagrama>> que resume
geométricamente sus características esenciales.
Estos diagramas se unen, combinan y modifican
entre sí para logar la solución global del problema.
Alexander desarrolló esta técnica, en una dirección
determinada, cuando formaba parte del equipo
investigador de Ian Moore, en el Ministerio de la
Vivienda y Obras Públicas,...
(38)
O fato é que o método ou os métodos desenvolvidos na linha
proposta por Alexander decorrem de um pensamento racional
geométrico, e podem, em casos extremos, como na proposta
feita por Keith Hanson
(39)
, ser resolvidos por um programa de
computador, prescindindo do lado intuitivo da criação.
Muitos defendem, e ainda hoje se tem essa premissa no
ensino, que a determinação do partido do edifício seja
determinado por questões técnicas de insolação e
implantação. Não que haja um erro nesta postura, mas, como
coloca Rapoport, nem sempre essas questões superam as
de ordem cultural.
No entanto o método de Alexander, segundo Broadbent,
se basa esencialmente en la observación del
comportamiento de los hombres, y en llegar a
conclusiones partiendo de esta observación. Como
es de esperar, se fundamente en gran parte en la
psicología del comportamiento, ...
(40)
Alexander pode, assim, ser colocado como um dos últimos
bastiões lançados pelo movimento moderno, sobre a
universalidade do homem, mas é justamente aí que as críticas
vão ser mais pungentes, pois nem sempre aquilo que torna
os grupos sociais universalmente semelhantes é o que é mais
importante para os mesmos. Além disso, existe dúvida do
que seja a objetividade nas medições e qual a base de
comparação, ou seja a definição do padrão de normalidade
de comportamento.
(41)
Broadbent acrescenta que a principal dificuldade não está
em verificar o comportamento das pessoas, mas sim em
precisar suas necessidades; essas não podem ser vistas,
mas são deduzidas pelo observador através da reflexão
daquilo que observa. E coloca o problema do projetista em
relação ao contraste entre a particularidade de determinadas
observações e a complexidade a ser abrangida em um projeto,
ou seja análise e síntese:
Tratamos com el todo más que com las partes, y
com la interacción simultánea de un enorme
número de variables, com complicados esquemas
de comportamiento humano y com síntesis además
de análisis. De modo que, cada día, tomamos
decisiones de una complejidad tal que está más
allá de la experiencia del behaviurista.
(42)
Amos Rapoport, neste mesmo simpósio, fez também severas
críticas tanto aos métodos de desenho baseados na I. O.
(Investigação Operativa), como também ao método de
Alexander; nos dois casos, a dúvida estava na validade do
método científico aplicado ao desenho.
Verifica-se, no entanto, através destas entrevistas, que os
arquitetos não são muito precisos em suas colocações, idéias
ou conceitos, contradizem-se em um ponto ou outro,
principalmente no que se refere ao fazer arquitetônico, à
maneira de como se dá o projeto. Na realidade, nem mesmo
para os mais analíticos, o método usado é totalmente claro.
Existe também o fato de cada arquiteto crer que a sua maneira
é aquela que todos utilizam para projetar, o que também
repercute na avaliação da dificuldade dos outros; por exemplo,
Sanovicz acha que aos dezoito anos não se tem grandes
problemas com o desenho, ou seja, que o jovem “tira isso de
letra”. Uma das razões pelas quais se discute atualmente
tão pouco metodologia e desenho.
O projeto como pesquisa
Sanovicz coloca claramente o projeto como pesquisa.
Encontra-se esta opinião também em Rapoport:
Si se compara el diseño arquitectónico com la
generación de hipótesis, y todo el argumento que
sigue depende de ello, entonces resulta importante
la cuestón de cómo se generan las hipóteses. Esto
es lo que llamo el primer salto creativo.
(43)
... para Koestler la creatividad significa que
situaciones o ideas que normalmente se vem dos
marcos de distintas referencias sean vistos en un
solo marco de referencia. Sugiere que, para que
ocurra esto, es necesario lo que él llama de
<<estado de ensueño>> que tiende a consi-
derar como una interpretación más radical de los
104
esquemas flexibles de Jane abercrombie. Este
estado ayuda al <<acto de bisociación>> en el
que se forma esta conexión y que es um proceso
inconsciente. Normalmente los problemas se
atacan mediante <<reglas del juego>> que se
codifican en modelos y métodos de procedimiento
que corresponden, sugerría yo, a lo que Kuhn llama
<<ciencia normal>>, pero que raramente
conducen a hipóteses. Las hipótesis se generan
durante el estado de ensueño en que se hacen
incursiones al azar y no se aceptan cosas hechas
com lógica. (...) La historia de estos y otros campos
muestra una sucesión constante de desprecios a
la lógica y al razonamiento deductivo; horror a las
mentes de ideas fijas; desconfianza a la
consistencia demasiado grande; escepticismo
respecto al modo de pensar demasiado consciente;
consfianza en la intuición y, a menudo, guía
inconsciente de las sensibilidades estéticas.
(44)
Ressalta-se que a hipótese em arquitetura é uma figura
tridimensional, síncrese.
Rapoport conclui que as novas idéias são geradas pela
imaginação artística e intuitiva (aqui imaginação é sinônimo
de criatividade), inclusive em ciência. Einstein teria inclusive
sugerido, segundo Rapoport, que de certo modo deve-se
pensar preferencialmente em termos imprecisos e visuais
do que verbal ou simbolicamente.
Rapoport coloca, também, que a geração criativa das
hipóteses, em arquitetura, nunca se dá de forma sistemática.
A sistematização ocorre na comprovação das hipóteses. Esta
pesquisadora entende, no entanto, que esta comprovação
na realidade, só se dará quando o projeto se materializar, for
habitado e utilizado para os fins para os quais foi pensado.
É importante, mais que definir métodos corretos, formar
arquitetos, enquanto indivíduos intelectualmente indepen-
dentes, que saibam refletir sobre o problema e não seguir
cegamente fórmulas ou preceitos estabelecidos; mas que
tenham discernimento - “em sentido arquitetônico”, portanto
figurativo espacial e conseqüentemente em desenho - sobre
o conhecimento físico, técnico, estético, social; e que
também sejam capazes de desenvolver uma relação de
empatia, pois sem esta é muito difícil compreender as
necessidades do cliente, já que estas não podem ser vistas,
mas supostas segundo aquilo que se vê.
105
Notas e referências bibliográficas
01. BROADBENT, G. et al
..
..
. Metodología del Diseño Arqui-
tectónico. Barcelona: Gustavo Gili, 1971. p. 22.
02. WARD, Anthony. Introducción. In: BROADBENT, G. et al
..
..
.
op.cit. p. 18.
03. BROADBENT, G. et al. op. cit. p. 22
04. GREGOTTI, Vittorio. Los materiales de la proyectación.
In: CANELLA, Guido et al
. .
. .
. Teoría de la proyec-
tación arquitectónica. Barcelona: Gustavo Gili,
1971. p. 209
05. GREGOTTI, Vittorio. op. cit. p. 210
06. GREGOTTI, Vittorio. op. cit. p. 223
07. SAMONÀ, Alberto. Los problemas de la proyectación para
la ciudad. Las escalas de proyectación y la unidad
de método. In: CANELLA, Guido et al
..
..
. op.cit. p. 59
08. GREGOTTI, Vittorio. op. cit.
09. v. volume I p.54
10. GIANNELLI, G. Luca et al. Processo Progettuale. Un
Contributo Universitario al “Problema della
casa”. Complemento al 11o. Corso di Compo-
sizione. Università degli Studi di Firenze. Facoltà di
Architettura. Firenze: Libreria Ed. Fiorentina, 1972.
p.22
11. WARD, Anthony. op. cit. p. 19
12. GIANNELLI, G. Luca et al. p. cit. pp.23-4
13. GREGOTTI, Vittorio. op. cit. p.217
14. KRÜGER, Mário Júlio T
. .
. .
. Teorias e Analogias em
Arquitetura. São Paulo: Projeto, 1986. p.11
15. KRÜGER, Mário Júlio T
. .
. .
. op. cit. p.16
16. HARRE, R. The philosophies of science. London: Oxford
University Press, 1972. cit. in: KRÜGER, Mário Júlio
T
. .
. .
. op. cit. p.13
17. NAGEL, E. The structure of science. London: Routledge
and Kegan Paul, 1961. cit. in: KRÜGER, Mário Júlio
T
. .
. .
. op. cit. p.13
18. KRÜGER, Mário Júlio T
. .
. .
. op. cit. p.13
19. ________, ___________
. .
. .
. op. cit. p.16
20. ________, ___________
. .
. .
. op. cit. p.18
21. ________, ___________
. .
. .
. op. cit. pp. 27-8
22. RAPOPORT, Amos. Hechos e modelos. In: BROADBENT,
G. et al. op. cit. p.319
23. BROADBENT, G. et al. op. cit.
24. ____________, ______. op. cit. p.31
25. MONTANER, Josep Maria
..
..
. Después del movimiento
moderno. Arquitectura de la segunda mitad
del siglo XX. Barcelona: Gustavo Gili, 1993.
26. MONTANER, Josep Maria. op. cit. p.63
27. MONTANER, Josep Maria. op. cit. p.63
28. RAPOPORT, Amos. op. cit. p.298
29. GREGOTTI, Vittorio. op. cit. pp.217-8
30. GREGOTTI, Vittorio. op. cit. p.222
31. MOLES, Abraham A..
A criação científica. São Paulo:
Perspectiva, 1971. p.59.
32. MACKINNON, D. W. La creatividad y sus correlativos de
personalidad: un estudio de los arquitectos ame-
ricanos.Conclusiones del XIV Congreso Internaci-
onal de Psicología Alicada, Copennhage: Munks-
gaard, 1961. Cit. In: ABERCROMBIE, M. L. J. Perce-
pción y construcción. In: BROADBENT. G. op. cit.
33. ABERCROMBIE, M. L. J. op. cit. pp.275-6
34. Palestra proferida pela Profa. Dra. Marilene Bitencourt -
PUC SP- sobre Andragogia, em 12 de fevereiro de
1996 na Universidade de Mogi das Cruzes.
35. RAPOPORT, Amos. op. cit. p.315
36. MONTANER, Josep Maria. op. cit. p.132
37. BROADBENT, G. et al. op. cit. p.25
38. ____________, _____. op. cit. p.25
39. HANSON, Keith. El diseño a partir de sistemas enlazados
de necesidades en un problema de vivienda. In:
BROADBENT, G. et al. op. cit.pp.67-85
40. BROADBENT, G. et al. op. cit. p.27
41. DALEY, Janet. Una crítica filosófica del coductismo en el
diseño arquitectónico. In: BROADBENT, G. et al
. .
. .
. op.
cit. pp.141-52.
42. BROADBENT, G. et al
. .
. .
. op. cit.p.29
43. RAPOPORT, Amos. op. cit. p.316
44. __________,_____. op. cit. p.316
106
Anexo
o croqui do arquiteto e o ensino do desenho
Anna Paula Silva Gouveia
Orientador: Prof
a
. Dr
a
. Élide Monzeglio
Tese de Doutorado
FAU USP
1998
Volume III
O ensino do
desenho para
arquitetos
Kellen Muller
1
Este volume trata especificamente do desenho, enquanto
disciplina, para um curso de arquitetura.
De início, apresentam-se algumas considerações sobre a
questão didática da relação ensino-aprendizagem, um breve
histórico das correntes pedagógicas e as bases teóricas nas
quais se fundamentam, em especial sobre o trabalho de Jean
Piaget sobre a operatividade do pensamento e a relação com
o desenho.
Na seqüência, uma abordagem sobre métodos de desenho,
as implicações enquanto métodos possíveis para arquitetos
e algumas considerações finais, que sinteticamente aglutinam
em propostas didáticas os conceitos desenvolvidos nos três
volumes que compõem esta tese.
Apresentação do Volume III
O ensino do desenho para arquitetos
2
Considerações básicas sobre Pedagogia e
Didática
Pedagogia e Didática
O processo de aprendizagem
A relação ensino-aprendizagem
O processo didático
O professor
Método e técnica
Método e Conteúdo
Notas e referências bibliográficas
A Didática da Escola Nova
A evolução das escolas - Breve história das correntes
pedagógico-didáticas
O ensino tradicional e seus problemas
A didática da escola ativa
John Dewey e Edouard Claparède
Georg Kerschensteiner
A psicologia de Jean Piaget aplicada à didática da
escola ativa
O pensamento
A pesquisa e a construção da operação
A assimilação
Notas e referências bibliográficas
Sumário
III.1.
III.1.1.
III.1.2.
III.1.3.
III.1.4.
III.1.5.
III.1.6.
III.1.7.
III.2.
III.2.1.
III.2.2.
III.2.3.
III.2.3.1.
III.2.3.2.
III.2.4.
III.2.4.1.
III.2.4.2.
III.2.4.3.
Obs.: Os desenhos deste volume, com execeção dos
apresentados no capítulo III.4.1. A Bauhaus, foram
fotografados diretamente dos originais fornecidos pelos
alunos da disciplina de Desenho e Materiais Expressivos do
Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Mogi
das Cruzes, das turmas de 1992, 1993 e 1996.
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Um curso de desenho com base na pesquisa e
exemplos de experiência didática
Experiência didática e a inserção do desenho como
pesquisa
A apresentação do problema
A escola nova e a arte-educação
Notas e referências bibliográficas
Os métodos de ensino do desenho pós escola
ativa
A Bauhaus
Johannes Itten
Paul Klee
Wassily Kandinsky
Pós Bauhaus
Carlo Maggiora
Onofre Penteado - Desenho Estrutural
Betty Edwards e o desenho com o lado direito do
cérebro
Notas e referências bibliográficas
Considerações finais
Notas e referências bibliográficas
III.3.
III.3.1.
III.3.2.
III.3.3.
III.4.
III.4.1.
III.4.1.1.
III.4.1.2.
III.4.1.3.
III.4.2.
III.4.2.1.
III.4.2.2.
III.4.2.3.
III.5.
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3
A Pedagogia, enquanto ciência, deriva, tanto quanto as outras
ciências, da Filosofia. A ela pertencem o estudo da natureza
e da articulação do processo educativo. Considera-se, dentro
de determinado conceito de ensino, que a Didática é uma
das ciências pedagógicas. Assim, diferentes concepções
filosóficas derivam em diferentes conceitos de ensino e por
fim em diferentes projetos didáticos.
Atualmente, a distinção entre Pedagogia e Didática se aclara
e tende-se a dar, a esta última, sua distinta fisionomia
metodológica.
A didática científica toma a si a tarefa de deduzir
do conhecimento psicológico dos processos de
formação intelectual as medidas metodológicas
mais aptas a provocá-los.
(1)
Esta distinção, sem dúvida, intensificou o desenvolvimento
neste campo, promovendo uma diversificação quanto aos
métodos aliados às suas finalidades. Por exemplo, existem
hoje várias especificações segundo o sujeito discente: com
respeito à idade, uma didática evolutiva e uma para adultos;
em relação à capacidade, uma didática diferencial, outra para
normais e ainda uma para os superdotados; quanto ao
ambiente, uma didática para escola rural e outra para a urbana;
em relação às disciplinas, didáticas especiais para cada área
do conhecimento e por último em relação aos métodos
empregados no estudo dos problemas, dos quais surgirá uma
didática dedutiva ou indutiva.
No entanto, para precisar melhor a Didática como ciência
prático-normativa, deve-se distinguir os conceitos Educação,
Instrução e Ensino, pois o primeiro, como veremos, está
diretamente relacionado com a Pedagogia e os dois últimos
com a Didática propriamente dita. Cabe aqui colocar que a
Pedagogia também se preocupa com “como fazer”, ou seja,
na realidade é também uma ciência prático-projetiva, mas
mais genérica que a Didática.
III.1. Considerações básicas sobre Peda-
gogia e Didática. O processo de en-
sino-aprendizagem e seus agentes.
III.1.1. Pedagogia e Didática
Em linhas gerais, pode-se dizer que a Educação visa a
formação moral do indivíduo, a Instrução (um dos meios
utilizados na Educação ou melhor um aspecto específico do
processo educativo) visa a formação intelectual utilizando-
se do Ensino como meio para a formação da mente.
Isto quer dizer que a Instrução não é uma mera acumulação
de noções ou memorização de dados desconexos, mas é a
construção e o aprimoramento de estruturas mentais, funções
lógicas, perceptivas, etc.
Por outro lado, também não se deve confundir Instrução com
Ensino.
“Enseñar”, etimológicamente, significa poner algo
in signo, indicar, mostrar un objeto a alguien para
que se apropie de él intelectualmente. Por tanto,
la enseñanza consistirá precisamente en el
presentar in signo sensibili los objetos, que el
alumno deberá asimilar mediante su cono-
cimiento.
(2)
Restringindo-se, porém, o Ensino à proposição externa
sensível dos conteúdos conceituais, sem que os signos sejam
perfeitamente interpretados pelo aluno, ter-se-á uma
perspectiva de ensino, própria da escola tradicional, que não
interessa a este trabalho.
Pode-se, então, dizer que a Didática, na medida em que trata
de regular o processo instrutivo de formação intelectual, é
uma metodologia da Instrução e pode, numa concepção mais
restrita, ser também considerada como uma tecnologia de
Ensino, tendo em vista que não se trata de técnica pura (esta
seria a Docência, técnica do ensino, o ato mesmo de ensinar).
De acordo com o estudo das finalidades, das condições e
das modalidades de ensino, é tecnologia, pois trata-se da
teoria da técnica.
4
Toda intervenção didática parte e retorna a um mesmo ponto
central: o processo de aprendizagem. Tal processo é condi-
cionado subjetivamente pelos dois agentes da relação
didática. Da parte discente, pela capacidade de atividade e
de auto-desenvolvimento, por fatores da motivação, do
interesse e também pelos hábitos de estudo e trabalho
pessoal. Da parte docente, pela personalidade e pela técnica
dirigidas pelos ideais educativos.
Por outro lado, este processo é também condicionado
objetivamente por fatores como a estruturação da classe,
do ambiente e das situações didáticas.
Segundo Antonio M. de Rezende
(3)
, a aprendizagem é uma
experiência tipicamente humana, e isto nos mostram a
Antropologia , a Psicologia e a Sociologia. Os animais são
incapazes de aprender, embora possam ser domesticados e
adestrados. Tal confusão a respeito desse conceito surgiu,
segundo este autor, com as reflexões de Pavlov, o beha-
viorismo e até certos trechos da teoria da Gestalt, pois pro-
põem o comportamento animal como paradigma humano.
Outro equívoco, introduzido mais recentemente pelas teorias
tecnocráticas, baseadas no desenvolvimento tecnológico, foi,
segundo Rezende, propor como paradigma da aprendizagem
humana, o “comportamento” das máquinas, ou inteligência
artificial. Em ambos os casos, apesar da redução em pólos
opostos, existe um denominador comum: o desconhecimento
da estrutura do fenômeno humano.
(4)
A Fenomenologia, no entanto, identifica aprendizagem com
a compreensão, compreensão de símbolos, que por sua vez
são definidos como concentração do sentido e dos sentidos
da existência
(5)
. Estes símbolos se referem a estruturas e à
estrutura de estruturas.
Como tal, a aprendizagem humano-significativa vai
consistir em buscar o sentido que se articula no
símbolo, procurando apreendê-lo através das
III.1.2. O processo de aprendizagem
diversas relações semânticas que se estabelecem
na estrutura simbólica e a partir dela.
(6)
A aprendizagem significativa é também a dos limi-
tes do conhecimento e das múltiplas mani-
festações da verdade. Dessa forma, a educação
da inteligência diz respeito não apenas ao
conhecimento mas ao pensamento, isto é, à
capacidade de refletir, meditar e acrescentar
sentido. Em outras palavras, a aprendizagem
significativa é necessariamente interpretativa,
hermenêutica, procurando descobrir em que
sentido(s) há sentido(s).
(7)
5
Ensinar e aprender são dois conceitos a princípio correlatos.
Renzo Titone
(8)
questiona o ensinar a si mesmo e coloca como
algo impossível de realizar-se, podendo, no entanto ocorrer
o “aprender por si mesmo”, ou auto-aprendizagem.
Os dois fenômenos ensinar e aprender são por conseguinte
alimentados por um tipo relação dinâmica, a relação didática,
onde participam professor e aluno. Tal relação, na escola
tradicional, inicia-se com o ato didático, relação bipolar ativa
entre aluno e professor. Já nas correntes da escola ativa,
esta relação expande-se para o grupo, a classe. Segundo J.
Hillal
(9)
é um modo de interação, na qual a atitude muda de
acordo com as pessoas que participam.
A relação ensinar - aprender também é “dialógica”, pois em
síntese aparece sob a fórmula do diálogo. O diálogo é um
conectivo universal, é exercício do espírito e controle do
mesmo. Dá-se através dele a comunicação aluno-professor,
não só verbal, mas gestual e no que se refere ao ensino do
desenho, este último como principal meio de comunicação.
Nesta relação dialógica, a interrogação é um estímulo ao
pensamento do discente, que se converte em elaborador do
saber, ao concretizar a resposta.
Esta didática, baseada na pergunta do professor e na resposta
do aluno, característica da escola tradicional, mais
especificamente do método maiêutico, não responde, na
realidade, a todas as situações da questão ensino-
aprendizagem. Ela entende o professor como agente
direcional do pensamento do aluno, na medida em que este
segue o caminho por ele estabelecido através das perguntas.
Ver-se-á que na escola ativa é fundamental que as perguntas
partam também do aluno.
III.1.3. A relação ensino-aprendizagem III.1.4. O processo didático
Para um frutífero desempenho do processo didático, a relação
ensino-aprendizagem, além de estar fundamentada em um
método coerente, deve contar com um profissional, que além
de adequadamente formado e informado, seja adequa-
damente intencionado e estimulado. A atividade e a qualidade
do profissional estão diretamente relacionadas com o bom
andamento do curso e dos resultados.
Na realidade, não é o aluno que deve se moldar ao professor,
mas este último é quem por obrigação profissional deve
conhecer e planejar o curso em função dos alunos.
Para tanto, um bom professor influirá no desenvolvimento do
aluno em proporção ao seu grau de maturidade pessoal,
envolvendo todos os aspectos da personalidade humana
(inteligência, vontade, simpatia, caráter, etc.), além das outras
qualidades básicas, como preparação cultural (cultura geral
e especializada), psicológica (referente ao conhecimento do
aluno sob o ponto de vista fisiológico, psicológico, social,
etc.), habilidade didática (capacidades inatas e aprendidas),
etc.
Especificamente sobre o campo da Arte Educação, V.
Lowenfeld coloca que:
Pero sí puede decirse que sea cual fuere lo que un
maestro haga para estimular la capacidad creadora
de sus alumnos, su intento dependerá, princi-
palmente, de tres factores: 1) su propria perso-
nalidad, dela que son partes importantes su poder
creador, su grado de sensibilidad y la flexibilidad
de sus relaciones con el medio; 2) su habilidad para
situarse a sí mismo en el lugar de los demás; y 3)
su comprensión y conocimiento de las neces-
sidades de aquellos a quienes enseña.
(10)
O mesmo autor enfatiza a problemática da relação aluno-
professor, quanto à participação efetiva dos dois pólos desta
relação na execução de um trabalho artístico. Sua pergunta
III.1.5. O professor
6
Debe el maestro producir plasticamente?
(11)
foi respondida
positivamente pelo professores artistas da Bauhaus, como
por exemplo Klee e Kandinsky.
Un trabajo de arte, como producto del espírito
humano, solamente puede ser entendido cuando
se comprenden las fuerzas que movieron a su
creación. Esas fuerzas impulsoras varían con el
indivíduo y con su etapa de desarrollo; también
están determinadas por la cultura en que el trabajo
se ejecuta y por el medio en que se realiza. Para
poder motivar juiciosamente al alumno, es esencial
que el maestro conozca no solo esas fuerzas, sino
que deberá identificarse con el creador,
experimentando sus mismos impulsos como si
fueran parte de sus proprias experiencias.
