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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
A CIÊNCIA DA METAFÍSICA DE ARISTÓTELES
EDUARDO ISDRA ZÁCHIA
Porto Alegre, 2007
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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL
INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA
A CIÊNCIA DA METAFÍSICA DE ARISTÓTELES
EDUARDO ISDRA ZÁCHIA
Dissertação apresentada como
requisito parcial para a obtenção
do título de Mestre em Filosofia.
PROF. DR. BALTHAZAR BARBOSA FILHO
ORIENTADOR
Porto Alegre, 2007
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AGRADECIMENTOS
Ao CNPq, pela concessão da bolsa de pesquisa.
Ao professor Balthazar Barbosa Filho, meu orientador, não apenas por
estes dois anos de mestrado, mas pelo papel fundamental que desempenha na
minha formação filosófica desde o começo dos meus estudos de graduação.
Às colegas Priscilla Tesch Spinelli e Marina dos Santos, que
acompanharam este trabalho do seu início e sempre se mostraram dispostas a
auxiliar-me nas minhas mais diversas dificuldades frente aos textos aristotélicos.
À minha família, pelo imenso afeto.
A Lívia, por tudo o que há de mais importante na vida.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.....................................................................................................6
1 – A CIÊNCIA NOS SEGUNDOS ANALÍTICOS................................................10
2 – A CIÊNCIA NOS PRIMEIROS LIVROS DA METAFÍSICA............................49
3 – A NATUREZA DA CIÊNCIA DO SER ENQUANTO SER..............................86
3.1 – Indemonstrável por definição...........................................................89
3.2 – Uma aparente identidade estrutural.................................................92
3.3 – A posição de Michael Frede.............................................................95
3.4 – Uma nova concepção de ciência...................................................106
3.5 – A posição de Robert Bolton............................................................111
3.6 – A cientificidade da metafísica.........................................................114
CONCLUSÃO....................................................................................................120
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..................................................................124
INTRODUÇÃO
A presente dissertação se desenvolve a partir da formulação de uma
questão reguladora: como compreender o estatuto de ciência conferido por
Aristóteles, na Metafísica, à disciplina concernente ao estudo do ser enquanto
ser?
A origem da questão que aqui nos propomos a estudar é a seguinte:
Aristóteles dedica todo um tratado à análise do conhecimento científico, os
Segundos Analíticos, no qual é exposta a sua concepção relativa ao saber
científico e às condições de efetivação deste saber no homem. Já na
Metafísica, por sua vez, o filósofo tem como objetivo a constituição de uma nova
ciência – a mais eminente das ciências, aquela que mais propriamente faz jus ao
título de sabedoria. Portanto, nada mais natural do que querer encontrar apoio
na doutrina dos Analíticos para compreender os fundamentos da cientificidade
da disciplina que é apresentada na Metafísica.
1
Os Segundos Analíticos descrevem o conhecimento científico como uma
“disposição demonstrativa”: o silogismo demonstrativo constitui o instrumento
lógico mediante o qual o saber científico se forma no homem. A partir de tal
caracterização, constata-se uma espécie de incongruência entre o método
prescrito nos Analíticos e aquele praticado nas obras aristotélicas de cunho
científico. Pois, se a demonstração consiste num método de prova através do
qual o conhecimento científico se efetiva, por que – ao fazer ciência – Aristóteles
nem sempre estrutura sua argumentação demonstrativamente? Não há apenas
um modo de responder a esta aporia. Tratamos de duas possíveis soluções no
primeiro capítulo, apresentando as razões que nos fazem optar por um dos
caminhos alternativos. No entanto, seja qual for a maneira como dissolvemos a
1
Ao longo deste texto, o termo “Metafísica” – grafado em itálico e começando por letra
maiúscula – designará o tratado de Aristóteles, enquanto que “metafísica”, assim escrito,
designará a disciplina concebida neste mesmo tratado, a qual, como defendemos, se desdobra
em quatro momentos: aitiologia, ontologia, ousiologia e teologia.
aparente disparidade entre prática e prescrição, cabe outra indagação: também
a Metafísica pode ser considerada como uma obra de caráter científico, na
medida em que nela o Estagirita pretende desenvolver o projeto de uma nova
ciência. Sendo assim, ser-nos-á permitido atribuir à ausência de argumentos
que respeitem o método científico de prova, na Metafísica, as mesmas razões
aventadas no que diz respeito aos outros tratados de cunho científico? Ainda:
mesmo que o essencial do tratado da Metafísica não comporte demonstrações,
podemos sustentar que a disciplina metafísica possa provar demonstrativamente
as verdades fundamentais que lhe concernem? Partindo daquilo que
pretendemos deixar estabelecido no segundo capítulo, buscamos apresentar as
respostas para tais perguntas no terceiro capítulo desta dissertação.
2
Assim, vemo-nos diante de duas possíveis rotas: ou podemos sustentar –
a despeito das constantes menções ao longo da Metafísica por meio das quais
Aristóteles quer distinguir a ciência buscada das ditas “ciências especializadas”
– que a cientificidade da disciplina concernente ao “ser enquanto ser” se explica
nos mesmos moldes das ciências especializadas, na sua relação íntima com o
método demonstrativo de prova; ou, por outro lado, pode-se concluir que a
distância conceitual entre o estudo do ser enquanto ser e as ciências
particulares – as quais concentram suas pesquisas em gêneros do ser – é tal
que impõe um afastamento estrutural entre uma e outras, de modo a termos de
buscar fora dos limites dos Segundos Analíticos a base para a compreensão do
estatuto de ciência da metafísica.
Nossa proposta consiste numa explicação que fundamenta o estatuto de
ciência da disciplina do ser enquanto ser não no seu método, mas na posição
que tal disciplina ocupa em relação às ciências especializadas. Sendo assim,
defendemos que, sob certo aspecto, Aristóteles, na Metafísica, está
apresentando não só uma nova ciência, mas uma nova concepção de ciência,
na medida em que negamos que a doutrina dos Segundos Analíticos cubra todo
2
Utilizamos o termo “demonstração” de acordo com o significado que Aristóteles lhe atribui nos
Analíticos: um argumento dedutivo cujas premissas caracterizam-se pela sua universalidade e
necessidade.
o campo do saber científico. E se a Metafísica torna possível o projeto de uma
ciência única do ser enquanto ser, então, juntamente com esta nova ciência,
deve despontar uma nova concepção de ciência, mediante a qual possamos
compreender a cientificidade desta disciplina, e que, no entanto, não venha
substituir a antiga concepção dos Analíticos, mas, antes, somar-se a ela, pois
vem preencher um espaço que fora deixado vazio pela doutrina dos Analíticos.
O que nos permite dizer que as concepções dos Segundos Analíticos e da
Metafísica não rivalizam, mas se complementam. A explicação de como se
deve compreender esta posição fundamental da metafísica – numa escala
hierárquica dos diferentes tipos de manifestação do saber humano – em relação
às ciências demonstrativas constitui o momento culminante da dissertação.
Tendo em vista este projeto, dividimo-la em três grandes seções: na
primeira, apresentamos as linhas gerais da concepção aristotélica de
conhecimento científico de acordo com o primeiro livro dos Segundos Analíticos;
na segunda, passamos à exposição da natureza do projeto aristotélico na
Metafísica, na medida em que nele se visa à instituição de uma nova ciência
3
;
por fim, na terceira seção, enfrentamos diretamente a pergunta capital desta
dissertação, buscando respondê-la a partir dos dados organizados ao longo das
primeiras seções e pela introdução e análise crítica da posição de dois
estudiosos contemporâneos da filosofia do Estagirita, Michael Frede e Robert
Bolton, em relação aos quais pretendemos apresentar uma solução alternativa
para a questão que nos interessa.
Em virtude do ponto que nos propusemos a investigar, nossa dissertação
toma por base bibliográfica as duas supracitadas obras de Aristóteles: Segundos
Analíticos e Metafísica. Isto porque nosso tema de estudo gira em torno de dois
conceitos, os quais são tratados, cada qual, numa das referidas obras: ciência e
metafísica. De que maneira tais noções se comunicam quando da concepção
de uma disciplina voltada ao estudo do ser enquanto ser? – esta é a pergunta
que buscamos responder.
3
Para tanto, seguimos especialmente os textos de A. 1-2, Γ. 1-2 e E. 1.
No que diz respeito ao estudo da doutrina dos Segundos Analíticos,
fazemos uso de textos tanto clássicos quanto modernos, que nos servem de
bibliografia de apoio. Utilizamos desde o comentário de Tomás de Aquino até
trabalhos contemporâneos, como os de Ross, Porchat, Barnes e Mignucci.
4
Quanto ao estudo da Metafísica, além de bibliografia atual e do comentário de
Tomás de Aquino, usamos também os comentários de Alexandre de Afrodísia
aos primeiros livros desta obra.
5
No que concerne especificamente à questão
que diz respeito à cientificidade da disciplina metafísica, discutimos dois artigos
relativamente recentes, de Michael Frede e Robert Bolton – respectivamente,
“The Unity of General and Special Metaphysics: Aristotle’s Conception of
Metaphysics” (1987) e “Aristotle’s Conception of Metaphysics as a Science”
(1994) –, a fim de estabelecer, em relação a ambos, um contraponto.
É certo que, ao longo desta dissertação, passaremos – tanto no que
tange aos Segundos Analíticos quanto à Metafísica – por problemas
fundamentais de interpretação, para os quais não poderíamos fornecer uma
resposta. Muitas vezes também, por ter sempre em vista nossa questão
principal, passaremos por alguns pontos da obra aristotélica sem dar-lhes a
atenção que, numa outra circunstância de pesquisa, deveria ser-lhes concedida.
Ainda assim, além do nosso objetivo central, que é apresentar uma explicação
adequada e fundamentada para o ponto relativo ao estatuto de ciência da
metafísica, ficaremos satisfeitos se obtivermos algum êxito em tornar
filosoficamente interessante as questões que propomos.
4
Todas as obras de Tomás de Aquino comentador de Aristóteles serão citadas de acordo com a
divisão do texto latino em parágrafos da edição de Cathala & Spiazzi. Trabalhamos com as
traduções para a língua inglesa editadas pela Dumb Ox Books. Já os textos contemporâneos
serão citados mediante indicação do ano e página da obra.
5
As citações de Alexandre serão feitas respeitando a numeração da edição do texto grego
organizada por Michael Hayduck.
1 – A CIÊNCIA NOS SEGUNDOS ANALÍTICOS
Os Analíticos, juntamente com os Tópicos, as Refutações Sofísticas e a
Retórica, compõem o conjunto das obras nas quais Aristóteles toma a
argumentação como objeto de investigação. Nos Primeiros Analíticos, o tema
estudado é a argumentação silogística; neles, o filósofo se dedica à análise da
estrutura geral do silogismo. Como afirma Ross, “o seu objetivo é estabelecer a
natureza das proposições que formalmente justificam uma conclusão”.
6
Além de
tratar da configuração geral do argumento silogístico, a teoria dos Primeiros
Analíticos comporta também uma descrição minuciosa das diferentes figuras e
formas silogísticas. Logo no início desta obra, o filósofo define o silogismo como
“um argumento no qual, certas coisas tendo sido postas, algo diferente resulta,
em função delas, de necessidade”.
7
A partir desta definição geral, os diferentes
tipos de silogismos distinguir-se-ão apenas materialmente, vale dizer, em virtude
da natureza das premissas que operam em cada um.
8
Assim, no primeiro livro
dos Tópicos
9
, após reiterar a citada definição de silogismo presente nos
Analíticos, Aristóteles distingue três tipos de silogismo - demonstrativo, dialético
e erístico -, tomando por base os diferentes tipos de premissas ocorrentes em
cada um deles: o silogismo é demonstrativo se suas premissas são verdadeiras
e primeiras; dialético, se faz uso de premissas bem reputadas
10
; erístico, se é
6
Ross (1949), p.1.
7
Prim. An., 24
b
18-20.
8
Referimo-nos aqui não às diferentes figuras silogísticas e às diferentes formas em que se
subdivide cada figura – pois estas se distinguem material e formalmente. Queremos chamar a
atenção apenas para a distinção – esta sim puramente material – entre os tipos silogísticos
demonstrativo, dialético e erístico.
9
100
a
25-
b
25. É opinião dos estudiosos de Aristóteles que o primeiro livro dos Tópicos,
diferentemente dos livros centrais desta obra, tenha sido escrito depois dos Primeiros Analíticos,
isto é, depois de elaborada a teoria geral do silogismo. Ver, por exemplo, Brunschwig (2002), p.
LXXII-LXXVI.
10
Em Tópicos, Aristóteles escreve: “uma opinião bem reputada é aquela que é aceita seja por
todos, ou pela maioria, ou, ainda, pelos mais bios. Se pelos sábios, por todos eles, pela
maioria, ou pelos mais notáveis dentre eles” (100
b
22-24). Usamos a expressão “opinião bem
reputada” para traduzir o grego endóxon.
construído a partir de premissas que parecem bem reputadas, mas que de fato
não o são
11
.
A passagem para os Segundos Analíticos consiste na transição da
análise da argumentação silogística geral para a análise de um tipo particular de
silogismo – a demonstração. Cabe sustentar que o estudo do silogismo
demonstrativo se dá, nos Segundos Analíticos, na medida em que Aristóteles
visa, neles, à elaboração da sua teoria do conhecimento científico. Em outras
palavras, é porque a demonstração constitui o instrumento mediante o qual o
conhecimento científico se efetiva que Aristóteles passa a investigá-la nos
Segundos Analíticos. É em função de ser o instrumento próprio do
conhecimento científico que a demonstração é estudada na referida obra.
Os Segundos Analíticos têm início trazendo à tona um debate cuja origem
remonta ao Mênon de Platão. Neste diálogo, Sócrates e o jovem Mênon,
discípulo do sofista Górgias, estão em busca da definição de virtude. Atribulado
diante das dificuldades em defini-la, devido às constantes objeções socráticas,
Mênon formula a seguinte dificuldade, para a qual Sócrates confere a estrutura
de um dilema:
MEN. E de que modo procurarás, Sócrates, aquilo que não sabes
absolutamente o que é? Pois procurarás propondo-te <procurar> que tipo de
coisa, entre as coisas que não conheces? Ou, ainda que, no melhor dos casos,
11
Há uma dificuldade concernente a como compreender a caracterização dos silogismos
erísticos, por oposição aos dialéticos, como aqueles cujas premissas são apenas aparentemente
bem reputadas. Como entender a natureza destas premissas? Robin Smith (1997) sustenta que
os Tópicos são destinados a um público familiarizado com uma gama de truques argumentativos
que nos fazem aceitar certas premissas de natureza capciosa, mas que, uma vez apreendido o
ardil, torna-se óbvio que não deveríamos ter concedido a premissa inicial. Como exemplo, o
comentador cita o silogismo do chifrudo: “Aquilo que tu não perdeste, tu possuis; não perdeste
teus chifres, portanto és chifrudo”. O mencionado silogismo não é invalido, apenas parte de uma
premissa falsa. Para cair no truque, é preciso conceder a primeira premissa, o que se explica
em função da aparente plausibilidade da afirmação quando tomada isoladamente, isto é,
desvinculada de um contexto silogístico. Tendo visto o que dela se segue, compreendemos a
sua falsidade, retirando o assentimento. Assim, dir-se-á que os silogismos erísticos são aqueles
forjados com a intenção de confundir o interlocutor, a partir de premissas que, tomadas
isoladamente, soam plausíveis, mas que, uma vez apreendido o ardil do silogismo, têm sua
falsidade captada. É nessa medida que suas premissas são aparentemente bem reputadas:
pois que, consideradas isoladamente, não vemos razão para rejeitá-las, embora possamos, ao
inseri-las num silogismo, perceber com facilidade sua natureza enganosa.
a encontres, como saberás que isso <que encontraste> é aquilo que não
conhecias?
SO. Compreendo que tipo de coisa queres dizer, Mênon. Vês quão erístico é
esse argumento que estás urdindo: que, pelo visto, não é possível ao homem
procurar nem o que conhece nem o que não conhece? Pois nem procuraria
aquilo precisamente que conhece - pois conhece, e não é de modo algum
preciso para um tal homem a procura - nem o que não conhece - pois nem
sequer sabe o que deve procurar
.
12
O malogro ante a busca pela definição de virtude leva Mênon à
elaboração de uma dificuldade que é expandida para toda e qualquer pretensão
humana de investigação racional, a partir da qual Sócrates extrai o seguinte
dilema: não podemos investigar nem o que conhecemos nem o que
desconhecemos. No primeiro caso, porque, já conhecendo, prescindimos de tal
investigação; no segundo, porque, ignorando o alvo da investigação, seríamos
incapazes de reconhecê-lo, se com ele nos deparássemos. O dilema, que
atravanca toda busca por conhecimento, limitando o saber àquilo que já se sabe,
é dissolvido por Platão mediante a tese segundo a qual o conhecimento é
reminiscência. Assim, desobstrui-se uma das vias do dilema, sustentando-se
que nada nos é desconhecido. Não há nada a respeito do que sejamos
ignorantes. Sob certo aspecto, tudo conhecemos. A tese do (re)conhecimento
como rememoração pressupõe, por sua vez, as teses da imortalidade da alma e
da existência de um plano para além do sensível, no qual habitam Idéias
imutáveis, por semelhança às quais as coisas do mundo sensível são como são.
Conhecer, desse modo, nada mais é do que relembrar aquilo que uma vez se
contemplou, quando a alma, desencarnada, teve acesso ao plano das Idéias.
Cabe à maiêutica, método socrático em que o filósofo auxilia o interlocutor a
extrair de si mesmo a verdade procurada, a tarefa da rememoração.
Podemos dizer, sem o temor de ser excessivos, que toda a doutrina
acerca do conhecimento científico desenvolvida nos Segundos Analíticos
12
Mênon, 80d-81. Cito aqui a recente tradução de Maura Iglésias, da série Bibliotheca Antiqua
(2001).
funciona como uma resposta alternativa à de Platão ao problema da
investigação constatado, no diálogo, pelo jovem sofista Mênon. É assim que
Aristóteles dá início à sua referida obra, afirmando que “todo ensinamento e todo
aprendizado intelectual procedem de um conhecimento já existente” (71ª1-2).
Segundo o filósofo, portanto, a aquisição do conhecimento científico pressupõe,
por parte daquele que o adquire, a posse de uma espécie pré-científica de
conhecimento. Tal conhecimento pressuposto é de duas espécies: de existência
ou de essência. Enquanto que, de algumas coisas, precisamos supor que elas
são, acerca de outras, precisamos supor o que são elas. O objeto de
conhecimento científico - aquilo a respeito do que se tem ciência - consiste na
conclusão de um silogismo demonstrativo. Antes que obtenhamos a conclusão,
isto é, antes do fechamento da demonstração, é possível dizer que, sob certo
aspecto, já se possui ciência acerca daquilo de que se busca ciência. Como
sustenta Aristóteles, “nada impede que, sob certo aspecto, já saibamos e que,
sob outro, sejamos ignorantes acerca daquilo que estamos aprendendo. O
absurdo não é que, num sentido, já se saiba aquilo que se está aprendendo,
mas que o saibamos da mesma forma e sob o mesmo aspecto em que estamos
aprendendo” (71
b
6-9). É essa distinção de aspecto, a qual se encontra
fundamentada na mais importante distinção metafísica operante na filosofia
aristotélica - aquela entre potência e ato -, que pretende dissolver o dilema
platônico acerca da investigação. Aqui talvez não seja demasiado um
apontamento acerca do método argumentativo de Aristóteles: é recorrente no
sistema aristotélico a introdução de distinções de cunho metafísico cuja
finalidade é, mediante o exame crítico do senso comum, salvar as aparências.
13
Ao apelar para noções como a da imortalidade da alma, a da existência de um
plano para além do sensível no qual residem as Idéias eternas e a de um
contato da alma desencarnada com tais Idéias, acabamos por nos comprometer
com coisas que estão muito afastadas daquilo que se costuma considerar
13
O termo grego phainomenon, como sabemos desde o artigo de Owen (1986a), pode significar
tanto “aparência”, aquilo que resulta da observação empírica, quanto “opinião reputada”,
estabelecendo-se como sinônimo de endóxon. Mediante a introdução de distinções, Aristóteles
busca mostrar como, sob certo aspecto, os phainomena correspondem à verdadeira estrutura da
realidade, bem como, sob outro, devem ser corrigidos a fim de serem fiéis ao ser.
plausível e que servem como sustentáculo para a afirmação de uma tese não
menos distante do senso comum: aquela de acordo com a qual todo
conhecimento é rememoração. Assim, a posição aristotélica parece ser que
precisamos supor muito menos do que o contido na solução platônica para
eliminar o supracitado dilema e, ainda assim, preservar a concepção pré-
filosófica segundo a qual, quando conhecemos, estamos de fato aprendendo
algo novo. A solução aristotélica do paradoxo da investigação requer a distinção
entre dois tipos de conhecimento - potencial e atual.
Antes do fechamento da demonstração, temos, então, conhecimento
potencial da conclusão, mas não em ato. Sob certo aspecto - isto é, em
potência - já conhecemos aquilo que aprendemos; sob outro, em ato, não. O
conhecimento em ato das premissas, tomadas isoladamente, nos fornece um
conhecimento potencial da conclusão. No entanto, conhecer em potência não
equivale a conhecer em sentido próprio: para progredir de um conhecimento em
potência para um conhecimento em ato da conclusão, é preciso que tomemos
as premissas em conjunto, na relação mútua que elas mantêm entre si. O que
leva Ross a afirmar que “a inferência é um processo real, um avanço para algo
novo, o tornar explícito daquilo que estava implícito, a atualização de um
conhecimento que era apenas potencial”.
14
Ainda no início dos Segundos Analíticos, Aristóteles introduz a sua
concepção de conhecimento científico: “cremos conhecer algo cientificamente,
em sentido próprio, e não, à maneira sofística, por acidente, quando cremos
conhecer a causa pela qual a coisa é, que ela é sua causa, e que a coisa não
pode ser de outra maneira”.
15
De acordo com a passagem, o conhecimento
científico se revela um conhecimento causal do necessário. Duas
características, portanto, vêm à tona: uma relativa ao modo de conhecer; outra
concernente à coisa conhecida. O conhecimento científico é um conhecimento
pela causa. Qualquer um que queira conhecer algo cientificamente deve
conhecer dessa maneira, a saber, causalmente. Porém, algo mais é preciso e
14
Ross (1949), p.40.
15
Seg. An., 71
b
9-12.
este algo diz respeito mais à coisa conhecida do que ao modo como devemos
abordá-la. Algo só pode ser objeto de conhecimento científico se não puder ser
de outra maneira, ou seja, se for necessário.
16
Imediatamente após ter
apresentado a sua concepção de conhecimento científico, Aristóteles identifica o
instrumento mediante o qual este tipo de conhecimento é adquirido - a
demonstração. Assim, dir-se-á ser o conhecimento científico o conhecimento
causal do necessário adquirível mediante demonstração
17
.
Já mencionamos como Aristóteles, a partir de uma definição geral de
silogismo, passa a distinguir os tipos específicos de silogismo em função da
natureza das premissas ocorrentes em cada um destes diferentes tipos. Isto
vale por dizer que os diferentes tipos de silogismo não se distinguem pela sua
forma, mas apenas pela sua matéria. É assim que vemos Aristóteles distinguir,
no primeiro livro dos Tópicos, entre silogismo demonstrativo e silogismo
dialético: enquanto este se baseia em premissas apenas bem reputadas, aquele
se funda sobre premissas verdadeiras e primeiras. Nos Segundos Analíticos,
Aristóteles passa a uma análise mais minuciosa da natureza especial das
premissas constituintes do silogismo demonstrativo, aquele mediante o qual o
conhecimento científico se efetiva.
Se conhecer cientificamente é, pois, como estabelecemos, também é necessário
que a ciência demonstrativa parta de premissas verdadeiras, primeiras,
imediatas, mais conhecidas, anteriores e causas da conclusão; pois, assim,
também os princípios serão apropriados à coisa demonstrada. Com efeito,
haverá silogismo mesmo sem essas condições, mas não haverá demonstração,
pois ele não produzirá ciência. (Seg. An. I, 2, 71
b
20-25)
Uma vez que a demonstração foi reconhecida como o instrumento de
efetivação do conhecimento científico e na medida em que é pela natureza de
suas premissas que se distinguem os diferentes tipos de silogismo, a análise do
16
Em Metafísica Δ. 5, Aristóteles trata dos diferentes sentidos do termo necessário, sustentando
que todos os outros sentidos do termo são derivados daquele segundo o qual o necessário é
aquilo que não pode ser de outra maneira.
17
Assim como o faremos ao longo deste capítulo, também Mario Mignucci (1975) interpreta a
posição aristotélica nos Segundos Analíticos como sendo que a demonstração é o instrumento
próprio do saber científico. Ver, por exemplo, p. 21.
tipo de conhecimento que é a ciência nos remete diretamente ao exame da
natureza peculiar das premissas do silogismo demonstrativo. Desta forma, a
demonstração nada mais é do que o silogismo no qual um tipo especial de
premissa se faz operante. É à justificação destas notas características que
compõem as premissas do silogismo científico que o filósofo agora se dedica.
Em primeiro lugar, devem as premissas do silogismo demonstrativo ser
verdadeiras, “pois não se pode conhecer aquilo que não é” (71
b
26).
Conhecimento é conhecimento do ser; portanto, o que não é não pode ser
conhecido. Seguindo o exemplo do próprio filósofo, não se pode ter
conhecimento acerca da comensurabilidade da diagonal com o lado do
quadrado, visto que a diagonal é incomensurável com o seu lado. Se só há
conhecimento daquilo que é, então, dada a reciprocidade do ser e do
verdadeiro, só o verdadeiro é cognoscível.
18
Portanto, se a conclusão de um
silogismo demonstrativo deve ser verdadeira, na medida em que é através dele
que se obtém conhecimento científico, também as suas premissas devem ser
verdadeiras. Pois, ainda que se possa extrair uma conclusão verdadeira de
premissas falsas, não se pode conhecer cientificamente o verdadeiro exceto
mediante o verdadeiro.
Também é preciso que as premissas da demonstração sejam imediatas.
Isto é, elas não devem ser obtidas através de um termo intermediador, o que
vale por dizer que elas mesmas devem ser indemonstráveis, já que toda
demonstração se dá a partir de um mediador. Como explica Tomás de Aquino
em seu comentário à passagem, suponhamos que aquele que demonstra efetue
o seu silogismo a partir de premissas demonstráveis. No caso, ou bem ele
possui a demonstração de tais premissas ou bem não a possui. Se ele não a
possui, então ele não terá conhecimento científico das premissas e, por
conseguinte, tampouco o terá da conclusão, na medida em que o conhecimento
da conclusão é extraído do conhecimento das premissas. Mas, se ele de fato
18
Que se entenda: é claro que posso saber que não está chovendo, isto é, que é o caso que não
está chovendo, quando não está chovendo. O ponto é que eu não posso saber que não está
chovendo, quando, de fato, está chovendo. Em resumo, se sei que p, então p é o caso. Mas é
porque p é o caso que eu posso saber que p.
possui a demonstração das premissas, então, já que não se pode regredir ao
infinito na cadeia demonstrativa, deve-se alcançar princípios que sejam, por
suas vezes, indemonstráveis. Conseqüentemente, toda demonstração deve
partir, em última análise, de premissas imediatas.
19
E é porque elas são
primeiras que elas são imediatas: é porque não há nada anterior a elas, isto é,
porque não há nada que lhes possa servir de princípio, que elas são
indemonstráveis.
Outra nota característica das premissas do silogismo demonstrativo é que
elas são causa da conclusão. Isto porque, segundo Aristóteles, o conhecimento
científico consiste justamente num conhecimento causal. Deste modo, as
premissas constituem as causas através das quais conhecemos cientificamente
uma conclusão. Se, em contrapartida, as premissas do silogismo não forem
causa própria da conclusão, então não teremos - mediante tal silogismo -
conhecimento científico em sentido estrito. E é por serem causa da conclusão
que as premissas da demonstração serão anteriores e mais conhecidas em
relação à conclusão
20
. Para explicar estas duas outras notas constitutivas das
premissas do silogismo demonstrativo, Aristóteles precisa distinguir dois modos
pelos quais as expressões “anterior” e “mais conhecido” são ditas. As
expressões “anterior” e “mais conhecido” podem ser ditas por natureza ou para
nós. É anterior e mais conhecido para nós aquilo que está mais próximo à
sensação; enquanto que é anterior e mais conhecido por natureza o que se
encontra mais afastado da sensação. Desta maneira, se, por um lado, os
19
Comentário aos Segundos Analíticos de Aristóteles, lição 4 (71
b
8-72
a
8). Sigo a tradução
inglesa da obra tomásica (1970).
20
É preciso que se diga algo, tendo em vista o leitor moderno, acerca da afirmação que as
premissas são causa da conclusão. Na medida em que se caracterizou o conhecimento
científico como um conhecimento causal do necessário – isto é, eu conheço cientificamente x se
x não pode ser de outro modo e se eu conheço as causas pelas quais x é tal como ele é –,
então, se a conclusão (que constitui o meu objeto de conhecimento) é estabelecida por meio das
premissas, estas devem expressar as causas daquilo que é dito na conclusão. Por exemplo, se
na conclusão se afirma que há o eclipse, então as premissas devem manifestar as causas pelas
quais se dá o eclipse. Assim, em sentido próprio, a relação causal se manifesta entre fatos (no
caso, entre o eclipse da lua e a interposição da Terra entre o sol e a lua). No entanto, porque
premissas e conclusão reproduzem fielmente esta relação que se verifica no plano ontológico,
dir-se-á, por derivação, que umas são causa da outra. Ou seja, a reciprocidade entre o ser e o
verdadeiro permite que aquilo que é dito, em sentido estrito, do ser seja dito, derivativamente, do
discurso fiel acerca do ser.
universais, estando mais afastados da sensação, são considerados mais
conhecidos e anteriores por natureza, os indivíduos, por outro lado, na medida
em que estão mais próximos à sensação, são avaliados como mais conhecidos
e anteriores para nós. O mais conhecido para nós nada mais é do que aquilo
que, em virtude da estrutura cognoscitiva humana, primeiramente apreendemos.
Ora, aquilo que, dada a nossa natureza, primeiramente conhecemos é o que
apreendemos mediante a sensibilidade, visto que, no homem, ela é ponto de
partida do conhecimento. Assim, pode-se dizer que o anterior e mais conhecido
para nós é aquilo de que partimos; enquanto que o mais conhecido e anterior
por natureza consiste naquilo a que visamos. Tendo sido feita a distinção, dir-
se-á que as premissas da demonstração são mais conhecidas e anteriores por
natureza. Como afirma o filósofo, “aquilo em razão de que um atributo pertence
a algo possui tal atributo em sentido mais apropriado - por exemplo, aquilo em
razão de que amamos algo é em si mais amado” (72ª30-32). Sendo assim,
diremos que as premissas da demonstração são em si mesmas mais
conhecidas e anteriores em relação à conclusão na medida em que é em razão
delas que a conclusão vem a ser conhecida. O conhecimento das premissas
causa o conhecimento da conclusão. Nesse sentido, Ross afirma que “na
demonstração, não estamos passando de premissas familiares para uma
conclusão menos familiar, mas explicando um fato que nos é familiar,
deduzindo-o a partir de fatos menos familiares, porém mais inteligíveis”.
21
Tendo afirmado que o conhecimento prévio do qual parte todo
ensinamento e aprendizado discursivos é de dois tipos – um relativo ao “quê”,
outro, ao “o que” –, Aristóteles se volta a uma caracterização mais precisa dos
tipos de princípios que, embora operantes na demonstração científica, são, eles
mesmos, indemonstráveis. Segundo o filósofo, o silogismo científico faz uso de
três diferentes tipos de premissas: axiomas, hipóteses e definições. Os
axiomas, nas palavras de Aristóteles, consistem naqueles princípios “que devem
ser conhecidos por qualquer um que queira aprender qualquer coisa” (72ª17).
Os exemplos recorrentes de axiomas citados pelo filósofo são não apenas os
21
Ross (1949), p. 54.
princípios gerais do ser enquanto ser, como o de não-contradição e o do terceiro
excluído, mas também princípios cuja generalidade não se estende a todo o
campo do ser enquanto tal, mas a toda uma categoria de ser, como o que diz
que, se iguais são subtraídos de iguais, restam iguais - princípio este aplicável
às quantidades em geral. Hipóteses e definições são espécies distintas de um
tipo de princípio que o filósofo chama de tese, o qual se contrapõe aos axiomas
na medida em que não precisa ser conhecido por quem quer aprender qualquer
coisa. As teses, diferentemente dos axiomas, não são princípios comuns a todo
aprendizado, mas restritos a campos particulares do saber. “A tese que assume
uma das partes do par contraditório - quer dizer, que algo é ou que não é -
chamamos de hipótese” (72ª19-21). Uma hipótese científica, visto que só há
ciência do que é, consiste na suposição da parte positiva do par contraditório,
mediante a qual se sustenta que algo existe. Deste modo, a hipótese é um
princípio da demonstração que assume a existência de algo, que diz que algo é.
Já as definições são teses que não dizem respeito à existência, mas que
supõem o que algo é. A concepção aristotélica é que, numa ciência, supõe-se a
definição de todos os termos técnicos nela ocorrentes, enquanto que, no que
respeita à existência, supõe-se a dos sujeitos primeiros - os quais delimitam o
próprio escopo da ciência em questão, como, por exemplo, a unidade na
aritmética ou a grandeza espacial na geometria - e prova-se a dos atributos a
serem afirmados daqueles sujeitos.
