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Para os gregos causa é áßôéï í. No entanto, seu significado é diferente de tudo o que se
foi pensado entre os ocidentais nos anos que se seguiram. Áßôéï í é aquilo pelo que um outro
responde e deve. Nesse sentido, por exemplo, é que:
A prata é aquilo de que é feito um cálice de prata. Enquanto
uma matéria (àëç ) determinada, a prata responde pelo cálice. Este
deve à prata aquilo de que consta e é feito. O utensílio sacrificial não
se deve, porém, apenas à prata. No cálice, o que se deve à prata
aparece na figura de cálice e não de um broche ou anel. O utensílio
do sacrifício deve também o que é ao perfil ( åßäï ò) de cálice. Tanto
a prata, em que entra o perfil do cálice, como o perfil, em que a prata
aparece, respondem, cada uma, a seu modo, pelo utensílio do
sacrifício.
Responsável por ele é, no entanto, sobretudo um terceiro
modo. Trata-se daquilo que o define, de maneira prévia e antecipada,
pondo o cálice na esfera do sagrado e da libação. Com ele, o cálice
circunscreve-se, como utensílio sacrificial. A circunscrição finaliza o
utensílio. Com este fim, porém, o utensílio não termina ou deixa de
ser, mas começa a ser o que será depois de pronto. É portanto, o que
finaliza, no sentido de levar à plenitude, o que, em grego , se diz com
a palavra ôÝëï ò. Com muita freqüência, traduz-se ôÝëï ò. Por ‘fim’,
entendido, como meta, e também, por ‘finalidade’, entendida como
propósito, interpretando-se mal essa palavra grega. O ôÝëï òresponde
pelo que, na matéria e no perfil, também responde pelo utensílio
sacrificial.
Por fim, uma quarto modo responde ainda pela integração
do utensílio pronto: o ourives. Mas, de forma alguma, como causa
efficiens, fazendo com que, pelo trabalho, o cálice pronto seja efeito
de uma atividade.(...)
(...) O ourives reflete e recolhe numa unidade os três modos
mencionados de responder e dever. Refletir diz, em grego, ëÝãåéí ,
ëüãï ò. Funda-se no áðï öáßíåóèáé, no fazer aparecer. O ourives é
também responsável, com aquilo de onde parte e preserva o
apresentar-se e repousar em si do cálice sacrificial. Os três modos
anteriores de responder devem à reflexão do ourives o fato e o modo
em que eles aparecem e entram no jogo de pro-dução do cálice
sacrificial.
( HEIDEGGER, 2002: 14 )
As quatro causas na metafísica foram compreendidas em graus de importância. Assim,
a causa eficiente é a menos importante, enquanto a causa final é a mais importante. Pensando
dessa forma, numa sociedade escravocrata, por exemplo, terá o escravo como causa eficiente e
o senhor de engenho como causa final. Por isso, o escravo é o menos importante, uma espécie
de “coisa”, objeto que tem por finalidade a satisfação de seu senhor.