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Universidade Federal de Juiz de Fora
Pós-Graduação em Ciência da Religião
Mestrado em Ciência da Religião
Letícia Araújo Brandão
O CÂNTICO DE AMOR DE ERNESTO CARDENAL
Juiz de Fora
2009
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Letícia Araújo Brandão
O CÂNTICO DE AMOR DE ERNESTO CARDENAL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
graduação em Ciência da Religião, área de
concentração: Diálogo Inter-Religioso, da
Universidade Federal de Juiz de Fora, como
requisito parcial para obtenção do grau de
Mestre.
Orientador: Prof. Faustino Luiz Couto Teixeira
Juiz de Fora
2009
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Letícia Araújo Brandão
O CÂNTICO DE AMOR DE ERNESTO CARDENAL
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-
Graduação em Ciência da Religião, Área de
Diálogo Inter-Religioso, do Instituto de
Ciências Humanas da Universidade Federal de
Juiz de Fora como requisito parcial para
obtenção do título de Mestre em Ciência da
Religião.
Aprovada em 30 de agosto de 2009.
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________________
Prof. Dr. Faustino Luiz Couto Teixeira (Orientador)
Universidade Federal de Juiz de Fora
_____________________________________________
Prof. Dr. Volney José Berkenbrock
Universidade Federal de Juiz de Fora
_____________________________________________
Prof. Dr. Ivo Lebauspin
Universidade Federal do Rio de Janeiro
AGRADECIMENTOS
Ao Amado, cuja complexidade se revelou uma importante fonte de inspiração. À sua presença
silenciosa.
Ao poeta Ernesto Cardenal, que tão gentilmente me concedeu alguns minutos de seu precioso
tempo. A oportunidade e o carinho com que fui recebida serão eternamente lembrados.
Ao amigo e orientador, Professor Faustino Teixeira, por ter acreditado em mim desde os
primeiros tempos, quando eu era ainda uma recém formada bacharela em direito. Obrigada
por ter pegado a minha mão e me conduzido até aqui. Sua presença foi imprescindível para a
superação dos tantos desafios enfrentados nessa trajetória.
Ao professor Volney José Berkenbrock, cujo apoio foi fundamental para tornar a viagem da
Nicarágua uma aventura menos radical.
Ao meu amigo “nica”, Juan Ortega Ulloa, um maravilhoso acaso de Deus. Sem ele, nenhumas
das muitas experiências vividas na Nicarágua teriam o mesmo significado.
À minha mãe, Maria Cecília Horta de Araújo, pelos vários papéis que desempenha em minha
vida. Aos meus irmãos, Bruno e Lucas, pela presença. Ao meu namorado Leonardo Willer de
Oliveira, por ter literalmente embarcado comigo nesta viagem.
A toda a minha família, amigos, professores e todos aqueles que de alguma forma
contribuíram para esta conquista.
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo investigar a trajetória mística do poeta e sacerdote
nicaragüense Ernesto Cardenal, a partir das quatro faces do amor reveladas por sua vida e
obra. A primeira delas manifesta-se por sua sede ao amor humano e em sua incansável
admiração pela beleza das mulheres. Mais tarde, quando tem sua experiência religiosa,
apresenta uma nova percepção do cosmos e da Realidade: tudo é amor. Ao dedicar-se
posteriormente á fundação de Solentiname, uma comunidade contemplativa não
convencional, concretiza a experiência de transcender este amor ao próximo, ao ativismo
social. Por fim, com a perda das eleições na Nicarágua, seu amor se materializa nos versos de
seus dois últimos livros, que revelam uma relação íntima e repleta de linguagem erótica, com
o Amado.
Palavras-chave: Literatura. Mística. Ernesto Cardenal.
ABSTRACT
The present work aims to investigate the mystic trajectory of the priest and poet Ernesto
Cardenal, of Nicaragua, from the four faces presented in his books and life. The first of them
is expressed by his want for human love and in his untiring admiration for the women beauty.
After he had his religious experience, he presented a new perception of the cosmos and of the
reality: all is love. Later on, while he was dedicating to the Solentiname’s foundation, a
contemplative and non conventional community, he performed the experience of extending
this love to other people and to the social activism. At last, after the loss of his political party
in Nicaragua, his love started to be expressed by the poems in his two last books, which
showed a closest and full of erotic language relation with God.
Keywords: Literature. Mistic. Ernesto Cardenal.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ........................................................................................................................ 6
I VIDA DISSIPADA ............................................................................................................... 12
1.1 Introdução ........................................................................................................................ 12
1.2 Muchachas en Flor ........................................................................................................... 13
1.3 A Predileção de Deus ....................................................................................................... 21
1.4 Entre Dois Amores .......................................................................................................... 25
II O AMOR INDIZÍVEL ....................................................................................................... 31
2.1 Introdução ........................................................................................................................ 31
2.2 O Vazio Cósmico .............................................................................................................. 32
2.3 O Cantar dos Cantares .................................................................................................... 37
2.4 Um Hino ao Amor ........................................................................................................... 45
III O AMOR TRANSCENDIDO AO PRÓXIMO .............................................................. 50
3.1 Introdução ......................................................................................................................... 50
3.2 Um Plano de Deus ............................................................................................................. 51
3.3 A Revolução pelo Evangelho ........................................................................................... 57
3.4 Uma Segunda Conversão ................................................................................................ 66
IV A INTIMIDADE DO AMOR TRANSCENDIDO ......................................................... 73
4.1 Introdução ........................................................................................................................ 73
4.2 A Revolução do Amor ..................................................................................................... 74
4.3 A Noite Escura da Alma .................................................................................................. 81
4.4 Um Grito no Silêncio ....................................................................................................... 89
CONCLUSÃO ......................................................................................................................... 95
REFERÊNCIAS ................................................................................................................... 103
ANEXO 1 - ENTREVISTA COM ERNESTO CARDENAL ........................................... 106
6
INTRODUÇÃO
A história da América Latina nas décadas de 60 e 70 é marcada pelo império das
grandes ditaduras e, em contrapartida, pela eclosão de vários movimentos populares
inspirados na doutrina marxista e na então recém vitoriosa, Revolução Cubana. Em âmbito
religioso, esta onda revolucionária que atingiu o continente evidenciava-se através do
marcante influxo da teologia da libertação
1
. Plenamente imersa neste contexto, a Nicarágua
também sofreu em sua história o crivo feroz da ditadura Somoza e, em oposição a ela,
abraçou o movimento popular sandinista
2
. Neste contexto, vários foram aqueles que se
destacaram como importantes figuras, cuja atuação política até hoje os faz reconhecidos.
Ocorre, porém, como é natural que assim o seja em um momento como este que todo o
histórico de vida pregressa dessas personalidades costuma ser suprimido pelo estereótipo
idealizado que passa a vincular seus nomes. É este, pois, o caso de Ernesto Cardenal.
Antes de ter sido um grande revolucionário, Cardenal era também sacerdote e um
renomado poeta. E místico
3
. Na verdade, ele foi todas essas coisas ao mesmo tempo. E
talvez tudo isso tenha feito parte de sua vida de tal maneira, que dissociar esses aspectos seria
ignorar a essência do próprio homem atuante em causas sociais, que o faz tão reconhecido.
Existe, porém, um ponto importante que parece ser a chave para desvendar aquilo que o faz
poeta, sacerdote, místico e revolucionário: o amor.
1
Segundo Gustavo Gutierrez, um dos principais idealizadores da teologia da libertação, esta teologia “supõe
relação direta e precisa com a práxis histórica, que é práxis libertadora, é identificação com os homens, com as
raças, as classes sociais que sofrem miséria e espoliação; identificação com seus interesses e seus combates. É
uma inserção no processo político revolucionário. Para daí viver e anunciar o amor gratuito e libertador de
Cristo”. G. GUTIERREZ, Teologia da Libertação, p. 268.
2
O Sandinismo é um movimento popular nicaragüense que tinha como principal objetivo a luta contra as
práticas imperialistas norte-americanas. Augusto César Sandino, seu líder, era filho de camponeses e, ainda
jovem, vai para o México buscando melhores condições de vida. Trabalha como operário e começa a
desenvolver sua consciência política, baseada, sobretudo, nos ideais nacionalistas. Sabedor da guerra civil e do
desembarque de tropas norte-americanas na Nicarágua retorna ao seu país e lidera o Exército Defensor da
Soberania Nacional. Em 1934, porém, é traído e assassinado pelos comandados de Somoza. R. AQUINO; N.
LEMOS; O. LOPES, História das sociedades americanas, p. 449 e 450.
3
Entende-se por mística “[...] uma forma superior de experiência, de natureza religiosa, ou religioso-filosófica
(Plotino), que se desenrola normalmente num plano transracional - não aquém, mas além da razão-, mas, por
outro lado, mobiliza as mais poderosas energias psíquicas do indivíduo. Orientadas pela intencionalidade própria
dessa original experiência que aponta para uma realidade transcendente, essas energias elevam o ser humano às
mais altas formas de conhecimento e de amor que lhe é dado alcance em vida”. H. L.VAZ, Experiência Mística
E Filosófica na Tradição Ocidental, p. 9.
7
Imagem de Augusto César Sandino, líder revolucionário
nicaragüense, cuja atuação inspirou de forma decisiva o
movimento sandinista da década de 60 e 70. Nicarágua, Museu
Nacional, 2008.
É este, pois, o objeto central deste trabalho: o estudo das várias facetas do amor na
trajetória mística de Ernesto Cardenal. O amor que está sempre presente em sua vida, nos
belos rostos de cada uma das mulheres pelas quais se apaixonou. O amor a Deus, na
construção de sua vocação religiosa. Mais tarde, a percepção do amor como centro
ontológico do universo, descoberta do período em que foi monge trapista. O amor
transcendido ao próximo, ao povo, aos camponeses, aos pobres, aos índios. Até, enfim, o
amadurecimento da intimidade com o Amado.
Como já afirmamos, quando, em qualquer parte do mundo em que foram publicadas
suas obras, o nome de Ernesto Cardenal é mencionado, acaba imediatamente vinculado à sua
atuação política. Tendo estado grande parte de sua vida, comprometido com a Revolução
Sandinista da Nicarágua
4
, a maioria daqueles que se dedicam a estudar seus livros os
interpretam à luz de seu compromisso social. Como bem coloca a este respeito Luce López-
Baralt:
4
A Revolução Sandinista da Nicarágua propõe-se a “construir uma sociedade baseada em um modelo original
caracterizado por um sistema econômico misto (socialista e capitalista), pelo pluralismo político e pela liberdade
de atuação da Igreja. A Revolução afirma ainda como objetivo final a transformação do país em uma sociedade
socialista”. R. AQUINO; N. LEMOS; O. LOPES, História das sociedades americanas, p. 449 e 450.
8
Até o momento, sem problemas, temos estado lendo Cardenal
exclusivamente como poeta revolucionário, como profeta ou “chilam de
nossos dias” (Audrey Aaron,1979,193), ou como teólogo da libertação que
reinterpreta o “Evangelho em Solentiname”. Quando muito, temos
assumido o poeta nicaragüense como “místico comprometido” (Oviedo,
1968) [...].
5
Ocorre, porém, que sublinhar apenas esses aspectos das obras de Cardenal é ignorar
aquilo que elas têm de mais profundo, e acabar por impedir que percebamos que estamos
“diante do fundador da literatura mística hispano-americana e ante um dos místicos mais
originais do século XX”
6
. Fica clara, assim, a importância de que seja realizado um estudo
que se comprometa a resgatar o contemplativo que existe em Ernesto Cardenal. Que esteja
preocupado em ter como ponto de partida para a compreensão de suas obras aquilo que o
define e o acompanha por toda a sua vida: o amor. Na verdade, trata-se de lê-lo não mais
exclusivamente como um poeta social, mas de tentar resgatá-lo em sua imensidão, na
totalidade de sua trajetória mística. Isto, porque Cardenal legou “à espiritualidade ocidental
uma obra contemplativa que reveste uma importância capital dentro do discurso místico
cristão em que se insere por direito próprio”
7
.
Ernesto Cardenal é, portanto, um autor fundamental para que possamos vislumbrar
o modelo assumido pela mística cristã do século XX, em especial, a mística hispano-
americana. Em suas obras, traços peculiares tais como sua visão de espiritualidade encarnada
ao mundo, a articulação que faz entre a implicação contemplativa e gratuidade, ou mesmo a
singularidade de sua percepção mística, que entrega todas as coisas na intimidade de Deus,
fazem com que seja um marco na literatura mística mundial. E dão a certeza de que seus
textos apaixonados de amor divino e humano serão lidos futuramente “com a mesma unção
teológica com que manejamos as Moradas de Santa Tereza e o Milieu Divin de Teilhard
Chardin”
8
.
Para alcançarmos o objetivo proposto neste trabalho, assim, procedemos ao estudo
das obras de Cardenal a partir da perspectiva da compreensão de cada uma das faces do amor
emanadas pelo poeta. Como, ao longo desta pesquisa, fez-se mister a análise conjunta não
apenas de seus livros, mas também de sua biografia, optou-se por introduzir ao inicio de cada
5
LOPEZ-BARALT, Luce. El cântico espiritual de Ernesto Cardenal. Hacia la fundación de la literatura mística
hispanoamericana, p. 26.
6
LOPEZ-BARALT, Luce. El cântico espiritual de Ernesto Cardenal. Hacia la fundación de la literatura mística
hispanoamericana, p. 26.
7
LOPEZ-BARALT, Luce. El cântico espiritual de Ernesto Cardenal. Hacia la fundación de la literatura mística
hispanoamericana, p. 26.
8
LOPEZ-BARALT, Luce. El cântico espiritual de Ernesto Cardenal. Hacia la fundación de la literatura mística
hispanoamericana, p. 48.
9
capítulo um pequeno trecho no qual foi exposto o momento de vida experimentado pelo
poeta. Este procedimento, como será averiguado a partir da leitura desta pesquisa, é de
fundamental importância para a compreensão das obras estudadas, pois cada uma delas
reflete de maneira especial a personalidade e os conflitos do homem que as escreve.
A metodologia que será utilizada, portanto, terá como instrumento principal a leitura
objetiva das obras do autor, no original. A única exceção diz respeito à “Cântico Cósmico”,
lida em sua versão em português, com a preciosa tradução de Thiago de Mello. Tendo como
base a biografia recém publicada de Ernesto Cardenal, percebemos que sua trajetória como
místico pode ser compreendida por quatro momentos significativos. Desta forma, optamos
por enfatizar o estudo de algumas de suas obras que consideramos que melhor indiquem o
pensamento do autor em cada uma dessas fases.
Outro importante instrumento para a concretização desta pesquisa foi a viagem
realizada à Nicarágua, no ano de 2008. Neste período tivemos oportunidade de presenciar de
perto o contexto social e político no qual está inserido este país, além de conhecer o
maravilhoso arquipélago que deu origem à comunidade de Nossa Senhora de Solentiname
9
,
palco de uma das mais belas manifestações humanas de espírito comunitário e amor ao
próximo. Além disto, tivemos a extraordinária experiência de realizar uma entrevista
10
pessoalmente com o autor que inspirou este trabalho, o que nos forneceu elementos
riquíssimos para esta pesquisa, além de uma peculiar aproximação com o tema de estudo.
O primeiro capítulo, portanto, que pretende investigar o amor que se manifesta na
vida do poeta desde sua adolescência até os trinta e dois anos, quando tem a experiência
mística
11
que muda radicalmente seu caminho, é marcado pela manifestação da angústia
interior do jovem Cardenal. Por isto mesmo, neste período que o próprio poeta indica como
sendo o de uma “Vida dissipada”, começamos por estudar “Epigramas”. Este livro, embora já
seja composto pelo teor político que acompanha Cardenal em toda a sua trajetória, é
especialmente dedicado ao amor humano, às suas “muchachas en flor”, título que dá nome
9
Foi nesta ilha que Ernesto Cardenal fundou uma revolucionaria comunidade contemplativa, idealizada por
Thomas Merton.
10
Vide entrevista em anexo.
11
Como esclarece Henrique C. de Lima Vaz, a experiência mística “tem lugar no terreno do encontro com esse
Outro absoluto, cujo perfil misterioso desenha-se, sobretudo, nas situações-limite da existência, e diante do qual
acontece a Experiência do Sagrado. No entanto, a experiência mística apresenta-se dentro da esfera do Sagrado
caracterizada pela certeza de uma anulação da distância entre o sujeito e o objeto imposta pela manifestação do
Outro absoluto como tremendum (para usar a terminologia de R. Otto); ela é experiência do absoluto como
fascinosum, mas o fascinium aqui o é apelo a uma forma de união na qual prevalece o aspecto participativo e
fruitivo, tendendo dinamicamente a uma quase-identidade com o Absoluto e transformando radicalmente a
existência daquele que se vê implicado nessa experiência”. H. L.VAZ, Experiência Mística E Filosófica na
Tradição Ocidental, p. 15 e 16.
10
ao item 1.1 desde primeiro capítulo. O próximo objeto de nossa análise é a precoce percepção
da “predileção de Deus” pelo poeta, certeza que o acompanha por toda a vida e que, por isso
mesmo, só acentua sua angústia de sentir-se eternamente “entre dois amores”. Fechamos este
capítulo, assim com a análise deste conflito experimentado por Cardenal, e que seguirá sendo
refletido em cada uma de suas obras posteriores, mesmo aquelas compostas já em sua
maturidade.
A experiência mística revela um novo período em sua trajetória e, através da
contemplação, Ernesto Cardenal concretiza a descoberta da centralidade ontológica do amor
no universo. A entrega total ao amado. É neste momento que experimenta o “amor indizível”
a partir do profundo sentimento de “vazio cósmico” que caracteriza sua experiência religiosa.
Tão intenso, que não encontra palavras na limitada linguagem humana, o que faz deste um
dos objetos mais complexos do presente trabalho. O item 2.2, “O Cantar dos Cantares”,
pretende investigar a época em que Cardenal, bebendo dos ensinamentos de Thomas Merton,
seu diretor espiritual na Trapa
12
, descobre a beleza e a singeleza do amor na simplicidade.
Percebe, assim, a presença do Amado em todas as coisas e descobre que a vida contemplativa
não se reduz ao monasticismo nos moldes tradicionais, mas que o amor do monge a Deus
deve se manifestar no mundo, no amor a humanidade. É nesse contexto que concebe “Vida
no amor”, e “Guethsemnany, ky” obras nas quais manifesta algumas divagações sobre o tema
do amor, do humano e do mundo, e que serão mais bem analisadas no item 2.3, “Um hino ao
amor”.
Tendo abandonado a ordem trapense, mas não sua busca pelo Amado, Cardenal,
revelando a face de seu “amor transcendido ao próximo”, funda um “plano de Deus”, uma
comunidade contemplativa de nome Nossa Senhora de Solentiname, em seu país natal. Neste
momento é que terá a experiência prática de toda a sua percepção do amor, já amadurecida
pelos momentos posteriores. Aqui, o amor se manifesta no diálogo com os camponeses e no
ativismo social. O convício com a simplicidade da natureza, com a pobreza, a percepção de
que Deus está em todas as coisas, fortalece seu amor à humanidade, que para ele seria o
mesmo que o amor ao Amado. Nasce, assim, um amor político. O amor que se reflete no
homem lutador que atua como revolucionário e no sacerdote reformador que inspira sua
comunidade à discussão do evangelho. A interpretá-lo à luz do marxismo, das causas
humanitárias. E é desses comentários ao evangelho feitos por camponeses a cada missa
celebrada em Solentiname que nasce um de seus mais belos livros, “O Evangelho em
12
A Trapa é o monasterio no qual Ernesto Cardenal esteve durante dois anos, recebendo os ensinamentos
espirituais de seu mestre, Thomas Merton.
11
Solentiname”, que será mais bem analisado no item 3.2, “Revolução pelo evangelho”. A
aproximação da vida de Cristo sob uma perspectiva eminentemente imanente, assim como o
contexto político e social no qual estava inserido, conduz Cardenal àquela que ele revela ser
“uma segunda conversão”, a conversão ao marxismo.
Em sua maturidade, o poeta descobre “a intimidade do amor transcendido”,
levando-nos a iniciar nossa análise de estudo por aquela que o poeta chama de “A revolução
do amor”, período que engloba a Revolução Sandinista da Nicarágua. Embora não tenha sido
de grande efervescência literária, este período é imprescindível para a compreensão das
várias faces do amor na vida e obra de Ernesto Cardenal, em especial suas duas obras
posteriores, objeto de nosso estudo nos itens 4.2 e 4.3. “Cântico Cósmico”, assim, apresenta-
se como “a noite escura da alma”, conjunto de cânticos nos quais o poeta, já na maturidade,
versa a angústia de sua relação não sensível com o Amado. “Um grito no silêncio” é a
expressão que melhor caracteriza “Telescópio na noite escura”, poema extraordinariamente
singular no qual o poeta canta em toda a sua magnitude a intimidade nupcial de sua relação
com Deus.
Tendo esclarecido todos os procedimentos estruturais da metodologia deste
trabalho, resta mencionar que todas as traduções necessárias para a composição do texto,
assim como a tradução da entrevista em anexo, foram realizadas pela autora desta pesquisa.
Optamos, no entanto, por manter o texto em espanhol quando citamos as poesias de Ernesto
Cardenal, quando provenientes de suas obras originais. Apenas as citações dos versos de
“Cântico Cósmico” foram transcritas em português, a partir da já mencionada competente
tradução de Thiago de Mello, já que não tivemos acesso ao original desta obra. Isto, porque
reconhecemos que qualquer tentativa de captar em uma tradução menos experiente, a
intensidade dessas palavras, acarretaria numa distorção poética irremediável.
12
CAPÍTULO I: VIDA DISSIPADA
1.1 Introdução
Ernesto Cardenal nasce a 22 de janeiro de 1925, na cidade de Granada, mas logo
cedo se muda para Leon, onde passa sua infância em um ambiente feliz e saudável. Filho de
uma conservadora e tradicional família católica nicaraguese, desde criança se vê cercado pela
forte presença da religiosidade, em especial, da Virgem, sempre presente em sua mente
infantil. Dono de uma criatividade abrasadora e de um talento poético extraordinário, escreve
sua primeira poesia aos 7 anos. Aos 12 vai morar em Manágua, onde tem contato com
grandes poetas nicaragüenses, que lhe inspiram a prosseguir escrevendo poesias. Sempre
encantado pela beleza das mulheres, aos 18 anos se apaixona perdidamente por Carmem, mas
decide não casar-se com ela, para então ir ao México estudar letras, onde permanece de 1942
até 1946. Em 1947 segue para a Universidade de Colúmbia, a mesma na qual, anos antes,
estudara Thomas Merton, que viria a ser seu mestre espiritual na Trapa e homem de grande
influência na vida do poeta. Em 1950 faz uma longa viagem pela Europa e, então, retorna a
seu país, ocasião em que monta uma livraria. Tem importante participação na rebelião de abril
de 1954, contra Anastásio Somoza Garcia. O golpe de estado é fracassado e muitos de seus
amigos são mortos. Neste período escreve “Epigramas”, obra poética especialmente dedicada
a seus encontros e desencontros amorosos. Embora sempre pressentisse um chamado de Deus,
apenas ao dia 2 de junho de 1956 o Amado revela-lhe Sua face, transformando radicalmente
sua vida...
13
1.2 Muchachas en Flor
“Vivia apaixonado, no exato sentido da palavra, porque
para ele a vida não tinha então outro significado se não
amar...” (Pablo Antonio Cuadras, falando sobre Ernesto
Cardenal)
O tema do amor sempre assumiu um importante significado na vida e obra de
Ernesto Cardenal. Cada uma das faces assumidas por ele desnuda os feixes através dos quais
se materializa o sentimento do poeta, sempre envolto por suas paixões. A compreensão do
amor como centro ontológico do universo, embora só se apresente claramente nos escritos
posteriores à Trapa, pode sutilmente revelar sua fonte em seu irresistível sentimento juvenil
de atração pelas mulheres. Tanto é assim, que Cardenal jamais deixará de cantar a elas em
suas poesias, a representação da beleza e do amor. Ao mesmo tempo, faz recorrente uso de
analogias da intimidade matrimonial dos seres humanos para descrever sua peculiar relação
com o Amado. É na descoberta de sua paixão pelas mulheres, portanto, que está a origem de
sua futura concepção do Amor. Concepção esta que influenciará toda a vida e obra do poeta...
Apesar de serem muitas as namoradas mencionadas por Cardenal em seus livros de
memórias, algumas delas parecem merecer destaque, tanto pelo papel que desempenharam em
sua história, como também em suas poesias. Adelita Merenco, cujos belos olhos são cantados
pelo poeta até mesmo em “Cântico Cósmico”, um de seus últimos livros publicados, é
descrita por ele como aquela que mais o quis.
13
Com ela, Cardenal comenta que esteve muito
próximo ao casamento e, se não o concretizou, foi apenas porque não poderia sustentar uma
família, nem mesmo “uma família de dois”
14
. Com a proximidade do matrimônio, porém, o
jovem “teve (...) a grande inquietude de sempre, de se teria que renunciar a Deus”
15
. Ele
comenta: “Também então com oração angustiada pedi a Deus que se me queria para Ele, que
se encarregasse Ele mesmo de fazer com que isso terminasse”
16
. Foi quando, em um
piquenique em uma das ilhas do Grande Lago junto a Granada, houve um enorme mal
entendido entre os jovens namorados. Adelita sentiu-se enciumada com a presença de uma
escritora porto-riquenha para a qual Cardenal dedicava grande parte de sua atenção, mas por
13
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 23.
14
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 24.
15
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 25.
16
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 25.
14
quem, segundo ele, não sentia “nenhuma atração física (...), nada mais que literatura”
17
. A
moça, então, para provocar ciúmes, parou dois rapazes que passavam em seu iate, e se foi
com eles. Embora não tenha acontecido nada, Ernesto sentiu “que a isto não podia perdoar”
18
. Já não voltou mais a procurá-la, pois se recordava muito bem do que havia pedido a Deus.
E Ele mais uma vez o respondera. O poeta, porém, teimando mais uma vez em não enxergar o
caminho destinado pelo Amado, resiste: “Eu ainda não estava convencido”
19
. Em
homenagem a Adelita, no entanto, deixa registrado um belíssimo poema publicado em
“Epigramas”, no qual relembra alguns momentos que costumavam passar junto:
Hay un lugar junto a la laguna de Tiscapa
- un debajo de un árbol de quelite-
que tú conoces (aquella a quien escribo
estos versos, sabrá que son para ella).
Y tú recuerdas aquel banco y aquel quelite;
la luna reflejada en la laguna de Tiscapa,
las luces del palacio del dictador,
las ranas cantando abajo en la laguna.
Todavía está aquel árbol de quelite;
todavía brillan las mismas luces;
en la laguna de Tiscapa se refleja la luna;
pero en aquel banco esta noche estará vacío,
o con otra pareja que no somos nosotros.
20
Lago Tiscapa, local que imspirou este poema dedicado à Adelita.
17
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 26.
18
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 26.
19
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 27.
20
E. CARDENAL, Epigramas, p. 35.
15
Cláudia Arguelo pode ser lida como a mulher que inspirou os epigramas mais
populares de Ernesto Cardenal. A grande paixão que despertou no poeta, no entanto, jamais
fora correspondida. É intrigante que o jovem tenha tido o incessante ímpeto de escrever
poemas que se destacaram no mundo todo, dedicados a ela, mesmo sem ter tido qualquer
esperança de que a jovem o aceitasse. O relacionamento entre Cardenal e Cláudia é marcado
pela extrema obsessão de um amante em busca por saciar sua sede de experimentar o sabor do
amado. O poeta descreve em seu livro de memórias, deixando explícita esta angustiante
ansiedade pelo amor por ela representado, a necessidade que sentia de vê-la ao menos uma
vez ao dia. Em um período em que as tradicionais festas da burguesia de Manágua tinham
tornado-se escassas, por exemplo, o próprio Ernesto se dispõe a organizar um baile, cujo
único objetivo (frustrado, porém), era ver a moça. Cláudia representa na poesia de Cardenal,
assim, um misto de amor e ódio e, talvez por isto mesmo, tenha tornado os epigramas
dedicados a ela tão famosos. Neles, além da beleza e da paixão, o jovem poeta entoa
sarcasticamente sua represália à rejeição:
Tu que estás orgullosa de mis versos
pero no porque yo los escribí
sino porque los inspiraste tu
y a pesar de que fueron contra ti:
Tu pudiste inspirar mejor poesía.
Tu pudiste inspirar mejor poesía.