(12)
A relação didática professor-aluno, no campo da Arte
Educação, deve, assim, se dar não apenas pelo diálogo, mas
pela pesquisa (esta é uma das bases da escola nova baseada
em Jean Piaget - V. V.III.2.4.), pelo mútuo desenvolvimento
artístico, subentendendo-se todos os conhecimentos a ele
vinculados. Neste caso, pode-se dizer que a relação é
verdadeiramente dialética e de maior complexidade, se
comparada com outros setores da educação, pois o aluno
torna-se agente discente não dele próprio, mas do professor,
além do fato de cada um deles se desenvolver por sua própria
auto-aprendizagem e delas poderem compartilhar.
No entanto, não se deve esquecer que a base desse processo
didático está no professor, pois sem ele, método, programa
e cronograma não vingariam, e conseqüentemente não
haveria nenhum processo de ensino-aprendizagem.
De maneira geral, pode-se definir método e técnica como:
... el método viene dado por el sistema de principios
generales directivos, que se presentan válidos para
la consecución de un cierto fin, considerado en sí
mismo y prescindiendo de posibles y variables
condiciones determinantes de un modo concreto,
mientras que la técnica representaría un expediente
específico y bien articulado en sí mismo, capaz de
resolver ciertas situaciones particulares. En suma,
se trata de un “cómo” (medio, procedimiento,
modalidad) adaptado a determinados momentos
de la actividad educativa o didáctica..
(13)
Tanto os métodos, quanto as técnicas, são os meios dos
quais o professor se serve para que possa, de maneira simples
e eficaz, conduzir o aluno à assimilação do conhecimento,
garantindo a aprendizagem pela parte discente.
Segundo Titone, seria perigoso para o professor confiar
simplesmente no que se denomina inspiração do momento,
pois a situação na qual se dá o ato didático é de tal
complexidade que exige por sua vez, um cuidadoso controle
dos principais fatores, que nele intervêm.
No âmbito da Arte Educação, o método segundo Lowenfeld
apresenta mais um objetivo, que é o de estimular a
criatividade.
Debemos afirmar claramente que nuestra
obligación es de ayudar a los individuos a
identificarse con ellos mismos, estimulando sus
capacidades creadoras por los métodos que
permitan hacerlo con mayor eficacia.
(14)
Em sua concepção, mais geral, método está ligado intrin-
secamente com desenvolvimento e finalidade.
Por tanto, decir método equivale a decir orden.
(15)
III.1.6. Método e Técnica
Esta ordem não é necessariamente, nem exclusivamente,
uma estrutura lógica, mas pode-se tratar de uma ordem
psicológica, concebida como contexto de estruturas e
funções mentais. De fato, o método didático tem as duas
composições, psicológica em relação ao discente e lógica
em relação ao conteúdo da disciplina.
Assim, método é também adequação. Mediante ele, docente
e matéria se ajustam ao aluno.
Historicamente, na metodologia didática surgiram duas
correntes opostas: a teoria do método único e o antime-
todicismo.
A teoria do método único valorizou o método, enquanto meio
de ordenar e unificar todos os graus de conhecimento, de
forma abstrata e racionalista. Seus precursores foram
Comenio, Pestalozzi e Herbart. Outro teórico dessa corrente,
Ziller, proclamava que o método era superior à personalidade
do professor, ou seja é onipotente. Apesar da importância
desta teoria, no que se refere à organização lógica do
processo instrutivo, ela é portadora de graves problemas,
devido ao intelectualismo unilateral e abstrato, gerando
formas de ensino baseadas quase exclusivamente no
professor e relegando o aluno a uma passividade contínua,
sem estímulos para iniciativa pessoal e livre participação.
Em oposição a esta corrente, teóricos como Gentile e
Lombardo Radice deram fundamental importância ao caráter
central da personalidade do docente. Os ativistas por sua
vez, preferiram valorizar a espontaneidade da ação discente.
Atualmente, existe um consenso. Não se pode separar
aspectos que devem estar sempre em concomitância: o
aspecto psicológico, com seu jogo racional e irracional de
fatores, pelos quais se apresenta o discente; e o aspecto
lógico, com as determinações objetivas do conteúdo.
O método é assim limitado por condições alheias a ele,
7
subjetivas(do professor e do aluno) e objetivas (tipo de
conteúdo, ambiente, etc.), o que resulta na convicção da
sua relatividade quanto à eficiência por si próprio.
Se entende por conteúdo:
...un sistema orgánico de valores culturales que
se traducen, en el caso del programa escolar, en
determinadas nociones y habilidades.
(16)
Não se pode prescindir do conteúdo, quando da confecção
de um método específico. Esta colocação aparentemente
óbvia, não se apresentou sempre desta forma no decorrer
histórico. Certas interpretações da escola ativista, que
valorizaram a espontaneidade e a liberdade do aluno através
da atividade como processo de experiência, tenderam a
minimizar o valor do conteúdo.
Por outro lado, correntes que primam pelo intelectualismo
exacerbado, valorizaram o conteúdo, em detrimento dos
outros fatores.
Hoje é consenso:
se ve al método como la resultante de un encuentro
sinérgico de un paralelogramo de fuerzas en
equilibrio, es decir, como dependiente tanto del fin
del proceso didáctico como del contenido (objeto
docible), así como del alumno (sujeto discente).
(17)
III.1.7. Método e Conteúdo
Notas e referências bibliográficas
01. AEBLI, Hans. Didática Psicológica. Aplicação à
didática da psicologia de Jean Piaget. Atua-
lidades pedagógicas volume 103. São Paulo: Ed.
Nacional, 1971.p.3
02. TITONE, Renzo. Metodologia didactica. Madrid: Rialp,
1966. p.29
03. REZENDE, Antonio Muniz de. Concepção Fenome-
nológica da Educação. São Paulo: Cortez, 1990.
04. _________,_____________. op. cit. p.49
05. _________,_____________. op. cit. p.51
06. _________,_______________. op. cit. p.51
07. _________,_______________. op. cit. p.53
08 TITONE, Renzo. op. cit.
09. HILLAL, Josephina. Relação professor-aluno.
Formação do homem consciente. São Paulo:
Paulinas, 1985.
10. LOWENFELD, Viktor. Desarrollo de la capacidad
creadora. Vol.1 Buenos Aires: Kapelusz, 1961. p.3
11. __________,_____. op. cit. p.88
12. __________,_____. op. cit. p.88
13. TITONE, Renzo. op. cit. p.31
14. LOWENFELD, Viktor. op. cit. p.3
15. TITONE, Renzo. op. cit. p.465
16. _______, _____. op. cit. p.469
17. _______, _____. op. cit. p.470
Bibliografia complementar
STEFANINI, L. Personalismo educativo.Roma:Bocca, 1955.
VILLALOBOS, Maria da Penha. Didática e epistemologia:
sobre a didática de Hans Aebli e a epistemo-
logia de Jean Piaget. São Paulo: Grijalbo, 1969.
8
Da Escola Nova, também conhecida como ativista ou
reformista, surgiram importantes experiências didático-
pedagógicas. No campo da Arte Educação, a Bauhaus tem
fundamental importância e nela os cursos ministrados por
Itten, Klee, Kandinsky entre outros.
Mas os fundamentos psicológicos da Escola Nova só foram
elucidados com rigor a partir das pesquisas e teorias de Jean
Piaget. A compreensão desses fundamentos é de suma
importância, significa compreender o desenvolvimento do
pensamento e de sua operatividade e, assim, poder planejar
coerentemente um programa de ensino-aprendizagem .
III.2. A Didática da Escola Nova
A didática, enquanto ciência pedagógica, desenvolveu-se
historicamente, passando por diversas fases, nas quais
filosofia e experiência contribuíram para sua orientação geral.
Um dos principais e mais importantes movimentos
reformadores neste contexto foi o chamado Movimento das
Escolas Novas, que pode ainda ser considerado contem-
porâneo, pois suas premissas metodológicas são utilizadas
na didática atual.
Este movimento, também conhecido como Movimento
ativista, começou por volta de 1890, e abalou as estruturas
da escola tradicional (passiva em oposição à inovadora escola
ativa e com base no professor e no programa) e os substituiu
pelo aluno. Na escola tradicional era o programa mais que o
professor o centro da didática.
Para alguns autores, a polêmica entre as duas escolas se
encontra fundamentada em um falso dilema, pois a escola
tradicional não pode ser considerada no todo como passiva,
pois segundo Jean Piaget é necessária uma atividade
cognitiva do aluno, mesmo quando se pensa em imprimir-lhe
passivamente um conhecimento.
A desvalorização da escola tradicional começou pelo que foi,
no início, uma tendência à renovação da cultura e quanto à
educação visava à formação de homens livres. A degeneração
deu-se pelo formalismo das escolas, onde se desenvolveram
os cultos aos belos conceitos, e à forma estilística despojada
de conteúdo.
No decorrer histórico no entanto, surgiram outras propostas
de mudanças, em parte nada inovadoras, entre as quais pode-
se destacar o Programa Enciclopédico de Rabelais (séc. XVIII),
que visava preencher o vazio intelectualista por meio de um
saber mais realista. Este culturalismo enciclopédico terá seu
apogeu com o Iluminismo, e fará com que os programas
escolares sejam definidos fundamentalmente na ciência e
na razão.
III.2.1. A evolução das Escolas
Breve história das correntes
pedagógico-didáticas
Por outro lado, pode-se citar Montaigne e Juan Luis Vives,
promotor do realismo e considerado um pioneiro da pedagogia
nova, que foi o primeiro a chamar a atenção para:
... el aspecto psicológico de la educación, sobre el
valor del método inductivo para las ciencias
naturales, sobre la lengua materna como factor de
concreción;
(1)
Mais adiante, encontrar-se-á Juan Federico Herbart,
inaugurando a corrente metodista, que converterá a praxis
intelectualista em teoria pedagógica, selecionando e
organizando a matéria. Para ele, a educação está baseada
na Instrução e na onipotência do professor, que transmite o
conhecimento. O aluno é reduzido à pura máquina conceitual,
desaparecendo a liberdade e a verdadeira atividade.
Seguindo a corrente neo-kantiana, aparece Pablo Barth, que
parte da psicologia experimental de Wundt, mas ainda tendo
como o centro do processo didático a lição verbal do
professor. Para ele, os fatores essenciais do processo de
aprendizagem são a intuição, a atenção, a memória e o
pensamento, para os quais formula leis precisas e abundantes
(métodos) para o desenvolvimento destas faculdades.
Atualmente, a posição do aluno, como agente principal de
sua própria aprendizagem, é quase consenso, pois ainda se
tem resquícios do regime enciclopédico baseado no total
predomínio do programa, que visa somente o valor do saber
em si, antes do desenvolvimento do aluno.
9
III.2.2. O ensino tradicional e seus
problemas
A didática tradicional, apesar de ser uma noção relativa,
representa a herança da metodologia do século XIX, que
proveio das teorias de Comenius, Rosseau, Pestalozzi e
Herbart, influenciada, porém, pela concepções psicológicas
da época, classificada como sensualista-empirista. Na prática,
essa didática encontra sua expressão no que se costuma
chamar “o ensino intuitivo”
(2)
. Esse ensino tem por
característico, oferecer, na medida do possível, dados
sensíveis à percepção e à observação dos alunos.
(3)
Mas, mesmo na escola tradicional, para que o aluno aprenda
uma noção, é necessário que o dado sensível seja submetido
a uma atividade.
Explica-se, geralmente, esse fato invocando a fraca
aptidão do aluno médio para o desenho. Mas uma
outra observação tende a invalidar essa explicação.
É possível, com efeito, melhorar, considera-
velmente, a capacidade do aluno para reproduzir
determinada figura, se a estudarmos com ele. Ora,
estudar uma figura significa aplicar-lhe uma
atividade, decompô-la, transportar comprimentos
uns para os outros, medir aproximadamente os
ângulos, contar os cantos, acompanhar os
contornos, etc. Sendo assim, não se poderia supor
que mesmo as figuras espaciais não são impressas
passivamente no espírito do sujeito, mas que se
trata, também no caso de uma reconstrução
interior - ativa - da figura dada exteriormente?
(4)
O aprender na escola tradicional está, assim, necessariamente
ligado à cópia da explicação do professor. Essa explicação,
no entanto, é caracterizada pela sua particularização e
desvinculação do todo, ou seja, segundo um esquema
“atomístico”, cada idéia deve ser formada no aluno
separadamente, acrescentando um elemento após o outro,
pois receia-se que uma impressão apague a seguinte. Assim,
esse isolamento artificial, efetuado pelo ensino tradicional,
impede a compreensão e obriga a recorrer à memorização
(sup.) Um dos primeiros
desenhos de observação
realizados sem informação
preliminar. (inf.) Desenho
realizado pelo mesmo aluno
após uso de quadro reticulado,
que propicia melhor apre-
ensão dos contornos, propor-
ções, ângulos, etc. CAU UMC
1
o
. bimestre,1993.
10
de fórmulas verbais.
Outro problema da didática tradicional é o risco de facilmente
se formarem no aluno hábitos intelectuais rígidos, pois as
idéias são sempre invocadas da mesma maneira. Em arte
isto é típico do ensino acadêmico.
(sup.) Um dos primeiros
desenhos de observação
realizados sem informação
preliminar. (esq.) Desenho
realizado pelo mesmo aluno
após uso de quadro reticulado,
que propicia melhor apre-
ensão dos contornos, propor-
ções, ângulos, etc. CAU UMC
1
o
. bimestre,1993.
11
III.2.3.1. John Dewey e Edouard Claparède
No início do século, surgiram vários movimentos de reforma
do ensino, na Europa e na América. Reconhecendo a insufi-
ciência da escola tradicional, propunham uma educação cujas
bases estivessem assentadas na psicologia da criança. Tais
tendências podem ser reunidas sob o nome de “escola ativa”.
São teóricos importantes dessa escola os pedagogos: W.
A. Lay, John Dewey, Edouard Claparède e Georg Kers-
chensteiner. Segundo Hans Aebli, a análise desse autores
mostra que tal escola só chegou a se desligar do ensino
tradicional paulatinamente. No entanto, nenhum deles
conseguiu fornecer fundamentos psicológicos completos
condizentes com a nova didática, não superando as
concepções da psicologia sensualista-empirista. Lay somente
acrescentou certos elementos ativos. Dewey e Claparède,
apesar de reconhecerem a função ativa do pensamento a
serviço da ação, permaneceram fiéis à psicologia
associacionista quanto à interpretação da natureza intrínseca
do pensamento. Kerschensteiner desligou-se definitivamente
dessa psicologia e descreveu com perspicácia a construção
das noções pelo aluno; infelizmente, procurou as forças
reguladoras dessa atividade em princípios de disciplina,
estranhos ao conteúdo da própria atividade,...
(6)
A didática de Lay baseia-se em duas descobertas psicológicas
que se tornaram notórias por volta do fim do século XIX; a do
arco reflexo e a da sensação cinestésica.
(7)
Com base nestas
descobertas, elaborou uma teoria segundo a qual a vida
psíquica se compõe de um conjunto formado pela impressão
(dados percebidos) e expressão, sendo que estes dois pólos
estão sempre intercalados, e a expressão reorganiza o modo
pelo qual se dá a impressão, o que comprovadamente se dá
por acomodação motriz, como o olho ao ser excitado
visualmente, volta-se para a direção exata e acomoda-se à
distância do objeto. Assim, no campo psíquico, representando
graficamente uma figura espacial qualquer, o aluno tornaria
mais aguçada a percepção desta, à medida que a desenha.
Para Lay, a expressão desenvolve a elaboração intelectual.
(8)
É importante frisar que, para Lay, esta reprodução não é um
III.2.3. A didática da escola ativa
ato psíquico isolado, mas pertence a mesma cadeia de
eventos, constitui a reprodução efetiva dos movimentos de
exploração.
(9)
Um problema, na teoria de Lay, é que ela exige que primeiro
se realizem as representações intuitivas dos números, para
só depois serem deduzidas as operações. Assim, muito tempo
é gasto com cópia de figuras para assimilação das formas,
sem muita reflexão matemática. Pode-se dizer que o mesmo
ocorre com as aulas de desenho tradicionais, nas quais detêm
o aluno na execução correta do traço, sem conexão com a
compreensão das relações espaciais daquilo que desenha.
As concepções didáticas de J. Dewey, segundo Aebli,
decorrem logicamente de suas idéias psicológicas e
filosóficas e, por instrumentalistas que são, o separam
radicalmente da escola tradicional. Não se limita à formulação
de enunciados gerais, mas descreve regras didáticas precisas,
baseadas na sua concepção do pensamento.
O pensamento para Dewey é sempre visto num contexto
ativo, de transformação das coisas físicas e na construção
de novas relações e novas estruturas sociais. Ele é um
instrumento, assim como a observação, e vem sempre de
uma necessidade, que tem sua origem na execução de algo.
Mas, em sua natureza intrínseca, o pensamento é descrito
por Dewey como um jogo de inferências que ligam os dados
da observação com suas significações e os conteúdos da
consciência em si
(10)
, algo semelhante à associação na
psicologia clássica. Segundo Aebli as novas concepções,
nessa área, só foram introduzidas a partir de Piaget.
Edouard Claparède chegou a uma interpretação semelhante
sobre a questão do pensamento. Observa que toda ação tem
por função readaptar o indivíduo ao meio quando rompido o
equilíbrio entre eles
(11)
e pensamento serve para controlar tal
ação.
Também em Claparède, a necessidade surge como causa do
pensamento. Ela detona a energia necessária à atividade de
observação e reflexão.
No entanto, Dewey concebe uma visão do pensamento em
sua gênese, durante a formação da criança, colocando que
existe uma continuidade genética entre ação e pensamento,
pois a ação já contém um elemento cognitivo e o
conhecimento, ao contrário, conserva sempre um elemento
ativo.
Assim, os dois pedagogos têm muito em comum, mas
Claparède preocupa-se sobretudo em mostrar que o ensino
deve corresponder às necessidades da criança, enquanto
12
Dewey concentra sua análise nas relações entre ensino
teórico e ação prática e nos métodos de pensamento e de
pesquisa que o aluno deve adquirir.
(12)
A didática, tanto de Dewey como de Claparède concentra-
se na pesquisa, enquanto processo construtor de coisas
novas, sendo que a observação é instrumento indispensável
para tal. Formulam-se hipóteses que serão com a experiência,
demonstradas legítimas ou não. Concebem-se como
decorrentes de um mesmo desenvolvimento, os impulsos
naturais da criança e a ciência.
Um dos maiores teóricos da escola ativa alemã, propõe que
o aluno deve ele mesmo elaborar as novas noções. Também
coloca a questão da observação ativa, ou seja, não se observa
sem pensar e só se observa aquilo que se quer observar.
Assim, propõe uma redução das matérias, com apresentação
de poucos casos.
Apesar da semelhança com a concepção de Dewey sobre
as etapas do pensamento, ou da formulação das noções,
Kerschensteiner insiste muito mais no controle das hipóteses,
mas não dá grande importância ao fato de que todo
pensamento deva vir do espírito próprio do aluno.
Coloca como caráter principal da escola ativa, desenvolver
no aluno a elaboração e o controle da fidelidade e da
objetividade do conhecimento, adquirido por ele mesmo
através da experiência, ou melhor, a obrigação de fazê-lo.
Este fato representa um aspecto muito importante segundo
Aebli, pois Kerschensteiner quer desenvolver no aluno uma
atitude crítica para consigo mesmo e para com seu trabalho.
O aluno deve aprender a realizar esforços prolongados, a lutar
contra sua própria inércia, a vencer-se a si mesmo.
(13)
III.2.3.2. Georg Kerschensteiner
13
Para a psicologia sensualista-empirista (associacionista)e a
didática tradicional, as imagens são elementos fundamentais
do pensamento aritmético, geométrico e das ciências
naturais.
Presume-se que delas derivam as noções gerais
por um processo de abstração eliminatório dos
caracteres acidentais.
(14)
Segundo Aebli, a experiência cotidiana do ensino escolar por
si só evidencia a insuficiência dessa teoria
(15)
, pois todos os
tipos de atividades realizadas em sala de aula (comparar
elementos, imaginar transformações, ou simplesmente
acompanhar as demonstrações) ultrapassam o processo de
impressão e indicam que os elementos fundamentais do
pensamento não são imagens estáticas, cópias de modelos
exteriores, mas esquemas de atividade em cuja elaboração
o sujeito toma parte ativa e importante.
(16)
Piaget não nega a existência das imagens, mas lhes atribui
uma função diversa. Na constituição das noções fundamentais
do pensamento, a percepção das configurações estáticas
(imagens) desempenha papel secundário em relação à
operação. A imagem é o suporte do pensamento e torna sua
evocação exterior possível. O pensamento é uma forma de
ação que não pára de diferenciar-se, organizar-se e apurar
seu funcionamento durante o desenvolvimento genético.
(17)
Para Piaget, o elemento ativo do pensamento, que é antes
de tudo um sistema de operações lógicas, físicas (espaço-
temporais) e numéricas
(18)
, é a operação.
(19)
É ela que assegura que os progressos essenciais
da inteligência, em oposição à imagem, que
desempenha o papel do elemento relativamente
estático, que não pára de recortar instantâneos das
transformações operatórias.
(20)
Por analogia, podemos, então, compreender (e a
III.2.4. A psicologia de Jean Piaget aplicada
à didática da escola ativa
III.2.4.1. O pensamento
introspeção de todos aqueles que estudaram
desenho o confirma) como deve ser concebida a
atividade perceptiva visual: como para a exploração
tátil, deve tratar-se de movimentos que sigam e
explorem as linhas e as relações das figuras,
praticamente com a única diferença de que o órgão
que assegura a exploração é o olho (movimentos
do olhar), e que é preciso, provavelmente, fazer
intervir movimentos interiores que não se
desdobrem mais em deslocamentos efetivos do
orgão explorador. Por conseguinte, compreende-
se, também, que a imagem mental nada mais é
que uma reprodução interiorizada dos movimentos
de exploração perceptiva: eis a razão pela qual
podemos, igualmente, chamá-la uma imitação
interiorizada do objeto e por que é exatamente
comparável ao desenho: a imagem mental é para
o desenho o que a linguagem interior é para a
linguagem falada.
(21)
Didaticamente, entender a questão do pensamento, enquanto
imagem e operação na formação de um sistema, implica em
admitir que o aluno só adquire uma operação apresentada
pelo professor quando a imita interiormente; sem isso não
há verdadeira aquisição de conhecimento e, sim, a aquisição
de um hábito (reação de desenvolvimento estereotipado), e
que geralmente só são aplicados em situações exatamente
iguais às quais foram apreendidos, pois o sujeito não
consegue atribuir-lhe significado (simples hábito sensório-
motor).
Atribuir significado é compreender a regra intrínseca da
operação, o que permite evocá-las interiormente. Assim,
pode-se dizer que a compreensão do significado, no ensino
tradicional, é parcial, pois está, via de regra, voltado para a
formação de hábitos, decorando verbalmente os passos da
operação ou mecanizando o aprendizado.
Aprender a desenhar é aprender a compreender o espaço
14
real ou imaginário, pelo entendimento do significado das
relações de perspectiva e projeção, e expressar graficamente
essas relações.
A principal diferença entre o hábito e a operação é que o
primeiro tem por característica ser de funcionamento rígido,
porque é irreversível (está sempre dirigido para o mesmo
resultado
(22)
). Já a operação caracteriza-se pela rever-
sibilidade, o que dá mobilidade ao pensamento.
A inteligência constitui-se de um conjunto de operações e
por isso de caráter reversível, ou seja, pode construir
hipóteses e logo depois desconsiderá-las para reiniciar o
processo, percorrer um caminho, e percorrê-lo novamente
de modo inverso, sem modificação das noções.
Além da reversibilidade, Piaget demonstrou que o
pensamento (enquanto operação) possui outras duas
características: associatividade (no sentido lógico do termo)
e formação de conjuntos.