A concepção segundo a qual avançamos para um novo conhecimento a
partir de um conhecimento prévio, isto é, que o conhecimento da conclusão de
um silogismo demonstrativo repousa sobre um conhecimento anterior e mais
elevado, o das premissas, se presta, pensa Aristóteles, a duas falsas
interpretações. Uns, diante da asserção que é preciso conhecer as premissas
para conhecer a conclusão, são levados a afirmar que, sendo assim, não há
conhecimento; outros sustentam que há, mas que tudo é demonstrável. Os
primeiros dizem que, se não houver princípios imediatos, então haverá uma
regressão infinita na cadeia demonstrativa, o que, por sua vez, torna impossível
o conhecimento, devido à impossibilidade de se rastrear uma cadeia infinita de
argumentos. Por outro lado, havendo tais princípios imediatos, estes se fazem
incognoscíveis, na medida em que todo conhecimento é obtido por
demonstração. Sendo incognoscíveis os princípios, tampouco se poderá
conhecer cientificamente o que deles se segue, já que, como concebe
Aristóteles, conhecemos cientificamente quando apreendemos a relação causal
entre uma coisa e outra: incognoscível a causa, incognoscível o efeito.
Podemos bem ver que a argumentação acima segue a forma de um dilema:
duas vias que levam a um mesmo ponto – à impossibilidade do conhecimento.
Tanto se há princípios imediatos, quanto se não os há, em ambas as alternativas
a possibilidade do conhecimento se vê atravancada. Já os segundos, supondo
também que todo conhecimento se dá mediante demonstração, o consideram
obtenível, na medida em que, para eles, nada impede que a cadeia
demonstrativa se articule circularmente. Para Aristóteles, no entanto, a tese da
cadeia demonstrativa circular é contrária à concepção segundo a qual todo
silogismo demonstrativo parte de premissas anteriores e mais conhecidas por
natureza. Isto porque, numa argumentação circular, algo é, ao mesmo tempo,
premissa e conclusão, na medida em que, ao mesmo tempo em que serve para
provar algo, é provado por este algo. Se assim fosse, dir-se-ia que uma coisa é,
ao mesmo tempo, tanto anterior e mais conhecida quanto posterior e menos
conhecida, o que é impossível. Ademais, o filósofo sustenta que a eficácia do
método circular de prova se reduz à obtenção de resultados tautológicos do tipo
“Se A é o caso, então A é o caso”. Porque querer provar que B é o caso se A for
o caso e, ao mesmo tempo, que A é o caso se B for o caso equivale a dizer que
A é o caso se A for o caso.
Evitando tanto o infinitismo quanto a circularidade, Aristóteles vai
sustentar que nem todo conhecimento se dá por demonstração, mas que os
princípios da demonstração são conhecidos de outro modo que não
demonstrativamente. “E é claro que as coisas devem ser assim: pois, se
devemos conhecer os itens que são anteriores e a partir dos quais a
demonstração procede e se as coisas devem, num momento, parar, então os
princípios imediatos devem ser indemonstráveis” (72
b
20-23). Dos princípios
primeiros do silogismo demonstrativo, portanto, não haverá ciência, mas um tipo
peculiar de conhecimento, mais fundamental do que o científico, o qual
Aristóteles denomina de “princípio de ciência”. Mantém-se, assim, a tese que
todo conhecimento científico se dá por demonstração, sustentando-se que o
conhecimento dos princípios, por ser ponto de partida da ciência, não é ele
mesmo científico, mas protocientífico - base sem a qual a ciência não se
estabelece.
Já mencionamos que, segundo Aristóteles, o saber científico consiste
num conhecimento do necessário - mais especificamente, conhecimento causal
do necessário. Portanto, aquilo que é objeto de conhecimento científico - a
conclusão de um silogismo demonstrativo - não pode ser de outra maneira.
Sendo assim, se o que se conhece cientificamente é necessário, deve também
ser necessário aquilo a partir do que procede a demonstração. Ou seja:
necessária a conclusão, necessárias as premissas. Temos, por conseguinte,
além da verdade, que já distinguia o silogismo demonstrativo de outros tipos
silogísticos, a introdução de mais uma nota característica das premissas
científicas - a necessidade. A premissa científica não é apenas verdadeira, mas
necessariamente verdadeira. “A demonstração é um silogismo que parte de
coisas necessárias” (73ª25). Mas o que caracteriza uma premissa necessária?
São três os tipos de relação que devem existir, pensa Aristóteles, entre
um sujeito e um predicado numa proposição para que esta possa ser dita uma
premissa científica. Primeiramente, o predicado deve ser sempre verdadeiro de
toda instância do sujeito: não pode haver nada na extensão do sujeito a que o
predicado não se aplique; e não pode haver nenhum instante em que tal
predicado não se aplique. Como exemplifica o filósofo, “animal” é predicado de
todo homem: de tudo a respeito do que é verdadeiro dizer que é um homem, é
verdadeiro dizer que é um animal; e sempre que se pode dizer que é um
homem, pode-se dizer que é um animal.
Em segundo lugar, o predicado deve pertencer por si ao sujeito.
Aristóteles apresenta quatro sentidos em que o termo “por si” é dito.
22
Os dois
tipos de relação por si entre sujeito e predicado considerados relevantes à
questão da natureza necessária das premissas científicas são os seguintes: (i) o
predicado pertence por si ao sujeito quando ele <predicado> é parte
componente da definição do sujeito - assim, a linha pertence por si ao triângulo,
visto fazer parte da definição de triângulo; (ii) o predicado pertence por si ao
sujeito quando ele <predicado> não pode ser definido sem mencionar o sujeito -
é nesse sentido que o par e o ímpar pertencem por si ao número e o reto e o
curvo, por si à linha. Nesse segundo sentido de relação por si, o curvo e o reto
são ditos pertencerem por si à linha, já que a linha faz parte da definição de reto
e curvo e, dada uma linha, ou bem ela é reta ou bem ela é curva.
23
Tendo
apresentado estes dois sentidos nos quais podemos falar de uma relação por si
entre sujeito e predicado, Aristóteles vai afirmar que, quando um predicado não
pertence a um sujeito de acordo com nenhuma dessas duas formas de relação,
ele será dito um predicado acidental. Ora, na medida em que o acidente se
encontra fora do escopo do cientificamente cognoscível, dir-se-á que toda
proposição cientificamente relevante deve expressar, entre seu sujeito e seu
predicado, uma das duas formas de relação por si.
24
Sendo assim, toda
proposição ocorrente numa demonstração manifestará uma dentre estas duas
formas de relação.
Em terceiro lugar, o predicado deve pertencer universalmente ao sujeito -
isto é, deve ser verdadeiro de toda instância do sujeito, deve pertencer por si ao
22
Há, no entanto, um consenso entre os comentadores em sustentar que apenas os dois
primeiros são cientificamente relevantes, os dois últimos tendo sido apresentados por mera
preocupação de completude. É o que dizem, por exemplo, Ross (1949, p. 519) e Porchat (2000,
p. 143).
23
Michael Wedin (2000, p. 202) esquematiza da seguinte maneira os dois tipos de relação por si:
1. Y pertence por si a X Y pertence a X & Y está na definição de X.
2. Y pertence por si a X Y pertence a X & X está na definição de Y.
24
Os outros dois sentidos nos quais se usa o termo por si são: (i) algo é dito existir por si quando
ele não é dito de nada, sendo que tudo o mais é dito dele - nesse sentido, a substância é um ser
por si; (ii) algo pode ser dito um evento por si, em distinção a eventos acidentais: se troveja
quando alguém caminha, tal ocorrência é acidental, que troveje quando ele caminha, visto não
ser em razão de ele caminhar que troveja; mas se algo morre quando sacrificado, na medida em
que morre porque sacrificado, pode-se dizer que a morte é um resultado por si do sacrifício.
sujeito e, ainda mais, pertencer-lhe enquanto tal. Ao dizer que o predicado deve
pertencer enquanto tal ao sujeito, Aristóteles tem em mente o seguinte: ter a
soma dos ângulos igual a dois retos não pertence enquanto tal nem à figura nem
ao triângulo escaleno, mas ao triângulo simplesmente. Pois não é enquanto
figura, tampouco enquanto triângulo escaleno, que algo possui tal atributo, mas
simplesmente enquanto triângulo. Portanto, tendo em vista o esclarecido acima,
pode-se dizer que uma premissa necessária, própria ao silogismo científico, é
aquela na qual o predicado é atribuído universalmente ao sujeito – quer dizer: a
toda instância, por si e enquanto tal. É mediante a exposição destes três tipos
de relação que se manifestam apenas entre sujeito e predicado de uma
premissa científica que Aristóteles explica o que caracteriza a necessidade das
premissas da demonstração.
A necessidade constitui a marca característica da demonstração. Como
afirma Aristóteles, “a partir de verdades, podemos efetuar um silogismo sem
demonstrar, mas a partir do que é necessário, não podemos produzir um
silogismo sem, com isso, demonstrar” (74
b
16-18). Por ser o conhecimento
científico um conhecimento pela causa, não basta que seja necessária a
conclusão do nosso silogismo, ou seja, não basta - para conhecermos
cientificamente - que saibamos que o objeto de nosso conhecimento é
necessário, é preciso saber por que ele é do modo como é. Isto quer dizer que,
na demonstração, a necessidade da conclusão - que é o objeto do nosso
conhecimento - é herdada da necessidade das premissas. É porque são
necessárias as premissas que é necessária a conclusão. E já vimos acima o
que distingue uma premissa necessária: só ela tem como conseqüência a
universalidade da relação entre os seus termos
25
. Ainda que seja possível ter
25
A tese aristotélica, portanto, é que aquilo que se conhece cientificamente não só é verdadeiro,
como necessariamente verdadeiro. E a necessidade que caracteriza a conclusão do silogismo
demonstrativo é tal que ela provém da necessidade das premissas. Dizer que uma proposição é
necessária consiste em afirmar que seus termos – sujeito e predicado – mantêm uma relação de
necessidade: que o predicado expressa um atributo que pertence de necessidade ao sujeito. E
é porque pertence necessariamente ao sujeito que tal atributo é dito pertencer a toda instância,
por si e enquanto tal ao sujeito. Assim, quando pergunta o que caracteriza uma premissa
necessária, o filósofo responde fazendo referência àquilo que se segue da necessidade das
premissas, a saber, a universalidade da relação sujeito e predicado.
um silogismo cuja conclusão é necessária, mas cujas premissas não o são -
assim como se pode ter um silogismo de premissas falsas e conclusão
verdadeira -, tal não é o caso do silogismo demonstrativo, pois a demonstração
consiste num silogismo através do qual se obtém conhecimento científico. E na
medida em que este se caracteriza por ser um conhecimento causal, na
demonstração é preciso que a necessidade da conclusão provenha da
necessidade das premissas, pois só assim saberemos por que é necessária a
conclusão do nosso silogismo.
O silogismo possui três termos, dois dos quais - os extremos - aparecem
na conclusão. Um deles, o termo intermediador, aparece apenas nas premissas
e não na conclusão, na medida em que é aquele que causa a ligação entre os
extremos, a qual é explicitada na conclusão. Assim, se todo A é B e todo B é C,
conclui-se que todo A é C. O termo B, presente em ambas as premissas e
ausente na conclusão, é o intermediador da relação, exposta na conclusão,
entre A e C. Isto quer dizer que ele é causa da relação entre A e C. Nesta
medida, só teremos conhecimento científico do fato que todo A é C ao
apreender a causa por meio da qual todo A é C, a saber, B. E a apreensão da
causa B nada mais é do que a compreensão da relação que B mantém tanto
com o termo extremo A quanto com o outro extremo C. Deste modo, conhecer
cientificamente que todo A é C consiste em saber que todo A é C porque todo A
é B e todo B é C; ou seja, é saber que a universalidade da relação entre A e C é
proveniente da universalidade das relações A-B e B-C. É por isto que
Aristóteles sustenta que a demonstração deve proceder de um termo
intermediador necessário: dizer que o termo intermediador é necessário significa
dizer que ele mantém relações de necessidade com os termos extremos e que é
em virtude da necessidade da relação do intermediador com os extremos que se
estabelece a relação necessária entre os extremos. A demonstração, portanto,
é o instrumento lógico mediante o qual obtemos conhecimento causal de um fato
necessário. E é justamente nisso que consiste o conhecimento científico: é o
conhecimento demonstrativo do necessário. E, como vimos que uma
proposição necessária é aquela na qual os seus termos, sujeito e predicado,
mantêm uma relação de universalidade – isto é, quando o predicado é dito de
toda instância do sujeito e lhe é atribuído por si e enquanto tal –, segue-se que,
na demonstração, todas as proposições nela ocorrentes, em virtude de sua
necessidade, expressam relações de universalidade entre seus termos.
Aristóteles distingue três elementos necessários à demonstração: a
conclusão, os axiomas e o gênero. A conclusão é aquilo que é demonstrado,
consistindo no objeto de nosso conhecimento científico. O que conhecemos
cientificamente, portanto, é a conclusão de um silogismo demonstrativo. Já os
axiomas são aquilo a partir do que se demonstra. Ao assim descrevê-los,
Aristóteles parece os estar tomando num sentido estendido. Isto porque ele já
havia distinguido três tipos de princípios demonstrativos - axiomas, definições e
hipóteses -, sendo que os primeiros consistiam naquilo que se deve apreender
caso se queira conhecer qualquer coisa, enquanto que os dois outros
constituíam princípios cuja apreensão nos fornece um tipo pré-científico de
conhecimento de essência e de existência, respectivamente, daquilo que
pertence propriamente a uma certa ciência. Segundo tal caracterização, os
axiomas, em sentido estrito, são princípios com os quais se demonstra, isto é,
princípios que regulam a prática demonstrativa, mas que não se fazem
presentes como premissas na demonstração. É nesse sentido que Aristóteles
costuma fazer referência aos axiomas como “princípios comuns”. Tais podem
ser comuns tanto ao ser enquanto ser, como o princípio de não-contradição,
quanto comuns a tudo o que pertence a uma mesma categoria do ser, como o
que diz que se iguais são subtraídos de iguais, restam iguais - o qual se estende
a toda a categoria da quantidade. Os princípios a partir dos quais se demonstra
são os princípios próprios a cada ciência e estes são as hipóteses e definições.
Assim, ao referir-se aos axiomas como princípios a partir dos quais
demonstramos, Aristóteles ou bem está chamando a atenção para uma função
excepcional dos axiomas, na qual eles podem operar como premissas
demonstrativas, ou bem está estendendo o sentido do termo às hipóteses e
definições próprias a cada ciência. Por sua vez, o gênero consiste naquilo a
respeito do que se demonstra. Deste modo, o que a demonstração faz é provar
o pertencimento por si de certos atributos a um gênero determinado. O gênero,
portanto, constitui o sujeito da conclusão do silogismo demonstrativo, mediante o
qual provamos, a partir de princípios próprios que ocupam a posição do termo
intermediador, que certos atributos lhe pertencem por si e enquanto tal. Como
diz Porchat, é por meio da noção de gênero científico que se exprime “a famosa
concepção aristotélica do caráter “regional” das ciências particulares,
relativamente à esfera de todo o real”.
26
O gênero científico, sendo aquilo
acerca do que se demonstra, trata de delimitar o campo de aplicação de cada
ciência particular. Sendo assim, cada gênero define a sua respectiva ciência, na
medida em que uma ciência se distingue de outra pelo seu objeto próprio de
estudo. É assim que, nas matemáticas, por exemplo, distinguimos entre
aritmética e geometria: enquanto uma trata dos números e a respeito deles
opera as suas provas, a outra trata das grandezas espaciais, as quais delimitam
o escopo investigativo da geometria. A partir daí, vemos como a restrição a uma
parte do real, ou, como diz Aristóteles, a um gênero do ser, é característica de
toda ciência demonstrativa, na medida em que o gênero ao qual uma ciência
particular restringe a sua investigação é, ele mesmo, definidor daquela ciência,
já que é por ele que ela se distingue das outras ciências. E não é senão
fazendo referência a esta característica das ciências particulares que Aristóteles,
no livro Γ da Metafísica, introduz, por oposição a elas, a ciência que lá é
buscada:
Há uma ciência que investiga o ser enquanto ser e os atributos que ao ser
pertencem enquanto tal. Esta não é como nenhuma das chamadas ciências
particulares, pois nenhuma dessas trata universalmente do ser enquanto ser.
Elas delimitam uma parte do ser e investigam os atributos desta parte. É isso
que as ciências matemáticas, por exemplo, fazem.
(Metafísica, Γ, 1003ª20-25)
Enquanto todas as ciências particulares delimitam um gênero do ser sobre o
qual incide as suas investigações, na Metafísica, por sua vez, Aristóteles busca
instituir uma disciplina que, embora não opere nenhuma restrição no campo do
real, mas, antes, tenha como objeto de estudo o ser enquanto ser, mesmo assim
26
Porchat, 2000, p. 211.
constitua uma ciência – para o filósofo, a mais eminente dentre as ciências. Se
tal estudo, enquanto científico, deve respeitar os mesmos critérios
característicos da cientificidade das ciências particulares, ou se, por outro lado,
deve ter o seu estatuto de ciência compreendido fora do registro das ciências
particulares, é o que nos propomos a avaliar ao longo desta dissertação.
Vimos que as proposições demonstrativas - premissas e conclusão -
devem expressar um tipo peculiar de relação entre os seus termos para que
possamos dizer que, mediante o silogismo que a partir delas se constrói, obtém-
se conhecimento científico. Como foi dito, deve haver, entre sujeito e predicado
da proposição ocorrente na demonstração, uma relação de universalidade. E é
justamente para isso que Aristóteles chama a atenção, ao afirmar que “já que,
em cada gênero, aquilo que pertence por si e enquanto tal pertence de
necessidade, claro está que a demonstração científica se ocupa com aquilo que
pertence por si às coisas enquanto tais, procedendo a partir disto” (75ª29-32).
Ou seja, cada ciência particular, a qual é delimitada por um gênero do ser,
procede, em suas demonstrações, a partir de proposições que expressam
relações de pertencimento por si e enquanto tal de algo a algo. “Portanto” -
segue o filósofo - “o termo intermediador deve pertencer ao terceiro termo e o
primeiro ao intermediador, por si mesmos” (75ª35-37). Assim, se o
intermediador mantém, com os extremos, uma relação de necessidade, então os
extremos manterão, entre si, também uma relação necessária. É deste modo
que a necessidade da conclusão é herdada da necessidade das premissas e é
assim que podemos sustentar, em sentido próprio, que a conclusão é conhecida
por meio das premissas, tendo-se, por conseguinte, daquela, conhecimento
causal. E, imediatamente após concluir a respeito da natureza da relação entre
extremos e termo intermediador, Aristóteles introduz uma nova tese que, de
acordo com a estruturação do texto, seguir-se-ia de tal conclusão. Pois assim
diz o filósofo: “Deste modo, não se pode demonstrar nada transitando de um
gênero a outro, por exemplo, uma proposição geométrica por meio da aritmética”
(75ª38-40). De fato, se o termo intermediador e os extremos devem exprimir,
entre si, relações de pertencimento por si e enquanto tal, de um dos extremos ao
intermediador e deste ao outro extremo, necessário é que pertençam os
extremos e o termo intermediador a um mesmo gênero do ser. Pois a
necessidade característica das proposições científicas tem como marca um tipo
de relação - por si e enquanto tal - entre os seus termos. No entanto, se
possuímos um silogismo cujos membros são pertencentes a gêneros distintos,
então não será possível que, entre eles, se instituam relações de pertencimento
tais como aquelas exigidas pela ciência. As proposições de tal silogismo não
serão necessárias, mas acidentais, e, deste modo, não produzirão conhecimento
científico.
Apesar de proibir a transição de um gênero a outro, isto é, que se
demonstre o que pertence a uma ciência por meio de outra, Aristóteles sustenta
haver um caso em que é permitida a transição entre gêneros - a saber, quando
uma ciência está para a outra numa relação de subordinação: aí, a ciência
subordinada pode executar as suas demonstrações por meio de premissas
pertencentes à ciência subordinante. O fato é que, no caso em que a transição
é permitida, o que se tem não são duas ciências delimitadas por gêneros
totalmente distintos, como o são, para Aristóteles, a aritmética e a geometria,
mas, antes, ciências cujos gêneros são, sob certo aspecto, o mesmo -
característica essa responsável pela subordinação de uma à outra. Os
exemplos de Aristóteles para ciências que se encontram numa relação de
subordinação são os da ótica em relação à geometria e o da harmonia em
relação à aritmética. Como explica Tomás de Aquino
27
, o gênero com o qual
lidam premissas e conclusão deve ser ou absolutamente o mesmo ou o mesmo
sob certo aspecto. O gênero é absolutamente o mesmo quando o sujeito acerca
do qual se demonstra não admite nenhuma diferença que seja extrínseca à
natureza do gênero que delimita a ciência em questão. Se alguém, a partir de
premissas concernentes ao triângulo enquanto tal, efetua uma demonstração
relativa a uma espécie particular de triângulo, este permanece no campo de uma
mesma ciência. Por outro lado, diz-se que o gênero é o mesmo sob certo
aspecto quando uma diferença extrínseca à natureza do gênero é aceita: assim,
27
Ver lição 15 (75
a
38-
b
20) do seu comentário.
“visual” caracteriza uma diferença extrínseca à linha como tal, formando-se, a
partir da geometria, a ótica; e “sonante” expressa uma diferença extrínseca ao
número enquanto tal, de modo que a harmonia se estabelece por subordinação
à aritmética. Diante disso, dir-se-á que a linha, sujeito genérico da geometria, e
a linha visual, sujeito genérico da ótica, não caracterizam dois gêneros
absolutamente distintos, mas gêneros que, sob certo aspecto, são o mesmo. De
modo análogo, no caso do número para a aritmética e do número sonante para
a harmonia. É, portanto, em função da relação peculiar existente entre os
gêneros de tais ciências que, no caso delas, é permitida a transição de uma para
a outra; transição essa, no entanto, que não se estabelece reciprocamente, mas
sempre da subordinante para a subordinada.
É correto afirmar que Aristóteles, tendo exposto diversas características
relativas às premissas do silogismo científico nos primeiros capítulos do livro I
dos Segundos Analíticos, passa a explicitar, ao longo de vários dos capítulos
subseqüentes deste primeiro livro, diversos corolários que se extraem das notas
delimitadoras do caráter científico da premissa silogística. Viu-se que a
demonstração é distinguida em virtude da natureza de suas premissas e que
essas se caracterizam não só pela sua verdade, mas, preponderantemente, pela
sua necessidade. Como diz o próprio Aristóteles, a necessidade é a marca da
demonstração. Assim, vimos o filósofo qualificar o caráter necessário da
premissa científica mediante o tipo de relação existente entre seus termos: a
premissa demonstrativa é aquela cujos termos mantêm uma relação de
universalidade - ou seja, quando um é dito pertencer a toda instância do outro,
por si e enquanto tal a este outro. É deste modo que se reconhece a
necessidade da premissa científica.
28
E é claro que, se as proposições a partir das quais procede a demonstração são
universais, então é necessário que a conclusão de tal demonstração - de uma
demonstração em sentido próprio - seja eterna. (Seg. An. I, 8, 75
b
21-24)
28
Esta caracterização da necessidade da premissa demonstrativa mediante menção à
universalidade da relação entre seus termos não corresponde a uma definição, mas, antes, a um
critério de reconhecimento.
Da necessidade das premissas demonstrativas se segue o caráter de eternidade
da conclusão científica. Aquilo que se conhece cientificamente hoje, assim se
conhece sempre. Na medida em que, numa demonstração em sentido próprio,
as premissas exprimem relações de universalidade entre seus termos, a
conclusão não pode deixar de manifestar uma atribuição, concernente àquilo
acerca do que se demonstra, cuja validade é eterna, visto que atributo e sujeito
mantêm uma relação de necessidade, a qual - como várias vezes repetimos - é
herdada da necessidade da relação dos extremos com o intermediador, nas
premissas. A eternidade da conclusão científica é adquirida como corolário da
necessidade definidora das premissas demonstrativas. Numa demonstração em
sentido próprio, dado o tipo de relação ocorrente entre os termos a partir dos
quais as premissas se estabelecem, em que algo é dito de algo por si e
enquanto tal, isto é, universalmente, não pode ser o caso que o atributo, cujo
pertencimento ao sujeito acerca do qual uma ciência opera suas demonstrações
é provado na conclusão, possa não pertencer àquele sujeito. E, se o eterno é
aquilo que sempre é tal como é, então a conclusão demonstrativa, por
estabelecer uma atribuição que não pode deixar de ser o caso, é eterna.
Sendo assim, Aristóteles afirma não poder haver demonstração nem,
conseqüentemente, conhecimento científico, em sentido próprio, do que é
perecível, ou seja, do não-eterno. Ainda que, é o que sustenta o filósofo, por
acidente, se possa tê-los. Como compreender que seja possível, mesmo que
apenas por acidente, possuir demonstração e, com isso, conhecimento
científico, do perecível? O conteúdo expresso numa conclusão é perecível, não-
eterno, quando os termos nela ocorrentes não manifestam uma relação
necessária, a qual, por sua vez, é fundadora do caráter universal constitutivo das
premissas da ciência. Desta maneira, tal conclusão não exprime aquele tipo de
atribuição segundo o qual o predicado é dito pertencer a toda instância do
sujeito, por si e enquanto tal, mas, antes, uma atribuição cuja validade é limitada
a certos casos e a certos momentos. No seu comentário ao texto, Tomás de
Aquino explica que, em razão do conhecimento científico não poder ter o
perecível, mas apenas o eterno como objeto - dada a concepção de acordo com
a qual aquilo que se sabe em mais alto grau não pode ser de outro modo, senão
daquele tal como se sabe que a coisa é -, Platão, em virtude desta mesma
concepção, é levado a postular a existência separada das Formas
29
. Isto porque
a corruptibilidade do mundo sensível o tornava, aos olhos de Platão, infenso a
uma abordagem científica, diante do que se postulou a existência de formas
separadas do plano sensível, dotadas de existência independente e, em função
da sua imutabilidade, cientificamente cognoscíveis. Assim, é mediante a
introdução das Formas que Platão preserva a noção de ciência e sua
aplicabilidade ao mundo – embora não ao sensível.
30
Segundo Tomás de
Aquino, Aristóteles se opõe à posição platônica, ao sustentar que a
demonstração não é do perecível, exceto por acidente. Ou seja, Aristóteles
opor-se-ia a seu mestre ao afirmar que, num certo sentido, ainda que apenas
acidentalmente, a demonstração e, portanto, o conhecimento científico, é do
perecível. Pois, mesmo que as coisas sensíveis sublunares sejam corruptíveis
enquanto indivíduos, elas possuem um estatuto de eternidade decorrente de
uma capacidade humana de, mediante abstração, considerá-las apenas naquilo
que elas possuem de comum a outras coisas. Isto quer dizer que as coisas
sensíveis, consideradas na sua individualidade, não podem ser objeto de
ciência, mas que, enquanto membros de uma espécie - ou seja, tomadas
apenas naquilo que possuem enquanto pertencentes a uma espécie -, podem
elas ser cientificamente conhecidas.
Não é preciso que existam Formas, ou algo separado dos muitos, para que haja
demonstração. Para tanto, basta que seja verdadeiro dizer que uma coisa
pertence a muitas. (Seg. An. I, 11, 77ª5-7)
Em virtude do que foi exposto, Tomás de Aquino diz que a ciência trata do
indivíduo não na sua individualidade, mas na sua universalidade; isto é, não
focando aquilo que o individua, mas aquilo que ele compartilha com outras
29
Lição 16 (75
b
21-36).
30
Acerca deste ponto, ver S. Mansion (1946, p. 12): “É para explicar a possibilidade de uma
ciência imutável que Platão recorre a um mundo de Idéias que transcendem o sensível”.
coisas. A partir daí, dir-se-á que a demonstração trata, em sentido próprio, do
eterno e, por acidente, do perecível.
Tendo já mostrado a impossibilidade da transição entre gêneros - que as
proposições próprias a uma ciência não podem ser provadas por premissas
retiradas de outra ciência, senão quando há entre uma ciência e outra uma
relação peculiar de subordinação -, Aristóteles passa a mostrar, ainda, como as
proposições de uma ciência não podem ser demonstradas adequadamente
mediante premissas cuja aplicação seja mais ampla do que aquela caracterizada
pelo gênero da ciência em questão. Para tanto, o filósofo começa por lembrar
que a conclusão de uma demonstração em sentido estrito deve expressar uma
relação em que um atributo é dito pertencer enquanto tal a um sujeito. E que
isto só pode ser o caso quando as premissas mediante as quais se demonstra
são próprias ao gênero científico do qual se está tratando. É o que se afirma na
seguinte passagem do texto: “se o que é provado deve pertencer enquanto tal” -
e aqui se subentende “ao sujeito acerca do qual se demonstra” - “então está
claro que não se demonstra nada exceto por princípios próprios” (75
b
37-39).
Premissas próprias são aquelas em razão das quais compreendemos
adequadamente uma conclusão. O que quer dizer que a mesma relação
existente entre sujeito e atributo na conclusão deve ocorrer, nas premissas,
entre termo intermediador e extremos. Pois dizemos que premissas são
próprias a uma conclusão quando o tipo de relação que nesta é exposto é
herdado do tipo de relação manifestado nas premissas. Por isso, “o
conhecimento científico não se constitui apenas por meio de provas que
procedem do que é verdadeiro, indemonstrável e imediato” (75
b
39-40). É
fundamental, na demonstração científica, que se parta de princípios próprios à
coisa demonstrada; isto é, princípios que respondam por que a coisa é,
enquanto tal, do modo como ela é.
O tipo de conhecimento resultante do método de prova que não parte de
premissas próprias, mas comuns, Aristóteles chama de acidental. No caso, o
termo intermediador a partir do qual se compreende a relação existente entre os
extremos na conclusão não é próprio àquilo acerca do que se demonstra, mas
característico de outros gêneros também, sendo, por isso, chamado de comum.
De modo que a conclusão não é adequadamente conhecida por meio das
premissas, visto que não é o mesmo o tipo de relação existente numa e noutras,
o que faz o filósofo qualificar como acidental o tipo de conhecimento obtido por
este método de prova. Um exemplo fornecido por Aristóteles deste tipo de prova
é o modo como Bríson demonstra a quadratura do círculo. Ao buscar provar
que um quadrado pode ocupar a mesma área de um círculo, Bríson não procede
a partir de princípios próprios ao gênero acerca do qual se demonstra, mas de
princípios comuns, atribuíveis a outros gêneros. A prova funcionaria da seguinte
maneira: em todo gênero no qual se pode encontrar algo maior e algo menor do
que outra coisa, se pode encontrar algo igual a esta coisa; ora, no gênero dos
quadrados é possível encontrar um que seja menor que um dado círculo, a
saber, o quadrado que está inscrito no círculo, bem como outro que seja maior
que o mesmo círculo, a saber, o que circunscreve o círculo; portanto, há um
terceiro quadrado, que é igual àquele círculo.
31
No caso, diz Aristóteles, não se
adquire conhecimento em sentido próprio, mas apenas acidentalmente, já que a
prova de Bríson parte de uma premissa maior cuja aplicação não se restringe ao
gênero a respeito do qual trata a prova, à geometria, sendo muito mais ampla,
visto ser ela aplicável a muitas outras coisas que não apenas àquelas das quais
trata a geometria.
A partir do que foi dito, fica estabelecido que não é suficiente, para que
obtenhamos conhecimento científico, que se proceda de premissas, tal como
aquela utilizada no argumento de Bríson - “onde se pode encontrar algo maior e
algo menor do que uma coisa se pode encontrar também algo igual a esta coisa”
-, verdadeiras e primeiras. Além disso, é preciso que lidemos com premissas
próprias àquilo acerca do que se demonstra, sob pena de termos conhecimento
meramente por acidente. Este conhecimento que se adquire ao provar, tal como
Bríson, mediante princípios comuns é dito acidental, na medida em que, tendo
sido feita a prova, tudo o que sabemos é que um atributo pertence à coisa não
31
Sigo, aqui, a exposição feita por Tomás de Aquino, no seu comentário aos Segundos
Analíticos, da prova de Bríson acerca da quadratura do círculo – lição 17 (75
b
37-76
a
25).
em virtude de sua natureza específica, mas em função de certas características
que ela possui, as quais compartilha com outros gêneros de coisas. Assim, não
é da coisa enquanto tal, mas enquanto outra - isto é, enquanto idêntica a outras
coisas pertencentes a gêneros distintos do seu - que operamos a prova segundo
a qual certo atributo lhe pertence. Foi desta maneira que Bríson provou acerca
do quadrado que este pode ocupar um espaço de igual área a um círculo: as
premissas a partir das quais executou sua prova não eram próprias ao quadrado
enquanto tal, mas comuns a diversos gêneros de coisas - no caso, todos os
gêneros subsumidos no gênero supremo da quantidade.
