
leitura, ainda para as duas primeiras ocorrências, aproxima o então da relação lógica de causa
– “Ca nom tinha que comer / senom quanto queria” (pois [que] pouco tinha o que comer) – e
conseqüência – “foi-o entom vender / com mínguas que havia” (foi o [castelo] então vender),
em que a primeira proposição funciona como motivadora da que vem imediatamente em
seguida, ou da que está expressa mais adiante, no verso 17: “E foi-o vender entom”.
No terceiro caso (verso 23), mais uma vez, as possibilidades de leitura se mesclam: ao
mesmo tempo em que o então continua a estabelecer, simultaneamente, a seqüencialidade das
ações e a relação lógica de causa e conseqüência entre elas, podemos perceber, também, seu
potencial conclusivo, próprio das conjunções. Esta nova possibilidade de leitura deve-se ao
desenvolvimento em fases da ação do verbo, no que se refere ao aspecto verbal (Bechara,
2000:218): a mudança de “foi-o vender” (verso 11) para “vende[u]-o” (verso 23) orienta a
ação de vender da fase inceptiva, que marca o ponto inicial da ação, representada pela
perífrase “foi vender”, para a fase conclusiva, que considera a ação no seu término,
representada pela forma “vendeu”, o que coincide com o desfecho, ou conclusão, da narrativa
da cantiga. Em adição, o emprego do advérbio qualitativo
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“mal” – “vende[u]-o entom mal”
– atribui um julgamento de valor com relação à venda em questão, ou seja, o eu-lírico expõe
seu ponto de vista, numa atitude própria da argumentação. Finalmente, fazendo parte de todo
esse encaminhamento conclusivo, a última ocorrência do então traz em si traços
argumentativos, que, se não estão óbvios, são, no mínimo, iluminados pelo contexto em que a
argumentatividade, reforçada pelo emprego do advérbio “mal”, é clara. Desse modo, no
terceiro emprego do então, temos mais do que ambigüidade; podemos reconhecer, pelo
menos, três valores sintático-semânticos, em uma mesma ocorrência, para o termo em estudo:
seqüenciador, conector lógico e operador argumentativo de conclusão.
Outro dado que vale ressaltar a respeito do exemplo (29) é que, embora o então ocorra
em uma espécie de estribilho, trecho que, por natureza, é repetitivo, em cada ocorrência o
termo aparece em uma posição distinta, ora antes do verbo principal (“e foi-o entom vender”),
ora depois deste (“E foi-o vender entom” ou “E vende[u]-o entom mal”). Essa mobilidade,
como temos reiteradamente destacado, deve ser atribuída às suas origens como item
adverbial, já que esta é uma das características dos advérbios.
No caso ilustrado a seguir, percebemos no então traços que o aproximam,
simultaneamente, de um advérbio e de um operador de seqüencialidade.
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Seguimos a nomenclatura utilizada em OLIVEIRA, Marco Antônio. Algumas notas sobre a colocação dos
advérbios qualitativos no português falado. In: ILARI, Rodolfo (org.) Gramática do Português Falado, volume
II. 4ª. ed. rev., Campinas: Editora da Unicamp, 2002.