
A iminência dos índios misturados
Lacerda-Lima, 2009
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oito anos, também ganhou a vida “mariscando gato”
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. Nessa “profissão” ganhou algum
dinheiro ao lado de seu irmão Antonio, mas pelo que me contaram não souberam administrar
seus lucros, perdendo tudo muito rápido, por isso logo tiveram que voltar a viver no lote junto
com a mãe que na época já era viúva do primeiro marido. Segundo seu Virgílio, quando ele
regressou ao lote da família em 1968, encontrou apenas um pedaço da terra que fora de seu
pai. Ele me explicou que,
“nessa época [sua mãe] já era mulher que pegava menino, parteira (...) Aí, através dos filho de
criação chegavam com ela: - Oh, cumade, a senhora tem muita terra, dá um pouquinho pra mim
fazer uma casa. Aí ela dava. E depois que cê faz uma casa num terreno alheio, aí se num pagar
os direito, num tem... num tem jeito, toma mermo. Aí foi acabando, né, aos pouquinho. Mas eu,
graças a Deus, o pedacinho que nós temo tá aí segurando. Como eu falei, eu trabalhei até essa
idade toda, depois que eu cheguei de lá, lutando com meus filho, valorizando o bem nosso, né...
filho, os neto, os irmão”
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.
Desde então seu Virgílio, jamais saiu do lote, “todo tempo trabalhando de roça, a nossa
sobrevivência era a roça: mandioca, porco, galinha...” explica. Seu Antonio, seu Bernardino e
dona Osvaldina
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, também passaram a maior parte da vida morando no lote da família
trabalhando no cultivo da mandioca. Os demais irmãos: dona Geralda
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, dona Bernalda
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,
dona Cândida
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, dona Esmeraldina, seu Olímpio (já falecido), seu Geraldino
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e também a
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Refere-se ao ofício de caçador de peles de onça que rendia um bom dinheiro na época.
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Seu Virgílio, 67 anos, nascido em 26.06.1940, entrevista realizada em outubro de 2007.
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Dona Osvaldina nasceu e se criou em Boa Vista, morava com a mãe e o irmão Bernardino e preferiu a “lida”
da roça a estudar em Altamira. Chegou a trabalhar como doméstica na cidade durante algum tempo, mas
decidiu tentar a sorte no garimpo, e depois retornou para o lote da mãe onde passou a viver com o marido.
Como já não era solteira construiu uma casa para morar com a família (trata-se da segunda casa, ver croqui)
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Dona Geralda, a filha mais velha, foi a primeira a deixar a casa dos pais para ir estudar na cidade. No início
ficava na casa de uma tia até se estabilizar, depois passou a ajudar os irmãos que desejavam estudar e tentar a
vida em Altamira. Dona Geralda desde tenra idade trabalhou em casa de família (acompanhando diferentes
patrões pode conhecer Belém, Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará), aos 20 anos decidiu regressar a casa de sua
mãe em Boa Vista, mas como não se adaptou com o padrasto foi viver em Altamira, lá trabalhou como
escrivã de delegacia durante dois anos – foi neste primeiro emprego que conheceu o homem que seria seu
marido por mais de trinta anos, o delegado. Depois que saiu da delegacia, fez um curso de enfermagem e
passou a trabalhar na profissão.
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Dona Bernalda saiu de casa para estudar quando tinha ainda nove anos, recebeu ajuda e incentivo da irmã
mais velha, dona Geralda, que na época tinha sua própria casa em Altamira. Trabalhou como vendedora em
diferentes lojas do centro comercial de Altamira, construiu sua casa na cidade onde passou a viver com os
três filhos da irmã Osvaldina, que lhe confiou as crianças para que pudesse trabalhar no garimpo. Voltou a
morar em Boa Vista por conta da doença da mãe, no final da década de 1990.
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Dona Cândida reside em Altamira há mais de 30 anos, ao perguntar-lhe sobre sua trajetória ela contou: “fui
professora do Mobral, alfabetizei trinta e cinco pessoas (...) aí fui pra Betânia [centro de formação da igreja]
fazer o curso de servente de merendeira, de lá eu vim, trabalhei, comecei a ser servente de merendeira,
trabalhei três anos, aí como o prefeito não quis mais (...) cortou todas as merendeira daqui da estrada, aí eu
saí. Aí passô. Quando foi em sessenta, setenta e nove, eu vendi aqui [o lote onde morava] e fui pra Altamira,
fui pra Altamira, aí lá em Altamira que eu comecei a ingressar, participar bacana mesmo, tava sem emprego a
Geralda [irmã mais velha] me ajudou, criar meus filho, dá alimentação, me deu casa pra eu ficar com meus
filho, me arranjou um emprego no hospital [dona Cândida também trabalhou como enfermeira], depois eu