Tendo avaliado um tipo de prova que não fornece conhecimento científico
e que, portanto, não consiste, em sentido estrito, numa demonstração, na
medida em que parte de princípios que se aplicam a mais coisas além daquelas
pertencentes ao gênero a respeito do qual se demonstra, Aristóteles finaliza
deste modo sua argumentação:
Julgamos ter conhecimento científico de algo quando possuímos um silogismo
que parte de premissas verdadeiras e primeiras. Mas isso não é suficiente: é
preciso, ademais, que as premissas sejam do mesmo gênero que aquilo acerca
do que se demonstra. (Seg. An. I, 9, 76ª27-30)
É assim que Aristóteles, ao longo do primeiro livro dos Segundos Analíticos, vai
adicionando notas características da premissa demonstrativa e, ao fazê-lo, na
medida em que a demonstração é o instrumento de prova por meio do qual o
conhecimento científico se efetiva, vai ampliando o próprio conceito de
conhecimento científico, o que, por sua vez, cada vez mais restringe a extensão
deste mesmo conceito.
Há, no entanto, um sentido em que se tem demonstração, ainda que não
se proceda por princípios próprios à coisa demonstrada. Este é o caso no qual
vimos ser possível que haja transição entre gêneros - quando há, entre duas
ciências, uma relação de subordinação, de modo que uma, a subordinada, toma
de empréstimo princípios próprios à ciência subordinante. É assim que são
provadas, por exemplo, as proposições primeiras que compõem a ciência da
harmonia, a saber, através de princípios extraídos da aritmética. Ainda que os
princípios a partir dos quais a prova se estrutura não sejam próprios à harmonia,
mas à aritmética, se diz haver demonstração em virtude da relação especial
existente entre as duas ciências e, sobretudo, em função do diferente estatuto
concedido, por Aristóteles, a uma e outra. Como sustenta Aristóteles, o que
fundamenta a relação de subordinação entre ciências como a harmonia e a
aritmética é que, enquanto a ciência subordinada - no exemplo, a harmonia - se
ocupa, em relação àquelas proposições que, na estrutura hierárquica desta
ciência, servem de princípios, apenas do conhecimento do quê, a ciência
subordinante trata do conhecimento do porquê, na medida em que fornece uma
demonstração para tais proposições que, no interior da ciência subordinada,
ocupam a posição de princípios. Assim, em relação à aritmética, a harmonia é
caracterizada como uma ciência do quê, ainda que ela possa ser tomada, em
relação a uma ciência menos fundamental do que ela, como uma ciência do
porquê.
Aristóteles dedica todo um capítulo à distinção entre o conhecimento do
quê e o do porquê.
32
O filósofo considera dois casos: um, em que o
conhecimento do quê e o do porquê dizem respeito a uma única ciência; outro,
quando concernem a diferentes ciências. Segundo Aristóteles, o conhecimento
do quê e o do porquê se distinguem, dentro de uma mesma ciência, de dois
modos. Primeiramente, tem-se um silogismo que fornece apenas conhecimento
do quê, quando este “não procede por premissas imediatas, caso no qual não se
assume a causa primeira” (78ª24-26). Como explica Porchat
33
, a expressão
aristotélica “causa primeira” pode significar tanto a causa mais remota quanto a
causa próxima, que é primeira, em sentido inverso, a partir do efeito. Segundo
ele, no presente caso, Aristóteles quer designar a causa mais próxima em razão
da qual explicamos a ocorrência de um efeito. Um silogismo é demonstrativo,
isto é, mediante ele obtém-se conhecimento científico de algo, quando este
procede por premissas que exprimem a causa próxima a partir da qual um
32
Seg. An. I, 13.
33
2000, p. 94, nota 77.
efeito, exposto na conclusão, se manifesta. Neste caso, temos, pelo silogismo,
conhecimento do porquê. Por outro lado, como diz Aristóteles, ao
prescindirmos, no silogismo, da causa próxima do efeito a ser provado, mediante
ele só obtemos conhecimento do quê. Outra vez vemos o filósofo a restringir
ainda mais a extensão do conceito de conhecimento científico, pois não basta
que tenhamos conhecimento do necessário, pela sua causa; é preciso, mais
especificamente, que se conheça pela causa próxima, sob pena de possuirmos
tão-somente conhecimento do quê.
Num segundo sentido, diremos ter, na esfera de uma mesma ciência, um
silogismo do quê, e não do porquê, quando, sendo efeito e causa reciprocáveis,
e o efeito, mais conhecido do que a causa, estrutura-se o silogismo do efeito
para a causa e não da causa ao efeito, provando-se, assim, a causa pelo efeito.
E, ainda que proceda o silogismo por premissas imediatas, ele será dito do quê
na medida em que não é a causa real, isto é, o porquê, que ocupa a posição do
termo intermediador, mas o efeito, o quê. O exemplo fornecido por Aristóteles
de um silogismo em que, sendo causa e efeito reciprocáveis, e o efeito, mais
conhecido, prova-se, inversamente ao silogismo científico, a causa pelo efeito, é
o da prova de que os planetas estão próximos através do fato que não cintilam.
Ao sustentar que causa e efeito são reciprocáveis, quer dizer o filósofo que há,
entre eles, uma bi-implicação: tudo o que não cintila está próximo; tudo o que
está próximo não cintila. E, ao dizer que o efeito é mais conhecido, está
Aristóteles a afirmar que é o efeito mais conhecido para nós, ou seja, que nosso
aparato sensorial nos faz apreender primeiramente o efeito, e não a causa. De
modo que, partindo do efeito, por ser ele - em relação a nós - primeiro na ordem
do conhecimento, concluímos a causa, organizando o silogismo da seguinte
maneira: tudo o que não cintila está próximo; ora, os planetas não cintilam;
portanto, os planetas estão próximos. Ainda que, em si mesmo, o silogismo
descrito seja impecável, ele é, na sua relação com o real, isto é, na sua
pretensão de reproduzir a ordem do ser, defeituoso. Não é porque não cintilam
que os planetas estão próximos; antes, porque estão próximos é que eles não
cintilam. Ou seja, por fazer com que ocupe a posição de termo intermediador
algo que é efeito (a não-cintilação) e não causa (a proximidade), o silogismo, na
sua estruturação interna, não se amolda à organização, na realidade, das coisas
elas mesmas. Portanto, o silogismo que parte do efeito em direção à causa não
é capaz de fornecer conhecimento científico, em virtude da sua incapacidade em
espelhar a causalidade real das coisas, sendo dito, antes, do quê e não do
porquê. Mesmo assim, por serem, no caso referido, causa e efeito
reciprocáveis, é possível que construamos, a partir daquele silogismo contrário à
ordem do ser, um novo silogismo, mediante a reestruturação de seus termos, de
modo a torná-lo fidedigno à causalidade das coisas. Fazendo a causa real
ocupar a posição de termo intermediador, tal como se exige para que
obtenhamos, mediante uma demonstração estrita, conhecimento científico,
organizamos deste modo o novo silogismo (este, agora, científico, do porquê):
tudo o que está próximo não cintila; ora, os planetas estão próximos; portanto,
os planetas não cintilam. Desta vez, a causa real (a proximidade dos planetas),
mediante a qual compreendemos por que um efeito que, para nós, em função do
nosso aparato sensorial, é mais conhecido (a não-cintilação dos planetas), é do
modo como é, ocupa o posto, na estrutura silogística, de termo intermediador,
simulando, assim, a própria estruturação das coisas.
Por outro lado, quando temos um silogismo do quê, o qual parte de um
efeito mais conhecido para provar uma causa menos conhecida, sendo que,
entre um e outra não há reciprocação, então tal silogismo, diferentemente do
caso acima descrito, não poderá, mediante a reorganização dos seus termos,
ser transformado num silogismo científico do porquê. Ross apresenta o seguinte
exemplo de silogismo do quê, o qual, por sua vez, não pode ser feito científico
34
:
o que é capaz de rir é um animal; ora, o homem é capaz de rir; portanto, o
homem é um animal. Fica claro que tal silogismo não pode ser considerado
demonstrativo, na medida em que não corresponde à causa real o termo
intermediador, já que não é a capacidade de rir que faz do homem um animal,
ainda que se possa utilizar tal capacidade como critério de reconhecimento do
34
Ross (1949), p. 552. Conforme o comentador, o exemplo é de Pácio. Aristóteles, por seu
turno, não fornece, no texto dos Segundos Analíticos, nenhum exemplo que ilustre o caso.
homem como animal, na medida em que só uma certa espécie de animal - o ser
humano - é capaz de rir. Aqui, no entanto, não se obtém, pela reestruturação do
silogismo, uma demonstração, já que não é possível dizer com verdade que:
todo animal é capaz de rir; ora, o homem é um animal; portanto, o homem é
capaz de rir. Não é porque é animal que o homem é capaz de rir - ainda que só
o que é animal tenha tal capacidade -, mas sim porque é um tipo peculiar de
animal, a saber, racional. Esse novo silogismo não fornece a causa própria da
capacidade humana da rir, a sua racionalidade, e, por isso, não constitui uma
demonstração.
Haverá, também, um silogismo do quê, e não do porquê, quando o termo
intermediador é exterior aos extremos. O exemplo dado corresponde a um
silogismo em Camestres, no qual o intermediador é, na premissa maior,
afirmado de um extremo e, na menor, negado do outro extremo. Assim, provar-
se-ia que paredes não respiram por não serem animais: o que respira é animal;
ora, paredes não são animais; portanto, paredes não respiram. Porém, tal
silogismo é do quê, pois, se as paredes não respirassem pelo fato de não serem
animais, deveríamos tomar a animalidade de algo como causa real de sua
respiração, o que não é o caso, em função da existência de animais -
desprovidos de pulmões - que não respiram. É por isso que Aristóteles afirma
que o termo intermediador é exterior aos extremos: porque ele não pode ser
responsável pela junção, na conclusão, dos extremos. O termo “ser animal” é
externo em relação aos termos “ser parede” e “não respirar”, já que ele não é
capaz de desempenhar a função própria ao intermediador, a saber, a ligação
dos extremos.
Porchat chama a atenção para o fato que, mencionando diversos casos
em que, no interior de uma ciência, se produzem raciocínios que não fornecem
conhecimento científico acerca do objeto da ciência, sendo, antes,
caracterizados como silogismos do quê, está Aristóteles a apontar para um
método pré-científico de abordagem de questões científicas.
35
Pois é
35
2000, p. 97-98.
justamente assim - partindo da apreensão do quê em direção ao conhecimento
do seu porquê - que Aristóteles concebe o processo humano de investigação:
Tendo conhecido o quê, nós passamos a perseguir o seu porquê. Por exemplo,
sabendo que a lua se eclipsa ou que a terra se move, nós passamos a buscar a
causa pela qual a lua se eclipsa, ou a causa pela qual a terra se move. (Seg. An.
II, 1, 89
b
29-31)
É tradicional na interpretação do texto aristotélico conceber a etapa que vai da
apreensão do quê à busca do seu porquê como constituindo a fase da pesquisa
científica. Nela, partimos do reconhecimento de um fato - por exemplo, que a
lua se eclipsa - à apreensão das causas desse fato. Uma vez adquirido o
porquê, é-se capaz de construir a demonstração segundo a qual procedemos a
partir da causa, segunda na ordem do conhecimento, para o efeito, primeiro
nesta mesma ordem. E é somente quando estruturamos a demonstração que
amoldamos o nosso discurso à causalidade real das coisas. Só aí podemos, em
sentido estrito, dizer que possuímos ciência do objeto estudado. Assim, a fase
propriamente científica, na qual emerge o conhecimento científico, é aquela em
que efetuamos as nossas demonstrações, visto ser a ciência uma adequação do
discurso à realidade. É nesse sentido que Porchat afirma que “os silogismos do
“que” não caracterizam, assim, senão a etapa pré-científica do conhecimento,
quando a ciência, ainda em processo de constituição, não se constituiu ainda”.
36
A etapa pré-científica, da pesquisa, portanto, é caracterizada pela busca do
porquê, cuja posse, por sua vez, nos permite a construção da demonstração - a
qual marca o ingresso na etapa propriamente científica -, a partir da qual
ajustamos nosso discurso à ordem do ser
37
.
Tendo tratado da natureza dos silogismos do quê e do porquê, quando
ocorrentes no interior de uma mesma ciência, Aristóteles passa a investigar
36
2000, p. 98. O destaque é do próprio autor.
37
Ao falar numa etapa “pré-científica”, Porchat tem em mente algo que ainda não é ciência, na
medida em que ainda não há demonstração, mas que é imprescindível à constituição da prova
demonstrativa. Ou seja, a etapa da pesquisa não é científica, mas pré-científica, no sentido em
que nela ainda não se adequou, mediante a demonstração, o discurso à ordem do ser. Por outro
lado, a pesquisa é científica sob o aspecto em que, sem ela, não há prova – isto é, na medida
em que é condição necessária à construção da prova.
estes dois tipos de silogismo, na medida em que cada um é estudado por uma
ciência diferente. Segundo o filósofo, é possível que diferentes ciências se
ocupem cada qual com um tipo de silogismo, do quê e do porquê, quando elas
se encontram numa relação, à qual já nos referimos, de subordinação: enquanto
a ciência subordinada lida com o quê, a ciência subordinante se ocupa do
porquê. Assim, diz Aristóteles: “o cientista empírico conhece o quê, enquanto o
cientista matemático, o seu porquê” (79ª2-3). Segundo Ross, primeiramente,
Aristóteles parece estar se referindo apenas a pares de ciências, nos quais uma
delas se dedica ao conhecimento de fatos, enquanto que a outra trata das
causas destes fatos
38
. É a partir de tal organização dicotômica que se
compreendem as diversas menções do filósofo à relação entre ciências como
ótica e geometria plana; harmonia e aritmética; mecânica e geometria sólida;
etc. A seguir, o filósofo fala da relação entre a astronomia e a observação dos
astros, a qual poderia ser, inadvertidamente, equiparada às relações acima
mencionadas. Porém, a astronomia não é, como a geometria plana e sólida e a
aritmética, uma matemática pura, mas aplicada. De maneira que Aristóteles, em
alguns casos, explica Ross, supõe uma hierarquia tripartite entre uma ciência
matemática pura, uma ciência matemática aplicada e uma ciência empírica.
Assim se estruturam as relações entre a aritmética, a ciência matemática da
música e a descrição empírica de fatos musicais; a geometria sólida, a ciência
matemática da astronomia e a descrição empírica de fatos acerca dos corpos
celestes; ou entre a geometria plana, a ciência geométrica da ótica e o estudo
do arco-íris. Nestes casos, a terceira ciência está para a segunda como a
segunda, para a primeira. Em cada uma das duas relações, a subordinada
conhece os fatos, enquanto que a subordinante conhece as causas de tais fatos.
As ciências matemáticas puras descobrem leis gerais relativas aos números,
figuras planas, ou sólidos. As ciências que ocupam o terceiro lugar na
hierarquia, as quais, nas palavras de Ross, são chamadas de ciência “por
cortesia”, coletam certos fatos empíricos relevantes. Enquanto isso, as ciências
matemáticas aplicadas, que ocupam a posição intermediária na hierarquia,
38
Ross (1949), p. 554-555, em nota à passagem de 78
b
34-79ª17.
tomam de empréstimo suas premissas maiores das matemáticas puras e suas
premissas menores, das ciências empíricas, fornecendo, para os fatos que as
ciências empíricas descobrem mas não explicam, sua devida explicação. Ross
tem razão ao afirmar que ciências como a observação dos astros e o estudo do
arco-íris apenas num sentido frouxo podem ser consideradas ciências. Isto
porque elas não são responsáveis por explicações causais, mas apenas por
colecionar os fatos que possam ser relevantes para uma determinada disciplina.
Tais fatos serão, por suas vezes, cientificamente conhecidos mediante o
trabalho das matemáticas aplicadas, as quais fornecem suas causas próximas.
E estas matemáticas aplicadas serão, num sentido, ditas do quê, na medida em
que, no que concerne às suas premissas fundamentais, é nas matemáticas
puras que elas encontram sua fundamentação causal; ou seja, são as
matemáticas puras, tais como geometria e aritmética, as responsáveis pela
demonstração dos princípios primeiros a partir dos quais ciências como a
astronomia e a harmonia operam suas provas.
É também parte integrante da investigação aristotélica avaliar o que
caracteriza a maior precisão de uma ciência em relação a outra.
39
Na sua
resposta, o filósofo distingue três planos de comparação, havendo, em cada um
deles, uma condição a ser cumprida pela ciência mais exata. Num primeiro
nível, uma ciência é mais precisa do que outra, se, ao invés de ser uma mera
coleção de fatos, ela conhece tanto o quê quanto o seu porquê. Assim, a
ciência que explica os fatos que uma outra apenas seleciona é mais precisa do
que esta outra. Neste primeiro plano comparativo, Aristóteles está relacionando
ciências, as quais assim são chamadas num sentido bastante lato do termo,
como a astronomia náutica e o estudo do arco-íris, com as ciências matemáticas
aplicadas, como a astronomia e a ótica, na medida em que estas últimas
fornecem as causas dos fatos selecionados pelas primeiras. Em segundo lugar,
Aristóteles afirma que uma ciência que estuda entidades abstratas é mais exata
do que aquela que estuda as mesmas entidades enquanto associadas a uma
matéria. É assim que as matemáticas puras são mais precisas do que as
39
Seg. An. I, 27.
aplicadas, já que, por exemplo, enquanto a geometria pura estuda os sólidos por
abstração de qualquer matéria, sem a qual eles não podem existir, a astronomia
se dedica à aplicação dos conhecimentos da primeira aos corpos celestes,
tendo, naquela, a fundamentação causal dos seus princípios primeiros. Num
terceiro e último plano, dir-se-á que aquela que lida com entidades simples é
mais exata do que a que se ocupa de entidades mais complexas. É nesse
sentido que, dentre as matemáticas puras, a aritmética, que lida com unidades,
entidades sem posição, é mais exata do que a geometria, a qual tem como
objeto último de estudo os pontos, entidades dotadas de posição. Sendo as
unidades mais simples do que os pontos, por carecerem de posição, a aritmética
se faz a mais precisa dentre todas as ciências matemáticas, paradigmáticas
para o estudo aristotélico acerca da natureza do conhecimento científico.
Vimos, durante este breve estudo, como, para Aristóteles, há um
secionamento natural do conhecimento científico, o qual se baseia, em última
análise, numa divisão que é própria ao ser ele mesmo. Existem diversos
gêneros de ser, irredutíveis uns aos outros, os quais delimitam, cada um, o
objeto de estudo das ciências. Como lembra o filósofo na Metafísica, cada
ciência particular seleciona uma parcela do ser, sobre a qual enfoca os seus
estudos. Deste modo, as ciências podem ser consideradas como sistemas
fechados de investigação, direcionados para um certo gênero do ser, fazendo
com que, desde sua etapa de observação, relativa à coleção dos fatos
relevantes à pesquisa, haja um parâmetro, definido pelo próprio gênero, no
interior do qual opera a seleção. Assim também, proibiu-se, de modo geral, a
transição entre gêneros, a qual só se permite no caso especial em que haja
subordinação entre ciências. Cada ciência se revela, portanto, como um
conjunto de proposições verdadeiras encadeadas demonstrativamente e cujo
ponto de partida são proposições indemonstráveis. E tal indemonstrabilidade
dos princípios científicos não pode ser tomada em sentido fraco, isto é, apenas
em relação à própria ciência na qual operam tais princípios, mas em sentido
forte: os princípios primeiros, próprios a cada gênero científico, são em si
mesmos indemonstráveis, quer dizer, auto-evidentes: compreendê-los significa
já conhecê-los. A partir daí, pode-se dizer que há, em Aristóteles, uma
concepção das ciências como sistemas auto-suficientes, nos quais, procedendo
por princípios primeiros que possuem em si mesmos a base para a sua
evidência, se estruturam cadeias silogísticas a partir das quais buscamos ajustar
nosso discurso ao setor da realidade que investigamos.
Toda ciência demonstrativa lida com três coisas: em primeiro lugar, aquilo
cuja existência ela postula, a saber, o objeto acerca do qual tratam suas
demonstrações, que nada mais é do que o sujeito genérico delimitado pela
ciência. Em segundo lugar, os atributos a respeito dos quais se assume o que
eles são, para, então, provar-se que eles são. Se lembrarmos da distinção
metafísica operante no sistema aristotélico entre ser por si e ser por outro, na
qual é por si aquilo – a substância – cujo ser independe do ser de outra coisa e é
por outro aquilo cujo ser é dependente do ser de uma substância, a saber, os
acidentes, compreenderemos que, para os atributos – não sendo eles
substâncias, mas acidentes próprios da substância –, ser é ser em algo. Sendo
assim, provar que um atributo é – tarefa das ciências demonstrativas – significa
demonstrar o seu pertencimento a uma substância, ou seja, provar que tais
atributos têm existência na substância cuja natureza delimita o escopo
investigativo da ciência em questão. Em terceiro lugar, lida a ciência com
princípios próprios, a partir dos quais executam suas demonstrações. Acerca de
tais princípios, vimos que eles não são apenas indemonstráveis dentro dos
limites da ciência na qual operam como princípios, mas, ainda mais,
indemonstráveis por si mesmos, ou seja, por qualquer ciência, exceto quando,
num caso especial, duas ciências se relacionam de maneira que uma tem seu
gênero derivado da outra e, por isso, subordinada em relação a esta outra. Só
assim dir-se-á que uma ciência demonstra os princípios da outra: quando uma
subordina a outra, em virtude da relação entre seus gêneros.
Tampouco se deve pensar que cabe à ciência do ser enquanto ser, da
qual trata Aristóteles na Metafísica, a tarefa de provar os princípios próprios às
ciências particulares. Isto porque tal suposição se põe em conflito com o
conceito mesmo de ciência do ser enquanto tal, na medida em que só cabe a ela
o estudo das características mais gerais do ser, aquelas que ele possui
enquanto ser. Ora, os princípios próprios às ciências, enquanto restritos a
gêneros particulares do ser, não podem constituir matéria de estudo da ciência
buscada na Metafísica. Se esta ciência lida com algum tipo de princípios, estes
são os princípios mais gerais do ser, comumente chamados, ao longo dos
Analíticos, de “axiomas comuns”, os quais não são utilizados como premissas a
partir das quais procedem as demonstrações nas ciências particulares. Antes,
os princípios do ser enquanto tal funcionam como princípios por respeito aos
quais operam as demonstrações científicas, orientando toda atividade
demonstrativa, na medida em que regulam todo discurso acerca do ser.
Jonathan Barnes, na introdução contida na segunda edição de sua
tradução dos Segundos Analíticos, sustenta - retomando a idéia central exposta
em seu célebre artigo “Aristotle’s Theory of Demonstration” - que o texto
aristotélico não contém uma teoria da metodologia científica. Com isso, o
comentador quer dizer que Aristóteles não visa à exposição de um método
regulador da atividade de pesquisa científica, “mas cuja preocupação diz
respeito à organização e apresentação dos resultados da pesquisa: o seu
objetivo consiste em dizer como podemos reunir num todo inteligível as diversas
descobertas do cientista - como podemos organizar os fatos, de modo que suas
inter-relações e, em particular, suas explicações, possam ser mais bem
reveladas e apreendidas”.
40
Numa nota a esta introdução, comentando os
resultados do mencionado artigo, Barnes afirma haver um lado positivo e outro
negativo da tese lá exposta. O lado negativo, segundo o qual os Segundos
Analíticos não fornecem uma teoria do método científico, “é certamente
verdadeiro, tendo sido amplamente aceito”, pensa o comentador. Já o seu lado
positivo, de acordo com o qual a obra teria sido escrita fundamentalmente para
pedagogos, “não foi tão bem recebido”, admite Barnes. De fato, o aspecto
40
Barnes (1993), p. xii.
negativo da tese exposta por Barnes encontra-se amplamente difundido entre os
intérpretes de Aristóteles, de maneira que se pode considerar ponto pacífico
este segundo o qual, nos Segundo Analíticos, não quer o filósofo, mediante a
exposição de um método, balizar a atividade de pesquisa científica, mostrando
ao pesquisador como descobrir novas verdades. Já Ross havia dito que, “ao
descrever a ciência como passando do menos familiar, porém mais inteligível,
ao mais familiar, porém menos inteligível, Aristóteles claramente tem em mente
uma ciência que não mais se encontra em seu primeiro estágio, o da
investigação, mas que foi de tal maneira desenvolvida, tornando-se capaz de ser
estabelecida de uma forma expositiva contínua”.
41
Na passagem, Ross também
deixa claro como o método demonstrativo, no qual partimos de premissas
menos conhecidas para nós, embora mais conhecidas por natureza, para obter
uma conclusão mais conhecida para nós, ainda que menos conhecida por
natureza, não concerne à etapa da investigação científica, em que o
pesquisador, tendo apreendido o quê, sai em busca do seu porquê, mas, antes,
diz respeito à fase expositiva da ciência, quando, uma vez adquirida a matéria
do conhecimento, passamos a expô-la sob forma demonstrativa.
Olhemos um pouco mais de perto a tese exposta por Barnes em seu
famoso artigo. O objetivo central do texto consiste em explicar a não
coincidência entre o método seguido por Aristóteles nos seus tratados científicos
e o método prescrito pelo filósofo, nos Segundos Analíticos, para reger a
atividade científica. O ponto de partida do artigo, portanto, reside na
apresentação de um problema, a saber: como conciliar o método científico
prescrito com o método praticado por Aristóteles quando este se dedica a fazer
ciência? Uma solução bastante difundida na interpretação da filosofia
aristotélica consistia em restringir o escopo de aplicação da teoria demonstrativa
às ciências matemáticas, negando, por conseguinte, a aplicação do método
prescrito à totalidade das ciências. Como aponta Barnes, a solução não é boa,
pois, ainda que consideremos paradigmática a posição das matemáticas na
formulação do método dos Segundos Analíticos, nada lá nos sugere que ele não
41
Ross (1923), p. 43.
tenha em vista o conhecimento científico de modo geral. A solução de Barnes,
por sua vez, começa por mostrar que o problema da conciliação só se manifesta
se fizermos uma suposição, que, segundo ele, é falsa: o problema da
inconsistência entre prescrição e prática só vem à tona a partir da suposição que
a teoria apresentada no referido tratado visa à exposição do tipo de atividade
relatado nos tratados propriamente científicos. Ou seja, a inconsistência só
aparece quando supomos que a teoria dos Segundos Analíticos tem como
objetivo formalizar a atividade de pesquisa científica. Como sustenta Barnes, a
hipótese sem a qual não emerge o problema da inconsistência é falsa: “a teoria
da ciência demonstrativa nunca foi concebida de modo a guiar ou formalizar a
pesquisa científica: ela diz respeito exclusivamente ao ensinamento de fatos já
adquiridos; ela não descreve como o cientista adquire ou deve adquirir
conhecimento: ela oferece um modelo formal de como professores devem
apresentar e repassar conhecimento”.
42
Em seu artigo, buscando distinguir
entre pesquisa científica e método demonstrativo, Barnes se vê comprometido
com a tese segundo a qual a demonstração supõe uma ciência já adquirida e
que o objetivo do método demonstrativo nada mais é do que facilitar a
transmissão deste conhecimento obtido na atividade de investigação. Assim, “o
ensinamento é a função própria do argumento demonstrativo” (p. 80). Uma vez
adquirido, mediante uma atividade de pesquisa, o conhecimento científico,
busca-se organizá-lo de acordo com o método demonstrativo, com o intuito de
tornar mais acessível o ensinamento daquele corpo de conhecimento já
constituído.
Esta maneira de conceber a relação entre pesquisa científica e
demonstração, na qual se supõe o conhecimento científico, quando da
exposição demonstrativa, já previamente instituído, encontra oposição na
interpretação oferecida por Porchat. Segundo ele, “não se confundem,
absolutamente, no aristotelismo, ciência e investigação ou pesquisa “científica”.
Só é ciência o conhecimento que, porque se ajustou integralmente às
42
1975, p. 77.
articulações do real, é posse efetiva dele pela nossa alma”.
43
É claro que a tese
de Barnes culmina no erro acusado por Porchat, a saber, o de fazer fundir aquilo
que Aristóteles concebeu de modo distinto, ainda que não separadamente:
pesquisa científica e ciência propriamente dita
44
. Dizer que o método
demonstrativo caracteriza uma etapa em que, já estabelecida a ciência,
preocupamo-nos tão-somente em organizá-la de modo a tornar acessível a
transmissão do conhecimento, sendo, antes, dirigido ao professor do que ao
cientista, é atribuir à pesquisa a tarefa de constituição da ciência, como se, uma
vez apreendidas as causas, não houvesse mais nada a fazer. Assim, o método
demonstrativo se vê diminuído a um método de exposição. No entanto, como
aponta Porchat, os resultados da pesquisa carecem de algo sem o que não
podemos dizer que o conhecimento científico se efetivou. A ciência consiste
numa reprodução fiel, no discurso, da realidade. Portanto, deve constituir-se na
mesma ordem em que estão as coisas na realidade. Tal reprodução da ordem
do ser só se manifesta na demonstração. É só na demonstração que o nosso
discurso vai da causa ao causado, das premissas à conclusão, do mais
conhecido em si ao mais conhecido para nós, enfim, do porquê ao quê. Na
medida em que a etapa da investigação tem início com a apreensão de um quê
e culmina na retenção do seu porquê, nela o discurso se encontra na ordem
inversa da do ser e, portanto, não pode ser dita, ainda, ciência acabada. Sendo
assim, a demonstração não se limita a um método de exposição, caracterizando,
antes, um método de prova. E só a prova é a ciência finalizada, já que é só na
43
2000, pp. 122-123.
44
Ao afirmar que pesquisa e prova são noções que não se confundem, queremos dizer que cada
qual constitui um momento distinto de um processo cujo fim é o saber científico devidamente
realizado n’alma humana. A pesquisa tem início na apreensão de um fato e culmina no
desvelamento da causa própria deste fato. No entanto, a posse da causa não é, já, ciência.
Pois esta, enquanto reprodução fiel da realidade, deve estruturar-se na mesma ordem segundo a
qual as coisas se organizam na realidade. O momento culminante da etapa de pesquisa marca
o ponto em que tem início a prova. Nela buscamos, de acordo com o método demonstrativo,
reorganizar o nosso discurso segundo a ordem do ser. Assim, percorremos o caminho inverso,
que vai da causa ao fato, cuja apreensão delimita o início da pesquisa. E, feito o silogismo
demonstrativo, temos a ciência na sua forma acabada. No entanto, mesmo que se digam
distintas as noções de pesquisa e prova, não cabe afirmar que sejam de todo separadas: uma
não pode ser compreendida sem a outra e vice-versa. Se é só na prova que se tem,
propriamente, ciência, a pesquisa, por sua vez, é condição necessária da prova. Se toda
pesquisa científica é em vista da prova, a prova, por seu turno, não pode dar-se sem a pesquisa.
prova demonstrativa que o discurso espelha a ordem das próprias coisas. A
demonstração constitui, assim, o método mediante o qual o conhecimento
científico se efetiva, tal como afirmamos ao longo deste capítulo.
2 – A CIÊNCIA NOS PRIMEIROS LIVROS DA METAFÍSICA
Aristóteles, na Metafísica, visa ao estabelecimento de uma nova ciência.
Os Segundos Analíticos, como vimos, são a obra em que o filósofo apresenta o
método a partir do qual o conhecimento científico se efetiva. Lá, se introduz a
demonstração como o instrumento lógico mediante o qual ajustamos o nosso
pensamento à estrutura da realidade, sendo, portanto, tão-somente quando da
aquisição da prova demonstrativa que se obtém, de fato, ciência. Como diz
Bourgey, “a ordem rigorosa do raciocínio deve exprimir a ordem mesma da
natureza, traduzir as relações profundas que unem ou explicam os seres; dito de
outro modo, fundar-se sobre as relações íntimas de causalidade”.
45
É assim que
Aristóteles, em outros tratados, como na Ética Nicomaquéia, descreve a ciência
como uma “disposição demonstrativa” (VI. 3, 1139
b
33): a ciência se revela no
discurso demonstrativo, já que é só nele que o pensamento se acomoda à
ordem do ser.
Chega-se, por conseguinte, a partir do que já foi visto, ao ponto em que
se concluiria que ciência e demonstração são indissociáveis. Mas, se realmente
fosse assim, haveria de se afirmar que só o que é suscetível de prova via
demonstração pode ser cientificamente conhecido; e que, se uma disciplina é tal
que ela não comporta demonstração, então ela não pode ser dita científica. Por
outro lado, se nos deparamos com algum campo de estudo cujo cerne seja
infenso ao método demonstrativo, e que, mesmo assim, se queira atribuir a ele
alguma cientificidade, então será preciso supor que os critérios característicos
do saber científico, tal como expostos nos Segundos Analíticos, não recobrem
todo o espectro da ciência. O que, por sua vez, implicará dizer que o método
demonstrativo de prova é próprio a um tipo de saber científico, mas não a todo.
Que tal mudança de perspectiva se imponha, em função do próprio projeto
desenvolvido na Metafísica, na medida em que nela se visa à elaboração de
uma ciência sui generis, distinta daquelas que os Segundos Analíticos
45
Louis Bourgey (1955), pp. 102-103.
pretendem regular, é o que queremos sugerir. Sendo assim, o objetivo deste
capítulo consiste em delinear as articulações centrais do projeto aristotélico na
Metafísica, enquanto desenvolvimento de uma nova ciência.
46
Aristóteles dá início à Metafísica com a afirmação que “todo homem, por
natureza, deseja conhecer”. No seu comentário, Alexandre parafraseia do
seguinte modo tal asserção: “por sua própria natureza os homens amam o
conhecimento, pois o conhecimento é a perfeição do homem” (1, 9-10).
47
O
conhecimento, explica o comentador grego, é a perfeição da alma racional.
