A partir desse momento, inserido na efervescência musical do período, o autor
também demonstra um engajamento social que parece sobrepor-se à rebeldia inócua de
sua adolescência, aproximando-se da contracultura
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, especialmente no que tange ao
enfrentamento da ordem vigente. Neste sentido, Heloísa Buarque de Hollanda discorre
sobre as diversas tendências culturais que passam a vigorar no país, após o golpe de
1964:
A contracultura, o desbunde, o rock, o underground, as drogas, e mesmo a
psicanálise passam a incentivar uma recusa acentuada pelo projeto do
período anterior. É nessa época que um progressivo desinteresse pela política
começa a se delinear. (HOLLANDA, 1981, p. 65)
Esse desinteresse corresponderia a uma nova postura, de desvinculação entre
comportamento político e política institucionalizada. Ao citar uma pesquisa de Gilberto
Velho (Nobres e Anjos – um estudo de tóxicos e hierarquia), Heloísa Buarque de
Hollanda comenta a respeito da mudança de conduta, empreendida especialmente no
circuito universitário:
O tema da liberdade, da desrepressão, da procura de “autenticidade”, nesse
grupo (de vanguardistas-aristocratizantes, nobres-intelectuais, analisados por
Velho), substitui progressivamente os temas diretamente políticos. (...) O uso
crescente de tóxicos, sem estar em relação mecânica, é paralelo a esse
decréscimo da participação política. (HOLLANDA, 1981, p. 65-66)
Não só o interesse pela contracultura e o uso de drogas – mencionado por
Marcelo em vários momentos de seu relato – permitem-nos relacionar o autobiografado
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No livro O que é Contracultura, Carlos Alberto Messeder Pereira discorre sobre a pluralidade de
sentidos do termo contracultura: “De um lado, o termo contracultura pode se referir ao conjunto de
movimentos de rebelião da juventude (...) que marcaram os anos 60: o movimento hippie, a música rock,
uma certa movimentação nas universidade, viagens de mochila, drogas e assim por diante. (...) Trata-se,
então, de um fenômeno datado e situado historicamente e que, embora muito próximo de nós, já faz parte
do passado.
(...) De outro lado, o mesmo termo pode também se referir a alguma coisa mais geral, mais abstrata, um
certo espírito, um certo modo de contestação, de enfrentamento diante da ordem vigente, de caráter
profundamente radical e bastante estranho às forças mais tradicionais de oposição a esta mesma ordem
dominante. Um tipo de crítica anárquica – esta parece ser a palavra-chave – que, de certa maneira, ‘rompe
com as regras do jogo’ em termos de modo de se fazer oposição a uma determinada situação. (...) Uma
contracultura, entendida assim, reaparece de tempos em tempos, em diferentes épocas e situações, e
costuma ter um papel fortemente revigorador da crítica social.” (Pereira, 1992, p. 20).