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Governo Federal
Presidente da República
Luiz Inácio Lula da Silva
Ministro da Educação
Fernando Haddad
Secretário Executivo
José Henrique Paim Fernandes
Secretário de Educação Básica
Francisco das Chagas Fernandes
Diretor do Departamento de Articulação e Desenvolvimento dos Sistemas de Ensino
Horácio Francisco dos Reis Filho
Coordenadora Geral do Programa Nacional de Valorização
dos Trabalhadores em Educação
Josete Maria Cangussú Ribeiro
Coordenação Técnica do Profuncionário
Eva Socorro da Silva e Nádia Mara Silva Leitão
Apoio Técnico
Adriana Cardozo Lopes
Universidade de Brasília – UnB
Reitor
Timothy Martin Mulholland
Vice-Reitor
Edgar Nobuo Mamiya
Coordenação Pedagógica do Profuncionário
Bernardo Kipnis - CEAD/FE/UnB
Francisco das Chagas Firmino do Nascimento - FE/UnB
João Antônio Cabral de Monlevade - FE/UnB
Maria Abádia da Silva - FE/UnB
Tânia Mara Piccinini Soares - MEC
Centro de Educação a Distância - CEAD/UnB
Diretor – Bernardo Kipnis
Coordenação Executiva – Jandira Wagner Costa
Coordenação Pedagógica – Maria de Fátima Guerra de Souza
Unidade de Produção
Gestão da Unidade – Bruno Silveira Duarte
Designer Educacional – Flávia Carrijo
Revisão – Daniele Santos
Capa e Editoração – Evaldo Gomes e Télyo Nunes
Ilustração – Nestablo Ramos Neto
Foto capa – Raquel Aviani
Unidade de Pedagogia
Gestão da Unidade – Maria Célia Cardoso Lima
Unidade de Apoio Acadêmico e Logístico
Gestão da Unidade – Silvânia Nogueira de Souza
Gestora Operacional – Diva Peres Gomes Portela
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Brasil. Ministério da Educação. Secretaria de Educação
Básica.
C871a Coutinho, Laura Maria.
Audiovisuais: arte, técnica e linguagem. 60 horas /
Laura Maria Coutinho.—Brasília : Universidade de
Brasília, 2006.
92 p.:il.(Profuncionário - Curso técnico de formação
para os funcionários da educação)
ISBN 85-86290-79-3
I. Título II. Série
CDU: 371.3
Apresentação
A temática que vamos tratar neste módulo, como você
irá observar na ementa, é bastante ampla. Audiovisual
pode ser muitas coisas e, por isso, pode ser abordado de mui-
tas maneiras.
Proponho que entremos nesse texto, com o que vou chamar de
“chave de leitura”, ou seja, que percorramos as reflexões que apre-
sento, tendo como referencial a experiência que cada um tem com os
audiovisuais. Essa experiência é a nossa chave de leitura e a chave de
leitura de cada um. Somos uma civilização que já nasceu percebendo o
mundo audiovisualmente e, para o bem ou para o mal, as implicações disso
são enormes.
Faço aqui algumas perguntas, sei que as respostas são muitas e variadas e é jus-
tamente nessa multiplicidade de indagações que podemos encontrar maneiras
de refletir a própria experiência de vida, neste caso, a nossa experiência com a
linguagem audiovisual. Você se lembra de qual foi a imagem que primeiro o tocou
e por quê? Qual foi primeiro filme que você assistiu? Que impressão lhe causou? E
quanto à televisão, você se lembra da primeira coisa que viu na tevê? Ou ainda, o
que primeiro chamou a sua atenção na televisão? Faço essa última pergunta assim,
pois a televisão, entre nós, tornou-se tão corriqueira que muita gente fica diante
dela todos os dias, por muitas horas, e se esquece de prestar atenção em como a
televisão nos mostra as coisas, como pode direcionar nossa visão e nossos pensa-
mentos e, com isso, nos seduzir.
Sedução é um conceito complexo e, talvez por isso, pode ser encarado com aquele
certo desprezo que temos quando alguma coisa nos incomoda, mas não sabemos
lidar muito bem com ela. Quebra qualquer possibilidade de uma visão maniqueísta
das coisas. A idéia de sedução está relacionada a certa ambigüidade, com coisas
que oscilam entre o bem e o mal, o certo e errado, o claro e o escuro, o silêncio e
o som. A sedução atua no universo das nossas dúvidas mais profundas, aquelas
que muitas vezes nem sabemos que são nossas. A sedução questiona nossas cer-
tezas e pode transformar nossa percepção do mundo criando maneiras que nos
fascinam, encantam, deslumbram, atraem. A linguagem audiovisual do cinema e
da televisão são linguagens sedutoras, sugerem muito mais do que afirmam e, em
sons e silêncios, claros e escuros, cores cambiantes, criam um universo de magia
e encantamento, até mesmo quando quer ser objetiva, afirmativa, certa, como em
alguns filmes educativos e programas de televisão como os jornais. A linguagem
audiovisual é carregada, com maior ou menor intensidade, de sedução.
O que você já aprendeu com os audiovisuais, seja para a sua profissão, seja
para a sua vida pessoal? Como vê esse aprendizado ou conhecimento? E
ainda uma última pergunta, daquelas assim esquisitas, que podem ter uma
resposta simples e curta ou render uma longa explanação: como seria a nos-
sa vida sem a televisão? Ou, que é a nossa vida com a televisão?
Gosto imensamente do cinema porque com ele aprendo sempre, seja ven-
do novos filmes, seja revendo os mais queridos, seja apenas me lembrando
deles. A minha filmografia de espectadora não é tão grande assim. Alguns
filmes eu me dou o direito de não assistir, por muitos motivos. Mas outros
entram em minha vida da mesma forma que entro nos filmes quando os vejo,
principalmente quando isso se dá numa sala de cinema. Sobre esse aspecto,
existe um texto maravilhoso, intitulado Nós estamos no filme, de um autor
que escreveu nos anos 20 do século passado, Bela Baláz. É nesse texto que
Baláz trata de uma maneira muito delicada e sutil da natureza dessa relação
do espectador com o filme. (XAVIER, 1983).
Digo isso para mostrar como alguns filmes deixaram de ser de “dentro da lata”
– ou seja, um enlatado, como pejorativamente nomeamos os filmes estrangeiros
– ou de pertencer somente ao DVD ou, ainda, ao VHS, para entrar na minha vida,
nas lembranças, nas emoções mais profundas que comigo carrego.
O filme que, para mim, melhor retrata a televisão e parece querer responder,
com imagens e sons, as duas últimas perguntas que faço acima é Ginger e
Fred, de Frederico Fellini. Nele, o cineasta, à maneira de um conto de natal,
trata com muito humor e fina ironia a televisão e seus maneirismos. Em um
dos capítulos de minha tese de doutorado, que depois foi publicada em forma
de livro, intitulado O estúdio de televisão e a educação da memória, analiso
as narrativas dos programas de auditório. O fio
que me conduz nessa análise é o referido filme
de Fellini (COUTINHO, 2003).
Ginger e Fred, Itália, é um filme de 1986, um dos
últimos que o autor fez. No livro Eu Fellini, que
trás uma longa entrevista com Charlotte Chandler,
Fellini diz que “No filme, ataco com certa ironia
a televisão superficial e onipresente, mas o lado
cômico também me era importante. Eu fiz o filme
porque a idéia me agradou, não como um ata-
que à televisão. O filme deveria ser, antes de mais
nada, uma história de amor”.
Mesmo que tenhamos ido pouco ao cinema, por
alguma razão – e sobre isso vamos refletir um
pouco ao longo desse módulo – ainda vivemos
em uma sociedade em que as imagens e sons da televisão estão em toda
parte, principalmente, na maioria dos lares.
Gosto de pensar na televisão como uma chama que se acende e em torno dela
as pessoas se reúnem. Lembro aqui que a palavra lar vem de o lugar onde se
guarda o fogo; desse sentido decorre também lareira, larada. Sob esse aspec-
to, a televisão é vista, quase sempre, na intimidade, nas casas das pessoas.
O cinema é público, saímos de casa para assistir a filmes. Vamos para casa
ver televisão. Embora, é claro que os aparelhos de VHS e, atualmente, o DVD
permitem ótimas sessões de cinema em casa.
O home theater, sonho de consumo de muita
gente, já é uma realidade entre nós.
Estamos falando de audiovisual, a qual se de-
fine como uma linguagem de síntese. Pode
também ser caracterizado como um amálgama
que reúne com a mesma intenção de expres-
sar idéias, juízos, pensamentos, as imagens e
os sons captados pelas câmeras, as cores, a
palavra escrita, o movimento.
Objetivo
Proporcionar uma reflexão sobre a linguagem audiovisual. Fazer um passeio
pelas experiências que se utilizaram dessa modalidade de comunicação para
o desenvolvimento da educação. Permitir que educadores e profissionais que
trabalham nos sistemas escolares possam construir uma visão mais aprofun-
dada e crítica dos audiovisuais dentro e fora da escola.
Ementa
A importância do desenho e da pintura no processo civilizatório. As grandes
escolas de artes plásticas. O rádio e a massificação informativa. Fotografia:
teoria e prática. Cinema: produção e consumo. O vídeo: produção e uso edu-
cativo. Rádios e televisões educativas. A interação entre a escola e a mídia:
leitura crítica das mensagens.
Mensagem da Autora
Meu nome é Laura Maria Coutinho, sou mineira e moro
em Brasília há muitos anos. Fiz o doutorado em Educação,
Conhecimento, Linguagem e Arte, na Faculdade de
Educação da UNICAMP, defendido em março de 2001. O
meu mestrado foi em Educação, com a dissertação inti-
tulada Videoteipe: ver e rever a educação pela Faculdade
de Educação da UnB, 1988. Sou especialista em Saúde
Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da FioCruz,
curso que fiz em 1978. Em 1976 concluí minha graduação
em Comunicação Social: audiovisual, televisão, cinema e
rádio, pela Faculdade de Comunicação da UnB.
Trabalho como Professora Adjunta no Departamento
de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da
Universidade de Brasília, na área de Tecnologia Educacional,
na graduação e na pós. Atualmente, atuo como vice-dire-
tora dessa Faculdade. Já fui Coordenadora Geral do Curso
de Pedagogia para Professores em Início de Escolarização
(PIE); Diretora do Centro de Recursos Tecnológicos (CRT),
da Secretaria de Educação do Distrito Federal, unidade res-
ponsável pelas ações de informática educativa, audiovisu-
al, incluindo a implantação da TV a cabo da rede pública de
educação do DF, acompanhamento da TV Escola, bibliote-
cas escolares e comunitárias, e livros didáticos.
Realizei trabalhos de coordenação de programas televisi-
vos para o Salto Para o Futuro da TVE do Rio de Janeiro e
participei como convidada de vários outros programas na
área de tecnologias e audiovisual na TVE, desde 1997.
Desenvolvi trabalhos de comunicação social e educa-
ção na Divisão Nacional de Educação para a Saúde e na
Coordenadoria de Comunicação Social do Ministério da
Saúde. Participei da realização de campanhas educativas
em mídia impressa e eletrônica para o combate à raiva,
para a prevenção de paralisia infantil, AIDS e de incentivo
ao aleitamento materno, entre outras.
Tenho alguns trabalhos com vídeo, mas confesso que
gostaria de ter feito mais. Desenvolvo projetos de pesqui-
sa com a linguagem cinematográfica, cinema, televisão e
videoteipe como instrumentos de pesquisa e documen-
tação da realidade. Escrevi o livro O estúdio de televisão
e a educação da memória, publicado pela editora Plano, de
Brasília, em 2003. Escrevi, ainda, capítulos em livros como
Imagens sem fronteiras: a gênese da TV Escola no Brasil, in:
Tecnologias na Educação e formação de professores. Brasília:
Plano, 2003, entre outros.
Gosto muito de trabalhar com a linguagem audiovisual, so-
bretudo a partir do meu curso de graduação. Gosto de ver
filmes e pensar sobre eles. Da televisão gosto menos e, às
vezes, fico pensando no quanto essa máquina de veicular
imagens poderia ser melhor. Espero que você goste do mó-
dulo Audiovisuais e que juntos possamos encontrar múltiplos
usos dessa linguagem na educação e na vida.
Laura Maria Coutinho
Sumário
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual 13
UNIDADE 2 –
Audiovisual e educação 25
UNIDADE 3 –
Linguagem audiovisual 43
UNIDADE 4 –
Fotografia, cinema e televisão 53
UNIDADE 5 –
O audiovisual e sua reprodução 63
UNIDADE 6 –
Audiovisuais na escola 71
REFERÊNCIAS
– 88
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
16
Neste curso, vamos trazer para a discussão os audiovisuais,
ou os principais elementos constitutivos da linguagem au-
diovisual. São muitas as linguagens que o homem lança mão
para se expressar. Podemos compreender linguagem como
todo e qualquer meio sistematizado que usamos para comu-
nicar, transmitir, receber e repassar idéias, informações, co-
nhecimentos.
1.1 Tempos modernos
A linguagem audiovisual, como a própria palavra expressa, é
feita da junção de elementos de duas naturezas: os sonoros
e os visuais. Portanto, estamos falando de artefatos da cul-
tura que afetam esses dois sentidos do homem, a visão e a
audição. Estes são os sentidos mais privilegiados no mundo
moderno, pois uma das características da modernidade é o
fato de permitir certo afastamento das pessoas do chamado
mundo natural ou natureza. Hoje, você já deve ter ouvido ou
lido em algum lugar que estamos vivendo já na pós-moderni-
dade. Assim, para Fredric Jameson:
no modernismo ainda subsistem algumas zonas residu-
ais da natureza, ou do ser, do velho, do mais velho, do
arcaico; a cultura ainda pode fazer alguma coisa com tal
natureza e trabalhar para reformar esse referente. O pós-
modernismo é o que se tem quando o processo de mo-
dernização está completo e a natureza se foi para sem-
pre. É um mundo mais completamente humano do que
o anterior, mas é um mundo no qual a cultura se tornou
uma segunda natureza. (JAMESON, 1987, p. 13).
Uma das reflexões mais contundentes sobre a
modernidade, inscrita em linguagem audiovisual, está
no filme de Charles Chaplim Tempos modernos. Um
outro filme que também trata da relação entre o trabalho,
os homens e as maquinas é Metrópolis, de Fritz Lang, um
filme de 1926.
Chama-se de Pós-
Modernidade a condição
sociocultural e estética
do estágio do capitalismo
pós-industrial, que é o
contemporâneo
17
I M P O R T A N T E
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
Gostaria de convidar você a olhar para esta imagem,
um fotograma do filme Tempos Modernos. Nela, vemos
um homem em meio às engrenagens de uma máquina.
Podemos ver também a pujança das máquinas, sua força
e estabilidade, mesmo em movimento. O homem se agarra
à alavanca e faz movimentos pouco naturais, como se
desafiasse até mesmo a gravidade. As máquinas propõem
uma nova ordem para tudo e, principalmente, para o
homem. Além do que já foi dito, o que mais podemos
depreender dessa imagem dos “tempos modernos”? Que
outra imagem podemos sugerir? Registre suas idéias em
seu memorial.