A associação permite ao sujeito obter um mesmo resultado
de maneiras diferentes, ou seja, realizar a operação
associando diferentes relações. As operações formam,
também, sistemas de conjuntos, enquanto os hábitos são
isolados.
As análises de Piaget revelam, também, que o trabalho em
grupo e a reciprocidade propiciam o desenvolvimento
intelectual. A discussão exige opiniões individuais de cada
participante e propicia uma comparação lógica entre elas.
Assim, a socialização das atividades permite raciocinar com
mais lógica, pois deve-se evitar a contradição.
Desenho de observação , inte-
rior do Edifício da Arquitetura.
CAU UMC 2
o
. bimestre,1996.
Kellen Muller.
15
No método Maiêutico
...o mestre faz a classe achar o resultado desejado
mediante uma série de perguntas habilmente
feitas, cada uma representando uma etapa parcial
do desenvolvimento de conjunto.
(23)
A escola ativa propõe que o aluno realize pesquisa, ou seja,
ele mesmo formule as perguntas e chegue ao resultado, sob
orientação flexível do professor. A pesquisa é o momento no
qual se dá o progresso no pensamento do aluno, assim como
do cientista.
Mas segundo Piaget, toda operação e toda noção tem uma
história de construção progressiva e contínua a partir de
elementos anteriores, ou seja, toda nova noção só surge de
experimentos baseados em noções anteriores. Uma nova
operação não surge do nada.
Assim, os dados de partida de uma pesquisa nada
mais constituem senão os elementos de
pensamento anteriores a uma nova operação, e é
o esforço investigador da criança que provoca essa
diferenciação e integração característica do
progresso do pensamento.
(24)
III.2.4.2. A pesquisa e a construção da
operação
Conhecer os objetos do mundo é uma questão de leitura da
experiência
(25)
. Submeter o objeto aos esquemas de seu
comportamento, incorporá-lo. Este é o processo psíquico de
assimilação esclarecido por Piaget. A assimilação é, pois,
uma relação entre o sujeito assimilador e o objeto assimilado.
Piaget também mostrou que a aplicação dos esquemas dados
a novos objetos acarreta na maioria dos casos sua
modificação no sentido de uma diferenciação e que essa
acomodação a novos objetos ocasiona a gênese progressiva
de reações cada vez mais complexas.
(26)
A assimilação motriz do bebê é reconhecida como do mesmo
tipo que aquela conseguida com trabalhos manuais em aulas
de artesanato. Mas, tanto na criança como no adulto, o
conhecimento adquirido neste tipo de relação não se restringe
III.2.4.3. A Assimilação
(sup.e dir.) Desenhos de
observação , interior do Edifício
da Arquitetura. CAU UMC 2
o
.
bimestre,1996. Respectiva-
mente: Regina Fukuda e
Ricardo Guerra.
16
às qualidades de utilização do objeto, mas na compreensão
de sua forma. Isto se deve ao fato da percepção ser um
processo ativo, ou seja, o indivíduo não se restringe a receber
uma impressão do objeto observado, mas participa
ativamente do processo de apreensão do mesmo, ele explora
o dado apresentado.
O sujeito deve acompanhar-lhe os contornos,
escolher pontos de referência, estabelecer
relações, executar transportes, etc.
(27)
Assim, duas são as categorias, segundo Aebli, de qualidades
apreendidas por assimilação ativa: as de utilização e as
propriedades espaciais das coisas.
O desenho de observação, tido por muitos como mera
representação de uma impressão do visível, é também um
processo ativo. Está relacionado mais à apreensão da
realidade, ao aprofundamento da percepção das relações
físicas entre os objetos, do que propriamente ao desenho
em si. Assim, a assimilação da realidade do espaço requer
uma participação ativa do indivíduo. Este tipo de desenho é,
antes de tudo, um meio de leitura e incorporação da realidade
física.
Pode-se dizer que, no ensino do desenho, particularmente
no desenho de observação deve-se primeiro desenvolver no
aluno a capacidade de realização desses esquemas. Existem
inúmeras técnicas, usadas no renascimento e durante o
período áureo das academias, muitas usadas ainda hoje,
como o quadro de vidro, o uso do lápis, para comparar
proporções, ângulos, etc. No entanto, na maioria dos casos,
o que se verifica é que estes recursos são apreendidos pelos
alunos como hábitos e não como verdadeiros esquemas de
conhecimento. Eles apenas decoram uma técnica, sem
aprenderem realmente a operação nela existente.
Um dos primeiros desenhos de
observação , interior da sala de
aula, Edifício da Arquitetura.
CAU UMC 1
o
. bimestre,1993.
O desenho explicita um dos
maiores problemas dos alunos
iniciantes: a perspectiva.
17
(sup.) Desenho de observação,
vista do interior de um
ambiente para o exterior. CAU
UMC 2
o
. bimestre,1992. O
exercício objetivava uma
passagem gradual do desenho
de observação do espaço
interno para o espaço externo.
(sup. e esq.) Desenho de ob-
servação, paisagem urbana,
vista de praça e igreja em Mogi
das Cruzes. CAU UMC 2
o
.
bimestre,1993.
18
Notas e referências bibliográficas
01. TITONE, Renzo. Metodologia didactica. Madrid: Rialp,
1966. p.42
02. AEBLI, Hans. Didática Psicológica. Aplicação à
didática da psicologia de Jean Piaget. Atua-
lidades pedagógicas volume 103. São Paulo: Ed.
Nacional, 1971. p.7
03. AEBLI, Hans. op. cit. p.8
04. _____,_____. op.cit. p.12
05. _____,_____. op.cit.
06. _____,_____. op.cit. p.18
07. _____,_____. op.cit. p.18
08. LAY, W. Der Rechenunterricht auf experimentell -
padagogischer Grundlage. Leipzig: 1914. cit. in:
AEBLI, Hans. op. cit. p.19
09. AEBLI, Hans. op. cit. p.20
10. _____,_____. op.cit. p.34
11. _____,_____. op.cit. p.28
12. _____,_____. op.cit. p.30
13. _____,_____. op.cit. p.40
14. _____,_____. op.cit. p.47
15. _____,_____. op.cit. p.47
16. _____,_____. op.cit. p.47
17. _____,_____. op.cit. p.48
18. _____,_____. op.cit. p.51
19. É necessário ressaltar que esta teoria não é suficiente
para o entendimento do pensamento artístico como
um sistema de “operações estéticas”.
20. AEBLI, Hans. op.cit. p.51
21. _____,_____. op.cit. p.55
22. _____,_____. op.cit. p.63
23. _____,_____. op.cit. p.72
24. _____,_____. op.cit. p.75
25. _____,_____. op.cit. p.78
26. _____,_____. op.cit. p.79
27. _____,_____. op.cit. p.80
Bibliografia Complementar
PIAGET, Jean. A epistemologia genética. São Paulo: Abril,
1983.
VILLALOBOS, Maria da Penha. Didática e epistemologia:
sobre a didática de Hans Aebli e a episte-
mologia de Jean Piaget. São Paulo: Grijalbo,
1969.
19
Segundo Aebli,
a aplicação da psicologia de Jean Piaget à didática
deve ter seu ponto de partida na tese fundamental
segundo a qual o pensamento não é um conjunto
de termos estáticos, uma coleção de conteúdos
de consciência, de imagens, etc., mas um jogo de
operações vivas e atuantes. Pensar é operar - quer
se trate de assimilar os dados da experiência
submetendo-os aos esquemas de atividade
intelectual ou de construir novas operações por
uma reflexão, “abstrata” na aparência, isto é,
operando interiormente sobre objetos imaginários.
A imagem não é o elemento fundamental do
pensamento, antes constitui seu suporte, muitas
vezes útil, sem dúvida, mas não indispensável.
Além disso, em sua natureza íntima, a própria
imagem constitui um ato real e não um resíduo da
sensação: é uma reprodução dos aspectos
principais da exploração perceptiva que se deu no
momento da percepção de seu modêlo.
(1)
Existe um ponto, no entanto, nesta afirmação, que não condiz
com ensino do desenho. A questão da imagem para aquisição
de conhecimento pictórico não é dispensável. Trata-se de
pensamento visual e não puramente abstrato. Para o aluno
de arquitetura, a imagem é conhecimento, é referência e
base para pesquisa.
Segundo Piaget todo ato intelectual é construído progres-
sivamente, a partir de reações anteriores e mais primitivas.
(2)
Assim, o professor deve criar situações para a construção
das operações, apelando para os esquemas anteriormente
adquiridos. Conhecer previamente os alunos é fundamental
para o andamento do curso. Os alunos devem expressar, de
forma espontânea e livre, seus conhecimentos, para que o
professor consiga identificar os esquemas adquiridos pela
turma e planejar o curso de forma eficiente.
III.3. Um curso de desenho com base na
pesquisa e exemplos de experiência
didática
Desenho gestual, acompa-
nhando ritmo de música.
Composição com linhas.
Nanquim sobre papel. 1
o
.
bimestre, CAU UMC,1993.
20
Quando o aluno adquire uma noção ou operação é porque a
construiu, e não porque estas foram nele impressas de forma
passiva.No ensino tradicional, esta construção é rigo-
rosamente dirigida. A explicação é ouvida, e sendo assim, é
menos interessante do que se fosse descoberta pelo próprio
aluno. O método Maiêutico dirige a apreensão do
conhecimento através de perguntas feitas pelo professor e
respondidas pelo aluno . Muitas vezes, esta apreensão não é
realizada de forma completa, ou seja, o aluno não apreende
a estrutura do conjunto, como um todo, pois foi o professor
quem forneceu os elementos do complexo, a organização
estrutural das idéias. Logo, deve o aluno ser levado a fazer a
si próprio as perguntas, deve ele mesmo elaborar a estrutura
da apreensão do conhecimento, deve elaborar e estruturar a
pesquisa.
Mas, para obter sucesso, é necessário que toda pesquisa
parta de um problema bem vivo no pensamento do aluno. A
psicologia de Jean Piaget nos ensina, com efeito, que um
problema constitui uma esquema antecipador, isto é, um
esboço esquemático de uma operação a encontrar, solidário
de um sistema de conjunto de operações.
(3)
No ensino do desenho, verifica-se que muitas vezes a falta
de repertório dos alunos faz com que esses não despertem
para a compreensão do problema proposto e conseqüen-
temente para a busca de soluções.
O ensino do desenho deve ser encarado como direcional da
atenção do aluno para apreensão do problema, fazendo com
que utilize noções já assimiladas, ou que internalize novas
operações, para que possa dar solução ao problema proposto.
É verdadeiramente o “ensinar a pensar”, lema didático de
Kandinsky no período Bauhaus.
A atenção, no entanto, pode estar voltada para a percepção
do objeto, no caso do desenho de observação, para o aspecto
gráfico do desenho, no caso de formação de ilustradores
profissionais, ou na expressão da personalidade do indivíduo.
Desenhos de observação,
ambiente interno. 2
o
. bimestre,
CAU UMC,1992. Juscelino
Silva. Os desenhos explicitam
a principal dificuldade dos
alunos iniciantes: a pers-
pectiva.
21
No caso da observação, a percepção tem vários níveis. Pode-
se dirigir o curso para que o aluno perceba os objetos como
estruturas tridimensionais constituídas de partes, que se
encaixam, se moldam, se interligam umas às outras. Ou pode-
se, também, levar o aluno a perceber esses mesmos objetos
como projeção de luz em um quadro imaginário presente entre
o observador e o objeto. (como o fizeram Da Vinci e Dürer).
Neste caso, pode-se dirigir a atenção na percepção da
construção dos objetos pelos contornos, ou pela linha
(4)
que
os define. Também, pode-se dirigir o aluno para a percepção
desses mesmos objetos como projeções de massas de luz e
sombra ou valores cromáticos, nas quais o contorno
verdadeiramente não existe. Nos três casos, a percepção
utilizada, a ação realizada pelo aluno para aquisição do
conhecimento requer níveis diferentes de capacidade
cognitiva. No primeiro caso, a atividade exige construir
internamente modelos de representação tridimensional para
a compreensão do objeto e sua posterior representação. Nos
outros dois, a percepção é dirigida a ver os objetos de forma
bidimensional, o modelo representado é plano. Mesmo nos
desenhos de imaginação, ou seja, aqueles nos quais o objeto
já foi internalizado, assimilado ou já se transformou em uma
nova elaboração formal, os esquemas apreendidos com o
desenho de observação, são características formais reais do
objeto, fundamentais para representação gráfica.
Se no, entanto, a atenção do aluno for dirigida ao aspecto
gráfico, mais que a percepção do objeto, a construção do
desenho se dará concomitantemente no próprio fazer. É o
grafismo, o controle do instrumento, que define a execução.
Mas a atenção, também, pode estar voltada para a
representação da própria expressão estética, sem vínculo
com a realidade pictórica, a exemplo dos trabalhos de
Kandinsky antes da fase Bauhaus. O abstrato pertencente a
estes trabalhos é na verdade representação direta e
espontânea dos desejos, sensações e sentimentos do artista.
A atenção está voltada para seu próprio interior subjetivo.
22
III. 3.1. Experiência didática e a inserção
do desenho como pesquisa
Coetâneo ao desenvolvimento desta tese, de 91 a 96, atuei
como docente em parceria com os professores Sérgio
Carneiro e Neide de Melo Nunes Machado, nas disciplinas
de Desenho e Materiais Expressivos e Plástica na arquitetura,
respectivamente lecionadas para alunos de 1
o
. e 2
o
. ano do
Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Mogi
das Cruzes. Deste trabalho resultaram algumas considerações
empíricas que serão sinteticamente aqui relatadas, de forma
a demonstrar algumas colocações teóricas.
Um exemplo de hábitos adquiridos, e não de conhecimento
verdadeiramente apreendido, pode ser expresso pelo
exemplo a seguir. Propúnhamos aos alunos, na disciplina de
desenho, que fizessem passo a passo o exercício do quadro
de vidro: traziam o acetato, fixavam no quadro de vidro,
desenhavam com caneta de retroprojetor, sem se mover ,
de frente para o quadro e com um só olho. Desenho
terminado, sobrepunham um papel manteiga, traçavam as
linhas que formavam um feixe de retas e achavam os pontos
de fuga. Depois, ligavam tais pontos por uma linha horizontal
e achavam a linha do horizonte. Tudo isso para fazer-lhes
apreender o real significado do desenho em perspectiva e
suas regras (projeção num plano). Apesar do exercício ser
realizado por todos da mesma maneira, verificávamos que
poucos entendiam seu conteúdo e aprendiam com ele. A
maior parte dos alunos o realizava mecanicamente, sem ter
a menor noção do que significavam tantas linhas.
Conseqüentemente decoravam as regras de perspectiva e
não a entendiam como decorrentes de um processo
perceptivo analítico.
A solução, talvez, esteja, então, em elaborar exercícios nos
quais os alunos procurem tal processo como método de
pesquisa. Por exemplo, maquetes tridimensionais, nas quais
pudesse o aluno visualizar a situação em questão de forma
global (indivíduo - quadro - objeto - projeção). Entendendo a
estrutura do conjunto, realizaria o exercício de forma mais
adequada. O mesmo deve acontecer se o desenho for visto
como meio de entender os objetos, enquanto estruturas, e
de como se relacionam as partes da mesma. A manipulação
de maquetes induziria o aluno a se perguntar sobre o
problema.
Nas palavras de Aebli,
se nos propomos levar os alunos a descobrir por
uma investigação pessoal o conjunto de um
sistema de operações e não apenas as operações
parciais desse sistema, é preciso orientar a
atividade colocando cuidadosamente o problema.
(5)
A intervenção do professor na pesquisa pode ocorrer, às vezes
seguindo o método maiêutico, mas com significado
psicológico diverso, não conduz a reflexão dos alunos numa
direção conhecida apenas por ele; ajuda-os a resolver um
problema vivo em seu espírito e a realizar um projeto de
pesquisa que compreendem, mas cuja realização se choca
com certas dificuldades que ultrapassam seus próprios
recursos.
(6)
Aebli aconselha a reduzir a amplitude do problema, para que
a classe tenha condições de dar andamento à pesquisa por
seu próprio esforço.
Apresentar um problema de maneira clara e viva
é, assim, a condição sine qua non para a pesquisa
pessoal do aluno.
(7)
Ensinar a pensar é tornar o aluno capaz da construção de
operações, pela pesquisa, a partir de um problema. Se o
desenho em arquitetura é representação do pensamento,
ensinar a desenhar é ensinar a pensar de forma concreta. A
construção das operações se dá pela pesquisa da observação
ativa da realidade circundante. Novas noções surgem, com
base nessas noções e operações já internalizadas (escala,
proporção, etc.) da produção pela pesquisa, que no caso da
arquitetura tem função de projeto.
Desenho de observação com
uso de quadro de vidro. Caneta
hidrocor sobre acetato. Poste-
rior marcação dos pontos de
fuga. 2
o
. bimestre, CAU UMC,
1993.
23
Se ao apresentar o problema não se apela para
esquemas de que o aluno dispõe com facilidade,
se os dados iniciais não são suficientes, a pesquisa,
simplesmente, não chega aos resultados
esperados, perde-se tempo e certos alunos
renunciam mesmo a qualquer esforço.
(8)
Convém, então, simplificar as circunstâncias exteriores da
pesquisa. Uma experiência nesse sentido foi realizada com
sucesso na disciplina de desenho citada anteriormente. O
objetivo era fazer com que os alunos intuíssem o projeto como
exercício de transformação da realidade sensível. Assim,
deveriam, para tanto, elaborar de início, sem desenho, uma
construção estereométrica, a partir de quatro planos
quadrados de papelão, somente por corte e encaixe sempre
no centro das figuras. Deveriam encontrar uma solução formal
que os agradasse esteticamente. Feito isso, foi pedido para
que desenhassem, de observação, três vistas diferentes do
mesmo objeto. Durante a execução do desenho, procurou-
se alertar os alunos sobre a questão da inserção do desenho
na folha, que as vistas fossem suficientemente, diferentes
para dar uma idéia completa do objeto, assim como também
a colocação do fundo (mesas, cadeiras), objetos que
pudessem fornecer uma noção de escala do modelo
desenhado. O problema foi apresentado de tal forma que o
objetivo era fazer com que alguém, que não tivesse visto o
objeto, observando os desenhos, conseguisse montá-lo
novamente.
Na aula seguinte , no entanto, tiveram que trabalhar somente
com os desenhos, sem montar o objeto. O problema estava
em modificar o objeto, imaginando-o como tal e desenhando-
o novamente. As três vistas deveriam ser modificadas em
relação ao novo objeto. Pediu-se que colocassem mais um
plano quadrado e que um dos anteriores se transformasse
em círculo. O problema, a partir daí, ganhava ares de projeto,
pois nem todos os planos eram passíveis de se transformarem
em círculos, sem que destruíssem a estabilidade da estrutura.
O mesmo acontecendo com o plano a ser anexado.
III.3.2. A apresentação do problema
Exercício de composição de
estrutura tridimensional. De-
senhos de observação e de al-
teração da estrutura (transfor-
mação de um plano quadrado
em circular e adição de mais
um plano quadrado). 2
o
. bimes-
tre, CAU UMC,1996. Adriana I.
da Silva.
24
Exercício de composição de
estrutura tridimensional. De-
senhos de observação. 2
o
.
bimestre, CAU UMC,1996.
25
Exercício de composição de
estrutura tridimensional. De-
senhos de observação e de al-
teração da estrutura (transfor-
mação de um plano quadrado
em circular e adição de mais
um plano quadrado). 2
o
. bimes-
tre, CAU UMC,1996. Luiz
Carlos Arellano Jr.
26
Exercício de composição de
estrutura tridimensional. De-
senhos de observação e de al-
teração da estrutura (transfor-
mação de um plano quadrado
em circular e adição de mais
um plano quadrado). 2
o
. bimes-
tre, CAU UMC,1996. Vagner P.
do Nascimento.
27
Tal exercício se revelou muito interessante e de resultados
satisfatórios, pois o problema foi simplificado, levando em
consideração as noções já assimiladas, o que permitiu sua
execução. Mesmo para os desenhos de qualidade gráfica
inferior à média da sala, notou-se a compreensão da operação
realizada e da estrutura envolvida na relação entre projeto e
desenho.
Isto vem de encontro às colocações de Piaget sobre a questão
da pesquisa como método de ensino, considerado por Aebli
um método muito mais difícil que todos os outros. Assim, na
medida do possível, deve ser fornecida ao aluno a
oportunidade de executar materialmente as operações
durante seus ensaios.
...um problema, que tem por objeto a realização
ou a descoberta de uma operação, é sempre um
projeto de ação, realizável por manipulações
efetivas, seja com objetos concretos, seja
mediante desenhos nos quais o aluno executa
transformações, partições, transportes, etc.
(9)
Apresentar o problema de forma prática dá oportunidade a
todos os alunos de entenderem a operação antes que seja
colocada de forma abstrata. Isto deve ser realizado em
conjunto com todos os alunos, dando oportunidade de
discussão do problema. Aebli também coloca que o ponto
de início de uma pesquisa se deve basear em dois pólos de
um conflito, num contraste de informações, para que os
alunos se perguntem sobre o problema. O conflito, o
contraste, gera a dúvida que leva à pesquisa. Progres-
sivamente, os termos usados na prática concreta serão
substituídos pelos termos científicos e assim assimilados.
Uma outra vantagem da prática do problema está na
verificação, por parte do aluno, da aplicação deste à realidade
do cotidiano; isto contribui para despertar seu interesse,
fundamental para a formação de seu pensamento.
Em desenho, é necessário que o professor conheça o
repertório do aluno e lhe forneça condições de aumentá-lo,
buscando naquilo que o aluno já conhece, seu desenvol-
vimento.
Aebli complementa que, apesar disto, o ensino não pode se
basear exclusivamente na prática dos exercícios, prin-
cipalmente porque, quanto mais complexas as disciplinas,
mais seguem suas próprias leis de desenvolvimento, de
maneira que, às vezes, torna-se impossível relacionar teoria
e prática.
A pesquisa por parte do aluno não termina enquanto método
de ensino na entrega do trabalho para o professor. É
necessária uma discussão, a fim de corrigir os dados
encontrados erroneamente e completá-los quando não
suficientes. Os debates, assim como os trabalhos em equipe,
propiciam a sociabilidade dos alunos e o intercâmbio de idéias.
Em desenho, observar o trabalho dos colegas aumenta o
repertório, desinibe, pois o aluno verifica que está no nível
da média da sala e que seus problemas são também os dos
colegas, que suas dificuldades são na maioria dos casos regra
geral. Mas não só os problemas vêm à tona numa mostra de
desenhos da sala, as soluções também. Cabe ao professor
salientar de forma construtiva as variantes produtivas na
resolução do problema, deve demonstrar como uma
conquista do aluno e também como uma solução entre muitas
possíveis. Deve evitar a exaltação de trabalhos como modelos
a serem copiados, ou seja deve evitar, na medida do possível,
a exaltação à mimese de desenhos e características gráficas
particulares, e propiciar um ambiente de produção, no qual a
expressão pessoal de cada aluno possa se desenvolver.
Refazer exercícios, corrigindo os erros ou problemas, é
também um caminho que se revelou produtivo não só em
desenho, mas em outras disciplinas afins. Analisar o trabalho
com o aluno, fazê-lo perceber os problemas e refazer o
trabalho, não como punição, mas como aperfeiçoamento do
próprio esforço, revelou-se também fonte inspiradora do
Desenho de observação (mesa
nível do chão), marcação dos
pontos de fuga e posterior
desenho de imaginação (me-
sas sobrepostas). 3
o
. bimes-
tre, CAU UMC,1996. Ricardo
Guerra.
28
interesse discente. Quando o aluno percebe que pode refazer
o trabalho de forma a otimizar sua avaliação, ele o faz
geralmente com prazer.
Aebli coloca, ainda, que a escolha do modo de trabalho
depende da natureza do problema a ser resolvido. De um
lado, problemas que exigem do aluno a construção de uma
nova operação ou noção. De outro, problemas que exigem
somente a aplicação de noções já conhecidas.
