
forma do dinheiro é exterior à coisa mesma, e portanto, mera forma de
manifestação das relações humanas ocultas detrás dela” (Marx, 1984: I/1:111).
Embora Marx desenvolva sua teoria imerso numa sociedade em que
vigora o padrão-ouro e a ideologia a ele subjacente
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, sua concepção de moeda
já está um passo adiante de seu tempo, antecipando quase em um século a idéia
de eliminação do lastro ouro e a adoção da moeda fiduciária como uma
possibilidade não só teórica como prática
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. Mais ainda, uma necessidade a ser
imposta pela história, pois, “o ouro e a prata, como mercadorias monetárias,
constituem para a sociedade custos de circulação que só surgem da forma social
da produção. [...] é uma parte da riqueza social que há que sacrificar ao processo
de circulação” (Marx, 1984: II/4, 162).
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“[...] as limitações que a natureza do capitalismo [...] [da época de Marx] impôs a sua
apresentação teórica são muito claras. Para ele, a vinculação do dinheiro a uma mercadoria
particular (o ouro) impunha-se como uma necessidade. Portanto, apesar de forma autônoma do
valor, o dinheiro não podia ser assim tão autônomo. Na aparência o dinheiro tinha de ser
mercadoria (como de fato tem de sê-lo ainda hoje) mas mercadoria ‘de verdade’, ou seja, o ouro.
Assim, se ele tinha consciência do caráter puramente formal do dinheiro, que se realiza quando
de sua determinação de meio de pagamento geral, acreditava também que, quando era
necessário o ‘valor em pessoa’, era o ouro a única aparência capaz de conferir ao dinheiro esta
dignidade. Enquanto dinheiro mundial, por exemplo, era sempre necessário que ele existisse em
sua corporeidade metálica, de modo que não fosse apenas forma do valor mas o próprio valor,
situação diferente da existente no âmbito interno, onde ele era substituído por signos do valor.
[...] não pôde Marx perceber que a essência da aparência de mercadoria do dinheiro é, ela
própria, puramente forma e não pôde perceber isso porque efetivamente a realidade do
capitalismo do século XIX obrigava que o dinheiro se mostrasse como ouro” (Paulani, 1991: 146-
7). Já a teimosia de Hilferding da necessidade do lastro ouro no início do século XX não nos
parece tão desculpável.
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“A lei determina arbitrariamente o conteúdo metálico das tarjas de prata ou cobre.
Em seu curso as mesmas se desgastam ainda mais rapidamente que as moedas de ouro. Por
conseguinte, na prática sua função monetária se torna inteiramente independente de seu peso,
isto é, de todo valor. A existência monetária do ouro se separa totalmente de sua substância de
valor. Objetos que, em termos relativos, carecem de valor, bilhetes de papel, ficam pois em
condições de funcionar substituindo ao ouro, na qualidade de moeda. Nas tarjas metálicas o
caráter puramente simbólico se encontra ainda, em certa medida encoberto. No papel moeda
faz sua aparição sem tapumes” (Marx, 1984: I/1, 154-5).
“... o dinheiro só funciona como signo de si mesmo e, portanto, também pode ser
substituído por signos. O signo do dinheiro não requer mais que sua própria vigência
socialmente objetiva, e o papel moeda obtém essa vigência mediante o curso forçoso. Este curso
forçoso estatal só vige dentro da esfera da circulação interna, ou seja, da circunscrita pelas
fronteiras de uma comunidade, mas é só nessa esfera também, onde o dinheiro exerce de
maneira plena sua função como meio de circulação ou moeda, e portanto, onde pode alcançar,
no papel moeda, um modo de existência puramente funcional e exteriormente desligado de sua
substância metálica” (Marx, 1984: I/1, 158). Junte-se isto aos acordos de Bretton Woods e temos
como explicar o curso forçoso do dólar como moeda mundial do sistema capitalista e o
estabelecimento da centralidade do Estado norte-americano (pelo exercício do poder), bem
como a “predileção” do sistema financeiro internacional por esta moeda. O curso forçoso da
moeda fiduciária, estabelecida antigamente dentro de um campo nacional, ganha o mundo na
medida em que se estabelece uma hierarquia entre os Estados que se reflete na hierarquia de
suas moedas fiduciárias.