Vivemos em tempos modernos e, até mesmo, pós-modernos
como querem alguns autores. Penso que o homem vive, hoje,
vários estágios de desenvolvimento. Nada do que existiu se
foi para sempre. Portanto, modernidade e pós-modernidade
são estágios; ainda temos o velho, o antigo e o arcaico ao
mesmo tempo e, em algumas situações no mesmo espaço.
Não penso que haja sequer uma hierarquia, que devemos sair
de um estágio para alcançar outro a qualquer custo, como se
o progresso fosse inexorável.
Temos de aprender muito com os filmes e audiovisuais que
tratam desse assunto. Se quisermos pensar em linguagem,
em linguagem audiovisual, linguagem informática, talvez fos-
se bom refletirmos que alguma forma de linguagem sempre
existiu, a qual é constitutiva dessa nossa espécie. Sobre isso
vocês já iniciaram uma discussão no módulo Homem, pensa-
mento e cultura: abordagem filosófica e antropológica, com o
professor Dante Diniz Bessa.
Grande parte do uso que fazemos da linguagem, essa que
usamos para expressar por meio da fala e de uma língua, no
nosso caso o português, é para relatar fatos, contar histórias,
narrar desde os acontecimentos mais corriqueiros – hoje eu vi
Maria chegar – aos mais complexos: discursos e conferências
muito elaboradas.
Cena do filme Tempos
modernos, Estados Unidos,
1936. Direção de Charles
Chaplin.Com Charles Chaplin,
Paulette Goddard, 87 minutos,
preto e branco, Continental.
O fotograma é a unidade
mínima do filme. Para
que possamos perceber
visualmente o movimento
são necessários 24 quadros
ou fotogramas por segundo.
Nos filmes de Charles
Chaplin e em outros do
cinema mudo, temos a
impressão de que as pessoas
pulam. Isso acontece porque
esses filmes foram captados
na velocidade 16 quadros
e, como os projetores de
hoje não projetam nessa
velocidade, acontece o salto.
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
18
O escritor e roteirista francês, Jean-Claude Carrière (1995), no
seu livro O círculo dos mentirosos: contos filosóficos do mun-
do inteiro, diz que “não somos apenas relatos. Mas sem um
relato, e sem a possibilidade de contar esse relato, nós não
somos ou somos muito pouco” (p. 10).
E como uma história é, antes de mais nada, um movimento
de um ponto a outro, que nunca deixa as coisas no seu esta-
do inicial, vivemos nesse fluxo, nesse movimento. São assim
tanto as histórias que contamos como testemunhas oculares
de fatos, as documentais, como as histórias que inventamos,
as ficcionais. Carrière (1995) lembra que o “verdadeiro perigo,
na arte de inventar histórias, é que podemos acabar por prefe-
rir aquele mundo a este. Podemos nos esconder – quem não
conhece dezenas de exemplos – na companhia de anjos ou
de fadas, acolher fantasmas todas as noites, conversar com
plantas” (p. 18).
Conhecemos muitas pessoas que se sentem
acolhidas nesse mundo de ficção, convivem
cotidianamente com os personagens das novelas
e alguns fazem da sala de cinema o seu refúgio.
Poderíamos pensar que se aproximam mais desse
universo da ficção, da fantasia. Por outro lado temos
pessoas que também resumem a sua realidade ou a
realidade de mundo que compreende como verdadeiro,
às histórias contadas pelos telejornais diários.
Esses relatos, ainda que tendo re-
ferências extraídas da vida real, são
captados por um ponto de vista e
são selecionados, editados. O pro-
duto final, apresentado aos teles-
pectadores dos jornais televisivos, é
apenas uma parte que foi recortada
da realidade, é uma realidade ficcio-
nada.
19
I M P O R T A N T E
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
Quando olhamos para esta imagem, uma fotografia
de uma sala de cinema, o que vemos? As técnicas
da perspectiva conduzem nosso olhar a um ponto de
fuga (veja desenho abaixo). Por este ponto de fuga que
conduz para a tela branca, entramos no filme quando as
luzes da platéia se apagam. Uma sala de cinema moderna
não tem janela, a única janela que vemos é a própria
tela. É a tela que se abre à nossa frente, descortinando
paisagens impossíveis e tornadas absolutamente reais
pelas técnicas cinematográficas. Nisso a linguagem
audiovisual é primorosa. Podemos pensar que as telas do
cinema e também da televisão são janelas abertas para
o mundo. As salas de cinema têm os soalhos forrados
de carpetes, eles amortecem o barulho eventual de
espectadores. O som que sobressai vem das caixas. Cada
espectador vê o seu próprio filme, está ao lado de outro
espectador, mas não deve falar com ele. Interromperia
o som que vem do filme. É preciso refletir sobre isso: o
que acontece numa sala cinema? Elas parecem impor
um tipo de comportamento que, guardando da devidas
proporções, aproximam-se do comportamento do
operário de Charles Chaplin em Tempos Modernos?
Ou não? Registre suas reflexões no memorial.
Estamos tratando neste texto do audiovisual, das linguagens
audiovisuais. Portanto, voltemos à tecnologia que, nas suas
mais diversas manifestações e interferências que faz na vida
de todos, é uma das expressões dessa segunda natureza, ou
seja, uma natureza transformada.
Assim, mudam-se as percepções e alteram-se os sentidos a
partir da construção de uma outra visão artificial. As imagens
que vemos estão em um plano só, seja o papel, seja a tela de
cinema ou a de tevê, mas as percebemos em terceira dimen-
são: altura, largura e profundidade.
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
20
O mundo já não é mais percebido só diretamente.
Por meio das técnicas audiovisuais do cinema e da
televisão, por exemplo, podemos passear pela chuva
sem nos molharmos, percorrer caminhos sem sair de
casa, conhecer as paisagens mais inusitadas na poltrona
de uma sala de cinema ou no sofá da própria casa.
Talvez o único gesto requerido seja o de apertar o
botão ou os botões, quantos forem necessários.
Vivemos em um tempo no qual, praticamen-
te, todas as pessoas são “alfabetizadas” au-
diovisualmente. Vivemos imersos em um
mundo de imagens, sobretudo os habitantes
das cidades. A linguagem audiovisual nos é
familiar, corriqueira, comum.
Encontramos diversas salas de cinema, prin-
cipalmente nas grandes e médias cidades.
Infinitamente maior é o número de apare-
lhos de televisão que estão em todos os lu-
gares onde existe energia elétrica. Claro que
a energia elétrica é um dos componentes
fundamentais do universo tecnológico que conhecemos, mas
existem outros.
Sempre associadas às questões que emergem da modernida-
de, muitos autores já se ocuparam da tecnologia ao relacioná-
la às práticas atuais da comunicação e da educação, apon-
tando, muitas vezes, para um desenvolvimento inexorável de
meios e procedimentos.
O professor da UNICAMP, Laymert
Garcia dos Santos (1981), ao analisar
o projeto SACI, de que falaremos mais
adiante, lembra que “é preciso reco-
nhecer que o determinismo tecnológi-
co não é apanágio dos pensadores da
tecnocracia, que ele reina tanto à direi-
ta, como à esquerda. ‘O comunismo é
os sovietes mais eletricidade’, excla-
mava Lênin” (p. 18).
21
I M P O R T A N T E
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
É quase impossível pensar o mundo moderno sem a
eletricidade. As grandes transformações que resultaram
no modo de vida que temos hoje, entre elas a revolução
audiovisual que inicia com o cinema e se consolida com
a televisão, são, em grande medida, decorrentes da
eletricidade.
Se a produção audiovisual ainda é res-
trita a um número pequeno de produ-
tores, realizadores, atores, a sua leitu-
ra é muito mais acessível, ainda que
muitas vezes careça de uma visão e
de uma escuta mais crítica. Essa crítica
deixa de ser realizada, muitas vezes,
porque pensamos as coisas de forma
determinista: “as coisas são o que são,
porque são”.
Para construir um pensamento mais crítico das
coisas e, principalmente, dos audiovisuais, objeto
primeiro dessa nossa reflexão, seria necessário construir
e propor muitas perguntas simples de serem feitas,
mas que trarão respostas, certamente, complexas: os
audiovisuais são assim, do jeito que são? Por que são
assim? Onde? Quando? Com que propósitos foram feitos?
E podemos ainda construir muitas outras perguntas. Às
vezes, construir uma boa pergunta já é identificar um
pouco a resposta. Anote suas perguntas no memorial.
Quero, neste momento, propor uma reflexão,
talvez até uma pequena digressão. Pensar é um dos
exercícios fundamentais para que possamos conhecer.
Não existe conhecimento fora do homem, da pessoa que
conhece, ainda que os dados e as informações estejam
nos livros, nos filmes, nos programas de tevê, nas fotos,
nos computadores. Conhecimento mesmo só existe
se pudermos nos relacionar; aprendemos com outras
pessoas sempre, o filme que vemos, o livro que lemos,
o computador que teclamos, lemos, assistimos, foram
feitos ou propostos por outras pessoas.
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
22
Nós mesmos, algumas vezes, por gosto ou profissão, realiza-
mos escritos, filmes, fotos, em vários suportes. Esse é o prin-
cípio do conceito de mídia. Toda mídia pressupõe informação
e um suporte, ou seja, aquilo suporta a informação e que é, ao
mesmo tempo, um condutor.
Encontramos no dicionário Houaiss eletrônico (2001) que o
significado para o termo mídia é:
todo suporte de difusão da informação que constitui
um meio intermediário de expressão capaz de transmi-
tir mensagens; meios de comunicação social de massas
não diretamente interpessoais (como por exemplo as
conversas, diálogos públicos ou privados). [Abrangem
esses meios o rádio, o cinema, a televisão, a escrita im-
pressa (manuscrita, no passado) em livros, revistas, bo-
letins, jornais, o computador, o videocassete, os satélites
de comunicações e, de um modo geral, os meios eletrô-
nicos e telemáticos de comunicação em que se incluem
também as diversas telefonias].
1.2 A tecnologia e nossa percepção
A idéia de audiovisual se confunde, muitas vezes, com a idéia
de mídia que os inclui. Mundo moderno é também um mundo
midiático e midiatizado. Lembremos de que a modernidade se
constitui, em grande parte, de certo distanciamento da natu-
reza e do surgimento de uma segunda natureza, transformada
pela tecnologia.
Aprendemos muito em contanto com a mídia e em seus
inúmeros suportes, mas aprendemos também observando o
mundo que nos cerca, a realidade. Observamos o mundo e
gostamos de contar histórias sobre ele; falar, ver e ouvir sobre
o mundo que nos cerca pode ser muito proveitoso, divertido
e prazeroso, e mais ainda quando se trata de outros mundos
mais distantes. A linguagem audiovisual tem a capacidade de
nos aproximar. Penso que ainda não compreendemos muito
bem esse fenômeno de aproximação, mas de alguma forma
ele acontece.
Os audiovisuais, filmes de todos os gêneros e inúmeros pro-
gramas de televisão, existem porque somos uma espécie de
animais que necessitam de histórias. As narrativas podem ser
de muitas formas e, se quisermos, podemos pensá-las a par-
tir de uma taxionomia: comédia, drama, ficção, documentário
23
I M P O R T A N T E
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
(alguns autores afirmam que o documentário é um gênero,
penso que é mais uma forma de abordagem e convido vo-
cês a pensarem sobre isso também), policial, suspense, terror,
western, romance.
Por similitude de alguns elementos, podemos pensar os fil-
mes e podemos também refletir por que eles nos são apre-
sentados dessa maneira, pois quase todos eles tratam de ele-
mentos que extrapolam a classificação.
Tristão e Isolda (Drama Romance)
Classificação: 14 anos
Duração: 125 minutos
Na Idade Média, jovem guerreiro que planeja unificar a
Inglaterra é ferido e resgatado por uma bela mulher por
quem se apaixona. Mais tarde, ele descobre que ela é filha
do rei da Irlanda, seu principal inimigo. Direção de Kevin
Reynolds. Com James Franco, Sophia Myles e Rufus Sewell
no elenco.
Constituímos-nos como pessoas por meio do que ouvimos
e vemos ao longo da vida, do que lembramos e, igualmente
do que esquecemos. As linguagens realizam-se devido a esse
processo de esquecer e lembrar, os quais são elementos cons-
titutivos da nossa memória pessoal e coletiva. Nossa memória
é povoada das muitas histórias, personagens e situações que
vivemos, daquelas que nos são contadas de boca em boca e,
principalmente, para efeito das reflexões deste texto, das his-
tórias que assistimos no cinema e na televisão.
Cinema e televisão são produtos da técnica e da eletricidade,
como já dissemos anteriormente. São também, na forma que
temos hoje, produtos da sociedade capitalista. O cinema e a
Pôster do filme Tristão &
Isolda, 2006.
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
24
televisão, cada um a seu modo, fazem parte de uma socieda-
de industrial capitalista, centralizadora de recursos, processos
e produtos.
É importante lembrar que o cinema é uma das principais in-
dústrias do maior país capitalista do planeta. Portanto, o cine-
ma é sim um meio maravilhoso para se contar histórias ainda
mais maravilhosas, mas é, também, uma indústria movida a
dinheiro, muito dinheiro. Da mesma forma a televisão que em
nosso país é uma indústria muito poderosa.
Os audiovisuais participam desse grande motor que é a indús-
tria cultural. E, em estética, política e magia, vão povoando o
mundo de histórias. Em estética porque os audiovisuais atu-
am fortemente naquilo que, no homem, é sensível, constituin-
te do fenômeno artístico, falando mais aos sentidos do que à
razão. Político, porque diz respeito aos negócios públicos, à
vida em sociedade.
O cinema já nasceu envolvido em certa magia, todos se encan-
tavam em experimentar novas formas de ver e de perceber,
sobretudo, o movimento, a velocidade. Coisas que hoje nos
parecem tão simples e corriqueiras fazem parte de uma grande
evolução: o desenvolvimento da linguagem audiovisual.
Os audiovisuais constituem uma forma peculiar de se con-
tar histórias que se revelam e se escondem nas narrativas
que cada filme, cada programa de televisão, a seu gosto e a
seu modo. Mas, não foi sempre assim. Para compreender as
linguagens audiovisuais, sobretudo o cinema, é importante
pensar na narrativa. Flávia Cesarino Costa (1995), no seu
livro O primeiro cinema: espetáculo, narração, domesticação,
afirma que ao se assistir hoje os primeiros filmes, verifica-se
que para o nosso olhar contemporâneo, a narratividade de-
les é precária, fugidia. Precisa ser retomada a todo momento,
pois se desfaz em cada erro na manutenção dos eleitos ilusó-
rios da ficção. Ao contrário do cinema narrativo posterior, em
que o espectador sabe-se protegido pelo muro invisível dessa
ficção, o primeiro exibe numerosas descontinuidades (p. 7).
A terminologia “indústria
cultural” surge no âmbito
dos estudos críticos
da Escola de Frankfurt.