Estabelecida essa distinção, podemos dizer que
quanto mais um problema tende para o lado das
construções intelectuais novas, melhor se presta
à discussão em comum, e quanto mais uma
questão se aproxima dos problemas de aplicação,
melhor se presta ao trabalho em equipes.
(10)
Em se tratando de desenho, no entanto, o ponto crucial do
fazer está no trabalho individual, que pode ser socializado
pelos debates sobre os trabalhos executados. Pôde-se
verificar, também, durante a disciplina, que a discussão torna-
se muito mais fértil quando o enfoque recai sobre as
dificuldades na realização dos mesmos, dificuldades em todos
os sentidos, psicológicas, técnicas, intelectuais, perceptivas.
Vale lembrar que a operação material, ou seja, a prática do
exercício, não implica necessariamente na internalização da
operação. O aluno pode, mesmo assim, não aprender
verdadeiramente, mas formar hábitos, que, como visto, são
rígidos, não associativos e sem reversibilidade. No caso do
desenho para arquitetos, isto é evidente quando da apreensão
das noções de perspectiva decorrente do desenho de
observação ou de imaginação (neste ponto o aluno já tem
noções básicas da construção geométrica; linha do horizonte,
pontos de fuga, etc.). Geralmente os alunos constroem
mecanicamente o espaço perspéctico, sem vínculo com sua
realidade tridimensional. O que pode ser evitado, trabalhando-
se conjuntamente o desenho diédrico (plantas e cortes de
preferência também à mão-livre) e com a construção de
pequenos modelos e maquetes. A reversibilidade da operação
torna-se obrigatória na prática desses exercícios.
Desenho de observação
(cadeira nível do chão), marca-
ção dos pontos de fuga e pos-
terior desenho de imaginação
(cadeira superior). 3
o
. bimes-
tre, CAU UMC,1996.
Desenho de observação (mesa
nível do chão), marcação dos
pontos de fuga e posterior
desenho de imaginação (mesa
superior). 3
o
. bimestre, CAU
UMC,1996.
Desenhos típicos de alunos
que decoram alguns procedi-
mentos de construção pers-
péctica, mas que não os apren-
dem realmente.
29
Desenhos de imaginação com
utilização de elementos de
construção perspéctica. 3
o
.
bimestre, CAU UMC,1996.
(sup. dir.) Regina Fukuda.
30
Desenhos de imaginação com
utilização de elementos de
construção perspéctica. Dois
objetos sob cama ou mesa,
com o olho do observador a
aproximadamente 20 cm do
chão. 3
o
. bimestre, CAU
UMC,1996.
31
Desenhos de observação e de
imaginação. Modificação do
teto da sala de aula, 3
o
.
bimestre, CAU UMC,1996.
(sup. esq.) Teto modificado,
Luiz Arellano Jr. (dir.) Obser-
vação e modificação, Marina
Mariani.
32
Desenhos de observação,
quatro vistas diferentes do
mesmo ambiente, mudando
altura e posição do observador.
Croquis rápidos. 2
o
. bimestre,
CAU UMC,1996. (sup. esq.)
Edna F. de Oliveira.
33
(esq.) Desenho de memória de
um ambiente doméstico. (sup.)
Desenho de observação do
ambiente, posterior ao de
memória realizado em sala de
aula. 3
o
. bimestre, CAU UMC,
1993.
34
(esq.) Desenho de memória de
um ambiente doméstico e
desenho de observação do
mesmo ambiente, posterior ao
de memória realizado em sala
de aula. 3
o
. bimestre, CAU
UMC, 1993. Leonardo Hng.
(sup.) Desenho de memória de
um ambiente doméstico
realizado em sala de aula. 3
o
.
bimestre, CAU UMC, 1993.
35
Desenhos de memória de um
percurso realizado diariamente
pelo aluno. Mapa e vistas mais
importantes do percurso. 3
o
.
bimestre, CAU UMC, 1993.
36
De maneira geral, os pedagogos reformistas basearam seus
esforços no objetivo de estimular a criança ou o jovem a
desenvolver as habilidades ocultas, latentes, conjuntamente
com o imaginário e a criatividade, através de uma apro-
ximação livre e lúdica da realidade, incentivando a apren-
dizagem autônoma, ou o aprender por si mesmo.
Tais preceitos foram absorvidos com tal intensidade pelo
ensino ligado à arte, que desencadearam uma total
reformulação dos cursos, e não somente no contexto infanto-
juvenil, mas pertinentes à didática para adultos, dos cursos
técnicos nos liceus aos superiores, nas universidades. Isso
ocorreu devido à própria condição imanente da arte, que
sempre envolveu preceitos como auto-aprendizagem,
criatividade, imaginação.
Assim, pode-se dizer que dentre os vários segmentos no
âmbito da Escola Nova, o movimento de educação artística
foi um dos mais frutíferos em novos métodos e
procedimentos. Destacam-se nomes como Carl Götze (Das
Kind als Künstler / A criança como artista, 1898), Heinrich
Scharrelmann (Malen und Zeichnen / Pintar e desenhar) que
insistia na união entre o desenho e a experiência da criança;
e John Dewey, cujo lema “learning by doing” tornou-se um
dogma da nova pedagogia. Dewey também merece maior
destaque, pois sua concepção pedagógica penetrou
profundamente no movimento das escolas de trabalho na
Alemanha, por meio de Georg Kerschensteiner, que por
ocasião do primeiro Congresso do “Werkbund” alemão, em
1908, fez sérias críticas quanto ao ensino nas escolas
primárias.
A maior parte das críticas e sugestões realizadas na época
se referiam especificamente às escolas primárias, exceção
feita para Joseph August Lux, que postulou em sua obra “Das
neue Kunstgewerbe in Deustschland” (A nova arte industrial
da Alemanha, 1908) que as idéias reformistas sobre
pedagogia em Arte deveriam estender-se a todos os níveis
de educação artística.
III.3.3. A escola nova e a arte-educação
A nova pedagogia conseguia, então, na Alemanha, (assim
como em outros países europeus) do começo do século,
mais e mais adeptos. Neste período, pode-se encontrar as
mais importantes experiências pedagógico-didáticas, em
termos de renovação do ensino em nível técnico e superior,
destacando-se a Bauhaus, e alguns de seus professores que
revolucionaram os métodos de ensino da arte, entre eles
Johannes Itten, Wassily Kandinsky e Paul Klee.
No Brasil, um dos nomes mais conhecidos no que se refere
ao contexto de Arte Educação é o de Onofre Penteado.
Professor da U.F.R.J., autor de diversas publicações no gênero,
nas quais procurou expor seus métodos de ensino-
aprendizagem, técnicas e procedimentos didáticos, Onofre
Penteado também pode ser considerado um seguidor dessa
corrente. Assim, quando da posição frente aos métodos de
ensino dos quais se utiliza, relacionados em seu livro Desenho
Estrutural, o próprio autor justifica:
Os métodos utilizados na prática docente são os
da educação funcional (Escola Nova). Promove-se
a experiência global: sensorial (visual, táctil,
auditiva) e psíquica ou espiritual (relações e
significações através de trabalhos prático-
didáticos; desenhos de criação, exposições de
estampas, projeções de slides e incipientes
gravações sincronizadas com projeções (início do
futuro ensino programado).
(11)
37
Notas e referências bibliográficas.
01. AEBLI, Hans. Didática Psicológica. Aplicação à
didática da psicologia de Jean Piaget. Atua-
lidades pedagógicas volume 103. São Paulo: Ed.
Nacional, 1971. p.87
02. AEBLI, Hans. op. cit. p.88
03. _____,_____. op. cit. p.92
04. Imaginária, fruto de abstração.
05. _____,_____. op. cit. p.93-4
06. _____,_____. op. cit. p.94
07. _____,_____. op. cit. p.94
08. _____,_____. op. cit. p.96
09. _____,_____. op. cit. p.97
10. _____,_____. op. cit. p.110
11. PENTEADO, Onofre. Desenho Estrutural. São Paulo:
Perspectiva, 1981. p.24
Bibliografia complementar
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na Arte. A gramática
da criação. O futuro da pintura. São Paulo: Mar-
tins Fontes, 1990.
WICK, Rainer. Pedagogia da Bauhaus. São Paulo: Martins
Fontes, 1989.
38
Baseados mais em um espírito de época, do que propriamente
em teorias pedagógicas, exceto no caso de Johannes Itten,
alguns professores revolucionaram o ensino do desenho na
área das artes plásticas, artes aplicadas e arquitetura, na
primeira metade do século. No texto que se segue analisar-
se-á o trabalho pedagógico de três mestres da principal escola
deste período, a Bauhaus. São eles: Johannes Itten, Paul Klee
e Wassily Kandinsky.
Na seqüência, outros três trabalhos, relativamente recentes
(métodos de ensino-aprendizagem na área do desenho),
serão analisados, devido à relevância dos mesmos, nem
sempre da mesma ordem: Carlo Maggiora, Onofre Penteado
e Betty Edwards.
III.4. Os métodos de ensino do desenho pós
escola ativa
39
A Bauhaus se destaca, no período entre guerras, como a
primeira escola de design. Criada por Walter Gropius em 1919
para ser uma escola de arquitetura e artes, seus antecedentes
pedagógicos vêm das escolas de artes e ofícios do final do
século XIX e início do século XX. O próprio prédio em Weimar,
primeira sede da Bauhaus, pertencia à Escola Superior de
Artes e Ofícios do Grão-ducado da Saxônia, fundada em 1907
e dirigida por Henry van de Velde.
A Bauhaus constitui o entroncamento de correntes
aparentemente contrárias, que puderam ser
mantidas num equilíbrio tenso e produtivo graças
à extraordinária capacidade de organização e
coordenação de Walter Gropius, seu fundador e
diretor durante muitos anos. Numa primeira fase,
conjugam-se neste equilíbrio o pensamento
plástico do Expressionismo tardio e o ideal do
artesanato medieval; numa fase posterior, passam
a dominar as concepções plásticas do
Construtivismo e o programa de uma criação da
forma, dirigida à objetividade e funcionalidade,
tendo em vista as exigências e possibilidades da
técnica e indústria modernas.
(1)
A estrutura pedagógica da Bauhaus estava montada sobre o
trabalho de mestres artistas e mestres artesãos, que em
conjunto mantinham os ateliês em permanente trabalho.
Gropius exorta o artista...,; ele considera garantida
a qualidade da produção mecânica, se o artista
participar “já da criação da forma a ser
reproduzida”,... Somente a “cooperação entre
artista, comerciante e técnico” seria garantia,
segundo Gropius, de que os objetivos passados e
futuros da sociedade industrial fossem
adequadamente alcançados.
(2)
...o programa da Bauhaus compunha-se,
basicamente, de dois objetivos: a síntese estética
III. 4.1. A Bauhaus
(integração de todos os gêneros artísticos e de
todos os tipos de artesanato sob a supremacia da
arquitetura) e a síntese social (a orientação da
produção estética segundo as necessidades de
uma faixa mais ampla da população e não
exclusivamente segundo a demanda de uns
poucos, privilegiados social e economicamente).
(3)
Destaca-se, nesta fase, a contratação dos pintores Lyonel
Feininger, Johannes Itten e o escultor Gerhard Marcks em
1919. Até 22 seguiram-se Georg Muche, Oskar Schlemmer,
Paul Klee, Lothar Schreyer e Wassily Kandinsky.
40
Itten se destaca por ter formação pedagógica e dedicar-se
mais à carreira acadêmica do que à de artista. Suíço de
nascimento, originariamente foi professor de escola
elementar (1
o
. grau), treinado no método Froebel. Em 1909,
decidiu estudar pintura na Escola Superior de Belas-Artes
em Genebra, mas decepcionou-se com a atividade docente
acadêmica e retornou aos estudos para professor de segundo
grau.
Em 1912, decidiu dedicar-se à pintura e voltou à Genebra,
onde entrou em contato com o Abstracionismo, exercitando-
se primeiramente com os elementos geométricos básicos:
triângulo, quadrado e círculo. Mais tarde, o próprio Itten
reconheceu que estes exercícios foram a base de sua
introdução nas criações abstratas, 1915 a 1919. Em 1913,
foi para Stuttgard onde lecionava Adolf Hoezel (1853-1934),
um dos pioneiros do Abstracionismo, mas não sendo aceito
pela comissão de admissão, tomou aulas com Ida Kerkovius,
discípula de Hoezel, com a qual entrou em contato com a
teoria do mesmo. Esta relação professor - aluno mais tarde
se inverteria, uma vez que Ida passou a freqüentar o curso
da Bauhaus.
Quando convidado por Gropius para o cargo de mestre da
forma, Itten estava na ocasião desenvolvendo um novo
método didático para arte -educação, baseado nas técnicas
de Pestalozzi, Montessori e Franz Cizek; este último era, na
época, conhecido por seu curso de arte jovem, integrado à
escola de Artes e Ofícios de Viena; seu lema era a
“Descolarização da escola” e “Nada ensinar, nada aprender!
Deixar crescer das próprias raízes!”, máximas com as quais
obteve reconhecimento por toda a Europa em Congressos
de Educação Artística.
O curso preliminar foi introduzido na Bauhaus seis meses
depois da fundação da escola, por iniciativa de Johannes Itten,
e se tornou, segundo Rainer Wick, a coluna vertebral da
pedagogia da Bauhaus, e ao lado de Gropius, a personalidade
indubitavelmente mais destacada e dominante.
III.4.1.1. Johannes Itten
“This form has been realized by
a powerful implulse. The dy-
namic basis of every thing
rhythmical is visibly expressed.
Vienna, 1918. M.Tery-Adler.”
In: ITTEN, Johannes. Design
and form. The Basic course
at the Bauhaus. New York,
Reinhold, 1964. p.144.
41
Na verdade, Itten opunha-se radicalmente aos objetivos
sociais e estéticos enunciados por Gropius, assim como à
utilização da arte para fins não artísticos como no caso do
design, tanto que, em janeiro de 1921, os estatutos da escola,
refeitos também sob orientação de Itten, não mencionam as
premissas de arte unificada do manifesto de fundação. O curso
preliminar destaca-se na história da Bauhaus como elemento
de mérito exclusivo deste artista e, por isso, aparentemente
distante das outras disciplinas. A idéia de um curso preliminar,
no entanto, remonta ao século XIX, e foi muito reivindicada
pela corrente reformista das escolas de arte, no início deste
século. O destaque do curso preliminar da Bauhaus, porém,
está ligado intimamente à personalidade de Itten, que aliou
suas concepções educativas baseadas na Escola Nova ao
trabalho de artista de vanguarda.
Itten escreveu:
Em 1908, quando dei minha primeira aula como
professor primário num povoado de Berna, procurei
evitar tudo o que pudesse perturbar a ingênua
desenvoltura das crianças. Reconheci quase que
instintivamente que toda crítica e toda a correção
têm um efeito ofensivo e destruidor sobre a
autoconfiança, e que o estímulo e o reconhe-
cimento do trabalho realizado favorecem o
desenvolvimento das forças.
(4)
Aliado a este método, Itten jamais riscava os erros nos
cadernos de seus alunos, fato que considerava uma inter-
venção na personalidade deles, mas os discutia exaus-
tivamente com a classe. Na Bauhaus e, mais tarde, nas outras
escolas de arte, Itten se utilizou deste mesmo princípio, ou
seja o respeito pela individualidade do aluno.
Com Höezel, pode-se dizer que Itten estudou: as Teorias das
Cores de Goethe, Bezold, Chevreul e do próprio mestre; a
problemática do claro-escuro segundo a teoria de Höezel, e
sua análise dos antigos mestres, com o objetivo de conhecer
a estrutura construtiva das obras. No período de 1913 a 1916,
período no qual Itten esteve em Stuttgard, Höezel
desenvolveu uma série de trabalhos, colagens abstratas de
papel rasgado e retalhos de tecidos. Como se verá adiante,
estas tornaram-se a base do curso de Itten na Bauhaus, assim
como exercícios de transposição das colagens para a
linguagem do desenho ou pintura.
Outra influência de Höezel sobre Itten está nos exercícios de
ginástica, que Höezel praticava com regularidade, e que se
tornaram característicos das aulas de Itten para relaxar e
desenvolver as potencialidades motoras do corpo, assim
como iniciar os estudos sobre ritmo.
Itten, assim como Höezel, estimulava os alunos a desenharem
uma figura humana num só traço.
São fundamentais, para o curso preliminar de Itten na
Bauhaus:
a relação de identidade entre movimento e forma,
a visão conjunta de corpo, alma e espírito, sendo o
aspecto emocional mais enfatizado do que o
intelectual;
(5)
Na visão de Droste, o princípio pedagógico do ensino de Itten
residia em dois conceitos opostos: intuição e método ou
experiência subjetiva e recognição objetiva.
Para Itten só se percebe o mundo devido aos contrastes,
algo só é perceptível devido ao seu oposto, assim, os
exercícios e todo o fundamento do seu ensino estava baseado
nesta teoria.
Para Itten,
O conhecimento dos meios de criação e de suas
leis não representa um fim em si mesmo, mas tem
apenas um caráter instrumental que permite
alcançar o objetivo de um autodesenvolvimento
criativo.
(6)
Seus princípios pedagógicos envolviam um respeito pelo
indivíduo e pelas suas possibilidades criativas; tinha o aluno
como ponto central de seu trabalho como educador, cons-
truindo com ele uma relação informal, concedendo prioridade
ao trabalho, até antes da pura aprendizagem. Todos estes
princípios inserem-se dentro da Pedagogia Reformista, hoje
também conhecida como Escola Nova.
Itten foi também, pelo menos neste período, seguidor do
culto “Mazdaznan” ou Masdeísmo, derivado do antigo
Zoroastrianismo. Segundo Frank Whitford, enquanto
professor, acreditava no potencial criativo de cada um e que
a doutrina Mazdaznan poderia ajudar a despertar este talento
artístico oculto. Extremamente venerado como mestre, Itten,
graças à sua personalidade, conseguiu persuadir cerca de
vinte alunos a adotar esta doutrina, comportando-se e
vestindo-se com trajes especiais, criados por Itten.
Ainda segundo Whitford, muitas das críticas que recaem
sobre Itten, neste período, referem-se ao curso preliminar
como uma espécie de “lavagem-cerebral”, na qual todos os
estudantes eram destituídos dos ensinamentos anteriores,
e, assim, tornavam-se receptivos a novas idéias e métodos.
Outros preferem ver este curso apenas como uma ajuda inicial
dada aos estudantes para liberarem seu potencial criativo.
Outros indícios dão uma visão mais complexa da polêmica
figura de Itten. Paul Citroen, antigo aluno da Bauhaus,
escreveu:
Havia algo de demoníaco em Itten. Como mestre
era profundamente admirado e igualmente odiado
pelos seus inimigos, que não eram assim tão
poucos. Ignorá-lo é que não se podia. Para nós,
que pertencíamos ao círculo do masdeísmo - uma
comunidade especial dentro da Bauhaus - Itten
tinha uma aura muito especial. Quase se podia
denominá-lo santo, só nos aproximávamos dele em
sussurros. A nossa admiração por ele era enorme
42
e ficávamos encantados e inspirados sempre que
ele nos tratava de forma simpática e natural.
(7)
Para conhecimento sobre as aulas de Itten na Bauhaus, é de
grande interesse a análise de seu livro “Design and Form”,
que originariamente em alemão tem como título “Mein Vorkus
am Bauhaus”. Mas constam, também, deste livro, e em gran-
de parte, trabalhos posteriores realizados a partir de 1926
em outras escolas em Berlim e Zurich.
Ao contrário das aulas tradicionais das academias, nas quais
prevalecia a cópia de modelos, meios pelos quais os
estudantes adquiriam grande parte da técnica, Itten ensinava
aos alunos as bases da teoria da cor e da forma e noções de
composição. Faziam-se exercícios com linhas grafadas
espontaneamente, que lembravam as formas do expres-
sionismo abstrato, com uma ou ambas as mãos ao mesmo
tempo. Muitos deles eram realizados com tinta sobre papel,
variando as espessuras das linhas, e sem tirar o pincel da
superfície, para não interromper o movimento. A maior parte
dos exercícios revela uma preocupação fundamental com os
contrastes de todos os tipos: claro-escuro, grande-pequeno,
largo-estreito, preto-branco, horizontal-vertical, linha-corpo,
transparente-opaco, entre outros.
Itten preferia que, em suas aulas, os alunos resolvessem seus
problemas de composição e criação, expressiva e intuitiva-
mente, para depois se utilizarem de um método construtivo-
intelectual. Usava-se comumente o carvão, com o qual se
elaboravam escalas de tons. Também eram comuns os exer-
cícios com texturas, análogas ou contrastantes, utilizando-
se de diversos materiais, de papéis a tecidos e materiais
metálicos, a fim de aprimorar não só a sensibilidade visual,
mas também a táctil. (Visava-se diferenciar as tensões pelos
ritmos criados pelas texturas.) Estes exercícios tinham tam-
bém outra finalidade pedagógica, visavam propiciar ao aluno
uma proximidade lúdica com materiais diversos a fim de que
pudesse se encaminhar de maneira mais decisiva no
prosseguimento do curso, ou seja, na escolha das respectivas
“Line analysis form nature. Ber-
lin, 1929. E. Baümer.” In:
ITTEN, Johannes. Design and
form. The Basic course at
the Bauhaus. New York,
Reinhold, 1964. p.110.
43
oficinas.
Além dos estudos com materiais, faziam parte do programa
do curso preliminar de Itten, o desenho com objetos naturais
(troncos de madeira, pedras), o desenho com modelos vivos
e as análises dos mestres antigos (Giotto e Goya, entre
outros), nas quais se utilizavam os mesmos critérios e
princípios estético-compositivos dos exercícios acima.
Para Itten, o estudo da natureza não é l’art pour
l’art, nem mesmo um mero adestramento da
habilidade manual ou um exercício de destreza, e
sim algo que serve ao aguçamento da capacidade
de conhecer através dos sentidos e uma ampliação
do “pensamento concreto”, uma relação que Itten
certa feita reduziu a uma fórmula breve, cuja
fundamentação deixa a desejar: “acuidade
sensorial = pensamento real exato”
(8)
O desenho com modelos vivos, ou nus, estava condicionado,
no entanto, a outras finalidades. Itten não exigia de seus
alunos uma representação anatômica exata, mas uma forma
expressiva característica. Esta aula era acompanhada sempre
de música,
a fim de intensificar a sensação pela expressão
rítmica do modelo em movimento,...
(9)
Nas análises das obras de antigos mestres, também
inspiradas nas iniciativas de Höezel, utilizava-se a intuição
como forma de compreender as relações do quadro, da sua
essência, através da elaboração gráfica criativa dessa
essência. As sensações eram transportadas para o papel
através do uso dos contrastes, distribuição de pesos, ritmos,
linhas de força, entre outras formas de interpretação da obra.
Buscava-se a síntese estrutural do quadro baseado no
elemento principal. Geometrizava-se e simplificava-se.
Na teoria das formas, elaborada por Itten, destacam-se as
investigações com as três formas básicas: quadrado, triângulo
e círculo, associadas a aspectos culturais e/ou sensoriais
como: força, vida, tranqüilidade, etc. Tais tentativas podem,
segundo Wick, ter sido inspiradas em Kandinsky, mais
especificamente em sua obra “Sobre o espiritual na Arte”.
Dessa teoria surgiram exercícios, nos quais se trabalhavam
as possibilidades criativas do quadrado, do círculo e do
triângulo, envolvendo divisões da forma a estudos de
proporcionalidade e relação harmônica entre as figuras.
Desses exercícios bidimensionais, passavam-se a exercícios
tridimensionais, estereométricos, compostos a partir de
corpos simples : esferas, pirâmides cilindros, etc. No curso
de Itten, “desenho” não se separa de plástica.