21
Para o pequisador Eduardo Bertarelli, porém, Cardenal não se utiliza do sarcasmo
apenas em suas poesias amorosas, mas faz uso também das “possibilidades infinitas do
epigrama para o ataque e a burla (...) de caráter social que envolve o eu poético e as vozes de
uma sociedade inteira”
22
. Aliás, o tema político, assim como o das mulheres, está presente
em todas as suas obras, as quais apresentam uma belíssima e intrigante característica: a dança
poética que entrelaça essas duas temáticas.
Yo he repartido papeletas clandestinas,
gritado: VIVA LA LIBERDAD! en la calle
desafiando a los guardias armados.
Yo participé en la rebelión de abril:
pero palidezco cuando paso por tu casa
y tu sola mirada me hace temblar.
23
21
E. CARDENAL, Epigramas, p. 18.
22
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 53.
23
E. CARDENAL, Epigramas, p. 39.
16
Paradoxalmente ao número de poesias dedicadas à Cláudia, em seu primeiro livro de
memórias Cardenal não menciona ao menos um epigrama cantado àquela que ele considera
sua noiva mais fiel: Virgínia. Segundo o poeta, o que houve entre eles pode ser descrito como
um “namoro-amizade”
24
, embora jamais o tenha experimentado como “um amor apaixonado,
em parte, porque foi correspondido”
25
. A abundância dos poemas cantados à Cláudia, que
representa uma paixão desprezada, e a pouca dedicação literária a seu namoro com Virgínia,
revela em Ernesto Cardenal uma leve inclinação à busca pelo inacessível. O poeta justifica
sua opção pelos poemas à Cláudia afirmando que o amor infeliz inspira muito mais à poesia
do que o amor feliz.
26
Deixa, desta forma, vestígios de sua atração pelo amor inalcançável
não apenas por toda a sua obra, mas também em sua vida. Esta pode ser compreendida,
inclusive, como uma das chaves para desvendar a recusa de Ernesto em se entregar a um amor
humano, mesmo em um período em que já não o vê como empecilho algum à plena
concretização de sua relação amorosa com Deus. Cardenal revela ter uma leve queda ao
platonismo, e este traço de sua personalidade é de fato importante quando opta por tornar seu
amor ao Amado o centro de sua vida e seus escritos. Embora tenha experimentado o prazer
desta união em sua experiência religiosa, a sensação máxima de gozo não pode ser
eternamente vivenciada, e o poeta demonstra ansiar novamente por senti-la em cada um de
seus versos dedicados ao Amor.
Myriam Baéz também representa uma forte figura feminina nas obras de Ernesto
Cardenal, lembrada desde “Epigramas” até “Cântico Cósmico”. Acima de qualquer outro
aspecto, ela parece simbolizar a beleza tão peculiar das mulheres, e tantas vezes homenageada
pelo poeta. Quando Cardenal se interessou por ela, a moça não tinha ainda 15 anos e, segundo
ele, era quase impossível que conversassem, já que não tinham “muitos temas em comum
porque havia muita diferença de idade”
27
. Especialmente a irresistível atração pela beleza o
levava à Myriam:
Ayer te vi en la calle, Myriam, y
te vi tan bella, Myriam, quien
(cómo te explico qué bella te vi!)
ni tú, Myriam, te puedes ver tan bella ni
imaginar que puedes ser tan bella para mí.
Y tan bella te vi que me parece que
ninguna mujer es más bella que tú
24
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 38.
25
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 39.
26
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 21.
27
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 42.
17
ni ningún enamorado ve ninguna mujer
tan bella, Myriam, como yo te veo a ti
y ni tú misma, Myriam, eres quizás tan bella
porque no puede ser real tanta belleza!
Como yo te vi ayer en la calle,
o como hoy me parece, Myriam, que te vi.
28
A irresistível atração pela beleza, experimentada no decorrer de toda a sua vida, é
também uma especial faceta da personalidade de Cardenal, que pode explicar sua forte
obsessão pelo amor humano. Ao mesmo tempo, a consciência de seu caráter efêmero só faz
acentuar no poeta uma inquietante angústia sobre sua relação com as mulheres, cuja beleza
fatalmente seria limitada pelo passar dos anos. Ernesto descreve vivamente a imagem deste
conflito ao comentar sua reação quando, em Madrid, ao levar Christine, uma de suas
namoradas, ao Museu del Prado, ambos surpreendem-se admirando um conjunto de três
pinturas: a primeira delas representava uma mulher belíssima que, segundo o poeta, tinha “a
idade de Christine, a carinha parecida com a de Christine, e uns peitos desnudos, pequenos e
tensos”
29
. A imagem central, era de uma “velha enrugada feíssima”
30
e, na terceira, havia
um esqueleto. Sobre este episódio, Cardenal fala, sem esconder certo desconforto:
Eram as três etapas da mulher, juventude, velhice e morte; com esse realismo
espanhol tão brutal. Ainda que não fosse o realismo espanhol o brutal: a natureza
é brutal; o destino humano é brutal. E eu fiquei muito tempo olhando à jovem,
como sempre ficava muito tempo a olhando [Cardenal refere-se à Christine], mas
desta vez estava com pena por Christine, porque ela ali estava vendo a si mesma,
tão linda como era então, e como deveria ser depois, feíssima, e depois, morta. E
rápido a levei a olhar outros quadros para que não continuasse vendo aquele.
31
Anos mais tarde, quando escreve “Vida no amor”, o poeta segue reafirmando seu
encanto pelo belo. Demonstrando aparentemente superar sua angústia pessoal quanto a fatal
natureza efêmera da beleza das mulheres, Cardenal se entrega àquela que concebe como a
beleza suprema, que não admite os limites naturais aos seres humanos. Passa, assim, a captar
o belo em sua totalidade, como se todas as coisas magníficas da natureza irradiassem a beleza
infinita do Amado. Vê Deus em cada detalhe da vida, em cada traço feminino: “Estás dentro
de mim e em teus olhos estão concentrados todos os olhos das mulheres que amei, e os olhos
28
E. CARDENAL, Epigramas, p. 32.
29
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 57.
30
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 57.
31
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 57.
18
das que me amaram e muito mais, e todos os olhares de amor que aconteceram no mundo e
muito mais, e teus olhos estão fixos em mim, desde toda a eternidade estão me olhando”
32
.
Mesmo em momentos posteriores a sua decisão de se entregar ao amor divino,
Cardenal jamais abandona o canto às mulheres, a mais bela criação de Deus
33
, e continua
concedendo a elas um lugar de importante destaque em suas obras. Deus, aliás, passa a ser
compreendido como “a fonte da beleza de todas as muchachas
34
. Esta intuição de perceber o
divino sob a face do humano parece ter origem na sua infância católica, de tradição mariana
(o poeta sempre se sentiu atraído pela beleza da Virgem), e se estende por toda a juventude,
quando a materialização do encanto pela beleza da Santa é revelada na face das mulheres que
contemplava, tal como Cláudia:
Seu perfil era igual ao da Virgem de Fra Felippo Lippi do museu dos Uffizi de
Florença, que está também de perfil: a curva de uma ampla frente muito curvada
até embaixo, seguida de uma curva até em cima de um nariz muito delicado, e
embaixo dela uma curvinha até os lábios muitos finos, e abaixo deles outra curva
até o queixo e logo para baixo até seu colo. (...) e eu havia trazido uma pequena
reprodução de Florença. O que demonstra que já estava atraído por seu rosto não
só desde antes de conhecê-la quando me a descreveram, mas muito antes de me a
descreverem, quando passei em Florença.
35
A importância do feminino no pensamento de Cardenal é tão grande que, em seus
escritos posteriores à Trapa, nos quais analisa sua concepção mística da realidade, o poeta
concebe a alma, amante de Deus, como feminina e, nesta condição, passiva diante do Amado:
A alma não pode tomar a iniciativa. A alma não pode visitar Deus, pois não sabe
como ir a Ele, nem onde está, tem que esperar que Ele a visite, e se Ele não chega,
estará sozinha. (...) Só muito timidamente se atreve às vezes a acariciar Deus. Mas
ela sabe deixar-se acariciar por Ele e a única coisa que sabe é deixar-se acariciar.
A alma não sabe como beijar Deus.
E é Ele quem a beija, ternamente e, às vezes, apaixonadamente. E ela só se deixa
beijar e se derrete de amor.
(...) A alma é o princípio da vida e é pura inocência e pura luz e alegria e
diafanidade e doçura e graça, e por isso Deus está loucamente enamorado pela
alma.
36
Neste sentido, a mulher é vista por Cardenal como um ser frágil e impotente em
relação ao homem amado. Resta a ela apenas esperar ansiosamente pela concretização do
32
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 59.
33
E. CARDENAL, Epigramas, p. 45.
34
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 193.
35
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 32.
36
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 35.
19
amor. Esta perspectiva sobre a mulher revelada em “Vida no amor” encontra suas raízes em
“Epigramas” quando o poeta, ainda um jovem burguês nicaragüense, consagra em seus
poemas certo resquício da machista visão da cultura cristã tradicional. Em poema dedicado a
Cláudia, por exemplo, escreve:
Te doy, Claudia, estos versos, porque tú eres su dueña.
Los he escrito sencillos para que tú los entiendas.
Son para ti solamente, pero si a ti no te interesan,
un día se divulgarán talvez por toda Hispanoamérica…
y si al amor que los dictó, tú también lo deprecias,
otras soñarán con este amor que no fue para ellas.
Y talvez, verás, Claudia, que estos poemas,
(escritos para conquistarte a ti) despiertan
en otras parejas enamoradas que los lean
los besos que en ti no despertó el poeta..
37
Falando sobre a face da mulher cantada por Cardenal em “Epigramas”, o
pesquisador Eduardo Bertarelli afirma:
A mulher, uma vez que inspira amor ao poeta, é vista como um ser digno de ser
amado, mas ainda assim ele não parece ter uma opinião muito favorável dela
neste e em outros epigramas. O fato de que os versos tenham sido escritos
de forma simples para que sejam a ela compreensíveis não é nenhum
louvor à inteligência de Cláudia.
38
O receio de que Cláudia despreze seus versos revela ainda na mulher de Cardenal
“um ser inconstante, inseguro de seus sentimentos, sempre em transformação”
39
. Ao mesmo
tempo em que o poeta admira e canta a beleza feminina, não pode se libertar totalmente do
temor em se entregar plenamente a um ser cuja natureza se apresenta tão volúvel. Não parece
ser esta, portanto, a verdadeira razão para que Cardenal tenha ansiado por trocar “a multidão
de belezas particulares, finitas, pela beleza absoluta, infinita e eterna”
40
? Não se trata da
problemática da efemeridade da beleza humana em si, mas do receio de se entregar
completamente a um amor que pode não se revelar como absoluto e eterno. Optar por Deus
(embora esta já nem seja mais uma questão de conflito depois de sua saída da Trapa) é optar
por um amor seguro, livre de todos os contraditórios inerentes ao amor humano. A escolha
feita pelo poeta, portanto, não se refere necessariamente à limitação da beleza das mulheres,
37
CARDENAL, Ernesto. Epigramas. Madrid: Trotta, 2001, p. 09.
38
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 60.
39
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 61.
40
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 69.
20
mas, mais do que isto, é uma opção pelo amor estável, maduro. Cardenal não vai jamais
abandonar a beleza de suas “muchachas” (como fica provado pela freqüência com a qual
entoa versos dedicados a elas), mas apenas a inconstância inerente a sua alma feminina.
Somente assim, para ele, poderia se sentir livre para seguir o caminho desde sempre planejado
por Deus...
Em documentário sobre a poesia de Ernesto Cardenal, Luz Marina Acosta, também
poeta e secretária do escritor, dá uma pista interessantíssima e que ratifica a tese de que o
poeta não pôde jamais abandonar o seu amor pelas mulheres, embora tenha optado por não
consagrá-lo em sua vida:
Uma coisa que para mim eu tenho é que o amor de Ernesto, o amor, o amor amor,
a paixão total, é a Carmem. É seu amor até os dias de hoje, creio eu. Porque está
presente em toda a sua poesia. Em “Epigramas”, aí está a Carmem. Quando se
refere a um cabelo negro, é o da Carmem. (...) Está em toda a sua poesia.
41
Ernesto jamais tirou Carmem, seu primeiro amor, ao qual dedica um capítulo inteiro
de seu livro de memórias, do pensamento. Ainda em juventude, escreveu um livro inteiro,
“Carmem e Outros Poemas”, dedicados a ela, embora não o tenha publicado por não
considerá-lo bom. Para o poeta, a paixão a esta moça foi “uma imagem do amor de Deus (...)”
42
para com ele. Acreditando na época, no entanto, que aquele era “um amor de juventude que
depois se acaba”
43
, Cardenal seguiu para o México para estudar letras e não se casou com
ela. “Que equivocado estava”
44
... Anos mais tarde, em “Telescópio na noite escura”, o poeta
ainda relembra sua separação de Carmem, compondo a ela versos que expressam a angústia
da ausência de sua atual relação de amor com Deus:
Cuando yo estaba enamorado de ella así era,
aquellas tarde en Tacubaya con un cigarrillo
pensaba en ella, ella en su Granada sumí-iluminada,
yo sin otra realidad que mi cigarrillo
y las centenas de los tranvías en los cables eléctricos
entrecruzándose sobre la calle Tacubaya
y las muchas luces de neón en la noche de México
que sólo daban más luz a mi separación.
No, el amor era irreal. No está bien la comparación.
45
41
LÓPEZ, Modesto. Ernesto Cardenal: Solentiname. [Filme-DVD].
42
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 390.
43
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 394.
44
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 394.
45
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 35.
21
1.3 A Predileção de Deus
És uma escolha entre infinitas possibilidades, o
simples fato de que és, significa prova maior da
predileção de Deus por ti. (Ernesto Cardenal)
Ler a biografia de Ernesto Cardenal é receber um convite para uma viagem cujo
destino se revela na compreensão da profunda relação de amor e intimidade entre um ser
humano e Deus. Como dois amantes, ele e o Amado jamais se distanciaram embora, no
período que descreve como o de sua “vida dissipada”, Cardenal insista em não se abrir à
percepção da presença desse Amor. Sempre pressentiu, porém, a predileção de Deus que, em
vários momentos de sua vida, parece interferir diretamente para trazer o poeta a Seus braços e
ao destino que lhe havia reservado. Este sentimento parece ser o traço fundamental que
despertaria no jovem Ernesto os conflitos que ele experimentaria em sua mocidade quando,
mesmo compreendendo o chamado de Deus, não podia ainda libertar-se do amor carnal pelas
mulheres.
Já na infância, Cardenal sentia-se rodeado por milagres divinos. Certa vez, ainda
muito pequeno, seu irmão Popo adoece gravemente e os médicos, sem mais recursos, tiraram
da família quaisquer esperanças de recuperação. Ernesto, porém, agarra-se à fé e promete que
se dedicaria ao sacerdócio se seu irmão se recuperasse: “Eu havia prometido a Deus que seria
sacerdote se Popo se curasse. Como se curou, mantive a serena e perfeita convicção de que
iria sê-lo”
46
. Cardenal passa, portanto, boa parte da infância, certo de seguir a vocação
religiosa. Um detalhe, porém, abala sua profunda certeza: o despertar para o amor humano
em sua juventude.
A intervenção de Deus na vida do jovem poeta acaba por estimular um forte conflito
interior. Como se dedicar ao sacerdócio se sentia uma incontrolável atração sexual pelas
mulheres? Mas uma vez surge a imagem de Deus como um cuidadoso arquiteto da vida de
Cardenal, traçando de forma extraordinária os caminhos que o levariam à Trapa e, mais tarde,
ao sacerdócio. Vários de seus namoros, por exemplo, acabavam pelos mais curiosos motivos,
46
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 317.
22
como o caso de Ileana, alérgica aos beijos do poeta. Sobre sua viagem à França, Ernesto
chega a afirmar: “Deus me tirou as putas de Paris”
47
. E explica:
Sucede que quando eu cheguei a Paris a cidade estava passando por uma
etapa de puritanismo. As autoridades haviam tido êxito em eliminar todas
as prostitutas das ruas. Podia-se ver, por exceção, uma escondida entre as
sombras. Os prostíbulos também tinham suas restrições. Sexo era fácil
numa sociedade muito livre como a de Paris, onde usualmente não se fazia
necessário recorrer ao sexo mercantil (salvo para aqueles que estavam de
passagem, como era o meu caso).
48
Não é apenas através de milagres e interferências na sua relação com as mulheres
que Deus parece intervir diretamente na vida de Cardenal. Ele aparece, também, como um
protetor, impedindo que o poeta se machucasse ou perdesse a vida, afinal, eram muitos os
planos que havia feito para ele. Em seu primeiro livro de memórias, o poeta recorda um
episódio em que estava com uma de suas amigas, Melba, e se salva por pouco de sofrer um
grave acidente de carro:
Uma tarde bebíamos vinho no “Versalles” Carlos, Martha e eu. E eu fui
pegar Melba em um carro do meu pai. Como a estrada era reta, com o
vinho em minha cabeça, apertei o acelerador cada vez mais, e mais e mais,
o mais que pude para impressioná-la, e a pobre tão assustada apenas podia
articular palavra. Deus havia me destinado a algo, por isto não se passou
nada. Arrepia-me a pele cada vez que recordo isto, e confirmo cada vez ao
recordá-lo a predileção de Deus.
49
Em entrevista realizada em Caracas, publicada em 1964, Cardenal descreve com
brilhantismo a imagem da predileção de Deus por ele, e dos conflitos que experimentou até o
momento de sua entrega ao Amado:
Algumas vezes a noite, em momentos de solidão, sobretudo depois de uma
festa ou de longas farras com amigos, confrontava a mim mesmo e sentia
uma secreta angústia... Era como se dentro de mim ouvisse a voz de um
amor depreciado. Eu estava convencido de que Deus me Amava e me
queria para ele como um amor ciumento, tirânico. Porém eu me fazia de
surdo. Mas a voz seguia sempre, através dos anos. Um dia já não podia
mais, me sentia demasiado fustigado por este amante (...) que queria que eu
não amasse a ninguém se não ele, e resolvi render-me a ver o que passava.
50
47
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 61.
48
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 61 e 62.
49
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 38.
50
C. OVALLES, Entrevista con Ernesto Cardenal, p. 181.
23
Indo em busca do destino que acreditava que o levaria a viver em plenitude este
Amor recém descoberto, ao sobrevoar os Estados Unidos, no caminho para Getsemany,
Cardenal toma consciência de que Deus o atendia, também, em seus maiores caprichos.
Desde que saiu da Nicarágua, o poeta nutria um forte desejo de ver o monastério da Trapa do
avião em que havia embarcado e fez, então, esse pedido ao Amado. Conta, assim,
maravilhado, que o seu íntimo desejo havia sido realizado: “o conjunto de edifícios grandes e
outras diversas instalações, a igreja de estilo gótico, a muralha da clausura como de uma
fortaleza medieval – o que já conhecia pelas fotografias, e que depois cheguei a confirmar
que era em efeito o monastério”
51
.
Já em Getsemani, a descoberta de que Thomas Merton seria seu mestre espiritual
não podia ser compreendida se não como mais uma face da predileção do Amado por
Cardenal. Agora, no entanto, ela se revelaria também de forma a delinear magistralmente os
planos de Deus para seu amante: “me parecia então que Deus havia me levado ali de tão
estranha maneira porque queria que eu fizesse meu noviciado com Merton”
52
. Comenta
ainda: “Eu não havia escolhido esse monastério buscando Merton, mas sim a Deus. (...) O
fato de que ele viesse a ser meu ministro de noviços, também o vi como uma interferência
particular de Deus”
53
. E de fato a influência de Thomas Merton foi fundamental para que
Cardenal seguisse o seu destino planejado por Deus. Foi dele que o poeta bebeu as
“subversivas” teorias do mestre sobre a vida monástica e a atuação do monge na vida política
da sociedade. Foi com Merton que o noviço idealiza Solentiname e a concebe como um
importante símbolo de oposição à ditadura que se instaurara na Nicarágua. Sem esse encontro
com seu mestre, talvez Cardenal jamais pudesse ter marcado a história daquele país com sua
importante participação política, tanto no período que antecedeu a revolução, como nos anos
em que foi ministro da cultura. Afinal, quando decidiu ingressar na Trapa, o poeta ansiava
por uma vida de reclusão, na qual degustaria eternamente a companhia do Amado, sem
participar de qualquer preocupação mundana. Mas ao que parece, não eram esses os planos
de Deus para Cardenal. Enviá-lo para Trapa, para Merton, desvela não só mais um aspecto de
Sua predileção, mas também os motivos pelos quais se sentia assim em relação ao jovem
poeta: havia traçado um plano muito especial em sua vida. Estava apenas começando a
executá-lo:
51
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 14 e 15.
52
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 177.
53
E. CARDENAL; T. MERTON, Correspondencia (1959-1968), p. 32.
24
(...) antes de colocar a roupa secular eu havia ido me despedir de Merton,
que me esperava em sua pequena oficina. Era muito cedo da manhã e não
estavam ali os noviços, the gang. Voltou-me a dizer o que já havia me dito
antes: que se ele não saísse, caberia a mim fazer a fundação. Pus-me de
joelhos, como se costumava na Trapa, para receber sua benção. Não o
voltei a ver, até que já ordenado sacerdote regressei à Getsemani para que
me desse orientações para a fundação que ia empreender em Solentiname.
E ao ver-me foi então ele que se colocou de joelhos para receber minha
benção sacerdotal.
54
Agora Cardenal já havia se rendido ao amor de Deus. A predileção do Amado,
assim, parece se desdobrar para outros caminhos, na composição do plano que havia traçado
para seu amante. Não há mais a necessidade de buscar a reciprocidade no amor do poeta, este
já havia se entregado ao maior de todos os amores. Restava agora guiá-lo cuidadosamente
pelos caminhos que lhe foram destinados, fazendo de sua existência um legado de amor. Uma
importante fonte da qual emanariam os diversos feixes do amor divino, tornando-o, talvez,
um exemplo de vida para toda a humanidade.
54
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 179.
25
1.4 Entre Dois Amores
“Deus perseguia a mim e eu perseguia às muchachas.”
(Ernesto Cardenal)
Como canta de noche la esquirina
al esquirín que está sobre otra rama:
“Esquirín,
si quieres que vaya, iré
si quieres que vaya ire”
y a su rama la llama el esquirín:
“Esquirina
si querés venir, vení,
si querés venir, vení”
y cuando ella se va donde él está
el esquirín se va para otra rama:
así te llamo yo a ti,
y tú te vas.
Así llamo yo a ti,
y tú te vas.
55
Estes são os versos que compõem o penúltimo poema de “Epigramas”, último
escrito por Ernesto Cardenal antes da experiência religiosa que mudaria radicalmente os
rumos de sua vida. Neles o poeta canta não mais o amor apaixonado pelas mulheres, mas o
início de sua incessante busca pelo amor divino. Enfim o Amado poderia gozar da recíproca
de Seu constante chamado. Embora aqui ainda não possamos ler, em razão do momento de
vida do jovem poeta, a narrativa de um amante louco e entregue ao Amor, podem-se captar
claros indícios de sua sede pelo encontro com Deus. Sobre este epigrama, Cardenal comenta:
“na realidade eu não tinha a quem escrever. Estava escrito vagamente a Deus; ou é realmente
a queixa da alma a Deus”
56
. O poeta não tinha a quem escrever porque se encontrava
transtornado com a notícia do casamento de Ileana, por quem estava completamente
apaixonado. O sentimento de rejeição, o vazio deixado pela falta da mulher amada, desperta
nele um forte sentimento de angústia:
Viniste a visitarme en sueños
pero el vacío que dejaste cuando te fuiste
fue realidad.
57
55
E. CARDENAL. Epigramas, p. 58.
56
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 74.
57
E. CARDENAL. Epigramas, p. 56.
26
A imagem do vazio revelada por este poema escrito para Ileana parece expressar
significativamente o momento pelo qual passava o jovem nos dias que antecederam sua
entrega ao Amado. Cardenal estava desesperado e, talvez, por isto mesmo, em processo de
completo desapego de tudo que um dia lhe fora caro. Experimentava a sensação de completo
esvaziamento de si, deixando, assim, sua alma livre para a plena invasão do Amor.
Antes, porém, de se render ao amor divino, Cardenal viveu momentos de grandes
conflitos. Desde criança intuía certa predileção de Deus por ele, mas, ao experimentar a
juventude, vê despertado em sua personalidade um outro elemento que considerava, na época,
conflitante à vida religiosa: “E é que eu sentia uma irresistível atração conjugal; obsessão
melhor dizendo. Ao mesmo tempo sentia dentro de mim, não como atração, mas como
repulsão, um chamado irreprimível a uma entrega total a Deus na vida religiosa”
58
. O jovem
Ernesto Cardenal travava dentro de si uma batalha entre a obsessão sexual e a obsessão pelo
amor.
59
Alguns anos mais tarde, porém, pôde perceber que esta não é uma relação que admite
contraditório, mas, ao contrário, apenas compõe mais uma das várias formas pelas quais se
irradia o Amor.
Já nos apontamentos escritos na Trapa (uma espécie de diário, que lhe era permitido)
e publicados em seu primeiro volume de memórias, “Vida perdida”, Cardenal demonstra não
mais perceber conflitos entre o casamento e a entrega ao Amado: “Eu tinha o dilema de Deus
e do matrimônio que não podia resolver e me angustiava tanto. Agora eu o resolvi
descobrindo que se pode conciliar e que Deus é matrimônio e o que ama a Deus se casa”
60
.
Mas, o que pode ter provocado em tão pouco tempo esta mudança no poeta? A resposta a esta
pergunta parece estar naquela tarde de sábado, 2 de junho, na qual Ernesto vê sua alma
invadida pelo sutil toque da compreensão da Realidade. Agora ele já havia bebido o vinho do
Amor e podia, então, libertar-se dos pequenos nós humanos que obscurecem a visão e a
impedem de captar cada feixe de luz irradiado pelo Amado.
Em “Vida no amor”, escrito logo quando saiu do monastério da Trapa, o poeta
também aborda sob esta perspectiva a temática do teórico paradoxo existente entre o amor
humano e o amor divino. Nesta obra, Cardenal concebe a problemática do sexo, das paixões,
dos apetites, do instinto, não como avessos à essência divina, mas como o “combustível do
amor de Deus”
61
. Para ele,
58
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 21.
59
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 40.
60
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 183.
61
E. CARDENAL, Vida en el Amor, p. 64.
27
O sexo é o símbolo do amor divino. O sexo é símbolo e sacramento, e toda
a profanação que se faz dele é sacrilégio. E como sacramento e símbolo que
é, é algo que transcende sua realidade material; é muito mais do que é
aparentemente; é uma realidade que significa outra realidade muito
superior, é um signo: e a coisa significada por esse signo é o amor divino.
62
Ao narrar histórias da comunidade de Nossa Senhora de Solentiname, em “As ilhas
estranhas”, Cardenal relata que William Agudelo, amigo e monge que o acompanhava desde a
Trapa, um dia lhe relatou que estava completamente apaixonado por Teresita, uma
colombiana que futuramente viria a ser sua esposa. Não gostaria, porém, de deixar
Solentiname, lugar que amava e no qual poderia gozar da vida contemplativa. O poeta, então,
aconselhou o amigo a casar-se e trazer sua mulher para viver consigo naquela comunidade.
Agudelo já experimentava o conflito entre a obsessão sexual e a vida religiosa desde os
tempos da Trapa. Mesmo nesta época, Cardenal o tranqüilizava tentando fazê-lo perceber que
todas as cores que compõem o arco-íris são apenas refrações da luz irradiada pelo Amor.
Dizia que
Deus era amante. E o amor a Deus era conjugal, e quem tinha mais
capacidade de entrega a uma mulher, mais obsessão de amor, era também
quem tinha mais capacidade de amor a Deus. E que não havia, pois,
contradição entre sua sede de amor e sua entrega a Deus, porque sua sede
insaciável de mulheres era sede de Deus.
63
Ainda em “As ilhas estranhas”, Ernesto Cardenal novamente se remete a esta
temática assumindo, inclusive, um tom crítico ao mencionar a postura de Thomas Merton em
relação a uma grande paixão. Merton havia conhecido M. (pseudônimo que adota em seus
diários) em um hospital de Lousville, onde esteve para realizar uma cirurgia. A moça era uma
das enfermeiras responsáveis por seu tratamento e, aos poucos, foi nascendo entre eles uma
relação de forte afeto. Mesmo quando o mestre já havia regressado à Trapa, eles trocavam
correspondências, até que “a vida dos dois se transformou, surgiu nele e nela um grande
amor”
64
. Merton sentia que este amor exigia certa flexibilidade em relação às regras
monásticas. Ao mesmo tempo, “via que não podia consumá-lo sem trair ao mais verdadeiro
de si mesmo, e não o consumou. (...) O que fez foi deixar que fosse acabando gradualmente.