Chamamos de indústria
cultural os frutos e os
processos de comunicação
de veiculação de massa.
Nesse sentido, estabelecia-
se uma oposição entre
a cultura popular, de
massa e a erudita. Os que
criticam negativamente a
indústria cultural afirmam
que ela fabrica produtos
para a venda, promove a
deturpação e a degradação
do gosto popular,
simplifica tudo e visa a
formar atitudes passivas
no consumidor. Além de
tudo desenvolve atitudes
paternalistas e, portanto,
também conformistas.
25
I M P O R T A N T E
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
A continuidade vai ser muito considerada na
narrativa cinematográfica. É ela que vai puxar o fio
dos acontecimentos e permitir que os espectadores
não se percam na história. O continuista é o profissional
que trabalha de forma a manter a história no seu rumo.
Observa a cada filmagem se as coisas fazem sentido
com a filmagem anterior. Por exemplo, se a roupa da
personagem está correta, se as flores de cima da mesa
de jantar são as mesmas rosas brancas da filmagem
anterior. Esse cuidado com a continuidade não era
observado nos primeiros filmes. Havia, portanto, muitos
“pulos” e a história que se contava, nem sempre, era
bem compreendida. Menos compreendida é quando
transportada aos dias de hoje.
Apreender o que os filmes dizem e o que cada espectador, ao
ver o filme, quer dizer, talvez seja a experiência educativa mais
profunda que o cinema e as linguagens audiovisuais possam
proporcionar.
O cinema, para o cineasta italiano Pier
Paolo Pasolini, é a língua escrita da re-
alidade, a linguagem viva das coisas.
Essas coisas, da realidade, estão, desde
há muito, na vida de todos. Talvez seja
por isso que o cinema, sendo imagem
e som, é também movimento, o movi-
mento da vida. Cinema e vida podem
coincidir perfeitamente nas imagens que
construímos de um e de outra. No en-
tanto, existe uma distinção profunda no tempo: cinema e vida
não podem prescindir do tempo, nem do ritmo.
No livro Câmera Clara, que reúne os estudos de Michel Lahud
(1993) sobre as idéias de Pasolini, principalmente sobre a relação
entre cinema e vida, podemos perceber que: “no filme o tempo
é finito, nem que seja por uma ficção. Temos então de aceitar for-
çosamente a lenda. O tempo não é o da vida quando se vive, mas
da vida depois da morte: como tal é real, não é uma ilusão e pode
perfeitamente ser o da história de um filme” (p. 47).
Pier Paolo Pasolini
UNIDADE 1 – Introdução à linguagem audiovisual
26
A linguagem audiovisual é a que mais diretamente emerge
da realidade e, portanto, dela se origina. Podemos dizer que a
linguagem audiovisual expressa a realidade na sua dimensão
espaço-temporal, ou seja, naquilo que a realidade é tempo
e espaço, juntos e separados. Muitas questões se colocam
quando pensamos nesses dois aspectos da realidade.
Ao pensar no tempo como precedência e na linguagem au-
diovisual como um construto e um legado, gosto de recorrer
a Luis Buñuel (1982, p. 96) seu livro autobiográfico, O último
suspiro. Este grande cineasta espanhol, refere-se a Eugênio
d’Ors como autor de uma frase que costumava citar freqüen-
temente contra aqueles que buscam a originalidade, no senti-
do do diferente, a qualquer preço: “Tudo o que não é tradição
é plágio”. E completa, afirmando que algo sempre lhe pareceu
profundamente verdadeiro nesse paradoxo.
Paradoxal ou não, tradição, no seu sentido etimológico, é o ato
de transmitir ou entregar herança cultural, legado de crença,
raízes, fundamentos e original, é ainda princípio, precedência,
primitivo, primordial. Assim, histórias e narrativas, conteúdo
e forma, originalidade e tradição, parecem fundir-se em um
mesmo e único processo da experiência humana que o cine-
ma e as linguagens audiovisuais tão bem retratam.
Vivemos imersos em um mundo de imagens. Se as salas de
cinema estão cada vez mais reduzidas aos shoppings centers,
ainda que a tendência desses seja a de aumentar, a televisão
popularizou o cinema e muitos filmes deixaram as grandes
telas para apresentar-se nas telas menores dos inúmeros apa-
relhos de televisão que estão por toda parte. Por isso mesmo,
todas as pessoas que vivem nas cidades têm sua própria ex-
periência com a linguagem audiovisual para relatar. Em algum
momento da nossa vida, a linguagem audiovisual nos toca,
nos sensibiliza, nos educa.
Luis Buñuel é cineasta
espanhol. Realizou
inúmeros filmes que
marcaram a história do
cinema, como “Um chien
andalous”. Junto com o
pintor, também espanhol,
Salvador Dali, realizou “O
estranho caminho de São
Tiago”, “A bela da tarde”,
entre outros. A filmografia
desse cineasta nos ajuda
a compreender o cinema
como manifestação
artística e a importância do
audiovisual para a cultura
dos povos.
Pôster do filme Un Chien
Andalous, 1929.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
28
Audiovisuais, cinema, televisão e educação, de certa forma,
sempre estiveram próximos. Mesmo que muitas vezes o audio-
visual, na educação, tenha sido pensado apenas como ilustra-
ção de conteúdos curriculares. Esse talvez seja a primeira apro-
ximação do audiovisual com a educação, mais existem outras.
Milton José de Almeida (1994), em seu livro Imagens e sons
– a nova cultura oral, afirma que
a transmissão eletrônica de informações em imagem-som
propõe uma maneira diferente de inteligibilidade, sabedo-
ria e conhecimento, como se devêssemos acordar algo
adormecido em nosso cérebro para entendermos o mun-
do atual, não só pelo conhecimento fonético-silábico das
nossas línguas, mas pelas imagens-sons também.
Se assim compreendemos essa etapa do desenvolvimento
humano, vemos que a linguagem audiovisual precisa ser com-
preendida para além dos produtos audiovisuais construídos a
partir dessa sintaxe, ou seja, dessa justaposição de imagens e
sons (ALMEIDA, 1994).
Mais do que aprender por meio dos
produtos audiovisuais, importa ainda
entender essa linguagem para que a
educação, por meio de professores e
alunos, passe construir um entendi-
mento do mundo. Muitas foram as ex-
periências que buscaram associar a lin-
guagem audiovisual com a educação.
Vamos, doravante, fazer um percurso
diferente do que vínhamos fazendo.
Proponho que façamos um passeio por
algumas das experiências ocorridas ou
ainda em curso no Brasil. Digo experiências porque muitas delas
foram tentativas, tiveram começo e fim, não persistiram.
Quero lembrar que o livro didático, impresso e distribuído pe-
los governos, não se constitui mais numa experiência. É par-
te integrante das políticas públicas em educação já há vários
anos. À semelhança das escolas públicas, as escolas particula-
res também concentram grande parte do que é ensinado aos
alunos nos livros didáticos. Mas, voltando ao nosso passeio
pelas experiências de utilização do audiovisual na educação,
é possível dizer que a tecnologia dos audiovisuais sempre an-
daram próximas da educação.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
29
I M P O R T A N T E
A educação, como prática social, e a escola, como o lugar
onde a educação acontece de maneira sistematizada, sem-
pre buscaram nas tecnologias disponíveis recursos que pu-
dessem dar à educação certa qualidade e consistência, seja
na utilização da lousa ao computador,. O uso de audiovisuais,
como câmeras, projetores, telas, faz que se configure a área
“tecnologia educacional” em nosso país, a qual ocorre a partir
dos anos de 1970, quando surgem inúmeras iniciativas em
diferentes acepções.
Nessa direção, propalado por uns e criticado por outros, se-
jam especialistas em educação, pesquisadores, professores e
alunos, configurou-se o que se chamou de tecnicismo educa-
cional. As técnicas audiovisuais concorreram para isso, mas
não só elas, outros procedimentos e outros fatores contribuí-
ram igualmente.
Embora reconhecendo que o tecnicismo educacional tangen-
cia o tema abordado neste texto, não tenho a pretensão de
aprofundar esse aspecto que, certamente, será examinado e
discutido em outros módulos que trabalham mais diretamente
com a história da educação.
Isso posto, convido você para um percurso onde passaremos
por algumas iniciativas educacionais que recorreram à tecnolo-
gia e que, por isso, podem revelar, pelas lições que produziram,
situações significativas da pedagogia e da política educacional
brasileira. Você, com certeza, já ouviu falar de algumas delas.
2.1 O Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE)
Para a pesquisadora Rosana Elisa Catelli (2003), “desde a déca-
da de 1910, os anarquistas desenvolveram uma intensa refle-
xão sobre os usos do cinema como um instrumento a serviço
da educação do homem, do povo e da transformação social,
devendo este se converter em arte revolucionária”.
O pensamento católico também se dedicou à questão do ci-
nema educativo, preocupado com a questão moral dos filmes
exibidos. A Igreja criou os Cineacs, salas de cinema nas paró-
quias e associações católicas, que tinham por objetivo apre-
ciar os filmes segundo as normas traçadas pela Igreja.
Os educadores, por sua vez, combatiam o que eles chama-
vam de “cinema mercantil” e propunham a criação do cinema
educativo que, segundo eles, poderia trazer benefícios peda-
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
30
gógicos aos alunos ao mostrar de forma mais real diversos
aspectos da natureza e da geografia do Brasil. Para eles, o ci-
nema educativo representava a luta contra o cinema “desedu-
cador” e portador de elementos nocivos e desagregadores da
nacionalidade.
Aqui quero chamar a atenção para o fato de que o
nosso texto e a forma como vínhamos desenvolvendo
as idéias se transformam. Veja como a introdução do
tempo cronológico altera significativamente a nossa
maneira de pensar e de construir a nossa narrativa. É
como se, dessa forma, o texto buscasse explicar a gênese
do audiovisual educativo, da tecnologia educacional no
país, demarcando lugares, datas, locais, personagens.
Essa é uma forma de contar a história, de apresentar
uma história. Certamente não é a única, mas é a
preponderante.
Assim, o Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), cria-
do em 1936, há mais de sessenta anos, por Edgard Roquette
Pinto, surge no momento em que o debate em torno das re-
lações entre cinema e educação emergia e se consolidava em
ações, em diferentes segmentos da sociedade, no país e fora
dele.
Edgard Roquete Pinto é considerado o precursor da radiodifu-
são no Brasil. Antes de fundar o Instituto Nacional do Cinema
Educativo, já havia criado, em 1923, a primeira estação de rá-
dio brasileira: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. As rádios
sociedade ou rádios clube eram assim chamadas porque os
ouvintes precisavam se associar e contribuíam com mensali-
dades para a manutenção da emissora. Havia, portanto, uma
participação direta dos ouvintes. Isso era possível também
porque o número de aparelhos de recepção não era muito
grande e, por conseqüência, o de ouvintes também não.
As publicidades, ou os comerciais, só viriam a sustentar as
emissoras de rádio um pouco mais tarde. Em 1933, o governo
de Getúlio Vargas autoriza a publicidade em rádio. A partir de
então o nome dos patrocinadores ficam de tal forma marca-
dos que se confundem com o próprio programa, como, por
exemplo, o Repórter Esso, um dos programas de radiojorna-
lismo mais famosos do país.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
31
I M P O R T A N T E
Voltemos ao INCE. O Instituto funcionava em um edifício
na Praça da República, no Rio de Janeiro, onde também
passou a funcionar a Rádio Ministério da Educação. Não
vi, até hoje, nenhum texto sobre o Instituto Nacional do
Cinema Educativo que não falasse também de Roquete
Pinto. Mas, outros personagens, com maior ou menor ex-
pressão, também participaram dessa história. É importan-
te lembrar que o INCE surgiu em pleno Estado Novo, cria-
do pelo Ministro da Educação de Getúlio Vargas, Gustavo
Capanema.
No Catálogo da Mostra Humberto Mauro, patrocinada pela
Embrafilme, Secretaria de Cultura, Ministério da Educação
e Banco Nacional, em junho de 1984, encontramos o se-
guinte texto:
em 1936, o antropólogo, cientista e professor, Edgard
Roquete Pinto, estava organizando o INCE [...] quan-
do se aproximou Humberto Mauro, que já o conhe-
cia pessoalmente, do seu tempo de diretor do Museu
Nacional. Desde o início, houve entre os dois uma
identificação quanto à valorização da cultura brasi-
leira, considerada por ambos a manifestação de uma
civilização nova que se autodesconhecia. Humberto
tinha idéias sobre filmes educativos e isso lhe valeu
um convite de Roque Pinto para que o ajudasse a fa-
zer o cinema no Brasil, a escola dos que não tinham
escola”.
O que vem a ser essa afirmação ou esse desejo de que o ci-
nema se transformasse nessa escola, talvez não possamos
saber. Podemos, no entanto, pensar que desde há muito
que o cinema e depois a televisão e os computadores em
rede, estão relacionados com a educação e com a escola.
No chamado Estado Novo, o cinema educativo foi utilizado
como um meio de propaganda política com o intuito de cola-
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
32
borar na construção da identidade nacional, na legitimação
do governo e na formação do patriotismo. O cinema para
Getúlio Vargas era como o livro de imagens luminosas.
Pode parecer estranho que um governo se preocupasse
tanto com o cinema para educar o povo, ao ponto de criar
um órgão governamental para cuidar disso. Mas o cinema,
talvez devido a essa forte relação com a realidade, seja ele
ficcional ou documentário, de alguma forma, expressa a
política, a sociedade, as maneiras de um povo. A produ-
ção cinematográfica americana é um exemplo disso. Além
de divulgar o american way of life (o modo americano de
viver) traz, em quase todos os seus filmes, uma cena em
que tremulam, ainda que por poucos instantes, as listras
brancas e vermelhas da bandeira americana. Esse é um
exercício de observação dos filmes que pode ser feito facil-
mente. Que tal passar, doravante, a observar em que cena
e por quanto tempo vemos a bandeira nos filmes america-
nos? A esses detalhes “sem muita importância” ou quase
despercebidos, é dado o nome de propaganda subliminar.
Acontece também de haver imagens curtas, um fotograma
ou um “frame” que inseridas na mensagem, passam des-
percebida ao olho humano, mas podem ficar retidas no
subconsciente, estas são as mensagens subliminares.
Voltando ao nosso cinema educativo dos anos de 1930, nes-
se período, um decreto presidencial criou todas as facilida-
des para a produção cinematográfica como, por exemplo,
a importação de negativos virgens. Um dos filmes impor-
tantes desse período do Instituto Nacional do Cinema Edu-
cativo é O Descobrimento do Brasil, dirigido por Humberto
Mauro, com música de Heitor Villa-Lobos. A partir desse
filme são criadas as condições que permitiram a Mauro ro-
dar, nos anos seguintes, cerca de 300 documentários em
curta-metragem, de caráter científico, histórico e da poética
popular. Quase todos sob a orientação de Roquette Pinto,
que também escreveu o roteiro e narrou muitos deles. São
inúmeros os títulos que traduzem uma associação primoro-
sa da linguagem cinematográfica, dominada com perfeição
por Humberto Mauro, e a intenção de educar o povo brasi-
leiro com o que de mais moderno havia: o cinema.