Itten foi o precursor de Klee e Kandinsky na Bauhaus e muito
influenciou a estes e a outros que lá ensinaram. Segundo
Droste, Klee depois de assistir uma aula de Itten adotou de
imediato suas teorias sobre forma e cor, em seu programa
didático.
Johannes Itten deixou a Bauhaus em 1923.
Analysis of Giotto’s “Annuncia-
tion of St. Anne”. In this pain-
ting Giotto has used light-dark
in an elementary manner.
Giotto’s light-dark effect and
compositional intent can be
clearly recognized. Giotto has
created the mistery of Annun-
ciation by placing the figures
abstractly into the light-dark of
the space. Vienna, 1918,
M.Tery-Adler.” In: ITTEN,
Johannes. Design and form.
The Basic course at the
Bauhaus. New York, Reinhold,
1964. p.39.
44
Paul Klee baseou todo seu curso em suas próprias
experiências como artista e pesquisador assíduo de novas
linguagens. Através da reflexão de seu trabalho, estruturava
suas aulas, propondo exercícios nos quais os alunos, através
da pesquisa gráfica e plástica, intuiriam seus ensinamentos.
Paul Klee cresceu numa família de músicos. Conta-se que foi
sua avó materna quem lhe ensinou a trabalhar com lápis e
pincel e muitos desses desenhos de infância integram os
atuais catálogos de suas obras.
A rebeldia de Klee e sua tendência a opor-se à vontade de
seus pais, fez com que ele seguisse a carreira de pintor, não
abandonando porém totalmente a música. Para Klee, a música
já havia atingido seu apogeu e os compositores modernos,
ao contrário do que pensava da pintura, não lhe interessavam
mais.
Concluiu o Liceu em setembro de 1898 e em outubro dirigiu-
se a Munique para estudar na Academia de Belas Artes, na
qual não foi aceito, sendo encaminhado para aulas particulares
de desenho figurativo com Heinrich Knirr (1862-1944).
Em outubro de 1900, entrou finalmente para a Academia.
Em 1901, deixou o curso de pintura e tentou o de escultura,
mas recusou-se a submeter-se ao exame de admissão. No
verão deste mesmo ano, mudou-se de Munique.
A partir de então, passou três anos desenhando e dedicando-
se à técnica de gravura a água-forte como autodidata, na
casa de seus pais em Berna.
Em 1905, conheceu os impressionistas em Paris e começou
uma nova série de gravuras associadas com a pintura em
vidro, onde predominavam, mais que as cores, os contrastes
de claro-escuro.
Apesar de uma exposição em junho de 1906, onde recebeu
críticas quanto à “anomalia das formas” presente em seu
III.4.1.2. Paul Klee
A leaf from the book cities.
1928. Oil on paper mounted on
card board, 16
3/3
x 12
3/8
.” In:
GROHMANN, Will. Paul Klee.
N. York: Harry N. Abrahmas,
1985. p.26.
45
trabalho, Klee e sua esposa Lily, viviam afastados do meio
artístico. Paralelamente, tocava violino e escrevia críticas de
teatro, não restando muito tempo para o desenvolvimento
como pintor e muitos autores referem-se à evolução artística,
até esta época, como particularmente lenta.
Nesta época, trabalhava com experiências em cor com
pintura, além das gravuras. Começa, então, a fase das
aquarelas, a princípio em preto e cinzas, estudando as
tonalidades, para depois numa mistura irreverente de
técnicas, abusar da cor em seus trabalhos. Durante este
período, no entanto, era mais um desenhista que um pintor,
realizando ilustrações a pedido de Alfred Kubin (1877-1959),
um dos desenhistas conhecidos da época.
Klee escrevia artigos para revistas, defendendo com
convicção a arte primitiva e a arte infantil, pois a considerava
não alienada e não corrompida, pelo menos até a criança
entrar em contato com “obras de arte”.
Em 1912, na segunda exposição do “Blauer Reiter”, Klee
apresentou dezessete obras. Após viagem a Paris, onde
conheceu o trabalho de Picasso e Braque, Derain e Maurice
de Vlaminck, além de Robert Delaunay, que impressionou
definitivamente Klee no uso das cores, chegou finalmente à
pintura abstrata.
Em 1920, surge o convite de Gropius, Feininger, Itten, entre
outros, para lecionar na Bauhaus, o que se efetiva na
primavera de 1921.
Segundo Wick, a estratégia de Gropius para o convite de
certos professores, residia em convidar para a escola artistas
de renome considerados progressistas e,
em utilizar seus impulsos inovadores também nas
áreas “aplicadas”, sem precisar temer um
retrocesso às antigas posturas das academias de
arquitetura, escolas superiores de arte e escolas
de artes e ofícios...
(10)
Klee era fascinado por problemas teóricos. Articulado e
letrado, levava seu ensino com seriedade e cuidava-se para
não utilizar dogmas em seus pronunciamentos. Mas estes,
no entanto, não foram a princípio bem quistos ou
compreendidos por todos os colegas docentes. Schlemmer
por exemplo, certa vez recordou
That Klee’s work appears to inspire the greatest
shaking of heads, as a kind of l’art pour l’art,
removed from every practical purpose.
(11)
Paul Klee começou seu trabalho na Bauhaus, como mestre
da forma na oficina de encadernação, ao lado do mestre
artesão Otto Dorfner, com o qual não se entendia muito bem.
Não possuía qualquer experiência docente ou formação
pedagógica. Isto talvez tenha sido de fundamental importância
na criação de um método de ensino próprio, no qual utilizava
seu próprio fazer, sua atividade artística como fonte de
conhecimento para seus alunos. Segundo Wick, aliada a isto
estava a forte timidez de Klee para falar em público, que o
fazia, nos primeiros anos, preparar minuciosamente suas
aulas. Estas anotações posteriormente deram origem a várias
publicações, como por exemplo “Pedagogical Sketchbook
originariamente publicado em 1925 e editado por Walter
Gropius e Moholy-Nagy, sendo o segundo dos quatorze livros
editados pela Bauhaus, e “Notebooks” , que em algumas
edições, como a italiana, aparece como “Teoria della forma
e della figurazione”.
O mais importante trabalho de Klee na Bauhaus está no curso
preliminar que lecionou de 1921 a 1931.
Ao contrário de Kandinsky que repetia os mesmos
exercícios ano após ano com poucas alterações,
na aula de desenho analítico (desde 1922) e na
aula de teoria da cor (desde 1925), Klee modificava
constantemente o seu método de ensino, em parte
View of a mountain sanctuary.
1926. Pen and wash, 18
1/2
x
11
3/4
.” In: GROHMANN, Will.
Paul Klee. N. York: Harry N.
Abrahmas, 1985. p.24.
46
com ajuda de literatura especializada que ele
próprio criava.
(12)
Na fase da Bauhaus, em Dessau, o interesse de Klee pelo
ensino vai progressivamente decaindo, culminando no seu
desligamento.
Klee já não tinha vontade. Entrou em negociações
com várias academias e, em 1930, foi nomeado
para Dusseldórfia. Dessau propôs-lhe então
melhores condições de trabalho, sobretudo menor
sobrecarga horária. Mas Klee recusou
categoricamente, porque uma redução da sua
actividade era inconciliável com as ideias da
Bauhaus. Numa carta a Lily, datada de 14 de Junho
de 1930, traçou um resumo da sua actividade de
dez anos em Weimar e Dessau: “O trabalho na
Bauhaus é fácil quando, como pintor, a pessoa não
se sente obrigada a produzir. Neste momento, isto
parece fácil e, como esta situação é passageira,
sinto-me perfeitamente bem. O cargo em si mesmo
seria bastante fácil. Se eu pudesse cedê-lo a
alguém que não tivesse um outro trabalho, faria
alguém feliz. Mas, então, não seria um artista e,
portanto, isto também não interessaria. Terá de ser
alguém que utilize as suas forças melhor do que
eu. A idade, neste caso, tem um papel secun-
dário.
(13)
Com a saída de Itten, Klee e Schlemmer ficaram com o curso
de desenho vivo, no qual revezavam-se por semestre. Mas,
três meses depois, Klee já o transformara em um curso sobre
teoria da forma pictórica. Até 2 de abril de 1922 escreveu
todas as aulas dadas e, em 1923, ampliou o programa adi-
cionando a teoria da cor.
É impossível analisar o trabalho de Klee na Bauhaus, enquanto
professor desvinculado da sua produção enquanto artista.
Os mestres artistas tinham à sua disposição, tanto em Weimar
como em Dessau, ateliês particulares onde podiam conjugar
as duas atividades. Inclusive a idéia de que “se ensina aquilo
que se faz”, foi uma das diretrizes básicas do pensamento
de Gropius na concepção da escola; por isso os professores
deviam participar aos seus alunos sua produção artística e,
em alguns casos, como o de Paul Klee, essa atividade se
tornou base do método e do conteúdo da disciplina.
No caso de Klee, especificamente, os elementos pedagógico
e artístico foram concebidos como uma unidade e não se
pode precisar se a pressão exterior para uma maior reflexão
com fins didáticos inspirava na criação de novas obras ou
vice-versa. Nas palavras do próprio Klee:
Aqui no ateliê estou pintando cerca de meia dúzia
de quadros, além de desenhar e de refletir sobre o
meu curso, tudo ao mesmo tempo. Pois tudo isto
tem que caminhar paralelamente, do contrário não
tem sentido.
(14)
Segundo M. Droste, Klee descreveu da seguinte forma suas
aulas:
desde o princípio e cada dia que passa vejo com
maior claridade o meu papel, nomeadamente o de
comunicar a experiência que tenho adquirido com
a configuração das idéias (desenhar e pintar)
relativa à organização da multiplicidade em unidade.
Esta experiência transmito-vo-la em parte em
sínteses (isto é, deixo-vos ver as minhas obras)
em parte em análises (isto é, divido as obras na
suas partes essenciais).
(15)
Klee, de início, adotou muito do curso de Itten (pois havia
assistido a algumas de suas aulas e muito se impressionado),
como também de Kandinsky, por meio do “Sobre o Espiritual
na Arte” publicado em 1912, para mais tarde encontrar
desenvolver suas próprias idéias sobre o ensino da arte.
“Drawing for “Perspective of a
room with occupants” 1921.
pen and pencil, 13
1/4
x 9
7/8
.”
In: GROHMANN, Will. Paul
Klee. N. York: Harry N. Abrah-
mas, 1985. p.17.
47
O essencial do trabalho de Klee encontra-se reunido em suas
publicações. Nestas, encontram-se reunidos os trabalhos do
artista e do intelectual teórico, aliado a uma abordagem
didática.
Teaching forced him to consider his own work on
an intellectual level for the first time: “When I came
to teach I was obliged to make precisely clear to
myself what I did for the most part uncnsciously.”
Klee’s theories emerged from his practice and not
the other way about.
(16)
O núcleo da Teoria da forma de Klee desenvolveu-se entre
sua estadia em Weimar e Dessau, no período entre 1920 e
1925, para depois ser ampliado por novos ensaios sobre
problemas figurativos, adaptados às exigências de sua
atividade didática. Klee deixou cerca de duas mil e quinhentas
folhas de escritos pedagógicos, entre apontamentos de aula,
esquemas, desenhos construtivos e esboços compositivos
para seus quadros.
in essi si trata sopratutto dell’ampliamento della
prospettiva, della teoria soggettiva dello spazio,
della mobilità del punto prospettico, della teoria
dell’articulazione, dei ritmi e delle strutture
candenzate e della sintesi statico-dinamica: la sua
teoria della figurazione vi appare arrichita di molti
assiomi concettuali.
(17)
Giulio Carlo Argan dimensiona a importância desta teoria
elaborada por Klee:
The writings which compose Paul Klee’s theory of
form production and pictorial form have the same
importance and the same meaning for modern art
as had Leonardo’s writings which composed his
theory of painting for Renaissance art.
(18)
A importância, segundo este autor, está no fato da obra não
se configurar em uma coleção de regras estilísticas ou
técnicas, mas sim de uma análise introspectiva, fruto do
trabalho do artista, ou seja, da sua experiência da realidade,
a qual é um elemento necessário do processo artístico.
Segundo Argan, a teoria de Klee explica que a experiência
da realidade do artista não é mais nem menos concreta ou
conclusiva que aquela adquirida pela pesquisa científica ou
filosófica.
Klee, assim como a maioria dos mestres da Bauhaus,
acreditava que a arte não pode ser ensinada ou transmitida
pedagogicamente, mas pode-se, no entanto, ensinar e, assim,
fazer aprender racionalmente alguns exemplos que se mani-
festam formalmente. Klee também acreditava que artistas
não podem fazer arte dissociados de sua visão de mundo.
“The great dome. 1927. Tushe
and pen, 10
1/2
x 11
7/8
.” In:
GROHMANN, Will. Paul Klee.
London: Thames and Hudson,
1967. p.59.
48
Klee procede no desenvolvimento de sua teoria à semelhança
de Kandinsky, ou seja de maneira “analítico elementar”. Os
tópicos de suas considerações são semelhantes em gênero
e ordem de abordagem, começando pelo ponto, depois
passando à linha, ao plano e finalmente ao espaço. O que os
difere, está no motivo pelo qual Klee sustenta o método
analítico, que não seria fornecer fundamentos para uma
linguagem supra-individual, que correspondesse a uma
vontade fictícia de ser expressão do “elemento artístico puro
e eterno”, mas nas palavras do próprio Klee:
a investigação da obra com vistas ao
estabelecimento de seus estágios de formação. A
uma tal investigação dou o nome de gênese. (E:)
Investigamos os caminhos percorridos por uma
outra pessoa para a criação de sua obra para,
percorrendo-os conhecê-los. Um tal tipo de
observação evita que se conceba a obra como algo
estático, irremediavelmente fixo.
(19)
Para Klee, é importante ensinar aos alunos tanto sobre o
processo de criação, como também sobre alguns “aparatos”
necessários para tal. Estes são, de maneira resumida e
condensada, explicados em nove lições.
Na 1
a
. lição, Klee inicia suas colocações sobre o ponto em
movimento, assim, seu interesse está propriamente ligado à
linha. As linhas são classificadas em três tipos: Ativa, Medial
e Passiva.
Na 2
a
. lição é tratada a questão da terceira dimensão e da
perspectiva, pois para Klee estas surgem da conversão de
duas linhas para um ponto. O ensino da perspectiva por Klee
estava fundamentado na orientação do homem no espaço,
pela qual se estabelecia a relação das horizontais e verticais.
Na 3
a
. lição continua a abordagem na inserção do homem
no espaço e das forças que atuam sobre ele e em que isto
implica nas formas.
O conceito de equilíbrio é resultante do contraste. Assim,
Klee postula a harmonia plástica, o equilíbrio,
portanto -...-, entre o “princípio fundamental
masculino” e o “princípio fundamental feminino”,
entre espírito e matéria, e suas expressões formais
através do movimento contrário: “Toda energia
requer um complemento para alcançar um estado
que repousa em si mesmo, e que se encontra por
sobre o jogo de forças...”
(20)
A 4
a
. lição trata da estrutura. De natureza puramente plástica,
este conceito tem sua existência dependente da repetição
de um elemento numa freqüência rítmica.
Klee estabelece uma relação entre pintura e música.
Comparando a estrutura da pintura com o compasso da
música, reflete acerca de como representar musicalmente
o pictórico, problema do qual se ocuparam também outros
mestres e alunos da Bauhaus.
(21)
Na 5
a
. lição, estuda questões relativas à força gravitacional e
ao movimento do cosmos.
Na 6
a
., o movimento é estudado em ligação com o organismo
vivo, o corpo como máquina de movimento, onde desejo e
execução estão unidos.
Na 7
a
. lição, ilustra esses efeitos com o exemplo do moinho
de água, do crescimento das plantas e da circulação
sangüínea, para então passar ao movimento como problema
pictórico.
Klee também aborda a questão do movimento, como
elemento constituinte da recepção pictórica. O movimento
dado pelo artista à obra é reativado pelos olhos do observador
ao percorrer a obra. Para ilustrar a questão do movimento
criador, introduz nas aulas símbolos como o pião, o pêndulo,
a espiral e a flecha, que são estudados especificamente nas
lições 8 e 9.
“Mechanics of a part of town.
1928. Tushe and pen, 5
1/4
x 10
1/4
.” In: GROHMANN, Will. Paul
Klee. London: Thames and
Hudson, 1967. p.61.
49
Kandinsky, por sua vez, é o menos ativista dos três, pois na
busca de uma sintaxe universal, abdicou em parte da pesquisa
pelos próprios alunos, dando-lhes uma gramática que seguiam
através de exercícios fixos e rígidos. Vale a pena lembrar sua
pesquisa fracassada e cientificamente inválida quanto à
tentativa de associar formas puras e cores primárias.
Kandinsky, russo de nascimento, em 1886 iniciou na
Universidade de Moscou seus estudos de Direito e Economia
Política. Aos trinta anos resolveu estudar pintura, mudando-
se para Munique.
Na sua trajetória artística, percorreu o caminho (plástico e
teórico), da figuração à abstração. Sua obra foi inicialmente
composta por desenhos figurativos, onde estuda o nu e a
anatomia. Também podem ser encontrados esboços de
paisagens e estudo de vestimentas.
O passado dedicado às questões jurídicas exercitou o
pensamento abstrato de Kandinsky, fazendo com que, no
período seguinte, este se dedicasse à problemática das artes
plásticas de forma analítica.
Eberhard Roters confere:
Ele tinha a capacidade de reunir em hipóteses seus
conhecimentos e reflexões, fundamentando-as de
forma lógica, e formulando-as clara e inteligi-
velmente... o que era muito proveitoso para a teoria
que elaborava, tanto mais por ele ter que superar
as dificuldades decorrentes das primeiras
tentativas de explicar experimentos criativos
testados por ele mesmo, e baseados em sua
própria sensibilidade.
(22)
Kandinsky retornou à Rússia e, após a revolução, ele esteve
ativamente engajado na política cultural da recente União
Soviética, procurando reformar os velhos estabelecimentos
de ensino de arte e fundando outros novos.
III.4.1.3. Wassily Kandinsky
50
Retornou à Alemanha em 1921, desiludido com a Revolução,
principalmente devido às reações contrárias à arte
experimental. Logo chegando a Berlim, foi contatado por
Gropius. Era então um homem de meia idade e em meio de
carreira. Para Gropius, sua presença reforçava o quadro da
Bauhaus como escola de vanguarda, pois era considerado
um dos mais célebres pintores abstratos.
Em 1911, Kandinsky publicou sua primeira obra teórica “Über
das Geistige in der Kunst” (Sobre o espiritual na arte), de
cunho filosófico - religioso, baseado nas idéias teosofistas.
Este desenvolvimento teórico culminou na eliminação do
aspecto figurativo na obra do artista.
No período dedicado à Bauhaus, o abstracionismo de
Kandinsky assume um caráter analítico, racional e as obras
teóricas deste período acompanham esta tendência.
O trabalho de Kandinsky na Bauhaus destaca-se mais pelo
conteúdo do que propriamente pelos métodos de ensino.
Fruto de seus primeiros anos na Bauhaus, a obra “Punkt und
Linie zu Fläche” (Ponto e linha sobre o plano) publicada em
1926, mostra a concepção de uma teoria da criação, que é
um trabalho pioneiro sobre a interpretação racional dos
fundamentos da criação.
Tanto Klee, quanto Kandinsky, destacam-se na Bauhaus pela
contribuição aos estudos sobre linguagem elementar do
aspecto plástico.
Kandinsky chegou à Bauhaus em 1922 e recebeu a seu
encargo, como mestre da forma, a oficina de pintura mural,
até 1925. Mas esta oficina não produziu um grande número
de trabalhos e mesmo estes poucos, não tiveram importância
relevante.
Kandinsky defendia a arte sintética, uma arte onde não
houvesse subdivisões nem especificações, onde música e
pintura, por exemplo, atuassem juntas. Por conseguinte,
defendia uma formação sintética dos estudantes, a mais
ampla possível no campo das artes, muito próxima da visão
do “homem total” de Gropius.
A importância da atividade pedagógica de Kandinsky na
Bauhaus reside, não na oficina de pintura, mas no curso
obrigatório, inicialmente apenas no primeiro semestre,
estendendo-se no final dos anos 20 até o quarto. Os
fundamentos teóricos deste curso encontram-se em várias
publicações, entre elas “Curso da Bauhaus”, na qual apresenta
notas de aula, enfatizando a análise dos elementos
fundamentais da pintura abstrata: cor e forma. Também
podem ser encontradas notas pessoais do artista sobre temas
escolhidos para discussões em seminário: resumo sobre a
história da arte, forma e conteúdo, a necessidade da arte,
relações entre arte e técnica e entre arte e natureza. Philippe
Sers, que assina o prefácio da edição portuguesa, também
enfatiza a preocupação de Kandinsky com a síntese nas artes
e conseqüentemente na sua ação pedagógica.
O núcleo do ensino de Kandinsky na Bauhaus, no entanto,
encontra-se resumido em “Ponto, Linha sobre Plano”, apesar
da análise sumária quanto à cor.
Suas aulas, no curso obrigatório, dividiam-se em: uma
introdução dos elementos formais abstratos e um curso de
desenho analítico. Seu método baseava-se na interligação
de análise e síntese, uso da primeira para se chegar à
segunda. Assim, seu objetivo era desenvolver no aluno um
pensamento analítico-sintético. Merece destaque esta
posição pedagógica, pois ao contrário da postura tradicional
Adolf Hölzel. Analyses of a
painting, 1911.” In: POLING,
Clark V. Kandinsky’s Teach-
ing at the Bauhaus. Color
Theory and Analytical Drawing.
New York: Rizzoli International,
1986. p.128.
51
de apenas apresentar conceitos, Kandinsky se propõe a
ensinar a pensar.
As aulas teóricas eram acompanhadas de exercícios práticos,
formulados rigidamente, os quais eram realizados de maneira
precisa, segundo orientação do mestre. Mas, segundo Droste,
ao contrário de Klee, Kandinsky repetia os mesmos exercícios
ano após ano, com poucas alterações.
O curso de desenho analítico, que estava, segundo Kandinsky,
baseado na teoria dos elementos formais abstratos,
caracterizava-se
não como uma introdução ao desenho natural e
de objetos, mas como uma propedêutica de visão
exata e da organização construtiva da imagem. O
objetivo desta aula de desenho não era, portanto,
a representação mais verossímil da aparência
externa do mundo material, mas a descoberta das
“forças=tensões regulares, que se podem
descobrir nos objetos existentes, e da construção
regular das mesmas - educação para a observação
e reprodução claras das relações...”
(23)
Em 1926, pronunciou-se a favor do método analítico na
Bauhaus como corrente determinante. O artista deveria,
segundo ele, pensar objetivamente, cientificamente. Confere
uma função pedagógica fundamental à pintura, como
disciplina integradora na busca de uma síntese estética. Esta
valorização da pintura, contradiz o rumo que então tomaria a
escola nos próximos anos, com a supremacia da arquitetura
em relação às outras áreas.
Kandinsky formulou várias teorias: a das cores, a das formas,
a das cores e das formas relacionadas e a dos planos básicos.
Característica comum a todas é a forma axiomática da
apresentação das conclusões. Essas teorias derivam de uma
busca incessante do artista por um “baixo contínuo”, um
dicionário elementar e uma gramática dos meios plásticos.
Wassily Kandinsky. Graphic
diagrams as translations of mo-
mentary movements, 1916.”
In: POLING, Clark V. Kandins-
ky’s Teaching at the Bau-
haus. Color Theory and Ana-
lytical Drawing. New York: Ri-
zzoli International, 1986. p.126.
52
Esta postura o distancia didaticamente de Itten e Klee, que
tentavam levar o aluno a descobrir, por si próprio, tais
conceitos.
A teoria da forma compreende a investigação dos meios
plásticos elementares, ponto e linha, e das três formas básicas
deles resultantes: círculo, triângulo e quadrado.