O amor de ambos foi perdendo intensidade, e por fim ela se casou com outro”
65
. Em uma
parte de seus diários, Thomas Merton se pergunta se nessa experiência de amor não havia
62
E. CARDENAL, Vida en el Amor, p. 63.
63
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 27.
64
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 115.
65
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, 116 e 117.
28
estado sendo fiel a uma forma escura de chamado inescrutável de Deus. Para Cardenal, no
entanto, “parece que nesse amor Merton foi infiel a sua vocação”
66
. O poeta explica:
Não com uma infidelidade que vocês estão pensando, mas ao contrário. Sua
infidelidade foi não haver-se ido com ela, deixando o monastério, o
sacerdócio, tudo. Muitas vezes considerou dar esse passo, e não o deu
porque o viu como catastrófico. Quero dizer a lei do celibato obrigatório
que impõe a burocracia eclesiástica. Este escândalo internacional haveria
sacudido à Igreja. Tantos milhares de sacerdotes se solidarizariam com ele
no mundo inteiro, que a Igreja se veria obrigada a mudar suas normas. O
que alguma vez terá que fazer por fim. Mas com Merton se teria adiantado a
fazê-lo, e isto teria sido a coroação de sua vocação contemplativa.
67
Depois de sua experiência religiosa, a partir de sua nova compreensão sobre o Amor
e o sexo, Cardenal passa a fazer uso analógico das descrições do amor humano, para cantar
seu relacionamento com o Amado. Suas obras posteriores, em especial as poesias, são tocadas
por esta “descoberta”, que parece marcar profundamente sua relação com o divino. Para o
poeta, apaixonar-se por Deus é “igual a apaixonar-se por um ser humano; o objeto é distinto,
mas a essência do amor é a mesma. Não se quer estar separado de quem se ama”
68
. A
semelhança entre o amor humano e o amor divino intuída por ele já nesta época, serão a fonte
de todo o erotismo com o qual cantará sua intimidade com o Amado, em especial em um
momento de maior maturidade, quando escreve “Telescópio na noite escura”:
Nos escritos posteriores à sua experiência religiosa, portanto, Cardenal passa a
perceber o amor sexual sob o prisma de sua composição na totalidade do amor de Deus. Em
sua vida, tanto em relação ao conflito experimentado por William Agudelo, quanto àquele
vivido por seu mestre, assume uma postura de abertura, seguindo o princípio de que esses
amores humanos são belas expressões do amor divino. Parece paradoxal, no entanto, que este
mesmo homem, sendo também um eterno apaixonado pelas mulheres, não tenha conseguido
conciliar em sua própria vida o amor a Deus e o amor humano. Cardenal critica Thomas
Merton, mas nunca pôde libertar-se totalmente desta contradição. Em entrevista realizada em
Manágua, afirma que a opção que faz pelo celibato está diretamente relacionada à sua tradição
cristã.
69
É interessante que um homem revolucionário como Ernesto Cardenal, com sua
peculiar compreensão sobre o Amor e o cosmos, possa ainda amarrar-se à tradição cristã de
sua infância. Até mesmo porque, ao longo de toda a sua vida, o poeta revela-se um importante
66
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 117.
67
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 117.
68
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
69
Vide entrevista em anexo.
29
crítico da dogmática da Igreja Católica. Embora a tradição de fato possa impor-se
inicialmente como um obstáculo ao amor humano, não nos parece que uma pessoa como
Cardenal possa tê-la experimentado desta forma por toda a sua vida. Desde sua experiência
religiosa sua relação com o Amado já não mais poderia ser interposta por questões como esta.
Parecendo ainda querer justificar a opção pelo celibato, o poeta afirma:
Deus se revelou a mim como Beleza, a Beleza infinita que antes me atraía
em forma limitada e finita nas muchachas. Revelou-se a mim como “a
Muchacha das Muchachas” segundo o expressa um místico laico
colombiano, Fernando González, e como “aquele que tem sempre a
dentadura perfeita”, segundo ele mesmo. Eu simplesmente me apaixonei
por Deus.
70
É como se com esta afirmativa Cardenal pretendesse dizer: “Se posso viver em
comunhão com a maior de todas as Belezas, porque, então, me entregar à paixão pela limitada
beleza das mulheres?” O poeta, porém, canta em toda a sua obra poética a admiração que o
acompanha por toda a vida, por esta “limitada beleza” humana. Parece a todo o momento
querer justificar a exclusividade de sua relação com Deus, mas, em muitos aspectos de sua
vida e obra, tende à contradição e revela seu apego ao sexo e às mulheres. Onde, então,
encontrar as respostas para esse possível paradoxo em Ernesto Cardenal?
Luz Marina Acosta, estudiosa e amiga do poeta, em livro no qual analisa as
primeiras obras do autor, parece dar as pistas que apontam para a solução desta problemática.
De acordo com a pesquisadora, em sua poesia, Ernesto explicita conceber o amor humano sob
dois pólos extremos: o amor como redenção e o amor como destruição.
71
Sobre o primeiro,
Acosta afirma que Cardenal concebe o amor como a redenção “do homem caído pelo pecado,
no ódio, o que denota sua consciência cristã e, por tanto, condenado a morrer desde que foi
expulso do paraíso; graças ao amor, homens e mulheres se imortalizam, se salvam, recobram
o paraíso”
72
. Este preceito pode ser captado de forma clara em seu poema “Imortal amor”:
Hay una lucha a muerte entre los cuerpos
y un odio secular en cada cosa.
Se van gastando con espadas grises
De polvo,
luchando cuerpo a cuerpo y polvo a polvo
y muerte a muerte.
Pero tú estas intacta en tanta muerte.
70
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
71
ACOSTA, Luz Marina. La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 63 e 64.
72
ACOSTA, Luz Marina. La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 63.
30
Conciliadora blanca de esta guerra
por cima del odio estás triunfando,
estabelecendo abrazos de amor irrefutables.
73
Paradoxalmente, o poeta concebe o amor como destruição: “(...) em outra
concepção, contraditória à anterior, o amor é morte: o amor em um de seus títulos é
qualificado como irremediável. O seu amor humano ‘passa e não volta’, o que revela sua
qualidade efêmera e temporal”
74
. Segundo Luz Maria, portanto, em sua experiência de
apaixonado, Cardenal:
Une a Eros e Thanatos, união que deve considerar-se como um traço do
pensamento ou da filosofia moderna, que tem ao homem por cindido,
dividido e desconjuntado. No fim do amor ou do prazer, está guardado a
morte; na separação dos amantes está representada a morte; na
impossibilidade do amor absoluto e de realizar o amor radica a morte.
75
É com esta certeza apaixonada que o poeta compõe “Melhor Morrer” um belíssimo
poema no qual aborda esta temática:
Mejor morirse, amor, entre tus brazos.
Mejor morir del todo.
Yo te amo e no quiero ya seguir viviendo.
Aniquílame, amor, mátame pronto,
que es muy dulce morir enamorado.
76
Desde jovem, portanto, Cardenal concebe o amor humano sob as facetas do
contraditório redenção x destruição. Mais do que a problemática religiosa que o atormentava
por toda a juventude, a compreensão do poeta sobre o amor também o guiava ao conflito. A
partir de sua experiência religiosa, Ernesto liberta-se da concepção contraditória entre vida
religiosa e o matrimônio, mas parece nunca desprender-se da angústia pessoal que sua visão
do amor lhe provocava. Daí, talvez, a origem de que jamais tenha optado por se entregar a um
amor humano, mesmo sem poder percebê-lo como um obstáculo à sua relação com Deus:
El amor es suicidio,
es estar cansado de ser uno
y buscar un abismo en forma de mujer
en que arrojarse.
77
73
E. CARDENAL (1971) apud L. M. ACOSTA (2000), La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 64.
74
ACOSTA, Luz Marina. La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 65.
75
ACOSTA, Luz Marina. La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 65.
76
E. CARDENAL (1971) apud L. M. ACOSTA (2000), La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 65.
77
E. CARDENAL (1971) apud L. M. ACOSTA (2000), La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 65.
31
CAPÍTULO II: O AMOR INDIZÍVEL
2.1 Introdução
No dia 2 de junho de 1956, ao meio dia, Ernesto Cardenal é invadido pelo amor de
Deus, revelado em sua experiência mística. Decide, então, mudar radicalmente a sua vida e
faz a opção de ingressar no monastério da Trapa, em Gethsemani, nos EUA. Lá, conhece
Thomas Merton, que seria seu mestre espiritual e verdadeiro amigo. Com ele, Cardenal
idealizaria a futura comunidade de Nossa Senhora de Solentiname, fundada em um
arquipélago do Grande Lago da Nicarágua. Merton seria, assim, uma influência
importantíssima para o poeta, que reflete suas orientações em cada gesto de sua vida e obra.
Em 1959, porém, por problemas de saúde, sai da Trapa e vai para Cuernavaca, no México,
onde pretende estudar teologia. Escreve dois importantes livros neste período, “Vida no
amor” e “Gethsemnani, Ky”, obras em que revela sua concepção mística da realidade e suas
experiências no monastério. Depois, em 1961 vai para um seminário na Colômbia e é
ordenado sacerdote em Manágua, quatro anos depois. Segue para Solentiname, então, para
colocar em prática o projeto idealizado com Merton...
32
2.2 O Vazio Cósmico
Quanto mais nossas faculdades se esvaziarem do desejo e da
tensão em relação às coisas criadas e quanto mais se
concentrarem na paz e no silêncio interior, procurando
penetrar na obscuridade onde Deus está presente para saciar-
lhes a fome, tanto mais experimentam uma pura e ardente
impaciência para se verem livres, libertando-se de todos os
obstáculos e apegos que ainda se põem entre elas e o vazio que
poderá então receber a Deus em plenitude.”
(Thomas Merton)
“Este é um assunto sobre o qual eu não falo. Tudo que eu tinha a dizer sobre isto,
escrevi em meus livros”.
78
Foi esta a resposta gentil, mas taxativa, de Ernesto Cardenal
quando mencionei sua experiência mística, em uma entrevista realizada no dia 15 de julho de
2008, em Managua. Senti-me profundamente constrangida. Era como se eu tivesse tentado
violar suas mais íntimas e profundas recordações. Como se tivesse tido a pretensão de invadir
um local que não me pertencia, uma relação da qual eu não participo. Mas também com esta
resposta me senti satisfeita. Intencionalmente ou não, Cardenal havia me aproximado o mais
que pôde da compreensão da experiência mística. Fez-me perceber que o que se estabelece é
uma união e intimidade tão forte, que não pode ser violada. Afinal, não há sequer como
explicá-la. Uma relação que se dá no vazio, o vazio cósmico, não pode ser expressa em
palavras. Seria limitada demais por elas, que jamais poderiam descrevê-la.
Não é possível, portanto, escrever sobre experiência mística, o que faz deste um dos
temas mais complexos deste trabalho. Aproximar-nos-emos da experiência de Cardenal ao
mais que pudermos, através de seus poemas e comentários sobre o assunto. Temos a
consciência, no entanto, de que tudo que for dito aqui será feito de forma superficial e que
jamais poderemos, com nossas descrições e comentários, captar a essência do significado
deste momento. Esta é uma dádiva, e “Deus a dá caprichosamente a quem Ele quer, e não
porque se mereceu”
79
. Ao mesmo tempo, sem que tentemos nos aproximar o quanto
pudermos desta experiência, parece-nos impossível compreender o sacerdote, o poeta e o
revolucionário, em todas as faces do amor irradiadas em sua vida.
O conjunto de curiosos fatos que cercam a experiência mística de Cardenal compõe
um interessante cenário que parece ser meticulosamente construído por Deus para torná-lo o
homem que ele seria anos depois. Após vários romances frustrados, muitos dos quais o poeta
creia que assim o foram, por vontade divina, Ernesto se apaixona por Ileana, sua última
78
Vide entrevista em anexo.
79
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 170.
33
namorada. Um detalhe, porém, chama atenção para esse relacionamento: a moça,
inexplicavelmente, desenvolve alergia aos seus beijos. Embora o jovem perceba que este pode
ser o sinal de Deus pelo qual ele tanto ansiava, não pôde, mais uma vez, dominar sua sede
pelo amor humano e, ainda assim, manteve o namoro. Algum tempo depois, porém, Ileana lhe
pede para não mais visitá-la informando que tinha outro noivo e que brevemente se casaria.
Cardenal entra em desespero: “(...) era evidente que esta era uma decisão de Deus. Mas era de
Deus e não minha. Isto de nenhuma maneira me diminuía a dor.”
80
Tamanho era o
sofrimento do poeta que, descrevendo seu sentimento, compõe, nesta época, o epigrama:
Si cuando fue la rebelión de abril
Me hubieran matado con ellos
Yo no te abría conocido:
Y si ahora hubiera sido la rebelión de abril
Me hubieran matado con ellos.
81
O tema político muitas vezes é articulado ao do amor humano nas poesias de
Cardenal deste período. Temas estes que jamais deixarão seus poemas, mesmo aqueles
compostos já em sua maturidade, anos depois. Sua relação com as mulheres e seu ativismo
político parece formar as bases sobre as quais o seu amor por Deus é vivido em plenitude. É
da concretização da perda do amor de Ileana, que se casaria naquele momento, e da sensação
de triunfo de Somoza sobre si, que Cardenal parece finalmente experimentar o vazio que o
libertará para o encontro com o Amado. Ele descreve assim os acontecimentos daquele 2 de
junho:
O sábado, 2 de junho ao meio dia, na hora do casamento, estava eu em
minha livraria, sem outra pessoa mais que a moça que atendia, e de
imediato se ouviram nesta rua, que era a Avenida Roosevelt, as estridentes
sirenes da caravana de Somoza, que paralisavam o tráfego com bombeiros e
ambulâncias enquanto corriam à máxima velocidade. Era Somoza que vinha
do casamento na Catedral e se dirigia à Casa Presidencial.
Aquelas estrondosas sirenes soaram em meus ouvidos como clarins de
triunfo. Um triunfo sobre mim. Por estanho que pareça rápido como um
flash minha mente percebeu uma superposição de Deus e ditador como se
fosse um só; um só que havia triunfado sobre mim.
82
A experiência mística, portanto, acontece de forma espontânea. Não há hora, lugar
ou sentimento que a provoque, ela depende apenas da vontade de Deus. Mas talvez Ele
80
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 72.
81
E. CARDENAL. Epigramas, p. 53.
82
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 75.
34
escolha o momento de forma a expressar seus desígnios na vida daquele ser humano
escolhido. Mais uma das sutilezas divinas. Parece-me que foi assim com Merton que, já ao
final de sua vida dedicada ao diálogo com outras culturas, tem sua experiência religiosa não
no heremitério da Trapa, onde viveu em solidão por muitos anos, mas em uma curta viagem à
Ásia, ao contemplar em admiração a imagem do Buda Deitado. A mim também parece que o
momento de Cardenal foi sutilmente escolhido de modo a expressar o que ele construiria em
sua vida: o amor desesperado pelo humano, representado por Ileana; a poesia, local do
encontro, a livraria; e o ativismo político, expresso na figura do ditador Somoza. Falando
sobre a maneira intempestiva e intensa como ocorre a experiência mística, Cardenal a
descreve:
De repente a alma sente sua presença numa forma em que não pode
equivocar-se e com tremor e espanto exclama: “tu deves ser aquele que fez
o céu e a terra!”. E quer esconder-se dessa presença e não pode, porque está
como entre a espada e a parede, está entre Ele e Ele, e não tem onde
escapar, porque essa presença invade céus e terra e a invade também a ela
totalmente, e ela está em Seus braços. E a alma que conseguiu a felicidade
toda a vida sem saciar-se nunca e procurando todos os instantes a beleza, o
prazer e a felicidade e o gozo, querendo sempre gozar mais e mais, agora
em agonia, afogada num oceano de deleite insuportável, sem margens e sem
fundos, exclama: “basta, basta! Não me faças gozar mais, se me amas,
porque eu morro!” Penetrada de uma doçura tão intensa que se transforma
em dor, uma dor indescritível, como algo agridoce que fosse infinitamente
amargo e infinitamente doce. Tudo é talvez em um segundo, e talvez não
volte a repetir-se em toda a sua vida, mas quando esse segundo passou a
alma entende que toda a beleza e as alegrias e gozos da terra ficam
desvanecidos, são “como esterco” como disseram os santos (Skybala,
“merda”, como diz São Paulo) e já não poderá gozar jamais em nada que
não seja Isso e vê que sua vida será a partir de então uma vida de tortura e
de martírio porque enlouqueceu, está louco de amor e de nostalgia do que
provou, e vai sofrer todos os sofrimentos e todas as torturas contanto que
venha provar uma segunda vez, um segundo mais, uma gota mais, essa
presença.
Amizades, vinhos, mulheres, viagens, festas, tudo se desvaneceu para
sempre e a alma já não conhecerá jamais outra alegria maior do que a
felicidade que sentiu.
83
Este momento é revivido em poesia anos depois, quando Cardenal experimenta, na
maturidade de seu relacionamento com o Amado, uma intimidade erótica, tão presente nos
escritos de outros grandes místicos, como São João da Cruz e Madre Tereza D’Ávila. Para o
poeta
83
E. CARDENAL, Vida en el Amor, p. 53.
35
A intimidade com o infinito – como explicar isso? – É uma união dentro de
si, e sem senti-lo com os sentidos, o sinto, sua frente sobre a minha frente,
seus olhos sobre meus olhos, sua boca sobre minha boca, tão perto de mim
que já não sei qual é qual, qual sou eu e qual é Ele, onde começa Ele e onde
acabo eu, porque ele e eu já somos um, um só tu e um só eu, um tu que é eu
e um eu que é tu.
84
Gozando da mais livre intimidade com Deus, portanto, Cardenal publica “Telescópio
na noite escura”, em que relata numa perspectiva um tanto mais ousada do que nos livros
anteriores, os importantes acontecimentos de 2 de junho:
Fue casi violación,
pero consentida,
no podía ser de otro modo,
y aquella invasión del placer
hasta casi morir,
y decir: ya no más
que me matas.
Tanto placer que produce tanto dolor.
Como una especie de penetración.
85
Cardenal comenta em seu primeiro livro de memórias, “Vida perdida”, que os
momentos que se seguiram a esta experiência foram de extrema apatia, estava como que
“abobalhado, sem querer nada nem pensar em nada”
86
. Semelhante ao que descreve o poeta,
Frei Betto afirma que na experiência mística se muda “o conceito de tempo, você sente uma
euforia interna maravilhosa e não sente necessidade de mais nada... Tudo é supérfluo, é
relativo... A experiência mística é um estado absoluto...”
87
. Cardenal dedicava, portanto, seu
tempo apenas à leitura de alguns místicos e, neste período, em especial, se entregava aos
escritos de São João da Cruz, para quem “toda a graça e broma das criaturas comparada com a
graça de Deus, é suma desgraça e antipatia”
88
. Estes estudos marcarão profundamente as
obras literárias posteriores do poeta, assim como contribuirão para sua formação como
contemplativo e ativista político. É assim, por exemplo, quando escreve “Vida no amor”. Ou
ainda quando fala, em suas memórias, sobre a limitação da beleza das mulheres, efêmera,
quando comparada à beleza de Deus. O poeta constrói vivamente a imagem desses momentos,
em “Cântico Cósmico”:
84
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 32.
85
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 27.
86
E. CARDENAL, Vida perdida, p.81.
87
MERCADOR, Tonico. Entrevista com Frei Betto, 1999. [página da internet]
88
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 80.
36
Mirando una vez el lago
donde está ahora el hotel Intercontinental de Managua:
el lago levantando sobre los techos
y las lanchas como flotando en el aire
y sobre el lago las montañas azules
y sobre las montañas el cielo azul.
Agua e tierra de color de cielo.
Y entonces fue que dije:
¿Pero a Vos cuándo te veré cara a cara?
89
Outro peculiar elemento presente na narrativa de Cardenal sobre os momentos que
se seguiram à sua experiência religiosa, é o vazio. Dizia que se sentia “vazio por dentro, mas
não vazio de Deus, mas das coisas, ou de mim mesmo, vazio de todo o interesse, de todo o
desejo”
90
. Embora cada experiência mística seja particular e inalcançável para aqueles que
não a experimentaram, algumas características comuns podem ser encontradas nos escritos de
outros grandes místicos, tais como a alusão ao vazio. Para permitir o encontro com o Amado,
é necessário que a alma se desprenda de tudo que a cerca. Sobre este tema, Cardenal lembra o
que certa vez lhe disse Thomas Merton:
Os escritores da vida espiritual muito têm dito que a alma é um espelho. E é
espelho, mas é espelho de Deus. E Deus não é um objeto; portanto o
espelho para refletir Deus não pode refletir nenhum objeto: é um espelho
limpo no qual nada se reflete. Quando não há nada no espelho, está Deus.
Se há alguma coisa no espelho, não reflete Deus.
91
A primeira versão apresentada de sua experiência mística, descrita por Cardenal, nos
remete ao contexto no qual se deu este acontecimento. È uma narrativa pontual, mas, embora
importante para a compreensão do que viria a ser a vida posterior do poeta, parece carecer de
elementos que nos envolvam na rede de significados que envolvem esta experiência. A
descrição em prosa, publicada em “Vida no amor”, embora nos permita penetrar com um
pouco mais de ousadia nesse universo experimentado por Cardenal, cria uma barreira que nos
impede a aproximação da compreensão da relação de intimidade que se estabelece entre
Amante e Amado. A musicalidade da poesia, porém, a composição dos versos, talvez quebre
parte destas barreiras e nos permita a partir da completa entrega ao poema, degustar o máximo
que nos é permitido, o sabor da experiência mística. O ritmo, a palavra, tudo parece, enfim,
pretender nos envolver nesta experiência para que, muito sutilmente, ela possa tamm
pertencer um pouquinho a nós.
89
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 192.
90
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 81.
91
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 83.
37
2.3 O Cantar dos Cantares
“Minha vida está submergida em Deus”
(Ernesto Cardenal)
“Tarde luminosa. É o dia em que tudo se abre e os bosques verdes nas colinas se
fazem definitivamente folhagem. O tempo mais maravilhoso do ano.”
92
Esta é a descrição
feita por Thomas Merton sobre a primavera em Getsemani. Seria nesta estação, no dia 14 de
maio de 1957 que o mestre receberia como noviço um jovem nicaragüense de 32 anos,
ansioso por respostas que saciassem sua sede de viver em plenitude o amor divino. Este
encontraria, no entanto, um homem que, muito mais do que ministro espiritual, seria um
grande amigo, pai
93
e “conspirador”
94
. Definitivamente era o início do tempo do Cantar dos
Cantares, como define Cardenal o período de seu ingresso na Trapa. Juntos, mestre e noviço
enriqueceriam mutuamente suas experiências de Deus
95
, experimentariam uma nova
concepção de vida monástica e dariam, com a idealização e fundação da comunidade de
Nossa Senhora de Solentiname, um exemplo de que é possível e necessário lutar para
concretizar o projeto de Jesus na terra: o Reino de Deus.
Anos mais tarde, já tendo deixado o monastério, o poeta Cardenal descreve com
imagens extraordinariamente vivas, como é inato ao seu estilo literário, as impressões
daquela sua primeira primavera em Getsemani:
Hay un rumor de tractores en los prados.
Los ciruelos rosados están en flor.
Mira: están en flor los manzanos.
Amado, ésta es la estación del amor.
Los estorninos cantan en el sicómoro.
Las carreteras huelen a asfalto recién regado.
Y los carros pasan con risas de muchachas
.
Mira: La estación del amor ha llegado.
Todo pájaro vuela perseguido por otro.
96
92
T. MERTON apud E. CARDENAL, Vida perdida, p. 99.
93
Quando Cardenal fala sobre seus sentimentos pela morte de Merton, em 1968, afirma que havia perdido, além
de um grande amigo, também um pai. E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 236.
94
É assim que Cardenal define o resultado da direção espiritual de Merton: uma conspiração. E. CARDENAL,
Vida perdida, p. 143.
95
Cardenal menciona que muitos autores afirmam haver não só influência de Thomas Merton em seus poemas,
mas também o contrário. Lembra de Michael Moot, por exemplo, que diz que a leitura do livro “Hora 0” fez
mudar a poesia de Merton. E. CARDENAL, Vida perdida, p. 166.
96
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 100.
38
É interessante perceber que, como em vários outros poemas posteriores, embora
tenha já entregado sua vida ao Amor de todos os amores, a figura feminina ainda estará muito
presente nas obras de Cardenal. Cantando em poesia o seu encanto pela primavera em
Getsemani, o poeta não pode dissociá-la do riso das muchachas. Aquelas mesmas muchachas
que representam, a seu ver, a limitação da beleza da face de Deus. E são estas mulheres que
ressurgirão em outras tantas de suas obras poéticas, tais como “Cântico Cósmico” e
“Telescópio na noite escura”, publicadas após a derrota dos sandinistas nas eleições na
Nicarágua. Este é apenas mais um indício, portanto, de que Cardenal deve ser lido como um
grande conjunto de tendências e de percepções de mundo que jamais se excluem. Ao
contrário, cada experiência de sua vida é somada de forma a dar corpo ao magnífico e
complexo conjunto de obras deste grande escritor latino americano.
Embora depois de sua experiência de 02 de junho já estar certo de sua vocação
monástica, esses mesmos conflitos inerentes à natureza do jovem Cardenal foram todos
revelados no exame psiquiátrico que deveria ser feito para ingresso na Trapa, o que poderia
prejudicar sua aceitação na ordem. Sobre isto, o poeta conta que o psiquiatra disse que
Em primeiro lugar eu tinha uma obsessão sexual; segundo, que estava
sempre fingindo, e havia algo oculto em mim que eu dissimulava; e ainda
que minhas faculdades mentais haviam diminuído enormemente, que
estava abobado e com uma espécie de atordoamento, com falta de interesse
por tudo, e uma grande passividade e apatia.
97
Para Merton, porém, nenhum desses conflitos importava. Segundo falava, desde que
recebeu a solicitação de Cardenal havia uma voz em seu interior que lhe dizia: “Tem que
recebê-lo. É muito importante que ele venha aqui.”
98
Todas essas nuances da vida do poeta,
desde a presença de Deus em sua infância, ou na sua juventude, na poesia, ou ainda em suas
relações com as mulheres, parecem de fato convergir para um mesmo ponto comum: um
plano de Deus. Talvez por isto seja tão difícil dissociar todas as faces desse amor cantado por
ele, seja em sua poesia, em sua vida espiritual ou revolucionária. O que presenciamos a partir
do estudo de suas obras e de sua biografia é todo um processo em construção, um “plano de
Deus” a ser executado por um ser humano cuja missão talvez seja de fato experimentar e
envolver todas as formas de amor do universo.
Não foi fácil, porém, o processo que se deu desde a chegada de Cardenal em
Getsemani, até a fundação de Solentiname. Para ingressar como noviço na Trapa ele teve que
97
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 91.
98
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 20.
39
renunciar a alguns de seus grandes amores: a poesia
99
, sua terra e seus lagos. Ao que tudo
indica, no entanto, era necessário que fizesse essa escolha neste momento. A renúncia
momentânea só faria abrir espaço para que seu ser se preenchesse daquele “grande vazio”, “o
vazio” que o abriria às experiências vivenciais e espirituais orientadas por Merton.
Estas renúncias representariam, assim, um grande passo no amadurecimento do
escritor que, logo após a saída da Trapa, compõe “Getsemani, Ky” e “Vida no amor”. Estas
obras, embora não possam representar uma ruptura substancial com “Epigramas”, traduzem
definitivamente um novo estilo poético e literário permeado por uma nova concepção da vida
e do universo.
Do mesmo modo, não fosse a renúncia nesse período por sua terra e seus lagos,
talvez não chegasse a conhecer tão bem a América Latina e sua espiritualidade. E talvez, por
isto mesmo, a comunidade de Solentiname jamais pudesse ter sido concretizada tão
perfeitamente de acordo com os anseios e preocupações daquele grupo de camponeses
nicaragüenses que, com suas experiências de vida e a bíblia, interpretaram o evangelho a luz
de sua realidade social e fizeram de “Evangelho em Solentiname” uma importante obra não
só religiosa, mas também revolucionária. Tudo isto certamente se relaciona ao interesse de
Merton pelo continente sul americano. Ele, como diz Cardenal, “(...) um norte-americano, um
gringo (...) me fez descobrir o valor dos índios”
100
.