Mensagem subliminar
é aquela que se utiliza
da chamada arte da
persuasão inconsciente.
Propaganda subliminar é
sempre transmitida em um
baixo nível de percepção,
tanto auditiva quanto
visual. Nesse exemplo que
damos da bandeira nos
filmes, ela, quase sempre
compõe o pano de fundo
dos cenários, enquanto
os outros personagens
desempenham seus papeis
em primeiro plano. A
absorção desse tipo de
informação acontece no
nosso subconsciente, ela é
captada e é assimilada sem
a barreira do consciente.
Pôster do filme O
Descobrimento do Brasil,
1937.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
33
I M P O R T A N T E
Um dos filmes de Humberto Mauro chama-se
A velha a fiar. Filme sonoro, de 35mm, 6min, com
temática do folclore, música de Aldo Taranto e cantada
pelo trio Irakitan. A fotografia e a montagem é de José
Mauro e interpretação, de Matheus Colaço. O filme ilustra a
temática trazida do cancioneiro popular brasileiro por meio
dos fragmentos: “estava a velha no seu lugar, veio a mosca
lhe fazer mal...”. A velha, no filme, na realidade é um homem.
Vendo alguns desses filmes, sempre me vem certa nostalgia
de algo que nunca se realizou. Filmes são para serem vistos, o
espectador é parte da historia do próprio filme e, muitas vezes,
da história que o filme conta. Penso que esses filmes sempre
foram pouco vistos, menos agora. São vistos em um circuito
de filmes cult. O que vocês pensam disso? Como podemos
ampliar o público de obras tão encantadoras? Anote
suas respostas em seu memorial.
O cinema educativo do INCE passou a estimular o sentimen-
to de amor à pátria através de filmes biográficos onde os
heróis nacionais apareciam imbuídos de qualidades que o
Estado Novo procurava inspirar nos jovens brasileiros. Esses
heróis eram trabalhadores, honestos, generosos e, acima de
tudo, amavam o Brasil. Com isso, o governo procurava es-
tabelecer uma relação entre ele e os heróis, apresentando o
seu governo como uma continuidade da obra dos grandes
vultos nacionais, fazendo assim a propaganda do governo
junto ao povo.
As informações disponíveis sobre o trabalho do Instituto
Nacional do Cinema Educativo sugerem que esse projeto re-
sultou em um trabalho que ficou mais centrado na produção,
carecendo de uma estratégia de veiculação dos filmes nos
espaços culturais e educacionais do país.
Se isso de fato ocorreu, nos leva a pensar na falta de sintonia
entre os projetos e a capacidade real da sociedade brasileira
de absorvê-los, o que de certa forma ainda persiste. Muitos
projetos sequer saem do papel, ficam apenas na intenção,
não se viabilizam completamente.
“Não sou literato. Sou
poeta do cinema. E o
cinema nada mais é do que
cachoeira. Deve ter
dinamismo, beleza,
continuidade eterna.”
Humberto Mauro para o
Jornal do Brasil, RJ, abril
de 1973.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
34
2.2 O Projeto SACI
Ainda pensando em tempos e décadas, a primeira tentativa de
integrar o sistema de educação nacional com o sistema de comu-
nicação de massa via televisão com o uso de satélite foi o Projeto
SACI – Sistema Avançado de Comunicações Interdisciplinares.
Um dos motes do projeto de segurança nacional era a integra-
ção, na década de 1970. Muitos projetos de integração estavam
em curso. Só para podermos nos localizar um pouco melhor,
é nesse período que os militares desencadearam a corrida à
Amazônia com o slogan “integrar para não entregar”.
Hoje, segundo o jornalista Lúcio Flávio Pinto, a frase verda-
deira soa como “destruir para não entregar”. Pois, de fato, a
Amazônia continua plenamente nacional. Mas cada vez menos
Amazônia. Esta condição pode lhe servir de epitáfio glorioso,
mas nunca de salvação (2006). Mesmo não compartilhando
com o pessimismo do jornalista, embora reconheça que tem
suas razões, muitos projetos feitos sempre para o bem, nem
sempre alcançam suas intenções.
O que cito acima expressa o contexto em que surge o pro-
jeto SACI. Antes dele já havia sido criado o Ministério das
Comunicações e a Empresa Brasileira de Telecomunicações,
a Embratel. No âmbito de um projeto político grandioso e
bastante conturbado, e, ainda, sustentado pelo regime militar
que governava o país, o Satélite Avançado de Comunicações
Interdisciplinares tinha propósitos igualmente grandiosos, ou
seja, visava integrar em escala nacional o ensino básico. No
âmago de uma ditadura militar, esse projeto foi forjado a partir
da concepção de que começava a emergir, no sistema educa-
cional brasileiro, o desenvolvimento, em estreita sintonia com
a doutrina de segurança nacional.
Isso se realizou por meio de uma complexidade enorme de
fatores envolvendo políticas internacionais e nacionais, de-
senvolvimento estratégico, pesquisas aeroespaciais, propaga-
ção de sinais de televisão, por antena e cabo. Muitos dados,
nomes, datas, envolvem esse projeto de televisão educativa,
portanto, de audiovisual educativo. Destaco a compra do sa-
télite da série Intelsat, que possibilitava as comunicações te-
lefônicas internacionais e permitiam a comunicação com o
mundo simultaneamente por meio da televisão.
A Doutrina de Segurança
Nacional e Desenvolvimento
tinha como meta criar
condições para, por meio do
fortalecimento do Estado,
construir um modelo de
desenvolvimento econômico
favorável à consolidação do
capitalismo, criando toda
uma infra-estrutura capaz
de transformar o país em
uma potência econômica.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
35
I M P O R T A N T E
O projeto de educação justificou, pela função social de que se
reveste, a compra do satélite. Muitas coisas relativas a esse pro-
jeto ocorreram nos bastidores da política, como resultado dos
tempos sombrios que vivíamos. Mas, de alguma forma, podía-
mos cantar, não muito, mais ainda se conseguia. Assim, lembro
aqui o refrão da música Eu quero voltar para a Bahia, cantada
pelo cearense Raimundo Fagner: “Via Intelsat eu mando notí-
cias minhas para o Pasquim. Beijos prá minha amada que tem
saudades e pensa em mim”. A entrada do Brasil no sistema Intel
de comunicação por satélite estava na ordem do dia e era discu-
tida, enaltecida, depreciada, ironizada, cantada em versos.
Mas, lembremos que estávamos em um regime político au-
toritário e todo autoriatarismo é unilateral. Assim, em 1965,
o Brasil entra na era espacial com a compra do satélite de
comunicação que ampliou consideravelmente a capaciade de
transmissão de sinais de televisão e de telefonia.
O estudo de Laymert Garcia dos Santos (1981), sua tese de
doutorado, publicada com o título Desregulagens – educa-
ção, planejamento e tecnologia como
ferramenta social, revela que, gera-
do no Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (INPE), com sede em São José
dos Campos, o projeto SACI da mesma
forma que o moleque travesso e esper-
to da tradição brasileira, com uma per-
na só, foi claudicante e o sonho tecno-
lógico de alcance nacional ficou restrito
e, ainda assim, com graves problemas.
Em relação aos objetivos educacionais,
os resultados desse projeto seriam um
fracasso retumbante se não fossem as
lições que dele puderam ser depreendidas.
Para esse autor, o Projeto SACI seria apenas uma comédia tecno-
lógica, mas foi também um exemplo de como as políticas formu-
ladas sem o conhecimento profundo da realidade e das pessoas
que, na prática, serão as responsáveis diretas pelas ações – nes-
se caso os professores das escolas públicas brasileiras e mais
especificamente os professores das escolas públicas do ensino
básico do Rio Grande do Norte – não podem dar certo.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
36
Coerente com as ideologias que o geraram, o projeto SACI
trabalhava segundo a lógica da racionalidade e propalavam
uma “modelização” onde os meios de comunicação ocupa-
vam um lugar de honra, na medida em que o emprego da
televisão, do rádio e dos fascículos elaborados, segundo os
princípios da instrução programada, será o traço determinan-
te para distinguir a tecnologia educativa do ensino tradicional”
(SANTOS, 1981, p. 216).
Essa forma de educação passou a ser disseminada no país.
No que se refere ao ensino a distância, houve um grande de-
senvolvimento da teleeducação no Brasil, a partir de 1969.
São desse período a TV Educativa de São Paulo, da Fundação
Padre Anchieta; o Projeto Teleescola no Maranhão; o Instituto
de Radiodifusão Educativa da Bahia (IRDEB); a Fundação
Centro Brasileiro de TV Educativa no Rio de Janeiro, entre ou-
tros projetos.
É importante mencionar a elaboração do ASCEND
Repor (SANTOS, 1981) em 1966, por pesquisadores
da Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE),
fundada três anos antes do CNPq. Esse relatório
culminou na aprovação do Projeto SACI, em 1969, que
propunha resolver o problema da educação popular pela
tele e radiodifusão. Também é importante o registro do
INPE, que elaborou programas, materiais e treinamento
de pessoal para o projeto SACI; o Manual de Engenharia
de Sistemas que o INPE (1972) editou atingiu mais de
14.000 exemplares, sendo utilizado largamente por
entidades públicas e privadas (IDEM, 1982).
Iniciativa conjunta do Ministério da Educação, do Centro Na-
cional de Pesquisas e Desenvolvimento Tecnológico (CNPq) e
do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o projeto
Saci utilizava o formato de telenovela. Inicialmente, fornecia
aulas pré-gravadas, transmitidas via satélite, com suporte em
material impresso, para alunos das séries iniciais e professo-
res leigos, do então ensino primário no Estado do Rio Grande
do Norte – onde foi implantado um projeto piloto. Em 1976,
registrou um total de 1.241 programas de rádio e TV, realiza-
dos com recepção em 510 escolas de 71 municípios.
A instrução programada,
um tipo de ensino
centrado no aluno,
estava muito em moda
nessa época. Trata-se da
aplicação dos estudos
do psicólogo americano
Burrhus Frederic
Skinner, que propalava
a eficiência do reforço
positivo e de máquinas
de ensinar, suas mais
conhecidas aplicações
educacionais. São
muitas as espécies de
máquinas de ensinar e
embora seu custo e sua
complexidade possam
variar muito, a maioria das
máquinas executa funções
semelhantes. Skinner
pregou a eficiência do
reforço positivo, sendo,
em princípio, contrário
a punições e esquemas
repressivos.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
37
I M P O R T A N T E
2.3 As televisões educativas do Ceará e do Maranhão
As televisões educativas dos Estados do Maranhão e do Ceará
surgiram nos anos de 1960 e 1970, respectivamente, instalan-
do-se em regiões que tradicionalmente apresentavam os mais
baixos índices de escolarização do país. O audiovisual em rede,
ou seja, a televisão com sinal distribuído para locais distantes,
permitiu que surgissem as redes de televisão educativas. Estas
possibilitavam, com aulas ministradas pela televisão e com a
presença de orientadores de aprendizagem no lugar dos pro-
fessores nas salas de aula, transformadas em postos de recep-
ção organizada, atender a um número significativo de alunos
em locais onde a carência de professores era crônica.
As tevês educativas surgiram como solução alternativa para re-
solver, simultaneamente, os problemas relativos à falta de aten-
dimento escolar nas quatro últimas séries do 1
o
grau, à ausên-
cia de qualidade no ensino e à insuficiência de professores.
Tive a oportunidade de visitar a TVE do Maranhão e pude per-
ceber que, mesmo se utilizando da linguagem audiovisual, as
teleaulas, no início dos anos 80, eram cópias da sala de aula
convencional. Um professor, diante da câmera, dava sua aula
como se estivesse diante dos seus alunos. Talvez mais por fal-
ta de recursos financeiros, as múltiplas possibilidades da lin-
guagem audiovisual eram pouco utilizadas. À primeira vista,
nas escolas, os alunos se mantinham como em uma sala de
aula tradicional, praticamente com a mesma disposição das
carteiras, mas havia o aparelho de televisão e um monitor que
os ajudava na compreensão da matéria da aula e com exercí-
cios propostos.
No Maranhão, essa experiência iniciada apenas na capital,
São Luís, em 1969, logo atinge grande parte do Estado, em 32
municípios, 96 escolas, 1104 salas e 41 573 alunos. Esses da-
dos estão no documento de divulgação da televisão educativa
do Maranhão em comemoração a seus 27 anos. Penso que
as estatísticas sempre encobrem, ou não conseguem revelar
muito, as qualidades boas ou más de um projeto. Mas, certa-
mente nos ajudam a pensar sobre sua grandeza. E projetos de
educação a distância, seja por que meios forem, são sempre
pensados para grande escala.
Nessa mesma direção, temos o documento de divulgação da
Funtelc, a televisão educativa do Ceará, em seus 27 anos. As-
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
38
sim, encontramos que, naquele momento, o Estado do Ceará
atingia aproximadamente 70% de sua população era forma-
da por estudantes de 5
o
a 8
o
série, vinculados ao teleensi-
no, alcançando 150 municípios, 1432 escolas, 6322 turmas e
181.193 telealunos.
Para muitos estudiosos desse período, a Televisão Educativa
do Ceará se constitui na única maneira viável de se constituir
séries terminais do primeiro grau, várias unidades escolares,
municipais e estaduais, daquele estado. Sem sua presença, os
jovens teriam que emigrar para a capital ou cidades maiores.
Não sendo assim, estariam condenados a permanecer com
uma escolaridade incompleta que não lhes possibilitaria um
trabalho e um serviço necessário à comunidade, com todo o
vigor e competência que deles se esperava.
Talvez, neste momento, fosse bom refletir que
as televisões educativas representaram a utilização
da linguagem audiovisual muito próxima da sala de
aula. O modelo de sala de aula e o que acontece dentro
dela são, de certa foram, reproduzidos em audiovisual.
As experiências do Ceará e do Maranhão são apenas
exemplos dessa forma de televisão educativa, existem
outros, mas que na essência conservam esse modelo.
A experiência dessas televisões educativas nos
leva a pensar em muitos outros fatos, mas quero
destacar apenas dois aspectos. O primeiro deles é
o de que, se por um lado há o argumento da oferta
do ensino, por outro parece ficar mais claramente
configurada a divisão entre a escola dos ricos e a escola
dos pobres. O que você pensa sobre isso? A segunda
reflexão trata sobre qual maneira de fazer educação
pode suprir uma carência de professores, substituindo-
os por orientadores de aprendizagem, sem desobrigar
o Estado de investimentos na formação de professores.
Isso pode ser visualizado em uma reportagem na Folha
de São Paulo, de 25 de maio de 1996, a repórter Elvira
Lobato afirma que as televisões educativas, vividas no
Ceará, demonstram que se não houve demissões de
professores, tampouco aconteceram contratações ou
investimentos na formação de novos docentes.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
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I M P O R T A N T E
2.4 Programa Salto para o Futuro
O programa Salto para o Futuro foi criado em 1991 pela Se-
cretaria de Educação Básica do Ministério da Educação e pela
Fundação Roquette Pinto, Televisão Educativa do Rio de Ja-
neiro, hoje denominada Associação de Comunicação Educa-
tiva Roquette Pinto. Era desejo do governo federal naquele
momento promover programas de educação a distância. Esse
programa teve início com financiamento do FNDE, inicialmen-
te como Jornal do professor. Havia toda uma política gover-
namental sustentando a criação e manutenção de programas
dessa natureza.