Para cada coisa, a perfeição indica o que é, para aquela coisa, o seu bem. O
bem, por sua vez, é um fim. Portanto, o conhecimento é aquilo a que o homem,
em virtude de sua própria natureza racional, visa. Já o comentário de Tomás de
Aquino distingue duas razões que fundamentam a afirmação feita por Aristóteles
na abertura da Metafísica.
48
Em primeiro lugar, cada coisa naturalmente deseja
a sua própria perfeição. No De Anima, Aristóteles sustenta que o intelecto, cuja
posse diferencia o homem dos outros animais, é, em potência, todas as coisas,
e que somente através do conhecimento ele passa a ser em ato aquilo que,
previamente, ele era apenas em potência. “Aquilo que na alma chamamos de
intelecto (por intelecto entendo aquilo mediante o que a alma pensa e julga) não
é, antes de pensar, em ato, coisa nenhuma” (429ª22-24). O intelecto,
considerado em si mesmo, é, em potência, todas as coisas; no entanto, antes de
exercer a atividade que o caracteriza - o pensamento - ele não é, em ato,
nenhuma delas. É tão-somente pelo exercício da atividade de pensar que o
intelecto passa a ser em ato aquilo que ele é, desde sempre, em potência. E,
para o intelecto, ser em ato as coisas nada mais é do que apreender as suas
formas pela definição. O conhecimento, por seu turno, tem como um de seus
pontos de partida justamente isso: a apreensão, pelo pensamento, da definição
46
Para tanto, concentraremos nossa análise em passagens centrais dos livros Α, Β, Γ e Ε. 1 da
Metafísica.
47
Sigo a versão em língua inglesa do comentário de Alexandre ao livro A da Metafísica, editado
e traduzido por William E. Dooley SJ (1989).
48
Comentário à Metafísica de Aristóteles, lição 1 (980
a
21-982
a
3). Seguimos a edição inglesa de
John P. Rowan (1995).
da coisa, expressão lógica da essência desta
49
. De modo que, no que concerne
à capacidade do intelecto de apreender a natureza das coisas que compõem a
realidade, este passa da potência ao ato mediante uma atividade, a saber, o
pensamento, o que se põe de acordo com a tese, sustentada em Θ, da
anterioridade do ato sobre a potência. Assim, dir-se-á que o homem deseja, por
natureza, conhecer, visto que o intelecto, através do qual o homem se distingue
dos outros animais, atinge a sua perfeição ao passar de um estado de potência
a um estado atual. E, como argumenta Aristóteles em Θ. 8, é porque o ato é
determinado em relação àquilo para o que a potência é indeterminada que a
passagem da potência ao ato constitui a passagem de um estado de imperfeição
a um estado de perfeição. O pensamento, por conseguinte, é o instrumento
mediante o qual o homem conhece as coisas. E o conhecer, por sua vez,
constitui a atividade pela qual o intelecto atinge uma maior perfeição, passando
de um estado potencial a um atual, em relação às formas inteligíveis das coisas
que compõem a realidade exterior. É nesta medida que o homem deseja, por
natureza, conhecer.
A segunda razão apontada por Tomás de Aquino em defesa da tese
aristotélica é que cada coisa possui uma tendência natural a executar a função
que lhe é própria. Assim como o fogo tende a esquentar e um corpo pesado, a ir
para o centro da Terra, do mesmo modo, o homem, dada a sua natureza
racional, tende a conhecer. É conhecendo, apreendendo o que é ser para cada
coisa, que o homem exerce a sua racionalidade teórica.
50
No entanto, é apenas
por motivos didáticos - para uma melhor compreensão do argumento - que
Tomás de Aquino separa as duas razões mencionadas, visto que elas, na
realidade, se reciprocam: é mediante a execução daquela função para a qual a
49
A forma está realmente na coisa conhecida e em abstrato no sujeito que conhece. Por isso,
diz-se que a essência, que está na coisa, é correlato ontológico da definição, que está no
intelecto do sujeito. A posse da definição, para Aristóteles, não é ciência, mas princípio de
ciência, uma vez que ela não é obtida como conclusão de um silogismo demonstrativo, antes
indutivamente, servindo, assim, de premissa à demonstração.
50
Pois não podemos dizer que a única tendência natural do homem, enquanto racional, é o
conhecimento, na medida em que, na Política, Aristóteles sustenta que é em virtude de sua
natureza racional que o homem é um “animal político” e que, sendo assim, é, também, uma
tendência natural do homem organizar-se numa comunidade política. Restringimos, portanto, o
conhecimento como uma tendência natural da racionalidade teórica humana.
coisa naturalmente se inclina que ela atinge a sua perfeição; e é porque
mediante tal função a coisa atinge a sua perfeição que a coisa é dita inclinar-se
naturalmente a ela.
O prazer que nos é proporcionado pelos sentidos serve, segundo
Aristóteles, como um indicativo de que a busca por conhecimento constitui uma
inclinação natural humana. Pois nós nos regozijamos com os sentidos na
medida em que eles nos permitem conhecer as coisas, ainda que o
conhecimento fornecido pela percepção sensível possa, às vezes, não ter
utilidade prática alguma. Que o regozijo com a atividade sensorial sirva como
indicativo de nossa inclinação natural ao conhecimento é algo que, para o
filósofo, fica claro a partir do fato que é maior o prazer obtido quanto mais
detalhado for o conhecimento fornecido pelos sentidos. Assim, a visão é tida
como o mais prazeroso dentre os sentidos, justamente por ser o mais
informativo dentre eles, como explica Aristóteles no De Sensu. Lá, o filósofo
fundamenta a superioridade da visão perante os outros sentidos dizendo que,
em função de todos os corpos serem dotados de cor, ao percebê-la,
percebemos, também, indiretamente, os sensíveis comuns, como a figura, a
extensão, o movimento e o número.
51
De modo que a visão nos diz mais sobre
as coisas do que os outros sentidos, o que a torna mais prazerosa.
Tendo introduzido a tese de acordo com a qual os homens desejam
conhecer em virtude de sua própria natureza, Aristóteles passa a descrever o
desenvolvimento do conhecimento desde a sua forma mais elementar, a
percepção sensível, até a mais eminente dentre as suas diferentes
manifestações - aquela à qual o filósofo associa o termo sabedoria. O que faz
Aristóteles é organizar hierarquicamente as diferentes expressões de
conhecimento, de modo a reconhecer na mais elevada dentre elas aquela
ciência que, na Metafísica, se quer instituir.
Já neste primeiro capítulo do primeiro livro da Metafísica, Aristóteles traz
à tona uma distinção, presente ao longo de todo os Segundos Analíticos, que diz
respeito a dois níveis de conhecimento: factual e causal (ou, como tratamos
51
De Sensu, 437ª4-10.
durante o capítulo anterior, do quê e do porquê). É a partir de tal distinção que o
filósofo parece separar, em A. 1, de um lado, percepção sensível e experiência,
de outro, arte e ciência.
A percepção sensível constitui a forma mais elementar de conhecimento
e, para Aristóteles, está na base de toda ulterior e mais elaborada manifestação
cognitiva. Pela sensibilidade, adquirimos conhecimento de que algo é o caso -
por exemplo, de que o fogo esquenta ou de que a grama é verde. Da percepção
sensível, mediante o concurso da memória, se origina, no homem, a
experiência. No De Memoria, Aristóteles define o seu objeto de estudo como “a
posse de uma imagem que é tida como uma cópia em relação àquilo de que ela
é uma imagem” (451ª15-17). E, na Metafísica, lê-se: “a partir da memória, a
experiência se produz no homem, pois muitas memórias de uma mesma coisa
produzem a capacidade para uma experiência” (980
b
27-29). Por meio da
capacidade de retenção de diversas imagens semelhantes daquilo que
percebemos sensivelmente, a experiência é gerada no homem. E a experiência
é introduzida como um fenômeno eminentemente humano, na medida em que
ela se caracteriza como um pensamento de conteúdo geral. Ao sustentar que a
experiência nasce da associação entre percepção sensível e memória,
Aristóteles quer dizer que, se um sujeito percebe diversas coisas particulares
semelhantes entre si - por exemplo, muitas árvores, e que elas possuem folhas -
e se ele é capaz de lembrar de tais coisas, retendo no intelecto suas imagens,
então nele se produz uma experiência acerca dessas coisas, a qual se expressa
sob a forma de um pensamento do tipo “Árvores possuem folhas”. Tal
pensamento não tem por objeto nenhuma das árvores sensivelmente
percebidas, mas diz respeito a árvores em geral, ainda que só possa ter sido
engendrado a partir das muitas percepções anteriores de árvores individuais. E
esta capacidade de generalização, pensa Aristóteles, é eminentemente
humana.
52
52
Ao tratar da relação entre as diferentes formas de conhecimento ao longo de Met. A. 1, busco
apoio na exposição feita por Vasilis Politis (2004), pp. 31-39.
A passagem da percepção sensível à experiência consiste na transição
de um conhecimento particular a um conhecimento geral. Ainda assim, ambos
se encontram num primeiro nível de conhecimento, aquele relativo ao quê.
Enquanto a sensibilidade fornece um conhecimento particular de que algo é o
caso, a experiência propicia um conhecimento geral de que algo é o caso: num
momento, sei que esta árvore tem folhas, para, num segundo, saber que árvores
têm folhas. É apenas, portanto, sob o aspecto da sua generalidade que
Aristóteles afirma que “a experiência é bastante similar à ciência e à arte”
(981ª1), na medida em que arte e ciência se encontram num nível superior de
conhecimento em relação à experiência, visto serem caracterizadas como
conhecimento causal, do porquê. E diz-se também que arte e ciência vêm a ser
através da experiência (981ª3), já que, em primeiro lugar, se tem um
conhecimento geral de que algo é o caso (por exemplo, de que árvores têm
folhas), para, num segundo momento, investigar-se por que tal é o caso (por que
árvores têm folhas).
Aristóteles comenta o procedimento daquele que, desprovido de arte, age
conforme à arte médica, por experiência: o que o caracteriza, como diz
Alexandre, “é um tipo de conhecimento geral de algo que é lembrado em muitas
ocasiões, que são as instâncias particulares” (4, 23-25). O “médico” carente de
arte não sabe explicar por que os seus pacientes manifestam certos sintomas e
por que, a partir da aplicação de um dado medicamento, eles se comportam de
um certo modo
53
. Ainda assim, ele é capaz de tratar eficazmente os seus
pacientes, na medida em que possui um conhecimento geral adquirido pela
acumulação de diversas memórias semelhantes: que Sócrates, diante de certos
sintomas, reagiu de tal maneira a uma certa medicina; que Cálias, quando diante
dos mesmos sintomas, reagiu do mesmo modo; e assim em diversos casos
particulares. A reunião na memória destes diversos casos particulares enseja a
geração de um conhecimento geral que se pode expressar da seguinte maneira:
53
Botamos a expressão entre aspas, visto que, se ele não possui a arte médica, então não pode,
propriamente, ser dito médico. Mesmo assim, na medida em que é capaz de curar tanto quanto
aquele dotado de arte, ainda que desconhecendo as razões daquilo que constata, o chamamos,
por extensão, de médico.
certos indivíduos, diante destes sintomas, reagem desta maneira, quando da
aplicação deste tipo de medicamento. Mediante a capacidade de reconhecer,
num caso particular presente, uma instância daquele conhecimento geral,
adquirido através da acumulação de casos particulares passados, o sujeito,
ainda que desprovido de arte - isto é, de razões -, é capaz de agir com eficácia
na cura de seus pacientes.
Há, na argumentação aristotélica, uma clara heterogeneidade entre a
passagem da percepção sensível à experiência e aquela da experiência à arte
(ou ciência). Pois, no primeiro caso, o que há é a transição de um conhecimento
particular (Sócrates, quando diante destes sintomas, reagiu desta maneira à
aplicação deste medicamento) a um conhecimento geral, obtido pela
acumulação de diversos casos particulares semelhantes (certos indivíduos
reagem desta maneira à aplicação desta substância medicamentosa). Ainda
assim, em ambos os casos, tudo o que se tem é um conhecimento, particular ou
geral, do quê. Já no segundo caso, da transição da experiência à arte,
deparamo-nos com a passagem de um conhecimento geral do quê a um
conhecimento universal das causas pelas quais aquilo que sabemos é tal como
é. Ao adquirir a arte médica, passamos a compreender por que aqueles
indivíduos reagem daquela maneira àqueles medicamentos, ao manifestarem
aqueles sintomas. Diferentemente do primeiro caso, esta segunda transição, da
experiência à arte, consiste na passagem de um tipo de conhecimento (factual)
a outro tipo de conhecimento (causal). Sendo assim, devido a suas naturezas
heterogêneas, não se pode transitar de um a outro tão-somente através da
acumulação de casos: por mais experiente que se torne o “médico”, ele não
adquirirá, sem mais, a arte médica. Isto é, as causas daquilo que ele, por
experiência, sabe que é o caso não emergem pela simples reunião de mais
memórias semelhantes àquelas que compõem a sua experiência. Enquanto a
experiência é de âmbito prático, o conhecimento causal se dá em âmbito teórico.
Nesta medida, as passagens da percepção sensível à experiência e aquela da
experiência à arte não podem ser postas em mesmo nível; elas são de
naturezas distintas. Por isso, como dissemos, ao sustentar que a arte e a
ciência vêm a ser através da experiência, tudo o que o filósofo quer dizer é que
é preciso, primeiramente, saber que algo é o caso, para, depois, investigar por
que é o caso.
Aristóteles argumenta que, no que diz respeito à ação, a experiência não
é inferior à arte, podendo ser o caso que, às vezes, o homem experiente
obtenha, em questões práticas, maior sucesso do que aquele dotado de arte. A
razão para isso é que “a experiência é conhecimento do individual, enquanto
que a arte concerne ao universal” (981ª16). Vimos que a experiência é
caracterizada, por oposição à percepção sensível, como um conhecimento geral
de que algo é o caso. Não devemos considerar que tal generalidade do
conhecimento por experiência se oponha a esta sua descrição, segundo a qual
consiste num conhecimento do individual, na medida em que a generalidade da
experiência nada mais é do que o resultado do acúmulo de diversas imagens de
percepções individuais semelhantes – que culmina num pensamento de
conteúdo geral, como já dissemos. Em função da generalidade da experiência
ser resultante da soma de muitas percepções individuais semelhantes, não
devemos considerar que haja alguma contradição em caracterizá-la, num
momento, como um conhecimento geral e, noutro, como conhecimento do
individual.
Já a arte, por sua vez, é descrita como um conhecimento relativo ao
universal. Aristóteles escreve que a arte surge “quando um juízo universal
acerca de uma classe de objetos é produzido” (981ª7). Ora, a arte, portanto,
caracteriza-se por dois aspectos: ela é conhecimento causal, isto é, de por que
algo é o caso; e ela é conhecimento do universal. Daí se vê que não há, em
Aristóteles, confusão entre um conhecimento geral (característico da
experiência) e outro, que diz respeito ao universal (típico da arte e da ciência)
54
.
É apenas mediante uma investigação causal que se pode apreender as coisas
54
O geral se obtém, a partir da percepção sensível de diversos casos particulares, por indução.
O universal, por sua vez, resulta de uma investigação das propriedades que uma coisa tem e
que ela não pode deixar de ter sob pena de deixar de ser o que ela é. Ou seja, o universal
emerge da apreensão das propriedades necessárias da coisa: se x, sem a propriedade y, deixa
de ser x, então tudo o que é x deve possuir a propriedade y; quer dizer, para todo o caso em que
se tem uma coisa do tipo x, tem-se algo com a propriedade y.
na sua universalidade. Sendo assim, aparecem como indissociáveis os dois
aspectos característicos do saber artístico (científico) - universalidade e
causalidade.
55
Conhecer uma coisa pelas suas causas é conhecer o que faz
dela aquilo que ela é; significa conhecê-la a partir daquelas características sem
as quais a coisa deixa de ser o que é. Portanto, é conhecê-la na sua
universalidade; vale dizer: naquilo que ela possui de idêntico com outras coisas
de sua espécie. Ao conhecer as causas pelas quais algo é, apreendemos a
coisa naquilo que ela possui de universal, de maneira que, pela apreensão das
causas, subsumimos a coisa conhecida a uma classe de objetos, como sustenta
o filósofo.
O motivo pelo qual, em questões práticas, o homem de experiência pode
obter tanto sucesso (ou até mais) quanto o homem que possui conhecimento
causal consiste em que aquilo que é feito ou que é produzido é o individual.
Pois, seguindo o exemplo do próprio filósofo, o médico não cura homem, mas
este homem, Sócrates ou Cálias, ou qualquer outro indivíduo pertencente à
espécie humana.
56
E, como vimos, enquanto a arte trata do universal (na
medida em que este é obtido apenas mediante uma investigação causal), a
experiência diz respeito ao individual. Portanto, aquele que conhece o universal
- que sabe as causas pelas quais a substância x, quando em interação com
indivíduos y, provoca a reação z -, mas que, por outro lado, não experienciou
casos particulares que se possam subsumir àquele conhecimento universal, não
será capaz de curar com a eficácia daquele que adquiriu um conhecimento geral
(ainda que não-causal) baseado no acúmulo de casos individuais.
Ainda que, do ponto de vista prático, a experiência não seja inferior em
mérito à arte, Aristóteles sustenta que, mesmo assim, considera-se que a arte
55
Em seguida, veremos se tal caracterização do conhecimento artístico como sendo do universal
se põe em desacordo com a doutrina exposta na Ética Nicomaquéia (VI, 3-6). Lá, teremos que a
arte consiste num conhecimento causal do particular e contingente, enquanto que a ciência
constitui um conhecimento causal do universal e necessário. Por enquanto, apresentamos a
doutrina sustentada em A. 1, a qual não faz distinção entre arte e ciência, na medida em que
está mais interessada na oposição entre saber que e saber por quê.
56
No texto da Metafísica, Aristóteles escreve: “pois o médico não cura ‘homem’, exceto de modo
acidental, mas Cálias ou Sócrates, ou qualquer outro chamado por algum nome” (981ª17-20).
Ou seja, curando, em sentido próprio, este homem, o médico, por acidente, cura homem: porque
cura Sócrates, cura, por acidente, homem, na medida em que é Sócrates um homem.
seja mais condignamente chamada de sabedoria do que a experiência (e que,
portanto, o artista seja mais sábio do que o experiente), na medida em que a
arte é conhecimento da causa, enquanto que, pela experiência, tudo o que se
sabe é que algo é o caso. Para Alexandre, ao sustentar que, embora no que
concirna ao que é feito ou produzido a experiência seja tão estimável quanto a
arte, e que, ainda assim, a arte - por fornecer as causas - seja mais próxima à
natureza da sabedoria do que a experiência, Aristóteles está chamando a
atenção para como o conhecer é mais estimável do que o agir ou o fazer e que a
sabedoria, por isso mesmo, consiste, antes, numa capacidade teórica do que
prática ou produtiva. “Pois, se a arte é mais estimável do que a experiência,
ainda que esta última não seja inferior à arte no que respeita à ação, podendo
até, ocasionalmente, provar-se mais efetiva do que a arte, mas o seja no que diz
respeito ao conhecimento, claro está que o homem tem o conhecimento em
mais alta estima do que a ação” (5, 15-20). É o que diz Aristóteles, ao afirmar
que “nós os consideramos [aqueles que possuem arte] como mais sábios não
em virtude de serem capazes de agir, mas por possuírem conhecimento teórico
e conhecerem as causas” (981
b
5-7).
O raciocínio de Aristóteles é que, se a arte - no que respeita à ação - não
é superior à experiência e se, ainda assim, se supõe que a arte esteja mais
próxima à natureza da sabedoria do que a experiência, então o conhecimento
deve ser mais estimável do que o agir, na medida em que, quanto ao
conhecimento, a arte é superior à experiência, visto que sabe o porquê daquilo
acerca do que a experiência sabe somente quê.
A partir do que foi dito, passamos a compreender de que modo Aristóteles
estrutura o conhecimento em tipos hierarquizados, caracterizando-o em três
níveis, os quais marcam a ascensão do gênero mais fundamental de
conhecimento àquele que mais justificadamente faz valer o título de sabedoria.
Primeiramente, tem-se a percepção sensível como um conhecimento de que
algo individual é o caso - quando, por exemplo, percebemos sensivelmente que
esta árvore possui folhas. Em segundo lugar, chega-se, pela associação da
memória à sensação, que, por sua vez, possibilita a retenção no intelecto de
diversos casos particulares semelhantes, a um conhecimento de que algo (não
mais individualizado, mas generalizado) é o caso, o qual se exprime pelo
pensamento “Árvores têm folhas”. Num terceiro e mais elevado momento,
encontramos um conhecimento que não é mais apenas relativo ao quê, mas que
nos fornece as causas pelas quais aquilo que percebemos sensivelmente é do
modo que é. E, na medida em que é apenas por meio de uma remissão à
essência do que é ser árvore que podemos compreender adequadamente por
que árvores têm folhas, ao apreendermos as causas, o objeto de nosso saber -
no caso, árvores - não mais é tido como um mero termo geral, mas como um
universal. É assim que a arte se distancia duplamente das formas mais
elementares de conhecimento - percepção sensível e experiência: nem mais se
restringe a um conhecimento do indivíduo na sua individualidade, nem,
tampouco, se esgota num conhecimento do quê, constituindo, antes, um
conhecimento causal do universal.
Em função de que o seu objetivo central, em A. 1, é o de distinguir dois
tipos de conhecimento, do quê e do porquê, mostrando que um é condição para
que o outro se efetive, sendo, por outro lado, este último, mais próximo à
natureza da sabedoria, Aristóteles não se ocupa aqui em tratar da distinção
entre arte e ciência, na medida em que o que interessa no presente texto é opor
ambas, naquilo que têm em comum (são conhecimentos causais), ao
conhecimento de experiência. Assim, o que é dito, ao longo de A. 1, a respeito
do conhecimento artístico vale também (e, como veremos, vale mais
propriamente) para a ciência, já que, neste capítulo, os dois termos são usados
indistintamente. Para que não se pense, no entanto, que arte e ciência são
expressões sinônimas, Aristóteles remete o leitor ao sexto livro da Ética
Nicomaquéia (VI, 3-6), no qual se trata de tal distinção.
Aristóteles inicia o terceiro capítulo do livro VI da Ética Nicomaquéia
afirmando haver cinco disposições por meio das quais a alma racional apreende
o verdadeiro. São elas: arte, ciência, prudência, sabedoria e inteligência. Como
explica Tomás de Aquino
57
, dentre essas cinco disposições, três delas - ciência,
sabedoria e inteligência - pertencem à parte especulativa da alma racional,
enquanto que as outras duas - arte e prudência - dizem respeito à parte prática
da alma racional. Dentre as disposições relativas à parte especulativa da alma
racional, o que as distingue é que a inteligência é disposição para apreender a
verdade concernente aos primeiros princípios da demonstração, enquanto que a
ciência se volta à apreensão da verdade que se extrai mediante um silogismo
demonstrativo a partir daqueles princípios conhecidos pela inteligência. Já a
sabedoria, por sua vez, diz respeito às causas primeiras de todas as coisas. Por
outro lado, as disposições concernentes à aquisição da verdade relativa à parte
prática da alma racional, prudência e arte, se diferenciam na medida em que,
enquanto a prudência se dirige à ação, a arte é concernente à produção. Se a
prudência se ocupa daquelas ações das quais não resulta nada que seja
separado da própria ação, a arte diz respeito àquelas ações das quais decorre
algo ontologicamente separado da ação ela mesma: por exemplo, da atividade
do construtor, o construir, resulta algo que é ontologicamente independente do
próprio construir - não no sentido que possa vir a ser sem a atividade do
construtor, mas que, uma vez construído, não deixa de ser com o
desaparecimento da atividade -, a saber, a coisa construída: uma casa ou
qualquer outra coisa que o construtor, através da sua atividade, tenha
construído.
A partir daí, vemos que a distinção entre ciência e arte equivale à
oposição entre duas disposições para a apreensão da verdade, relativas, cada
qual, a uma diferente função da alma racional, respectivamente, especulativa e
prática. E Aristóteles distingue duas funções da alma racional, na medida em
que uma se volta à aquisição da verdade no âmbito daquilo que é necessário e
universal (parte especulativa), enquanto que a outra se ocupa do verdadeiro no
âmbito do que é contingente e particular (parte prática). Assim, a ciência é
descrita como uma “disposição demonstrativa” relativa àquilo que não pode ser
de outra maneira, o necessário. A arte, por seu turno, é caracterizada como
57
1995, lição 1, § 34.
uma “disposição, envolvendo razão, relativa à produção”. A coisa produzida
pela arte pode tanto ser quanto não ser, por oposição à necessidade daquilo que
se conhece cientificamente. Nesta medida, Aristóteles afirma que “toda arte se
ocupa do vir a ser e o exercício artístico consiste no estudo de como algo, que
pode tanto ser quanto não ser, vem a ser; algo cujo princípio está no produtor e
não no produto” (1140ª12-14).
58
Seguindo, por conseguinte, a doutrina exposta na Ética Nicomaquéia, por
oposição ao que foi dito em Metafísica A. 1, compreendemos que o saber
artístico diz respeito ao contingente - àquilo que pode tanto ser quanto não ser,
dependentemente do desígnio do artista - e ao individual - já que o que é objeto
de produção artística é sempre algo individual -, enquanto que a ciência tem por
objeto o necessário e o universal.
59
De modo que, quando Aristóteles, em A. 1,
afirma, por exemplo, que “a experiência é conhecimento do individual e a arte,
do universal” (981ª16-17), se seguimos a doutrina da Ética, devemos entender
que é propriamente ao conhecimento científico que Aristóteles quer se referir,
58
Cf. Ét. Nic. VI, 3-4. A ciência pode ser do individual e contingente, no entanto ela não é do
individual e contingente enquanto individual e contingente. Ao buscar as causas daquilo que ela
sabe que é o caso, a ciência encontra a essência, que funciona como o elemento de
necessidade e universalidade daquilo que existe – e que, enquanto tal, é individual e
contingente. Assim, ao afirmar que “o que é conhecido cientificamente é o necessário”
(1139
b
23), Aristóteles está dizendo que todo conhecimento científico tem por fundamento as
essências daquilo que existe. Resta saber se também a arte, que, nas palavras do Estagirita,
“não se ocupa daquilo que existe por natureza” (1140
a
15), mas daquilo que vem a ser pelo
trabalho do artífice, pode encontrar, no seu objeto de estudo, algum elemento de necessidade e
universalidade, na medida em que – segundo a doutrina metafísica exposta no livro Z – só as
substâncias naturais possuem, em sentido estrito, uma essência.
59
Aqui encontramos um possível ponto de discórdia: pode-se dizer que a arte trata do individual
na sua individualidade, mas que – ainda assim – o fundamento da contingência do saber artístico
se encontra, não na coisa conhecida, mas no sujeito que conhece. De modo que tomar-se-ia a
contingência própria à arte como que de natureza técnica e provisória: como se o objeto de
conhecimento artístico não fosse, por natureza, infenso a uma abordagem científica, sendo,
antes, uma limitação epistêmica (superável) do sujeito a responsável pela contingência
(eliminável) do seu saber. Se assim for, então aquilo de que, por ora, se tem conhecimento
artístico pode vir a ser cientificamente conhecido. A razão metafísica que encontro para rejeitar
essa leitura consiste no seguinte: enquanto a arte trata daquilo que não é por natureza, a ciência
lida com substâncias naturais. Em sentido estrito, só as substâncias naturais têm, no mundo
físico, essências. Pode-se, por conseguinte, dizer que, mesmo que tais substâncias sejam
individuais e contingentes, é possível, por remissão a suas essências, abordá-las naquilo que
possuem de universal e necessário: nisso consiste a abordagem científica do mundo sensível
aos olhos de Aristóteles. Já o objeto da arte não possui, exceto em sentido derivado, uma
essência, o que nos leva a inquirir se é mesmo possível encontrar no objeto de conhecimento
artístico algum elemento de real universalidade e necessidade.
mas que, em função do contexto ser o de oposição entre conhecimento de fatos
e conhecimento de causas, e não o de oposição entre razão prática e razão
especulativa, tal imprecisão conceitual torna-se escusável.
Diz-se que a ciência constitui um modo de conhecimento mais elevado
em relação à arte. Uma razão para isso é que, enquanto a arte trata do
individual na sua individualidade e contingência (como vimos, a arte trata daquilo
que pode tanto ser quanto não ser e que, mediante a atividade do artista, passa
a ser), a ciência trata do individual naquilo que ele possui de universal e
necessário.
60
Nesse sentido, a ciência, na medida em que se revela um
conhecimento do universal e necessário, é mais adequadamente chamada de
sabedoria do que a arte, que tem por objeto de estudo o individual e contingente.
Isto porque o universal e necessário, sendo sempre do mesmo modo, é, por sua
natureza, mais cognoscível do que o individual e contingente, que ora é assim,
ora é não-assim.
61
A segunda razão pela qual a ciência é mais próxima à
sabedoria do que a arte é que o conhecimento científico não possui nenhum fim
extrínseco a si mesmo, enquanto que o conhecimento artístico serve a um
propósito que lhe é extrínseco. Se a arte, por um lado, consiste num
conhecimento cuja finalidade é a produção de algo que nos seja útil ou
prazeroso, a ciência, por outro lado, consiste num conhecimento que não visa à
geração de nada exceto o próprio conhecimento, o qual possui em si mesmo o
fundamento do seu valor. Se o que é bom por si mesmo é mais estimável do
que aquilo que tem em outra coisa o fundamento de sua bondade, então a
ciência é mais estimável do que a arte e, por isso mesmo, mais digna de ser
60
Tomás de Aquino, no seu Comentário à Ética Nicomaquéia de Aristóteles (VI, lição 3, § 1150),
afirma que, enquanto a arte trata de coisas contingentes precisamente naquilo que elas têm de
contingentes, as ciências, diferentemente, não se ocupam do contingente, exceto naquilo que ele
possui de universal - isto é, sob o aspecto de sua essência, com a qual mantém uma relação de
necessidade. [Seguimos a reedição da tradução inglesa de C. J. Litzinger, O.P. (1993)].
61
É o que diz Aristóteles na seguinte passagem da Ética Nicomaquéia: “todos supomos que o
que é cientificamente conhecido não pode ser de outra maneira; já o que pode ser de outro
modo, toda vez que escapa à nossa observação, a respeito dele não se pode dizer se é ou não
é; portanto, não é cognoscível” (1139
b
20-23). Assim, o contingente - o qual pode ser de outra
maneira - é, por natureza, menos cognoscível do que o necessário, na medida em que, quando o
perdemos de nosso campo perceptivo, deixamos de ter qualquer garantia de que aquilo que era
ainda é. Mas o que não é, não pode ser conhecido, de modo que o que sempre é - o necessário
- é mais conhecido, por sua natureza, do que aquilo que ora é, ora não é.
chamada sabedoria. É o que Aristóteles explicitamente afirma, ao sustentar que
“o conhecimento teórico é mais próximo à natureza da sabedoria do que o
conhecimento produtivo” (981
b
35).
Trazendo à baila o que é dito na Ética Nicomaquéia acerca da arte a da
ciência, vê-se que, enquanto a arte caracteriza-se como um conhecimento
causal do individual e contingente, a ciência, por sua vez, destaca-se como um
conhecimento causal do universal e necessário. Anteriormente à menção à
doutrina exposta na Ética, disséramos que universalidade e causalidade
constituíam aspectos indissociáveis do conhecimento artístico; agora sabemos
que estas duas características compõem, antes, a natureza do conhecimento
científico. Deste modo, havíamos dito que, investigando as causas, passamos a
conhecer o objeto de nosso estudo na sua universalidade, isto é, naquilo que ele
possui de idêntico a outras coisas de sua espécie. Sendo assim, poder-se-ia
considerar o conhecimento artístico, na medida em que é - assim como a ciência
- conhecimento causal, como sendo, também, relativo ao universal. No entanto,
só a ciência se ocupa de substâncias e, devido à natureza deste seu objeto, lhe
é permitido ocupar-se do individual não na sua individualidade, mas naquilo que
ele possui de universal. Em outras palavras, a ciência é capaz de enfocar o
indivíduo na sua universalidade, na medida em que o seu objeto de investigação
são, em última análise, substâncias. Isto porque, como argumenta Aristóteles
no livro Z, apenas substâncias possuem, em sentido estrito, uma essência.
62
Assim, apenas a investigação causal própria à ciência - cujo objeto de estudo é
a substância - nos fornece um universal, em virtude da concepção aristotélica de
acordo com a qual os universais se dividem segundo as próprias junturas do ser,
as quais correspondem às essências das coisas. Conhecer algo na sua
universalidade é conhecê-lo pela sua essência, de modo que o que não possui,
62
Ver Met. Z.4-6. Em Z. 5, Aristóteles escreve: “só a substância é definível” (1031ª1); algumas
linhas depois, continua: “em sentido estrito, nada possui uma definição e nada possui uma
essência exceto as substâncias, ainda que, noutro sentido [frouxo], outras coisas também as
possuam. Claramente, a definição é expressão da essência, e esta deve pertencer às
substâncias tão-somente, ou principalmente e em sentido estrito” (1031ª10-14).
em sentido estrito, essência, não pode ser conhecido senão na sua
individualidade.