Sobre a saudade que sentia da Nicarágua, a terra que chamava de “seu paraíso
101
,
Cardenal compõe alguns anos depois:
Ha venido la primavera con su olor a Nicaragua:
un olor a tierra recién llovida, y un olor a calor,
a flores, a raíces desenterrada, y a hojas mojadas
(y he oído el mugido de un ganado lejano...)
¿O es el olor del amor? Pero este amor no es el tuyo.
Y amor a la patria fue el del dictador: el dictador
gordo, con su traje sport y su sombrero tejano,
en el lujoso yate por los paisajes de tu sueños:
él fue el que amo la tierra y la robó e la poseyó.
Y en su tierra amada está ahora el dictador embalsamado
Mientras que a ti el Amor te ha llevado al destierro.
102
99
É importante esclarecer que Cadenal não estava autorizado a escrever profissionalmente, mas escrevia alguns
apontamentos sobre sua rotina em Getsemani. Muitos deles, inclusive, deram origem a vários poemas que
escreve após sair do monastério, e que anos mais tarde publica no livro “Getsemani, Ky”.
100
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 158.
101
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 162.
102
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 162.
40
Embora este poema tenha sido desenhado a partir do sentimento de nostalgia do
poeta em relação à sua terra, há também que se vislumbrar em seus versos um forte teor
político. Mais uma vez nos deparamos, aqui, com um Cardenal envolvido com os problemas
sociais de seu país, traço que já o acompanha desde seus primeiros poemas históricos, que
passa por “Epigramas” e que permeará toda sua trajetória como poeta. O “ser revolucionário”
de Cardenal, portanto, não “brota” simplesmente em sua vida, mas, como todas as outras
faces de seu amor, se constrói em um processo lento e muitas vezes angustiante.
Outra característica importante da rotina no monastério e que certamente marcará a
vida de Cardenal diz respeito ao silêncio. Os noviços só podiam falar através de sinais
durante a metade do dia. Das 7 horas da noite às 7 horas da manhã, era o período que se
chamava de “o grande silêncio”, no qual nenhuma forma de comunicação era permitida.
Quando o poeta afirma, portanto, que para os noviços o silêncio era “verdadeiramente nossa
cela”,
103
parece querer reafirmar a importância de se despir de toda e qualquer interferência
externa. Mais uma vez percebemos aqui a concepção da necessidade do “esvaziamento do
eu” para que o Outro possa ser recebido. Segundo ele:
O homem foi criado para o silêncio como demonstra o fato de que aqui não
nos faz falta falar. O silêncio é mais natural ao homem que a linguagem,
como o é ao animal. O animal canta, e se comunica quando é necessário,
mas sabe calar. Os patos contemplando o silêncio toda a tarde. São parte da
tarde e da paisagem. E nós também somos partes de Deus em nossa
contemplação.
104
O silêncio, portanto, nos torna atento ao Outro. É ele que nos integra
conscientemente a cada paisagem e nos insere na totalidade do Amor divino. É importante
notar que a percepção da presença de Deus em todas as coisas vai se consolidando cada vez
mais no pensamento de Cardenal. Este será o principal pilar sob o qual edificará “Vida no
Amor”. É neste livro, portanto, que consagra de forma mais desvelada a integração de todos
os seres vivos a Deus. Daí a importância do fato de o poeta ter experimentado uma rotina de
silêncio tão rigorosa. Talvez para que em todo o processo de desenvolvimento espiritual
vivido na Trapa pudesse intuir que, como Deus está presente em todas as coisas, Ele tamm
estaria a seu lado fora do monastério, quando estivesse atuando politicamente mundo afora.
103
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 110.
104
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 245.
41
Afinal, como diz o mesmo poeta referindo-se à sua vida na Trapa: “A rotina é libertadora”
105
.
Mas sem dúvida alguma, o que Getsemani deixa de mais marcante em Cardenal é a
presença de Thomas Merton como seu mestre espiritual. É sua “orientação desorientadora”
que marca definitivamente a visão do noviço em relação ao cosmos e ao seu papel na
humanidade. O estudioso Will Derusha, afirma que, inclusive, em um momento inicial mestre
e noviço não se entenderam bem.
106
. Segundo ele,
Como um homem de curiosidade insaciável, Merton se interessava bastante
pelas condições da América Latina. Ao se reunirem mestre e noviço, a
instrução constava mais de perguntas sobre a Nicarágua do que de conselho
espiritual, até o ponto em que Cardenal a considerou uma perda de tempo. É
patente que Cardenal procurava então desprender-se da vida que existia fora
do monastério, mas Merton não lhe deixou abandonar o mundo.
107
O fato é que, por fim, seria Thomas Merton quem desconstruiria em Cardenal todos
os seus ideais preconcebidos sobre a oração, a vida contemplativa e a vida monástica.
108
É
ele que o conduziria a outros tantos universos, de outras tantas espiritualidades e culturas.
Para Merton, portanto, o ocidente tenta racionalizar demais o misticismo. Segundo
ele, nos dizeres de seu noviço:
(...) A oração não devia ser uma concentração mental, o que era
prejudicial. Tão pouco do canto do ofício e nem na reza do rosário se
deveria concentrar em cada palavra, mas bastaria uma atenção geral, uma
intenção de querer significar o que alguém repete mecanicamente. O
inconsciente deveria participar também na oração (...). (...) O ser humano
está construído de tal maneira que seu centro é Deus, pelo que não devemos
imaginar Deus como algo exterior a nós, mas interior, o mais íntimo de nós.
Por isto esconder-se dentro de si, esquecer-se de tudo e estar só consigo
mesmo, é encontrar Deus. Igualmente, não devemos imaginar a vontade de
Deus como exterior que se impõe à nossa, mas como uma vontade que é
mais verdadeiramente nossa, a mais íntima do nosso eu, o que deseja o
centro de nosso ser. Meditar em Deus ou ter a mente em branco, ou estar
distraído, não tinha importância: o importante era saber que O tinha dentro
de si e que se podia recorrer a Ele sempre que se quer, não simplesmente no
plano racional ou da consciência, mas no mais profundo do ser,
independente se mente se dá conta disto ou não.
109
105
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 211.
106
W. DERUSHA. Ernesto Cardenal: Poesía y teología de la liberación, p. 173.
107
W. DERUSHA. Ernesto Cardenal: Poesía y teología de la liberación, p. 173.
108
Embora para muitos o significado de vida contemplativa equivalha substancialmente ao de vida monástica,
esta semelhança não pode ser adotada aqui. Isto porque Merton é extremamente crítico em relação aos moldes
em que se estrutura a Trapa. Para ele, a vida contemplativa deveria ser cada vez mais afastada das regras, sendo
vivida com simplicidade.
109
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 123.
42
Cada detalhe das colocações de Merton deixa claro todo o seu desconforto em
relação a qualquer tipo de norma ou padrão. Para viver uma vida contemplativa em sua
plenitude, o ser humano deve libertar-se de todas estas pequenas amarras formais e se
entregar à simplicidade. Estar em oração, portanto, é estar totalmente submerso em seu
próprio mundo. Contemplar é “viver como um peixe na água”.
110
Para o mestre, a única
regra que se pode seguir é que “se deve fazer a oração que se sinta mais inclinado naquele
momento, porque esta é a oração que Deus está querendo da pessoa. Produzir violência com a
imposição da oração distinta daquela que se está gostando, produz sofrimento”
111
.
Muitos anos mais tarde, em entrevista, Cardenal mostra uma percepção muito
própria do significado da oração. Própria, porém, demonstrando jamais ter deixado de beber
na fonte das orientações espirituais de Merton. A oração, diz ele:
Pode ser com fórmulas aprendidas, com palavras próprias ou sem falar;
com amor, nada mais, porque já é comunicação sentir-se unido a quem ama
e ser um com ele. O melhor modo de rezar é trabalhar pelo reinado de Deus
na Terra e isto começa por conseguir, dia a dia, um sistema político e social
mais justo para os homens. O pai nosso é uma súplica para que algum dia
venha a nós esse reino de amor.
112
Merton, portanto, concebia a vida contemplativa de um modo muito peculiar e, em
certo sentido, um tanto revolucionário segundo os rígidos padrões impostos pela ordem
trapense. Para ele,
(…) a contemplação é mais do que mero considerar verdades abstratas
sobre Deus; mais; até, do que do que a meditação efetiva das pessoas que
cremos. É um despertar, uma iluminação, é a apreensão intuitiva,
espantosa, com que o amor se certifica da intervenção criadora e dinâmica
de Deus em nossa vida cotidiana. A contemplação, portanto, não
“encontra” simplesmente uma idéia clara sobre Deus, confinando-o dentro
dos limites desta idéia, retendo-o como prisioneiro a quem se pode sempre
voltar. Pelo contrário, a contemplação é que é por ele arrebatada e
transportada ao próprio domínio dele, seu mistério e liberdade. É um
conhecimento puro e virginal, pobre de conceitos, mais pobre ainda em
raciocínios, mas capaz, por sua própria pobreza e pureza, se seguir a
Palavra “aonde quer que vá”.
113
110
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 144.
111
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 169.
112
L. AMIGUET. Ernesto Cardenal: Mientras haya pobres, habrá teología de la liberación, 2008. [artigo da
internet]
113
T. MERTON, Novas Sementes de Contemplação, p. 12 e 13.
43
As orientações do mestre de noviços não se resumiam, no entanto, a abordagem de
questões espirituais e religiosas. Merton a todo o momento fazia questionamentos de cunho
político, levantando suas preocupações com temas que giravam entre a violência no mundo, o
imperialismo norte-americano, os problemas sociais da América Latina, e tantos outros.
Discussões que só faziam aproximar ainda mais noviço de suas antigas preocupações
mundanas e reacender aquela fagulha de ativismo que já existia em seu peito desde os tempos
da juventude na Nicarágua, quando participou ativamente da rebelião de abril
114
. Em uma
conferência aos noviços, por exemplo, Cardenal conta que o mestre disse: “nossa vida
reproduzia exatamente o deserto de São João da Cruz, ainda que estivéssemos em um lugar
habitado, enquanto no deserto nos Estados Unidos só havia a bomba atômica e as residências
dos ricos”
115
.
O mais surpreendente em Merton, no entanto, são suas graves críticas ao monastério
em Getsemani. Contrário a todo o excesso de formalismo como meio de estar em
contemplação a Deus (como já foi mencionado em suas concepções sobre a oração e a vida
espiritual), o mestre se mostra cada vez mais insatisfeito com o que presencia na Trapa.
Chega a escandalizar Cardenal ao comparar, em umas das sessões de orientação espiritual, a
vida no monastério à vida de um asno que, segundo ele, “estaria sempre dando a mesma
volta”
116
. Outra séria crítica que Merton fazia a Getsemani diz respeito ao que chama de
“mercantilismo cada vez maior do monastério, sobretudo nas altas esferas de poder”
117
. Em
uma de suas cartas a Cardenal, depois que este deixa o monastério, chega a comentar:
“Getsemani é terrível. Um comércio tremendo: todo mundo está ficando louco com o negócio
do queijo. Tenho uma necessidade enorme de ir-me”
118
. Para ele, portanto, “o verdadeiro
sentido da ordem trapense (...) não era o silêncio ou o jejum, como a maioria das pessoas que
estão de fora vêem, mas o espírito de comunidade, o comunalismo, ou se podia também dizer
o comunismo”
119
.
É com esta intuição que Merton idealiza uma comunidade monástica na América
Latina. Comunidade que iria ser concretizada em Solentiname alguns anos depois por seu
noviço e amigo Ernesto Cardenal. Em suas orientações sobre os princípios que deveriam
reger este monastério, o mestre diz que “ali não se devia estar à margem dos problemas
114
A Rebelião de Abril foi um dos muitos ensaios à revolução sandinista. Seu objetivo principal era a queda da
ditadura Somoza.
115
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 120.
116
CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 87.
117
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 139.
118
E. CARDENAL; T. MERTON, Correspondência (1959-1968), p. 65.
119
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 160.
44
sociais e políticos, mas que deveria ser um lugar onde se reuniriam pessoas de diversas
tendências e ideologias, ainda que não católicos, para estudar esses problemas e buscar a
solução”
120
.
E talvez justamente por estar guiado por um plano de Deus, cerca de dois anos
depois de ingressar na Trapa, após ter sofrido uma verdadeira “revolução espiritual” ao lado
de Merton, Cardenal se vê obrigado a deixar a ordem por problemas de saúde. Embora
inicialmente desolado, este parece ser mais um daqueles muitos momentos em que Deus
interfere diretamente na vida do poeta. É a partir de sua saída do monastério que ele vai
colocar em prática a consolidação da comunidade contemplativa de Solentiname. É também a
partir daí que se inicia o importante processo de radicalização política que o levará a ser uma
peça fundamental da revolução sandinista da Nicarágua. Merton explica assim saída de
Cardenal de Getsemani, em carta a um amigo:
Certamente que é um poeta muito bom, e talvez uma das razões pelas quais
aqui sua vocação não se desenvolveu permanentemente foi que este não era
um lugar para que ele escrevesse poesia. Creio que talvez a quase violenta
inibição com que suprimiu seu instinto poético ao entrar aqui tenha algo a
ver com o fato de que por último as úlceras o ameaçaram.
121
Viver como um peixe na água. Esta parece ser a chave que abre as portas que
guiarão Cardenal ao destino que se segue a partir do momento em que deixa Trapa. Livre de
todos os rituais da vida monástica, o poeta começa a seguir seu caminho sem qualquer
conflito profundo. Sabia que seu lugar natural, seu “estar na água”, era estar com seu povo na
América Latina. Não havia mais para ele qualquer contradição entre a vida contemplativa e a
vida no mundo, fora do monastério. Merton deixa, assim, um importante legado na história de
vida do noviço: seu “retorno ao mundo”, seja como poeta, contemplativo ou revolucionário.
Cardenal fala sobre a mensagem do mestre: Merton “(...) me ensinou a ser como ele, para
quem a vida pessoal não estava separada de nenhum interesse humano. (...) a minha era a
única vida espiritual que eu poderia ter e não outra. E Deus me queria tal como eu era e não
outro”
122
. E conclui: “Eu já estava na conspiração”
123
.
120
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 125.
121
E. CARDENAL; T. MERTON, Correspondência (1959-1968), p. 19.
122
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 144.
123
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 143.
45
2.4 Um Hino ao Amor
“Somos apenas espelhos de Deus, criados para
devolver a Deus. A água pode estar ainda turva, mas
mesmo assim pode refletir o céu”
(Ernesto Cardenal)
O ex-noviço Ernesto Cardenal deixa a Trapa no ano de 1959 e inicia, assim, os
estudos que mais tarde o levariam ao sacerdócio. Já estava totalmente transformado pela
profunda e peculiar relação com Thomas Merton. Com ele, o poeta pôde experimentar uma
nova concepção do cosmos, da vida social e de sua própria relação com o Amado e as demais
criaturas do universo. De forma magistral, Cardenal lança todos esses novos preceitos bebidos
de sua relação com o mestre, em “Gethsemnani, ky”, livro que representa peculiarmente o
contraditório de suas experiências cristãs, composto logo depois de sua saída do monastério.
Em estudo sobre a poesia de Ernesto, o pesquisador Eduardo Bertarelli comenta:
É essa permanente insistência no contraditório da fé que caracteriza este
livro de poemas. Na realidade, Gethsemnani, ky foi escrito para insistir uma
vez mais nessa “loucura da cruz”, no absurdo de uma fé que contradiz as
aspirações instintivas do homem, mas também a fé que fez com que o poeta
não contradiga mais seus desejos, mas que os cumpra plenamente. É um
caminho difícil e impossível de empreender sem a fé, a qual também tem
períodos de dúvida e obscuridade.
124
Cardenal deixa a Trapa não mais como um monge eremita para quem o principal
meio de estar em comunhão com o Amado é o isolamento e o silêncio, mas como um
contemplativo revolucionário, que pode enxergar Deus em cada partícula de matéria do
universo. É este, portanto, o autor de “Vida no amor”, obra na qual tamm descreve a
experiência em Gethsemani e sua nova compreensão da Realidade. Sobre a atividade literária
do poeta no período em que esteve no monastério, Eduardo Bertarelli escreve:
(...) Sua atividade literária, embora restringida, não acabou em seus anos de
noviciado e esteve centrada de maneira fundamental nas meditações de
ordem teológico-espiritual, alimentadas, como é de se supor, por sua vida
no monastério centrada basicamente na oração e no estudo; dali resulta que
seu livro mais importante desta época seja, não um livro de poesia, mas um
de prosa espiritualcujo título fala por si mesmo, Vida no amor, publicado
anos mais tarde com um prólogo de Thomas Merton.
125
124
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 93.
125
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 82.
46
Esta obra de peculiar beleza, juntamente com “Gethsemnany, ky”, expressa talvez o
espelho que, refletindo a luz, lança seus feixes a todos os demais escritos de Cardenal.
Podemos encontrar vestígios de “Vida no amor” até mesmo em seus livros anteriores quando,
antes mesmo de sua experiência religiosa, o poeta canta a beleza de suas namoradas em
“Epigramas”. Convidado a escrever o prólogo de “Vida no amor”, Thomas Merton comenta
que “a finalidade deste livro é de simplesmente abrirmos os olhos para o que deveria ser
óbvio, e que, no entanto, é incrível: todos os seres se amam. A vida é somente amor.”
126
Embora a descoberta do “ser místico” em Cardenal seja revelada apenas em 1956, quando ele
é invadido brutalmente pela presença divina, a essência de sua peculiar relação com o Amado
já se refletira antes em sua alma de jovem poeta apaixonado. Tanto, que os versos que em sua
juventude são dedicados a sua relação com as mulheres, mais tarde, em “Telescópio na noite
escura”, representarão a intimidade de um outro, profundo e íntimo Amor. O amor humano,
aliás, é concebido como uma das formas de expressão do amor divino e, por isso mesmo, a
idéia construída em “Vida no amor” deve ser lida em cada uma das demais obras do poeta.
O amor sexual, assim como tudo aquilo que nos rodeia é, na verdade, apenas parte
do “amor de Deus feito visível”
127
. Cada aspecto da vida, toda a trivialidade é importante:
“(...) de todo pequeno detalhe sai luz”
128
. Esta parece ser a tese central da qual emanam todos
os preceitos que se construiriam no pensamento de Cardenal, refiram-se eles à temática da
espiritualidade, da política ou da poesia:
A natureza é o amor sensível, materializado, de Deus. Sua providência está
visível em tudo o que vemos. Os homens caminham nas ruas, apressados e
cheios de preocupações, sem deter-se um momento para pensar Nele e para
pensar que Nele se movem e que Ele os rodeia por todas as partes e que
todos os cabelos de sua cabeça “estão contados”, todas as células estão
contadas. E por que preocupar-nos?
129
Se tudo é Deus, se Ele nos cerca de todos os lados, viver em comunhão com o
Amado é estar como um peixe dentro da água. Como esse pequeno animal que “não necessita
de nada para receber o mar, não temos nada, se não viver a Deus que nos envolve por todas as
partes e dentro do qual nos movemos”
130
. É este o tema desses lindos versos que compõem
“Gethsemnani, ky”:
126
T. MERTON in E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 10.
127
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 171.
128
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 209.
129
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 39.
130
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 204.
47
Yo apague la luz para poder ver la nieve.
Y vi la nieve tras el vidrio y la luna nueva.
Pero vi que la nieve y la luna eran también un vidrio
y detrás de ese vidrio Tú me estabas viendo.
131
Se todas as coisas, portanto, são tocadas pelo Amor, os problemas da humanidade
não ocorrem por haver ausência de amor, mas porque os homens não aceitam nem
compreendem o fato de que têm que amar: “Os conflitos do mundo não se devem à ausência
de amor, mas ao amor que não se reconhece a si mesmo. (...) O amor é a lei básica das
criaturas”
132
. Quando, porém, a consciência do homem é adulterada e rejeita esta lei, surge a
crueldade, a cobiça, o ódio, o temor. O ato de amar, no entanto, só alcança seu pleno
amadurecimento a partir da contradição e do conflito. O amor humano, assim, experimenta o
sabor da imperfeição. Para Thomas Merton, é Cardenal quem nos lembra que, embora
imperfeito, este ainda é Amor:
Ai, é verdade que nosso pobre amor tem gosto de pecado. Mas Ernesto
Cardenal simplesmente diz que é amor, que ainda não é suficientemente
livre, nem ainda puramente amor. E poderíamos acrescentar que é no
conflito e na contradição do amor que ainda não é verdadeiro, onde
poderemos encontrar o caminho para o amor que é verdadeiro. É aceitando
em nossa plena consciência um amor imperfeito que o amor chegará à sua
perfeição.
133
O poeta parte da perspectiva de que “o centro de nosso ser, não somos nós, mas o
Outro, (...) Cada um de nós ontologicamente é dois”
134
. Sendo assim, apenas no exercício da
concentração em si mesmo poderemos lançar-nos aos braços do Amado. A felicidade está
dentro de nós, e não no cinema, televisão ou qualquer divertimento pelo qual tanto anseia o
homem moderno. Ela é apenas descoberta de nossa própria identidade, que é o Amado.
135
Segundo Cardenal, “a única coisa que nos separa de Deus, é o ego”
136
. E continua: “Deus é
amor, mas nosso amor-próprio é um auto-amor e, portanto, é um anti-amor, porque o amor é a
entrega da pessoa à outra e o amor próprio é a auto-entrega (...). O amor-próprio é o amor
pelo avesso. É o amor voltado sobre si mesmo, é o ódio”
137
.
131
E. CARDENAL, Poesía Completa, Vol. 1, p. 61.
132
T. MERTON in E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 10.
133
T. MERTON in E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 13.
134
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 33.
135
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 30.
136
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 43.
137
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 45.
48
Para o pesquisador Eduardo Bertarelli, no entanto, neste período de sua produção
literária, Cardenal está ainda um pouco preso àquela que ele compreende como uma
“concepção espiritualista da realidade”
138
, um tanto idealizada. Na verdade, parece natural
que assim o seja, já que o poeta acabara de experimentar dois anos de plena reclusão na
Trapa, nos quais sua relação com o Amado era vivenciada no silêncio e na oração. Para
Bertarelli, portanto, em todos os conceitos declarados em “Vida no amor” e “Gethsemnani,
ky”,
(...) se esconde uma ambigüidade e confusão que Ernesto Cardenal ainda
não havia resolvido a essas alturas de sua evolução poética e, sobretudo,
espiritual; é verdade que para o crente Deus é a fonte de tudo, o criador do
mundo que nos rodeia e nele estamos imersos; mas a exacerbação desta
crença pode conduzir ao menosprezo da realidade ou ao percebê-la apenas
como um acidente, e isto, por sua vez, conduz facilmente a um quietismo
nocivo em todo sentido. Cardenal não seguirá este caminho, mas neste
período sua vida ainda não está livre desse tipo de visão espiritualista da
realidade (...).
139
É de fato possível que Cardenal, ao escrever essas duas obras poéticas, não esteja
totalmente livre de uma concepção espiritualista da realidade. Ela se mostra, no entanto,
fundamental no processo de construção da maturidade de sua relação com o Amado e em suas
ações como revolucionário e poeta. A percepção de Deus como centro ontológico do
universo, fonte de todas as coisas, é uma peça chave quando tentamos desvendar o significado
de cada verso de “Cântico Cósmico”, poema composto anos mais tarde de sua experiência na
Trapa. Nesta obra, assim como em “Telescópio na noite escura”, a concepção espiritualista
parece formar as bases sobre as quais se sustentará o olhar de Cardenal sobre a materialidade
do universo. Conceber cada detalhe do mundo como reflexo da face de Deus é perceber Sua
beleza em todas as coisas. A beleza pela qual o poeta nos conduz tantas e tantas vezes com
riquíssimas imagens em todos os seus poemas. A intuição de que tudo é Amor, ao contrário
do que acentua Bertarelli, parece revelar de forma ainda mais significativa não a apatia, mas
justamente o ativismo. É o Amor que nos impele à luta pelo ideal de uma sociedade mais
justa, que nos conduz ao exercício do amor ao próximo. Além disso, não podemos esquecer
que quando Cardenal escreve “Vida no amor” e “Gethsemnani, ky”, já tinha bebido em
Merton todo seu pensamento sobre a problemática da realidade social e o papel do monge no
mundo. Seria equivocado pensar que estas obras são permeadas, portanto, exclusivamente por
138
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 94.
139
E. U. BERTARELLI, La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, 94 e 95.
49
uma visão espiritualista da realidade. Talvez Cardenal tenha dado ênfase a esta perspectiva
em virtude do período de vida no qual se encontrava, formando os pilares sobre os quais se
edificariam suas demais obras poéticas e seu ativismo político. Parece não pretender, porém,
conceber o mundo como uma realidade pré-concebida e, portanto, como um acidente.
No é quien es el que está en la nieve.
sólo se ve en la nieve su hábito blanco,
Y ao principio yo no había visto a nadie:
sólo la pura blancura de nieve con sol.
El novicio en la nieve apenas se ve.
Y siento que hay Algo más en esta nieve
que no es ni novicio ni nieve y no se ve.
140
140
E. CARDENAL, Poesía Completa, Vol. 1, p. 62.
50
CAPÍTULO III: O AMOR TRANSCENDIDO AO PRÓXIMO
3.1 Introdução
Em 1965, após sua ordenação como sacerdote, Cardenal segue para o Grande Lago
da Nicarágua, onde funda uma comunidade monástica totalmente diferente dos moldes
tradicionais. Nela, durante as missas não havia sermão, mas um diálogo com os camponeses.
Tão ricas as discussões destes momentos, que o poeta decidiu gravá-las, publicando-as, anos
depois em um livro chamado “Evangelho em Solentiname”. Já nesta época começa a se
aproximar da Frente Sandinista de Libertação Nacional, até experimentar aquela que chama
de sua “segunda conversão”, ao socialismo, e participar ativamente no processo
revolucionário que levaria à Nicarágua a colocar fim à ditadura Somoza...
51
3.2 Um Plano de Deus
“Creio, por certo, que este é um aspecto importante de
sua vocação, e em vez de converter-te pura e
simplesmente em um sacerdote convencional, deveria
pensar em termos deste estranho tipo de missão com a
qual proporcionará à Igreja conhecimento desses
povos e espiritualidades que ela até agora nunca
entendeu.”
(Thomas Merton)
Desde sua infância Cardenal pressentia a presença de Deus que, tinha certeza,
interferia diretamente em sua vida. Relembra em várias passagens de suas memórias uma
relação de afinidade e até mesmo de predileção com o Amado. De fato, muitos são os
episódios da história do poeta que confirmam esta afirmativa. Todas as pequenas grandes
“coincidências” que o levaram à vida contemplativa não podem ser ignoradas. A presença
marcante da Virgem em sua infância, a angústia de viver entre o amor humano e o divino, as
sucessivas paixões que acabam pelos mais peculiares e esdrúxulos motivos, o momento
marcante de sua experiência religiosa, o encontro com Thomas Merton. Momentos como
esses parecem se entrelaçar tecendo a rede que sustentaria um projeto bem maior
meticulosamente planejado por Deus: a comunidade de Nossa Senhora de Solentiname.
Em uma leitura atenta da autobiografia de Cardenal, na busca por desvendar cada
palavra escrita sob o olhar do próprio poeta, é possível enxergar com bastante limpidez este
plano divino que vinha cuidadosamente sendo lapidado. Tão bem articulado, que levou um
jovem nicaragüense para longe de seu país, para um encontro que mudaria definitivamente
sua maneira de ver o mundo e a vida monástica. Como conseqüência, noviço e mestre
espiritual “conspirariam” para edificar uma comunidade contemplativa simples, totalmente
fora dos padrões tradicionais: o plano de Deus.
Para Merton, no entanto, este era um sonho antigo. Há tempos vinha idealizando
este projeto, mas jamais havia conseguido concretizá-lo porque não tinha permissão de seus
superiores para fazê-lo.
141
É como se Cardenal fosse a peça que faltava. Como se
Solentiname fosse uma coisa que vinha sendo planejada por Deus desde que Ele o levou à
Trapa.
142
Tanto que, já nas primeiras reuniões com o noviço, o mestre o inundava de
141
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 112.
142
Merton faz esse comentário com Cardenal alguns anos depois de sua saída do monastério, mostrando que
também pressentia que havia um “plano de Deus” conspirando para que Solentiname fosse construída. E.
CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 81.
52
perguntas curiosas sobre sua cultura e a espiritualidade de seu povo. Dizia-lhe “que o
interessante da fundação na América Latina seria dar a conhecer esta espiritualidade tão
distinta da única divulgada até agora, que era a dos Jesuítas”
143
. Além disto, Merton
questionava cada vez mais os moldes sob os quais se estabeleciam as comunidades
monásticas tradicionais e era, inclusive, um grande crítico de sua própria ordem, os trapistas,
considerando-a demasiado formal e literalista. Afirmava que ela se afastava cada vez mais de
sua razão de ser, a simples contemplação a Deus e sua criação, para transformar-se numa
indústria. Segundo Cardenal, “a Merton, lhe horrorizava essa fundação de monges capitalistas
e imperialistas, que para o povo seria igual às companhias gringas exploradoras”
144
.