Em 1992, já com abrangência nacional, passou a chamar-se Um
Salto para o Futuro. Em 1995, foi incorporado à grade da TV Es-
cola (canal educativo da Secretaria de Educação a Distância do
Ministério da Educação), ocupando uma das faixas da progra-
mação do canal. Sobre a TV Escola, falaremos um pouco mais
a seguir. O Salto para o Futuro foi pioneiro no uso de interati-
vidade em educação no Brasil. Há 15 anos, ininterruptamente,
vem realizando semanalmente um trabalho de educação que
reúne televisão, fax, telefone e computadores em rede.
O Salto para o Futuro é levado ao ar, de segunda a sexta-
feira. Inicialmente, era transmitido em canal aberto, mas hoje
pode ser captado por satélite-parabólica, devido à sua incor-
poração à grade de programação da TV Escola. Esse trabalho
tem como objetivo possibilitar que professores de todo o país
possam adquirir novos conhecimentos, rever e construir seus
princípios e práticas pedagógicas, mediante o estudo e o in-
tercâmbio com especialistas de todo o país, utilizando para
tanto, diferentes mídias como telefone, fax, TV.
Cada série proposta tem um boletim impresso que é previa-
mente distribuído aos professores inscritos na série. Com uma
dinâmica interativa, o Salto para o Futuro atinge, por ano, mais
de 250 mil profissionais docentes em todo o Brasil, integrando
professores por meio de um computador em rede e articulan-
do a educação presencial que acontece nas teles salas.
O Salto para o Futuro, nos seus 15 anos de existência, vem
se constituindo em um marco na experiência brasileira de uso
da televisão para fins educativos. No entanto, a televisão é
apenas a face mais visível desse programa de educação a dis-
tância que, integrando todas as tecnologias de comunicação
e educação disponíveis, segue sendo a experiência mais im-
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
40
portante que, a meu ver, o Estado brasileiro, governo após
governo, tem sustentado. E mesmo com todos os avanços
e potencialidades que o Salto para o Futuro indica e propõe,
penso que ainda se ressente de uma articulação mais efetiva
nos níveis locais, que precisam pensar os cursos e treinamen-
tos que realizam não como episódicos e desconectados da
experiência teórica e prática do cotidiano das escolas em to-
dos os níveis do sistema educacional.
Para além do interesse desse programa, centrado nos profes-
sores que estão nos postos de recepção, creio que a educação
brasileira, que acontece em muitos lugares e não só na esco-
la, perdeu muito quando o Salto para o Futuro deixou de ser
transmitido em canal aberto. Nossa televisão carece muito de
espaços para debates e conversas inteligentes, que vão muito
além do interesse das escolas e dos professores. Convido vo-
cês a assistirem esse programa e a pensarem se tenho ou não
razão ao defender que o Salto para o Futuro seja veiculado,
pelo menos, nas tevês abertas educativas.
2.5 Sistema Nacional de Educação a Distância
No início da década de 1990, foram muitas as iniciativas para
incrementar ações de educação a distância. Nessa época o
Ministério da Educação lançou as bases para a constituição de
um Sistema Nacional de Educação a Distância (SINEAD). Por
meio dele buscava estabelecer parcerias com outros órgãos
visando a incorporar novas tecnologias de telecomunicação
ao processo educativo.
A tentativa de configuração desse sistema se expressa a par-
tir de algumas iniciativas, como o Decreto Presidencial n.
1237/1994, que criou, no âmbito da administração federal, sob
a coordenação do Ministério da Educação, o SINEAD, e, ainda,
o Protocolo de Cooperação n. 003/1993, a fim de implantar
e expandir a infra-estrutura de informações do SINEAD entre
o Ministério da Educação, o Ministério das Comunicações, o
Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, o Conse-
lho de Secretarias Estaduais de Educação e a União de Diri-
gentes Municipais de Educação.
No contexto do SINED, foi formulado um protocolo de inten-
ções, com o objetivo de criar condições institucionais para o
desenvolvimento de atividades de educação a distância no
âmbito das universidades brasileiras. Nesse momento, foi
Mais informações
– inclusive os boletins com
os textos base de cada
série – sobre o Salto para o
Futuro é possível encontrar
no site: www.tvebrasil.
com.br/SALTO/
Estas informações estão
apresentadas e discutidas
no documento “Educação
a distância no contexto
da Educação fundamental
para todos no Brasil:
análise de necessidades e
estratégias. Brasília, 1994
. (Documento elaborado
pelo Grupo Nuclear ED 9.
FE/UnB-UNESCO).
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
41
I M P O R T A N T E
constituído o Consórcio Interuniversitário de Educação a Dis-
tância, visando integrar todas as faculdades de educação das
universidades públicas na realização de ações voltadas para a
criação de mecanismos que propiciassem atividades coope-
rativas de educação a distância no país, por todos os meios,
televisão, rádio, computador, telefone, fax.
2.6 A TV Escola
O projeto da TV Escola é, talvez, o maior e mais ambicioso
projeto de educação a distância já proposto pelo Ministério
da Educação. Surgiu com o objetivo de “planejar a educação
necessária para o século XXI, na qual certamente as novas
tecnologias desempenharão papel decisivo”. Essas palavras
são da Secretária de Desenvolvimento, Inovação e Avaliação
Educacional do MEC, e as encontramos na revista Nova Esco-
la, que muitos de vocês devem conhecer, no número de junho
de 1995. Portanto, logo no início da TV Escola.
Projetos que integrem todo o nosso país são, por isso mes-
mo, muito grandiosos, os quais surgem como resposta a uma
educação para um século ou ainda mais tempo. Vejam que as
nossas políticas e os nossos projetos, por mais objetivos que
possam parecer, buscam construir também suas estratégias
de sedução, uma das dimensões mais importantes e enco-
bertas da linguagem audiovisual que estamos tratando. Todo
projeto precisa lançar centelhas de esperança para que possa
se concretizar em ações. Parece que a sedução está em toda
parte, não tem um compromisso a priori com o engano e o
erro, como denotam algumas de suas acepções.
A TV Escola se estabeleceu como uma forma de superar as
grandes lacunas da educação brasileira, mais uma vez a lin-
guagem audiovisual ganha uma expressão educativa. Em seus
programas, tanto nos que produz quanto nos que adquiriu, no
país e no exterior, existe a preocupação com a equidade na
educação. A televisão disponibiliza seu sinal para que todos
tenham acesso a informações, conhecimento, saberes e bens
culturais que a humanidade tem construído. Nesse sentido,
segundo o MEC, configura-se uma educação como uma jane-
la aberta para o mundo.
A programação do canal foi montada a partir de uma seleção
da produção nacional e estrangeira, e passou pela aprovação
de um conselho consultivo de programação, criado especifi-
Este tema foi divulgado
e discutido mais
amplamente na
Teleconferência, por
meio da TV Executiva da
Embratel, com o título:
Regime de Colaboração
e TV Escola, realizada em
agosto de 1995.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
42
camente para essa finalidade e constituído por representantes
da Secretaria de Comunicação da Presidência da República,
do Conselho Nacional de Dirigentes das Universidades Brasi-
leiras e do próprio Ministério da Educação. Buscava-se, então,
garantir a qualidade dos programas a serem veiculados e, ao
mesmo tempo, a presença de um olhar mais plural que as
transmissões para um país de dimensões continentais como
o Brasil exigiam.
No primeiro workshop de educação a distância, ocorrido no
Rio de Janeiro, no bito das políticas que viabilizariam a TV
Escola, foi apresentado um projeto de EaD, com ênfase na te-
levisão, e direcionado, prioritariamente, para o ensino funda-
mental, a representantes de todos os Estados da federação.
Naquele momento, foram feitas algumas alterações importan-
tes na política de audiovisual de educação a distância: a Fun-
dação Roquette Pinto sai da alçada do Ministério da Educação
e passa a integrar a Secretaria de Comunicação Social da Pre-
sidência da República.
O projeto da TV Escola compreendia a veiculação de progra-
mas educativos, por satélite e por antena parabólica. No pri-
meiro momento, todas as escolas com mais de 200 alunos
recebiam um kit com televisão, um aparelho de gravação e
reprodução em VHS, uma antena parabólica e 12 fitas para
iniciar as gravações. Os programas deveriam ser transmitidos
em horários previamente divulgados e as escolas gravariam
as fitas, criando assim um acervo de programas que ficavam
disponíveis para os professores em suas aulas.
As ações que envolvem esse projeto de televisão educativa
têm se consolidado e ampliado no âmbito das ações de edu-
cação a distância do governo. Por meio de programa de ação
da Secretaria de Educação a Distância, escolas que não tinham
outros meios receberam um kit contendo aparelho de repro-
dução de DVD, caixa com 50 mídias, com aproximadamente
150 horas de programação produzida pela TV Escola.
Mais informações podem
ser obtidas no site: http//
portal.mec.gov.br Nesse
portal é possível encontrar
informações sobre os
projetos, principalmente
aqueles de interesse das
escolas.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
43
I M P O R T A N T E
Os projetos mencionados são apenas alguns
exemplos de uso do audiovisual na educação.
Tratamos aqui da dimensão mais política e
administrativa do uso do audiovisual educativo. O
que vemos nas telas não diz só o que vemos, mas
também porque vemos e porque devemos ver. A
linguagem audiovisual é sempre seletiva, decidir que
programa devemos ver também é. O uso do audiovisual
na educação principalmente é um ato político de muitas
faces. A tela é apenas uma delas. As coisas têm suas
origens e, para efeito desta reflexão que empreendemos,
precisamos pensar que na origem do que vemos está,
quase sempre, a concepção que as pessoas que estão
nos governos têm interesses, não só no audiovisual,
mas também em sua utilização ou não na educação.
Particularmente, gosto muito do programa Salto para o
Futuro, vejo nele inúmeras possibilidades não apenas
de discussão por reunir professores de todo o país,
mas também pelas muitas faces do audiovisual que
congrega. Abre janelas para a televisão, cinema,
artes plásticas, música, em um mesmo programa,
se quisermos. Sou simpática à TV Escola que, ao
meu ver, tem aperfeiçoado seu processo e corrigido
percursos e alguns exageros. Penso que, com ela, a
educação tem muito a ganhar.
UNIDADE 2 - Audiovisual e educação
44
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
46
3.1 Origem
Podemos pensar que as linguagens audiovisuais têm muitas
origens, ou melhor, só podemos pensar assim, pois é mui-
to difícil estabelecer seu início, onde tudo começou. Muitas
névoas encobrem esses primórdios. E, ainda, muitos fatores
concorreram para que a linguagem audiovisual se tornasse o
que é.
A linguagem de que estamos falando é áudio e visual. Se qui-
sermos pensar no que de visual tem essa expressão humana,
as suas origens estão perdidas num tempo quase infinito e
muitos autores, entre eles o historiador da arte Ernst Gombri-
ch (1999), dizem que “ignoramos como a arte começou, tanto
quanto desconhecemos como teve início a linguagem”.
Talvez não possamos dizer há quanto tempo as artes visuais
fazem parte da vida humana, mas podemos ver ainda hoje
sinais claros de que arte acompanha a humanidade desde há
muitas eras; intrigantes pinturas rupestres são encontradas
em muitas partes do planeta. Gombrich (1999) afirma que
a explicação mais provável para essas pinturas rupestres
ainda é a de que trata das mais antigas relíquias da crença
universal no poder produzido pelas imagens; dito em ou-
tras palavras, parece que esses caçadores primitivos imagi-
navam que, se fizessem uma imagem da sua presa – e até a
espicaçassem com suas lanças e machados de pedra –, os
animais verdadeiros também sucumbiriam ao seu poder.
Tudo isso, é claro, não passa de conjecturas [...].
Imagens rupestres instigam a imaginação humana desde
sempre. Da caverna de Lascaux, na França, com seus impres-
sionantes bisões e cavalos às pedras escritas do rio São Joa-
quim na Chapada dos Veadeiros, no planalto central do Brasil,
a inscrição de imagens parece querer dizer algo. O que elas
querem dizer, não sabemos, mas sensibilizados pelas ima-
47
I M P O R T A N T E
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
gens que vemos nos locais onde foram inscritas ou em suas
reproduções, nos resta a imaginação. Podemos fazer conjec-
turas quando as evidências existem, mas não estão comple-
tas, precisamos ainda imaginar. Assim, linguagem audiovisu-
al ainda hoje, como todas as demais linguagens, requer uma
forte dose de imaginação. É por meio dela que completamos
o sentido, não o da coisa em si que vemos e/ou ouvimos, mas
do sentido que construímos para nosso próprio entendimento
do mundo e das coisas que vemos e ouvimos.
Por isso, é sempre bom lembrar que as linguagens da pintura,
das artes visuais e audiovisuais nos ensinam algo de muito
importante: o sentido, o significado das coisas não está só
nelas, mas na relação que estabelecemos com elas. Assim,
o que cada expressão artística quer dizer não tem tanta im-
portância, pois já está dito pelo autor da obra. Importa o que,
cada um de nós, ao nos depararmos com uma obra de arte,
queremos dizer.
Essa forma de relação cognitiva do homem com as coisas
pode, se quisermos, transcender as artes e, de certa forma,
centrar o conhecimento mais no homem e menos nas teorias
ou conceitos. Ver e ouvir o que nos é dito por meios audio-
visuais pode se constituir em um método de se conhecer o
próprio homem e a sua humanidade, para além dos filmes,
programas de tevê, fotografias, pinturas, músicas.
3.2 Arte visual
O cinema tem muitas origens. Milton José de Almeida (1999),
no seu livro Cinema arte da memória, foi buscá-las na Capela
do Scrovegni, em Padova na Itália. Esta capela, construída pe-
los filhos de um rico comerciante italiano, tem o seu interior
pintado em afresco por Giotto. O afresco é um tipo de pintu-
ra mural assim chamado porque a pintura precisa ser feita a
fresco, antes que a massa da parede seque. É um tipo de pin-
tura ligeira e sem retoque, por isso mesmo é exata, não pode
haver erros, do contrário toda a parede precisaria ser refeita.
Portanto, Milton Almeida (1999) fala de um cinema muito ante-
rior à invenção do cinematógrafo dos irmãos Lumière de que
falamos em outro momento.
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
48
Afresco é uma técnica de pintura feita em paredes
ou tetos rebocados enquanto a massa ainda está
úmida. As tintas ou pigmentos usados que devem
ser misturados com água são moídos ou granulados,
para facilitar a penetração na superfície. Duas são
as dificuldades encontradas nesse tipo de pintura:
secagem rápida, pois a tinta não se fixa no reboco
seco, e a dificuldade em fazer correções. O processo do
afresco descora muito os tons, sendo assim os melhores
resultados são obtidos com cores suaves e foscas. A
pintura de afresco atingiu seu maior desenvolvimento
entre os séculos XIII e XVI, tendo a Itália como seu
grande centro. Entre os pintores destacam-se Giotto,
Michelangelo, Lorenzetti.