O ponto assume, em plástica, uma certa grandeza (embora
relativa, pois depende das grandezas do plano e dos outros
elementos coexistentes no plano), através da sua
materialização, se comparado à sua abstração em
matemática. O ponto é também considerado a menor forma
temporal, pois não possui movimento. Ele dá origem à
composição mais simples quando se encontra no centro de
um plano quadrado.
A linha, na concepção de Kandinsky, é o vestígio de
movimento do ponto, resulta da ação de forças sobre o ponto,
que podem originar um linha reta, quando nele atua somente
uma força, ou linhas quebradas ou curvas quando da atuação
de duas ou mais forças. As retas horizontais são para o artista
a base de sustentação numa composição e por isso de
conotação fria, as verticais ao contrário são quentes, e as
diagonais possuem as duas características, consideradas por
isso, livres ou sem equilíbrio. (Esta conotação de quente -
frio fará a ponte principal entre as teorias das formas e das
cores). As retas livres podem ainda ser divididas em dois
outros grupos: as centrais, que cortam o plano pelo centro, e
as acentrais, que possuem uma relação de menor rigidez
com o plano, por vezes traspassando-o.
A atuação de forças simultâneas dá origem às curvas e, se
não simultâneas, às linhas quebradas. Para Kandinsky, essas
linhas tem um maior contato com o plano, pois já têm em si
algo de plano; ângulos diferentes destes são considerados
linhas quebradas livres.
Denomina o suporte material das imagens como plano básico
“Photograpf of a typical still-life
construction, 1929. Hannes
Beckmann. The Different Sta-
ges of Analysis, 1929.” In: POL-
ING, Clark V. Kandinsky’s
Teaching at the Bauhaus.
Color Theory and Analytical
Drawing. New York: Rizzoli In-
ternational, 1986. p.112.
53
“Grundfläche”, abreviadamente chamado GF e PB em
português. Estuda-o no que diz respeito às suas tensões
internas inerentes à sua forma e àquelas que dizem respeito
às relações com os meios plásticos elementares, ponto e
linha.
Classifica três planos básicos considerados exemplares, o
retangular transversal, frio como a linha horizontal, o retangular
vertical, quente como a linha vertical, e o plano de forma
quadrada, considerado por ele como o mais equilibrado e
assim o mais objetivo, no qual se baseará para continuar
suas reflexões. Divide-o em quatro campos de força: o
superior, o inferior, o da direita, e o da esquerda.
O “campo superior” suscita a idéia de um estado
de maior relaxamento, um sentimento de leveza,
uma libertação, e finalmente, a liberdade... A
repressão é reduzida ao mínimo.
O “campo inferior” suscita uma impressão
absolutamente oposta: concentração, gravidade,
vinculação... A repressão atinge o extremo.
(24)
A associação dessa classificação à idéia de céu e terra é
inevitável.
As diferenças entre esquerda e direita do plano básico
correspondem respectivamente às existentes entre superior
e inferior. Estas classificações geram um esquema de
distribuição de peso, num plano quadrado, onde o quadrante
inferior direito é o mais denso graficamente, o superior direito
e o inferior esquerdo se equivalem ou possuem uma oposição
moderada e o superior esquerdo o menos denso. A relação
entre os quadrantes opostos caracteriza-se, na visão de
Kandinsky, por uma diagonal desarmônica e a tensão que
dela resulta seria “dramática”, ao contrário dos quadrantes
em oposição moderada, cuja diagonal harmônica, gera uma
tensão “lírica”.
Quanto às disposições de formas no plano básico, Kandinsky
as classifica em dois grandes grupos: paralelamente às bordas
do plano (paralelismo externo), ou paralelamente às diagonais
(paralelismo interno, pois estariam dispostas em relação às
tensões internas do PB).
Com relação às tensões geradas pelas formas acrescidas ao
plano básico, Kandinsky conclui que quanto mais próxima do
limite do plano estiver a forma, maior será a tensão, até cessar
totalmente quando do encontro com a borda.
São também estudadas as composições possíveis no plano
básico, divididas em dramáticas e líricas. Tais conclusões são,
segundo Wick, apresentadas como regras absolutas e,
psicologicamente, de validade geral e não só na arte.
54
Assim como a escola de ULM - Ulm School for design, surgida
após a segunda guerra - muitas escolas de arquitetura e
design se basearam no ensino da Bauhaus, no legado de
trabalhos e publicações de alunos e professores, para a
estruturação de cursos e currículos. O fundamento
pedagógico-didático geralmente esteve (e ainda hoje está)
relacionado na prática de trabalhos em ateliês e laboratórios,
através de pesquisa realizada pelos próprios alunos. A própria
FAU USP, na década de sessenta, tem sua estrutura
pedagógica nesta proposta revelada fisicamente no desenho
para o novo prédio assinado por Vilanova Artigas. As teorias
das formas elaboradas pelos mestres da Bauhaus
fundamentam ainda hoje a base conceitual (mais conhecida
por Desenho básico ou Desenho estrutural) dos cursos de
design.
A escola de arquitetura Irwin S. Chanin of The Cooper Union,
dirigida por Peter Eisenman, revela, nas publicações próprias
sobre trabalhos de alunos, que o ensino da arquitetura está
vinculado à pesquisa criativa através do desenho, sendo este
meio e fim em si mesmo.
O estudo das teses e dissertações, apresentados à FAU USP
sobre o ensino de desenho, revela, no entanto, uma
defasagem didática em relação ao que seria adequado, face
às dificuldades enfrentadas pelos alunos e comprovadas pelo
exames de Linguagem Arquitetônica. Os trabalhos não são
significativos para o avanço dessa temática. A própria
estrutura do currículo agrava o problema, pois retirou do curso
de graduação, no final da década de 60, a disciplina de
desenho (aqui entendido como artístico ou expressivo),
substituída pela seqüência de Programação Visual.
Algumas faculdades particulares ainda têm em seus currículos
tal disciplina, o que não é suficiente para suprir a deficiência
dos alunos, que têm por sua vez uma formação básica de má
qualidade. Geralmente esses alunos vêm de escolas públicas
e conseqüentemente sem nenhum tipo de vivência plástica
ou gráfica e com repertório visual muito aquém do necessário.
III.4.2. Pós Bauhaus
55
Neste contexto, destaca-se o trabalho didático de Carlo
Maggiora e equipe, da Faculdade de Arquitetura de Firenze,
Itália. A publicação referente ao curso Disegno in architettura
come metalinguaggio
(25)
mostra a importância e os objetivos
do desenho para o trabalho do arquiteto.
O curso tem, como premissa central, o desenvolvimento
perceptivo espacial e a representação desse espaço como
forma de comunicação. É uma das únicas publicações no
gênero, ou seja, que enfoca o desenho específico para alunos
de arquitetura.
A arquitetura é abordada enquanto Arte e o desenho enquanto
instrumento de pesquisa arquitetônica, aliada à pesquisa
científica.
Para o autor, o aluno deve conhecer a linguagem do desenho
(técnicas e procedimentos), para utilizá-lo como elemento
de aprendizagem da arquitetura e do próprio processo de
projeto arquitetônico. É nítida, para Maggiora, a relação do
desenho com a questão do projeto, seja ele de edificações
ou urbanismo. O desenho é encarado como elemento
indispensável para o desenvolvimento de uma metodologia
de projeto.
Os trabalhos de alunos apresentados na publicação,
escolhidos com rigor, não permitem uma avaliação real do
curso como um todo em relação aos resultados. Também,
não existe demonstração minuciosa dos procedimentos
didáticos utilizados na disciplina, pois os trabalhos apesar de
apresentados na seqüência do curso, são acompanhados de
legenda (fragmentos de textos dos próprios alunos), que nos
permite apenas entender a necessidade e o vínculo dos
exercícios dentro do universo da arquitetura e do contexto
teórico no qual são realizados.
É interessante, no enanto, a complexidade crescente e
cumulativa com relação à aprendizagem. Os dados aprendidos
em exercícios anteriores são utilizados para exercícios
III.4.2.1. Carlo Maggiora
56
posteriores mais complexos.
Os exercícios, com exceção dos primeiros, que visam
desenvolver o gesto e sua relação com o objeto mental, são
realizados através da observação direta, quase sempre da
arquitetura. Assim, tema e técnica dos exercícios de desenho
estão vinculados a este tipo de representação.
Constam, também, da disciplina algumas viagens a outras
cidades e espaços arquitetônicos diferentes daqueles da
própria Florença, o que acontece no final do curso onde pede-
se ao aluno mais que uma simples representação do espaço,
mas uma análise arquitetônica e urbanística através do
desenho.
Na primeira parte do livro, encontra-se um texto que visa
apresentar o curso dentro das devidas linhas teóricas. Não
esclarece, no entanto, como estes conceitos teóricos são
repassados aos alunos. Tal publicação, única no cenário do
ensino da arquitetura, não pode ser considerada um método
de ensino (o que certamente o é o curso), mas uma mostra
de curso baseado em premissas teóricas importantes.
Segundo Maggiora, no período em que o livro foi publicado
(1971), era comum, nas faculdades italianas, o desprestígio
para com a disciplina de desenho, sendo que muitos
pensavam em retirá-la do currículo, como disciplina
fundamental, como até então se estruturava.
Nessa época, a orientação de projeto, enquanto atividade
do arquiteto, se dirigia a um processo racional de pesquisa
(em colaboração com outras disciplinas), devido às alterações
na estrutura de relações sociais, ou pela mudança de
interesse do arquiteto para com seu objeto de trabalho, da
edificação à estrutura urbana . Mas projeto, segundo o autor,
significa também um processo de análise crítica e de
escolhas, configurando o seu ensino como metodologia.
Não se pode negar a experiência sensorial ligada às imagens
pelas quais a arquitetura se expressa e, muito menos, não
se pode negar o instrumento pelo qual são indagadas, o
desenho. Estas experiências não são uma contradição do
processo de projeto, mas um de seus suportes.
Chegou-se, por conseguinte, a negar ingenuamente a eficácia
na formação do arquiteto, do aprimoramento da linguagem
figurativa, e dos exercícios pelos quais se desenvolvia a
passagem das operações conceituais ao contexto expressivo,
não se percebendo que, privando o arquiteto de seus meios
de expressão, estariam relegando-o a uma espécie de
suplente de administrador ou de sociólogo.
Neste contexto, coloca Maggiora, é imprudente a
reformulação dos programas das escolas, sem antes definir-
se a quais fins se propõe a formação do arquiteto.
Nos anos do segundo pós-guerra na Itália, já se falava em
reformas no ensino da arquitetura e, naquela época, Carlo
Maggiora já colocava as bases de seu pensamento:
...l’esperienza dell’architettura è di natura artistica.
Un’esperienza particolare, che organizza tutti i dati
della tecnica in funzione dei presentimenti interiori...
che è correlazione fra intenzioni, cognozioni, mezzi,
e risultati.
(26)
Acredita, porém, que este discurso pode estar superado, na
medida em que é difícil contestar que a arquitetura pertença
ao campo da arte, a não ser que se queira colocá-lo fora de
todo e qualquer discurso cultural e histórico.
Para Maggiora, do ponto de vista didático, não se pode
esquecer que a arte, como a ciência, é também um meio de
produzir objetos mentais, mas ao contrário desta última, não
busca os valores de forma cognitiva lógica ou referencial,
mas expressivamente.
Para o autor, ainda sob o enfoque didático, diferentemente
da conduta científica, que tende à abstração e à generalização,
a conduta criativa tende à comunicação subjetiva e original.
A comunicação age sobre os sentidos e pelos sentidos
promove as solicitações ao intelecto. Por isso, é necessária
a cognição das condições que dirijam essas ações das quais
deriva a obra; mas é necessário também a posse da
experiência sensorial relativa à comunicação perseguida,
experiência diferente daquela sistemática do intelecto e capaz
de dar resultado expressivo à obra realizada.
Os alunos por sua vez, futuros arquitetos, tendem
freqüentemente a se interessar pela pesquisa científica. Ainda
que necessária, esta não esgota a pesquisa arquitetônica. A
ciência se expressa por símbolos adaptados para
comunicação deste tipo de conhecimento, não permitindo a
utilização dos símbolos próprios para expressão dos valores.
Na visão de Maggiora, deve-se resistir à tentação fácil de
transportar métodos próprios de outras disciplinas para este
campo. Para ele, o processo de projeto é também um
processo de pesquisa e deve encontrar sempre que
necessário sua própria metodologia e seu próprio cientificismo
para a precisão da sua linguagem.
A arquitetura não é apenas um serviço técnico-econômico
que se presta à sociedade ou um instrumento político direto
para organizá-la, mas compreende essas funções através da
instituição das relações espaciais, que por sua vez se
concretizam em fatos perceptivos, pelos meios de construção
do espaço, sendo assim um meio de comunicação. Por este
tipo de comunicação se entende informar, não somente
conceitos, solicitando de quem fornece as informações e de
quem as recebe um comportamento recíproco ou
correspondente, quando da presença dos valores implicados
na informação.
O arquiteto, ao contrário de outros artistas, não executa ele
próprio suas criações, limitando-se a programar as ações,
que outros realizarão. Na transcrição das várias fases deste
57
processo operativo, o arquiteto deve procurar a cooperação
de colaboradores diversos, executivos, técnicos ou
financeiros. Nenhuma dessas transcrições poderá prenunciar
a totalidade da obra, o que somente pode acontecer com ela
edificada, mas cada uma delas está subordinada à pesquisa
complexa do resultado espacial.
Assim, Maggiora coloca algumas questões fundamentais na
formação do arquiteto. Satisfazer essas condições é essencial
para se seguir as premissas anteriores. Neste contexto, o
desenho, metalinguagem da arquitetura, assume real valor,
pois é através dele que se desenvolve a pesquisa do projeto,
aliado ao espírito crítico e aos conhecimentos científicos e
técnicos. Deve-se salientar que, para o autor, arquitetura não
é o espaço edificado pela obra ou mesmo a obra, mas as
relações sociais que advêm desta organização. Assim, a
edificação ou mesmo a cidade é a linguagem da arquitetura,
entendendo o desenho enquanto metalinguagem.
Maggiora parte do pressuposto de que o primeiro contato
com aquilo que nos envolve é um contato sensorial, que
desperta em nós algum tipo de interesse.
Valorizar as sensações recebidas, lhes atribuir um significado,
depende das atitudes analíticas e sintéticas do intelecto.
Assim, dado esse processo, pode-se dizer que se deu uma
comunicação.
Assim, também a ação do arquiteto parte de dados sensoriais
e se concretizam através de meios sensoriais.
Os canais sensoriais, pelos quais o arquiteto transmite sua
mensagem, correspondem a toda uma gama de sensações
pertinentes à arquitetura, ou seja, à realidade poliédrica e
complexa, formada pelo elementos visíveis, táteis, temporais
e outros.
Porém, sabe-se que, para estabelecer uma comunicação, é
suficiente escolher um canal no contexto da mensagem, que
convertido na forma de signos, e decifrados, bastam para
compreender a complexidade da mesma.
Sob o ponto de vista didático, Maggiora esclarece que este
entendimento é crucial, para que se possa fazer referências
em código de uma série infinita de sensações, que o espaço
arquitetônico fornece, permitindo, assim, uma leitura ou
mesmo uma prefiguração.
Para o autor, ler uma estrutura arquitetônica significa, antes
de tudo, colher seu desenho intencional e, para distinguí-lo
do signo gráfico pelo qual é ou foi indagado, o denomina
como desenho materializado - disegno materico. E conclui:
...se il messaggio significante dell’architettura è la
proposta di un tipo di coinvolgimento spaziale fatta
mediante la sua connotazione con segni
architettonici, l’architettura come linguaggio
consiste in questo sistema di segni stesso, i quali
si ordinano di volta in volta in struttura - disegno
materico - per caricarsi dei significati voluti.
(27)
O arquiteto deve entender os interesses e as técnicas
pertinentes a esse contexto, não necessariamente para
empregá-las, mas para interpretá-las em novas soluções
espaciais.
No plano didático, ele deve primeiramente aprimorar sua
própria leitura dos signos figurativos, através dos quais esses
interesses e técnicas, ou o próprio processo, se comunica. É
de fundamental importância educar a visão e desenvolver a
sensibilidade, facilitando, assim, o desenvolvimento da
imaginação.
O arquiteto depende do trabalho de construtores e operários,
trabalha para outros e não para ele próprio; assim, depende
dos clientes, dos críticos e de outros observadores, que
podem ou não compreender sua proposta. No entanto, esta
complexa colaboração operativa entre especialidades
diversas, é a única forma pela qual se pode reorganizar
espaços arquitetônicos e urbanísticos. Para o autor, é
importante esclarecer qual o papel do arquiteto neste
processo complexo e quais seriam os instrumentos
disponíveis para desenvolvê-lo.
Sappiamo che l’architettura trasmette il suo
messaggio per mezzo di immagini realizzate con
segni che definiscono gli spazi coinvolgenti il
sistema di relazioni umane che si vuole proporre (e
in questa proposta consiste appunto il suo
messaggio). Ipotizzare queste immagini, elaborarle
e prefigurarle costituisce il suo lavoro. Il fatto che
l’opera deve realizzarsi per parti e col concorso di
operatori diversi, non fa che mettere in maggior
luce la qualità dell’intervento dell’architetto, e
riportare nelle sue mani l’aspetto della ricerca
figurativa necessaria a tradurre in un’espressione
globale e coerente tutti quei fatti per i quali è
necessaria la ricerca di molti.
(28)
Si tratta cioè di un processo creativo, che prende
forza dal sistema di tendenze interiori implicite nella
personalità di chi opera, tendenze che non si
trovano mai a livello cosciente. Proprio per questo
motivo non può esprimersi che attraverso segni
mediatori che abbiano la caratteristica di “offrire
una similarità strutturale con il mediato.
Ciò che ci si aspetta dall’architetto è dunque la
“capacità di perseguire, per via di presentimenti,
questa similarità”. Cioè la capacità di “vedere”, che
può sola condurre a intuire la forma.
(29)
O desenho gráfico é sempre um sistema de comunicação.
Quando o arquiteto desenha, deseja verificar sua hipótese
de forma, que se estrutura e se valoriza somente em
comparação com os elementos que não são gráficos, mas
que constituem também um sistema de comunicação bem
definido. Assim, pode-se considerar o desenho como um
58
meio de pesquisa e de verificação deste segundo sistema,
ou seja a obra construída, e o seu desenho demonstrará tal
conteúdo.
O autor define o desenho do arquiteto como:
metalinguaggio che indaga una struttura di rapporti
spaziali (architettura) connotante una struttura di
relazioni umane nel loro farsi (messaggio
architettonico).
(30)
O desenho do arquiteto não tem um fim em si mesmo. Como
um instrumento de pesquisa, deve permitir a rápida maturação
das idéias, quando da modelação das imagens.
Referente ao ensino, o exercício desta metalinguagem - o
desenho , possui um valor didático fundamental, o de educar
o aluno à figuração, de familiarizá-lo com uma determinada
reação neuro-cerebral que é o canal da mensagem
arquitetônica.
Estabelece o caráter do desenho do arquiteto: é como uma
escritura, é pessoal (é expressão da personalidade do artista),
é realista e tem na figura humana seu referimento principal,
tem exatidão nas proporções e a técnica gráfica deve ser
adequada às normas, quando desenho técnico descritivo, ou
à representação emotiva da obra imaginada, quando se
apresenta como um desenho de pesquisa.
Colocados os meios, a questão é como deles se utilizar. O
autor coloca o problema crucial de saber ver. Com relação à
arquitetura, isto pode-se dar de duas formas diferentes, mas
integradas: a intuitiva e a intelectiva.
As sugestões registradas de forma inconsciente devem ser
maturadas com base no juízo crítico, pois o estudo da forma
em arquitetura não pode ser realizado puramente pela
intuição, pois a arquitetura surge de exigências práticas, que
se apresentam como finalidades a serem alcançadas e como
problemas a serem resolvidos. Necessita-se, assim, indagar
qual a relação entre a imagem e os pressupostos de tais
finalidades e problemas.
O autor faz, ainda, uma crítica às experiências que se baseiam
em abstrações rítmicas (pictóricas ou materializadas).
Certamente, elas são eficazes enquanto adestramento, pois
cada expressão tem seu ritmo. No entanto, não se deve
esquecer a causalidade do problema, para que a pesquisa
de um ritmo não se torne um exercício abstrato e formalista,
mas sirva para entender a dinâmica de uma operação.
Outro ponto, destacado por Maggiora, é sobre as teorias da
figuração, que podem se constituir em meios eficazes de
orientação didática, mas também com a ressalva de fazê-lo
sempre visando sua aplicação.
De todos estes meios, o autor afirma que o mais direto é
aquele pelo qual se toma contato com a realidade visível.
Il disegno come metalinguaggio rimane ancora il
mezzo più eficace per sviluppare l’acquisizione
visiva, l’intuizione inventiva, la precisione
documentaria ed operativa: disegno come
trascrizione spaziale, punto di partenza e punto di
arrivo delle operazioni dell’architetto; disegno come
trascrizione ideografica, per quanto riguarda i mezzi
che devono informare, documentare, prescrivere,
garantire le operazioni stesse.
(31)
Na disciplina a premissa didática básica é a busca dos meios
instrumentais para a pesquisa figurativa. Evita-se regras, pois
a escolha metalingüística é a expressão de uma relação
pessoal entre o arquiteto e os fatos espaciais imaginados.
Il nostro compito di docenti è solo quello di risve-
gliare questa sensibilità e di stimolare questa intelli-
genza, in modo che le scelte risultino sempre ade-
guate e utili a prefigurare gli oggetti perseguiti.
(32)
Coloca, também, algumas indicações sobre formas mais
fáceis de se conseguir bons resultados, no que concerne às
qualidades espaciais dos objetos indagados, das quais
destacam-se:
Observar e desenhar a realidade arquitetônica e
urbana.
Congruência na descrição entre espaço analisado
e sua função.
Instrumentação técnica ou adaptação ao material
e à técnica utilizada, propiciando a pesquisa da
relação entre o desenho materializado e o desenho
gráfico.
Ressalta, também, neste item, a capacidade fundamental
que o projetista deve ter, de se colocar sensivelmente no
espaço imaginado.
L’esperienza che consente questo genere di verifica
è esperienza prospettica. Il senso prospettico deve
quindi essere considerato uno strumento per
affinare la sensibilità alla valutazione critica degli
spazi.
(33)
Destaca, entre todas as experiências perspécticas, a
convencional do Renascimento, que já faz parte da nossa
percepção, normatizada pela difusão da fotografia. Mas, deve-
se, ainda, ressaltar que para um principiante é necessário
um controle maior, para que todas as representações sejam
integradas e correspondentes a uma mesma imagem ou
espaço imaginado. Em suma trata-se de uma questão de
precisão.
Deve-se aqui fazer uma complementação ao trabalho de
Maggiora, sobre a questão do desenho de observação.
Estudos revelam que a mente trabalha com as imagens
mentais, como se fossem objetos concretos. Podemos
manipular um objeto em nossa mente, da mesma forma com
59
que o faríamos na realidade. Esta capacidade é resultado de
um aprendizado. Assim, observar um espaço é a primeira
condição para dar-lhe mentalmente uma imagem congruente
com o real, e poder assim desenhá-lo de forma precisa.
O autor, enquanto docente, também coloca que a grande
maioria de seus alunos não tem nenhuma experiência básica
figurativa e representar uma imagem trata-se de afrontar uma
língua desconhecida. Estas dificuldades são geralmente as
mesmas para qualquer um, neste tipo de estudo, variando
somente o grau de deficiência.
60
Na década de 60, a didática da educação ativa esteve em
alta no Brasil e no mundo, reformulando programas e cursos.
Onofre Penteado sempre procurou basear seus cursos nesta
concepção didática, formando outros educadores com a
mesma tendência, sendo por muitos considerado como
precursor das reformas na arte-educação.