Sonhava, portanto, encontrar “o ideal de uma vida contemplativa simples, não institucional,
nas montanhas, com verdadeira pobreza e solidão”
145
. Sem abandonar sua vida de reclusão e
reflexão, acreditava que o monge do século XX não deveria estar alheio às questões sociais,
fazendo parte de sua vocação compartilhar as angústias dos homens de seu tempo. Merton
jamais pôde perceber qualquer contradição entre estas duas experiências. Ambas representam
opções de viver em comunhão com o amor de Deus e, portanto, são como uma só,
complementar entre si. Reflete cada qual um feixe desse imenso e indescritível Amor.
Edificada sob este pilar, Solentiname parece articular de forma esplêndida estas duas
faces da contemplação a Deus. Construída em uma ilha de difícil acesso no meio do Lago da
Nicarágua, talvez poucos lugares do mundo seriam tão adequados para a concretização do
monastério idealizado por Merton. Isolamento e solidão combinados com um meio ambiente
de uma beleza estarrecedora. Soma-se a isto a existência, nos arredores, de uma pequena
aldeia de camponeses, cujas experiências de vida foram singularmente importantes para tornar
Solentiname o símbolo da comunhão de amor que ela viria a ser. Sobre a construção desta
comunidade, Coronel Urtechio
146
opina: “Duvido que haja nesse mundo lugar mais adequado
para esse objetivo, nem ilhas que mais recordem as ilhas estranhas de São João da Cruz (...)”
147
.
143
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 136.
144
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 140.
145
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 260.
146
Coronel Urtechio era poeta e primo distante de Ernesto Cardenal. Foi um dos grandes incentivadores na
carreira de poeta.
147
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 94.
53
Vista da chegada da ilha de Macarrón, no arquipélago de Solentiname, onde foi fundada a comunidade
contemplativa de Cardenal. Julho, 2008.
A relação de intimidade de Cardenal com Deus mais uma vez revela sua
peculiaridade quando ele escreve seus livros de memórias. Descrevendo-a com tamanha
liberdade, em uma leitura descuidada o poeta pode parecer adotar um tom um tanto quanto
presunçoso. Comenta, por exemplo: “Desde épocas geológicas remotas Deus fez este
Solentiname pensando em mim”
148
. Estas palavras podem ser compreendidas, ao contato
superficial, como estando imbuídas de certa arrogância, afinal, porque Deus criaria qualquer
coisa do universo pensando em um único ser humano? Com o olhar cuidadoso daquele que se
entrega à tentativa de aproximação da experiência vivida por Cardenal, porém, é possível
perceber que afirmativas como estas, ao contrário do que parece, são frutos de uma relação
madura e totalmente consciente de si. O reconhecimento de que toda sua vida foi
cuidadosamente guiada pala levá-lo a um fim planejado por Deus, longe de qualquer
sentimento individualista, trás consigo a responsabilidade de ser escolhido para viver em
plenitude o amor divino. Isto implica, porém, desprender-se de qualquer apego para, então, se
ser capaz de irradiar todas as faces deste amor. Mais uma vez Deus aparece esculpindo
148
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 172.
54
cuidadosamente sua obra de arte. A escolha de Solentiname parece ser tão perfeitamente
arquitetada que levou Cardenal, sem que ele antes soubesse, a um lugar onde havia uma forte
tradição de rebeldia. Já existia a faísca aonde futuramente se alastraria o fogo.
Idealizada sob um único pilar, o de que não deveria haver a imposição de regras, a
comunidade de Nossa Senhora de Solentiname vai, aos poucos, tornando-se aquela que um
dia pertenceu apenas aos sonhos de Thomas Merton, mas que este jamais conseguiu ver
concretizada. Sem autorização de seus superiores para ir até a fundação, o mestre falece sem
ter podido em vida ver aquele seu lugarzinho no mundo no qual se vivia “como um peixe na
água”. Ao saber da notícia, Cardenal desabafa: “Enfim, vieste a Solentiname”
149
.
Vista da casinha que Cardenal construiu em Solentiname, depois da revolução.
Atualmente, para ele, este é um lugar de retiro, onde passa alguns meses todos os anos,
escrevendo e contemplando a natureza local.
Objetivando manter a singeleza e a naturalidade, portanto, o hábito usado neste
pequeno monastério não carregava consigo o peso e a sobriedade daqueles dos monges
tradicionais. Ao contrário, tinha a leveza do traje do camponês nicaragüense. Representava
não só a simplicidade, como também um resgate das vestes utilizadas por outras ordens
religiosas no passado, como a dos Beneditinos, lembrando sua origem de humildade. Pela
descrição de Cardenal o hábito,
É uma camisa de manta branca de algodão, com manga intermediária entre
larga e curta, a altura do colo, sem bolsos (...), fechada encima apenas com
um botão, e de uma simplicidade como a túnica grega. (...) Completavam
149
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 239.
55
nosso hábito as calças-jeans porque são práticas e duradouras, mas também
por estética.
150
Solentiname, desde que pertencia apenas aos pensamentos íntimos de Merton, foi
concebida como uma comunidade laica, na qual deveriam ser respeitadas todas as diversas
experiências de Deus. Encontrou pelo caminho, no entanto, uma população camponesa que
vai cada vez mais se radicalizando e adotando princípios marxistas. Muitos jovens daquele
povoado vão aos poucos se tornando ateus. Laureano, por exemplo, um dos camponeses que
assistiam ás missas na comunidade, disse a Cardenal: “Eu não acredito em Deus e em
nenhuma dessas merdas”
151
. Mas depois agrega: “Creio em Deus... Mas para mim Deus é o
homem”
152
. O sacerdote responde que isto não seria jamais um obstáculo para que ele
continuasse vivendo ali e que, se quisesse, não era necessário que comparecesse às missas. Ao
contrário do que se esperava, no entanto, Laureano responde: “Não, eu gosto da missa porque
une as pessoas e serve muito para a revolução
153
. Solentiname, portanto, sempre foi fiel às
suas raízes, respeitando todas as formas pelas quais os seres humanos tentam captar o
inefável. Afinal, não é também o ateísmo uma experiência de Deus?
A fundação ia, aos poucos se adaptando às novas e inusitadas situações que a levaria
à abolição de muitos, dos vários rituais religiosos e monásticos tradicionais. William
Agudelo, por exemplo, um colega da Trapa que foi com Cardenal ajudá-lo a fundar a
comunidade, apaixonou-se por uma moça na Colômbia. Não queria deixar a vida que levava
naquela ilha. Pediu permissão, portanto, para que pudesse levar uma vida “contemplativa-
matrimonial”, indo morar com sua esposa, em Solentiname. A concepção de vida monástica
para Cardenal é tão revolucionária, que ele afirma: “Creio que a idéia de que William
Agudelo viva ali com sua esposa é simplesmente tremenda. Creio que todo o futuro do
monasticismo depende de algumas aplicações de perspectivas como esta.”
154
Nas primeiras missas celebradas pelo sacerdote, quando a idéia da discussão do
evangelho pelos camponeses ainda não tinha sido colocada em prática, os sermões não se
atinham apenas à vida de Cristo. Sensível à problemática carência de informações daquela
população, Cardenal falava sobre os mais variados temas de utilidade prática, tal como o uso
da latrina. Para ele, “a palavra de Deus também tinha que descer a esses detalhes”
155
. Além
disso, ao invés da tradicional hóstia branca que, para o poeta “não parece pão, mas papel” era
150
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 104 e 105.
151
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 232.
152
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 232.
153
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 232.
154
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 118.
155
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 108.
56
usado na comunhão umas bolachas de farinha sem lavagem. Aliás, isto diz respeito a outro
peculiar elemento que dava corpo à revolucionária estrutura de Solentiname: a abolição da
Primeira Comunhão. Sobre este assunto, Cardenal comenta:
Falando das hóstias, as consagradas que sobrava eu as dava às crianças,
ainda que não tivessem feito Primeira Comunhão. Na realidade, com isto
abolimos a Primeira Comunhão. As crianças pequenas se acercavam igual
aos maiores para colher o pão com suas mãos. Antes, mesmo muito pobres,
as famílias tratavam de imitar a outras classes levando as crianças com
vestidinhos especiais de Primeira Comunhão. Nós ali acabamos com esta
palhaçada que se faz com a Eucaristia.
156
Como a idéia era fundar uma comunidade contemplativa, embora o excesso de
formalismo dos monastérios tenha sido abolido, Cardenal quis manter o silêncio. Proibiu,
assim, os rádios e jornais para que a paz fosse preservada. Aos poucos, porém, este princípio
teve que ser flexibilizado. O próprio poeta reconhece que “depois de tudo, a única regra que
eu segui em Solentiname foi aquela que Merton me havia dito: ‘A primeira regra é não ter
regras’”
157
. Qualquer tipo de prescrição daria um toque de artificialidade àquela comunidade
que foi construída justamente sob o pilar da simplicidade e naturalidade. Além disto, com o
clima revolucionário que estava se alastrando por toda a Nicarágua, era imprescindível saber
os acontecimentos não só daquele país, mas como as notícias do vizinho, Cuba, que já havia
promovido sua revolução.
158
Sendo Solentiname planejada por Deus, nada seria mais natural do que sua história
ser marcada por uma sucessão de milagres, que vinham acontecendo ao longo de toda a vida
de Cardenal. Para ele, portanto, a aparição da pintura camponesa e da poesia são duas
preciosas manifestações da interferência de Deus naquela comunidade.
159
Tão importantes
que são o berço de uma idéia que iria ser propagada por toda a Nicarágua quando o poeta
fosse ministro da cultura: “Por esse êxito com o ateliê de poesia de Solentiname que me
ocorreu depois, quando triunfou a Revolução (...), fazer ateliês de poesia em todo o país”
160
.
Se pensarmos a Revolução Sandinista como tendo parte de suas raízes na edificação daquela
comunidade contemplativa, e esta como sendo um plano divino, Deus há tempos vinha
voltando seu olhar para a Nicarágua. Seu plano não se limitaria, no entanto, apenas àquela
ilha, mas, talvez ela representasse a semente da qual deveria emergir um novo país.
156
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 119.
157
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 214.
158
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 138.
159
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 455.
160
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 457.
57
Lojinha de artesanato em Solentiname. Os camponeses que ainda
moram na ilha atualmente vivem da agricultura e da venda desses
objetos.
Em julho de 1977, porém, sob as ordens de Somoza, vários soldados invadem e
destroem Solentiname. Uma outra etapa surgia na vida de grande parte dos membros daquela
comunidade que, agora, aderiam à luta revolucionária. Aquela fundação já havia cumprido o
fim a que se destinava, já havia dado um exemplo de comunhão e amor ao próximo. Era hora
de compartilhar essa experiência fora dali, de compartilhar o plano de Deus...
58
3.3 A Revolução pelo Evangelho
“Creio em ti companheiro,
Cristo humano, Cristo operário
sobre a morte do vencedor
com o sacrifício imenso
engendraste o homem novo
para a libertação,
estás ressuscitando
em cada braço que se levanta
para defender o povo
da dominação exploradora
porque estás vivo no rancho,
na fábrica, na escola,
creio na tua luta sem trégua
creio na tua ressurreição”.
(Frei Betto)
Ano de 37 a.C: um dos judeus aliados de Roma, Herodes, é nomeado Rei da Judéia,
com o objetivo de eliminar a ameaça rebelde liderada por Ezequias
161
. Começa aí um reinado
marcado pelo crescimento ainda maior da miséria, já antes tão presente e agravada pelo
domínio do Império Romano na região. Nasce, neste ambiente de instabilidade e injustiça,
Jesus, um ser humano revolucionário que, através da mensagem de sua “Boa Nova” foi capaz
de transformar o caminho de boa parte da humanidade. Deixa, portanto, cravado no mundo
um legado de amor que tem início no dia em que foi concebido, mais de dois mil anos atrás, e
que influencia e modifica a vida humana até a história recente.
Nicarágua, 1934 d.C: Anastácio Somoza García, consolidando em sua pátria o que
já teria sido um passado de pobreza e opressão, dá início a uma nova dinastia “que manteria o
país submetido à exploração do capital norte-americano e de seus aliados nicaragüenses, por
quase meio século”.
162
Ao mesmo tempo, vários movimentos inspirados nas práticas e ideais
sandinistas vão tomando corpo, formando o pano de fundo que futuramente iria desencadear
a Revolução de 1969.
Situações que se repetem exaustivamente na história da humanidade, mas que
carregam consigo um detalhe peculiar que as une de forma extraordinária: o anúncio do
Reino de Deus por Jesus no Oriente Médio e, quase dois mil anos depois, a luta pelo que o
povo nicaragüense acreditava ser a sua concretização, na Nicarágua: “realiza-se o reino numa
161
Ezequias foi um líder político saído, das classes populares da Judéia, e que organizava os camponeses e
lutava contra o domínio romano na região. T. DIAS, Nos tempos de Jesus: contexto histórico, 2009. [página da
internet]
162
R. AQUINO; N. LEMOS; O. LOPES, História das sociedades americanas, p. 450.
59
sociedade fraterna e justa e, por sua vez, essa realização desponta em promessa de esperança
de plena comunhão de todos os homens com Deus. O político enraíza-se no eterno”.
163
Em
entrevista recente, Cardenal afirma:
Existem teólogos atuais que dizem que a expressão ‘Reino de Deus’, Cristo
usava equivalente ao que em nosso tempo é a palavra ‘Revolução’. Era
igualmente subversiva. Significava um regime social de justiça, igualdade e
amor. E pregar isto o levou à morte. Também é semelhante ao que agora
muitos jovens proclamam em todas as partes: ‘Outro mundo é possível’.
164
O Reino de Deus anunciado por Jesus, portanto, não pode ser compreendido apenas
pela perspectiva da vida após a morte. Mais do que isto, deve ser construído na vida terrena a
partir de uma sociedade de amor. Se o projeto de Deus deve ser concretizado neste mundo,
não há mais que se assumir uma postura passiva diante da sociedade e de tudo que nos cerca.
Afinal, é justamente “por pensar no céu que os pobres muitas vezes não lutam”
165
. Um
contexto histórico de despotismo e opressão, um povo cristão, uma nova leitura da vida de
Cristo: estão presentes na Nicarágua importantes elementos que, unidos, compõem um barril
de pólvora prestes a eclodir naquela que chamamos aqui de a “Revolução pelo Evangelho”.
Fazer uma análise de “Evangelho em Solentiname”, portanto, seria impossível sem
que tenhamos uma idéia clara do quão a situação política e religiosa da Nicarágua foi capaz
de provocar os comentários realizados neste livro extraordinariamente peculiar. Não
houvesse a ditadura, provavelmente não haveria a revolta, por pior que estivesse a qualidade
de vida daquele povo. Não fossem os nicaragüenses, cristãos, a nova interpretação da vida de
Jesus por certo seria dificilmente assimilada em suas comunidades de sentido. Mas, ao
contrário, articulando ativismo e cristianismo, inspirados pela “Boa Nova” de Jesus, eles
pegaram em armas e se opuseram à ditadura dos Somoza, seu próprio Herodes. Como afirma
Cardenal comentando sobre o Evangelho de Mateus 2, 1-12, “(...) nos tempos do Rei Herodes
nos estão dizendo que Jesus nasceu debaixo de uma tirania. Houve três Herodes, que é como
dizer na Nicarágua, três Somozas (...)”
166
. Para o poeta e os camponeses de Solentiname,
imersos nos princípios da Teologia da Libertação, “a libertação trazida por ele (Jesus) é
universal e integral, transpõe fronteiras nacionais, ataca o fundamento da justiça e da
exploração e elimina as confusões político-religiosas, sem se limitar por isto ao plano
163
G. GUTIERREZ, Teologia da Libertação, p. 198.
164
R. SEMPRÚM, Ernesto Cardenal habla del proceso venezolano desde Nicaragua, 2007. [página da internet]
165
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 81.
166
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 40.
60
puramente espiritual”
167
. O importante é compreender a especificidade da composição desta
obra, cujos autores elaboram com brilhantismo uma teoria de perfeita sintonia entre a
transcendência e a imanência de Cristo. Como conseqüência, expressam com primor o
contexto vivenciado pela população nicaragüense, cristã e oprimida, no período pré-
revolucionário. Segundo o comentário de Elbis, um dos camponeses que assistiam às missas
em Solentiname, “a importância do nascimento de Cristo é que foi o nascimento da
revolução”
168
. Ao discutirem, assim, o evangelho de Mateus 2, 12-13, que narra a ordem
dada por Herodes de matar todos os bebês homens nascidos naquela região, Laureano fala
sobre a América Latina: assim como aconteceu com Jesus, “a consciência revolucionária
nesses países é uma criança. Todavia está bebezinha. E a perseguem para que não cresça”
169
.
“Evangelho em Solentiname”, no entanto, não é esculpido apenas sob o estigma da
opressão e o pilar do cristianismo. Ele é fruto, também, da consciência revolucionária de um
sacerdote cujas missas, celebradas em moldes nada tradicionais, incentivam o diálogo e o
pensamento crítico. Desde sua idealização com Thomas Merton, quando Cardenal ainda
estava na Trapa, Solentiname é edificada sob um novo prisma, totalmente diferente das
concepções monásticas que vigoravam até então. Tornou-se, portanto, aos poucos, uma
comunidade “contemplativa no sentido de conscientizadora, uma fusão idiossincrásica de
ideologia e dogma”
170
.
Quem inicialmente orientou Cardenal a não fazer sermões nas missas foi, de acordo
com ele, Padre De La Jara, segundo o qual deveria haver nesta celebração um diálogo entre
os camponeses
171
. Tão significativos se tornaram esses comentários que, em certo momento,
passaram a ser gravados, dando origem a “Evangelho em Solentiname”. Para Cardenal, mais
um dos grandes milagres realizados naquela comunidade
172
. Ainda segundo ele, sobre o
livro:
(...) a melhor parte é o que os camponeses nos disseram e não como eles o
disseram. Eles foram os verdadeiros autores desse livro. Melhor dizendo, o
foi o Espírito, que inspirou esses comentários. Os camponeses sabiam que
Ele era quem os fazia falar (e as vezes eles mesmos se surpreendiam). Foi o
Espírito Santo, o espírito de Deus infundido na comunidade (...)
173
.
167
G. GUTIERREZ, Teologia da Libertação, p. 194.
168
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 48.
169
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 46.
170
W. DERUSHA, Ernesto Cardenal: Poesía y teología de la liberación, 1993. [página da internet]
171
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 198.
172
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 435.
173
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 437.
61
Vista da entrada da Igreja de Solentiname. Ela é a única construção remanescente da comunidade fundada
por Cardenal. Todo o resto foi destruído quando da invasão ordenada por Somoza. Julho de 2008.
Possivelmente, porém, esses comentários jamais teriam existido se não tivessem
surgido em uma reunião como as das missas de Solentiname, tal como elas eram em todos os
seus aspectos não-convencionais. Cardenal, por exemplo, descreve assim as celebrações que
aconteciam naquela comunidade:
A missa começava com cantos e guitarras, e depois que eu dava a
absolvição à todos, alguém lia o Evangelho. E então era que se comentava.
Eu estava sem ornamentos, com minha boina na cabeça, sentado com
outros ao pé do altar. Durante esta parte da missa fumávamos. (...) Eu o
fazia para que houvesse um ambiente verdadeiramente de conversação,
relaxado e espontâneo, sem nenhuma solenidade de ‘missa’ nessa parte.
(...) Depois da missa se conversava no rancho de reunião e se almoçava,
talvez com alguns traguinhos de rum, e novamente eram os cantos e
guitarras. Verdadeiramente uma comunhão!
174
Nessas reuniões não havia qualquer preocupação com o formalismo, tão
característico das celebrações eucarísticas tradicionais. O foco do encontro era a troca de
experiências, o diálogo que surgia em torno da narrativa da história de vida de um ser
humano que viveu dando um exemplo de amor ao próximo e caridade. Na verdade, era
justamente este Jesus tão humano que inspirava as celebrações das missas em Solentiname. O
Deus que “sua na rua, que faz fila para que se lhe pague o jornal, que foi visto vendendo
174
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 198 e 199.
62
loteria, e em postos de gasolina enchendo o tanque de um caminhão, e patrulhando estradas
com luvas e macacão”
175
.
Se experimentarmos, portanto, Jesus como um de nós, alguém que viveu, amou,
sofreu como nós, é natural que Sua transcendência seja compreendida de forma a estabelecer
uma relação harmônica, e não hierárquica, com Sua humanidade. Surge daí outra interessante
peculiaridade em Solentiname: a liberdade religiosa. Preenchendo-nos da vida de Cristo, sem
que com isto enfatizemos as questões dogmáticas tradicionais, não há também que se falar
em crença. Não, ao menos, no sentido de “exclusão” do “outro”, não crente. O verdadeiro
valor que se comungava naquelas missas comunitárias é o amor ao próximo. Afinal, este é o
único tema que a Bíblia trata, não de Deus ou de culto a Deus.
176
Segundo Cardenal,
Muito também se diz na Igreja que antes da mudança da sociedade
devemos buscar primeiro a mudança no coração do homem. Cristo disse
que primeiro é o Reino e sua justiça, ou o Reino da justiça, o que é o
mesmo. Não disse que primeiro busquemos a conversão religiosa e tudo o
mais se dará por conseqüência. Porque está provado que as conversões
religiosas não acabam com um sistema explorador; ao contrário, a religião
pode servir para explorar mais.
177
Uma comunidade cuja única regra é não haver regras. Cujas missas, dialogadas,
inspiravam o senso de comunhão e de amor ao próximo. Que traziam a tona uma nova
compreensão da figura de Cristo, percebido como humano e, principalmente, como
revolucionário. Um período de forte ditadura na Nicarágua. O povo, já cansado de tanta
opressão, aos poucos se inflama contra seu governo despótico. Solentiname torna-se uma
ameaça ao sistema político vigente. Somoza, por fim, envia tropas sob ordem de destruí-la
completamente. A guarda, como lembra Cardenal, “pôs fogo em tudo (embora os papeis mais
importantes e alguns livros eu havia tirado antes). Só não destruíram a Igreja, a qual eles
usaram de quartel e estiveram acampados nela 500 guardas”
178
. Seria o fim da comunidade
contemplativa de Solentiname, mas apenas o inicio do processo revolucionário nicaragüense.
A raiz já havia sido plantada. Não há como destruir a idéia.
Cardenal recebe a notícia da destruição de Solentiname na Costa Rica, onde estava
exercendo a função de embaixador plenipotenciário do novo governo que seria proclamado
na Nicarágua, após uma tentativa de insurreição que acabaria sendo frustrada. Descreve seu
175
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 256.
176
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 320.
177
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 110.
178
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 43.
63
sentimento como “uma punhalada das costas”
179
, acreditando que jamais voltaria àquela ilha.
Sempre, porém, esteve disposto a sacrificar seu “quase paraíso”
180
pela revolução. Ainda
fora de seu país, escreve uma “Carta ao povo da Nicarágua” em que diz:
O Evangelho nos ensina que a palavra de Deus não é só para se ouvir, mas
também para ser colocada em prática. E os camponeses de Solentiname que
profundizavam este Evangelho não poderiam deixar de sentirem-se
solidários com seus irmãos camponeses que em outras partes do país
estavam padecendo a perseguição e o terror: estavam encarcerando-os,
torturando-os, assassinando-os, violavam suas mulheres, queimavam seus
ranchos, lhes jogavam dos helicópteros. Também tinham que sentirem-se
solidários com todos aqueles que por compaixão ao próximo estavam
ofertando suas vidas. E esta solidariedade, para ser real, significa que se
tem comprometer sua segurança e vida. Em Solentiname sabíamos que não
íamos gozar sempre de paz e tranqüilidade se queríamos colocar em prática
a palavra de Deus. Sabíamos que a hora do sacrifício ia chegar, e esta hora
já chegou.
181
De fato a hora do sacrifício havia chegado. Milhares de pessoas por todo o país
aderiram à causa sandinista e lutaram pela revolução. Milhares delas ofereceram suas vidas
pelo sonho de uma Nicarágua mais justa. O mundo ideal que em outros lugares do planeta era
chamado de sociedade marxista e que na Nicarágua era singelamente percebido pela
população cristã como o Reino de Deus. Utopia ou não, o
fato é que a figura de Jesus, assim como há mais de dois mil
anos atrás, mais uma vez inspirou a concretização de uma
comunhão de amor entre os seres humanos: A Revolução
pelo Evangelho.
Monumento feito em Solentiname, em homenagem aos jovens
camponeses mártires da revolução.
179
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 32.
180
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 44.
181
E. CARDENAL, El evangelio en Solentiname, p. 15.
64
Homenagem realizada a Laureano Mairena, um jovem ateu que via nas missas
celebradas em Solentiname uma inspiração para seu ativismo político.
Talvez seja justamente a insistência das instituições religiosas em enfatizar a
divindade de Cristo um dos principais motivadores desta apatia que temos experimentado na
América Latina nos últimos anos. Uma população majoritariamente cristã, o que por si só trás
nela um grande potencial de transformar a solidariedade e o amor ao próximo anunciado por
Jesus, em revolução, mas que lê o Evangelho sem enxergar a humanidade de Jesus Cristo.
Experimentam reiteradamente em suas comunidades de sentido a transcendência de seu Deus
sem, contudo, compreender o exemplo de vida que Ele deu, fazendo da religião um
instrumento apenas de conquista de satisfação pessoal. Afastando-se, portanto, do projeto que
Jesus viveu e morreu para anunciar: O Reino de Deus.
Cardenal, porém, não perde as esperanças de que esta situação de apatia mude.
Reitera, portanto, a originalidade e a contemporaneidade de “Evangelho em Solentiname”:
Muitas vezes tenho dito que estes comentários do Evangelho são uns
comentários marxistas. É o Evangelho interpretado a luz da revolução.
Agora que o mundo não vive uma situação revolucionária como naqueles
anos, há coisas que aqui se diz que não estão na moda. Voltarão a estar
quando o mundo necessariamente volte outra vez a ser revolucionário.
(Pessoalmente opino igual Saramago, que ao marxismo se lhe dará uma
nova oportunidade).
182
A partir do ideal de amor ao próximo experimentado em Solentiname, Cardenal vai,
aos poucos, percebendo a afinidade entre esta experiência cristã vivida em Solentiname e o
marxismo. Acreditava mesmo antes de se declarar “convertido” a esta causa, que tanto os
maxistas quanto os ateus “eram crentes iguais a nós, no sentido que Cristo dava à palavra
crente, que é crer na Boa Notícia. E a Boa Notícia era a boa notícia do Reino de Deus. E o
182
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 439.
65
Reino de Deus nos tempos de Cristo tem o sentido que agora tem a palavra revolução”
183
. A
mensagem da bíblia, nesse sentido, “é completamente marxista”
184
.
183
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 444.
184
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 316.
66
3.4 Uma Segunda Conversão
“Este sistema que te encanta porque é comunista, a
mim encanta porque o percebo evangélico”.
(Ernesto Cardenal)
Era a Semana Santa de 1968. O povo nicaragüense se preparava para a tradicional
procissão da Via Crucis. Cardenal é convidado por uma rádio, a fazer um sermão. Já cada vez
mais preocupado com os rumos que seu país estava tomando, denuncia publicamente que
aquele que estava sendo lembrado nesta data “(...) não era o Cristo, que o verdadeiro Cristo
era o povo que estava sofrendo”
185
. E continua: “Talvez a esta mesma hora Cristo esteja
sendo torturado e assassinado numa prisão”
186
.
Como se vê, mesmo antes de sua viagem à Cuba, quando Cardenal afirma ter
experimentado aquela que chama de sua “segunda conversão” (esta ao marxismo), a
preocupação com as questões políticas e sociais é um aspecto marcante em sua vida. Ainda
moço, “ensaia” seu ativismo fundando, com um pequeno grupo de alunos do colégio onde
estudava um partido destinado a mudar a Nicarágua. Indignados com a política subserviente
de seu país em relação aos Estados Unidos (a Nicarágua, assim como a Costa Rica,
ingressaram na 2ª Guerra Mundial em “defesa” dos EUA contra o Japão), a principal idéia
política dos rapazes era ser antiyankis. Sobre a importância deste período, Cardenal comenta:
“Tudo isso foi como pré-anúncios do que mais tarde iria vir a ser a Revolução Sandinista,
quarenta anos mais tarde daquela primeira reunião na portaria da quadra de futebol, a mesma
onde antes, três, quatro anos antes, a virgem me fazia milagres”
187
.