63
Já dissemos que Aristóteles inicia a Metafísica organizando as diversas
formas de conhecimento numa escala hierárquica ascendente, de modo a traçar
uma identidade entre a sabedoria, modo de conhecimento que ocupa o ápice da
escala, e a ciência buscada ao longo da referida obra. Tendo isso em mente, o
filósofo sustenta que “todos supõem que aquilo a que chamamos de sabedoria
lida com as causas e princípios primeiros das coisas” (981
b
28-29). Sendo
assim, deveria a ciência que na Metafísica se quer instituir lidar com as causas e
princípios primeiros das coisas. No entanto, como aponta Politis
64
, enquanto
conhecimento das causas primeiras das coisas, a ciência buscada não se
distingue de nenhuma das ciências especializadas, as quais - como sabemos -
delimitam um gênero de ser e a ele restringem as suas investigações. Pois,
como vimos no capítulo anterior, ao expor sua doutrina concernente ao
conhecimento científico, Aristóteles sustenta que cada ciência, tendo circunscrito
um gênero particular do ser, demonstra, mediante causas primeiras, ainda que
primeiras relativamente a um gênero determinado, que certos atributos
pertencem necessariamente ao sujeito a respeito do qual ela dedica os seus
estudos. Assim, não só a ciência que se busca na Metafísica, mas toda e
qualquer ciência se ocupa das causas e princípios primeiros das coisas - cada
qual se ocupando das causas e princípios primeiros relativos ao gênero que por
ela é delimitado.
Tendo em mente que toda ciência é caracterizada como um
conhecimento a partir de causas e princípios primeiros, Aristóteles, buscando
63
Se a coisa é como a descrevemos, então acerca daquilo que não possui - em sentido
primordial - uma essência não se pode ter senão um conhecimento geral, obtido mediante
indução, a partir da consideração de diversos casos particulares. A arte, portanto, na medida em
que trata daquilo que não possui, propriamente, uma essência, não pode ser mais do que um
conhecimento causal de conteúdo geral, enquanto tal generalidade é obtida pela retenção de
vários casos particulares. O que, por sua vez, distinguiria a arte da mera experiência é que
aquilo que esta última sabe apenas que, a arte sabe por quê. Mas, assim como a experiência, a
arte é um conhecimento de conteúdo geral, devido à natureza do seu objeto de estudo.
Enquanto isso, é a ciência que trata do universal propriamente dito. É porque o objeto de estudo
da ciência possui, em sentido estrito, essência que ela é do universal e necessário.
64
2004, p. 27.
distinguir - dentre as diferentes manifestações do conhecimento científico - a
ciência a ser instituída na Metafísica, se pergunta, no início de A. 2, a respeito
do tipo de causas e princípios primeiros cujo conhecimento é próprio à sabedoria
(982ª5-7), de modo a poder sustentar a existência de uma espécie peculiar de
causa e princípio primeiro acerca do qual trataria esta mais eminente forma de
saber.
Para que compreendamos de que sorte são as causas primeiras das
quais trata a ciência buscada, Aristóteles sustenta que devemos tomar em
consideração as opiniões correntes a respeito do que é ser sábio. Como aponta
Alexandre, é prática comum na filosofia aristotélica fazer uso das opiniões dos
homens como ponto de partida daquilo que se quer provar.
65
Assim, as opiniões
bem reputadas acerca do que é ser sábio devem, de algum modo, auxiliar na
caracterização do tipo de conhecimento que é peculiar à ciência da Metafísica,
na medida em que esta é dita ser sabedoria. Segundo Tomás de Aquino
66
, é a
partir da definição de sabedoria que o filósofo argumenta, ao buscar estabelecer
com que tipo de princípios e causas primeiras lida a ciência buscada. Sendo
que tal definição, por seu turno, é formulada por meio das diferentes opiniões
que os homens sustentam acerca da natureza da sabedoria.
67
Seguindo o texto
de Aristóteles, vemos que são seis as diferentes características comumente
atribuídas ao sábio, a partir das quais - como defende Tomás de Aquino - o
filósofo forjará a sua definição de sabedoria, de modo a desvendar o tipo de
causas com as quais lida a ciência que se quer instituir.
Em primeiro lugar, supõe-se que o sábio conheça - na medida do possível
- todas as coisas; quando, pelo “na medida do possível” se quer fazer a seguinte
65
1989, p. 27 (9, 20-29). Na passagem, o comentador cita como exemplo desta prática
argumentativa as seções da Física em que se trata das noções de lugar e tempo. Bem
entendido, não é toda e qualquer opinião que serve de ponto de partida para a investigação
aristotélica, mas, antes, as “opiniões bem reputadas”, as quais são caracterizadas nos Tópicos
como “opiniões aceitas por todos, pela maioria, ou pelos mais sábios; se pelos sábios, por todos,
pela maioria, ou pelos mais prestigiados dentre eles” (100
b
22-25).
66
1995, lição 2, § 36.
67
O exato papel que tais opiniões bem reputadas cumprem no engendramento da definição é de
difícil apreensão. São elas condição necessária à obtenção da definição ou meros facilitadores,
por meio dos quais se chega mais facilmente a ela? Tal investigação toca o núcleo do debate
acerca da relação entre dialética e ciência em Aristóteles, do qual não trataremos aqui.
restrição: não que se suponha que o sábio conheça todas as coisas na sua
singularidade, visto serem os singulares infinitos
68
, mas que ele conheça os
universais sob os quais os indivíduos que compõem a realidade estão
subsumidos. Ademais, considera-se que o sábio seja capaz de conhecer coisas
de difícil compreensão, desconhecidas pelo vulgo. Quanto a isso, Aristóteles
nota que a percepção sensorial, na medida em que constitui a forma mais
elementar de conhecimento, não caracteriza o tipo de conhecimento possuído
pelo sábio. O que certamente não quer dizer que o conhecimento do sábio não
tenha por base a sensação - pois, para Aristóteles, todo conhecimento começa
com a sensação -, mas, antes, que ele não se limita a ela. Justamente, a
posição do filósofo parece ser a seguinte: o conhecimento característico do
sábio é aquele que, dentro dos limites do conhecimento humano, mais se afasta
da sensibilidade. Assim, ao sustentar-se que o sábio conhece o que é de difícil
compreensão, tem-se em vista a oposição, recorrente no pensamento
aristotélico, entre o mais evidente para nós e o mais evidente por natureza.
69
O
mais evidente para nós são os indivíduos - as coisas compostas - sensivelmente
cognoscíveis. Já o mais evidente por natureza consiste no que há de mais
afastado da sensibilidade: os universais. Ao afirmar, portanto, que o sábio
conhece o que é de difícil apreensão, o senso comum quer dizer que o sábio
conhece o universal. Supõe-se, também, que o sábio é aquele cujo
conhecimento é mais exato
70
e que, por conhecer as causas das coisas, é mais
apto a ensinar. Além disso, considera-se que o conhecimento próprio ao sábio é
aquele que é desejado por si mesmo e não em virtude de algum resultado que
68
Não é o caso que os indivíduos que povoam o mundo físico sejam atualmente infinitos, mas
apenas potencialmente infinitos – afirmação essa que decorre da tese da eternidade do mundo e
das espécies que o compõem. Se as espécies são eternas, não pode haver um instante de
tempo em que não existam indivíduos que as instanciem.
69
Ver, por exemplo, Segundos Analíticos I. 2, 71
b
35-72ª5, onde se trata explicitamente da
distinção entre o mais evidente para nós e o mais evidente por natureza.
70
Para a compreensão da passagem, é preciso fazer remissão ao texto dos Segundos Analíticos
I. 27, em que Aristóteles trata da maior exatidão de uma ciência em relação à outra. Lá, o
filósofo sustenta que uma ciência é mais exata do que outra quando possui, em relação à última,
menos princípios, de modo que, por exemplo, a aritmética se revela mais exata do que a
geometria. Como se verá, por tratar das causas primeiras e mais elementares do ser, em
relação às quais não há nada de anterior, a ciência buscada será a mais exata dentre todas as
ciências.
através dele se obtenha.
71
Por último, se sustenta que o sábio é antes
possuidor de uma ciência superior do que de uma ciência subordinada, na
medida em que se supõe que cabe ao sábio ordenar ao invés de obedecer a
ordens.
72
Tendo exposto as características que são atribuídas ao sábio, Aristóteles
fornece a sua definição de sabedoria, mostrando de que modo ela faz jus a cada
uma das características listadas. O sábio, mostra o filósofo, é aquele que
conhece as causas e princípios primeiros de todas as coisas. Sendo assim, a
ciência buscada na Metafísica, ao revelar-se, de acordo com a primeira
descrição que lhe é própria, apresentada ao longo dos dois primeiros capítulos
de A, um conhecimento das causas e princípios primeiros de todas as coisas, se
distingue da descrição comum a todo conhecimento científico enquanto tal, na
medida em que é próprio a toda ciência conhecer as causas primeiras a partir
das quais fundamentar-se-ão as provas relativas ao gênero de ser circunscrito
por cada ciência particular. Toda ciência, enfim, é conhecimento de causas e
princípios primeiros - cada qual relativamente ao gênero de ser por ela
delimitado; mas apenas a ciência digna de ser chamada de sabedoria é
71
O que retoma o ponto, já tratado em A. 1, que a ciência digna de ser chamada de sabedoria é
teórica e não prática ou produtiva.
72
Segundo Tomás de Aquino, que a noção de sabedoria pertença a uma ciência superior antes
que subordinada se entende da seguinte maneira: a primeira razão é que as ditas ciências
subordinadas são aquelas que se dirigem ao fim de uma outra ciência; como, por exemplo, a
arte da cavalaria em relação à arte da guerra - a primeira serve aos propósitos da segunda.
Ademais, aquele que possui uma ciência subordinada tem a sua atividade regulada pelo detentor
da ciência superior, assim como, por exemplo, o engenheiro naval se submete às instruções do
piloto do navio para construir o navio adequado. Assim, se a sabedoria deve ser identificada a
alguma dessas ciências, ela deve ser do tipo das superiores, em virtude do caráter impositivo
que elas possuem e em função de que se supõe que, se alguém é sábio, então este não
depende dos ordenamentos de outrem. No entanto, como nota Ross (1924, vol. I, pp. 121-122),
tal descrição do caráter impositivo das ciências é mais facilmente percebido no caso das ciências
práticas e produtivas, como no exemplo de Tomás de Aquino, da relação entre a arte da
navegação e a engenharia naval, ou, como o faz Aristóteles na Ética Nicomaquéia (I. 2, 1094ª17-
1094
b
15), ao descrever o caráter de autoridade da ciência política, na medida em que esta é
conhecimento do bem para o homem e, como tal, impõe às outras ciências práticas, como as
militares, que elas identifiquem os meios adequados para a obtenção do bem em determinadas
circunstâncias. Por outro lado, aponta o comentador, a sabedoria é uma ciência puramente
teórica e, como tal, em que medida é capaz de comandar algo? Para compreender bem o ponto,
devemos ter em mente que, se no caso das ciências práticas e produtivas o seu caráter de
autoridade se revela como uma capacidade para comandar, no caso da metafísica, sendo ela
uma ciência teórica, tal caráter se expressa como uma capacidade para ordenar (no sentido de
“pôr em ordem” e não de “dar ordens”), na medida em que aquela que conhece as causas
últimas, mais fundamentais de todas as coisas é, dentre as ciências teóricas, a mais elevada.
conhecimento das causas e princípios primeiros de todas as coisas.
73
E, de
fato, pensa Aristóteles, tal caracterização da mais alta dentre as ciências, como
conhecimento das causas primeiras de todas as coisas, respeita cada uma das
concepções comuns relativas à natureza da sabedoria: quem conhece os
primeiros princípios de todas as coisas conhece, sob certo aspecto, todas as
coisas, na medida em que conhece algo que é comum a todas as coisas
74
;
ademais, possui conhecimento daquilo que é de difícil compreensão, já que as
causas primeiras, sendo o que de mais universal há - por pertencerem a todas
as coisas -, são o que há de mais afastado da sensibilidade; tem, também, o
mais exato dos conhecimentos, pois que concerne apenas aos mais
elementares e universais princípios; é, aquele que o possui, o mais apto a
ensinar, visto que todo ensinamento se dá mediante a exposição dos porquês e
aquele que conhece os mais fundamentais dentre os porquês é o mais apto dos
mestres; é a sabedoria uma ciência digna de ser perseguida em virtude do seu
próprio conteúdo e, dentre as ciências estimáveis por si mesmas, ela é a mais
estimável, já que lida com o que de mais cognoscível - por sua natureza, não
para nós - há; e, enfim, a ciência das primeiras causas de todas as coisas está
para as ciências teóricas como, nas ciências práticas, aquela que comanda está
para as suas subordinadas.
Aristóteles dá início ao livro Γ da Metafísica anunciando a existência de
uma ciência “que investiga o ser enquanto ser e aquilo que a ele pertence
73
Aristóteles afirma que a sabedoria é um “conhecimento universal no mais alto grau” (982ª23).
Alexandre explica da seguinte maneira esta afirmação: “assim como aquele que conhece os
princípios das coisas particulares possui, a respeito delas, uma espécie de conhecimento
universal, aquele que conhece os princípios de todas as coisas possui um conhecimento
universal acerca de todas as coisas” (11, 1-3; p. 28-29). Ou seja, se aquele que conhece os
princípios primeiros de um gênero restrito do ser tem conhecimento universal acerca desta
parcela do ser, então aquele que conhece os princípios primeiros de todas as coisas tem, acerca
de todas as coisas, um conhecimento universal, de modo que ele (o sábio) possui conhecimento
universal no mais alto grau.
74
No que concerne à descrição da sabedoria como um conhecimento acerca de todas as coisas,
Politis (2004, p. 27) afirma que, ao fazer-se a ciência que Aristóteles quer instituir, não se
conhece tudo acerca de todas as coisas - o que, muito provavelmente, seria humanamente
impossível -, mas, antes algo a respeito de todas as coisas, na medida em que investiga os
princípios que são comuns a todas as coisas.
enquanto ser” (1003ª21-22).
75
Imediatamente após o anúncio de tal ciência, o
filósofo trata de distingui-la das chamadas “ciências especializadas”, as quais se
caracterizam por circunscrever um gênero do ser em relação ao qual
concentram suas investigações. Assim, por exemplo, a botânica trata de seres
na medida em que estes são plantas; a geometria, de seres na medida em que
são coisas extensas; a zoologia, de seres na medida em que estes são animais.
Já a ciência que a Metafísica quer instituir, por sua vez, trata “universalmente do
ser enquanto ser” (1003ª24). Isto quer dizer que ela trata de todas as coisas -
de tudo o que existe - na medida em que existem. De maneira que, em primeiro
lugar, a ciência buscada se diferencia das demais pela universalidade do seu
domínio: ela investiga todos os seres, enquanto as outras estudam apenas
gêneros particulares de ser - os animais, as plantas, as coisas extensas, etc.
Não só ela se distingue das outras ciências pelo fato de estudar todos os seres,
mas, também, pelo modo - universal - como ela estuda todos os seres. Isto quer
dizer que a ciência buscada não só é universal quanto ao domínio - centrando
suas investigações em todos os seres -, mas, também, quanto ao foco - na
medida em que estuda tudo o que é enquanto é.
76
Pois, supondo que haja uma
ciência específica para cada gênero particular de ser, dir-se-á que o somatório
de todas as ciências especializadas terá como objeto de estudo todos os seres.
No entanto, esta ciência anunciada na abertura de Γ não equivale à mera soma
de todas as ciências especializadas: não só ela se distingue de cada ciência
particular por aquilo que ela estuda - todos os seres; ela também se distingue da
soma de todas as ciências especializadas pelo modo como ela estuda todos os
seres - enquanto seres. É assim, através da explicitação desta dupla
universalidade, que se compreende como Aristóteles, mediante a expressão “ser
75
Christopher Kirwan (1971), por seu turno, opta por traduzir o termo grego epistēmē pela
expressão inglesa discipline. Mediante tal opção, no entanto, o tradutor e comentador retira de
cena toda a tensão, que neste trabalho queremos salientar, que parece haver entre a concepção
aristotélica de conhecimento científico, tal como apresentada nos Segundos Analíticos, e a
introdução, na Metafísica, de uma nova ciência, a qual, por sua vez, não parece respeitar todos
os critérios de cientificidade expostos naquele tratado.
76
Uma exposição clara desta dupla universalidade - de domínio e de foco - que caracteriza a
ciência da Metafísica encontra-se em Barnes (1995), pp. 70-71.
enquanto ser”, distingue a ciência buscada na Metafísica daquelas ditas
especializadas.
A despeito desta diferença de domínio e de foco entre as ciências
especializadas e a ciência buscada, há - se considerarmos o modo como
Aristóteles inaugura o texto de Γ - uma aparente semelhança estrutural entre
umas e outra. Pois no texto lê-se o seguinte: “Existe uma ciência que investiga
o ser enquanto ser e aquilo que a ele pertence enquanto ser”. Ora, tal
caracterização distingue, de um lado, um objeto de estudo próprio à ciência
buscada - o ser enquanto ser - e, de outro, atributos que a tal objeto de estudo
pertenceriam em virtude de sua própria natureza. E, como vimos a propósito da
exposição concernente aos Segundos Analíticos, cabe a qualquer ciência
demonstrar, mediante certos princípios, que alguns atributos pertencem
necessariamente ao gênero de ser investigado pela ciência em questão. De
modo que, ainda que a ciência descrita na Metafísica não delimite um gênero de
ser como objeto de seu estudo, antes se ocupando do ser enquanto ser, caberia
a ela demonstrar o pertencimento de certos atributos ao ser enquanto ser em
função de sua própria natureza. Pelo menos, cabe dizer que tal leitura se impõe
naturalmente para aquele familiarizado com a doutrina aristotélica acerca do
conhecimento científico e que se depara com tal apresentação de uma ciência
do “ser enquanto ser”. Seguindo esta “tendência”, Alexandre, a título de
comentário à frase inaugural de Γ, afirma que “o filósofo assume, em primeiro
lugar, que há uma certa ciência que se ocupa com o ser enquanto ser, isto é,
uma ciência que considera o ser enquanto ser e que demonstra os atributos
próprios do ser, já que toda ciência, seja qual for o seu objeto, demonstra as
propriedades que pertencem ao seu objeto em virtude de sua essência” (239, 5-
10).
77
Sendo assim, ainda que duplamente distinta das ciências especializadas,
a ciência do ser enquanto ser - tal como as especializadas - demonstraria que
certos atributos pertencem a um certo objeto de estudo - o ser enquanto ser -
77
Seguimos a versão em inglês do comentário de Alexandre ao livro Γ da Metafísica, traduzido
por Arthur Madigan SJ (1993), p. 12.
em virtude de sua própria essência. Tal seria a semelhança estrutural entre a
ciência do ser enquanto ser e as demais ciências.
Ross, atento a esta tendência, sustenta que - tendo em vista a descrição,
que dá início ao livro Γ, concernente à ciência do ser enquanto tal - esta última
distinguir-se-ia das outras ciências não pelo seu método, mas pelo seu
conteúdo. Diz ele: “quando Aristóteles descreve a metafísica como uma ciência
que estuda os atributos daquilo que é enquanto é, somos levados a supor - em
virtude de sua descrição da ciência como demonstrativa - que ele quer dizer que
a metafísica demonstra silogisticamente as propriedades daquilo que é a partir
de sua mera existência”.
78
No entanto, conteúdo e método não andam
separadamente: uma análise daquilo que cabe à ciência buscada investigar nos
mostra que não lhe é possível seguir o mesmo método próprio às ciências
especializadas.
79
Tal constatação, por seu turno, traz consigo uma aporia: se a
ciência do ser enquanto ser não pode, em função do seu objeto próprio de
estudo, ser demonstrativa e se não se pode abrir mão do seu estatuto de
ciência, pois viu-se em A que o que se busca na Metafísica é instituir a mais
eminente das ciências, então - contrariamente ao que se supôs a partir da leitura
dos Segundos Analíticos - nem toda ciência se caracteriza como uma
“disposição demonstrativa”. Assim, devem existir características mais gerais, as
quais são respeitadas por toda e qualquer ciência - inclusive a mais eminente
dentre elas - e/ou devemos dizer que a mais alta dentre as ciências, justamente
em virtude de sua posição, não deve ser dita ciência segundo os mesmos
critérios pelos quais as demais são ditas ciências. Deixemos, porém, para mais
tarde a avaliação desta aporia.
Vimos de que modo, ao longo do livro A, ao descrever a evolução do
conhecimento humano da percepção sensível à ciência, Aristóteles caracteriza a
sabedoria como ciência das primeiras causas e princípios de todas as coisas,
fazendo com que esta última se distinga das ciências especializadas, na medida
em que essas constituem um conhecimento de causas e princípios primeiros
78
Ross (1924), p. 251.
79
No capítulo seguinte trataremos mais atentamente deste ponto.
relativos a certos gêneros do ser e não à totalidade do ser. Agora em Γ, vemos
Aristóteles caracterizar a ciência buscada como concernente ao ser enquanto
ser. O modo como tais caracterizações se relacionam é, já em Γ. 1, mencionado
pelo filósofo, quando ele afirma que, “já que estamos buscando os primeiros
princípios e as mais eminentes causas, é obvio que deve haver algo a que estes
pertençam em virtude de sua natureza” (1003ª28). Respondendo, em seguida:
“é relativamente ao ser enquanto ser que nós devemos apreender as causas
primeiras” (1003ª31). Ou seja, o “ser enquanto ser” de Γ é o objeto ao qual
pertencem as causas primeiras buscadas pelo sábio em A. O que faz, portanto,
com que as caracterizações da ciência da Metafísica, apresentadas,
respectivamente, em A e Γ, não sejam incompatíveis é que, para o filósofo, a
análise do conceito de “princípio primeiro de todas as coisas” nos leva à noção
de “princípio do ser enquanto ser”. Isto é: ser um princípio primeiro de todas as
coisas é idêntico a ser um princípio do ser enquanto tal. Ao dizer que o sábio
conhece, na medida do possível, todas as coisas, estamos dizendo que o sábio
conhece aquilo que primordialmente se atribui a todas as coisas. E, por sua vez,
dizer que algo é atribuído a todas as coisas equivale a dizer que algo é
verdadeiro daquilo que é enquanto é. Porque algo pertence àquilo que existe,
na medida em que existe, é que se diz que este algo pertence a todas as coisas.
Sendo assim, chega-se à concepção da sabedoria como ontologia (ciência do
ser enquanto ser) mediante a análise do conceito da sabedoria como aitiologia
(ciência das causas primeiras de todas as coisas). O que nos leva a dizer que
não temos entre A e Γ. 1 a relação de duas concepções incompatíveis de
sabedoria, mas um desdobramento natural que faz com que a aitiologia, por
análise conceitual, se revele uma ontologia.
Ainda que Γ. 1 inicie pela afirmação da existência de uma ciência do ser
enquanto ser e, por conseguinte, dos princípios primeiros de tudo o que é, tal
afirmação não corresponde à sustentação de um saber já constituído, mas,
antes, que se está a construir, e, mais do que isso, cuja possibilidade mesma de
existência ainda não se revelou. O fato é que a argumentação de Γ. 1-2
funciona de tal modo que a afirmação da existência dessa ciência do ser
enquanto tal consiste na conclusão da defesa da possibilidade mesma de sua
existência, com a peculiaridade que a conclusão (frase inaugural de Γ. 1) vem
antes da própria defesa (que se dá na primeira parte de Γ. 2).
80
Aristóteles principia Γ. 2 sustentando que “existem muitos sentidos em
que algo é dito ser” (1003ª32). Tal afirmação, como diz Zingano, constitui a
“cena inaugural do aristotelismo”: ela funda a metafísica aristotélica.
81
Tal
metafísica consiste numa reação à doutrina platônica da univocidade do ser,
segundo a qual o ser funciona como um universal comum a todas as coisas, dito
de todas em igual sentido, variando tão-somente em grau - as Formas são
plenamente seres e os sensíveis, parcialmente. Para Aristóteles, por sua vez, o
ser se encontra dividido em diferentes categorias, irredutíveis entre si, nas quais
cada uma representa um modo distinto de ser, funcionando, cada qual, como um
gênero supremo - perpassando, todas juntas, a totalidade do ser e
circunscrevendo, cada uma, um modo particular de ser, irredutível aos outros.
Assim, a multivocidade do ser constitui o cenário sobre o qual se erige a
metafísica aristotélica. O problema com que Aristóteles se depara é que tal
cenário inaugural parece ser infenso ao projeto de uma ciência do ser enquanto
ser. Como sabemos, toda ciência possui um gênero acerca do qual concernem
as suas investigações. Assim, por exemplo, a zoologia trata do gênero dos
animais, o qual - justamente por constituir um gênero - é dito no mesmo sentido
de cada uma de suas diferentes espécies. Todas as coisas que são animais,
por diferentes que sejam entre si - por exemplo, um coelho e uma girafa -, são,
enquanto animais, idênticos. O coelho e a girafa, ainda que pertencentes a
espécies distintas, são ditos animais no mesmo sentido: para o coelho, ser
animal não é distinto do que é ser animal para uma girafa.
Permanecendo com o exemplo, quando inquirimos “o que é ser para um
animal?”, buscamos saber o que faz com que isto que é um animal se distinga
80
Podemos cogitar um motivo, por assim dizer, retórico para tal inversão. A revelação da
possibilidade de uma ciência una do ser deve ter tamanha repercussão para a filosofia de
Aristóteles que o filósofo opta por anunciá-la antes mesmo de argumentar em favor desta
possibilidade.
81
Ver Marco Zingano (2003), p. 13 e (1997), p. 7. Busco, para a abordagem que se segue,
apoio nestes dois artigos.
de outras coisas que não são animais. Querer saber o que faz de algo um
animal consiste em perscrutar o elemento distintivo dos animais em relação a
certas outras coisas que não são animais. Assim, concebemos a animalidade
distinguindo-a daquilo que se encontra fora dela - por exemplo, distinguindo os
animais das plantas e buscando, na comparação destes dois modos distintos de
ser, o elemento constitutivo da animalidade. De outro modo, ao invés de
comparar a animalidade com aquilo que se encontra fora dela, podemos,
também, investigar o que é ser para um animal mediante a comparação dos
diferentes tipos de seres que se encontram sob a animalidade, buscando na
diversidade um elemento comum. Comparando os diferentes tipos de animais,
podemos estabelecer um traço comum a todos eles, o qual constitui o elemento
distintivo da animalidade em relação aos outros gêneros de ser.
82
O ser, por sua vez, não constitui um gênero, de modo que não nos é
possível responder à pergunta “no que consiste para algo, qualquer coisa que é,
ser?” da maneira como o fazemos quando nosso objeto de investigação
configura um gênero.
83
Isto quer dizer que não podemos obter uma concepção
única do que seja o “ser na sua totalidade” mediante uma comparação com
aquilo que se encontra fora dele. Pois não há nada fora do ser. Há uma óbvia
contradição na afirmação que há algo que nada é e que se encontra fora da
esfera do ser. Ademais, tampouco podemos apreender o que é o ser na sua
totalidade - o ser enquanto ser - por meio de uma comparação entre os
82
É claro que esta investigação, cujo método não nos interessa aqui, mediante a qual se busca a
definição de animal, supõe que se possuam alguns critérios de reconhecimento por meio dos
quais possamos dizer que aquilo que se encontra diante de nós é um animal, ainda que, nesta
etapa, não saibamos o que é, para um animal, ser - isto é, desconheçamos a essência da
animalidade. Caso contrário, nos deparamos com o problema do Mênon, segundo o qual não se
pode procurar aquilo que não se conhece. Se me encontro desprovido de qualquer critério de
reconhecimento de um animal, como posso distinguir animais de outros modos de ser, ou, por
outro lado, distinguir espécies distintas de animais? Como diz Aristóteles nos Analíticos, a título
de resposta ao problema levantado no diálogo platônico, não é absurdo que, em certa medida, já
se conheça aquilo que se quer conhecer; absurdo é que se conheça na exata medida em que se
quer conhecer (cf. Seg. An. I.1, 71
b
7-10).
83
Em Met. B. 3, 998
b
22-27, Aristóteles afirma por que tanto o ser quanto a unidade não são
gêneros. Diz o filósofo, na passagem citada, que o comportamento lógico do gênero em relação
à diferença é tal que o gênero não pode ser predicado da sua diferença. No entanto, o ser e o
uno são predicados de todas as coisas, de modo que, se fossem gêneros, então, na medida em
que o gênero não pode ser predicado da diferença, não poderíamos dizer nem que uma
diferença tem ser nem que ela é algo uno.
diferentes tipos de ser que se encontram sob o “ser enquanto ser”. Isto porque,
diferentemente do caso dos gêneros, não há um traço comum que una os
diferentes modos de ser. Como se mencionou, as categorias aristotélicas
correspondem a gêneros de ser irredutíveis entre si, de maneira que cada um
possui um diferente sentido segundo o qual é dito ser. Se há uma identidade
entre os modos de ser de uma girafa e um coelho, na medida em que ambos
são ditos animais num mesmo sentido, não há tal identidade entre os modos de
ser de uma substância e de uma qualidade, por exemplo. Ser para uma
substância é outra coisa que não aquilo que corresponde ao ser de uma
qualidade. Não há, por conseguinte, no caso do ser, uma mesmidade que
emerge da alteridade, como acontece no caso dos gêneros, em que se dá o
desvelamento de um traço comum a partir da comparação de seres
especificamente distintos.
O fato que o ser não é um gênero, do qual as diferentes categorias
constituiriam as espécies, impede que haja uma concepção unívoca do que é o
“ser na sua totalidade”, justamente por ele encontrar-se disperso em categorias
irredutíveis umas às outras. Esta constatação, por seu turno, atravancaria o
projeto de uma ciência que tenha por objeto o ser enquanto ser, na medida em
que a unidade da ciência parece supor a univocidade daquilo acerca do que se
tem ciência. A concepção que ameaça o projeto aristotélico de uma ciência
única do ser enquanto ser é aquela de acordo com a qual não pode haver uma
ciência única cujo objeto é de natureza equívoca. Por exemplo, banco é dito de
vários modos: mediante o mesmo termo, podemos significar tanto uma
instituição de crédito, como um móvel sobre o qual sentamos, ou uma elevação
no fundo do mar. Seria, no entanto, absurdo pensar na existência de uma
mesma e única ciência que tivesse por objeto de investigação instituições de
crédito, móveis sobre os quais sentamos e elevações no fundo dos mares. No
caso citado, banco é atribuído diferentemente a cada uma das coisas que são
ditas serem bancos: o que é ser “banco” para uma instituição financeira é
diferente do que é ser “banco” para um móvel, que, por sua vez, é diferente do
que é ser “banco” para uma elevação presente no fundo do mar.
O critério que Aristóteles fornece, no início do tratado das Categorias,
para identificar se, quando duas coisas distintas são ambas ditas serem x, elas
são ditas x em sentidos diferentes ou num mesmo sentido - isto é, se são
equívocas ou unívocas -, é o seguinte: x é dito de ambas no mesmo sentido -
isto é, elas são unívocas - quando a definição acerca do que é ser x se aplica a
ambas as coisas e a elas se aplica do mesmo modo; quando não é o caso que a
mesma definição acerca do que é ser x se aplique a ambas, então tais coisas
são equívocas.
84
Assim, a animalidade é de natureza unívoca, na medida em
que ela é atribuída à girafa e ao coelho, os quais pertencem a espécies distintas
de animais, e lhes é atribuída do mesmo modo; a definição do que é ser animal
pertence à girafa do mesmo modo como pertence ao coelho: ambos são ditos
animais do mesmo modo. Dito de outra maneira: enquanto animais, eles são
idênticos, distinguindo-se um do outro apenas na medida em que pertencem a
diferentes espécies de animais. Isto quer dizer que a animalidade constitui um
gênero único, não havendo nenhum problema em concebermos uma ciência
única dos animais - a zoologia. No outro extremo, da pura equivocidade, se
encontra o já mencionado termo “banco”: se tanto uma instituição de crédito,
quanto um móvel ou uma elevação no fundo do mar podem ser ditos “bancos”,
então “banco” não é dito do mesmo modo de nenhuma destas coisas, já que não
há uma única definição do que é ser banco que se aplique a todas estas
diferentes coisas.
Em qual destas classes - da univocidade ou da equivocidade pura -
Aristóteles encaixa o caso do ser? O que o filósofo quer mostrar em Γ. 2 é que o
ser nem é unívoco, formando um gênero único, nem é simplesmente equívoco,
de modo a não haver nenhuma relação - nenhum ponto de convergência - entre
os diferentes modos de ser. É tendo em vista a dissolução da aporia
concernente à possibilidade da existência de uma ciência única do ser enquanto
ser que Aristóteles, em Γ. 2, introduz a distinção entre ser por si e ser por outro.
Tal distinção, por sua vez, serve como fundamento de uma relação que torna
possível a ontologia. Esta é a relação “por referência a um”, ou, como se
84
Cf. Categorias, 1, 1ª1-12.
costuma traduzir desde o artigo de Owen, de “significação focal” (pros hen).
85
Em última análise, a finalidade do filósofo ao introduzir a relação de significação
focal consiste em mostrar como - a despeito de sua natureza não-unívoca - é
possível formular como que uma concepção única do ser enquanto ser, na
medida em que a noção de ser primeiro é capaz de controlar a total dispersão
do ser nas suas categorias, fazendo com que todas elas remetam o seu modo
de ser ao modo de ser da categoria primeira, a da substância. E este controle
da dispersão do ser, ainda que não garanta a univocidade, é suficiente para a
afirmação da possibilidade de uma ciência única do ser enquanto ser.