Quando entramos na Capela do Scrovegni é como se mergu-
lhássemos no azul. Existem outras cores em muitos lugares, mas
a predominância do azul é fortemente percebida. O espaço pe-
queno é aumentado pela sensação de amplidão do azul e pelas
técnicas da perspectiva que já se insinua na pintura de Giotto.
Percebemos ali imagens em seqüência. A seqüência é tem-
poral, numa justaposição cronológica vamos acompanhando
a vida de Jesus Cristo, da anunciação de sua vinda, seu nas-
cimento, vida, morte e glória. O que vemos são imagens da
narrativa fundante do mundo ocidental. Nascemos já imersos
nessa história de mais de dois mil anos, ainda que não pro-
paguemos religiões dela decorrentes. O cinema tem suas ori-
gens na pintura, tem ainda uma origem cristã, é religioso, em
certa medida, na sua forma laica de ser.
Ao encontrarmos uma das origens do cinema na Capela do
Scrovegni, encontramos a perspectiva como a técnica de pin-
tura que permitiu a reprodução da realidade. Concebida em
muitas manifestações culturais no século XIII e seguintes, a
perspectiva ganhou forte expressão na renascença italiana e
a realidade tal como se apresenta passou a ser retratada por
muitos artistas que eram valorizados por sua maestria nas téc-
nicas da perspectiva.
Para Gombrich (1999) “o público que via as obras do artista co-
meçou a julgá-las pela perícia com que a natureza era retratada
Capela do Scrovegni, em
Padova na Itália.
Acesse o endereço
eletrônico http://www.
cappelladegliscrovegni.
it/galleria.htm e veja
o trabalho do pintor
Giotto na Cappella degli
Scrovegni, em Pádua,
Itália.
A Adoração dos Magos, um
exemplo de como Giotto
criava a noção de perspectiva
em seus quadros
49
I M P O R T A N T E
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
e pela riqueza e profusão de pormenores atraentes que o artista
conseguia incluir em suas pinturas. Os artistas, entretanto, que-
riam ir ainda mais além em seus aperfeiçoamentos ” (p. 221).
A arte visual com a introdução da perspectiva, da luz e som-
bra, aproxima-se cada vez mais da realidade das coisas como
elas são. Mais que uma interpretação do real esta arte quer
imitá-lo, representá-lo em suas obras, ainda que seja muito
difícil fugir da interpretação que sempre existe. Estamos sim-
plificando muito ao tratar dessas questões que emergem de
uma complexidade enorme de fatores
Tempo e história representam e são representados em
obras, e o que temos são os registros que muitas dessas
obras são, de fatos, personagens e acontecimentos.
Obras e os contextos em que são urdidos fundem-se e
confundem-se nesse enorme turbilhão de registros que,
fixados em muitos suportes, chegam até os nossos dias.
As técnicas da pintura mudaram não somente as artes visu-
ais, mudaram também a maneira de se olhar para mundo. O
mestre genovês, nascido em 1404, Leon Battista Alberti (1999)
afirma que
divide-se a pintura em três partes; essa divisão nós a
tiramos da própria natureza. Como a pintura se dedica
a representar as coisas vistas, procuremos notar como
são vistas as coisas. Em primeiro lugar, ao se ver uma
coisa, dizemos que ela ocupa um lugar. Neste ponto o
pintor, descrevendo um espaço, dirá que percorrer uma
orla com linha é uma circunscrição. Logo em seguida,
olhando esse espaço, fica sabendo que muitas superfí-
cies desse corpo visto convêm entre si, e então o artista,
marcando-as em seus lugares, dirá que está fazendo uma
composição. Por último, discernimos mais distintamente
as cores e as qualidades das superfícies e, como toda
diferença se origina da luz, com propriedade podemos
chamar sua representação de recepção de luzes. Portan-
to, a pintura resulta da circunscrição, composição e re-
cepção de luz (p. 78).
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
50
Milton José de Almeida (1999) afirma que “aquele
aparato intelectual e técnico, pensado como
ciência, objetivamente produzido par aprisionar
o real, reproduzi-lo e afirmar-se como sua única
e competente representação é a Perspectiva. Suas
linhas tecerão uma malha firme sobre a realidade
visual, religiosa e política e oferecerão aos poderes uma
caixa de ilusão geométrica para a construção de suas
genealogias e mitos. Uma caixa que encerrará em linhas,
luzes e sombras artificiais e estáveis, as linhas, luzes e
sombras da realidade natural e cambiante. Constituirá
em pintura, mais tarde em fotografia e cinema, LOCAIS e
IMAGENS inesquecíveis para serem lembrados. Será uma
estrutura que representará a vida efêmera e transitória em
formas estáveis e permanentes. Como ciência produzirá
os instrumentos para o enquadramento do real e tornará
locais republicanos, burgueses, nobre, tirânico em
LOCAIS e IMAGENS inesquecíveis de riqueza, pobreza,
felicidade e tragédia. Como a Ciência, constituirá a
forma dominante de representação do real e, ao longo
do tempo, serva constante da Política, será O real”
(p. 123-124).
Leonardo da Vinci, em seus escritos organizados e traduzidos
por Eduardo Carreira, faz uma distinção entre a perspectiva natu-
ral e a perspectiva artificial. Na primeira, quando olhamos para as
coisas vemos aquelas que estão mais perto parecendo maiores
e as mais distantes menores. “A perspectiva artificial, no entanto,
dispõe de coisas desiguais a diversas distâncias, cuidando para
que a menor fique mais próxima do olho do que a maior, e a tal
distância que essa maior possa parecer menor do que todas as
outras. A causa disso é o plano vertical no qual essa demons-
tração é representada, cujas partes todas e em toda a extensão
de sua altura, guardam desiguais distâncias em relação ao olho.
Essa diminuição do plano é natural, mas a perspectiva nele re-
presentada é artificial” (CARREIRA, 2000, p. 127).
Existe a perspectiva dada pelas cores, pela luz e pela localização
dos objetos e corpos. Pode parecer um pouco confusa essa ex-
planação de Leonardo da Vinci, mas é importante lembrar que
para chegar até nós os escritos desse pintor passaram, segura-
mente, por muitas traduções. Assim as idéias podem parecer um
pouco vagas, mas não são, pelo menos inteiramente.
51
I M P O R T A N T E
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
Podemos pensar em muitas experiências para compreen-
dermos a perspectiva, muitos lugares podem proporcionar
a nossa observação. Em uma combinação de duas pers-
pectivas podemos ver a Catedral de Brasília, a famosa obra
de Oscar Niemayer. Em seu interior vemos pendidos por
cabos de aço três anjos fundidos em bronze. O primeiro
deles, mais próximo do chão é grande, muito maior que
os outros dois que vão diminuindo de tamanho, sendo o
último o menor deles. Temos ali uma experiência muito in-
teressante de perspectiva e de como uma ilusão de ótica
é traduzida em espaço relativamente pequeno, a Catedral
tem apenas 40 metros de altura, pensado e construído para
ser percebido como muito maior. Penso que os maravilho-
sos anjos de Ceschiatti estão lá também para isso.
Na pintura, a perspectiva que não era sequer considerada
pelos primeiros pintores, consolida-se na Idade Média, mas
será rompida com os pintores modernistas. Aqui a reali-
dade deixa de ser retratada e passa, de certa forma, a ser
considerada como um espaço novo para além dos aspec-
tos que sugerem a pintura e a arte visual. A representação
deixa de ser mimética e passa a ser um espaço criado pelo
ato de pintar e no ato de ver do observador. A modernidade
sugere, sempre, certo afastamento da natureza e isso se
manifesta também nas artes visuais.
3.3 A fotografia
Realizando um grande corte no tempo, vamos aos primórdios
do século XIX, quando as artes visuais são fortemente afetadas
pela fotografia. Novamente podemos perceber que as técnicas
da fotografia também têm muitas origens. Grande parte dos
princípios constituintes da química e da ótica, que vão permitir
a fixação de imagens em papel, já era conhecida bem antes de
acontecer a primeira imagem fotográfica, em torno de 1826.
Não sei se você já teve
a oportunidade de olhar
com cuidado velhos ál-
buns de fotografia. Por
eles passamos as mãos,
os olhos e nesse proces-
so de ver, passa também
o tempo que parece es-
correr das imagens, mas
Anjos de Ceschiatti na
Catedral de Brasília
Acesse o endereço
eletrônico http://www.
pbase.com/alexuchoa/
image/31952122 e veja
os anjos de Ceschiatti da
catedral de Brasília
Edgar Allan Poe (1809
-1849) retratado ao lado,
pelo daguerrotipo, foi
escritor, poeta, romancista,
crítico literário e editor
estado-unidense. Poe
é considerado, um dos
precursores da literatura
de ficção científica.
LORICHON.
Daguerrotipo, 1850.
Edgar Allan Poe
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
52
que ainda está aprisionado nelas. Penso que a fotografia é uma
das experiências mais instigantes da vida humana, desde que a
George Eastman começou a fabricar, no final do século XIX, início
do XX as suas câmera portáteis com a seguinte propaganda: you
press the botton, we do the rest, (você aperta o botão, nós faze-
mos o resto) em muitos cartazes e folhetos. Com isso, a Kodak,
fundada por Eastman em 1892, veio a se transformar em uma
das mais poderosas indústrias de material fotográfico do mundo.
Kodak foi, em muitos momentos, sinônimo de fotografia.
A fotografia, talvez mais que os outros mecanismos de capta-
ção de imagens, parece revestida de substância etérea. Walter
Benjamim (1987) afirma que “já se pressentia, no caso da foto-
grafia, que a hora de sua invenção chegara e vários pesquisa-
dores, trabalhando independentemente, visavam ao mesmo
objetivo: fixar as imagens da câmera obscura, que eram co-
nhecidas desde Leonardo” (p. 91).
A primeira descrição conhecida de uma câmera escura é atri-
buída a Cesare Cesariano, discípulo de Leonardo da Vinci.
Câmera escura, do latim camera obscura, é considerada o pri-
meiro passo para o desenvolvimento da fotografia. Ela se ba-
seia em um fenômeno da luz descoberto pelo filósofo grego
Aristóteles (384-322) e muito utilizada pelo cientista e pintor
italiano Leonardo da Vinci (1452-1519) para pintar alguns de
seus quadros, dando os primeiros passos para a produção de
imagens com o auxílio de um mecanismo ótico.
Outros dizem que o desenho mais antigo de uma câmera es-
cura ou obscura, como o representado pela figura aci-
ma, foi construído em 1544 pelo médico e matemático
holandês Reinerus Gemma-Frisius. A ilustração acima
mostra como esse engenho tinha por objetivo a visão
de eclipses solares sem riscos para os olhos. Só com
o tempo a câmera escura iria se transformar numa pe-
quena caixa portátil usada pelos pintores como auxi-
liar de seu trabalho.
A câmera escura está na origem da fotografia. Quem
primeiro a utilizou é algo em que podemos apenas imaginar e
acreditar. A origem tem muitas ramificações, vem de muitos
lugares e tempos. Quando falamos em origem nem sempre
podemos dar nomes aos personagens, localizar ou datar os
acontecimento. Podemos tentar estabelecer uma gênese da
fotografia, considerando que ela comece quando cientistas e
curiosos buscavam fixar imagens em papel.
Leonardo da Vinci
Câmera Escura, Reinerus
Gemma-Frisius, 1544
53
I M P O R T A N T E
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
Em 1826, o inventor e litógrafo francês Joseph Nicéphore Ni-
épce, pesquisando técnicas para copiar desenho a traço (he-
liogravure), foi convidado para trabalhar com Luis Daguerre.
Tornando-se sócios, esses dois pesquisadores trocaram mui-
tas informações e, em 1839, Daguerre (Niépse já havia morri-
do) anuncia seu novo processo fotográfico à Academia Fran-
cesa de Ciências, realizado por meio do material sensível à luz,
produzido a partir do iodeto de prata. Muitas outras experiên-
cias, com mais ou menos sucesso, aconteceram para que as
modernas técnicas da fotografia se consolidassem.
Nossas câmeras fotográficas digitais não se parecem nem um
pouco com os velhos daguerrotipos, nem em processos, nem
em resultados. No entanto, guardam entre si a possibilidade
de captar instantes no espaço e no tempo.
3.4 A reprodubilidade
A fotografia evoluiu muito depois de sua invenção no início do
século XIX. Mas, além do processo de registro de imagens,
estava inaugurado o processo de reprodução das imagens a
partir de um original. A fotografia pode ter muitas cópias com
a mesma qualidade, a partir de um negativo. Dos filmes, tam-
bém, a partir de um original, são extraídas inúmeras cópias
absolutamente iguais.
Portanto, o acesso que temos hoje a muitas obras da humani-
dade é possível graças às técnicas de reprodução de que tão
bem nos fala Walter Benjamin (1982) em seu estudo A obra de
arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Este autor afirma
que no momento em que são feitas cópias pelo processo foto-
gráfico, a arte, as reproduções de pintura a que temos acesso
justamente por esse processo, perde a aura.
A sua existência única passa a ser uma existência
serial. Essa perda se relaciona com os movimentos de
comunicação de massa e “pela primeira vez no processo
de reprodução da imagem, a mão foi liberada das
responsabilidades artísticas mais importantes, que agora
cabiam unicamente ao olho. [...] Mesmo na reprodução
mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e o
agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em
que ela se encontra” (BENJAMIN, p. 167, 1982).
UNIDADE 3 – Linguagem audiovisual
54
E se as obras perderam a aura, ganha-
ram um número infinitamente maior
de observadores possíveis. Poucos
de nós podemos, por exemplo, visi-
tar a Mona Lisa, o famoso quadro de
Leonardo da Vinci, que está no mu-
seu do Louvre, em Paris. Mas pode-
mos encontrá-la em muitos lugares:
nos livros didáticos, no calendário da
loja, no livro de arte, na internet.
Lembro aqui que essas idéias foram
escritas entre 1935 e 1936, e que o
autor conheceu o cinema, que con-
siderava a expressão maior das pos-
sibilidades da reprodução técnica e
das implicações que esse fenômeno
teria na sociedade, mas não conhe-
ceu a televisão.
Mona Lisa, La Gioconda de
Leonardo da Vinci
Dama com um Arminho,
Retrato de Cecilia Gallerani,
de Leonardo da Vinci
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
56
4.1 A sociedade do espetáculo
Espetáculo é tudo aquilo que chama e prende a atenção. É tam-
bém qualquer apresentação feita para o público. Alguns auto-
res dizem que estamos vivendo uma sociedade do espetáculo,
onde tudo é feito para ser apresentado, representado, da roupa
que se veste ao gesto que se faz. A nossa sociedade industrial
é também uma sociedade espetacular.