A trajetória de Cardenal é marcada por uma seqüência de nuances que delineiam as
faces do amor que se revelariam de forma cada vez mais límpida com o passar dos anos.
Assim como é possível desvendar em cada traço de sua caminhada o “ser” poeta e o “ser”
místico, esta afirmativa não é menos verdadeira quando tentamos captar a essência de seu
ativismo político. Aliás, estes três aspectos mostram-se cada vez mais profundamente
interligados à medida que degustamos cada uma de suas obras.
A intuição de que um religioso não poderia estar alheio aos problemas sociais de seu
tempo já vem sendo construída desde os tempos de noviço, na Trapa. Thomas Merton é uma
das mais importantes influências na vida do poeta e, sem dúvida alguma, contribuiu de
185
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 203.
186
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 203.
187
E. CARDENAL, Vida perdida, p. 375 e 376.
67
maneira incisiva para que ele acabe por fim se convertendo ao marxismo. Horas antes de
morrer, em sua última conferência realizada em Bankok, por exemplo, palestrava afirmando
que a definição que Marx faz de comunismo é a mesma que a de comunidade monástica.
188
Este preceito, somado à experiência de Solentiname, estreitaria definitivamente os laços do
cristianismo e do marxismo em Ernesto Cardenal.
Durante grande parte do tempo que esteve em Solentiname, Cardenal não atua
ativamente no movimento sandinista, embora jamais tenha abandonado suas angústias em
relação à situação de seu país. Tanto, que é nesse período que está tomando corpo “Evangelho
em Solentiname”, um livro de forte teor revolucionário, em que sua participação como
sacerdote, mediador das discussões que se travavam nas missas, foi fundamental. Um dia,
porém, ao tomar conhecimento do trabalho realizado por Cardenal, Thomás Borge, um dos
líderes do movimento sandinista, o convida para um encontro. O poeta qualifica este
momento como “muito importante porque foi meu primeiro contato com os sandinistas”
189
.
Dava-se o início de uma estreita relação que acabaria conduzindo Cardenal àquela que seria
sua “segunda conversão”.
A Frente Sandinista de Libertação Nacional estava vivendo seus piores momentos,
sofrendo sucessivas derrotas. Ernesto percebia o quanto o partido precisava de sua figura, que
representaria para eles, segundo o próprio poeta, o que a de Camilo Torres
190
significara na
Colômbia
191
. Embora concordasse com as metas, neste período ainda não aprovava os
métodos de que dispunha a organização em prol do sonho revolucionário.
192
Em virtude de
sua estreita relação com Merton, tendia a uma posição pacifista. Ainda assim, porém, passou a
trabalhar ativamente na FLSN e, em uma dessas atividades, no ano de 1970 foi convidado a
visitar Cuba, país que já havia realizado sua revolução, depondo a ditadura de Batista.
Cardenal descreve Havana como um exemplo ideal de comunidade: as pessoas bem
vestidas, o caminhar despreocupado nas ruas, daqueles que não estão ocupados com o
comércio, mas apenas passeando. Não havia aquele cordão de miséria ao redor da cidade, tão
característico da Nicarágua. O poeta, admirado, convencia-se de que aquela era uma cidade
alegre: “Aqui eu sinto a imensa alegria de uma cidade sem pobres, e a alegria de serem todos
188
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 236.
189
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 204.
190
Camilo Torres foi um dos sacerdotes pioneiros do ativismo político na América Latina. Atuou com práticas
revolucionárias por toda a Colômbia, país em que nasceu, valendo-se, inclusive, da guerrilha. Morre em combate
em 1966.
191
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 223.
192
Anos mais tarde, Cardenal revê sua posição em relação à violência, afirmando que, em alguns casos, como o
da Nicarágua, ela poderia ser lícita. Sofreu muitas críticas, em especial de alguns amigos de Merton, para os
quais este jamais aprovaria estes métodos.
68
iguais”
193
. Cardenal parece, neste momento, tomar consciência plena de que o que sempre
buscara é um mundo diferente, de igualdade, e não o isolamento teoricamente peculiar da vida
monástica:
(...) Eu me retirei do mundo para viver em uma ilha, porque me repugnam
as cidades. Mas esta é a minha cidade. Agora vejo que eu não havia me
retirado do mundo, mas do mundo capitalista. Esta é uma cidade que um
monge, um contemplativo, ou qualquer um que no mundo capitalista se
tenha retirado do mundo, tem que gostar.
194
Esta experiência em Cuba faz o sacerdote experimentar, portanto, sua “segunda
conversão”. Analisando cuidadosamente a descrição deste processo, no entanto, parece-nos
que esta expressão, utilizada pelo próprio poeta, talvez não seja a mais adequada para
qualificar este momento. Cardenal apenas pôde consubstanciar em uma palavra (ou
ideologia), toda aquela formação que já vinha lentamente sendo edificada em sua vida. Na
verdade, não houve uma “segunda conversão”, mas apenas a tomada de consciência de mais
uma das faces de sua primeira e verdadeira conversão, aquela vivida depois de sua
experiência religiosa em Manágua. Tanto é assim que o poeta, após breve conflito, passa a
identificar a sociedade marxista como sendo o projeto do ideal da vida cristã: “(...) não foi a
leitura de Marx que me levou ao marxismo, mas a leitura do Evangelho”
195
.
Houve, porém, um período de dúvidas no qual Cardenal questionava a
compatibilidade entre o cristianismo e o marxismo. Apesar de, ao retornar de sua viagem a
Havana, declarar-se socialista, incomodava-lhe a crença de que somente aqueles que se
julgassem ateus estariam afins ao ideal marxista. Aos poucos, porém, vai intuindo que não
pode haver qualquer contradição entre este e o cristianismo. A teologia da libertação se faz
cada vez mais presente em toda a América Latina e, através dela, novas concepções sobre o
sacerdócio e o papel da Igreja na sociedade. Em uma conversa do poeta com um amigo, por
exemplo, este afirma que, para Che Guevara, a principal qualidade de um marxista era ser
humano, estar cheio de amor.
196
Não seria esta também a principal qualidade de um
verdadeiro cristão? Além disto, pelas constantes leituras das obras de Marx que passou a
fazer, Cardenal pôde constatar que em momento algum o economista fala sobre a existência
ou não de Deus. Sendo assim, seria possível ser marxista e acreditar em Deus e na
193
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 261.
194
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 261.
195
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 322.
196
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 272.
69
transcendência.
197
Mencionando o teólogo protestante cubano Sérgio Arché, Cardenal afirma
inclusive que, no ponto em que o cristianismo parece convergir de forma inquestionável com
o marxismo, o ateísmo é justamente o aspecto que os une de forma substancial: “O verdadeiro
cristão, do ponto de vista filosófico, é também um ateu. Seu Deus é aquele que ninguém
conhece e a quem não se adora em templos, mas em espírito e em verdade – no amor entre os
homens”
198
. O que é incompatível com a doutrina de Marx é a religião, e não o cristianismo
que, segundo o poeta, não é uma religião:
O marxismo e a religião são incompatíveis. Mas não Max e a bíblia. A
mensagem da bíblia é completamente marxista. (...) O cristianismo na
realidade não é uma religião. Se fôssemos chamá-lo de religião, deveríamos
chamar de religião do amor ao homem. Seu culto é o que o apóstolo
Santiago chama de o verdadeiro culto religioso: o socorrer aos órfãos e às
viúvas.
199
Cardenal passa, então, a se declarar “um marxista que crê em Deus e na vida depois
da morte”
200
. Ao compreender, com a teologia da libertação, que não existe contradição entre
marxismo e cristianismo, é como se o poeta rompesse uma barreira entre eles, permitindo que
possam se entrelaçar, bebendo um no outro aquilo que os faria mais fortes.
201
Ernesto
expressa de forma muito clara esta idéia quando, anos depois, em seu terceiro livro de
memórias, comenta a revolução sandinista: “O marxismo se beneficiou com o cristianismo.
Marx acreditava que o cristianismo livraria a humanidade de toda a mitologia religiosa, mas
na Nicarágua se deu o caso em que o cristianismo revolucionário purificou o marxismo da
mitologia religiosa”
202
. O poeta trás à tona, ainda, uma interessante tese que só faz reafirmar
nossa intuição de que o episódio específico que ele caracteriza como sua “segunda
conversão”, nada mais é do que a materialização de princípios que já pertenciam à sua
consciência e que, aos poucos, vão se solidificando desde sua primeira conversão. Para ele,
(...) Cristianismo e revolução são o mesmo. E na Nicarágua coincidiram
revelação e revolução. Da mesma maneira como nas missas dominicais do
Riguero, com câmaras externas e cantos dos irmãos Mejía Godoy, tantos
crentes e não crentes, diante desses mesmos murais, se davam o abraço da
197
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 297.
198
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 317.
199
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 316.
200
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 314.
201
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
202
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 312.
70
paz, em uma eucaristia internacionalista que era uma ação de graças a Deus
e à revolução.
203
Resolvido o conflito que antes parecia insolúvel, Cardenal passa a dedicar-se de
maneira especial ao tema da religiosidade na América Latina. Em uma segunda viagem à
Cuba, onde vai para discutir pessoalmente com Fidel Castro esta questão, o poeta tenta lhe
mostrar que está surgindo um novo panorama neste continente: “ A situação no resto da
América Latina mudou; ali a Igreja Católica vai evidentemente ao encontro do marxismo”
204
.
Não caberia, portanto, uma postura baseada no princípio da contradição entre a revolução e o
cristianismo. Para Cardenal, a colaboração da Igreja, tanto para o triunfo da revolução quanto
para depois que ela se consolidasse, era imprescindível para “animar aos sacrifícios que exige
o socialismo”
205
.
Quanto maior, porém, sua atuação política, maiores problemas enfrentava dentro da
Igreja Católica. Já em Solentiname o poeta fora diversas vezes repreendido pela postura
inovadora com a qual conduzia a comunidade. Foi à Cuba em sua primeira viagem, inclusive,
sem autorização de seus superiores, que temiam que ele desacatasse o governo de Somoza. O
bispo de sua diocese escrevia-lhe com freqüência recriminando-o por defender um regime
totalitário e ateu. Pedia que deixasse o sacerdócio.
206
Nada, porém, deteve Cardenal de seguir
adiante em sua empreitada. Estava totalmente entregue a esta nova missão que Deus lhe
apresentava. Precisava libertar a Nicarágua da ditadura e torná-la um país de iguais, precisava
dar ao mundo um exemplo do Reino de Deus na terra.
A relação de Cardenal com a Igreja é um tema extremamente interessante e não
menos intrigante. Desde que saiu da Trapa, tendo absorvido todos os ensinamentos do
“subversivo”
207
Thomas Merton, o sacerdote assume uma postura revolucionária efetiva, seja
em relação à tradição monástica ou, mais tarde, quanto a situação política da América Latina.
Adepto da teologia da libertação, jamais pôde experimentar uma relação tranqüila com o
Vaticano, que a condenava. Já como ministro da cultura do governo sandinista da Nicarágua,
é personagem de um dos mais constrangedores episódios públicos que envolvem a instituição
católica e seus sacerdotes. Em visita àquele país, João Paulo II foi recebido no aeroporto de
203
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 330.
204
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 292.
205
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 293.
206
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 466.
207
É interessante como este conflito entre a subversão e a doutrina, experimentado por Thomas Merton, vai
acompanhar de forma significativa parte da vida de Cardenal. Embora se sentisse totalmente inserido na
comunidade eclesiástica, era um grande crítico da Igreja Católica. Anos mais tarde, porém, esta contradição
parece não se fazer mais presente de forma tão efetiva. Tanto, que em entrevista realizada em Manágua, o poeta
chega a afirmar que “o futuro da igreja do cristianismo é não existir”. Vide entrevista em anexo.
71
Manágua por todos os ministros do governo revolucionário, inclusive, por Cardenal. Quando
o poeta, no entanto, ajoelha-se para receber sua benção, o papa inesperadamente aponta-lhe o
dedo ao rosto em meio a toda a imprensa internacional e o repreende, afirmando que ele
deveria regularizar sua situação com a Igreja: “Foi em sua visita a Nicarágua em 83, e nós,
todo o povo nicaragüense, lhe (o Papa) necessitávamos mais que nunca, mas ele nos tratou
mais como um pai severo do que como uma mãe solícita...”
208
Apesar de nunca ter tomado a
iniciativa de abandonar o sacerdócio, há muito tempo sentia que já não pertencia àquela
instituição.
209
Mas porque, então, manter-se vinculado a ela por tantos anos? Esta parece ser
mais uma das aparentes contradições em Cardenal. A impressão que temos quando ele trata o
tema da religião é que, embora ela seja vista uma realidade social concreta, pode, em razão de
sua natureza humana, distorcer a compreensão da Realidade divina, limitando-a a uma
doutrina específica. Talvez sua pertença à Igreja por tanto tempo se deva muito mais a
questões práticas, sociais, do que por vê-la como meio de acesso a Deus. Afinal, Cardenal já
há muito havia superado qualquer nó que obscurecesse sua íntima relação com o Amado. E
justamente por compreender tão bem esta Realidade, sabia que o seu papel como sacerdote
era imprescindível no contexto vivenciado pela Nicarágua no período revolucionário. Um
padre dando o exemplo de luta por uma sociedade mais justa, interpretando o evangelho de
forma mais humana, certamente transmitiria a mensagem divina de forma particular,
atingindo irredutivelmente aquela população nicaragüense, desamparada e cristã.
Deus havia guiado Cardenal novamente a um outro destino embora, assim como das
demais vezes, delineava cuidadosamente a missão que havia planejado para ele. Solentiname
agora estava destruída, seu ativismo político cada vez mais radical. Já não podia mais se ater
apenas a revolucionar o sistema monástico e a Igreja, mas era chegada a hora de ir além. Mais
um passo adiante na longa caminhada planejada por Deus:
Eu sinto que foi uma mesma Vontade de Deus a que dirigiu minha vida:
primeiro levando-me a um confinamento absoluto de silêncio em um
monastério, depois aos anos de isolamento de uma ilha, e depois ao
ativismo do ministério da cultura da revolução sandinista – o que para mim
foi duro porque era contrário a minha vocação que é de solidão e silêncio,
mas o fiz durante esses dez anos de revolução por acreditar que isto era
também a Vontade de Deus.
210
208
AMIGUET, Luis. Ernesto Cardenal: Mientras haya pobres, habrá teología de la liberación, 2009. [página da
internet]
209
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 466.
210
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
72
No último ano em que esteve na comunidade de Solentiname, Cardenal escreve
“Amanhecer”, um poema que, segundo o próprio poeta, é como “uma profecia da revolução”
211
. Estes versos parecem representar extraordinariamente este momento de transição, o do
sacerdote reformador de Solentiname, para o do importante ministro da cultura da Revolução
Sandisnista:
Ya están cantando los gallos.
Ya ha cantado tu gallo comadre Natalia
ya ha cantado el tuyo compadre Justo.
Levántense de sus tapescos, de tus petates.
Me parece que oigo los congos despiertos in la otra costa.
Podemos ya soplar un tizón - Botar la bacinilla.
Traigan un candil para vernos las caras.
Latió un perro en un rancho
y respondió el de otro rancho.
Será hora de encender el fogón comadre Juana.
La oscurana es más oscura pero porque viene el día.
Levántate Chico, levántate Pancho.
Hay un potro que montar,
hay que canaleatar un bote.
Los sueños nos tenían separados, en tijeras
tapescos y petates (caeda uno en su sueño)
pero el despertar nos reúne.
La noche ya se aleja seguida de sus seguas y cadejos.
Vamos a ver el agua muy azul: ahorita no la vemos. - Y
esta tierra con sus frutales, que tampoco vemos.
Levántate Pancho Nigaragua, cogé el machete
hay mucha yerba mala que cortar
cogé el machete y la guitarra.
Hubo una lechuza a medianoche y un tecolote a la una.
Luna no tuvo la noche ni lucero ninguno.
Bramaban tigres en esta isla y contestaban los de la costa.
Ya se ha ido el pocoyo que dice: Jodido, Jodido.
Después el zanate clarinero cantará en la palmera,
cantará: Compañero
Compañera.
Delante de la luz va la sombra volando como un vampiro.
Levántate vos, y vos, y vos.
(Ya están cantando los gallos.)
¡Buenos días les dé Dios!
212
211
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 483.
212
CARDENAL, Ernesto. Amanecer. In: Bob Richmond's Web Site, 2001. [página da internet]
73
CAPÍTULO IV: A INTIMIDADE DO AMOR TRANSCENDIDO
4.1 Introdução
Ao longo de todo período em que esteve em Solentiname, Cardenal foi se
radicalizando e passa, inclusive, a ter uma participação decisiva no processo revolucionário da
Nicarágua. Sendo assim, quando, ao dia 19 de julho de 1979, a FSLN chega ao poder com a
vitória da revolução, é convidado a ocupar o cargo de ministro da cultura. Nos anos em que
exerceu esta função promoveu importantes reformas culturais na Nicarágua, em especial no
que se refere à alfabetização da população daquele país. Pro falta de recursos econômicos para
a manutenção deste ministério, deixa o cargo em 1987. Em 1989, 10 anos após a vitória, a
FLSN deixa o governo em eleições democráticas que levaram a candidata da oposição,
Violeta Chomorro, ao poder. Cardenal passa a dedicar-se novamente, então, à literatura,
quando publica duas importantes obras poéticas de sua maturidade: “Telescópio na noite
escura” e “Cântico Cósmico”.
74
4.2 A Revolução do Amor
Meu poder era das pessoas. Eu não tive tempo de
escrever poesia naqueles anos, mas a fiz: consegui que
milhares de compatriotas aprendessem a ler.”
(Ernesto Cardenal, sobre o período em que foi ministro
da cultura da Revolução Sandinista)
“Que bela a desordem dos primeiros dias!”
213
Cardenal encontrava-se em êxtase
naquele 20 de julho de 1979. Enfim o povo nicaragüense conseguira, depois de um torturante
período de luta, depor seu opressor. Pairava no ar a esperança de que uma nova sociedade
seria criada, com espírito de união, de solidariedade e de companheirismo.
214
Chegara a hora
de travar uma outra guerra, “a guerra contra o analfabetismo, contra a insalubridade e contra a
tristeza”
215
. A extraordinária beleza da Revolução da Nicarágua, aquilo que a torna tão
especial e desperta pesquisas apaixonadas de estudiosos de todo mundo, está longe do fato de
ter sido um movimento socialista de deposição de uma ditadura. Muitos outros países
promoveram conquistas como esta. O que a torna tão peculiar é ter tido apoio massivo da
pobre e oprimida população nicaragüense. Mais do que isso: a base sobre a qual se constrói
une de forma indissociável o socialismo e o cristianismo experimentados por um mesmo
povo. Che Guevara já dizia que o dia em que os cristãos da América Latina fossem
revolucionários, a revolução seria invencível.
216
Aquela revolução sobre a qual Cardenal
213
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 230.
214
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 236.
215
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 225.
216
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 320.
75
falava nas missas era, como ele próprio afirmava, “a revolução do amor”
217
. Muito além da
preocupação com a reforma política, o sacerdote pretendia transmitir uma mensagem de amor
ao próximo, de solidariedade. Sem se apoiar sob essas bases, jamais poderia haver uma
mudança substancial que fosse capaz de sustentar o socialismo em uma sociedade:
“Sobretudo, a revolução foi uma transformação profunda de todo o povo, tanto material como
espiritual. Ela significou novas relações entre nós, e uma nova cultura: a cultura do
companheirismo”
218
. Segundo o poeta, este foi um dos grandes acertos da Frente Sandinista,
reconhecer que “o povo nicaragüense era em sua maioria cristão, e que uma revolução
marxista para ser popular devia fazer-se também com cristãos”
219
. A Revolução da Nicarágua
mostra, assim, o seu caráter ecumênico, provocando não apenas a união de todas as igrejas
cristãs, mas estimulando o diálogo entre cristãos e ateus. Talvez por isto, por carregar consigo
a mensagem de amor na qual convergem o cristianismo e o marxismo, o teólogo José Maria
Vigil tenha singularmente podido classificá-la como “o fenômeno de solidariedade
internacional maior de toda a história da humanidade”
220
.
Monumento em homenagem a Augusto César Sandino,
um grande líder nicaragüense, que lutou até a morte
contra o imperialismo norte-americano. Manágua, julho
de 2008.
O fato de a Revolução Sandinista ter como forte característica o seu caráter popular
remete a mais um de seus originais aspectos: contrariando a tendência dos países socialistas
217
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 226.
218
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 247.
219
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 337.
220
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 258.
76
do resto do mundo, a Nicarágua não experimentou a presença de um único chefe de governo.
Embora houvesse uma liderança estruturada, ela era composta por um colegiado, sem culto à
personalidade.
221
Um movimento que nasce e se alastra no seio do povo tende naturalmente a
seguir um caminho democrático: “esta revolução não era só de um partido, ou aliança de
partidos, ou movimento político, mas de uma massa de povo, uma imensa maioria, todo um
povo”
222
. Sua primeira conquista foi, portanto, a libertação da Nicarágua de uma ditadura que
já durara quase meio século e que a tornava subjugada ao imperialismo norte-americano.
Princípios como o do pluralismo político e a liberdade de imprensa foram respeitados dando
corpo à peculiar experiência socialista de uma “revolução com burguesia”
223
.
Cardenal preparava-se para retornar à Solentiname quando o convite para assumir o
Ministério da Cultura lhe foi feito. Embora seu desejo após a vitória da revolução fosse
reconstruir sua comunidade e se dedicar á sua vocação monástica, percebia que sua missão
ainda não havia sido cumprida completamente. Sabia que poderia iniciar projetos
interessantes como ministro
224
, embora mais uma vez tivesse que abdicar de suas paixões:
“Sendo ministro da cultura eu havia tido que deixar de escrever para que os outros
escrevessem, e para que fizessem música, teatro, pintura e dança”
225
. Iniciou, assim, uma
outra revolução em seu país: a revolução cultural.
Após anos de dominação econômica e cultural em relação aos Estados Unidos,
parecia que o povo nicaragüense estava “vivendo em um outro país”
226
. Havia uma
necessidade urgente de resgate daquela cultura. Mas como reacender a atividade cultural
naquele lugar tão maltratado pela miséria e cuja maior parte da população ainda sofria com o
analfabetismo?
A resposta que Cardenal deu a esta pergunta representa talvez o maior triunfo da
Revolução Sandinista. O Ministério da Cultura promoveu a organização de Exércitos
Populares de Alfabetização entre os estudantes alfabetizados da Nicarágua. Durante cinco
meses, em uma esplêndida demonstração de solidariedade, milhares de jovens de classe média
e alta partiram para o campo em busca da “libertação” daquela maioria de seus compatriotas
que não tinham acesso à leitura e à escrita. Mesmo sob ameaça dos Contra
227
, abandonaram
suas casas e aderiram àquela outra revolução promovida em seu país. Percebiam a quão esta
221
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 245.
222
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 394.
223
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 247.
224
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 218.
225
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 339.
226
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 250.
227
Força anti-revolucionária, cuja atuação mergulhou a Nicarágua numa desgastante guerra civil nos anos que se
seguiram após a vitória da Revolução Sandinista.
77
atitude era necessária para que a Nicarágua rompesse de uma vez por todas os laços que a
prendiam à pobreza e ao atraso. A alfabetização faria com que “os indivíduos fossem
conscientes da realidade social e de que a podiam transformar”
228
.
A revolução da Nicarágua, no entanto, “era a conjunção de Sandino y Darío
229
230
.
O ativismo e a poesia jamais podem ser considerados como antagônicos em Cardenal. Já em
suas primeiras obras poéticas o tema da política ocupa um lugar de destaque e, mesmo após
sua experiência na Trapa, nunca pôde ser abandonado. Ao contrário, torna-se ainda mais
sólido e profundo sob a nova concepção do mundo inspirada pelas conversas com Thomas
Merton. O idealismo político do poeta agora assumiria um outro tom, revelado por sua face
espiritual. Se todas as coisas do mundo são Deus, fazem parte do Real, também a política
passa a ser concebida como inserida nesta Totalidade:
Bienaventurado el hombre que no sigue las consignas del Partido
ni asistí a sus mítines
ni se sienta en la mesa con los gángster
ni con los Generales en el Consejo de Guerra
Bienaventurado el hombre que no espía a su hermano
Ni delata a su compañero de colegio
Bienaventurado el hombre que no lee los anuncios comerciales
Ni escucha sus radios
Ni cree en sus slogans
Será corno un árbol plantado junto a una fuente
231
Cardenal tinha como plano de seu Ministério “simplesmente levar a cultura ao povo”
232
. Mesclando sua paixão pelos versos ao planejamento político, começa a organizar ateliês
de poesia espalhados por todo o país. Para ele, a poesia seria um importante pilar sobre o qual
uma revolução, seja ela política ou cultural, se apoiaria. Como em Solentiname, incentivou a
leitura e escrita, percebendo que isto daria um grande estímulo a toda criação cultural da
Nicarágua. Sérgio Ramirez lembra, porém: “O fato de Ernesto Cardenal fazendo uma política
cultural me parece que não pode ser tão relevante como sua poesia e tão pouco os ateliês de
poesia foram a parte fundamental de trabalho do Ministério da Cultura nos anos oitenta”
233
.
A atuação política é apenas uma das faces de uma vida submersa no Amor. A poesia que o
228
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 282.
229
Rubem Darío foi iniciador e máximo representante do Modernismo literário em língua espanhola. É
possivelmente o poeta que tem tido uma maior e mais duradoura influência na poesia do século XX no âmbito
hispânico.
230
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 372.
231
E. CARDENAL, Poesía Completa, Vol. 1, p. 164.
232
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 380.
233
E. SHADE, Ernesto Cardenal en la voz de Sergio Ramírez, 2005. [página da internet]
78
acompanha desde a infância talvez revele de forma mais pura e significativa a essência de
Ernesto Cardenal. Ela, afinal, é o instrumento através do qual o poeta registra seu amor e
desvela suas faces. O incentivo à criação poética também não pode ser compreendido sem que
se mensure seu real alcance. Muito mais do que uma ação isolada, esta representou apenas
parte da estrutura sobre a qual se deu uma verdadeira revolução cultural: “A Nicarágua foi
muito criativa nos anos de oposição contra Somoza, mas foi muito mais com a Revolução
Sandinista, na qual houve um florescimento de todas as artes, como não se havia visto antes
no país, e foi o maior acontecimento cultural em toda a história da Nicarágua”
234
.
José Coronel Urtecho lembra, ainda, que outro aspecto que faz ressaltar a
importância da revolução é que ela tinha como principais adversários Reagan e o Papa
235
,
ambos importantes pólos de poder no mundo: o político e o religioso. Os americanos
vivenciavam o contexto histórico da guerra fria, uma ameaça constante à sua hegemonia já
abalada pela vitória da Revolução Cubana, na América Latina. O Vaticano, por sua vez,
enfrentava a incômoda realidade da dissidência católica através da teologia da libertação.
Decididos a destruir a Revolução Nicaragüense, os Estados Unidos dispuseram de
vários artifícios, dentre os quais, um forte bloqueio econômico, um boicote comercial, o
ataque de maneira geral a tudo o que representava a infra-estrutura do país. Com o objetivo de
desestabilizar a força popular nacional e conduzir a opinião pública internacional sobre o
movimento, lançou mão de uma forte e massiva propaganda. Mas o mais importante foi a
atuação militar com a criação de um exercito mercenário, a ocupação de Honduras, a
espionagem e o ataque a objetivos econômicos. Para Cardenal, “a guerra dos Contra era para
fazer a vida mais miserável, e em grande medida eles lograram”
236
.
Outro grande obstáculo enfrentado pela Revolução da Nicarágua foi a atuação de
João Paulo II que, em visita a Manágua, consciente do impacto da Igreja Católica sobre a
população daquele país, tenta provocar a queda do sistema. Logo na chegada do aeroporto ele
demonstra sua insatisfação com o modo como o qual alguns sacerdotes conduzem sua vida
religiosa na América Latina. O símbolo deste sentimento é a imagem transmitida por várias
televisões do mundo na qual Ernesto Cardenal encontra-se de joelhos para beijar o anel Papal
e o Papa o repreende publicamente por atuar no governo sandinista.
237
Mais do que um
simples conflito no seio de uma instituição, este ato representa de forma clara para todo o
mundo, a posição da Igreja Católica em relação à teologia da libertação na América Latina. O
234
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
235
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 319.
236
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 432.
237
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 302.
