
uma “disposição, envolvendo razão, relativa à produção”. A coisa produzida
pela arte pode tanto ser quanto não ser, por oposição à necessidade daquilo que
se conhece cientificamente. Nesta medida, Aristóteles afirma que “toda arte se
ocupa do vir a ser e o exercício artístico consiste no estudo de como algo, que
pode tanto ser quanto não ser, vem a ser; algo cujo princípio está no produtor e
não no produto” (1140ª12-14).
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Seguindo, por conseguinte, a doutrina exposta na Ética Nicomaquéia, por
oposição ao que foi dito em Metafísica A. 1, compreendemos que o saber
artístico diz respeito ao contingente - àquilo que pode tanto ser quanto não ser,
dependentemente do desígnio do artista - e ao individual - já que o que é objeto
de produção artística é sempre algo individual -, enquanto que a ciência tem por
objeto o necessário e o universal.
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De modo que, quando Aristóteles, em A. 1,
afirma, por exemplo, que “a experiência é conhecimento do individual e a arte,
do universal” (981ª16-17), se seguimos a doutrina da Ética, devemos entender
que é propriamente ao conhecimento científico que Aristóteles quer se referir,
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Cf. Ét. Nic. VI, 3-4. A ciência pode ser do individual e contingente, no entanto ela não é do
individual e contingente enquanto individual e contingente. Ao buscar as causas daquilo que ela
sabe que é o caso, a ciência encontra a essência, que funciona como o elemento de
necessidade e universalidade daquilo que existe – e que, enquanto tal, é individual e
contingente. Assim, ao afirmar que “o que é conhecido cientificamente é o necessário”
(1139
b
23), Aristóteles está dizendo que todo conhecimento científico tem por fundamento as
essências daquilo que existe. Resta saber se também a arte, que, nas palavras do Estagirita,
“não se ocupa daquilo que existe por natureza” (1140
a
15), mas daquilo que vem a ser pelo
trabalho do artífice, pode encontrar, no seu objeto de estudo, algum elemento de necessidade e
universalidade, na medida em que – segundo a doutrina metafísica exposta no livro Z – só as
substâncias naturais possuem, em sentido estrito, uma essência.
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Aqui encontramos um possível ponto de discórdia: pode-se dizer que a arte trata do individual
na sua individualidade, mas que – ainda assim – o fundamento da contingência do saber artístico
se encontra, não na coisa conhecida, mas no sujeito que conhece. De modo que tomar-se-ia a
contingência própria à arte como que de natureza técnica e provisória: como se o objeto de
conhecimento artístico não fosse, por natureza, infenso a uma abordagem científica, sendo,
antes, uma limitação epistêmica (superável) do sujeito a responsável pela contingência
(eliminável) do seu saber. Se assim for, então aquilo de que, por ora, se tem conhecimento
artístico pode vir a ser cientificamente conhecido. A razão metafísica que encontro para rejeitar
essa leitura consiste no seguinte: enquanto a arte trata daquilo que não é por natureza, a ciência
lida com substâncias naturais. Em sentido estrito, só as substâncias naturais têm, no mundo
físico, essências. Pode-se, por conseguinte, dizer que, mesmo que tais substâncias sejam
individuais e contingentes, é possível, por remissão a suas essências, abordá-las naquilo que
possuem de universal e necessário: nisso consiste a abordagem científica do mundo sensível
aos olhos de Aristóteles. Já o objeto da arte não possui, exceto em sentido derivado, uma
essência, o que nos leva a inquirir se é mesmo possível encontrar no objeto de conhecimento
artístico algum elemento de real universalidade e necessidade.