Em 1964, Penteado apresentou uma proposta de estruturação
de currículo à Escola de Belas-artes da Universidade Federal
do Rio de Janeiro, aprovada em 1966. É nítida a preocupação
com o “Homem total”, não só instruído, mas educado, levando
em conta o conceito de educação como formação cultural e
social. É também nítida a influência da Bauhaus (comparando-
se a estrutura proposta por Gropius em 1919) e de alguns de
seus mentores, principalmente Itten, Klee e Kandinky. A
proposta de Penteado sugere no ciclo básico, um conjunto
harmônico de disciplinas, de experiências integradas, comum
aos cursos de Artes Visuais para posterior especialização,
como acontecia na Bauhaus de Weimar.
De suas publicações sobre a questão da Arte-educação, além
de “Vida-valor-arte” de 1948, da tese apresentada no
concurso para provimento da cátedra de Desenho
“Planejamento do Desenho Artístico”, em 1964, também
existem as apostilas da Escola Nacional de Belas-artes,
“Desenho-artístico” de 1969, nas quais se encontram
resumidas algumas questões técnicas (do uso do fusain, das
pontas de metal e aguadas aos recortes, colagens e
monotipias) e teóricas ( dos princípios básicos de composição,
simetria, repetição, etc. às leis da boa forma - Gestalt).
Mas a obra mais importante é, sem dúvida, “Desenho
Estrutural”, pois nela procura sintetizar suas principais idéias
sobre o ensino programado em arte, mais especificamente
sobre o desenho. Este é conhecimento e ação construtiva,
ambos elementos básicos das estruturações plásticas puras
e das criações simbólicas imaginárias.
(34)
O ensino de Desenho Estrutural no nível básico
II.4.2.2. Onofre Penteado
Desenho Estrutural
61
constitui-se na objetivação de princípios gerais,
numa determinada perspectiva, numa particular
abordagem do fenômeno estético: a da
representação gráfica. Esse ensino exclui, por
motivo didático, o estudo da cor (não a luz, o tom)
e da tridimensionalidade física (real-euclidiana),
acima de certo nível de realidade concreta ( o plano
- superfície do papel). Contudo, as disciplinas Cor
e Plástica Tridimensional visarão, necessariamente,
também, objetivar os mesmos princípios gerais no
exercício de suas respectivas energias e
materialidades.
O desenho, assim entendido, realiza a união de
princípios formais (estruturas, gestalten) e
materiais (instrumentos, materiais, técnicas,
procedimentos) e a explicitação das leis de
construções simbólicas (funcionais, puras,
expressivas), através de organizações (conjuntos)
espaciais. É portanto o que há de comum a todas
as estruturações formais, funcionais e simbólicas
(“simbolismo”).
(35)
Os exercícios são, na sua maioria, inspirados nos cursos dos
mestres da Bauhaus da fase Weimar, como: Itten (relações
de contraste) e Kandinsky (posição das linhas / relações com
as cores) e Klee.
A primeira unidade do ciclo básico está dividida em três
etapas e por isso denominada método ternário, que visa
transpor o interesse pelo plano da realidade exterior para o
plano da Arte; do nível das aparências para o nível da realidade
profunda: uma abertura espiritual (comportamento).
(36)
Neste método, o trabalho didático se desenvolve passando
por três etapas: desenho de observação; análise de estrutura
e nova estruturação formal.
Segundo o autor, na fase de observação, parte-se do real
para o abstrato.
Estudo prático-teórico dos elementos do desenho
a partir da visão de objetos no espaço físico -
fragmentária ou globalmente - e da sua
transposição gráfica. É o equivalente do chamado
desenho de observação” ou do natural”
(37)
Numa segunda fase, analisa-se espontaneamente as
estruturas percebidas:
desenho analítico-sintético, indutivo-dedutivo das
dominantes formais apresentadas pelo modelo.
(38)
Na fase três, faz-se uma
transposição para o plano da forma pura. Apelo à
invenção (inicialmente espontânea), à reflexão
controlada (incipiente). Trata-se de alcançar a
composição, ou a nova construção: uma
estruturação com as partes e elementos formais
estudados, mas cuidando observar:
1) manter a bidimensionalidade da
superfície (Plano Básico);
2) revelar o caráter geral do objeto
(forma) analisado (se estático, dinâmico, rijo, mole,
denso, leve etc. noções de ritmo e modulação).
(39)
Nas demais unidades do curso (assim como na Bauhaus de
Weimar) são abordados, através de trabalhos didáticos, os
interesses para os futuros profissionais da forma.
Dá-se oportunidade, em se tratando de curso
básico, numa Universidade que possua um Centro
de arte, de o jovem aluno decidir, conscientemente,
o seu currículo escolar (sistema de créditos) no
nível profissional. Nas Faculdades de Arquitetura
isoladas, poder-se-ia enfatizar pontos mais
significativos para o futuro arquiteto, o que daria
caráter semiprofissionalizante em alguns aspectos,
mas a consciência da importância da “integração
das artes” evitaria distorções especializadas.
(40)
O ensino de Desenho Estrutural funda-se nas
representações menos materiais, tais como o
ponto, a linha, a superfície ( o Plano Básico e as
superfícies limitadas no campo), analiticamente
estudadas e em múltiplas relações. As relações
que originam as combinações e as estruturações
desses elementos concretizam materialmente
princípios e problematizam supostos e
pressupostos. Tais são: o espaço (dimensões); o
movimento (direções); o tempo; o ritmo; (a
simultaneidade e a sucessão); o equilíbrio (tensão,
peso, lugar, localização); as sensibilidades:
1) visual (visualidades; figura e fundo;
fisionomia das formas);
2) Táctil (texturas; contexturas;
densidades; cheios; vazios);
3) Estrutural (organização de unidades
puras e significativas); e expressão-comunicação
(linguagem); a criação de símbolos; a luz; o claro-
escuro; e, tangencialmente, a cor em sua relação
com o desenho.
(41)
Metodologicamente, o ensino do Desenho
Estrutural fundamenta-se na ciência e conscientiza
o método experimental, empírico, tecnológico.
Parte do real, concreto (análise) das estruturas
naturais mais ricas de significações formais e
expressivas, em busca de uma linguagem (síntese),
através de elementos (análise das formas
visualizadas e dos construtos abstratos (indução)
em obediência à uma finalidade (dedução)
(Axiologia).
(42)
Sinteticamente, o programa do ciclo básico está dividido em
Desenho I (da unidade 1 a 5) e Desenho II (da unidade 6 a
10) seguindo o esquema:
a) Introdução ao Desenho (estrutural): observação
de traços do mundo exterior.
62
b) Os elementos do Desenho e suas estruturações.
c) Equilíbrio e ritmo no Desenho.
d) Espaço e desenho.
e) Tempo - movimento e o Desenho.
f) Luz e o Desenho.
g) Campos plásticos; Leis de organização: unidades
perceptivas e propriedades das formas.
h) Expressão - comunicação: A consciência
estética; o contexto e os “estilos”.
i) Desenho estrutural e a Arquitetura. A questão
da integração das Artes.
(43)
Penteado também apresenta o programa geral para o ciclo
profissional, específico para o curso de Licenciatura em
Educação Artística, dividindo-o em Desenho III e Desenho IV,
no qual se procura desenvolver a expressão em superfície e
movimento. A Teoria está centrada no estudo do Desenho
para os diversos níveis de escolaridade, nas experiências
pedagógicas da Bauhaus, na obra de Herbert Read e Viktor
Lowenfeld, entre outros. Na prática, estuda-se variadas
técnicas de expressão, desenho livre de iniciação e execução
de projetos de desenhos animados.
Penteado sugere critérios para avaliação e aprovação dos
alunos no ciclo básico. Segundo sua proposta, o sistema de
notas estaria invalidado, visto que a atividade artística é uma
qualidade, possuindo um valor inextenso; assim, adotar-se-
ia o sistema de avaliação por conceitos: A (ótimo), B (bom),
C (suficiente) e o conceito D equivaleria à reprovação e no
caso à dependência.
Os trabalhos seriam obrigatórios e em número compatível
com o período letivo. Na avaliação destes, expostos à classe,
os professores deveriam levar em conta:
a qualidade gráfica dos mesmos, a capacidade do
fazer artístico - e na medida do possível,
aprendendo a “alma artística do aluno, ou seja, seu
poder de criar formas plásticas. Cientificamente
procurariam apreender a vocação artística” do
aluno pela análise dos traços abaixo enumerados:
1) se tem bom nível de inteligência e de natureza
estética;
2) se tem perseverança volitiva;
3) se possui habilidades de percepção e de
execução;
4) se manifesta atividade criadora;
5) se revela discernimento das relações e analogias
- expressas na confecção e julgamento da obra de
arte.
(44)
Nos anos 80, a educação artística e a educação pela arte
perderam prestígio aos olhos dos responsáveis pela
educação básica, principalmente das escolas públicas e o
resultado disso são alunos que entram no curso superior em
artes visuais, sem conhecimento de desenho, de expressão
gráfica, ou técnicas de expressão e representação. Isto gera
um problema de currículo e programático sério, pois o
professor é obrigado a incorporar ao programa da disciplina
conhecimentos básicos de desenho, a fim de proporcionar
aos alunos a oportunidade de desenvolverem, em poucos
meses, o que deveria ter sido feito em anos anteriores. O
aluno de curso superior tem de 18 a 25 anos, em média, mas
com em termos visuais e de desenho situa-se entre 10 e 13
anos, período no qual ocorreu a estagnação dessa linguagem,
pois substituíram completamente o desenho pela expressão
verbal e escrita, e o pensamento tornou-se somente uma
função racional e lógica, suprimindo a criatividade e a
expressão artística individual.
O trabalho de Penteado, apresentado nesta publicação, é fruto
de toda uma carreira dedicada ao magistério. É mais que um
simples discurso, ou montagem lógica de um programa para
resolver um problema didático baseado em teorias de autores
renomados. É uma experiência de toda uma vida, é algo
pessoal e fruto de várias experimentações. Trata-se de um
autor que deveria ser melhor estudado pelos profissionais da
arte-educação, principalmente no que se refere às suas
sugestões sobre didática, métodos e procedimentos de aula,
a fim de procurar criar sempre uma atmosfera propícia para
o desenvolvimento da personalidade artística e criadora.
O professor não pode pensar na sua comodidade -
aplicando um método formal, rígido, que aconselha
- e mal - o mais cômodo, o mais fácil (que propicia
disciplina rígida): o uso de uma técnica só para
todo o grupo de alunos. Disponibilidade atenta e
sensível para atender às diferenças individuais,
planejamento e previsão constante dos materiais
para evitar a frustração da vontade de expressão
do aluno, constituem exigências para os
professores da Artes Plásticas que queiram ser fiéis
aos princípios da educação pela Arte.
(45)
Uma ressalva, no entanto, deve ser feita quanto à colocação
de Penteado sobre a adequação do programa por ele definido
“Desenho Estrutural” em escolas de arquitetura. Defende esta
premissa baseando-se na idéia da Arquitetura com arte visual
e, assim, arquitetos como futuros profissionais visuais, o que
indicaria o mesmo curso básico de outras áreas em artes
visuais, pintores, escultores, gravadores, etc. A ressalva a
ser feita não contradiz o princípio básico da arquitetura como
arte visual, mas no fato de ser por vezes considerada só como
tal. A Arquitetura é uma arte sinestésica, pois todas as
sensações são importantes para percebê-la; o arquiteto é
que se utiliza da visão como forma de unificar as sensações;
se utiliza das artes visuais para expressar suas idéias
referentes a um espaço sinestésico.
Outra questão a ser ressaltada é sobre o desenho em artes
visuais ser considerado como uma finalidade em si mesma,
a expressão pelo desenho e no desenho é a obra a ser
objetivada. Na arquitetura, e para o arquiteto, o desenho não
é um fim em si mesmo, ele é um meio para a expressão de
uma realidade que está além das fronteiras bidimensionais
do papel, ele é a representação de uma idéia que transcende
os limites do grafismo e que na verdade não se refere a este
63
propriamente dito, mas a uma configuração de espaço
tridimensional, ou seja, é também uma simulação.
Penteado, apesar de reconhecer a complexidade da
Arquitetura, não explicita algumas questões. Por exemplo,
aliado à sua definição de desenho e do ensino de Desenho
Estrutural, na qual exclui o estudo da tridimensionalidade
(essencial para a formação do arquiteto em desenho, sem a
qual este não terá função de projeto), coloca que:
Sem sair da esfera do puro grafismo - donde seu
caráter geral e ideal - o ensino do Desenho
Estrutural numa Faculdade de Arquitetura,
culminaria nas relações fundamentais com o
fenômeno arquitetônico.
(46)
Porque não sair do puro grafismo, se é este, justamente, o
que não se deve procurar no desenho do arquiteto? E como
culminar nas relações fundamentais do espaço arquitetônico,
sem sair da esfera do puro grafismo, já que são espaços tão
diferentes? Como relacionar desenho gráfico bidimensional
com o desenho materializado tridimensional da obra
arquitetônica, sem sair da esfera do grafismo? É de
fundamental importância compreender que, em se tratando
de arquitetura, ou mais especificamente, de projeto
arquitetônico, desenho e espaço tridimensional formam um
conjunto. Estas são algumas das questões fundamentais a
serem resolvidas, ao se preparar um programa disciplinar de
desenho, específico para estudantes de arquitetura.
64
Nos últimos anos, mais precisamente no final da década de
oitenta, alunos de arquitetura e o público leigo, em geral,
foram dominados por uma febre intitulada “desenhar com o
lado direito do cérebro”
(47)
. Cursos paralelos surgiram, até
por professores acadêmicos, agraciando os freqüentadores
com uma suposta nova metodologia revolucionária.
A primeira edição deste livro é de 1979 e, ao que tudo indica,
publicada pela própria autora. Ainda hoje aparece como a
mais nova “invenção” na arte de desenhar, dando origem a
muitos outros trabalhos.
A edição brasileira publicada pela Ediouro, deixou a desejar
quanto à qualidade da programação gráfica, acentuando o
ar pejorativo da obra, como se esta pertencesse à longa lista
de manuais de aprendizado rápido e fácil tão comuns às
publicações desta editora. Mesmo na edição espanhola, que
utilizamos como fonte para este trabalho, já aparece como
subtítulo:
“Un método garantizado”
Não consta, no entanto, o fato de que tal método só se torna
realmente um método garantido, na medida em que o aluno
ou o aprendiz se aplique com um alto grau de dedicação e
constância no trabalho. Não se trata de nenhuma “mágica” e
não é somente tendo acesso a tais conhecimentos ou lendo
o livro que se aprende a desenhar.
Betty Edwards, no prefácio da edição espanhola, coloca que
o trabalho é o resultado de dez anos de pesquisa, nos quais
buscou um novo método de ensino, que pudesse ser aplicado
a pessoas de idades e ocupações muito diferentes.
Baseou seus estudos na sua própria maneira de ver o
desenho, nos cursos que lecionava, percebendo as dificul-
dades dos alunos, e nas pesquisas realizadas nos anos 50 e
60, pela equipe de Roger W. Sperry, do Instituto Tecnológico
da Califórnia, sobre a divisão das funções do cérebro.
III.4.2.3. Betty Edwards e o desenho com o
lado direito do cérebro
65
A autora parte da premissa básica que, desenvolvendo um
novo modo de ver, utilizando as funções especiais do
hemisfério direito do cérebro, pode se aprender a desenhar
facilmente. Os requisitos básicos são uma coordenação
motora normalmente desenvolvida, tanto quanto visão. O
método tem como finalidade, fazer o aluno desenhar de
observação, ou seja, ele desenha apenas aquilo que está
presente em seu campo visual.
Segundo a autora, desenhar realisticamente é uma etapa,
pela qual se deve passar para alcançar outros níveis de
desenho. Primeiro, porque dá confiança na própria habilidade,
liberando o potencial de funções de todo o cérebro, necessário
para níveis mais elevados e também porque, ao utilizar o
lado direito como principal processador de informações, se
aprende um novo modo de pensar que permite resolver os
problemas criativos de maneira mais adequada.
A experiência com tal método revela que não seria
aconselhável sua aplicação em alunos de arquitetura, para
os quais desenhar o espaço também requer concomi-
tantemente analisá-lo logicamente, pois o projeto se compõe
na maioria das vezes, de intervenções de ordem prática e
funcional. Em segundo lugar, a passagem do desenho de
observação, para outros níveis de desenho (desenho de
memória e do espaço imaginário) pode se tornar muito difícil,
pois os alunos podem ficar de tal forma arraigados à
observação e, assim, condicionados pela visão imediata do
objeto.
Tal método dá confiança para o aluno praticar o desenho de
observação, pois lhe assegura uma relação direta com o
objeto a ser desenhado e fornece procedimentos de obtenção
das informações de forma simples e que estão sempre
disponíveis, pois presentes visualmente no objeto. Mas, por
outro lado, toma-lhe a iniciativa para se aventurar em novo
tipo de desenho, no qual a presença do objeto não se efetue,
no caso do desenho de memória ou ainda quando o objeto
não existe e deve ser construído pela imaginação.
O método tem como base pesquisas realizadas sobre o
funcionamento do cérebro, nas quais se verificaram diferenças
funcionais em relação aos dois hemisférios.
Segundo estudos recentes, sabe-se que a função da
linguagem verbal e das capacidades relacionadas com esta,
na maioria das pessoas estão localizadas no lado esquerdo
do cérebro, assim como o pensamento racional.
Até bem pouco tempo, pensava-se que a metade direita
estivesse menos avançada e por isso ainda em evolução com
relação à esquerda. Hoje, porém, sabe-se que cada hemisfério
tem suas funções bem definidas e estão particularmente em
igual estágio de evolução. Sabe-se, também, que estão em
permanente conexão, devido ao Corpus Callosum, uma
espécie de cabo nervoso que interliga os dois hemisférios.
Comprovou-se, através de intervenções cirúrgicas e de testes
posteriores que, quando este cabo era cortado, as duas partes
continuavam funcionando, mas independentemente uma da
outra, trazendo graves problemas aos pacientes. Por exemplo:
não conseguiam falar (função do lado esquerdo) sobre algo
percebido pelo tato (informações processadas pelo lado
direito). Ficou claro, também, que cada metade do cérebro
está especializada, de modo a complementar as funções
realizadas pela outra parte, por diferentes formas de
pensamento, mas do mesmo nível de complexidade.
Verificou-se, então, que o modo de processar uma mesma
informação, varia de lado para outro. O esquerdo é verbal e
analítico, além de temporal, é o responsável pelo nosso
controle do tempo. O direito, por sua vez, é não verbal, global
e atemporal. Posteriormente, Jerre Levy descobriu que o
processamento no hemisfério direito é rápido, complexo,
totalizador, espacial e perceptivo. Graças ao hemisfério direito,
entendemos metáforas, sonhamos, criamos novas
combinações de idéias, imaginamos coisas que não existem,
vemos espacialmente os objetos, além de podermos entender
como se combinam as partes para formar o todo.(Razão pela
qual os manuais explicativos de montagem de objetos,
funcionam melhor com ilustrações do que com palavras.)
Sabe-se hoje, também, que os hemisférios podem colaborar
entre si, cooperando com a outra parte ao dispor de suas
habilidades especiais para realizar determinada tarefa. Podem,
no entanto, segundo a autora, trabalhar separadamente.
Quando uma metade entra em ação, a outra é desativada.
Parece haver, também, certos conflitos entre as partes,
fazendo com que um hemisfério oculte informações do outro,
o que explica o desenvolvimento evolutivo da assimetria do
cérebro.
Edwards explica que as recentes investigações sobre as
funções dos hemisférios cerebrais humanos e sobre o
processamento da informação visual, indicam que a habilidade
para o desenho pode depender do acesso às faculdades do
lado direito, para isso desconectando o hemisfério esquerdo.
Da sua própria experiência, sabe que quando se desenha
não se consegue articular logicamente as palavras, ou
mesmo, quando tentava explicar para os alunos o processo
do seu desenho, as palavras lhe faltavam. Assim como,
quando se está desenhando, perde-se a noção do tempo, as
horas passam sem que se note, mas basta preocupar-se com
o horário para que o desenho não apareça.
Edwards coloca que o predomínio do lado esquerdo do
cérebro, transformando nossas ações para com o mundo em
formas eminentemente racionais, lógicas e ordenadas é um
fator cultural. Pode-se, acredita ela, através de exercícios,
inverter essa preponderância a favor do lado direito, ou
mesmo articular os dois hemisférios para trabalharem
harmoniosamente.
Independente da validade científica dessas colocações
neurofisiológicas, o fato é que o método está repleto de
exercícios que, se seguidos a rigor, produzem resultados
satisfatórios no caso do desenho de observação realista. Mas
tais exercícios são na realidade muito conhecidos pelos
acadêmicos há séculos. Desde o Renascimento, da teoria
66
da perspectiva linear e dos estudos de Albert Dürer com o
quadro quadriculado, até a técnica de semicerrar os olhos,
muito utilizada pelos impressionistas para decomporem a
paisagem, esses recursos foram passados dos mestres para
os aprendizes, muitas vezes oralmente, como “segredos” da
arte da representação visual. Mesmo o exercício de desenhar
a contraforma, ou seja os espaços vazios dos objetos, ao
invés deles próprios, já é bem antigo. Talvez pelo fato da arte
moderna ter rompido tão bruscamente com o academismo
e com o desenho realístico, é que esses “segredos”
reaparecem como “novidades”.
O método desenvolvido pela autora, num determinado ponto,
entra num impasse. Propõe, na maioria das vezes, exercícios
com figuras humanas, retratos, pois enfatiza que estes
possuem uma alta carga de conotação simbólica, sendo por
isso desenhos muito difíceis de serem realizados. De fato,
superada essa fase, é mais simples desenhar ambientes
internos ou externos, objetos inanimados ou vivos. Por outro
lado, torna-se um fardo desenhar coisas em movimento ou
dar intenção de movimento aos desenhos, pois a atenção
está na forma estática da coisa observada.
Deixa, portanto, para um segundo plano, a representação do
espaço que nos envolve, como ambientes internos ou
externos. Aliás, não existe nenhum exercício cuja proposta
seja registrar a paisagem urbana, pois pressupõe-se que nada
deva distrair o aluno de sua observação. Assim, os exercícios
devem ser realizados em ambiente controlado.
Para garantir o aprendizado de retratos, Edwards acaba por
ensinar ao leitor regras academicistas, muito diferentes dos
citados “segredos”, fornecendo dados matemáticos de
proporções do corpo e rosto humano, que não são a princípio
percebidos, mas apreendidos logicamente, o que de certa
forma contradiz o fundamento do trabalho.
Este método garante o aprendizado, assim como outro
qualquer que esteja vinculado à prática intensiva do desenho.
Ele está estruturado de forma que o aluno reconheça os
problemas e que para comprová-los seja obrigado a realizar
o desenho; com isto vai se acostumando ao seu próprio traço,
desinibindo-se frente à folha em branco, surpreendendo-se
com seu desenvolvimento e se auto-afirmando enquanto
alguém que pode se expressar pelo desenho.
Porém, o pensamento do arquiteto, quando projeta - numa
analogia aos preceitos de neurofisiologia colocados - deveria
se dar pela perfeita harmonia entre as funções cerebrais dos
dois hemisférios. Seria então inútil propor para alunos de
arquitetura, exercícios que “desativassem” uma parte em
favor de outra. Quando se projeta uma edificação, não se
pode pensá-la por partes que, somadas, resultarão no todo.
Este deve ser pensado em função das partes, mas de maneira
integrada. Razão e estética devem trabalhar juntas e é o
desenho o instrumento que deve integrá-las, é pelo desenho
que o espaço deve ser construído concomitantemente na
memória e no suporte gráfico, seja o papel ou uma mesa
digitalizadora.
O desenho, enquanto expressão e instrumento de
estruturação do pensamento formal, deve ser ensinado,
tendo-se como meta o desenvolvimento pessoal do indivíduo.
Não se trata de ensinar fórmulas e regras, mas caminhos
pelos quais a inteligência seja utilizada em toda sua complexa
e harmoniosa potencialidade.