79
episódio que se seguiu posteriormente não foi menos simbólico: em uma tentativa de romper
a revolução, já que ela estava fortemente apoiada em suas bases populares, o Papa falou para
milhares de pessoas que foram vê-lo de todas as partes do país. Ao invés de se ater à esperada
celebração religiosa, o Pontífice adota uma postura política, discursando contra o governo que
se instalara na Nicarágua. Para Cardenal, o que mais desgostava a ele era que aquela era uma
revolução que não perseguia a Igreja.
238
Esta foi uma prova de fogo para a revolução. Se o
povo houvesse aplaudido o Papa, o governo cairia naquela mesma tarde. Na Nicarágua,
porém, havia um povo católico, mas também revolucionário que, em vez de aplaudir o papa,
protestou e defendeu sua revolução.
A interferência do Vaticano parece não ter sido capaz, portanto, de abalar a fé do
povo nicaragüense em seu “cristianismo revolucionário”. As ações norte-americanas, no
entanto, provocaram uma forte crise econômica no país, mergulhando-o em uma miséria
ainda maior do que aquela dos tempos da ditadura Somoza. Exaustos pela guerra, pelos
embargos e pela pobreza, 10 anos depois de seu triunfo, o governo sandinista se propunha a
realizar novas eleições na Nicarágua: “Na realidade a Frente Sandinista se havia proposto a
fazer umas eleições livres, justas e honestas, e foram tão livres, justas e honestas, que as
perdeu. (...) Se perdeu fundamentalmente pela ingerência dos Estados Unidos, que exerceram
uma pressão militar e econômica na população”
239
. Para Cardenal, no entanto, seja como for,
“ao perder as eleições, a revolução ganhou, demonstrando que era democrática. A derrota
eleitoral foi uma vitória moral”
240
. O poeta não deixa, porém, de expressar sua angústia desse
momento: “Se a madrugada do triunfo foi para mim o mais belo sonho de minha vida, a
madrugada da perda das eleições foi o pior pesadelo que tive”
241
.
O poeta lembra, porém, que a ação norte-americana foi decisiva para destituir o
governo sandinista, mas que a verdadeira revolução, a revolução ideológica, foi rompida pela
condição humana.
242
Ao perderem as eleições, alguns dirigentes da Frente Sandinista de
Libertação Nacional se corromperam promovendo, inclusive, o roubo de propriedades do
Estado.
243
Além disto, Sérgio Ramirez, em suas memórias sobre a revolução, afirma que “ao
identificar-se com os pobres a revolução foi radical no sentido mais puro, e por seu desejo de
justiça foi capaz das maiores ingenuidades e arbitrariedades, perdendo a perspectiva do que
238
E. CARDENAL, Lo que pasó con el Papa en Nicaragua. Hoja Filosófica, p. 22-26.
239
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 462.
240
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 468.
241
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 461.
242
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 404.
243
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 469.
80
era possível, e o que apenas podia ser o desejável, o justo”
244
. Em conversa com Cardenal,
ainda comenta:
Poeta, esta revolução jamais poderá ser derrotada pelos gringos, porque até
as menores crianças são comunistas (...). E certamente o foram em sua
imensa maioria esses jovens e crianças por dez anos de governo
revolucionário, e o haveriam sido também depois os que então ainda não
havia nascido, se a revolução não tivesse sido derrotada – não pelos
gringos, mas por seus próprios líderes.
245
O fim da Revolução da Nicarágua não representa para Cardenal, no entanto, o fim da
esperança de um mundo de paz e justiça. Em entrevista recente à revista eletrônica Corrente
Marxista, ao ser indagado sobre a possibilidade de existência do Reino de Deus na Terra, o
poeta responde:
Como um cristão pode não crer nisso, quando é o único que Jesus veio a
pregar? No Pai Nosso não nos disse que pedíssemos ir a este reino após a
morte, mas que pedíssemos que esse reino viesse a nós. Cristo deu sua vida
por esse reino na terra, um reino de fraternidade, de igualdade, de justiça.
Um teólogo da libertação disse que quando Jesus usava aquelas palavras
‘reino de Deus’ era igual como agora se diz a palavra ‘revolução’. Era algo
completamente subversivo. Era dizer que se acabariam os regimes políticos
existentes. Ou como agora diz a juventude mundial: ‘Outro mundo é
possível’.
246
O meio do qual dispomos para concretizar o ideal do Reino de Deus na terra é,
portanto, o movimento revolucionário. Cardenal deixa claro jamais ter perdido a esperança de
que, em um futuro próximo, esse período de apatia experimentado pela juventude mundial
acabe e que os jovens novamente se despertem para o ativismo político:
Tivemos uma revolução e a perdemos. Agora existe uma nova geração em
Solentiname, e são os filhos e filhas de Bosco e Esperança, de Juan Antônio
e Glória, de William e Teresita, de Laureano, Iván, Julio Ramón, a Mariíta.
E espero que vivam uma revolução com os mesmos ideais dos mártires que
estão enterrados no parque infantil de Solentiname.
247
244
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 269.
245
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 222 e 223.
246
Entrevista al poeta Ernesto Cardenal, Corriente Marxista Revolucionaria, 2004. [página da internet]
247
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 249.
81
4.3 A Noite Escura da Alma
“Eu tive uma coisa com Ele e não é um conceito.”
(Ernesto Cardenal)
Era uma sombria madrugada a daquela “noite escura” do ano de 1989 na Nicarágua.
Após uma longa caminhada em sua trajetória mística, Deus mais uma vez guiava Cardenal a
outro destino. Naquela noite o sonho de um país revolucionário e livre do imperialismo norte
americano parecia perder-se mais uma vez. Inexplicavelmente as eleições democráticas
convocadas pelo atual governo, a FLSN, haviam apontado como vencedora Violeta
Chamorro, a candidata de tendência conservadora, que novamente colocaria a Nicarágua sob
julgo da exploração internacional. Segundo comenta Cardenal, “se a noite do triunfo da
revolução foi para mim o mais belo sonho de minha vida, a madrugada da perda das eleições
foi o pior pesadelo que tive”
248
. O poeta sentia-se assim, totalmente envolvido por aquela
absorvente “noite escura” já descrita por São João da Cruz. Para ele, a mais escura de toda a
sua vida. Não podia compreender porque havia sido aquela a vontade de Deus.
249
Há muito Cardenal deixara de escrever poesias em virtude de suas ocupações como
ministro da cultura do governo revolucionário. Talvez este agora fosse o momento de voltar à
sua atividade literária, de fazer ecoar pela América Latina um dos cantos poéticos mais
estremecedores que o continente já vira. Totalmente imerso naquela “noite escura da alma”
250
descrita por São João da Cruz e que Luce Lopez-Baralt define como sendo a “crise
purificadora de crescimento espiritual”
251
, o poeta presenteia o mundo com uma das obras
místicas mais profundas e corajosas da literatura hispânica atual:
Em seu Cântico, Cardenal leva o pensamento evolucionista de Teillard
Chardin a suas últimas conseqüências. O amor para o qual todo o cosmos
evoluía de maneira instintiva em “Vida no Amor” desemboca agora no
amor transcendido ao próximo, que o poeta interpreta como o socialismo
que acaba de triunfar na Nicarágua com a revolução sandinista.
Ironicamente, para as data em que Cântico sai à luz, veio abaixo o governo
sandinista e o marxismo praticamente a nível mundial.
252
248
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 461.
249
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 465.
250
LuceLopez-Baral faz referência aos dizeres de São João da Cruz, que compreende este momento de dor e
crescimento espiritual como “a noite escura da alma”. L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La
experiencia mística: tradición e actualidad, p. 42.
251
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 42.
252
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 39.
82
“Cântico Cósmico” apresenta-se, assim, como reflexo de mais uma experiência na
trajetória mística experimentada por seu autor. Nele, misturam-se elementos de todas as suas
obras literárias, de todas as muitas faces do amor irradiadas por ele. Agora, o poeta apresenta
em toda a sua magnitude, a Totalidade do universo que, partindo de um ponto comum,
explode e se materializa de todas as formas pelo mundo.
Ao contrário, porém, das obras anteriores, que abordam sua intuição do universo
especialmente sob uma perspectiva espiritualista da realidade mística, em “Cântico Cósmico”
Cardenal parece querer palpar e explicar, de forma espetacularmente tangível, tudo aquilo que
antes cantava idealmente. Quando, por exemplo, afirma em “Vida no amor”, que “as coisas
estão relacionadas umas com as outras e umas estão compreendidas em outras, de modo que o
universo é uma única e vasta coisa”
253
, apresenta de forma brilhantemente clara a tese que
defende mais tarde, numa linguagem místico-física, em “Cântico Cósmico”:
No principio nada existia
nem espaço
nem tempo.
O universo inteiro concentrado
no espaço do núcleo de um átomo,
e antes ainda menos, muito menos que um próton,
e muito menos ainda, um infinitamente denso ponto matemático.
E foi o Big-Bang.
A grande explosão.
O Universo Submetido a relações de incerteza.
254
Procurando versar mais que a magnitude da espiritualidade da realidade humana, em
“Cântico Cósmico” Cardenal ocupa-se especialmente da origem de nossa existência,
articulando esplendidamente todas as faces do amor que a compõem. Nesta obra, o poeta
manifesta toda a maturidade de um místico experiente que já não compreende Deus de forma
limitada, mas, ao contrário, percebe que “o universo nos revela um Deus maior. Só agora
sabemos que Deus é mais do que imaginávamos porque seguramente existem outros seres
inteligentes lá em cima, entre as milhões e milhões de galáxias”
255
. Por isto mesmo, seu
canto não pode mais prender-se á humanidade, mas deve libertar-se e tocar todas as áreas do
conhecimento. Segundo Coronel Urtecho, este livro é como
253
E. CARDENAL. Vida en el amor, p. 22.
254
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 9.
255
J.CAMPOS, Ernesto Cardenal: poeta, sacerdote y ex sandinista, 2002. . [página da internet]
83
um grande poema que se ocupa extensamente do universo, do ponto de vista
da ciência moderna, e das coisas humanas que são interesses desse tempo.
(...) Mais que uma explicação, é uma representação do Universo, como nas
fotos dos astrônomos, mas em termos poéticos, como através da poesia.
256
Para Luce Lopez-Baralt, portanto, nesta “épica astrofísica”
257
, Cardenal pretende
“proclamar que o universo tem sentido”
258
. Compara assim o poeta, a Dante, que, em seu
tempo, ao escrever “A Divina Comédia”, elaborou um compendio dos saberes da
humanidade:
E em efeito, nesse compendio de sabedoria que oscila ente o científico e o
histórico, o artístico e o amoroso, o macrocosmo e o microcosmo, Cardenal
canta aos espaços inter estelares, aos átomos infinitesimais, às galáxias
nascidas do big bang (...), às camponesas de Cuá, ao triunfo sandinista e aos
quadros de Klee.
259
Sendo assim, “Cântico Cósmico” representa na literatura mística de Ernesto
Cardenal a obra que mais perfeitamente simboliza, em toda a sua complexidade, a explosão
de emoções de um poeta que jamais deixará para trás quaisquer de suas várias experiências
amorosas. Porém, o tom que utiliza em seu cântico “acusa mais o poeta conflitivo, do que o
otimista que caracterizava ‘Vida no amor’”
260
. É de se compreender que Cardenal, neste
momento, não gozasse dos pensamentos mais positivos em relação ao mundo, já que
experimentava um momento de profundo tormento com a queda do governo sandinista. Aliás,
a dor pelas injustiças da humanidade é dos principais temas que tocam “Cântico Cósmico”:
(...) não é arriscado pensar que, da mesma maneira que na Divina Comédia
hoje nos importa mais o amor impossível de Dante por Beatriz e a poética à
luz inconcebível que constitui o sentido último ao universo, que as
esquecidas dissidências entre guelfos e gibelinos, assim em Cântico
haveremos de recordar mais a abismal compaixão humana do poeta; suas
admissões estremecidas de amor inalcançável e o canto coletivo ao Deus
abscondius com que Cardenal, assim como Dante, encerra seu poema. Não
precisamos dizer que seu inferno (...) está constituído pelas atrocidades que
o homem comete contra o homem, sobre tudo em nossa América amarga.
261
256
C. URTECHO apud A. ARGUERO, Canto Cósmico es un pastiche caótico, 2006. [página da internet]
257
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 37.
258
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 37.
259
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 37.
260
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 38.
261
C. URTECHO apud A. ARGUERO, Canto Cósmico es un pastiche caótico, 2006. [página da internet]
84
Ao mesmo tempo, embora apresente de fato uma visão pessimista da realidade
humana, Cardenal não abandona, durante toda a sua vida, a esperança de que o homem
encontre o seu caminho. Mesmo em “Cântico Cósmico”, obra em que deixa refletir a limpidez
de todas as suas angústias, faz questão de lembrar que todos os animais da natureza
encontram seu caminho em comunidade. Cardenal parece, com estes versos, não apenas
lamentar a progressiva queda do socialismo na história das civilizações humanas, mas
também captar um raio de esperança na longa jornada da humanidade. Afinal, somos todos
seres imersos nesta imensa Totalidade Cósmica cantada por ele:
Um obstáculo posto num caminho de formiga
pode momentaneamente confundir as formigas
mas elas saberão depois como encontrar o caminho.
Sucede que é em sociedade que nos fizemos homens.
O mistério de que os animais que nunca se viram no espelho,
por exemplo os peixes,
e não sabem como são,
as rãs, a iguanas,
reconhecem os de sua espécie
juntam-se sem espelho aos seus iguais
(o socialismo, o comunismo).
262
Da mesma forma que carrega consigo traços daquele mesmo poeta revolucionário,
dedicado à “transcendência do amor ao próximo”, não poderá em “Cântico Cósmico”,
também, esquecer suas belíssimas “muchachas en flor”. Aquela mesma admiração pela beleza
de Myrian, versada em “Epigramas”, ressurge no imaginário do compositor desta riquíssima
obra. Agora, no entanto, ela se vê plenamente entrelaçada à exposição de uma nova
perspectiva do universo. Myrian já não mais existe em sua singela individualidade, mas sim
como parte da totalidade do complexo cósmico versado pelo poeta:
Ayer te vi en la calle, Myrian, y
Te vi tan bella, Myrian, que
(¡cómo te explico qué bella te vi!)
ni tú, Myrian, te puedes ver tan bella ni
imaginar que puedas ser tan bella para mí.
Y tan bella te vi que me parece que
ninguna mujer es más bella que tú
ni ningún enamorado ve ninguna mujer
tan bella, Myrian, como yo te veo a ti (…)
263
262
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 162.
263
E. CARDENAL, Epigramas, p. 32.
85
A segunda lei é o sol que se apagará.
E que se apagaria Myrian mais bela do que o sol.
Não é figura de Góngora ou Quevedo,
era uma Myrian minha,
seus olhos negros procediam do sol
(cujas manchas negras são tão brilhantes, dizem)
porém na escala de evolução,
mais bela e mais complexa do que o sol.(...)
264
Cardenal assumirá nesta obra, assim, “todas as conseqüências de seu discurso
místico”
265
. Por isto mesmo, “Cântico Cósmico” adquire uma tonalidade irremediável de
erotismo. O poeta não apenas regressa ao canto da beleza feminina, mas, corajosamente,
torna-se o “primeiro sacerdote místico a fazer-se porta-voz dos tormentos imemoráveis do
celibato cristão”
266
:
Estamos crucificados no sexo”, disse Lawrence (D.H.)
não sei em que contesto. Eu tenho o meu.
Santo Agostinho passou noites chorando
porque não voltaria mais a gozar.
Jerônimo ancião: as bailarinas romanas
que viu na sua juventude. Pelo que
se pôs a traduzir como um louco os livros da Bíblia.
O de Ruth numa noite só.
267
Mas não é apenas o discurso erótico, o que faz de “Cântico Cósmico” uma
referência para a literatura mística mundial. Esta é também uma obra magnificamente ousada
no que tange à polêmica do diálogo entre as religiões. Contemplando a essência dos
ensinamentos de seu mestre Thomas Merton, na Trapa, Cardenal apresenta nestes versos uma
obra prima do respeito e admiração ao “outro”, reunindo em seus escritos diversas
experiências religiosas. Místicos de tradição cristã como Mestre Eckhart, de tradição oriental
como Confúcio e Ibn al-Fārid, ou ainda de espiritualidade indígena, assim como Popol Vuh
compõem conjuntamente a dança poética que dá expressão corporal a este maravilhoso
cântico de amor:
Cardenal estabelece uma inovadora aliança espiritual com eles, abrindo sua
própria escrita contemplativa a uma compaixão e respeito absolutos para
com as mais diversas espiritualidades, que acabam dizendo o mesmo de
Deus. Cardenal segue sendo discípulo de Merton - outro americano, por
certo – que refundiu não somente Chuang Tsú, mas também Ibn ‘Abbād de
264
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 54.
265
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 40.
266
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 40.
267
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 107.
86
Ronda e que morreu estudando, com curiosidade espiritual exemplar, os
métodos contemplativos dos monges orientais, aos que tão afim se sentia.
268
É especialmente, porém, nas últimas cantigas de seu cântico que Cardenal revela,
com uma força poética ainda mais avassaladora, a união transformante entre amante e Amado.
Nestes versos estão presentes não apenas a narrativa do êxtase da profunda experiência de ser
invadido pelo Amor, mas também a inegável melancolia de uma alma insaciada em face da
impossibilidade imediata da presença sensível de Deus. Embora experimente esta íntima
desolação, “a certeza mística é, uma vez mais, avassaladora e ao redor dela giram o livro e o
universo”
269
.
Estou sozinho em teu universo.
Peixes derramam seu sêmem no mar:
os que em tua criação estamos sós.
O propósito do meu cântico é dar consolo.
Para mim próprio também este consolo.
Talvez mais.
270
A tentativa já realizada de aproximarmo-nos o quão fosse possível da experiência
mística de Ernesto Cardenal, concretizada especialmente a partir da análise de sua vida e do
estudo de “Vida no amor” revela-se, nesse momento, uma tarefa menos árdua. Desprovido de
qualquer pudor, o poeta nos conduz, através da poesia de seu cântico 42, à persuasão de sua
vivência experiencial com Deus.
Eu tive uma coisa com ele e não é um conceito.
Seu rosto em meu rosto
e já cada um não dois
porém um rosto só.
Quando exclamei aquela vez
tu és Deus.
271
Cardenal, nestes versos, revela da forma mais límpida quanto lhe é permitido, o
momento do êxtase de sua união transformante com o Amado. Por isto mesmo assume um
tom de forte eroticidade para descrever sua relação com Deus. A metáfora do amor humano é
o recurso lingüístico mais apropriado para que o poeta permita a seus leitores uma pequena
268
L. LOPEZ-BARALT, El sol a medianoche. La experiencia mística: tradición e actualidad, p. 39.
269
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 15.
270
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 388.
271
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 385.
87
aproximação de sua experiência mística. E a intimidade com que canta esta união revela a
face de um homem maduro e consciente de seu papel nesta Totalidade.
Se sente
e não se sente
se sente
mas é como se não se sente
ou em verdade é o que não se sente.
Algo dentro de mim, não em meu corpo, mas dentro
e abraçado, abraça e é abraçado,
unidos havendo de algum modo dois em um, dois um,
doçura com doçura, numa só doçura, gozo do outro gozo, os dois gozos um
sem que nada se sinta sensivelmente conste:
é como que abracei a noite
negra e vazia
e estou vazio de tudo
e nada quero
é como se me houvesse penetrado
o Nada.
272
“Cântico Cósmico” só pode ser compreendido, portanto, se cuidadosamente
percebido sob todas as facetas que o compõe. Mais do que os versos, é preciso que se leia
atentamente as entrelinhas de cada momento da vida de seu autor. Todas as manifestações de
amor experimentadas por Ernesto Cardenal se unem nesta obra sob um novo e ousado
objetivo: tentar inseri-las na compreensão deste imenso universo que nos rodeia. Este é o
cântico de um homem angustiado, que experimenta em sua maturidade um momento de
profunda crise e, assim, um homem que anseia pelo conforto de algumas respostas. No fim, é
o mais representativo grito de lamento desta alma inquieta que, ainda jovem
273
, cantava a dor
da separação com o Amado...
Somos como duas pombinhas de San Nicolás
que quando uma corre
a outra vai atrás
e quando esta é que foge
aquela a segue
mas uma nunca se afasta da outra
sempre estão em parelha.
Quando Tu de mim te vais
eu sigo atrás de ti
e quando sou eu quem me vou
tu vais atrás.
Somos estas duas pombinhas de San Nicolas.
274
272
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 386.
273
E. CARDENAL. Epigramas, p. 58.
274
E. CARDENAL, Cântico Cósmico, p. 391.
88
Uma noite de forte tempestade no lago da Nicarágua. Na foto, a tentativa de captar a beleza dos
relâmpagos nesta paisagem. Apenas um dos elementos desta Totalidade Cósmica que nos envolve. A
representação clara de que algumas coisas são impossíveis de serem captadas na sua imensidão...
89
4.4 Um Grito no Silêncio
“Eu nasci para um amor extremista.”
(Ernesto Cardenal)
Cuando aquel mediodía de 2 de junio, un sábado,
Somoza García pasó como un rayo por la Avenida
Roosevelt
sonando todas las bocinas para espantar el tráfico,
en ese mismo instante, igual que su triunfal caravana
así triunfal tú también entraste de pronto dentro de
275
y mi almita indefensa queriendo tapar sus vergüenzas.
276
Ao compor graciosamente esses versos em “Telescópio na noite escura, já anos
após sua experiência religiosa, Ernesto Cardenal vivamente nos transporta àquele 2 de junho
de 1956. É a primeira vez que nos permite ascender “à data sagrada em que (...) recebe a
Graça Última”
277
. O momento exato de sua rendição incondicional. Mas quem é, no entanto,
o verdadeiro cantor desta “melodia divina”, “pequena em extensão, mas extraordinária para as
idéias da literatura contemplativa do século XX”
278
? Será o poeta de “Epigramas” que,
articulando amor humano, política e sarcasmo, homenageia suas tantas mulheres amadas? Ou
ainda aquele jovem monge contemplativo que, influenciado por Merton, registra sua
compreensão do cosmos em “Vida no amor”? Será o autor político que publica “Evangelho
em Solentiname? Ou ainda o homem maduro e experiente que compõe “Cântico Cósmico”?
Antes de tudo, resta saber que “Telescópio na noite Escura” não nasce inicialmente
como um poema independente, mas é criado para compor mais uma das formidáveis cantigas
de “Cântico Cósmico”. Estes versos, porém, acabaram por ultrapassar seu propósito inicial e
surgem com “a força poética extraordinária de uma poemario independente”
279
. É, portanto,
na “crise purificadora de crescimento espiritual”
280
experimentada pelo eu - poético de
“Cântico Cósmico” que encontraremos a face do poeta que, em estado de oração, canta a
Deus a angústia de já haver deixado para trás todas as consolações espirituais e terrenas.
276
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 67.
277
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 23.
278
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 25.
279
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 18.
280
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 18.
90
“Telescópio na noite escura” se apresenta, assim, como um grito. Um grito que ecoa no
silêncio da oração, na intimidade das “coisas que os que se amam se dizem na cama”
281
:
La dulzura de ciertas palabras como
“nosotros dos”.
Deambulo solitario entre los besos.
De mi soledades vengo
No vuelva a mis soledades.
Sentí que la eternidad
será estar juntos los dos.
Dios me quiere como si yo fuera Dios.
Alguna vez yo seré experto en amores
en tu cama, entre las sábanas.
Sexo de Dios.
282
Trata-se, desta forma, de um poema no qual Cardenal anuncia a Deus a insatisfação
de Sua presença não sensível. Para isto, “cede à tentação de uma vez mais cantar a união
transformante em termos nupciais, ainda que saiba que a vivência transcende a linguagem
humana (...)”
283
. Aliás, em sua compreensão, é o amor humano quem toma a linguagem do
amor místico e não o contrário
284
: “E o que criou esta flor branca com seu perfume de Paris
que eu vejo no caminho do lago quando vou me banhar não é um Deus erótico?
285
Uma vez
que cada detalhe da criação reflete a face de Deus, Seu erotismo está presente em todas as
coisas, em cada rosto de mulher ou sutileza da natureza. Resta, no entanto, a angústia da
insaciabilidade deste Amor que não se faz sensível:
Para mí la gloria es
tener a Dios en mi cama o en la hamaca.
Gocémonos.
Los Alcaravanes van volando.
Gocémonos, amado.
Estás más cerca de mí que yo
Pero esto parece tan lejos.
Imagino que te tendrás mucha lástima.
Cómo aquel día cuando dirás Ernesto.
Celos ya no tengás.
No me engañarán más
espejos de la belleza física.
286
281
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 31.
282
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 48.
283
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 22.
284
E. CARDENAL, Vida en el amor, p. 118.
285
E. CARDENAL, Las ínsulas extrañas, p. 171.
286
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 55.
91
O poeta de “Telescópio na noite escura”, assim como o rapaz que escreve à suas
belas “muchachas” na juventude, é um homem apaixonado. Embora em sua maturidade
declare não mais se entregar aos “espelhos da beleza física”
287
, estes estarão presentes em
toda sua poesia. No caso específico desta obra, estão apenas disfarçados pelo anúncio da dor
do poeta pela ausência do amor sensível. Cardenal ainda ama as “belezas efêmeras”, em
especial naquilo que elas trazem de mais concreto, que é a sua sensibilidade. E por isso
mesmo grita a Deus, no silêncio da oração, um pedido para que o Amado novamente traga
saciedade a sua alma: “Gozemo-nos!”
288
A raiz de todo o erotismo presente em “Telescópio
na noite escura”, portanto, está na difícil renúncia do poeta ao amor humano. Assim, os versos
que “circularão talvez toda a Hispanoamérica”
289
cantados à Clàudia, agora têm como
destinatário Seu criador, o maior de todos os Amores
290
. Um Amor, porém, do qual “um
cruel vidro invisível nos separa”
291
e, por isto mesmo, leva o poeta novamente a clamar
angustiado: “Tu poderias inspirar melhor poesia!”.
292
Te doy, Claudia, estos versos, porque tú eres su dueña.
Los he escrito sencillos para que tú los entiendas.
Son para ti solamente, pero si a ti no te interesan,
un día se divulgará tal vez por toda Hispanoamérica…
Y si el amor que los dictó, tú también lo deprecias,
otras soñarán con este amor que no fue para ellas.
Y tal vez verás, Claudia, que estos poemas,
(escritos para conquistarte a ti) despiertan
en otras parejas enamoradas que los lean
los besos que en ti no despertó el poeta.
293
Tú que estas orgullosa de mis versos
pero no porque yo los escribí
sino porque los inspiraste tú
y a pesar de que fueran contra ti:
Tú pudiste inspirar mejor poesía.
Tú pudiste inspirar mejor poesía.
294
Tú podrías inspirar mejor poesía si quisieras
en versos que circularán tal vez toda
Hispanoamérica.
y despertarán tal vez en otros que los lean
287
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 55.
288
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 55.
289
E. CARDENAL, Epigramas, p. 9.
290
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 49.
291
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 30.
292
E. CARDENAL, Epigramas, p. 9; E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 30.
293
E. CARDENAL, Epigramas, p. 9.
294
E. CARDENAL, Epigramas, p. 18.
92
un amor mayor que el pudo tener por ti el poeta.
295
Para a pesquisadora Luz Marina Acosta, aquele mesmo poeta de “Vida no amor”, é
o que está presente agora em “Telescópio na noite escura”. A sua proposta é, inclusive,
investigar e demonstrar como o amor foi uma constante na obra de Cardenal.
296
Não há
dúvidas de que o livro de prosa do poeta influenciou toda a sua literatura, em especial os
poemas posteriores à sua experiência religiosa. Nesta obra, a compreensão do poeta sobre a
vida e o cosmos irradiará suas luzes, que tocarão de forma especial os versos de sua
maturidade. É o jovem poeta noviço de Merton, portanto, quem cantará nesta poesia sua
concepção de oração e vida contemplativa, adotando uma linguagem de peculiar intimidade
com o Amado. Para seu mestre, a oração não deveria ser uma “concentração mental”
297
, mas
deveria pertencer, também, ao inconsciente. Se manifestar de forma espontânea. Esta
espontaneidade é uma especial característica de “Telescópio na Noite Escura”, se o
compreendermos como uma oração poética a Deus. Este “grito no silêncio”, portanto, só
poderia mesmo ecoar em extrema liberdade:
Si oyeran lo que te digo a veces
se escandalizarían. Qué blasfemias.
Pero vos entendéis mis razones.
Y además bromeo.
Y son cosas que los que se aman se dicen en la cama.
