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3.3. Atribuições de Agência e Intencionalidade
Webb Keane (1997; 2007) aproxima idéias de Pietz e de Latour acerca do fetiche, ao
tratar de um caso empírico distante da África Ocidental: o da ilha de Sumba, na Indonésia. O
contexto etnografado pelo autor é análogo ao encontro cultural euro-africano na costa da Guiné:
Keane encontrou em Sumba pagãos, católicos e protestantes – os dois últimos acusam os
primeiros de fetichistas, e ao mesmo tempo os últimos acusam os dois primeiros de fetichismo.
De fato, a situação é bastante próxima à descrita por Pietz, a começar pela divisão religiosa
tripartite que pode ser vista como organizada em um crescente de rejeição da materialidade
(adeptos de religiões nativas ou pagãos; católicos; protestantes). Porém, aproximando-se mais
das hipóteses de Latour do que das de Pietz, o etnógrafo não se vale do termo fetiche para focar
no uso de objetos materiais nas religiões tradicionais, mas nas acusações de atribuição errônea de
agência dirigidas a estas religiões. Ou seja, seu foco está no antifetichismo, peça fundamental do
processo moderno de purificação do mundo, tal qual descrito por Latour.
O conceito de agência pode então entrar no trabalho de purificação, guiando as pessoas ao
tentarem ordenar quais tipos de seres têm ou não agência. Pois as sociedades diferem na medida
em que entendem a agência como sendo, digamos, intenção amoral ou liberação moral, ou na
medida em que espíritos, estátuas, pedras, canções ou textos, classes, massas, nações ou apenas
indivíduos podem ser ou não agentes [...] Uma das principais metas do trabalho de purificação,
conforme empreendido por missionários protestantes, é estabelecer o locus preciso da agência do
mundo ao separar imputações de agência corretas de enganos (Keane 2007: 54).
O fetichismo seria, sob olhares protestantes, um erro comum: atribuição de agência,
desejos e responsabilidades a não-humanos, a objetos que o antifetichista sabe serem matéria
inerte. Missionários acusam os nativos de Sumba de fugirem de suas responsabilidades e de se
absterem de culpa ao ceder agência a objetos e espíritos de ancestrais, e ao mesmo tempo de
terem uma religião egocêntrica, que visa ganhos materiais (idem 1997: 678; 685). Nota-se que a
distribuição de agentes no mundo também determina as jurisprudências, as culpabilidades, tendo
operaria uma espécie de crítica da crítica, um anti-antifetichismo. A resposta de Latour vai no sentido de afirmar
que sua posição não é contra todas as formas de crítica, apenas contra a crítica barata, ou desenfreada (c.f.
Latour 2002b: 25; Latour & Hennion 1993: 9), o que se aproxima de uma distinção, frisada por Pignarre &
Stengers (2005: 67 e passim) entre senso crítico e espírito crítico. Espírito crítico significa a acusação
desmistificadora que afirma que “antes acreditávamos em X, agora sabemos que Y”: reside nas críticas que
buscam “libertar o homem do engano”, através de julgamentos que agem quase como “polícia do pensamento”.
Já o senso crítico é o consentimento de que, sim, certas coisas devem ser atacadas, porém não apenas pelo efeito
da denúncia, mas pela busca de apontar novas possibilidades: não se trata de negar, mas de cultivar (ibid.: 93). O
senso crítico não é apenas construtivo, mas acima de tudo um processo aberto, que não desvincula em momento
algum crítica de aprendizagem, e que tem como critério as conseqüências de uma ação ou de um conhecimento,
não um regime de verdades e falsidades previamente estabelecido e inalterável. Assim, a “crítica da crítica” de
Latour é, mais que uma denúncia iconoclasta da atitude acusatória moderna, um esforço para abrir portas que o
espírito crítico nos cerra, abrir possibilidades que nos permitam desfazer vínculos viciosos (entre eles, o vínculo
ao espírito crítico) e, com cautela, estabelecer novos, benéficos. Gostaria de desenvolver com mais calma esta
interessante questão, mas este não é o espaço para tal.