Cinema é espetáculo e é também indústria. Envolve uma enor-
midade de pessoas em sua realização. Os estúdios de cinema
são fábricas de audiovisual, embora trabalhem com a dimen-
são artística de cada um dos participantes de sua realização.
Cinema é também uma linha de montagem, ou seja, como tudo
o que chama a atenção, atrai e prende o olhar.
Cinema é sempre espetacular, se não, não é cinema, na sua mais
pura acepção. O cinema criou os grandes planos e as panorâmi-
cas e, da mesma forma, espetacularizou o ínfimo, o detalhe, com
tal nitidez e de uma forma tal, que nenhuma outra linguagem é
capaz de criar. Revela até o que é perfeitamente presente, aquilo
que é apenas pressentido, que não se ouve, nem se vê.
Audiovisual é técnica e tecnologia. O cinema e a televisão são
técnicas audiovisuais que reúnem máquinas capazes de captu-
rar, o que na vida real é efêmero e fugidio, em imagens e sons.
O homem sempre se preocupou em construir
artefatos que o auxiliasse a construir uma memória
artificial. Podemos dizer que para guardar pensamentos
e idéias foi inventado o caderno e o lápis, o tipógrafo e as
tintas. Para guardar imagens criamos a pintura, depois a
fotografia, o cinema, a televisão, com meios magnéticos
e depois digitais. Parece não haver limites para a criação
humana em relação aos audiovisuais.
Da mesma forma que as imagens, os sons são cada vez mais
perfeitos, alcançam uma afinação e ritmos tão perfeitos com
o auxilio dos computadores que quase deixam de ser huma-
nos.
Assisti pela televisão a entrevista de um maestro que dizia
utilizar o computador para fazer suas composições, mas que
depois estudava a obra para introduzir nela algumas imper-
Para aprofundar esse
assunto recomendo a
leitura da A sociedade do
espetáculo (DEBORD, 1997).
A tipografia (do grego
typos – “forma”; e
graphein – “escrita”) é
a arte e o processo de
criação na composição
de um texto, física ou
digitalmente. Assim como
no design gráfico em
geral, o objetivo principal
da tipografia é dar ordem
estrutural e forma à
comunicação impressa.
57
I M P O R T A N T E
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
feições para que pudesse torná-la mais agradável aos ouvi-
dos e, portanto, mais humana.
Imagens e sons são os elementos que encontramos na nature-
za, somos imagens e sons, além de estamos imersos neles. Só
por curiosidade gostaria de lembrar que não existe o silêncio;
silencio absoluto só é conseguido em estúdios de som muito
bons, portanto por um mecanismo artificial de gravação.
O que conseguimos criar com a tecnologia hoje disponível
para registrar imagens e sons permite que o cinema e a te-
levisão produzam imagens de todas as ordens do mais belo
ao monstruoso. Muitos comerciais de 30 segundo para a
televisão apresentam narrativas e imagens muito interes-
santes e criativas. Ainda há pouco tempo vi um filme des-
ses em que legumes voavam para a panela. Não me lembro
o que anunciavam, mas as imagens, para mim, eram lindas,
apesar de possível apenas por meio de registros digitais e
computadores.
Ainda assim, com todos os avanços que a
tecnologia permitiu para a produção audiovisual,
continuamos, talvez porque o ser humano não tenha
mudado tanto assim, buscando compreender as luzes,
as sombras, os enredos, a edição, os sons e as trilhas
sonoras, os cenários e as máquinas que processam tudo
isso permitindo que os audiovisuais façam cada vez
mais parte de nossas vidas.
Leonardo da Vinci dizia:
o olho, que reflete a beleza do universo aos contempla-
dores, é de tanta excelência que quem consente em sua
perda se priva da representação de todas as obras da na-
tureza, cuja visão a alma consola em seu humano cárce-
re. A perda da audição traz consigo a perda de todas as
ciências que têm por as palavras, mas não basta isto para
perder a mundana beleza, a qual consiste na superfície
dos corpos, sejam acidentais ou naturais, que no olho
humano se espelham (CARREIRA, p. 67, 2000).
Muitas coisas mudaram desde da Vinci, pois muitas tecnologias
ajudam a superar as perdas que as pessoas possam ter de seus
sentidos, sobretudo da visão e da audição. Lembrar dessas ques-
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
58
tões pode ser importante para a nossa reflexão sobre audiovisuais.
4.2 Iluminação e tecnologia
Luz e sombra são elementos percebidos pela visão, tanto pela
visão como pela visão das câmeras. A palavra fotografia signifi-
ca registrar a luz, lembremos que as cores são variações da luz.
Sem luz nenhuma cor existiria. Para captar e registrar a luz, preci-
samos saber qual a fonte de luz ilumina a cena ou objeto que de-
sejamos registrar. Nossa fonte de luz é sempre o sol, mas temos
as luzes artificiais que o substituem. Veja a seguir alguns tipos de
iluminação:
• luz baixa: posiciona-se no chão ou em planos inferiores ao
objeto, pessoa ou cena. As iluminações que se posicionam
de forma diversa da nossa fonte principal, que é o sol que
está acima de nós, são sempre mais dramáticas e intensas;
• luz frontal: constrói imagens claras, sem relevo, contraste
e profundidade. Fica uma fotografia chapada, que é aquela
em que todos os planos parecem estar numa mesma cha-
pa plana;
• iluminação lateral: é aquela que deixa o assunto fotogra
-
fado muito escurecido em um lado e muito iluminado
no outro. As imagens ficam como silhuetas quando o
assunto principal está posicionado em local com menos
luz que o fundo. Vemos muito esse tipo de efeito em ima-
gens de gravações domésticas de vídeo, quando são fei-
tas dentro de casa.
É interessante observar os vários tipos de iluminação.
Ao lado, por exemplo, vemos um exemplo de ilumi-
nação lateral (Imagem medieval à esquerda; imagem
do filme E o vento levou... Nos filmes, no cinema a ilu-
minação é mais variada que na televisão que procura
mais clarear os ambientes do que iluminar. Iluminar
pressupõe um estudo maior das fontes de luz e de
seus recortes. Os programas de televisão não se pre-
ocupam muito com essas nuances.
Nas novelas, por exemplo, nos primeiros capítulos, é possível
observar um maior cuidado com iluminação, quando os perso-
nagens estão sendo apresentados ao público e precisam de certo
relevo para expor sua personalidade e caráter, depois com o pas-
sar dos capítulos a iluminação vai ficando cada vez mais chapada
e mocinhos e bandidos aparecem sob a mesma luz.
59
I M P O R T A N T E
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
Os elementos relacionados à luz e sombra sugerem muitos aspec-
tos da narrativa. Os elementos e as sensações dramáticas que um
audiovisual nos transmite estão muito relacionados com a forma
como a luz é composta. Luz e sombra têm muitas acepções.
Convido vocês a observarem a luz e,
claro, também a sombra dos filmes que verão
e a se lembrarem de alguns filmes em que elas
desempenham um papel fundamental. Lembro aqui
de Blade Runner, o caçador de andróides. Esse filme se
passa na cidade de Los Angeles, em 2019, a luz é toda
artificial, a cidade é coberta por nuvens negras de chuva
ácida. O clima é de opressão e as únicas saídas parecem
estar nos anúncios luminoso de néon que cortam o
céu escuro de tempos em tempos. Além disso, chove
todo o tempo. Registre suas idéias no memorial.
No filme Vidas Secas, a luz é de alto-contraste, o que é claro
é muito claro, o que é escuro é muito escuro. Na história que
esse filme conta, a opressão vem do sol e da claridade ofus-
cante que transforma a vida do sertanejo nordestino num ver-
dadeiro inferno que tudo aniquila. Alguns gêneros de filmes
são também associados pelo tipo de luz, o cinema noir ou
dark, são principalmente filmados na noite, ou seja, contam
histórias cujas cena acontecem na noite.
As história contadas por meio da linguagem audiovisual, assim
como as escritas, possuem um enredo, mas não vamos tratar
delas nesse texto. Estudiosos de literatura, escritores, roteiristas
de cinema e televisão sabem que o número de histórias originais
é muito limitado. Alguns falam que existem cerca de 40 histórias
Cenas do filme Blade Runner, o caçador de andróides. USA, direção: Ridley Scoth, 1982.
Vidas secas. Brasil, direção:
Nelson Pereira dos Santos,
1963
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
60
e que todos esses milhares de títulos que vemos retratam ape-
nas as muitas formas diferentes de contar a mesma história.
As histórias revelam a vida humana e por mais rica que seja,
essa vida tem limites e os personagens que contam histórias
vivem segundo um mesmo ciclo vital, nascem, crescem, têm
filhos, estudam, têm amigos, ficam ricos ou pobres, amam,
sofrem, ficam doentes, morrem. Em meio a tudo isso, aconte-
cem as histórias que podiam ser a de uma só pessoa, mas que
também podiam ser a de todos. Por isso, os indianos dizem
que a história que não estiver contida no Mahabharata não
existe. Esse livro é um texto escrito em sânscrito e tem mais
de 90 mil versos e se abre em centenas de plots que podem
ser compreendidos separados dos demais ou reunidos.
Já assistimos a inúmeros filmes e novelas em que muitas histórias se
repetem. Trago como exemplo, a parábola bíblica do filho pródigo.
Filhos, homens e mulheres que saem e voltam para casa, povoam
nosso universo de histórias em audiovisual. Na vida real também,
uma e outra – realidade e ficção – parecem caminhar juntas.
4.3 Áudio
Som, silêncio e a fala, os diálogos e monólogos, compõem o
que chamamos em linguagem audiovisual de trilha sonora. É
chamada assim porque, ao definir a trilha sonora, é definido
o caminho do som. Como cada música, cada silêncio, cada
ruído, cada barulho deve entrar ou surgir nas caixas de som
e como deve interagir com a imagem que aparece na tela.
Hoje, sons e imagens se aproximam de tal maneira, fundindo-
se quase à perda de suas especificidades, dando vida a uma
nova linguagem audiovisual.
A banda sonora, como é também chamado o som no filme e
na televisão, é capaz de alterar completamente a percepção
de uma imagem. De certa forma, o som induz àquilo que se
pretende que o espectador veja ou, então, esconde o que se
deseja que passe despercebido.
O som tem como características a intensidade e a altura. A in-
tensidade ou volume é a força com que o som é produzido; já
a altura é a freqüência ou o número de vibrações que faz o som
ser mais baixo (grave) ou mais alto (agudo). O timbre é percebi-
do pela matéria em vibração. Uma corda de piano é feita de uma
matéria que produz um tipo de som que se distingue do som de
uma flauta, de um pandeiro, de um violão, por exemplo.
O Mahabharata (em
sânscrito, grande Índia)
é o grande épico hindu,
composto pelo sábio
Vyasa, e supõem-se
que data do século 8
a.C. Inspirou o filme
homônimo, onde os atores
eram de nacionalidade e
raças variadas, para indicar
a universalidade dos temas
tratados neste livro.
Plot é o núcleo central da
ação dramática, é o que
interliga as personagens
por meio de problemas,
conflitos, intrigas, paixões,
ódios, rancores, amores.
É o “como” a história
se estrutura. Algumas
histórias, filmes e novelas,
por exemplo, possuem
pequenos plots ou
subplots que se articulam
no decorrer da narrativa.
Sobre esse temas ver o
livro Da criação ao roteiro
(COMPARATO, 1993).
61
I M P O R T A N T E
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
Distinguimos, também, os sons das vozes humanas, uma vez que
as pregas vocais são diferenciadas nos homens e nas mulheres.
Assim, podemos afirmar que o timbre é o colorido do som.
Uma trilha sonora pode ser considerada boa ou ruim depen-
dendo do como são articulados esses elementos. A elabora-
ção de uma banda sonora pode ser comparada à composição
de uma partitura musical. Cada elemento dever ser cuidado-
samente observado para que haja uma harmonia entre cada
tipo de som e destes com imagem. Entre os tipos de som
temos a música, o ruído e o silêncio.
A música é decisiva numa trilha sonora. O
tema musical sempre guarda relação com alguns
personagens ou situações que se repetirão ao longo
do audiovisual constituindo assim um fio condutor da
história.
O ruído tem sua importância na trilha sonora pela força que
reside precisamente em sua capacidade de evocação dos
objetos e dos fenômenos. Assim, o som de uma tempestade
anuncia as imagens que vamos ver ou não na tela. Se não
vemos, podemos – pelo som que ouvimos – imaginá-las. Por
exemplo, o som de um freio de carro no asfalto sugere outras
imagens. Podemos nos lembrar aqui de inúmeras outras situ-
ações em que o som antecipa ou até mesmo substitui a visão
em algumas cenas.
Há um tipo muito particular de som, um anti-som, podería-
mos pensar assim, que é o silêncio. Sobre o silêncio diz Ivan
Illich: “as palavras e as frases compõem-se de silêncios mais
significativos do que os sons. As pausas, cheias de sentido
entre os sons e expressões, transformam-se em pontos lumi-
nosos num vácuo imenso: como os elétrons no átomo, como
os planetas no sistema solar. A linguagem é uma corda de
silêncio com sons nós. [...] Não são tanto os nossos sons que
dão significado, mas é, sim, através das pausas que nós nos
fazemos compreender [...]. O estudo da gramática do silêncio
é uma arte mais difícil de aprender do que a gramática dos
sons (FERREIRA, s/d)”.
E voltando aos sons, estamos acostumados a associar músicas e
personagens no cinema e na tevê. Conhecemos bem essa gramá-
tica, ainda que não prestemos muita atenção nela. Essa associa-
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
62
ção é muito clara na televisão que assistimos quase diariamente.
Somos capazes de relacionar imediatamente os sons que ouvimos
com as imagens que não estamos vendo. Mas temos a certeza de
que estão na tela. As novelas sempre iniciam com o mesmo tema
musical que ouvimos à exaustão por muitos meses.
A vinheta do Jornal Nacional, por exem-
plo, anuncia que é chegada a hora das
notícias apresentadas pelo casal de jor-
nalistas de plantão. O som dessa vinhe-
ta é conhecido de todos, já foi, em certo
sentido, naturalizado e automatizado,
pois ao ouvi-lo sabemos que logo virão
a noticias. É parte da “paisagem” audio-
visual do país e, de certa forma, marca uma cronologia para as
atividades das pessoas, como os velhos sinos das catedrais.
O filme Abril Despedaçado foi rodado nos interior da Bahia,
inspirado no livro do escritor albanês, Ismael Kadaré. Entre
muitos aspectos que esse belo filme retrata, como a luta entre
famílias, uma vendeta, o compromisso dos filhos em seguir o
mesmo caminho dos pais. É um filme feito de muitas lembran-
ças dos personagens e, também, de muitos silêncios. Nele é
possível sentir a eloqüência do vazio, do silêncio, perceber
na linguagem cinematográfica suas possibilidades expressi-
vas. Esses aspectos se desenvolvem nessa vendeta que é o
sentimento de hostilidade e vingança entre famílias ou clãs
rivais, desencadeando assassinatos e atos de vingança mútua
durante anos ou gerações, como ocorre na Córsega e partes
da Itália (HOUAISS, 2004).