298
Embora toque de forma especial todos os seus demais escritos, não é possível
encontrar em “Telescópio na noite escura” indícios claros do escritor que escreveu
“Evangelho em Solentiname”. O poeta que compôs aquele livro parece nesta obra preocupar-
se mais com o canto de sua própria relação com Deus do que com o universo e as demais
coisas que o compõem, inclusive a política. Ao contrário de “Cântico Cósmico”, que pode ser
lido como o livro no qual Cardenal explicita de forma peculiarmente magistral a esplêndida
articulação de todas as manifestações de amor intrínsecas à sua alma, neste o autor preocupa-
se em especial em cantar ao Amado a angústia de suas renúncias terrenas e a ânsia pelo amor
sensível. Talvez por isto mesmo “Telescópio na noite escura” tenha surgido particularmente
como uma canção independente à “Cântico Cósmico”. Nele, o poeta parece concentrar-se
295
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 49.
296
ACOSTA, Luz Marina. La obra primigenia de Ernesto Cardenal, p. 13.
297
E. CARDENAL, Vida Perdida, p. 123.
298
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 31.
93
mais especialmente no diálogo com o Amado, e menos com o diálogo com a humanidade, tão
característico de suas demais obras.
Neste livro, portanto, Cardenal anuncia que “ainda desde a escuridão noturna é
possível ao místico acercar-se da luz ultra-terrenal das estrelas graças à lente privilegiada de
um simbólico telescópio”.
299
Ele representa, assim, um novo momento de crescimento do
poeta em sua caminhada pessoal pela via mística. Luz Marina Acosta, comentando sobre a
presença da “noite” na poesia de Cardenal, afirma:
(...) a noite não é um mero acidente, como não o são tão pouco as coisas, os
trens, os aviões, eles são idéias da mente de Deus, e o latido dos cachorros é
a voz de Deus, o chamado de Deus. Mas a noite é, sobretudo “a noite escura
da alma”. A primeira noite, a que São João da Cruz chama de “purgação”, a
que pertence “aos principiantes ao tempo em que Deus os começa a colocar
em estado de contemplação”. E também a segunda noite, ou purificação,
que pertence aos já aproveitados, ao tempo que Deus os quer já (começar
já) a colocar em estado de união com Deus.
300
O belíssimo anoitecer do Lago da Nicarágua, símbolo da “noite” tantas vezes cantada por
Cardenal em suas poesias. Julho de 2008.
No momento em que lemos “Telescópio na noite escura”, nos entregamos á
intimidade de um poeta místico que experimenta um estado de grande evolução em sua
jornada. Já havia sido o jovem obcecado pelo amor humano, o dedicado monge trapense
299
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 19.
300
BERTARELLI, Eduardo Urdanivia. La poesía de Ernesto Cardenal: cristianismo y revolución, p. 96.
94
aprendiz de Thomas Merton, o sacerdote reformador de Solentiname e o importante ministro
da cultura do governo sandinista. Era a hora de voltar toda a sua atenção para a fonte da qual
emanam todas as faces do amor expressas em sua vida. Era hora de deixar registrado em
versos o lamento de sua alma já experimentada, ansiosa por saciar seu ardente Amor:
Ernesto Cardenal não teme porque sabe bem daquela fonte que “emana e
corre/ ainda que seja de noite”. A noite escura que atravessa seu telescópio
simbólico resultou, no final das contas, “mais clara que a luz do meio dia”.
Precisamente esta luz interior foi a que motivou a fundação de Solentiname,
a renúncia às mulheres, o indignado oráculo sobre Manágua e a intenção de
reforma não já de uma ordem religiosa, mas de um país socialmente
atormentado.
301
301
E. CARDENAL, Telescopio en la noche oscura, p. 19.
95
CONCLUSÃO
Quando começamos a estudar as obras de algum escritor renomado, normalmente
aderimos ao vício comum de tentar taxá-lo sob algum aspecto específico que julgamos
acompanhá-lo em sua trajetória. Especialmente no caso de Ernesto Cardenal, esta postura é
revestida do grave erro de caracterizá-lo apenas como um sacerdote revolucionário e como
um grande teólogo da libertação. Embora esses elementos componham de fato o todo
complexo que se entrelaça na personalidade do poeta, ele jamais pode ser compreendido
exclusivamente sob este pilar. A proposta de analisar a trajetória mística de Cardenal,
portanto, reveste-se de um instigante desafio, já que todas as faces do amor irradiadas por ele
jamais podem ser consideradas excludentes umas das outras, mas, ao contrário, formam
indissociavelmente a rede na qual se sustenta sua vida e produção literária.
Já em “Epigramas”, livro de poesias dedicado majoritariamente ao canto do amor
humano e à beleza das mulheres, é possível perceber, com olhos atentos, os conflitos de outra
natureza experimentados pelo jovem poeta. A angústia da forte presença insaciável de Deus já
mostra sua face limpidamente no penúltimo poema deste livro, quando o poeta canta sua
eterna busca pelo Amado.
302
Nele, assim, ao mesmo tempo em que estão inseridos poemas
dedicados às suas muchachas, como os tantos versados à Cláudia ou à Myrian, ou ainda à
sede pelo amor divino, é possível encontrar fortes elementos do despertar de um poeta
político, crítico e preocupado com a então situação de seu país. Escreve, por exemplo, uma
denúncia pela morte suspeita de seu companheiro Adolfo Báez Boné:
Te mataron e no nos dijeron donde enterraran tu cuerpo,
pero desde entonces todo el territótio nacional es tu sepulcro;
o más bien: en cada palmo del territorio nacional en que
no estás su cuerpo, ti resucitaste.
Creyeron que te matavan con una orden de ¡fuego!
Creyeran que te enterraban
y lo que hacian era enterrar una semilla
.
303
Da mesma forma, mesmo depois de sua experiência religiosa e, portanto, de sua
opção por entregar-se plenamente ao amor de Deus, jamais deixará para trás a atração que
302
E. CARDENAL, Epigramas, p. 58.
303
E. CARDENAL, Epigramas, p. 38.
96
sente pela beleza das mulheres, vistas agora, como reflexos limitados da face do Amado: “A
razão de ser do amor é porque o rosto do homem é a imagem e semelhança do rosto de Deus.
Amamos a Deus no rosto dos demais. (...) Em toda coisa bela, em todo rosto belo de mulher
está a face de Deus”
304
. O que Cardenal parece fazer, portanto, não é abandonar o amor
humano, mas apenas interpretá-lo sob a ótica desta nova experiência que mudou radicalmente
os rumos de sua vida. Jamais, no entanto, deixará de retornar ao passado e revelar os conflitos
inerentes às suas renúncias na vida:
2 A.M. Es la hora del Oficio Noturno, y la iglesia
en penumbra parece que esta llena de demonios.
Esta es la hora de las tinieblas y de las fiestas.
La hora de mis parrandas. Y regresa mi pasado.
“Y mi pecado esta siempre delante de mi” (…)
305
Como não poderia deixar de ser, “Guethsemnany, ky” revela, tamm, um poeta
ativista e atento à situação política de seu país:
(...) Las luces del palacio de Somoza están Prendidas.
Es la hora en que se reúnen los Consejos de Guerra
y los técnicos en tortura bajan a las prisiones.
La hora de los policías secretos y de los espías,
cuando los ladrones y los adúlteros rondan las casas
y se ocultan los cadáveres. Un cuerpo cae al agua.
306
Embora tenha optado pela vida monástica longe de casa, Cardenal nunca pôde
deixar na Nicarágua o amor que sentia pelo seu país. Esta é uma interessante pista que nos
leva a compreender seu retorno para a concretização da comunidade de Nossa Senhora de
Solentiname. Não havia lugar mais adequado a essa experiência do que sua terra, repleta com
seus lagos e vulcões. E é justamente nessa paixão pela natureza, na compreensão de que todas
as coisas são Deus, que Ele toca cada detalhe do universo, que está, também, o
amadurecimento da personalidade política do poeta. Assim, mais uma vez torna-se impossível
dissociar a essência do homem místico e do revolucionário, já que elas se complementam e
tornam-se imprescindível uma a outra. É a perspectiva mística da inserção do homem e de seu
papel na humanidade que molda a consciência política de Cardenal. Ao mesmo tempo, a
percepção da necessidade de concretização de uma reforma social apóia-se de forma
304
E. CARDENAL, Epigramas, p. 29.
305
CARDENAL, Ernesto. Poesía Completa, Vol. 1, p. 57.
306
CARDENAL, Ernesto. Poesía Completa, Vol. 1, p. 58.
97
substancial em sua teoria mística segundo a qual todas as relações que unem os seres da
natureza são relações de amor.
Nicarágua: terra de lagos, vulcões, e de tantos contrastes... Julho de 2008
Assim, mais uma vez nos deparamos com a necessidade de uma leitura totalizante
da obra e da vida de Ernesto Cardenal para que possamos compreender a motivação não só de
seus escritos, mas de sua atuação política. Em Solentiname, na celebração das missas, na
postura dialogal com os camponeses, nada temos mais que a manifestação da
consubstanciação de todo o amor experimentado por Cardenal, materializado agora naquela
experiência comunitária. “Evangelho em Solentiname”, portanto, contém todas as faces desse
amor que vinha sendo construído ao longo de toda uma vida e que, neste momento, está
canalizado para o amor ao próximo.
A atuação política de Ernesto Cardenal tanto como articulador da Revolução
Sandinista, como posteriormente como ministro da cultura, jamais pode ser compreendida
sem que nos remetamos à origem de sua formação política; e ela, sem dúvida alguma, está
diretamente relacionada à sua compreensão mística do universo. Está vinculada a todo um
processo que foi sendo construído desde sua infância, quando descobre a poesia, até a
juventude e maturidade. Seria um erro, no entanto, acreditar que todas as faces do amor em
Cardenal seguem em sua essência uma estrutura evolutiva. A dificuldade de trabalhar com
suas obras está justamente na relação dialética que cada manifestação amorosa de sua alma é
refletida em seus escritos. O poeta da juventude, apaixonado pela beleza das mulheres, já
98
carrega consigo traços do ativista político e do místico em busca da união conjugal com Deus.
O sacerdote reformador de Solentiname reflete em suas ações nada mais que suas antigas
preocupações sociais, amadurecidas pelo relacionamento com Thomas Merton. O ministro da
cultura revela, na prática, a esperança da concretização de um mundo por ele idealizado
quando escreve “Vida no amor”. O poeta maduro que compõe “Cântico Cósmico” e
“Telescópio na noite escura” só faz versar, numa linguagem mais livre e íntima, todas estas
faces do amor que o acompanharam em sua vida.
A escrita poética do autor, portanto, apresenta-se como objeto de materialização das
tantas faces do amor que emanam de sua alma. Em entrevista recente, o poeta comenta sobre
este assunto:
Apesar da dificuldade que possa ser crer em uma mudança luminosa a estas
alturas, com tantas revoluções fracassadas, e sem novos modelos de
transformação, a alma do poeta dispara a arma de sua palavra para ajudar-
nos a seguir acreditando que um mundo melhor está por vir.
307
No estudo das obras de Ernesto Cardenal, encontramos, assim, “um poeta que ia
desenvolvendo sua poesia para uma união temática com a sua profecia”
308
. Para Maria Irene
Alvarez, portanto,
a poesia de Cardenal é uma praxis. É o processo libertador manifestado em
arte, em poesia. É a história concebida como o processo de libertação do
homem; [...] a meta entendida como uma criação contínua de novas
melhores formas de ser homem e mulher, isto é, a revolução cultural
permanente
309
.
A poesia de Cardenal, portanto, representa a prática de sua própria vida e
experiência expressa em versos. O poeta canta, assim, em cada palavra sobre a beleza das
mulheres, a beleza maior representada pelo Amado. Em cada frase de conotação política, o
amor que interliga todos os seres da natureza. Em cada verso de intimidade profunda com
Deus, o lamento pela carência do amor humano, tão importante em sua juventude.
O palco de todos esses tantos amores e local de inspiração da atuação política de
Cardenal, no entanto, não sofreu muitas alterações ao longo do tempo. Enfraquecido pela
guerra civil com os “Contra”, o governo revolucionário sandinista não foi capaz de amenizar
307
PAPALEO, Cristina. Ernesto Cardenal. Las mejores revoluciones son las pacíficas e democráticas, 2004.
[página da internet]
308
W. DERUSHA, Ernesto Cardenal: Poesía y teología de la liberación, p. 161-181.
309
W. DERUSHA, Ernesto Cardenal: Poesía y teología de la liberación, p. 161-181.
99
todos os problemas estruturais da Nicarágua, embora tenha provocado um avanço
significativo, em especial no tocante à alfabetização de sua população. Hoje, porém, ainda
encontramos ali um país atrasado, com uma população majoritariamente pobre e que vive
carente de infra-estrutura básica, como saneamento e eletricidade. Ao mesmo tempo, é ali
também que encontramos um povo forte e que, inexplicavelmente a olhos como os nossos,
enfrenta sua difícil rotina de vida com uma alegria e perseverança raramente vistas. O povo
nicaragüense, assim como Ernesto Cardenal, parece ser feito de uma força interior
inquestionável e, por isso mesmo, foi e sempre será capaz de promover todas as tentativas de
reforma de sua sociedade. Embora o sonho revolucionário da antiga FLSN
310
tenha chegado
ao fim, ainda existe a esperança de que não só a Nicarágua, mas toda a América Latina
consiga libertar-se da situação de opressão e exploração a que é submetida. Resta apenas
“reinventar”, de uma maneira autêntica e adaptada às circunstâncias históricas atuais, novos
instrumentos de atuação política e social.
Foto realizada no interior do ônibus da linha que faz a
rota de San Carlos até Manágua. São 12 horas de
viagem por uma estrada em condições precárias. Os
passageiros: homens, mulheres e crianças que, sem
outra opção de transporte, submetem-se a essas
310
Refiro-me como “antiga FLSN”, o partido que esteve no poder durante a revolução sandinista. Hoje, embora
Daniel Ortega ostente a titularidade do comando da Frente de Libertação Sandinista Nacional, ela está dividida
por um grupo, o da “Renovação Sandinista Nacional”, que se opõe a seu governo, e do qual Cardenal faz parte.
100
condições para trabalhar e se locomover entre as duas
cidades. Julho de 2008.
Imagem de um casebre no interior da Nicarágua. A maior parte da população ainda vive
no campo, em precárias condições de vida. Julho de 2008.
Comunidade rural no interior da Nicarágua. A imagem mostra por si só a carência
do povo nicaragüense. Julho de 2008.
101
Enquanto isto, em Manágua, a imagem de um governo populista e que se mostra
incapaz de atender aos anseios da população. Julho, 2008.
102
Manifestando, mais uma vez, todas as faces do amor inerentes à sua alma, Ernesto
Cardenal continua, ainda hoje, sua luta contra a opressão na Nicarágua. É atualmente um dos
mais importantes opositores do governo de seu antigo aliado, Daniel Ortega e um dos
principais membros do partido de esquerda da oposição, a Frente de Renovação Sandinista.
Atualmente, aos 85 anos de idade, encontra-se exilado de seu país natal, fruto de sua
incansável atuação política. Segue, assim, focando todo o seu amor nas causas humanitárias,
já que continua a acreditar que “o mundo inteiro precisa de uma revolução, uma revolução
global, porque temos um sistema injusto, custoso, que não pode seguir mantido assim”
311
.
Tendo assumido uma postura visionária quanto ao futuro da revolução nos dias de hoje,
esclarece que esta nova revolução que está por vir, será
pacífica. O que faz a juventude protestando contra a globalização. Agora a
revolução não necessita nem de partidos nem de líderes. A vejo como mais
pessoal. Penso que devemos lutar por uma globalização sem exclusões.
Mas a globalização também tem seu lado positivo porque agora estamos
mais comunicados.
312
Cardenal, portanto, ainda acredita no sonho revolucionário, na materialização de
todo amor compreendido em sua vida. Cabe apenas a nós “confiar na natureza. As revoluções
nascem, crescem e morrem. Virá outra”
313
...
311
BBC Brasil entrevista Ernesto Cardenal: Nicarágua precisa uma segunda revolução, 2004. [página da
internet]
312
J. CAMPOS, Ernesto Cardenal: poeta, sacerdote e ex sandinista, 2002. [página da internet]
313
L. AMIGUET, Ernesto Cardenal: Mientras haya pobres, habrá teología de la liberación, 2008. [página da
internet]
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<http://www.dw-world.de/dw/article/0,,1353095,00.html> Acesso em: 22, jul, 2009.
SEMPRÚM, Raúl. Ernesto Cardenal habla del proceso venezolano desde Nicaragua.
Caracas: Versión Final, set, 2007.
<http://www.versionfinal.com.ve/wp/2007/09/30/%E2%80%9Cme-parece-bien-que-se-
ensene-marxismo-en-las-escuelas%E2%80%9D/> Acesso em: 21, jul, 2009.
SHADE, Eunice. Ernesto Cardenal en la voz deSérgio Ramirez. Managua: marcaacme.com,
jan, 2005.
<http://www.marcaacme.com/entrevista-view.php?id=10> Acesso em: 22, jul, 2009.
106
ANEXO 1 - ENTREVISTA COM ERNESTO CARDENAL
(Manágua, 15 de julho de 2008)
Letícia: A primeira coisa que chamou atenção quando li a sua biografia, diz respeito ao
contexto histórico que vivenciou em sua juventude (a Guerra Fria, as ditaduras na América
Latina, a Teologia da Libertação...), bem como quando de seu ingresso na Trapa (este
coincidindo, inclusive, com a Rev. Cubana). Acredita que de alguma forma a história das
décadas de 60 e 70 interferiram na sua trajetória não apenas como revolucionário, mas como
místico?
Cardenal: Naturalmente que influenciou. Quando eu cheguei ao monastério trapense, meu
mestre de noviços Thomas Merton muito me falou que na vida monástica não podia estar
indiferente ao social e ao político e, inclusive, sua lição foi não falar-me de mística e coisas
religiosas propriamente na direção espiritual. Falava-me, sim, de política, literatura, de meu
país, da América Latina, de seu mundo antes de ser um monge, de seus amigos que
atualmente tinha sempre fora do monastério... de tudo isso era de que falava... então
terminava a direção espiritual - isso o conto em minhas memórias - sem que me houvera
tocado o tema místico. Depois eu fui compreendendo que a mística era tudo, era minha vida...
Inclusive me disse varias vezes que Deus não me queria diferente do que eu era, que a
conversão a Deus não era mudar meu modo de ser, mas ser diante de Deus o que havia sido
sempre. Então voltei a ser o de antes, porque quando eu entrei no monastério, creia que teria
que romper com tudo, esquecer tudo e começar uma coisa nova. Segundo Merton, não era
assim. Que minha vida não mudava se não que unicamente era agora com Deus, e que a vida
contemplativa era a mesma vida natural de tudo. Estamos, nesta vida, como um peixe na água,
com a naturalidade de um peixe na água. Este foi seu ensinamento, por isto é que tudo me
passava e, inclusive ele me dava notícias da América Latina, porque não tínhamos nem rádio
nem cinema, nem TV, e só recebíamos cartas de nossas famílias e amigos quatro vezes por
ano e só podíamos receber quatro cartas cada uma dessas vezes. Estávamos muito
incomunicáveis, mas quando sucedia algo na América Latina, como a queda de um ditador,
uma mudança de governo, ou alguma dessas coisas, por exemplo, Merton comentava comigo.
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Letícia: É uma constante no seu primeiro livro de memórias, “Vida Perdida”, a contradição
que sentia entre a vida conjugal e a entrega a Deus. Ao mesmo tempo, em suas demais obras e
de forma ainda mais clara em “Vida no Amor”, percebo que a expressão afetiva pessoal,
assim como toda a interação humana com o universo, é também expressão divina, certo?
Desta forma, algum motivo especial para a renúncia ao matrimônio? Ou o senhor entende que
de alguma forma ele limita a experiência de Deus?
Cardenal: Pode ser, mas esta era a formação que eu tinha e esse foi o caminho a Deus, o
Celibato, a renúncia ao matrimônio. Em outras pessoas, pode ser o amor humano, o sexo, o
que leva a Deus. Especialmente como os muçulmanos, como o mostra Lopez-Baralt em seus
estudos sobre mística. A minha era diferente, a tradicional católica. Um caso especial meu, o
que era incompatível o matrimônio pela formação que eu tinha. Ele me criou assim, assim me
criou Deus.
Letícia: Outro traço marcante de suas vida é atração pelo amor não correspondido,
característica também presente na obra de outros grandes poetas. Mas a angústia do amor
inalcançável é também peculiar na trajetória dos místicos (na dos seres humanos, na verdade,
embora esses muitas vezes não compreendam assim). Acredita que este aspecto de sua
personalidade reflete, desde cedo, sua opção pela vida monástica e união com Deus?
Cardenal: Vou esclarecer… Não é que eu sentia atração pelo amor não correspondido, o que
eu conto é o amor não correspondido que aumentava o amor. Não era que eu gostava disso, eu
queria a correspondência. Não é que me gostava o amor não correspondido, mas que
unicamente que me fazia mais, não passava assim com o amor com Deus, que o sentia
correspondido, sempre o senti correspondido.
Letícia: Qual é o significado de 2 de junho em sua vida e porque você não gosta de falar
sobre esse dia?
Cardenal: Nem agora falaria! Este é um assunto sobre o qual eu não falo. Tudo que eu tinha
a dizer sobre isto, escrevi em meus livros. Você a conhece!
Leticia: Em um de seus artigos, Luce Lopez-Baralt disse que o senhor vai ser conhecido pelas
gerações futuras não como só como revolucionário, mas como um grande poeta místico.
Como o senhor avalia esta afirmação?
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Cardenal: Com bastante surpresa! Me estranha, pois, que diga isto. Não posso julgar se tem
razão ou não. Não posso julgar a mim mesmo quanto a isso, me estranha que assim seja.
Leticia: No início do livro “As ilhas estranhas”, o senhor fala que o amor fez de sua vida uma
vida perdida e que ela assim será para sempre. Porque o uso do termo “vida perdida” para
designar uma vida de amor correspondido pelo Amado?
Cardenal: Pelo que escrevi. Disse que eu cito, na introdução do livro: “O que ganha sua vida
a perde, e o que a perde, a ganha”. Que se tem que perder tudo para ganhar, ganhar a Deus. E
também por outro sentido, de que apesar de que com isto haja sempre uma perda, a perda do
humano, a que se renuncia.
Letícia: Ainda em “As ilhas estranhas”, o senhor faz alusão aos dizeres do padre Camilo
Torres, segundo o qual a luta revolucionaria é uma luta cristã e sacerdotal. Preocupa-me que o
cristianismo esteja distanciando-se cada vez mais nos dias de hoje, desta luta revolucionária
para o bem comum e venha alimentando somente às carências individuais dos seres humanos,
como é o caso, por exemplo das igrejas pentecostais e neopentecostais, cujas promessas de
salvação se relacionam a um bom casamento, carro, dinheiro... Mesmo na Igreja Católica, o
novo papado de Bento XVI parece mais preocupado em retomar discussões doutrinárias e
litúrgicas do que convocar seus fiéis ao amor incondicional ao próximo. Como o senhor vê
que esse quadro pode ser revertido? Como nos organizar para chamar os cristãos a viver o
amor e solidariedade pelo próximo?
Cardenal: Eu estou contra as religiões pelo mesmo que Marx dizia: que a religião era o ópio
do povo. A bíblia disse coisas mais fortes sobre a religião. Disse falando em nome de Deus:
não quero orações, não quero culto, não quero jejum, não quero sacrifício, estou cansado de
tudo isso! Quero a libertação dos oprimidos! Quando a Samaritana pergunta a Jesus qual dos
dois que deve ser verdadeiro, se (...) ou o de Jerusalém, porque tinham esta disputa, disse que
nenhum dos dois. Que não vai haver nenhum templo, que a Deus se lhe adora inteiro. São
João da Cruz, no Apocalipse, disse que no cosmo renovado ele não viu templo, disse que na
nova Jerusalém não havia, e os primeiros cristãos não eram religiosos. Como disse um dos
primeiros padres da igreja aos pagãos: nós não temos nem sacerdote, nem templo. Isso foi no
século III ou IV. No século III ou IV é que começa a haver religião. O que era igreja, a igreja
não era uma palavra religiosa. A igreja em grego significa assembléia, meu grupo, minha
109
comunidade, não diz meu templo ou igreja. E São Paulo também era igualmente ateu quanto à
religião, quando disse que para cristão todos os dias são iguais, não há sábado nem domingo.
O que passa é que instituíram novamente a religião, e o mundo se encheu de igrejas, de
maneira que aqueles ateus, anti-religiosos que incendiaram templos, pois o faziam no espírito
do evangelho. Eu fui amigo de um comunista espanhol, José Bergamin, era comunista
católico. Em tempos de PIO XII, todos os comunistas estavam nesse lugar, ele se sentia
católico, era católico. Eu lhe ouvi contar que, em Barcelona, saindo da cidade, encontrou um
grupo grande de gente que vinha, com muita alegria, muito júbilo, muito eufórico, gritando.
Ele então lhes perguntou: porque toda essa alegria? _ Queimamos uma igreja e libertamos
Deus! E ele aprovava isso... Esse é o verdadeiro espírito evangélico!
Letícia: Um dos traços peculiares da Revolução da Nicarágua, eu creio que é a participação
dos cristãos, muito evidente, muito participativa. Como o senhor percebe a vitória da
revolução e a participação popular dos cristãos na Nicarágua? Che afirma que o dia que os
cristãos da América Latina fossem revolucionários, a revolução latino americana seria
invencível. O que deu errado, afinal de contas?
Cardenal: A revolução da Nicarágua se perdeu, mas existem outras, e são invencíveis. Em
toda a América Latina existe um movimento revolucionário, que eu considero bem
invencível, e em grande parte é de cristãos também. Cristãos revolucionários cumprindo a fala
de Che. Está-se cumprindo não rapidamente, mas pouco a pouco. Começou a se cumprir na
Nicarágua. A Nicarágua foi o primeiro país que teve uma revolução que não era contra os
cristãos. Teve apoio massivo da população e, inclusive, com sacerdotes nessa luta. E depois,
quando acabou a revolução, os sacerdotes se desempenharam em cargos importantes do
governo, não só meramente decorativos. A formação de jovens encarregada a um sacerdote, e
também se lhe encarrega a cultura a um sacerdote, como o meu, sendo o ministério da cultura
o ministério ideológico da revolução. O ministério da literatura, das artes, da dança, do
artesanato, dos museus, dos patrimônios históricos. Algo muito importante em uma
revolução, nem tanto nos governos capitalistas. As revoluções foram as primeiras que
iniciaram os ministérios da cultura, como a revolução soviética, entre outros. E agora está
entendido a todas as partes do mundo, em governos não revolucionários. Mas naquele tempo,
era principalmente em uma revolução, e esse ministério foi encarregado por um padre. Então
me parece que foi algo historicamente muito importante e o primeiro caso da América Latina.
110
Depois a revolução salvadorenha, cristãos, monges, talvez com mais monges e sacerdotes que
na Nicarágua, isso mesmo também no Brasil, ali onde existem bispos e até cardeais.
Letícia: Sobre as missas camponesas de Solentiname, o senhor menciona que nelas, o mais
ousado é que se falava de um Deus que (suda) na rua, que faz fila para pegar seu jornal, que
foi visto vendendo loteria... Um Deus homem e trabalhador... Parece que o cristianismo hoje
trás uma tendência contrária, de ressaltar o aspecto divino de Jesus, sua transcendência em
relação ao ser humano, e acaba negligenciando seu lado homem, tão importante para que o
fiel cristão se aproxime de seu Deus e de sua mensagem. Nesse sentido, como o senhor
analisa o futuro do cristianismo no mundo?
Cardenal: É certo o que disse um dominicano francês: que no futuro a igreja no futuro seria
unicamente revolucionária. Eu assim o creio. Uma igreja de cristãos verdadeiramente, de
cristãos que vivem o evangelho, que vêm trazer a boa notícia para os pobres. O evangelho é
uma palavra grega que significa boa notícia, e boa notícia, explicava cristo, receberão os
pobres. Inclusive me parece que o futuro não vai ser religioso.
Letícia: O senhor menciona que, em suas reflexões quando esteve na Trapa, que se
convenceu que não era poeta, já que era um enorme esforço escrever, e se sentiu feliz por isto.
Disse também que não escrevia poesia religiosa e nem sabia como fazê-lo. É assim que
percebe suas obras posteriores? Parece-me que “Cântico Cósmico” e “Telescópio na noite
escura” são obras poéticas maduras, que expressam o hino ao amor celebrado em “Vida no
amor”...
Cardenal: Sim... São místicas, não religiosas...
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