Aristóteles abre o texto de Γ. 2 com a seguinte afirmação: “O ser se diz de
muitas maneiras, mas por referência a um, isto é, a uma natureza particular, e
não equivocamente” (1003ª33-34). Com isso, o filósofo quer dizer que, ainda
que o ser não seja de natureza unívoca, na medida em que ele se diz de muitas
maneiras, tampouco é ele simplesmente equívoco, pois todos os seus diferentes
modos de ser fazem referência a um modo primordial de ser. O ser por si é
aquilo cujo ser independe do ser de outra coisa; onde “ser” não significa
“existência”, mas “aquilo que a coisa é”.
86
Enquanto que o ser por outro é aquilo
cujo ser faz referência ao ser de algo que é por si. Diante do que, dir-se-á que
tudo o que é ou é por si ou é por outro. E que todos os diferentes modos de ser
por outro convergem, em última instância, àquilo que é por si, sem, no entanto,
reduzir-se àquilo que é por si. A categoria da substância corresponde ao modo
de ser daquilo que é por si, enquanto que todas as demais categorias
compartilham - cada uma à sua maneira, isto é, dentro da especificidade que lhe
é própria e irredutível às outras - o modo de ser daquilo que é por outro. O que
85
Logic and Metaphysics in some Earlier Works of Aristotle (1986b). Politis (2004), p. 105,
prefere a utilização da expressão “estrutura focal” ao invés de “significação focal”, na medida em
que a primeira precisa mais eficazmente, segundo o comentador, o caráter ontológico e não
gramatical da relação, tal como concebida por Aristóteles.
86
Não se pode afirmar que a existência da substância independa da existência de outro modo de
ser, na medida em que não há algo como a substância nua, desprovida de todo e qualquer
acidente. A substância, portanto, não existe independentemente dos seus acidentes, mas no
que respeita ao seu ser, àquilo que ela é, ela independe do modo de ser de qualquer outra coisa.
Isto fica claro quando atentamos para a definição, expressão lógica da essência da coisa: a
definição da substância, ser por si, não expressa a relação de uma coisa com outra coisa, mas,
antes, a relação de uma coisa consigo mesma. É por si aquilo que, na expressão do seu ser,
não faz referência a outra coisa exceto a ela mesma.
equivale a dizer que todas as demais categorias que não a da substância fazem
referência no seu modo de ser ao ser da substância. Assim, ser uma qualidade
consiste em ser uma qualidade de uma substância; ser uma quantidade equivale
a ser uma quantidade de uma substância; ser uma relação designa uma relação
entre substâncias; e assim por diante: sempre, para o caso das categorias que
constituem algum modo de ser por outro, com uma referência ineliminável ao ser
da substância.
87
Diante da hipótese de acordo com a qual tudo o que é ou é uma
substância ou é por referência à substância, chega-se a uma concepção acerca
do que é ser, que responde à pergunta “o que é para algo, qualquer coisa que é,
ser?”, que torna possível o projeto de uma ciência única do ser. Isto porque,
mediante a introdução da relação pros hen, ainda que não se elimine a
multivocidade do ser, é-se capaz de encontrar um ponto focal, um modo
primordial de ser, por referência ao qual tudo aquilo que é (segundo diferentes
modos de ser) é dito ser. É assim que o filósofo afirma que “não só aquilo que é
dito segundo um [kath’ hen] concerne a uma única ciência, mas também aquilo
que é dito por referência a uma natureza única [pros mian physin]” (1003
b
12-14).
Nessa passagem, encontra-se a já descrita concepção: não só daquilo que é de
natureza unívoca é possível haver ciência única, mas também acerca daquilo
cuja natureza comporta uma equivocidade focal, em que os muitos sentidos de
ser se referem a um modo principal de ser.
Vimos como Aristóteles introduz em Γ a concepção da sabedoria como
ontologia, isto é, como ciência do ser enquanto ser, e de que modo tal
concepção se põe de acordo com aquela apresentada em A, segundo a qual a
sabedoria é aitiologia, ciência dos primeiros princípios de tudo o que é. Vimos
87
Ao sustentar, na citada passagem de Γ. 2, que o ser se diz de muitas maneiras, mas não por
simples equivocidade, Aristóteles está negando ao ser a equivocidade como fenômeno
puramente lingüístico, dita por acaso, na medida em que é plenamente eliminável, visto que é
tão-somente em função de um “desleixo” de linguagem que atribuímos um mesmo nome a
coisas de natureza tão distintas, como vimos no exemplo do termo banco. A equivocidade do
ser, por outro lado, não tem origem lingüística: o ser é dito de muitos modos porque ele é de
muitos modos. Ao dizer que a estatura de Sócrates é, significamos algo bastante distinto de
quando dizemos que Sócrates é. O ponto de Aristóteles é que, embora ineliminável, a
equivocidade do ser é controlável: o modo de ser fundamental da substância, que é por si,
desempenha tal tarefa.
também que o projeto de uma ontologia traz consigo uma aporia: como é
possível uma ciência única do ser enquanto ser, se o ser é de natureza
equívoca, estando disperso nas diversas categorias? A partir daí,
acompanhamos a argumentação aristotélica que defende a atribuição de uma
equivocidade especial ao ser, baseada num tipo de relação - focal - entre os
seus diversos modos, a qual encontra fundamento numa distinção entre dois
modos de ser: ser por si e ser por outro. Tal equivocidade, na medida em que
encontra um ponto focal ao qual convergem os diferentes modos de ser, permite
a projeção de uma ciência única do ser. Porém, esta solução aristotélica tem a
seguinte peculiaridade: a ontologia, ao fazer-se possível a título de ciência única,
torna-se ousiologia, isto é, ciência do modo principal de ser: a substância. É
como ousiologia que a ontologia se faz possível. Só assim compreendemos
adequadamente esta segunda transição pela qual a mais eminente dentre as
ciências precisa passar, sem, com isso, vermos nela algum desacordo. Que o
seu caráter intrinsecamente universal não tenha sido posto de lado com esta
transição - assim como não o fora por oportunidade da primeira transição - se
entende em função de que, ao conhecer a substância, conhecemos tudo o que
é, na medida em que, se algo é, ou bem é uma substância ou bem é por
referência a uma substância. Ressaltando esta relação entre ontologia e
ousiologia, entre o modo principal de ser e os outros modos de ser, Aristóteles
escreve, no início do livro Z: “E a questão que sempre se levantou e que até hoje
perdura e para sempre perdurará, sempre constituindo objeto de dúvida, “o que
é o ser?”, consiste na pergunta “o que é a substância?”” (1028
b
2-4).
Em E. 1, Aristóteles começa a traçar as linhas gerais de uma próxima
transição pela qual irá passar a ciência buscada. A finalidade de se elaborar
uma ciência do ser enquanto ser - que, por sua vez, é uma exigência decorrente
do projeto de uma ciência acerca dos primeiros princípios de todas as coisas,
imposto pela própria concepção de sabedoria como conhecimento de todas as
coisas - necessariamente remete a uma ciência do modo principal de ser, a
substância, sem que, mediante tal transição, deixemos para trás a
universalidade definidora da ciência buscada. Se, a propósito da primeira
transição, da aitiologia à ontologia, vimos que o próprio conceito de “princípio
primeiro de todas as coisas” remonta ao conceito de “princípio do ser enquanto
ser”, pois que, se algo pertence a tudo o que é, então só pode ser o caso que
pertença a tudo o que é na medida em que é, no que diz respeito à segunda
transição, vimos que a ousiologia constitui a forma que a ontologia deve adquirir
de modo a tornar-se possível. E, em virtude da doutrina da estrutura focal do
ser, a qual se baseia na distinção entre ser por si e ser por outro, a ciência da
substância não se assemelha às ciências particulares, que circunscrevem um
campo delimitado do ser, já que, ao investigar o ser por si, investiga também
tudo o mais, pois o que não é por si faz, no seu modo de ser, referência ao que
é por si. Sendo assim, a passagem para a ousiologia mantém incólume a
universalidade que caracteriza a sabedoria.
88
O texto de E. 1 inicia retomando o projeto metafísico desde sua primeira
caracterização, sob a perspectiva da relação entre as descrições do projeto em
A e Γ, sem deixar de comparar a natureza da ciência buscada com a das
ciências particulares. “O que investigamos são as causas e princípios daquilo
que é e, obviamente, disto na medida em que é” (1025
b
1-2). A partir daí,
Aristóteles volta ao ponto da natureza intrinsecamente aitiológica de toda e
qualquer investigação científica, pois que toda ciência consiste num
conhecimento causal, ainda que nenhuma das ciências particulares seja
aitiológica do modo como a sabedoria o é: pois a esta concernem os princípios
daquilo que é enquanto é. Se as ciências particulares estudam os primeiros
princípios de um gênero delimitado do ser, a ciência buscada visa ao
conhecimento dos primeiros princípios de todas as coisas. Parece-nos
sintomático que, num texto como E. 1, a respeito do qual não faltarão dúvidas
acerca da manutenção do caráter universal próprio à sabedoria por ocasião
desta nova transição pela qual passará a ciência buscada, que, nele, o filósofo
88
Salientemos que é uma dependência de caráter ontológico daquilo que é por outro em relação
àquilo que é por si que fundamenta a organização focal do ser, permitindo que a ousiologia se
mantenha como uma investigação do ser enquanto ser.
comece por lembrar-nos, justamente, desta universalidade distintiva da mais alta
ciência em relação às ciências particulares.
Em E. 1, Aristóteles introduz uma novidade em relação aos livros
antecedentes: a possibilidade de existência de uma substância diferente
daquelas presentes no mundo sublunar.
89
Ou seja, passa-se a pensar num
outro modo de ser por si que não aquele relativo às substâncias compostas:
uma substância simples e separada. A partir daí, o texto parecerá conter duas
definições, à primeira vista incompatíveis, no que tange à ciência buscada: (i)
como ciência do ser enquanto ser, universal quanto ao seu objeto; (ii) como
teologia, delimitada no respeitante ao seu objeto de investigação. No último
parágrafo do texto de E. 1 - dos mais difíceis de toda a obra -, Aristóteles busca
conciliar estas duas abordagens.
90
Com a concepção de um outro modo de ser (cuja existência será provada
em Λ), abre-se espaço para uma nova ciência teórica.
91
Segundo Aristóteles,
toda ciência é teórica, prática ou produtiva, sendo que as duas últimas buscam,
cada uma, respectivamente, o conhecimento como um guia para a conduta e
para a produção de coisas úteis e prazerosas. Já as ciências teóricas buscam o
conhecimento pelo conhecimento, não tendo outro fim que não o de tirar-nos de
um estado de ignorância. Estas ciências, que visam ao conhecimento como um
fim em si mesmo, são, até a concepção deste modo de ser separado e imutável,
89
Aqui o filósofo se volta diretamente para a quinta aporia apresentada no livro B, a qual diz
respeito à possibilidade da existência de outras substâncias além das sensíveis (997ª34-35).
Em E. 1, nada é definitivamente provado, ainda que o modo de argumentação no capítulo
presente e nos livros que se seguem (Z, H, Θ) vá preparando o terreno em direção a uma
resposta afirmativa quanto à existência de uma substância não-sensível.
90
Aristóteles escreve: “Alguém poderia levantar a questão se a filosofia primeira é universal ou
se ela lida com um gênero, isto é, com um tipo delimitado de ser (…) Nós respondemos que, se
não houver outra substância além daquelas naturais, então a ciência da natureza será a ciência
primeira; mas se houver uma substância imóvel, então a ciência que dela tratar deverá ser
primeira, constituindo a filosofia primeira; e será universal deste modo: porque primeira
(1026
a
24-31; grifo nosso).
91
Vimos, por ocasião da análise da argumentação de A, que a ciência buscada, enquanto
sabedoria, consiste numa ciência teórica, em função da maior dignidade deste tipo de ciência em
relação às práticas e produtivas. O problema central, que se abre a partir de E. 1, é justamente
este: é a teologia uma outra ciência em relação à ciência do ser enquanto ser, ou - como parece
querer Aristóteles - é a teologia o desdobramento último da ciência buscada?
a Física e a Matemática.
92
A nenhuma das duas caberá o estudo desse modo
de ser, pois a Física trata daqueles seres mutáveis e de existência separada - os
compostos. Já a respeito da Matemática, Aristóteles, ao final de M e N, conclui
que essa tem como objeto aquilo que é imutável, porém inseparável da matéria.
Ou seja, o objeto de estudo da matemática, as quantidades, é inseparável dos
entes sensíveis, porém abstraído desses e, como tal, tratado enquanto separado
e imóvel.
Desta maneira, tendo-se em vista a natureza dos objetos físicos e
matemáticos, não pertencerá a nenhuma delas, mas a uma outra ciência teórica,
o estudo daquele modo de ser separado e imóvel. Caberá, diz Aristóteles, o
estudo deste modo de ser a uma ciência “prioritária em relação a ambas (Física
e Matemática)” (1026
a
13). Nosso filósofo dá o nome de Teologia a esta ciência
teórica primordial, pois, “se o divino está presente algures, é nesse tipo de coisa
que ele se apresenta (no que é imóvel e separado)” (1026ª19-20).
Cabe, portanto, a pergunta: por que a disciplina que se ocupa daquilo que
é imutável e separado é primeira? Ora, porque o seu objeto de estudo é
primeiro em relação aos objetos de estudo das outras ciências teóricas.
Contudo, por que é primeiro o seu objeto?
Poderíamos tentar formular uma resposta da seguinte maneira: aquilo que
é capaz de existir independentemente de modo mais simples é primeiro em
relação àquilo que existe independentemente de modo mais complexo. Dito de
outra maneira: aquilo que é capaz de existir independentemente de modo mais
perfeito é primeiro em relação àquilo que existe independentemente de modo
menos perfeito. Ou seja, aquilo que é puro ato é mais simples e mais perfeito
(pois totalmente determinado) do que aquilo que é constituído de ato e potência.
Nessa medida é primeiro.
Tal solução, no entanto, apresenta o seguinte grave problema: ela não é
capaz de dar conta da relação capital entre primordialidade e universalidade, da
92
O fato que Aristóteles não inclui, na lista das ciências teóricas, em E. 1, a metafísica, mas
apenas física e matemática, pode ser visto com bons olhos, pois, se acaso ela aparecesse,
poder-se-ia tomá-la como outra em relação à teologia, em favor da qual se está argumentando.
qual Aristóteles faz uso para explicar por que a Teologia não é uma ciência
particular, que circunscreve um gênero determinado do ser, aquilo que é simples
e separado.
Se a solução pode, nalgum aspecto, parecer boa para explicar por que o
objeto de estudo da Teologia é primeiro em relação aos outros, ela não é capaz
de explicar a relação entre a primordialidade do objeto dessa ciência e a
universalidade dessa mesma. Por que, em última análise, sendo primeira, ela é
universal? Para tanto, é preciso que se explique que relação há entre o modo
primordial de ser por si e o outro modo de ser por si (das substâncias
compostas). Para ser primeira e, por isso, universal, é preciso que a Teologia
tenha por objeto de estudo aquilo que é primeiro na medida em que tem todos
os outros modos de ser como dependentes de si. Se houver uma maneira pelo
qual todos os outros modos de ser dependem daquilo que existe imutável e
separadamente, então o estudo deste último será primeiro e universal. O estudo
do primeiro modo de ser será, portanto, o estudo de todos os modos de ser.
Assim, a Teologia se faz Ontologia.
Em que medida, portanto, se poderá dizer que as substâncias compostas
são dependentes da substância simples? Não será do mesmo modo em que as
outras categorias de ser dependem da substância, já que, nesse caso, a
dependência é ontológica. Ora, não pode ser esse o tipo de dependência, visto
que as substâncias compostas, como vimos quando da argumentação em favor
da estrutura focal do ser, são o que elas são em virtude de sua própria natureza
e não por referência a algum outro modo de ser. Portanto, a transição da
ousiologia para a teologia não pode ser equiparada à transição da ontologia à
ousiologia.
Em Metafísica Δ. 11, ao tratar do anterior e do posterior, Aristóteles
apresenta, no final do capítulo, um sentido principal a partir do qual fazemos uso
desses termos: anterioridade e posterioridade quanto à substância e à natureza.
Diz o filósofo: “aquelas coisas que podem ser sem as outras, enquanto que as
outras não podem ser sem elas” (1019ª1-5). Pensamos que esse sentido de
anterioridade possa ser compreendido sob dois aspectos: (i) sob o aspecto da
substância; (ii) sob o aspecto da natureza.
93
Primeiramente, dizemos que algo
não pode ser sem outra coisa quando a existência deste algo é dependente
daquela outra coisa. Aqui, podemos pensar na anterioridade da substância em
relação a seus acidentes: a existência do acidente depende da existência da
substância. Agora, num segundo aspecto, podemos dizer que algo não pode
ser sem outra coisa quando não podemos compreender a natureza deste algo
sem fazer referência à natureza desta outra coisa. E, aqui, estaria a
dependência das substâncias compostas em relação à substância simples. Ou
seja: não podemos compreender a natureza das substâncias compostas
independentemente da substância simples. Isto porque a natureza das
substâncias compostas é ser móvel. Elas não podem existir senão enquanto
suscetíveis ao movimento. Ora, o movimento do mundo sublunar é
incompreensível sem o apelo a um primeiro motor imóvel. Pois o movimento é
eterno e, se todas as substâncias forem corruptíveis, tudo será corruptível. Mas
o movimento não pode ser corruptível. Portanto, deve haver um primeiro motor
imóvel. Esse é a substância simples. Com isso, pode-se dizer que o
movimento, ao qual as substâncias compostas estão necessariamente
submetidas, não pode ser compreendido em sua natureza senão por um apelo à
substância simples.
94
Assim, parece que traçamos as linhas gerais de como a substância
simples é primeira em relação às substâncias compostas. Ora, só podemos
compreender a natureza dessas por apelo àquela, não sendo a recíproca
verdadeira. Portanto, a substância simples é primeira e será primeira a ciência
que a tomar como objeto de análise. E, sendo primeira, ela é universal na
medida em que, compreendendo a natureza do seu objeto de estudo, a
substância simples, compreendemos a natureza de todas as outras substâncias,
pois todas as outras são suscetíveis de movimento. E, compreendendo a
93
No texto de Δ. 11, Aristóteles introduz este sentido primeiro de anterior e posterior, segundo a
substância e a natureza, sem, no entanto, bifurcá-lo sob dois aspectos distintos. Ainda assim,
acreditamos que esta distinção não seja contrária às pretensões do filósofo no texto.
94
Resumimos de modo muito geral a argumentação que, na Metafísica, ocorre a partir de Λ. 6.
natureza das substâncias compostas, compreendemos todas as outras formas
não-substanciais de ser, já que os acidentes são ontologicamente dependentes
da substância composta.
Compreendemos, mesmo que de maneira muito geral, que, embora não
haja uma dependência de ordem ontológica das substâncias naturais em relação
à substância simples, há um modo bastante peculiar de acordo com o qual se
pode dizer que aquelas são dependentes desta: não há como compreender
plenamente a natureza das substâncias compostas sem uma remissão à
natureza da substância simples. Isto quer dizer que, sem conhecimento desta
última, fica incompleto o nosso conhecimento acerca das substâncias materiais;
e, considerando-se a estrutura focal do ser e a relação do que é por si com o
que é por outro, permanece incompleto o nosso conhecimento sobre o ser
enquanto ser.
95
Tendo percorrido os principais momentos concernentes aos quatro
desdobramentos centrais da ciência que Aristóteles quer instituir na Metafísica e
tendo enfatizado a condição peculiar desta ciência em relação às ciências
particulares - sua universalidade -, que, segundo o filósofo, mantém-se intocada
ao longo das transições às quais tal ciência se submete, podemos, a partir de
agora, investigar os critérios segundo os quais o estudo do ser enquanto ser se
diz científico. Pois, se Aristóteles não se cansa de distinguir - em cada um dos
seus diferentes desdobramentos - a natureza da ciência buscada em relação às
ciências particulares, então devemos procurar, na raiz de sua cientificidade,
razões outras que não aquelas concernentes às ciências particulares.
95
Ao compreender da maneira como expusemos o texto de E. 1, pomo-nos de acordo com a
interpretação de A. Mansion (1958). Para o autor, “as breves indicações de Aristóteles, no final
de Metafísica E. 1, visam precisamente a mostrar que, sem um conhecimento do Ser primeiro, o
conhecimento de todo ser permanece incompleto: assim, a filosofia primeira deverá ser integrada
à ciência do ser enquanto tal, da qual ela formará, de algum modo, o fecho da abóbada” (p. 135,
citamos a tradução brasileira presente em Zingano (org.), 2005).
3 – A NATUREZA DA CIÊNCIA DO SER ENQUANTO SER
Aquele que se dedica à leitura das obras científicas de Aristóteles se vê
tomado de certa estranheza quando compara o método lá posto em prática e
aquele prescrito nos Segundos Analíticos. Tendo em consideração o
desconforto diante da incapacidade de se conciliar o método científico prescrito
e o método praticado pelo Estagirita, Barnes redige o seu famoso artigo, do qual
já tratamos no primeiro capítulo, “Aristotle’s Theory of Demonstration”. Nele, o
intérprete sustenta que a inconsistência entre os métodos só vem à tona quando
supomos que a teoria elaborada nos Segundos Analíticos visa à formalização da
prática científica relatada por Aristóteles nos seus outros tratados – aqueles nos
quais ele estaria fazendo ciência. E, para Barnes, tal hipótese é falsa: o objetivo
do filósofo não é formalizar o método de pesquisa científica – ele não diz
respeito a como os cientistas adquirem conhecimento –, mas, antes, a como o
conhecimento, uma vez alcançado, deve ser apresentado. Seguindo a
interpretação de Barnes, dir-se-á que o método demonstrativo encontra utilidade
após a aquisição, por parte do cientista, do conhecimento, para fins
pedagógicos: a organização demonstrativa do saber facilita a sua disseminação.
Sendo assim, a aparente incongruência entre prescrição e prática se dissolve:
enquanto as obras aristotélicas de cunho científico dizem respeito à etapa de
aquisição do conhecimento, a doutrina dos Segundos Analíticos, por sua vez,
pretende regular o modo como o conhecimento, já adquirido, deve organizar-se.
O preço que paga a interpretação barnesiana é justamente não mais
tomar o método demonstrativo como ligado à efetivação do conhecimento
científico, mas, antes, como algo de que a ciência, na sua constituição,
independe, e do qual faz uso tão-somente na sua propagação. O que leva
Barnes a afirmar, não sem algum humor, que os Segundos Analíticos são
dedicados antes ao professor que ao cientista. Tal leitura, no entanto, parece ir
contra diversas passagens do próprio texto dos Analíticos, bem como de outras
obras do filósofo, nas quais se trata da natureza do saber científico e onde
Aristóteles parece atribuir ao método demonstrativo uma função mais importante
do que ser um mero facilitador pedagógico, concebendo, por seu turno, uma
relação direta entre tal método e a efetivação, no sujeito, do conhecimento
científico.
A mais lembrada das passagens em que Aristóteles trata da natureza da
ciência é aquela da Ética Nicomaquéia (VI, 3), quando o filósofo caracteriza o
saber científico como uma “disposição demonstrativa”: como se a posse da
ciência, por parte de um sujeito, se realizasse tão-somente quando este é capaz
de demonstrar aquilo acerca do que tem conhecimento. Segundo esta
concepção mais forte da doutrina dos Analíticos, dir-se-á que só se possui, em
sentido estrito, ciência sobre alguma matéria quando se é capaz de organizar
demonstrativamente aquele corpo de conhecimento que, através de pesquisa,
se adquiriu. E a razão para isso é que, na medida em que o conhecimento
científico é reprodução fiel do real, apenas quando da demonstração é que o
discurso se alinha à estrutura da realidade ela mesma.
Ao apresentar, no primeiro capítulo, as linhas gerais da argumentação
aristotélica no texto dos Segundos Analíticos, nos posicionamos contrariamente
a esta leitura bastante difundida a partir do artigo de Barnes e aceita por muitos
intérpretes da filosofia do Estagirita.
96
E, obviamente, por nos posicionar contra
a tese de Barnes, devemos fornecer, para a dissolução da inconsistência entre
os métodos prescrito e praticado, uma razão que não se fundamente na
distinção barnesiana entre prática científica e pedagogia científica. Foi assim
que, apoiando-nos na obra de Porchat, distinguimos pesquisa e prova
96
Martha Nussbaum (1978), por exemplo, sustenta que a leitura mais plausível dos Segundos
Analíticos consiste em tomar o tratado como a apresentação de um modelo não relativo à
pesquisa, mas à justificação da afirmação, por parte do cientista, de ter atingido um
conhecimento científico genuíno. Segundo a autora, embora o conhecimento científico seja
obtido independentemente do método demonstrativo, o cientista, para convencer-nos do estatuto
epistemológico dos seus resultados de trabalho, deve ser capaz de apresentá-los
demonstrativamente. Ao comentar a sua interpretação em relação à de Barnes, Nussbaum
sustenta não estar muito longe desta: “Eu, no entanto, atribuiria ao silogismo um lugar mais
importante na epistemologia aristotélica do que aquele que Barnes parece conceder ao tomá-lo
como um dispositivo didático e insistiria que ele opera em todo e qualquer contexto justificatório,
não apenas em sala de aula”.
científicas, afirmando que, enquanto a pesquisa diz respeito ao caminho em
direção aos princípios, o qual se inicia a partir daquilo que é mais conhecido
para nós até o que é mais conhecido em si (os próprios princípios), a prova, por
sua vez, institui o trajeto que vai dos princípios àquilo que é mais conhecido para
nós e a partir do que encetamos a etapa da pesquisa.
Em última análise, é justamente esta distinção que é retomada no texto
de Metafísica A. 1-2, quando Aristóteles traça uma escala hierárquica dos
diferentes modos de conhecimento humano. Lá, encontramos a distinção entre
saber que e saber por que: enquanto a sensação e a experiência nos fornecem
conhecimento (respectivamente, individual e geral) do quê, a arte e a ciência (e,
dentre as ciências, eminentemente, a sabedoria) nos dão conhecimento do
porquê. Assim, a etapa de pesquisa científica nada mais é do que a transição
de um conhecimento do fato (por exemplo, que a lua se eclipsa) para a
apreensão das causas deste fato (por que a lua se eclipsa). E, como todo
conhecimento factual tem por base a sensação, dir-se-á que a pesquisa vai do
mais conhecido para nós ao mais conhecido em si: do efeito à sua causa. Já a
etapa da prova consiste no percurso inverso, quando, já de posse da causa por
que um fato ocorre, ajustamos o nosso conhecimento à estrutura da realidade,
organizando-o da causa ao efeito (do mais conhecido em si ao mais conhecido
para nós). A etapa da prova é a etapa da demonstração: é seguindo o método
demonstrativo que ajustamos o conhecimento obtido na pesquisa à ordem do
ser.
Tendo rechaçado a solução de Barnes e tomando por base a
interpretação que se encontra no texto de Porchat, diremos, portanto, que a
aparente discrepância entre o método prescrito e o método praticado
desaparece mediante a distinção entre pesquisa e prova: enquanto Aristóteles,
em suas obras de ciência, está percorrendo o caminho que vai até os princípios
de cada ciência particular, a doutrina dos Segundos Analíticos, por seu turno,
visa à formalização do método científico de prova.
O fato de retornarmos, aqui, a certos pontos já desenvolvidos nos
capítulos precedentes se deve à formulação da seguinte questão: será que, ao
nos voltar para o texto da Metafísica, podemos, para justificar, nele, a ausência
de silogismos demonstrativos no respeitante ao cerne da disciplina que lá é
apresentada, apelar para o mesmo tipo de resposta fornecida quando da
dissolução da aparente incongruência entre os métodos prescrito e praticado, no
âmbito das ciências particulares? Dito de outro modo: será que as mesmas
razões que dão conta da ausência de silogismos demonstrativos nas obras
científicas de Aristóteles podem ser aplicadas ao caso da Metafísica, enquanto
esta consiste num projeto de uma nova ciência? Se a resposta fosse afirmativa,
teríamos de supor que, assim como as outras ciências, a metafísica possui uma
etapa ascendente, que vai até a apreensão dos seus princípios, e outra
descendente, que vai dos princípios àquilo a partir do que iniciamos a etapa da
pesquisa.
3.1 Indemonstrável por definição
A concepção segundo a qual a metafísica seria constituída de duas
etapas, uma relativa à pesquisa e outra concernente à prova, ou, o que vem a
dar no mesmo, uma que parte de certos dados que são, para nós, mais
conhecidos até a aquisição dos princípios e outra que, uma vez os princípios
obtidos, parte deles àquilo que nos é mais conhecido, tal concepção, dizíamos,
parece repousar numa má compreensão do próprio conceito pelo qual o projeto
dessa ciência se define.
Ao examinar, no capítulo anterior, os desdobramentos pelos quais passa
o projeto metafísico, vimos, quando da análise dos textos de A. 1-2, como a
ciência que Aristóteles quer instituir é apresentada como ciência dos primeiros
princípios e causas de todas as coisas. Tendo em vista tal caracterização,
sustentamos haver uma distinção no modo pelo qual a ciência buscada é
aitiológica e aquele por que toda ciência especializada – que restringe seu
estudo a um gênero delimitado do ser – o é. Pois, enquanto as ciências
particulares investigam os princípios relativos apenas a parcelas do ser, a
metafísica se define por uma investigação dos primeiros princípios de todas as
coisas, isto é, dos princípios que pertencem àquilo que é enquanto é. Mas,
além da diferença citada, parece haver uma outra, também capital, entre a
ciência instituída na Metafísica e aquelas especializadas. Esta segunda
distinção repousa num modo equívoco de dizer que tanto uma quanto as outras
se caracterizam por serem conhecimentos causais. O que quer dizer que o
modo por que se sustenta que a metafísica é um conhecimento causal não é o
mesmo pelo qual dizemos que as ciências especializadas são conhecimentos
causais. Enquanto, para as ciências especializadas, a expressão “conhecimento
causal” quer dizer “conhecimento pela causa”, no caso da ciência buscada, a
expressão quer dizer “conhecimento da causa”. Desse modo, o caráter
aitiológico das ciências cujo campo de investigação está circunscrito a certos
gêneros do ser e aquele próprio à metafísica é duplamente distinto: enquanto
cada ciência especializada consiste num conhecimento pelas causas primeiras
próprias a um gênero do ser, a ciência da Metafísica consiste no conhecimento
das causas primeiras do ser enquanto ser. Se, num caso, as causas primeiras
(restritas a um gênero do ser) não constituem o objeto próprio do conhecimento,
mas, antes, aquilo por que se conhece cientificamente algo, no outro, relativo à
metafísica, as causas primeiras (as quais, aqui, não se limitam a gêneros do ser,
sendo, em verdade, próprias a tudo o que é na medida em que é) constituem
objeto de conhecimento – elas são aquilo que o metafísico conhece.
Com base na distinção entre pesquisa e prova, justificamos a ausência de
silogismos demonstrativos nas obras científicas de Aristóteles afirmando que,
enquanto a demonstração caracteriza o método de prova próprio às ciências, as
obras do Estagirita ditas “científicas” dizem respeito à primeira etapa do
processo de constituição das ciências – aquele em que se vai em busca dos
princípios de cada ciência, os quais, uma vez adquiridos, permitirão o percurso
inverso, seguindo-se o método demonstrativo, que vai dos princípios àquilo que
primeiramente conhecemos. Sendo assim, perguntamos se tal resposta pode
ser aplicada, também, ao caso da Metafísica. Isto é, a ausência de argumentos
que respeitem o método dos Segundos Analíticos, na Metafísica, pode ser
justificada, também, pelo fato que, nessa obra, o filósofo estaria se ocupando da
apreensão dos princípios pelos quais se conhecerão, numa etapa póstera, as
verdades metafísicas? Em última análise, o que se quer saber é se também a
ciência que a Metafísica visa a instituir, assim como as ciências particulares,
possui uma etapa ascendente, que parte de certos dados que nos são mais
conhecidos até os princípios, e outra descendente, que vai dos princípios àquilo
que é, para nós, mais conhecido.
Que não possa haver demonstração, na ciência metafísica, dos princípios
eles mesmos, a cuja apreensão tal ciência almeja, isso é bem entendido. Pois,
se os primeiros princípios do ser enquanto ser são o que há de mais cognoscível
por natureza, então não pode haver nada que lhes seja anterior e que possa
servir de premissa num silogismo demonstrativo em que aqueles princípios
ocupem o lugar da conclusão.
O que argumentamos é que a ciência do ser enquanto ser,
diferentemente das outras ciências, não é “conhecimento pela causa”, como se,
uma vez conhecidos os princípios, houvesse algo mais a ser conhecido a partir
dos princípios. A metafísica, desde sua primeira caracterização em A, surge
como “conhecimento das causas”: das causas primeiras de todas as coisas. E
tal perspectiva não é abandonada ao longo dos diferentes desdobramentos
pelos quais passa a ciência buscada. Nas ciências especializadas, parte-se do
conhecimento de que algo é o caso para, então, se buscar saber por que tal é o
caso. Uma vez conhecido o porquê, percorre-se o trajeto inverso, do porquê ao
quê, de modo a alinhar nosso discurso à ordem do ser. Este segundo percurso
se dá de acordo com o método demonstrativo e é só quando ele se completa
que estamos aptos a dizer que temos, em sentido estrito, conhecimento
científico. Portanto, nas ciências especializadas, as causas – apreendidas na
etapa ascendente – são aquilo por meio do que obtemos conhecimento
científico. É justamente esta estrutura que não se repete na ciência metafísica:
nela, os princípios não servem como intermediadores de algo outro que se quer
conhecer: eles são o próprio objeto do conhecimento metafísico. Assim, não
há, no caso dessa ciência, uma outra etapa além daquela que vai até a
apreensão dos princípios do ser enquanto ser. A metafísica, portanto, se esgota
no conhecimento dos princípios do ser enquanto ser. E, se de fato descrevemos
corretamente o pensamento aristotélico, podemos concluir o ponto da seguinte
maneira: aquilo que é objeto central de conhecimento do metafísico não pode,
por definição, ser conhecido demonstrativamente; e aquilo que pode ser
conhecido demonstrativamente não compõe, por definição, o núcleo duro da
ciência metafísica.