Então, o que seria necessário, conveniente, técnica e
pedagogicamente possível de ser realizado com relação ao
ensino do desenho para estudantes de arquitetura?
A resposta a esta pergunta, proposta nesta tese, surge da
avaliação do desenho enquanto disciplina de múltipla
aplicação e que requer o entendimento do problema dentro
da vivência do aluno e do tipo de trabalho que irá realizar.
Entende-se, assim, o desenho, primeiro em sua condição
primária básica de expressão individual, única e
psicologicamente complexa. Segundo, enquanto linguagem
de um desejo enquanto projeto, e no caso projeto de espaço.
Terceiro, desejo construído tecnologicamente dentro de
premissas econômicas, sociais e culturais que devem estar
bem definidas e elaborado de forma inteligível, de leitura
compreensível e por isso dentro de uma linguagem
estabelecida pelas normas afins. Quarto, desenho enquanto
obra de arte e linguagem de uma obra de arte que está por
vir a ser e, por isso, uma metalinguagem. Por fim, enquanto
instrumento de pesquisa para arquitetura e para si próprio,
desenho para a criação para o despertar da imaginação.
67
Notas e referências bibliográficas
01.WICK, Rainer. Pedagogia da Bauhaus. São Paulo:
Martins Fontes, 1989. p.13
02. WICK, Rainer. op. cit. p.33
03. _____,____. op. cit. p.63
04. _____,____. op. cit. p.123
05. _____,____. op. cit. p.134
06. _____,____. op. cit. p.155
07. DROSTE, Magdalena. Bauhaus 1919 - 1933. Bauhaus
Archiv. Berlin: Taschen, 1992. p.32-3
08. WICK, Rainer. op. cit. p.144
09. _____,____. op. cit. p.146
10. _____,____. op. cit. p.314
11. WHITFORD, Frank. Bauhaus. London: Thames and
Hudson, 1985. p.91
12. DROSTE, Magdalena. op. cit. p.144
13. PARTSCH, Susanna. Paul Klee 1879 - 1940. Colonia:
Benedikt Taschen, 1992.p.54
14. WICK, Rainer. op. cit. p.325
15. DROSTE, Magdalena. op. cit. p.65
16. WHITFORD, Frank. op. cit. p.91
17. KLEE, Paul. Teoria della forma e della figurazione.
Milano: Giangiacomo Feltrinelli, 1959. p.XXXIV -V
18. KLEE, Paul. Notebooks. Vol. 1 The Thinking eye.
London: Lund Humphries, 1969. p.11
19. WICK, Rainer. op. cit. p.335-6
20. _____,____. op. cit. p.337
21. _____,____. op. cit. p.340
22. _____,____. op. cit. p.256
23. _____,____. op. cit. p.302
24. KANDINSKY, W. Punkt und Linie zu Fläche. Berna:
1969.p.19 cit. in :WICK, Rainer. op. cit. p.297.
25. MAGGIORA, Carlo. Disegno in architettura come
metalinguaggio. Firenze: L.E.F., 1971.
26. MAGGIORA, Carlo. op. cit. p.9
27. _________, ___. op. cit. p.21
28. _________, ___. op. cit. p.28
29. _________, ___. op. cit. p.28
30. _________, ____. op. cit. p.29
31. _________, ____. op. cit. p.36
32. _________, ____. op. cit. p.37
33. _________, ____. op. cit. p.39
34. PENTEADO, Onofre. Desenho Estrutural. São Paulo: Ed.
Perspectiva, 1981.p.21
35. PENTEADO, Onofre. op. cit. p.21
36. ________, _____. op. cit. p.27
37. ________, _____. op. cit. p.26
38. ________, _____. op. cit. p.26
39. ________, _____. op. cit. p.26
40. ________, _____. op. cit. p.28
41. ________, _____. op. cit. p.22
42. ________, _____. op. cit. p.23
43. ________, _____. op. cit. p.33
44. ________, _____. op. cit. p.29-30
45. ________, _____. op. cit. p.264
46. ________, _____. op. cit. p.16
47. EDWARDS, Betty. Aprender a dibujar con el lado
derecho del cerebro. Madrid: Hermann Blume,
1984.
Bibliografia complementar
ITTEN, Johannes. Design and form. The Basic Course at
the Bauhaus. New York: Reinhold,1964.
KLEE, Paul. Pedagogical Sketchbook. London: Faber and
Faber, s/d.
KANDINSKY, Wassily. Do espiritual na arte. E na pintura
em particular. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
VOLBOUDT, Pierre. Kandinsky Dibujos. Colección
Comunicación Visual Serie gráfica. Barcelona:
Gustavo Gili, 1981.
The Irwin S. Chanin School of Architecture of The Cooper
Union. Education of na Architect. New York:
Rizzoli, 1988.
POPPER,Karl & ECCLES, John. O eu e seu cérebro. Cam-
pinas: Papirus, 1991.
68
III.5. Considerações Finais
O ato perceptivo é um conjunto interativo, que envolve todos
os sentidos, e não é propriamente um modo de atuação do
sujeito com o meio, mas uma relação entre os dois, uma re-
lação que estabelece sentido para as coisas, é comunicação.
Merleau Ponty coloca o desenho como um esquema
explicativo, desenhar é expressar-se tanto quanto expressar
a coisa.
Comunicar o objeto a outrem é marcar sobre o
papel um símbolo de nossa coexistência com a
coisa que se oferece aos olhos do espectador,
admitindo, por seu lado, uma operação de
retomada.
(01)
Ver não é só perceber visualmente, mas sinestesicamente.
Aprender a observar é aprender a precisar a relação com o
ambiente num processo de aprimoramento sensorial e
cognitivo. O arquiteto Joaquim Guedes quando fala em
qualidade de espaço por exemplo, se refere a isto em termos
vivenciais. Fenomenologicamente, a relação do sujeito e seu
meio é sua vivência.
Perceber também não é uma relação passiva com o meio.
Perceber é uma atividade, é intencional. No arquiteto, o
aprimoramento do ato perceptivo está aliado ao desenho.
São indissociáveis. Ver significa desenhar com o pensamento.
Desenhar, representando ou simulando, é transportar tais
imagens para um suporte, plano ou estereométrico. Em
arquitetura, isso se dá sempre pela mimese, (V. Volume I) a
arquitetura é uma arte mimética, não de símbolos mas de
relações de espaço, cuja referência é o ser humano. A
abstração não é o oposto da mimese. Esta última, para se
configurar, exige que nosso processo cognitivo abstraia da
realidade alguns elementos e os configure enquanto estrutura.
Na representação gráfica dessa configuração, mais elementos
são abstraídos, no que resulta o desenho. O desenho de
arquitetura não pode ser de todo abstrato, principalmente ao
que se refere à perspectiva. Dos elementos que compõem a
69
sintaxe visual, alguns básicos são indispensáveis para a
identificação e reconhecimento da imagem, ou seja do
espaço. Em uma escala decrescente de relevância ter-se-ia
a linha, que estruturada em termos perspécticos geram
imagens, reconhecíveis por contornos; a variação tonal em
textura ou manchas de claro-escuro que valorizam a estrutura
da forma pela luz; e a cor, o mais complexo de todos os
elementos da sintaxe.
Segundo a psicóloga M. J. Abercrombrie, quando nos
enfrentamos com uma tarefa com um grau de dificuldade
muito acima do que estamos acostumados, tendemos a voltar
a nossos esquemas de conduta infantis.
Coloca, também, que o fato do projeto, no caso dos
estudantes, terminar no desenho, quando muito em numa
maquete, e não no edifício propriamente dito é um fator
complicado na aprendizagem, pois somente aqueles que bem
conhecem o código do desenho podem compreendê-lo como
edifício. Assim, parte da aprendizagem de desenho consiste
em aprender a usar este código, a interpretá-lo e também
manipulá-lo, ou seja, parte da aprendizagem está centrada
no uso apropriado da sintaxe visual.
... el estudiante no puede asimilar y analisar un
problema excesivamente complejo; no há tenido
suficientes experiencias como para saber lo que el
código que utiliza significa y representa en la
realidad.
(02)
No entanto, o papel da disciplina de desenho, em um curso
de arquitetura, não é propriamente ensinar ao aluno técnicas
ou o código propriamente dito. O aluno já deve possuí-lo como
pré - requisito para entrada no curso - o que não acontece
em grande parte das escolas. A disciplina deve adequar o
desenho do aluno a seu fim específico: construir espaços
habitáveis.
Abercrombrie
(03)
coloca que os processos de aprendizagem
em desenho podem ser considerados segundo dois aspectos,
o de receber informações (ato perceptivo)- e relacionar
coisas, construção do pensamento figurativo propriamente
dita.
O que se verifica é que, didaticamente, o ensino do desenho
para o arquiteto está baseado em dois pontos que parecem
comuns à maioria dos cursos, quando a escola dispõe da
disciplina em seu currículo, ou quando esta não está centrada
basicamente em técnicas gráficas:
conhecer e refletir sobre o espaço real,
desenvolvendo a percepção;
representar o espaço conhecido, de forma a
comunicá-lo nos seus valores objetivos e
subjetivos.
Representar graficamente nos termos citados envolve
culturalmente o conhecimento da sintaxe visual e sistemas
de desenho (perspectivas e desenho diédrico).
Mas um componente básico, no ensino do desenho para
arquitetos, deve ser também a relação com o projeto
arquitetônico. No Volume I, demonstrou-se que o desenho,
enquanto categoria técnica (perspéctico ou diédrico), não
está vinculado como estilo da arquitetura, que a arquitetura
moderna por exemplo, não está vinculada a plantas, cortes e
fachadas por questões estéticas, mas por razões de produção,
de construção viabilizada pela racionalização do processo
como um todo, do projeto à execução da obra.
Com relação ao projeto, no volume II, demonstrou-se que o
desenho, enquanto instrumento de projeto ou aliado ao
processo projetivo, compõe com este uma relação dialógica
de inferências, ou seja, um se reflete no outro; método de
desenho está associado ao método de projeto, ao processo
cognitivo de se configurar um novo espaço. O desenho é um
meio, que de certa forma interfere no processo e vice-versa.
A perspectiva, como visto no Volume I, é o meio mais
adaptado culturalmente para se configurar o espaço em
termos sensoriais; estuda-se através dela a relação usuário
x espaço, no que se refere à sensação que o primeiro terá do
segundo.
É o espaço sob a forma de representação gráfica, que deve
ser apreendido pelo aluno. É o espaço o objeto a transformar
pelo desenho. A sintaxe do desenho, enquanto linguagem
gráfica, deve estar a serviço desta idéia, assim como também
o ensino da técnica.
O aluno deve aprender, conjuntamente a estes aspectos, dois
conceitos inerentes ao seu desenho; comunicação e
legibilidade. Assim, os exercícios de experimentação gráfica
não podem estar isolados ou serem apresentados sem vínculo
com a idéia de projeto. Se isto ocorresse, poder-se-ia passar
a impressão de que no âmbito da arquitetura, o desenho
existe por si mesmo, e que é a finalidade do trabalho do
arquiteto.
O objetivo do desenho deve extrapolá-lo. É algo que está
além dele, mas que só se concretiza por meio dele.
Assim como é um equívoco pensar desenho de observação
desvinculado da percepção, também o é separar - em
arquitetura - desenho de projeto. Um não existe sem o outro.
Um depende do outro para concretizar-se.
Torna-se necessário, então, adaptar os conhecimentos
adquiridos na representação do espaço construído à
transformação do mesmo. Isto envolve relacionar métodos
de desenho e de projeto. (V. Vol.II). Resolver problemas
espaciais pela linguagem gráfica. É importante ressaltar que
o objetivo não é ensinar métodos de projeto, mas ativar e
desenvolver no aluno mecanismos básicos do pensamento
espacial inerentes ao processo de projeto. Ajudá-lo a
compreender, na prática, o conceito intrínseco de
transformação material da realidade física concreta .
70
O desenho deve ser utilizado de forma propedêutica, ou seja,
que o aluno nos primeiros anos do curso possa entender os
conceitos de espaço e projeto arquitetônico, no seu aspecto
plástico-sensível, não como objeto visto de fora pelo
observador, mas nele inserido, participante do objeto (espaço
a ser transformado).
Os exercícios devem desenvolver a imaginação espacial, pois
é através dela que se dá a resolução da problemática e não
só do grafismo. Deve-se fazer aqui uma ressalva em termos
conceituais, é necessário distinguir, neste trabalho,
imaginação de criatividade. A primeira está centrada na
capacidade do indivíduo em formar imagens mentais, a
segunda na capacidade deste mesmo indivíduo em trabalhá-
las de forma original. Como demonstrado no Volume I, as
duas são funções cognitivas que dependem da memória, que
pode ser encarada como um centro de registro de dados já
abstraídos pelo indivíduo, pois perceber envolve filtrar
informações. Imaginar é tornar acessíveis mentalmente tais
dados e trabalhá-los enquanto objetos mentais, que podem
ser manipulados. Por exemplo, posso imaginar a cadeira da
sala de jantar e trabalhá-la mentalmente, mudando-a de lugar.
Posso imaginar a mesma cadeira pendurada no teto, como
se a estivesse vendo, mas provavelmente de um ângulo
inusitado que minha memória não tem registro, mas posso
além disso trabalhar mais essa imagem, modificando forma
e cor e aí configurar mentalmente uma cadeira que não existe
em realidade. A criatividade está associada à imaginação e
caracteriza a originalidade desta operação. As três
capacidades estão interligadas num todo cognitivo, que em
determinadas pessoas podem ter destaques diferentes.
Numa primeira fase de investigação, relacionada ao processo
de projeto, no qual se dá, de maneira geral, a análise das
necessidades e a formulação do problema relacionando
usuário e entorno, o desenho de observação é fundamental.
A cidade, a paisagem pode ser pesquisada de forma a se
estabelecer por exemplo, pontos focais do local para o
entorno e vice-versa, estipulando graficamente critérios
possíveis de intervenção. O mesmo pode ser realizado com
ambientes internos.
Numa segunda fase, pode-se pedir para o aluno configurar
formas de modificação desse espaço, baseadas na pesquisa
realizada. Estudar pormenorizadamente a forma concebida,
subdividi-la em pequenos espaços, estabelecendo percursos,
dando enfoque na relação homem - paisagem, escala humana
propriamente dita. Na seqüência, pode o aluno reestruturar
a forma imaginada inicialmente. Passa-se, assim, pelas fases
de reflexão preliminar, síncrese (síntese formal preliminar -
ver Vol. II), análise e desenvolvimento das partes, e síntese
(resposta espacial final).
Todos os sistemas de desenho devem estar relacionados,
perspectivas concomitantes a plantas e cortes. Isto
desenvolve no aluno a capacidade de pensar no plano,
problemas espaciais e vice e versa (a reversibilidade de
Piaget). É aconselhável o uso de perspectiva com pontos de
fuga, pois simulam de maneira mais coerente as qualidades
sensoriais do espaço. A isométrica pode ser trabalhada de
forma a precisar problemas técnicos construtivos e detalhes.
Procedimentos estereométricos devem estar em estreita
relação com os estereográficos. Maquetes, principalmente
na fase da síncrese são essenciais para desenvolver o
pensamento espacial. Associadas ao desenho, facilitam a
visualização dos problemas e de suas soluções, além de
ajudarem a execução da resposta gráfica.
Os temas para tais exercícios devem a princípio restringir-se
a estruturas simples, próximas à vivência do aluno iniciante.
Por exemplo, no caso da cidade e da paisagem, passarelas
de pedestres, abrigos para ônibus, etc. No caso de ambientes
internos, modificações de uso, elaboração de novos leiautes,
etc.
Exercícios estruturados da mesma forma, mas simplificados,
adaptados ao nível da turma, também podem ser realizados.
Além do já citado no item III.3., poder-se-ia trabalhar com
lógica operativa espacial, relacionando diretamente o desenho
diédrico com o de perspectiva. Num exemplo simplificado,
pedir ao aluno que desenhe várias maneiras de A (elemento
móvel) chegar a C passando por B. A, B e C podem assumir
qualquer configuração espacial e devem ser colocados
graficamente em planta.
Outra solução didática interessante está em começar pelo
desenho de invenção e pesquisar na realidade física a
resposta às necessidades de configuração da imagem criada.
Isso dá um caráter funcional e objetivo ao desenho de
observação, geralmente não compreendido pelo aluno em
sua totalidade pragmática.
Neste sentido, a perspectiva, principalmente advinda do
desenho de observação, é de fundamental importância
propedêutica. A representação em perspectiva exige do aluno
uma equivalente representação mental. Sem esta, torna-se
difícil registrar graficamente intervenções no espaço, ou
mesmo a criação de um objeto tridimensional não existente.
No entanto, alguns cuidados devem ser tomados. No sentido
etimológico, perspectiva significa “ver através de”. O profes-
sor deve esclarecer a diferença entre o que o aluno realmente
vê (projeção na retina, côncava) e seu cor-respondente gráfico
plano.
O aluno precisa entender a estrutura do mundo físico que ele
vê, que se configura em imagem visual. Deve entender sua
posição neste contexto, enquanto observador participante,
compreendendo os conceitos ótico-geométricos (luz refletida
no objeto, incidindo no olho do observador, perpassando um
plano).
O ensino da perspectiva deve recuperar seu sentido etimo-
lógico. Deve esclarecer ao aluno sua referência visual, esta-
belecendo a relação entre o observador e o espaço. Tornar
claro que, no caso, o desenhista e o observador coincidem.
71
Isto pode ser feito de forma simples e concreta através de
pequenas maquetes, e desenhando diretamente sobre um
quadro de vidro. É importante aprender o conceito, para que
possa aplicá-lo em desenho a mão livre, esboço rápido, mas
eficiente, enquanto configuração espacial - o croqui do
arquiteto propriamente dito.
Outro problema inerente ao desenho e à perspectiva é sua
relação temporal. É estática, um instantâneo que negligencia
o movimento. Em arquitetura, o parâmetro tempo está
sempre presente, pois o observador só percebe o espaço,
na sua totalidade, movimentando-se através dele. Desenhos
seqüenciais (visão serial) acompanhados de mapas mentais,
como os realizados respectivamente por Gordon Cullen
( 04 )
e
Kevin Lynch
( 05 )
são didaticamente proveitosos neste contexto.
Paulo Mendes da Rocha (V. Vol. II) coloca que o processo de
projeto é o mesmo, em arquitetura, design ou cenografia.
Assim, exercícios de estrutura projetiva, elaborados sobre
temas pertencentes a um universo que não é totalmente
desconhecido para o aluno iniciante podem se tornar
eficientes. Paulo Mendes também defende que arquitetura
não se tira da arquitetura, mas da literatura, da música, de
outras linguagens. Da mesma forma, exercícios vinculados a
textos que descrevam espaços, por exemplo, podem também
desenvolver e enriquecer a imaginação figurativa espacial
do aluno iniciante. Os alunos podem também criar seus
próprios textos, individualmente ou em conjunto com a classe.
Um exemplo simples: o professor coloca e anota na lousa o
tema a ser desenvolvido (casa, praça, edifício, etc.); cada
aluno colabora ao acrescentar uma determinada característica
de forma verbal. Todos devem acompanhar as modificações,
imaginando passo a passo as mudanças. Ao final, devem
desenhar a imagem mental resultante em perspectivas,
plantas e cortes.
Um outro tipo de exercício interessante, e que deve
acompanhar os de observação, é aquele realizado de
memória. A capacidade de memorização é essencial no
trabalho do arquiteto. Esta pode ser desenvolvida através de
exercícios que se constituam, também, enquanto pesquisa,
para incentivar o aluno a realizá-lo. Na verdade, todos os
exercícios para dar bons resultados devem despertar a
curiosidade no aluno. Técnicas e procedimentos gráficos, em
qualquer que seja a situação, devem estar colocados de forma
subliminar, ou seja, estar o aluno convicto de que seu objetivo
é pesquisar e projetar, aprendendo a desenhar, enquanto
projeta, e vice-versa. Quanto mais o fizer, melhor o fará,
projeto e desenho.
Assim, deve o professor deixar claro ao aluno o objetivo de
cada exercício (que nunca deve ser a qualidade gráfica da
representação por si só) e sua relação com o processo de
projeto. Deve, também orientar o aluno, mais que instrui-lo,
de forma com que este possa, por si próprio, identificar os
problemas e dificuldades. Deve o professor indicar alternativas
possíveis, para que o aluno, de forma consciente, possa
escolher a que lhe é mais adequada.
Segundo Johannes Itten, é essencial para o educador o
conhecimento da natureza humana, que é para ele um
conhecimento intuitivo. Assim, seria aconselhável ao
professor não idealizar um perfil modelo de aluno, mas adaptar
o melhor possível seu programa e exercícios à turma.
Enriquecer visualmente as aulas não só com trabalhos de
artistas, que são vistos sempre como modelos para mimese,
mas com desenhos de arquitetos, desenhos de projeto, para
que o aluno compreenda visualmente quais as características
do desenho que lhe são importantes desenvolver.
Dentro de uma abordagem ativista, evitar riscar o desenho
do aluno, valorizando a individualidade do traço como
expressão autêntica. Deve reconhecer o desenho como
principal instrumento de comunicação professor - aluno.
O lema de John Dewey, aprender fazendo, é básico para
qualquer disciplina de desenho. E isto significa, também,
desenhar muito e sempre que possível.
Condições otimizadas de trabalho são essenciais, como salas
adequadas, bem iluminadas e aparelhadas, biblioteca e
material de apoio, visitas a boas obras de arquitetura, etc.
Poucos alunos por professor, também, é condição básica.
Empiricamente, pude verificar que mais de vinte alunos em
uma turma para um período de quatro horas aula torna-se
inadequado, pois não é possível orientar a todos, indivi-
dualmente, com a dedicação necessária.
A mostra e debate sobre os trabalhos realizados também é
eficiente, primeiro porque o aluno consegue se situar dentro
do universo da sala, podendo ele mesmo se auto avaliar;
aprende novas soluções, observando e discutindo outros
trabalhos e a valorizar sua expressão particular, evitando
copiar modelos como soluções únicas.
Por fim, uma disciplina de desenho para arquitetos deve em
primeiro lugar ser vista num âmbito global, dentro da vivência
do aluno e do futuro arquiteto, o que inclui o perfil da escola,
do profissional, que ali será formado. Mas nunca se deve
restringir o desenho a técnicas de representação gráfica, ou
a uma maneira fácil e rápida de perceber o espaço dentro de
algum método simplificador.
Do aluno médio, que inicia o curso, deve-se esperar certa
curiosidade, muita inibição e pouco repertório gráfico, plástico
ou conhecimento de desenho. Não entende o que é
arquitetura, muito menos o que vem a se configurar no
processo de criação que se denomina projeto. É função do
professor de desenho (seja a qual área esteja relacionado)
fazê-lo compreender a estreita relação de dependência,
utilidade e afinidade que existe entre desenho e projeto.
Entender o primeiro como linguagem do segundo, instrumento
de produção, em certos casos agente catalisador da criação.
72
Notas e referências bibliográficas
01.MERLEAU-PONTY, Maurice. Merleau-Ponty na Sor-
bonne: resumo de cursos 1949-1952. Campi-
nas: Papirus, 1990. p.267
02. ABERCROMBRIE, M.L.J. Percepción y construcción. In:
BROADBENT, G. & WARD, Anthony
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. Metodologia
del diseño arquitectonico. Barcelona; Gustavo
Gili, 1971.p.276
03. ABERCROMBRIE, M.L.J. op. cit p. 157
04. CULLEN, Gordon. El paisaje urbano. tratado de esté-
tica urbanística. Barcelona: Blume, 1981. 4
a
. ed.
05.LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. Lisboa: Ed. 70,
1988.
Bibliografia complementar
ITTEN, Johannes. Design and form. The basic Course at
the bauhaus. New York; Reinhold, 1964.
KRIER, Rob. Architectural Composition. London: Academy,
1988.
LEOZ de LA FUENTE, Rafael. Redes y ritmos espaciales.
Madrid: Blume, 1969.
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