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episódio que se seguiu posteriormente não foi menos simbólico: em uma tentativa de romper
a revolução, já que ela estava fortemente apoiada em suas bases populares, o Papa falou para
milhares de pessoas que foram vê-lo de todas as partes do país. Ao invés de se ater à esperada
celebração religiosa, o Pontífice adota uma postura política, discursando contra o governo que
se instalara na Nicarágua. Para Cardenal, o que mais desgostava a ele era que aquela era uma
revolução que não perseguia a Igreja.
238
Esta foi uma prova de fogo para a revolução. Se o
povo houvesse aplaudido o Papa, o governo cairia naquela mesma tarde. Na Nicarágua,
porém, havia um povo católico, mas também revolucionário que, em vez de aplaudir o papa,
protestou e defendeu sua revolução.
A interferência do Vaticano parece não ter sido capaz, portanto, de abalar a fé do
povo nicaragüense em seu “cristianismo revolucionário”. As ações norte-americanas, no
entanto, provocaram uma forte crise econômica no país, mergulhando-o em uma miséria
ainda maior do que aquela dos tempos da ditadura Somoza. Exaustos pela guerra, pelos
embargos e pela pobreza, 10 anos depois de seu triunfo, o governo sandinista se propunha a
realizar novas eleições na Nicarágua: “Na realidade a Frente Sandinista se havia proposto a
fazer umas eleições livres, justas e honestas, e foram tão livres, justas e honestas, que as
perdeu. (...) Se perdeu fundamentalmente pela ingerência dos Estados Unidos, que exerceram
uma pressão militar e econômica na população”
239
. Para Cardenal, no entanto, seja como for,
“ao perder as eleições, a revolução ganhou, demonstrando que era democrática. A derrota
eleitoral foi uma vitória moral”
240
. O poeta não deixa, porém, de expressar sua angústia desse
momento: “Se a madrugada do triunfo foi para mim o mais belo sonho de minha vida, a
madrugada da perda das eleições foi o pior pesadelo que tive”
241
.
O poeta lembra, porém, que a ação norte-americana foi decisiva para destituir o
governo sandinista, mas que a verdadeira revolução, a revolução ideológica, foi rompida pela
condição humana.
242
Ao perderem as eleições, alguns dirigentes da Frente Sandinista de
Libertação Nacional se corromperam promovendo, inclusive, o roubo de propriedades do
Estado.
243
Além disto, Sérgio Ramirez, em suas memórias sobre a revolução, afirma que “ao
identificar-se com os pobres a revolução foi radical no sentido mais puro, e por seu desejo de
justiça foi capaz das maiores ingenuidades e arbitrariedades, perdendo a perspectiva do que
238
E. CARDENAL, Lo que pasó con el Papa en Nicaragua. Hoja Filosófica, p. 22-26.
239
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 462.
240
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 468.
241
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 461.
242
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 404.
243
E. CARDENAL, La revolución perdida, p. 469.