3. 2 Uma aparente identidade estrutural
Bem conhecemos o modo como Aristóteles inicia o livro Γ: “Existe uma
ciência que investiga o ser enquanto ser e os atributos que ao ser pertencem
enquanto tal” (1003
a
20-23). A leitura dessa passagem pode dar ensejo a uma
interpretação segundo a qual o filósofo estaria importando para o âmbito da
metafísica a estrutura que caracteriza o modo de organização das ciências
particulares.
Ao estudar, no primeiro capítulo, as linhas gerais de argumentação dos
Segundos Analíticos, vimos como as ciências demonstrativas possuem,
basicamente, três elementos constitutivos: aquilo que se demonstra; aquilo a
partir do que se demonstra; e aquilo sobre o que se demonstra.
97
A conclusão
consiste naquilo que é demonstrado; ela é, portanto, o objeto do conhecimento
científico. A conclusão é formada por dois termos – sujeito e atributo: nela,
afirma-se que um atributo pertence – não acidentalmente, mas em virtude da
própria natureza do sujeito ao qual ele é dito pertencer – a um sujeito. Já as
premissas constituem aquilo através do que se demonstra; é por meio delas que
se obtém a conclusão. Nelas, há a ocorrência de um termo intermediador que,
97
Seg. An., I. 7, 75
a
37-
b
2.
ora ligando-se ao sujeito, ora ao atributo, desaparece na conclusão, a qual,
portanto, apresenta uma relação entre dois termos cujo fundamento se encontra
nas premissas. Aquilo sobre o que se demonstra é o sujeito da conclusão que,
por sua vez, delimita a parcela do ser investigada pela ciência em questão.
É a essa estrutura geral das ciências particulares que Aristóteles,
implicitamente, pareceria recorrer quando da introdução ao projeto de uma nova
ciência em Γ. Pois, tendo já, em A, definido o seu projeto como uma ciência dos
primeiros princípios de todas as coisas, o filósofo, agora em Γ, distingue um
campo de investigação da ciência buscada – o ser enquanto ser –, fazendo
menção, também, a um conjunto de atributos pertencentes ao ser enquanto ser,
em virtude de sua própria natureza, isto é, não acidentalmente. A partir daí,
poder-se-ia sustentar, para o caso da ciência da Metafísica, a mesma
constituição tripartite que é própria às ciências especializadas. Isto é: os
princípios primeiros de todas as coisas, cuja apreensão é almejada em A,
constituiriam aquilo a partir do que se demonstra; o ser enquanto ser formaria
aquilo a respeito do que se demonstra, constituindo o sujeito das conclusões da
ciência metafísica e demarcando o campo investigativo de tal ciência; por fim, os
atributos do ser enquanto ser constituiriam aquilo cujo pertencimento ao ser
enquanto tal seria, na conclusão, obtido. Se assim fosse – ou seja, se fosse
legítima a importação do modelo próprio às ciências particulares para o âmbito
da ciência do ser enquanto tal –, então deveríamos sustentar que é tarefa da
ontologia provar o pertencimento de certos atributos ao ser enquanto ser por
meio das causas primeiras de todo ser.
Supor tal identidade estrutural é deixar-se levar pelas aparências do texto.
Já sabemos que o caráter aitiológico de toda manifestação do saber científico
não pode ser compreendido univocamente quando atribuído ora às ciências
particulares, ora à ciência buscada na Metafísica. Não é o caso que todo saber
que se pretenda científico vise exclusivamente à apreensão das causas relativas
ao seu objeto próprio de estudo, de modo a provar, por intermédio de tais
causas, o pertencimento de certos atributos àquele objeto de estudo. O que
equivale a dizer que nem toda ciência se reduz a um conhecimento pela causa.
Como vimos, no caso da metafísica, as causas primeiras do ser enquanto ser
constituem, elas mesmas, o objeto de conhecimento metafísico. Para essa
ciência, como dissemos, ser aitiológica é ser conhecimento das causas, antes
que pelas causas. A correta compreensão da transição de A a Γ se manifesta
quando, pela expressão “ciência do ser enquanto tal”, entendemos uma ciência
das causas e princípios primeiros do ser enquanto tal – isto é, que toma tais
causas e princípios como objeto de seu conhecimento. E a menção a certos
atributos do ser enquanto ser tampouco é suficiente para que aproximemos a
organização da ciência metafísica àquela das ciências particulares. Pois, ao
falar de tais atributos, Aristóteles tem em mente certas noções que vêm à tona
no interior da própria atividade metafísica e que devem ser, pelo metafísico,
exploradas, na medida em que não se referem a esta ou àquela parcela do ser,
mas ao ser na sua totalidade. O que se quer dizer é que, ao buscar
conhecimento dos princípios primeiros do ser enquanto ser, deparamo-nos com
certos conceitos, os quais – em função da sua generalidade absoluta – devem
ser conhecidos pelo próprio metafísico.
Não há como compreender o projeto metafísico de Aristóteles sem que
nele se apreenda um rompimento conceitual em relação às ciências particulares.
Tal ruptura se faz visível pela leitura atenta dos livros A e Γ, quando o filósofo
apresenta as duas primeiras caracterizações desta ciência que mais
propriamente se aproxima da natureza da sabedoria. Se, por um lado, toda
ciência circunscreve um gênero particular do ser e a ele limita as suas
investigações, a metafísica, por outro, trata do ser na sua generalidade – do “ser
enquanto ser”, noção que implica uma dupla universalidade: de domínio e de
foco. Não só a metafísica trata de tudo aquilo que é (se assim fosse, ela não se
distinguiria do somatório de todas as ciências especializadas), mas trata de tudo
o que é enquanto é. Se tal distanciamento se faz explícito em Γ, já em A o
Estagirita mostra como a metafísica, diferentemente das outras ciências, não é
conhecimento pelas causas próprias a cada gênero de ser estudado, mas das
causas primeiras de tudo o que há. Como mais de uma vez dissemos, no caso
da metafísica, temos as causas do ser enquanto ser como o próprio objeto de
conhecimento e não como aquilo por meio do que se vem a conhecer uma outra
coisa. O que se quer enfatizar é que tamanho rompimento conceitual não pode
manifestar-se sem trazer consigo uma ruptura de ordem estrutural. O que vale
dizer que não podemos, a despeito de uma ou outra passagem que permita
alguma aproximação aparente, trazer para o âmbito da ciência buscada uma
organização estrutural que é própria às ciências que dela são conceitualmente
distintas.
3. 3 A posição de Michael Frede
No seu artigo “The Unity of General and Special Metaphysics: Aristotle’s
Conception of Metaphysics” (1987), Michael Frede trata, em primeiro lugar, do
problema de como conciliar as diferentes concepções – expostas,
respectivamente, em Г e em E – do projeto metafísico de Aristóteles, que é
descrito ora como ciência do ser enquanto ser (Γ), ora como ciência do modo
principal de ser (E). Após apresentar a sua solução para a dificuldade
concernente a esta transição da ontologia à teologia, Frede, num segundo
momento, busca mostrar como tal solução tem algo a contribuir para o problema
que diz respeito a como compreender o estatuto de ciência da disciplina
concebida na Metafísica. Assim, julgamos ser pertinente a exposição das linhas
gerais da argumentação traçada por Frede no citado artigo, na medida em que,
ao ocupar-se do problema da cientificidade do projeto metafísico, culmina numa
conclusão diametralmente oposta à nossa: que a metafísica consiste na primeira
dentre as ciências demonstrativas. Além disso, poderemos tratar um pouco
mais do difícil texto de E. 1, em que Aristóteles explica, muito brevemente, como
se deve entender a passagem da ontologia à teologia, sem que se perca no
caminho a nota essencial do projeto metafísico: sua universalidade de domínio e
de foco.
O artigo inicia revelando duas concepções distintas e aparentemente
inconciliáveis do projeto de Aristóteles: uma, em que o filósofo apresenta a
disciplina buscada como uma ciência do ser enquanto ser, distinta das ciências
particulares, na medida em que, diferentemente delas, não circunscreve, como
objeto de seu estudo, um gênero delimitado do ser; outra, em que tal disciplina é
dita filosofia primeira, ciência dedicada a uma classe particular do ser – àquilo
que é, ao mesmo tempo, simples (imóvel) e separado. É assim que nos
deparamos com duas formulações à primeira vista incongruentes do projeto: se,
num momento, ele é apresentado como uma metaphysica generalis, um estudo
de tudo o que existe na medida em que existe, noutro, o que se vê é uma
metaphysica specialis, o estudo de um tipo particular de ser, a saber, os supra-
sensíveis. Tal estudo dos supra-sensíveis Aristóteles não hesita em chamar de
teologia, pois, como diz o filósofo, “se o divino está presente algures, é
exatamente neste tipo de coisa <no que é simples e separado> que ele se faz
presente” (1026
a
19-21).
A despeito da aparente incomunicabilidade das referidas descrições do
projeto, Frede salienta que é preciso ter em mente que, para Aristóteles, não há
conflito entre as noções sustentadas em Γ e em E. Diferentemente de outros
intérpretes, como Werner Jaeger, que buscou explicar as diferentes descrições
do projeto como o reflexo de diferentes estágios do pensamento aristotélico,
Frede, por sua vez, busca uma solução conciliadora, na medida em que só
assim se faz jus ao texto de E. 1, onde o filósofo explicitamente busca convergir
ontologia e teologia, afirmando, da seguinte maneira, o caráter universal da
ciência relativa ao modo principal de ser: “ela <teologia> é universal deste modo:
porque é primeira” (1026
a
30-31). Assim, toda tentativa de solução – que quiser
manter-se rente ao texto – do problema que diz respeito a como conciliar
ontologia e teologia num mesmo e único projeto deve consistir numa
interpretação da citada passagem de E. 1, em que Aristóteles explica por que a
ciência relativa aos supra-sensíveis não se restringe a uma classe particular do
ser (os supra-sensíveis), sendo, antes, universal.
98
98
M. Frede afirma que a sua solução consiste numa revisão da resposta proposta por G. Patzig
em “Theology and Ontology in Aristotle’s Metaphysics” (1979), de modo que faremos também
menção a este último. Patzig, assim como Frede, propõe uma interpretação conciliadora das
concepções de Γ e E.
A solução de Frede, sua explicação para a passagem nuclear de E. 1, se
resume, segundo o próprio autor, em cinco pontos centrais: (i) a teologia lida
com seres de um certo tipo, a saber, o que tem existência separada; e, ao fazê-
lo, ela lida também com um modo particular de ser, aquele próprio ao que é
simples e separado. (ii) Este modo de ser – o simples e separado – é um em
relação ao qual todos os outros modos de ser são explicados, ou seja, todos os
outros modos de ser são compreendidos, na sua natureza, a partir do modo de
ser próprio aos supra-sensíveis. (iii) Ao fazer teologia, ao dedicarmo-nos ao
estudo dos supra-sensíveis, estudamos também como os outros modos de ser
dependem dos seres próprios à teologia. É a partir deste ponto que passa a
ficar evidente o caráter universal do estudo teológico, em que medida ele
extrapola os limites do supra-sensível. (iv) A ontologia envolve mais conteúdo
do que uma disciplina em que se estabelece o modo pelo qual todos os seres
dependem daquilo que é ser em sentido primordial. A ciência do ser enquanto
ser trata também de certos princípios universais, como o de não-contradição, e
de certas noções aplicáveis a todo ser, como as de unidade e identidade. Ainda
assim, pode-se dizer que, embora pertencentes a todo ser, tais noções e
princípios se aplicam, primeiramente, ao objeto da teologia, fazendo com que
caiba ao teólogo esclarecê-las. (v) A teologia consiste numa série de estudos
que possuem uma unidade meramente genérica. Apenas uma parte deste
estudo constitui a teologia em sentido restrito – estudo do modo principal de ser.
No entanto, devido à posição do objeto da teologia e à dependência do resto do
ser em relação ao modo principal de ser, dir-se-á que a teologia é ciência do ser
enquanto ser.
Dito isso, vemos que (i) enfatiza a posição da teologia na ordem do
conhecimento: na medida em que as substâncias sensíveis são (em função da
sua materialidade) mais cognoscíveis para nós, todo estudo do que é separado
inicia pelas substâncias compostas para, a partir delas, chegar ao que é
separado e simples (imaterial) – menos conhecido para nós, embora mais
conhecido por natureza. Já (ii) e (iii) explicam a afirmação de Aristóteles
segundo a qual a teologia é universal porque primeira. Ou seja, elas visam a
estabelecer que há um modo em que tudo o que é depende daquilo que é
separado e simples. Por (iv) e (v), Frede salienta como a teologia se ocupa de
certas noções e princípios de aplicabilidade universal e como ela é, sob um
aspecto, particular e, sob outro, universal. Quando a consideramos tão-somente
sob o aspecto de seu objeto próprio de estudo, ela é particular; já quando a
tomamos sob o ponto de vista da relação existente entre o tipo de ser a cujo
estudo ela se dedica e todo o resto do ser, ela é universal e, portanto, ontologia.
No que diz respeito a estes dois últimos pontos (iv-v), Günter Patzig, cujo citado
artigo serviu de base para a interpretação de Frede, sustenta que “a filosofia
primeira é uma teologia de um tipo tão especial que ela é, enquanto tal e ao
mesmo tempo, ontologia. Aristóteles tem em mente uma disciplina filosófica que
é tanto filosofia primeira quanto filosofia geral; e uma substância que é tão
superior às outras que ela pode, ao mesmo tempo, ser chamada, em certo
sentido, substância em geral” (1979, p. 38, a ênfase é do próprio autor).
Resta saber como devemos compreender a relação de dependência –
fundamental para o entendimento da passagem de E. 1, em que se estabelece o
sentido pelo qual a teologia é universal – que há entre o modo primordial de ser
e todo o resto do ser. Para tanto, Frede introduz uma distinção entre as
expressões “tipo de ser” e “modo de ser”. À teologia não concerne apenas um
tipo particular de ser, mas, antes, um modo particular de ser. Tal distinção, por
seu turno, se resume ao seguinte: cavalos constituem um tipo particular de ser,
e camelos, outro tipo particular de ser; no entanto, nem um nem outro possui um
modo próprio de ser, peculiar a eles, na medida em que ambos compartilham o
modo de ser relativo às substâncias naturais, o qual, por sua vez, se opõe, por
exemplo, ao modo de ser das qualidades das substâncias naturais: o cavalo e a
cor do cavalo possuem modos distintos de ser; o cavalo e o camelo possuem
tipos distintos de ser. Segundo Frede, uma das razões que explicam as
dificuldades que temos em conceber a teologia como metafísica geral é que
costumamos pensar a teologia como qualquer uma das ciências particulares,
como, por exemplo, a zoologia. Na medida em que a zoologia trata de coisas
que possuem um tipo particular de ser, o tipo de ser próprio aos animais, mas
que, por outro lado, não possuem um modo de ser que lhes seja peculiar, em
função de possuírem o modo de ser compartilhado por toda substância
composta sublunar, dir-se-á, portanto, que o zoólogo não se ocupa – antes, que
ele pressupõe tal conhecimento – da noção mesma de substância composta e
do que é ser para uma tal substância.
A partir desta distinção entre tipos de ser e modos de ser, Frede propõe
uma divisão entre as três ciências teóricas mencionadas em E. 1 – teologia,
física e matemática – e as diversas outras ciências particulares (como a
zoologia), as quais compõem estas três ciências fundamentais. De acordo com
o autor, tal divisão se baseia no fato que teologia, física e matemática se
ocupam não só de tipos particulares de ser, mas, preponderantemente, de
modos de ser, cabendo a cada uma delas dizer o que é ser para cada um dos
modos de ser com os quais, respectivamente, lidam. Assim, ainda que a física
trate apenas de uma parcela do ser, das substâncias sensíveis, o seu objeto de
estudo – tais substâncias – possui um modo peculiar de ser, cabendo a ela dizer
o que é ser para tais substâncias, ou seja: se há algo como uma natureza, o que
é uma natureza, no que consiste dizer que algo possui uma natureza, etc. Da
mesma maneira, caberia ao matemático – não ao geômetra, ou ao astrônomo,
os quais se ocupam de partes da matemática, mas àquele que se dedica à
matemática geral – investigar qual o modo de ser dos objetos matemáticos e
qual é a relação destes com objetos que possuem outro modo de ser.
A teologia, por sua vez, se ocupa de um objeto que possui um modo
peculiar de ser – separado, isto é, ontologicamente independente, e simples, ou
seja, imaterial. O ponto central da interpretação de cunho conciliador consiste
em afirmar que o modo de ser do objeto da teologia é aquele por referência ao
qual todos os outros modos de ser devem ser compreendidos. Num primeiro
momento, ao mostrar que é como ousiologia que a ontologia se faz possível,
Aristóteles sustenta que tudo o que existe segundo algum modo não-substancial
de ser depende daquilo que existe como uma substância: assim, ser uma
qualidade é ser uma qualidade de uma substância; ser uma relação é ser uma
relação entre substâncias, etc. No entanto, é errado pensar que obtemos uma
compreensão completa da estrutura do ser ao mostrar como os diversos modos
não-substanciais de ser dependem do modo de ser da substância. É preciso,
sustenta Frede, dar um passo a mais, mostrando como o modo de ser das
substâncias compostas é dependente do modo de ser da substância simples.
Tendo também isto em mente, Patzig afirma que “devemos postular uma relação
duplamente focal no que concerne ao ser: uma, a relação da substância com os
outros seres (qualidades, relações, etc.), os quais dependem da substância;
outra, a relação da substância divina – imóvel e independente – com as outras
substâncias. A ontologia é, portanto, uma ciência duplamente focal” (pp. 41-42,
nossa ênfase). Esta concepção da metafísica como ciência duplamente focal
não parece ser abandonada por Frede. Segundo ele, devemos distinguir três
pontos na compreensão da relação entre os dois modos substancias de ser que
compõem a segunda relação focal da metafísica: (i) a discussão da
substancialidade das substâncias sensíveis é preliminar em relação à discussão
acerca da substancialidade das substâncias simples; (ii) as substâncias simples
são, enquanto substâncias, primeiras em comparação com as substâncias
sensíveis; (iii) só atingimos uma compreensão integral da substancialidade das
substâncias sensíveis uma vez entendida a substancialidade das substâncias
não-sensíveis.
Embora Frede conceba, assim como Patzig, a transição da ousiologia à
teologia analogamente à transição da ontologia para a ousiologia, na medida em
que, em ambos os casos, o que se teria é a aplicação da relação de significação
focal (num caso, dos modos acidentais de ser em relação à substância
composta; noutro, das substâncias compostas em relação à substância simples),
ainda assim, Frede compreende a segunda transição focal característica do
projeto metafísico de um modo distinto daquele pensado por Patzig. Vale dizer
que Frede concebe a relação de dependência existente entre as substâncias
compostas e a substância divina de maneira distinta daquela idealizada por
Patzig.
Frede distingue dois modos de se conceber a anterioridade da substância
simples em comparação às substâncias compostas e a dependência destas em
relação àquela. O primeiro, que é atribuído a Patzig, consiste em dizer que uma
exposição completa do que é ser para qualquer coisa deve fazer referência ao
ser do primeiro motor imóvel. O segundo sentido, o qual Frede considera
corresponder ao modo correto de compreender-se a relação entre as
substâncias sensíveis e a substância simples, diz que as substâncias sensíveis
são dependentes da substância simples enquanto substâncias, no sentido em
que o seu modo de ser uma substância, e, portanto, o seu modo de ser, deve
ser explicado a partir do modo pelo qual a substância simples é substância. Em
última análise, o que se sustenta é que só se adquire uma compreensão integral
da substancialidade das substâncias sensíveis por remissão ao modo de ser da
substância divina.
99
Frede afirma que “Aristóteles parece assumir não apenas que em última
instância tudo depende, no seu ser, de Deus, mas também que nada é inteligível
a menos que seja compreendido na sua dependência em relação a Deus” (1987,
p. 89). Vê-se pela citação que, embora a relação de dependência que
fundamenta a interpretação do texto de E. 1 se dê, eminentemente, em registro
explanatório, não se pode dizer que a dependência das substâncias sensíveis
em relação à substância divina seja puramente conceitual. Antes, há uma base
ontológica sobre a qual se fundamenta tal dependência explanatória. E é
justamente esta base que parece permitir que Frede e Patzig caracterizem a
ontologia como uma ciência duplamente focal. Podemos afirmar que a
concepção apresentada por Frede acerca da relação de dependência entre
substâncias materiais e substância simples consiste menos numa correção da
posição de Patzig do que numa especificação desta mesma. Ou seja, dizer que
uma exposição completa do ser das substâncias sensíveis pressupõe uma
referência ao ser do primeiro motor consiste em sustentar que só
99
Não é fácil compreender com exatidão a diferença entre as duas concepções. Nisso, o próprio
texto de Frede é pouco claro. Mencionemos, no entanto, o seguinte comentário do autor acerca
da posição de Patzig, antes de apresentar a sua versão da relação entre as substâncias
compostas e o primeiro motor imóvel: “Parece que o tipo de dependência que precisamos para a
nossa justificação não é, em primeiro lugar, esta dependência de tipo quase-causal” (p.88). Ao
introduzir uma concepção alternativa à de Patzig, Frede parece estar querendo enfatizar a carga
explanatória da referida dependência – que, segundo ele, não estaria explicitada no texto de
Patzig (por isso, o uso da expressão “quase-causal”).
compreendemos adequada e integralmente a substancialidade daquelas por
remissão ao modo desta de ser uma substância. Nesse sentido, ambas as
descrições, tanto a de Frede quanto a de Patzig, operam num registro
explanatório: só se compreende plenamente a natureza das substâncias
sensíveis através da substância divina – ainda que a de Frede busque tornar isto
mais evidente.
Em Γ, ao tratar do problema da equivocidade do ser e da possibilidade de
uma ciência una do ser enquanto ser, Aristóteles introduz a relação “por
referência a um” (ou de significação focal), de modo a sustentar que, embora
dito de muitas maneiras, o ser não é meramente equívoco, na medida em que
existe um modo de ser – o da substância – ao qual todos os outros, nos seus
modos de ser, fazem referência. E, devido à sua natureza focalmente equívoca,
é possível que haja uma ciência única cujo objeto seja o ser enquanto ser. A
base da relação de significação focal consiste numa dependência ontológica dos
modos não-substanciais de ser em relação ao modo de ser da substância
composta: tudo o que é, e que não é uma substância, existe na substância. É
assim, como já vimos, que Aristóteles justifica a passagem da ontologia (estudo
do ser enquanto ser) à ousiologia (estudo da substância): a ousiologia consiste
na forma adquirida pela ontologia de maneira a tornar-se possível como ciência
una.
Se a relação de significação focal pressupõe dependência ontológica por
parte dos membros relacionados, então, se quisermos atribuir ao projeto
metafísico uma estrutura duplamente focal, é preciso que haja, também na
transição da ousiologia à teologia, uma relação entre seus membros que seja
análoga àquela operante entre os acidentes da substância e a própria
substância. É preciso, em última análise, que haja alguma dependência
ontológica das substâncias compostas em relação à substância simples.
Ao investigar a relação entre as substâncias compostas e a substância
simples, podemos distinguir dois tipos possíveis de dependência ontológica –
um, forte e anti-aristotélico; outro, mais fraco e compatível com a doutrina
exposta pelo Estagirita tanto em Λ quanto na Física. Em primeiro lugar, diz-se
haver, em sentido forte, dependência ontológica das substâncias que compõem
o mundo sensível em relação à substância divina quando esta última é
responsável pela criação daquelas. Nesse sentido, considera-se Deus como
causa eficiente das substâncias corpóreas. Tal concepção, no entanto, está
ausente no pensamento aristotélico, para o qual o mundo é eterno e, portanto,
não-criado. Noutro sentido, mais brando, diremos que a posição ocupada pela
substância divina na estrutura do mundo impõe uma certa dependência do ser
das substâncias materiais em relação ao ser divino. Vimos Frede explicar a
universalidade da teologia, em favor da qual Aristóteles argumenta em E. 1, a
partir do que chamamos de uma “dependência explanatória” das substâncias
compostas em relação à substância simples: o que quer dizer que não é
possível compreender a substancialidade daquelas senão por referência à
substancialidade desta última. O que, por sua vez, distingue a substancialidade
das substâncias compostas em comparação à substância divina? Justamente, a
materialidade daquelas, na medida em que a sua forma só se realiza na matéria.
Ora, a matéria impõe mobilidade: tudo o que é material é, sob algum aspecto,
suscetível ao movimento. O movimento, portanto, constitui uma nota essencial
das substâncias sublunares. E o movimento, por seu turno, depende da
substância divina: Deus é causa do movimento, sem, no entanto, criá-lo. Assim,
Aristóteles afirma que Deus é causa final do movimento e não causa eficiente
deste, já que o movimento depende de Deus sem ter sido criado – pois que é
eterno – por ele.
100
Se, portanto, o movimento não pode existir sem a
substância imóvel (que, como afirma o filósofo, move sem, por sua vez, mover-
se, pois aquilo que move como objeto de desejo move sem mover-se
101
), então,
na medida em que a mobilidade é nota essencial do mundo sublunar e das
substâncias que o compõem, pode-se dizer que as substâncias materiais não
podem ser o que são sem a substância divina. É nesse sentido que se é
100
Não analisaremos aqui a doutrina aristotélica segundo a qual Deus é causa final do
movimento. Para os nossos propósitos, basta compreender que o movimento depende de Deus
sem, no entanto, ter sido criado por ele.
101
Ver Metafísica, Λ. 7.
autorizado a afirmar que há, em Aristóteles, uma dependência ontológica (em
sentido fraco, pois não-criacionista) por parte das substâncias compostas em
relação ao primeiro motor imóvel. Assim, feitas as devidas distinções, não há
problema em se dizer, como o fazem Frede e Patzig, que a metafísica é uma
ciência duplamente focal.
Acompanhemos, agora, os apontamentos de Frede acerca do estatuto de
ciência da metafísica. Costuma-se dizer que a argumentação aristotélica na
Metafísica segue os moldes de uma atividade dialética.
102
Tal constatação
pareceria pôr em risco a cientificidade do projeto metafísico, na medida em que,
de acordo com a doutrina estabelecida nos Segundos Analíticos, é o método
demonstrativo que funciona como instrumento de efetivação do conhecimento
científico. No entanto, vimos que há um modo de escapar desta emboscada e
este consiste em afirmar que aquilo que Aristóteles faz no tratado da Metafísica,
assim como em outras obras de cunho científico, diz respeito à etapa da
ascensão aos princípios, os quais só podem ser obtidos mediante uma
argumentação dialética. Nada impede, porém, que na argumentação (ausente
no tratado da Metafísica, no entanto, para aqueles que assumem tal posição,
constitutiva da disciplina metafísica) que procede dos princípios (obtidos
dialeticamente) se argumente segundo o método demonstrativo. Esta parece
ser, também, a posição de Frede.
Segundo Frede, além das indicações de A-B-Γ (quer dizer, a insistência
com que Aristóteles descreve o seu projeto como científico), o fato que
Aristóteles inclui a filosofia primeira (teologia), juntamente com a física e a
matemática, no grupo das ciências teóricas fundamentais, deve contar a favor
da cientificidade da metafísica – se não da sua totalidade, ao menos de boa
parte dela. Para o autor, não há razão para não considerarmos a teologia, ao
menos no seu sentido estrito – isto é, naquilo que ela possui de particular,
“estudo do modo principal de ser” –, como constituindo uma ciência. É preciso
102
Assim, por exemplo, Robert Bolton, em “Aristotle’s Conception of Metaphysics as a Science
(1994), sustenta que a dita “demonstração por refutação” operada por Aristóteles, em Γ. 4, em
favor do princípio de não-contradição segue as regras, apresentadas nas Refutações Sofísticas,
reguladoras da argumentação peirástica. Em seguida, voltaremos a este texto.
ressaltar que, ao afirmar isto, o que Frede quer dizer é que não haveria motivo
algum para negarmos à teologia o modo demonstrativo de argumentação: a
teologia pode, pensa Frede, proceder demonstrativamente.
Frede, no entanto, acredita que possamos ir além. Assim como existe
uma matemática geral (cf. Met. E. 1, 1026
a
25-28), diferente das ciências
matemáticas particulares – como a geometria, a astronomia, etc. – na medida
em que considera os entes matemáticos enquanto tais, de maneira semelhante
podemos conceber não só uma teologia em sentido estrito, a qual se ocupa tão-
somente do modo primordial de ser, mas, também, uma teologia geral, que trata
não apenas da substância simples, como da relação que esta mantém com as
outras substâncias. À teologia geral, portanto, cabe uma exposição do modo de
ser das substâncias compostas, na medida em que é atribuição dela mostrar em
que sentido tais substâncias são dependentes da substância divina. Por isso,
dir-se-á que o escopo investigativo da teologia geral, diferentemente da teologia
estrita, não se limita à substância simples. Para Frede, assim como não há
porque negar cientificidade à teologia em sentido estrito, tampouco podemos
fazê-lo no que concerne à teologia geral. A partir daí, sustentar-se-á que o
desdobramento último da metafísica – a saber, a teologia geral – é científico.
Mas por que não considerar a metafísica na sua totalidade como
científica? De acordo com Frede, o único motivo que possuímos para negar-lhe
o estatuto de ciência consiste no fato que a argumentação executada por
Aristóteles ao longo da Metafísica segue antes os cânones da dialética do que
aqueles que regulam o método demonstrativo. No entanto, a constatação do
caráter dialético da argumentação da Metafísica não nos permite dizer nada
acerca do seu estatuto de ciência, apenas afirmar que atingimos os princípios da
disciplina que lá é apresentada dialeticamente – o que, de resto, não é
problemático. Inserindo a ciência do ser enquanto ser no mesmo registro das
outras ciências, Frede sustenta que, na Metafísica, assim como nos outros
tratados de ciência, Aristóteles não se ocupa da prova científica, mas de uma
etapa que lhe é anterior – a saber, aquela relativa à aquisição dos princípios a
partir dos quais são efetuadas as provas demonstrativas. Estas considerações
levam Michael Frede a tomar a metafísica como “a primeira dentre as ciências
demonstrativas”.
103
3. 4 Uma nova concepção de ciência
Começaremos nossa crítica à posição de Frede a partir da sua
interpretação do texto de E. 1 – mais especificamente, no que diz respeito à
passagem em que Aristóteles explica a universalidade do estudo teológico
afirmando que “ela <teologia> é universal deste modo: porque é primeira”
(1026
a
31). Nada mais justo do que conferir tanta importância ao referido trecho,
na medida em que se viu que é mediante esta frase que o Estagirita busca
justificar a transição derradeira do projeto metafísico – da ousiologia à teologia.
Aristóteles inicia o texto de E, tal como o fizera em A e Γ, anunciando que
o projeto da Metafísica concerne às causas e princípios do ser enquanto ser. É
assim que o filósofo pensa fazer jus à concepção segundo a qual o sábio é
aquele que conhece todas as coisas: a disciplina que mais se aproxima desta
noção deve ser tal que aquele que a domine conheça não cada coisa na sua
individualidade, mas, antes, certos princípios que pertencem a tudo o que existe
na medida em que existe. Logo após, Aristóteles introduz uma terceira ciência
teórica, além da física e da matemática, que delas se distingue por ter como
objeto de estudo aquilo que, ao mesmo tempo, é separado e imutável – a
teologia. A despeito do seu caráter aparentemente particular, já que delimita
como escopo de sua investigação um modo particular de ser, aquele relativo à
substância simples, Aristóteles atribui a esta ciência teórica um estatuto de
ciência universal – o qual ele justifica através da já mencionada passagem de E.
1 –, sustentando, inclusive, ao final do capítulo, que cabe a esta ciência
103
1987, p. 95. Frede termina o seu artigo com as seguintes palavras: “Assim, me parece que
uma compreensão adequada da concepção aristotélica de metafísica e, em particular, da sua
observação que a filosofia primeira é universal porque primeira irá devolver à metafísica o seu
verdadeiro lugar: como a primeira dentre as ciências demonstrativas”.
(teologia) a investigação do ser enquanto ser e dos atributos que ao ser
pertencem enquanto tal.
Como se disse, a solução de Frede parte da distinção entre “modo de ser”
e “tipo de ser”. A teologia não estuda apenas um tipo particular de ser – como o
faz, por exemplo, a zoologia, que trata do tipo de ser próprio aos animais, sem,
no entanto, nada dizer acerca do modo de ser das substâncias naturais –, mas
um modo de ser. Aliás, cabe a ela a investigação do mais alto modo de ser:
aquele próprio à substância divina. Enquanto estudo deste modo de ser ela é
teologia em sentido estrito. No entanto, há uma relação de dependência entre o
modo de ser da substância divina e aquele próprio às substâncias compostas,
de maneira que, ao dedicar-se ao estudo da primeira, caberá também ao teólogo
a investigação da relação existente entre ambos os modos de ser e,
conseqüentemente, o estudo do modo de ser das substâncias compostas. Mas
à ontologia geral pertence também o estudo de certos princípios, como o de
não-contradição, os quais são verdadeiros de tudo o que é enquanto é. Embora
concernentes ao ser enquanto ser, tais princípios são, em primeiro lugar, ditos
da substância divina, o que faz com que seja da alçada do teólogo o
esclarecimento de tais princípios. É assim que, segundo Frede, a teologia se faz
metafísica.
