
alguns índios Maués, outrora inimigos dos Munduruku, o engenheiro seguiu até o rio Cadiriri.
Ali, deixaram as canoas e seguiram por terra até uma das aldeias localizadas no interior,
considerado na época como habitat tradicional dos Munduruku.
Ao chegar à aldeia Necodemos, Gonçalves Tocantins conta que foi recepcionado por
cerca de oitenta guerreiros, todos bastante curiosos e receptivos.
A aldeia, localizada no alto
de uma colina, na região de campina, contava com uma casa dos homens no centro (eksa),
onde o engenheiro foi acomodado, e cinco casas ao redor, onde habitavam as mulheres e as
crianças. Ali, Tocantins recebeu de presente, em troca de uma espingarda e outros utensílios, a
cabeça mumificada de uma mulher Parintintin – tidos como os inimigos “preferenciais” dos
Munduruku.
Este presente não lhe foi entregue sem remorso, pois conforme relata, seu dono
estava como louco pela cabeça Parintintin. Não a deixava um só momento.
Quando chegou a occasião de eu retirar-me de Necodemos, como adiante
direi, elle, bem como doze outros índios, acompanhou-me durante oito dias
de viagem, através das matas, até as cabeceiras do Caderery. Durante este
trajecto, quando se approximava a noite e tinhamos de pousar, o índio
fincava em terra, junto á sua rede, uma haste que trazia expressamente para
isto, e sobre ella suspendia a cabeça, como em um cabide, cobrindo-a
cuidadosamente com uma toalha que eu lhe havia dado. Ao amanhecer, seu
primeiro olhar era para ella: punha-a sobre o collo, penteava-lhe com os
dedos os longos cabellos e acariciava-a, como se fosse uma filha querida. É
singular, porém, a extrema ternura com que o bárbaro tratava a cabeça de sua
inimiga (Tocantins 1877: 84-85)
A imagem de selvagens vivendo isolados num “estado de natureza” era amplamente difundida entre
os pesquisadores do século XIX. Podemos ver a expressão desse tipo de convicção quando Tocantins comenta,
ao visitar a aldeia Necodemos, que “realizava, enfim, um dos maiores desejos que sempre tive, isto é, vêr uma
tribu selvagem em seu estado primitivo, exactamente como devêra estar antes da descoberta do Brasil, vivendo a
lei da natureza, sem contacto algum de idéia com outros povos, que lhe alterasse as crenças e tradições” (1877:
81). Necodemos seria, de acordo com Coudreau (1997 [1897]), a aldeia Decodemos, considerada na cosmologia
como o primeiro local criado pelo herói mítico, Karusakaibö.
A cabeça recebida por Tocantins (1877: 84) tinha cabelo comprido, a fronte raspada até a metade
superior do crânio, e uma mexa circular no meio [figura 10]. No entanto, o autor registra que não havia o
costume de se cortar as cabeças das mulheres, sendo que esta havia sido pega por engano. Este dado não confere
com aquele fornecido por Murphy (1957: 1023), no qual consta que cortavam as cabeças dos inimigos, fossem
eles homens ou mulheres. Ao analisar questões relacionadas à caça de cabeças na mitologia Munduruku, Menget
(1993: 314) percebeu que, nas narrativas, as vítimas mais freqüentes são mulheres que recusam uma proposta
sexual. Contudo, na prática, os guerreiros Munduruku teriam preferência pela cabeça dos homens, deixando as
mulheres e as crianças para serem levadas como cativos. Outro aspecto interessante analisado pelo autor diz
respeito à socialização da cabeça enquanto Munduruku e enquanto homem, ou seja, apesar de ser propriedade do
matador, a cabeça era coletivizada e recebia um padrão de pintura facial e um corte de cabelo tipicamente
masculinos (Menget 1993: 315). Lucia Van Velthem analisou a procedência de uma série de troféus Munduruku
em coleções francesas e brasileiras e concluiu que estas pertenciam especialmente aos Parintintin, Apiacá e
Maué, não havendo nenhum registro de caça às cabeças dos brancos (ver Menget 1993: 314).