Pode-se dizer que o ponto culminante da interpretação de Frede consiste
na identificação da teologia com a ontologia geral. Tal posição é herdada de
Patzig, segundo o qual “Aristóteles deve poder dizer que a teologia, própria e
rigorosamente compreendida, é, ao mesmo tempo, nada além do estudo do ser
enquanto ser, isto é, ontologia” (1979, p. 41). De acordo com ambos, portanto, a
teologia recobre todo o terreno próprio à metafísica.
104
Como compreender, no entanto, o texto de E. 1 sem incorrer na
identificação da teologia com a ontologia geral? Isto é: como entender a
104
Não pensamos que esta seja a única solução possível para o problema de E. 1. Inclusive,
esta não parece ser a interpretação de Augustin Mansion, quando este propõe uma distinção
entre filosofia primeira e ciência do ser enquanto ser (In: Zingano (org.), 2005, pp. 123-176).
atribuição de universalidade ao estudo teológico sem que isso nos leve a
identificá-lo com a própria ciência do ser enquanto tal?
Tendo introduzido uma terceira ciência teórica, a teologia, identificando-a
com a filosofia primeira, na medida em que diz respeito ao modo principal de
ser, o da substância simples, Aristóteles passa a sustentar que, embora possua
um objeto particular de estudo, não devemos considerar a teologia como uma
ciência particular, mas, antes, conferir-lhe o estatuto de ciência universal. Se
assim compreendemos o texto, não há fuga possível da identificação da teologia
com a ontologia geral. Há, porém, um modo alternativo de compreensão do
texto: podemos supor que Aristóteles esteja afirmando não que a teologia, a
despeito de possuir um objeto particular de estudo, seja, ela mesma, universal,
mas que, em função da natureza do objeto por ela estudado e da relação que
este mantém com os outros modos de ser, ela faça parte de um projeto que é,
este sim, universal. Assim, dir-se-á que a teologia não é uma mera ciência
especializada num gênero particular de ser, mas que ela é, como estudo do
modo principal de ser – isto é: enquanto filosofia primeira –, parte integrante de
uma ciência universal – a ciência do ser enquanto ser. É exatamente isto que A.
Mansion parece ter em mente ao dizer que a teologia constitui, em relação à
metafísica, como que o “fecho da abóbada”: a filosofia primeira deve ser
integrada à ciência do ser enquanto ser na medida em que, sem o conhecimento
do modo principal de ser, o conhecimento da totalidade do ser resta incompleto.
A filosofia primeira (teologia) não é a própria metafísica, mas “encontra-se
assumida de certo modo na metafísica do ser enquanto ser”.
105
Justamente o
que faz com que a teologia não seja uma mera ciência particular, mas parte
integrante de um projeto dotado de estatuto universal, é a relação de
dependência existente entre o modo de ser estudado pela teologia e todo o resto
do ser. O que quer dizer que o metafísico deve, em última análise, buscando
uma compreensão completa do real, fazer teologia; mas não que, ao fazer
teologia, faz, automaticamente, toda a ciência do ser enquanto ser. Enfim, a
105
A. Mansion. In: Zingano (org.), 2005, p. 159.
universalidade de E. 1 não é a universalidade da própria filosofia primeira, mas a
universalidade da ciência da qual a teologia constitui a parte culminante.
Por identificar teologia e metafísica, Frede encontra maior facilidade em
saltar da cientificidade da filosofia primeira para a cientificidade do estudo do ser
enquanto ser. Se a teologia, como pensa Frede, pode seguir o método de prova
prescrito pelos Segundos Analíticos, por que a metafísica não o poderia?
Não consideramos correta a interpretação de Frede acerca do estatuto de
ciência do projeto metafísico – a qual se resume num esforço para torná-lo
adaptável ao método demonstrativo –, assim que gostaríamos de tentar apontar
onde residiria o erro desta compreensão. Além de considerar que a teologia
recobre todo o escopo da metafísica, Frede parece ter, a respeito da
universalidade desse projeto, uma idéia inadequada, cujo fundamento encontrar-
se-ia numa má avaliação do próprio conceito de ciência do ser enquanto ser.
Quando atribuímos a Frede uma imprecisão na avaliação do conceito
aristotélico de metafísica, estamos acusando-o de não atentar para o hiato
conceitual existente entre a caracterização que Aristóteles faz do projeto
metafísico em relação às ciências particulares. A primeira nota distintiva do
projeto metafísico em comparação com as ciências particulares vem à tona em
A, quando o filósofo descreve a ciência buscada como conhecimento das
causas de todas as coisas. Vimos que tanto a metafísica quanto as outras
ciências são concebidas como fornecedoras de conhecimento causal, embora
num e noutro caso a expressão “conhecimento causal” tenha uso equívoco. No
que concerne às ciências particulares, afirmar que estas fornecem conhecimento
causal significa dizer que possuímos ciência acerca de algo quando alcançamos
a causa pela qual este algo é e que a reconhecemos como causa daquele algo
acerca do qual temos ciência. Nesse sentido, “conhecimento causal” significa
“conhecimento pela causa”. Já no caso da metafísica, as causas do ser
enquanto ser não constituem aquilo a partir do que obtemos conhecimento
científico sobre algo; antes, elas formam o próprio objeto de conhecimento. No
que concerne ao núcleo duro da ciência buscada na Metafísica, “conhecimento
causal” significa “conhecimento da causa”. Ao ignorar tal distinção, somos
levados a crer que a disciplina relativa ao ser enquanto ser, tal como as outras
ciências, pode ter, além de uma etapa ascendente, que vai até a aquisição dos
princípios, uma segunda etapa, descendente, que vai – seguindo o método
demonstrativo – dos princípios até aquilo que é, em virtude de nossa natureza,
mais conhecido.
Sendo a teologia parte integrante do projeto metafísico, deve caber, entre
ela e as ciências particulares, a mesma distinção conceitual operante entre a
ciência buscada e as ciências particulares. O que quer dizer que a substância
divina é, para a teologia, aquilo que se conhece e não aquilo por meio do que se
conhece.
106
Não cabe afirmar, portanto, como o faz Frede, que a teologia
possuiria, uma vez adquirido o conhecimento da substância simples, uma
segunda etapa – na qual proceder-se-ia por demonstração – que vai do
conhecimento da substância divina até o conhecimento de outras coisas cuja
apreensão seria da alçada da teologia.
Dito isso, podemos afirmar que a interpretação de Frede a respeito da
cientificidade do projeto metafísico se resume em dois passos inválidos: (i)
considerar que a teologia, naquilo que ela possui de fundamental, possa
amoldar-se ao método demonstrativo, encontrando, aí, a razão da sua
cientificidade; (ii) mediante a identificação da teologia à ontologia geral, estender
à própria metafísica tal solução, sustentando que também ela pode seguir o
106
O que negamos, em última análise, é a distinção operada por Frede entre uma teologia
restrita e uma teologia de escopo mais amplo. A teologia, na medida em que não constitui uma
mera ciência especializada, mas, antes, é parte integrante e culminante de uma ciência
universal, é estudo da substância divina, a qual, por sua vez, não pode, dentro do esquema
aristotélico, ser compreendida independentemente da noção de primeiro motor imóvel. Tal
noção, por seu turno, é indissociável da noção de coisa movida. De modo que é impensável um
estudo a respeito da substância divina que não seja, ao mesmo tempo, estudo da relação que
esta substância mantém com todo o resto do ser. Conhecer, no sistema aristotélico, Deus é
conhecer as relações de Deus com o resto do ser. Ainda assim, cabe, para a teologia, a mesma
afirmação que se vem fazendo ao longo deste capítulo, segundo a qual a disciplina da Metafísica
é dominantemente conhecimento das causas e não pelas causas. A metafísica, em todos os
seus desdobramentos, é conhecimento das causas primeiras do ser enquanto ser. Se a teologia
constitui um desses desdobramentos essenciais da metafísica, então devemos – também no
caso da teologia – distinguir uma região central, infensa aos critérios dos Analíticos, na qual tudo
o que se tem é conhecimento da causa primeira de todo o ser.
método demonstrativo de prova, enquanto um presumido conhecimento a partir
das causas primeiras do ser enquanto ser.
Vê-se, assim, que, para Frede, resolver o problema acerca do estatuto de
ciência do projeto metafísico consiste numa tentativa de inserção deste como
que no mesmo registro estrutural das ciências particulares, buscando sempre no
método demonstrativo de prova a raiz de sua cientificidade. Por outro lado,
nossa argumentação fundamentou-se no seguinte: a distinção conceitual
existente entre a ciência do ser enquanto ser e as ciências particulares deve
implicar uma diversidade estrutural entre uma e outras. O que quer dizer que
não podemos compreender a cientificidade do projeto metafísico nos moldes da
cientificidade das ciências particulares.
Ao recusar o estatuto de ciência à metafísica compreendido nos moldes
da cientificidade das ciências particulares – isto é, rechaçando a posição
segundo a qual a ciência do ser enquanto ser encontra no método demonstrativo
a razão de sua cientificidade – nos vemos como que levados a sustentar a tese
que, na Metafísica, Aristóteles está, em favor da disciplina que lá ele quer
instituir, abandonando a concepção de conhecimento científico exposta nos
Segundos Analíticos, de modo a lançar mão de uma nova concepção que, por
sua vez, se adapte à tese que o estudo do ser enquanto ser constitui a mais alta
espécie de saber científico.
Se as coisas devem ser compreendidas desta maneira é o que
passaremos a avaliar a partir de agora.
3. 5 A posição de Robert Bolton
Em seu artigo “Aristotle’s Conception of Metaphysics as a Science”
(1994), Robert Bolton pretende, a partir da avaliação do argumento de Γ. 4, o
qual, segundo Aristóteles, consiste numa “demonstração por refutação” do
princípio de não-contradição, dizer algo acerca do estatuto de ciência do projeto
metafísico. A estratégia utilizada por Bolton trata de mostrar como o argumento
de Γ. 4 segue as normas relativas à argumentação peirástica apresentadas nas
Refutações Sofísticas para, em seguida, perguntar se tal tipo de argumento é
capaz de fornecer conhecimento científico acerca daquilo que mediante ele é
provado. Se a resposta for positiva, pensa Bolton, então teremos, na Metafísica,
uma alteração no método científico de prova, tal como este fora elaborado nos
Analíticos; ou seja, a demonstração não mais teria exclusividade sobre a
cientificidade de um argumento. No entanto, segundo o comentador, há boas
razões para crer que a resposta é negativa, pois o objetivo do filósofo nas
Refutações Sofísticas consiste em fornecer um procedimento de argumentação,
por refutação, mediante o qual se possa conhecer algo sem ter de conhecê-lo
cientificamente.
Em favor da sua posição – que a demonstração por refutação do princípio
de não-contradição não fornece conhecimento científico a respeito de tal
princípio e que, portanto, na Metafísica, não há a introdução de uma concepção
de conhecimento científico alternativa àquela dos Analíticos – Bolton traz à tona
algumas passagens da obra do Estagirita. Em primeiro lugar, o famoso trecho
de Refutações Sofísticas 11, no qual Aristóteles afirma que a peirástica permite
que seu praticante obtenha certos conhecimentos numa matéria sem, no
entanto, possuir o conhecimento específico de tal matéria – isto é, sem, contudo,
ter conhecimento científico a respeito dela (172
a
22-30). Faz, também, menção à
passagem de Γ. 2, na qual Aristóteles diz que a dialética é meramente crítica lá
onde a filosofia é conhecimento (1004
b
25-26). Por fim, Bolton chama a atenção
para o texto de Γ. 3, em que o filósofo trata dos primeiros princípios do ser como
o que há de mais certo. Quanto a isso, Aristóteles sustenta que os primeiros
princípios são não-hipotéticos e o que há de mais bem conhecido. Isto quer
dizer que tudo o mais é conhecido a partir deles e que não há nada por meio do
que eles venham a ser conhecidos. Surpreendentemente, Bolton crê que tais
passagens forneçam suficiente apoio para a afirmação que “Aristóteles ainda
considera a ciência e, em particular, a metafísica, como possuindo (ou, sendo
exprimível em) o mesmo tipo de estrutura justificatória demonstrativa que a dos
Analíticos” (1994, p. 352). Para Bolton, a prova por refutação não pode fornecer
conhecimento científico dos primeiros princípios do ser enquanto ser – com os
quais lida a metafísica –, na medida em que, para que se tenha conhecimento
científico dos princípios, é preciso apreendê-los naquilo que eles têm de não-
hipotéticos e mais bem conhecidos, o que não é o caso quando da prova que
segue as normas da argumentação peirástica.
Assim como Frede, Bolton incorre no erro de avaliar o estatuto de ciência
do projeto metafísico através da cientificidade das ciências particulares:
pressupondo que o método demonstrativo recobre todo o campo do saber
científico e que, portanto, entender a cientificidade da metafísica é compreender
como ela pode efetuar as provas que lhe dizem respeito por meio de silogismos
demonstrativos.
Pondo de lado esta pressuposição comum aos dois comentadores dos
quais tratamos, passaremos a ver que, em certo sentido, a Metafísica apresenta
uma nova concepção de conhecimento científico. Ela não é nova no sentido de
substituir uma concepção já ultrapassada; antes, é nova na medida em que se
refere a um campo (próprio ao ser enquanto ser) que, de princípio, não é
abarcado pela concepção dos Analíticos. Se assim é, compreende-se que a
doutrina aristotélica do conhecimento científico exposta nos Segundos Analíticos
não é substituída por uma doutrina alternativa, já que a concepção dos
Analíticos e a da Metafísica não se voltam para um mesmo objeto – sendo, por
conseguinte, mais correto dizer que a concepção da Metafísica vem associar-se
àquela dos Analíticos. Pois, enquanto neste último tratado Aristóteles expõe as
condições de cientificidade das ciências particulares, na Metafísica o objeto de
análise é uma disciplina sui generis, conceitualmente distinta das ciências
particulares, ainda que possa ter alguns traços comuns com estas.
107
Isto nos
107
Ambas têm como objeto de conhecimento o universal e necessário. Mesmo assim, cremos
que não se possa ir além e dizer que tanto as ciências particulares quanto a metafísica sejam
conhecimento causal do necessário, exceto em sentido equívoco, na medida em que vimos que
leva a dizer que, embora o método demonstrativo seja indissociável do estatuto
de ciência das ciências particulares, tal método não recobre toda a esfera do
saber científico. O saber metafísico é científico – constitui mesmo a mais alta
espécie de ciência – sem ter o método demonstrativo como seu método próprio
de prova. A Metafísica apresenta uma nova concepção de ciência porque
consiste num projeto de uma ciência acerca da qual os Analíticos não se
propõem a teorizar.
3. 6 A cientificidade da metafísica
O que pretendemos, no que diz respeito à compreensão do estatuto de
ciência do projeto metafísico, é que a nova concepção de conhecimento
científico que é apresentada na Metafísica não se fundamente no seu método de
argumentação, mas na posição ocupada pela disciplina na hierarquia do saber
idealizada por Aristóteles. Isto quer dizer que, para compreender por que o
estudo do ser enquanto ser é, por Aristóteles, denominado de ciência, ainda que
tal estudo não respeite a totalidade dos critérios reguladores do saber científico
expostos nos Segundos Analíticos, não devemos nos debruçar sobre uma
investigação do(s) método(s) de prova característico(s) da disciplina metafísica,
mas, antes, buscar entender qual é a relação existente entre ela e as ciências
particulares, na medida em que, de acordo com a nossa interpretação, é a
posição ocupada pela ciência universal do ser enquanto ser em comparação
com as ciências que têm seus estudos restritos a parcelas do ser que garante a
atribuição de cientificidade ao projeto metafísico.
Vimos no primeiro capítulo, quando da análise da concepção aristotélica
de conhecimento científico de acordo com a doutrina dos Segundos Analíticos,
que toda ciência particular, nas suas demonstrações, parte de certos princípios,
os quais são indemonstráveis não só dentro do escopo mesmo daquela ciência,
a expressão “conhecimento causal” se aplica equivocamente às ciências demonstrativas e à
ciência do ser enquanto ser.
mas, também, para toda e qualquer ciência particular.
108
Não cabe, no entanto,
pensar que é nesta medida que se estabelece a relação entre a metafísica e as
ciências particulares, a saber: que ela vem provar aqueles princípios imediatos
indemonstráveis por qualquer ciência particular. Como já mencionáramos, tal
não pode ser o caso: pois a metafísica é, por definição, estudo do ser enquanto
ser, de modo que não pode ser da sua alçada a investigação de princípios cuja
aplicação está circunscrita a gêneros particulares do ser. A ciência da
Metafísica, portanto, não está na base das ciências particulares por demonstrar
aquilo que estas não são capazes de demonstrar.
109
Pensar assim é confundir-
se quanto ao próprio conceito da ciência que Aristóteles quer instituir, atentando
contra a universalidade que a define.
Ainda assim, é possível conceber um outro tipo de relação entre
metafísica e ciências demonstrativas. Estas últimas partem da percepção
sensível e da experiência para ascenderem à apreensão de certos princípios a
partir dos quais executam, num segundo estágio, suas demonstrações. Em
meio a esta atividade de obtenção de seus princípios próprios, durante a qual as
ciências vão adquirindo o instrumental necessário à confecção das
demonstrações que lhes concernem, certos conceitos, cuja aplicabilidade não se
restringe a este ou aquele campo do ser, são, por elas, pressupostos. Por
exemplo, as ciências particulares – na sua busca por conhecimento causal
acerca daquilo de que tratam – pressupõem que certas coisas possuem uma
natureza composta; que têm uma essência; que há singulares e universais; que
o real é povoado por uma pluralidade de coisas; que as coisas possuem certas
propriedades; etc. Tais pressuposições trazem consigo certos conceitos cuja
significação precisa não cabe às ciências particulares fornecer, já que estes
108
Certas premissas das quais parte uma ciência são indemonstráveis mediante o instrumental
daquela própria ciência, embora possam ser demonstradas por uma outra ciência imediatamente
superior a esta. Assim, por exemplo, certos princípios indemonstráveis pela geometria e dos
quais ela faz uso nas suas demonstrações serão, por suas vezes, demonstrados pela aritmética.
No entanto, há outro tipo de premissas, imediatas, as quais são indemonstráveis não apenas
dentro do escopo da ciência que delas faz uso, mas por qualquer ciência.
109
Referimo-nos, aqui, tão-somente àqueles princípios restritos a certos setores do ser, os quais,
em virtude da posição que ocupam dentro do esquema de uma certa ciência, não podem ser
cientificamente conhecidos nem pela ciência em questão nem por qualquer outra em relação à
qual ela se subordine.
conceitos têm uma aplicação mais ampla do que as próprias ciências em
questão. Os conceitos, por exemplo, de essência, universal, uno, singular,
atributo, etc., não se restringem a nenhum campo delimitado do ser, mas se
estendem a tudo o que é. Estes conceitos, os quais são em certa medida
assumidos pelas ciências demonstrativas, sem serem, no entanto, por elas
investigados, pois que excedem o campo de estudo destas mesmas ciências,
são tratados pela metafísica, cabendo a ela precisar a exata significação de tais
termos.
110
É nesta medida que a metafísica deve ser considerada como estando na
base das outras ciências: ela não constitui a disciplina a partir da qual as
ciências particulares são derivadas, pois sabemos que o conceito de “ser
enquanto ser” não é identificável ao conceito de “a soma de todos os gêneros do
ser”; nem, tampouco, é ela responsável por demonstrar aquilo que as ciências
particulares não demonstram. Afirmar, portanto, que a metafísica está na base
das ciências demonstrativas e que é neste sentido que ela é dita científica – isto
é, em virtude da sua posição fundamental – consiste em sustentar que ela é
responsável pelo esclarecimento de certos conceitos pressupostos (mas não
investigados) no interior das ciências particulares. O que não quer dizer que
todos os conceitos com que lida a ciência do ser enquanto ser nasçam no
interior das ciências particulares e que ela se restrinja ao esclarecimento destes
conceitos que são pressupostos, mas não analisados, pelas ciências
particulares. Certos conceitos dos quais ela trata vêm à tona no interior da
própria atividade metafísica. Ao anunciar, em Γ, o projeto de uma nova ciência,
Aristóteles precisa – em virtude da natureza equívoca do ser – mostrar que tal
projeto é possível: que faz sentido falar em uma ciência una cujo objeto de
110
W. Jaeger (1995), ao tratar da relação entre a ciência buscada e as ciências particulares,
afirma: “O metafísico, por outro lado, pergunta pelo ser enquanto ser. Ele examina os
pressupostos das ciências, dos quais estas nem querem nem podem dar conta” (p. 248). O
comentador, no entanto, não explica que tipo de pressuposto é este. Ora, vimos que não podem
ser aqueles princípios primeiros, próprios ao gênero do ser delimitado pela ciência em questão,
indemonstráveis no interior desta ciência. O metafísico não se encarrega da análise de tais
princípios, já que isto é incompatível com a universalidade que caracteriza o seu projeto. O que
buscamos mostrar é que tais pressupostos consistem em certos conceitos cuja aplicação se
estende para além do escopo investigativo de cada ciência particular.
estudo é o ser enquanto ser. Para tanto, o filósofo introduz a distinção entre
dois modos de ser: o “por si” e o “por outro”, que, por seu turno, servirá de base
para a relação “por referência a um”, por meio da qual estabelecer-se-á o
conceito de ser como intermediário entre a pura equivocidade e a univocidade.
Se, ao argumentar em favor da possibilidade do projeto de uma única ciência
relativa ao ser enquanto ser, Aristóteles, devido à natureza fundamental desta
sua empresa, já está fazendo metafísica, então se pode sustentar que os
conceitos de ser por si e ser por outro têm sua origem dentro dessa mesma
disciplina. Tal será o caso, também, com o conceito de ser primeiro, na medida
em que é ser primeiro aquilo que, fundamentalmente, é por si.
Esta concepção segundo a qual a metafísica tem o seu estatuto de
ciência devido à posição que ela ocupa em relação às ciências particulares não
implica que a ciência do ser enquanto ser seja condição de possibilidade das
outras ciências: o cientista não depende do metafísico para desempenhar seu
trabalho; pode, em certo sentido, haver ciência sem metafísica. No entanto, a
metafísica é condição da inteligibilidade integral das ciências: sem o metafísico,
o conhecimento do cientista permanece incompleto. Na escala hierárquica do
saber, a metafísica é primordial em relação às ciências porque é ela que as faz
integralmente inteligíveis. Nesse sentido, ela é ciência – pela sua posição –,
mas uma ciência de outra ordem em relação às ciências demonstrativas. O que
quer dizer que ela não está submetida aos mesmos critérios delimitadores do
estatuto científico das ciências particulares. Tanto pelo seu conceito distinto,
quanto pela posição que ela ocupa na relação com as ciências particulares, a
metafísica não pode ter o seu estatuto de ciência compreendido no mesmo
registro em que se estabelece a cientificidade das ciências particulares.
É preciso esclarecer o que queremos dizer ao afirmar que a metafísica
não é condição de possibilidade – mas de inteligibilidade integral – das ciências
particulares e que é nesta medida que devemos entender a posição fundamental
que ela ocupa em relação a estas. Diz-se que x é condição de possibilidade de
y quando, se x não é o caso, então y não pode ser o caso. Como modelo para
este tipo de relação, podemos considerar aquela existente entre o princípio de
não-contradição (pnc) e o discurso significativo. Ao pronunciar um discurso que
é significativo tanto para nós quanto para os outros, já está dada a validade do
pnc: o que quer dizer que da validade do pnc depende a significação do
discurso. É assim que se sustenta que o pnc é condição de possibilidade do
discurso significativo. Tal modelo, no entanto, não se reproduz na relação da
metafísica com as ciências particulares: do esclarecimento dos conceitos
próprios ao ser enquanto ser não depende a atividade científica, ainda que as
ciências particulares só se tornem integralmente inteligíveis uma vez
esclarecidos aqueles conceitos. Nem mesmo no caso da tarefa (própria ao
metafísico, como se vê em Γ. 4) de prova dos axiomas aos quais toda
demonstração e todo discurso dotado de significado devem conformar-se, como
o próprio pnc, pode-se dizer que haja uma dependência (quanto à existência)
das ciências particulares em relação à metafísica. O cientista não está entre
aqueles que duvidam da validade do pnc e, portanto, não é para ele que
Aristóteles dedica a prova por refutação de Γ. 4. Sendo assim, o cientista não
precisa esperar uma prova da validade do pnc para, em sua atividade,
argumentar de acordo com tal princípio. O cientista não está como que
imobilizado, aguardando que o metafísico, por meio de uma prova do pnc, o
retire deste seu feitiço paralisante. É óbvio que o cientista não pode
desempenhar seu trabalho se o pnc não é válido. No entanto, é óbvio também
que da atividade do metafísico não depende a validade do pnc, mas apenas a
prova da validade deste – a qual, por sua vez, não é dedicada senão a um grupo
bastante restrito de interlocutores, dentre os quais não se inclui o cientista.
É neste sentido que sustentamos que a metafísica não é condição de
possibilidade das ciências particulares: estas últimas não têm suas existências
dependentes dela. No entanto, não é necessário que a metafísica seja condição
de possibilidade das ciências particulares para dizer que ela ocupa uma posição
fundamental em relação a estas numa escala hierárquica do saber e que é
justamente em função desta posição que ela extrai a sua cientificidade. Na
presente dissertação, buscamos defender uma tese mais modesta, de acordo
com a qual a dependência das ciências particulares em relação à metafísica diz
respeito não à existência, mas à inteligibilidade integral. Ainda que o cientista
possa fazer ciência independentemente do metafísico, é só com a atividade do
metafísico que o saber do cientista se completa. Isto porque, em meio ao seu
trabalho, o cientista pressupõe certos conceitos fundamentais cuja natureza não
é, pelo próprio cientista, investigada, na medida em que tais conceitos
extrapolam os limites das ciências particulares, pois que dizem respeito a tudo o
que é enquanto é, pertencendo, antes, ao metafísico a abordagem destes. A
metafísica é ciência porque é condição da inteligibilidade integral das ciências e,
enquanto tal, está na base das ciências. É só assim – em virtude da posição
ocupada por ela e não em razão de seu método – que compreendemos por que
Aristóteles considera que a disciplina que mais propriamente se molda ao
conceito de sabedoria é, em última análise, uma ciência.
CONCLUSÃO
O objetivo central desta dissertação consistiu na apresentação de uma
explicação para a cientificidade da metafísica. O que se buscou fazer foi
desvincular a justificação do caráter científico da disciplina concernente ao “ser
enquanto ser” das razões que fundamentam a cientificidade das ditas “ciências
particulares”. Pois vimos, estabelecendo um contraponto em relação às teses
de Frede e Bolton, em que medida não podemos, como queriam tais
comentadores, resumir a explicação do caráter de ciência da disciplina
apresentada na Metafísica a uma tentativa de ajustá-la ao método demonstrativo
de prova. A ciência buscada, enquanto conhecimento das primeiras causas do
ser enquanto ser – isto é: no que concerne à sua parte fundamental –, não pode,
por definição, amoldar-se ao método que, de acordo com a doutrina exposta nos
Segundos Analíticos, é constitutivo do saber científico.
111
Diante disso, não nos vimos, no entanto, constrangidos a buscar noutro(s)
método(s) de prova que não o demonstrativo o fundamento da cientificidade da
metafísica. Ao compreender adequadamente o hiato conceitual existente entre
a disciplina da Metafísica e as ciências particulares, percebe-se que não é
possível inserir a explanação do caráter científico da disciplina do ser enquanto
ser no mesmo registro das ciências que limitam suas investigações a parcelas
do ser. O que quer dizer que devemos não apenas separar a raiz da
cientificidade da metafísica do método demonstrativo de prova, mas, também,
de qualquer outro método alternativo de prova: a explicação da sua cientificidade
não implica uma investigação acerca do método.
A despeito da separação conceitual que buscamos salientar entre
metafísica e ciências particulares, pode-se conceber – a partir de uma
111
O que se viu é que o método demonstrativo de prova e, por conseguinte, a doutrina dos
Segundos Analíticos, não cobrem todo o espaço do cientificamente cognoscível, mas apenas
uma parcela deste. Conseqüentemente, a Metafísica apresenta, num sentido preciso, uma nova
concepção de ciência, que, por sua vez, não substitui, mas se associa àquela exposta nos
Analíticos.
caracterização mínima do saber científico como conhecimento do universal e
necessário – um núcleo comum a ambas. Ainda assim, a existência de uma
diferença fundamental entre a metafísica e as demais ciências impede que
expliquemos a cientificidade daquela simplesmente por remissão à
universalidade e necessidade daquilo de que ela trata. Pois as ciências
particulares, na medida em que seguem o método demonstrativo de prova e têm
nele o fundamento da sua cientificidade, partem de certos princípios, os quais
são, eles mesmos, indemonstráveis. Tais princípios, portanto, são
pressupostos, mas não demonstrativamente conhecidos pelas ciências
particulares. A metafísica, por sua vez, não pressupõe princípio algum. Antes,
ela é investigação dos primeiros princípios de tudo o que há.
112
Sendo assim, a
disciplina que Aristóteles quer instituir na Metafísica não pode estabelecer as
verdades fundamentais que lhe concernem mediante demonstração, já que não
há nada anterior e, por natureza, mais evidente em relação àquilo de que ela
trata e que possa servir de premissa num silogismo demonstrativo que tivesse
os princípios mais elementares do ser como conclusão. Conseqüentemente,
não se pode fundamentar a cientificidade da metafísica meramente na
universalidade e necessidade do seu objeto de estudo sem explicar em que
medida ela é maximamente universal e, por conseguinte, a mais eminente
dentre as ciências.
Em última análise, o que se quis fazer foi mostrar como o núcleo duro da
disciplina da Metafísica é incompatível com a doutrina dos Segundos Analíticos.
Isto, por sua vez, nos levou a investigar onde poderíamos estabelecer a base da
sua cientificidade. Um aspecto da nossa solução consistiu em ter sustentado
que o debate acerca do método não é decisivo para a caracterização da
metafísica como ciência – mais especificamente, como a mais alta dentre as
ciências. Com isso, apresentamos uma justificação que fundamenta o seu
caráter científico na posição que ela ocupa, em relação às ciências particulares,
numa escala hierárquica do saber. A metafísica, como argumentamos, é
112
Daí podemos dizer, resumindo a tese que sustenta a nossa explicação da cientificidade da
metafísica, que, enquanto as ciências particulares são apenas conhecimento pela causa, a
ciência do ser enquanto ser é, também e fundamentalmente, conhecimento da causa.
condição da inteligibilidade integral das ciências e, nesta medida, se coloca num
outro patamar de cientificidade, não cabendo a ela respeitar os mesmos critérios
reguladores do caráter científico das ciências particulares.
A metafísica, portanto, se fixa como a mais eminente dentre as ciências.
Ela trata daquilo que as ciências particulares pressupõem mas não investigam.
Assim, pode-se dizer, ainda que ela não seja condição de possibilidade da
atividade científica, que só o cientista que é, também, metafísico pode ser
considerado sábio – tendo em vista o modo como Aristóteles caracteriza, no
primeiro livro da Metafísica, a sabedoria. Pois esta consiste num conhecimento
das causas de todas as coisas, o qual se faz humanamente possível, segundo o
Estagirita, como conhecimento das primeiras causas do ser enquanto ser. O
que nos permite dizer que é fazendo metafísica que o ser humano satisfaz em
máximo grau seu desejo de conhecer. Atingir o ápice do conhecimento humano
nada mais é do que apreender a estrutura elementar do ser, lá onde a realidade
se mostra nos seus princípios mais universais. Sendo assim, o intelecto, na sua
função teórica, encontra no exercício da disciplina metafísica a máxima
satisfação no que diz respeito às suas pretensões de universalidade.
A sabedoria constitui a mais elevada expressão do prazer intelectual. E a
metafísica, como argumenta Aristóteles ao longo do tratado de mesmo nome, é
a disciplina por meio da qual se atinge a condição de sábio. O intelecto visa ao
universal, àquilo que é verdadeiro de muitos porque pertencente a muitos. Na
sua busca pelo universal, o intelecto só atinge a plenitude ao captar aquilo que é
dito de tudo o que é enquanto é. De modo que só se é, dentro dos limites da
nossa condição humana, maximamente racional ao fazer-se metafísica. A
ciência do ser enquanto ser satisfaz em sentido pleno a nossa busca pelo
universal e, nessa medida, ela constitui a manifestação mais elaborada da
atividade intelectual humana.
A ciência é do universal. E a metafísica, por sua vez, trata daqueles
princípios cuja aplicação ultrapassa os limites impostos para as ciências
particulares. É assim que ela se faz a primeira dentre as ciências: na medida
em que diz respeito ao que de mais universal há. Ao conceber a disciplina
apresentada na Metafísica, portanto, podemos dizer que Aristóteles leva ao
limite o ideal grego da ciência como saber do universal e necessário.
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