No caso do filme, o espírito de vingança entre famílias no nor-
deste brasileiro é provocado por uma série de assassinatos,
os quais são percebidos nos muitos momentos de silêncios
que o filme mostra.
A montagem ou a edição é um dos elementos fundamentais da
linguagem cinematográfica. É considerada o específico fílmico, ou
seja, o que faz do cinema, cinema. Ao realizar a montagem, o dire-
tor do filme seleciona o que será visto, os vazios e os silêncios.
O filme é feito também do que não vemos, para que possamos
completar essas lacunas com a nossa imaginação. Os sons e
a música ajudam muito nesse processo. Talvez, por isso, é
que os filmes podem comprimir o tempo, ou seja, podemos
acompanhar histórias que duram até um século, por exemplo,
em apenas duas horas de projeção.
Vinheta, em televisão,
é o pequeno filme que
introduz os programas.
Vinheta é uma
terminologia tomada
emprestada à imprensa.
Desde os primeiros
livros as vinhetas eram
desenhos, geralmente de
cachos de uva e folhas de
parreira, que separavam os
capítulos.
Abril Despedaçado. Brasil,
direção: Walter Salles, 2000
Sérgio Chapelin e Cid
Moreira - 1972
Cid Moreira e Sérgio
Chapelin - 1991
63
I M P O R T A N T E
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
4.4 O cinema e seus processos
Um filme passa por muitas etapas antes de chegar ao produ-
to final. Primeiro, é realizado o argumento, defini-se o que a
história do filme irá contar. Com base no argumento, é feito
o roteiro literário que transformará a história em linguagem
cinematográfica. Nesse roteiro, os planos são descritos com
detalhes e são marcados os diálogos. Depois, esse roteiro li-
terário é transformado em roteiro técnico. Nele, vão ser acres-
centadas as indicações técnicas da filmagem. O ângulo da câ-
mera, as lentes, o enquadramento, o plano da imagem, a luz, a
movimentação da câmera, a movimentação dos personagens,
todos os detalhes necessários para que o fotógrafo e o diretor
possam trabalhar nas filmagens.
É importante mencionar que os enquadramentos podem ser
considerados como o percurso que a câmera faz em direção
ao objeto filmado, seja movimentos de aproximação ou de
distanciamento. Os planos podem ser gerais, de conjunto,
médios, aproximados e de detalhe:
O espectador identifica-se, pois, menos com o represen-
tado – o próprio espetáculo – do que com aquilo que
anima ou encena o espetáculo, do que com aquilo que
não é visível, mas faz ver, faz ver a partir do mover que
o anima – obrigando-o a ver aquilo que ele, espectador,
vê, sendo esta decerto a função assegurada ao lugar (va-
riável – de posições sucessivas) da câmera” (BAUDRY,
1983, p. 397).
.
O cinema seria, então, o espetáculo visto, aque-
le que é proposto pela câmera, numa relação
direta entre olho e máquina.
Apreender o que os filmes dizem e o que cada
espectador, ao ver o filme, quer dizer, talvez
seja a experiência educativa mais profunda que
o cinema possa proporcionar, como já disse-
mos antes.
O cinema e os audiovisuais podem ensinar mui-
to além do conteúdo que os filmes parecem
apresentar à primeira vista. Ir ao cinema, ver fil-
mes em vídeo ou na tevê são sempre ações que
se confundem em um mesmo processo de fazer
emergir pressentimentos e atribuir sentidos ao que se desen-
rola nas telas, em linguagem feita de imagens e sons.
Plano é a unidade
mínima da narrativa
cinematográfica, expressa
um ponto de vista. Por
isso chamamos de plano
o registro que é feito do
momento em que o botão
de filmagem é acionado
e inicia a gravação e o
momento em que se pára
de filmar ou gravar.
UNIDADE 4 – Fotografia, cinema e televisão
64
São as imagens e os sons que primeiro se
apresentam, mas a linguagem audiovisual, movimento,
cor, é composta de muitos elementos e muitas nuanças,
sintetizados em uma narrativa.
Os elementos que compõem o cinema estão, desde há muito
tempo, partilhando da vida de todos os que habitam este pla-
neta girante. Assim, ver filmes, mesmo aqueles mais banais,
pode ser uma experiência profundamente humana.
Cinema é a primeira arte em movimento. Isso permitiu ser,
também, uma arte para grandes públicos sem pré-requisitos.
Todos podem, rápida e minimamente, compreender um filme,
ainda que a língua do cinema exija, sim, estudos talvez muito
mais profundos e complexos do que a língua escrita. Contar
histórias em imagens e sons é parte do modo de viver do ho-
mem contemporâneo.
Hoje, conforme alardeiam os especialistas, estamos no mun-
do das imagens. Todas as histórias, mesmo as mais antigas,
contadas em filme, trazem nelas aquele certo gosto de atuali-
dade que lhes confere o fato de emergir das telas, sempre de
novo, como se fosse pela primeira vez.
A estória que um filme conta é, também, a história do filme e
a estória que cada espectador assiste. A história de cada um,
espectadores e personagens, é parte da história de todos; em
meio a uma enormidade de fios, entrelaçam-se novos enredos
em muitos plots, sejam eles reais ou ficcionais. Desvelar o que
isso representa para a formação, para a educação e para a apren-
dizagem desse homem contemporâneo é um desafio para todos,
educadores ou não. A linguagem audiovisual atua em uma esfera
que conjuga espaço e tempo, locação e deslocamento, o passa-
do, presente e futuro em permanente transformação.
Cena do filme O tigre e o Dragão, 2000. Cena do filme Onze Homens e Um Segredo, 2001.
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
66
5.1 A sociedade tecnológica
Convido você agora para pensarmos juntos sobre a linguagem
audiovisual na sociedade tecnológica, neste mundo globaliza-
do que se apresenta diante de nós. Gosto de pensar que é
uma possível leitura das linguagens audiovisuais, uma leitura
da imagem, uma leitura do mundo das imagens, que é sempre
uma leitura do mundo. Não vivemos mais somente o mundo
natural, a natureza. Imagens transformam o mundo e dão a
ele uma nova configuração a cada dia.
A paisagem humana, sobretudo a do homem urbano,
está povoada de imagens. Imagens de todos os tipos,
formas e cores. Vivemos em um universo que conjuga
natureza e cultura, e dá a elas quase o mesmo estatuto.
Há, nas cidades, locais estabelecidos para árvores e flores e
locais estabelecidos para outdoors, cartazes e luminosos. Em
meio a essa pretensa organização, que se realiza pelo menos
em projeto, existem os grafiteiros pichando muros e monu-
mentos, enquanto o mato parece querer crescer em qualquer
porção de terra que sobreviva ao asfalto.
Em meio a isso, devemos ler as imagens, o mundo, as palavras.
Textos são apresentados com imagens que pretendem ilustrá-
los. Imagens, no sentido etimológico da palavra, dão glória, es-
clarecem, elucidam o texto. Assim, o texto recebe luz, é ilustra-
do. Imagens são, quase sempre, apresentadas com legendas.
Assim, posso dizer que as palavras, nas imagens, adquirem a
mesma função de uma imagem em um texto: dão glória, escla-
recem, elucidam. Mais que isso, conferem às imagens, quase
sempre, o sentido da atualidade, do imediato, da cultura local,
da ação proposta – quase sempre uma indicação de consumo.
São as legendas, letreiros sobrepostos às imagens, que dão a
elas um local, até mesmo uma nacionalidade, pois muitas das
imagens que vemos nos jornais e na televisão são produzidas
por agências internacionais e vendidas para todo o mundo.
Dessa forma, para Milton José de Almeida (1998):
um texto revela-se pouco a pouco, acumulando sentidos
trazidos pelas palavras, pela sintaxe. A forma texto é tam-
bém a forma de pensar o que o texto diz. Os significados
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
67
I M P O R T A N T E
de como elas se mostram. [...] Um texto é uma imagem.
A imagem, uma gravura, uma pintura, uma fotografia
revelam-se de uma só vez. Permite que o olhar, delimi-
tado somente pelas bordas, comece a vê-la a partir de
qualquer ponto, vagueie por ela em diferentes direções,
permaneça onde quiser, imagine. [...] Os significados das
imagens são também os significados de como elas se
mostram. E aí as imagens tornam-se signos. Então, tam-
bém se lê uma imagem. Uma imagem é um texto.
Esse mundo de imagens parece sugerir que precisamos de
uma outra, ou de outras, lógicas para ler e narrar o mundo
contemporâneo. Narrar também é uma forma de perceber,
compreender e conhecer. É assim que, muitas vezes, ao expor
uma idéia em uma palestra ou aula, aquela idéia vai ficando
mais clara não só para o público, mas também para quem a
expõe, como se a aula que damos fosse também para nós e
não só para os alunos.
Penso que essa é a experiência mais estimulante de um educa-
dor. Conhecemos e expressamos o mundo pela forma como o
narramos. Hoje, imagens narram o mundo. Imagens paradas
são cuidadosamente postas para serem vistas a uma determi-
nada velocidade; carros, ônibus, motocicletas andam rápido.
Precisamos logo aprender a fazer nossas imagens, pois essa é
uma forma de conversar com o mundo, de estar nele.
Vi, já há muito tempo, em uma revista, uma charge que mos-
trava um casal no alto de uma montanha gravando um pôr do
sol. Um dizia ao outro: “estou ansioso para chegar em casa
para vermos esse pôr-do-sol”. O recorte que fiz da revista já o
perdi. Mas gosto de tomar essa idéia para refletir que, tirando
algum exagero, parte das andanças que fazemos pelo mundo
são registradas em imagens. Isso é muito interessante, mas
penso que elas podem compor algum sentido, além de com-
por nossos álbuns em papel e, agora, nossos blogs.
Então, resta-nos uma pergunta: por que fazemos
tantas fotografias e filmes? Penso que nossa
relação com esses equipamentos está, mais uma
vez, transformando-se. Esta pode ser uma reflexão
importante sobre o audiovisual nesses dias de pós-
modernidade em que estamos vivendo.
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
68
Os fatos neste mundo acontecem de
forma rápida; não há tempo a perder.
Há muitas formas de se ver imagens e
imagens são vistas de forma cada vez
mais rápida. No entanto, imagens em
movimento, do cinema e da televisão,
devem ser vistas por pessoas paradas,
sentadas na sala de cinema ou no sofá
de casa, ou, ainda, por aquelas pesso-
as que, só no instante de olhar uma
tela de tevê na loja da esquina, param,
interrompem o longo caminho de seus centros e periferias.
O que se apresenta à visão são sempre espaços e tempos em
constante renovação de formas, em contínua transformação.
Talvez por isso, e se atentarmos para os detalhes, vemos que
as cidades – e também o mundo – podem ser surpreendentes.
Imagens inusitadas surgem a qualquer instante. Isso acontece
todos os dias.
Gosto de observar, e proponho isso a vocês também, que o
caminho que fazemos de casa para o trabalho se de um lado
é sempre o mesmo, de outro se renova a cada dia. Vemos
sempre novas imagens, feitas para serem vista como imagem,
que estão nos cartazes e nos outdoors. E se filmássemos esse
nosso trajeto, as cenas seriam semelhantes, mas guardaria
cada uma das filmagens as sua peculiaridades.
A invenção do cinema – com os instrumentos que, colocan-
do imagens paradas em seqüência, criaram a ilusão do movi-
mento quando projetadas em telas brancas – conformou um
novo olhar. Jamais o mundo seria visto da mesma maneira.
Pasolini (1982) afirma que o cinema é a língua da realidade,
pois transformou o real em signo e, por decorrência, em lin
-
guagem. Doravante, a realidade poderia ser registrada – ainda
que de um só ponto de vista – editada e projetada, criando
assim novas narrativas, novas formas de ver, de interpretar e
de conhecer o mundo.
As narrativas do mundo, em película ou meio eletrônico, pas-
saram a compor um “mundo-representação-de-mundo” que,
em estética, política e magia, concorrem para a construção de
uma nova realidade. Assim, ler o mundo hoje é também ler
imagens que estão no mundo e imagens do mundo que estão
nas telas. Da mesma forma, a nossa vida está impregnada de
palavras.
Pôster do Filme Cortina de
Fumaça, 1995.
Sobre essa temática há
um filme lindo, intitulado
Cortina de Fumaça, USA,
diretor: Wayne Wang,
roteirista: Paul Aster.
A história se passa em
uma tabacaria. O dono
tem a estranha mania
de fotografar o local
todos os dias, durante
14 anos. Nesse cenário
desenvolvem-se muitas e
cativantes histórias. Para
efeito das reflexões que
fazemos neste texto. Vale a
pena ser visto.
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
69
I M P O R T A N T E
Na sociedade, sempre mais urbanizada, talvez a leitura do mun-
do não preceda mais à leitura da palavra, como queria Paulo
Freire. Ler o mundo é também ler, simultaneamente, as palavras
que povoam esse mundo, marcando, sinalizando, indicando.
Lembro aqui que existem muitas histórias sobre pessoas não
alfabetizadas que, por incrível que pudesse parecer a quem já
fosse acostumado ao mundo das palavras, conseguiram ou
conseguiam se deslocar, com relativo sucesso, em megaló-
poles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte. Gosto
de pensar que em todas as cidades com mais de dois mil ha-
bitantes e até um pouco menos, todas as pessoas estão, em
algum momento, de alguma forma, perdidas. No entanto, há
muitas formas de marcar caminhos, não só pelas placas de
sinalização das ruas – importante contribuição das prefeituras
dos lugares –, mas também pelas formas dos luminosos das
lojas, pelas árvores que ficam nas calçadas.
As muitas leituras de nós mesmos e dos outros que o mundo
proporciona fazem com que pessoas, com diferentes níveis
de conhecimentos possíveis, possam estar nos mesmos luga-
res realizando leituras, ações e percebendo o mundo de for-
ma completamente diferente. Tudo se passa como se muitos
universos paralelos pudessem acontecer sempre, sobretudo
nas cidades.
Se quisermos pensar que há uma sincroni-
cidade no universo e que diferentes situa-
ções humanas acontecem ao mesmo tem-
po, só no nosso país, podemos lembrar que
estão documentadas em imagens muitas
faces da cultura que envolve nossas raízes
e tradições milenares dos povos indígenas,
portugueses e africanos.
Quando os filmes são projetados é como se
o passado e o presente fossem fundidos no tempo da pro-
jeção. Toda projeção é sempre no presente. Também sabe-
mos que muitos estágios da nossa e de outras civilizações são
coletâneos. As imagens e sons que temos em película e em
meios eletrônicos sugerem que muitas outras manifestações
da cultura ainda são possíveis, estão por acontecer e por se-
rem registradas.
Há toda uma história a ser contada, imagens a serem mostra-
das, sons a serem ouvidos, de um país que pulsa em inúme-
ras expressões de vida e manifestações culturais. Alfabetizar,
Sincronicidade é a
qualidade do que acontece
ao mesmo tempo. Nas
teorias de Carl Jung é
a coincidência de um
estado psíquico com um
acontecimento exterior
correspondente que
esta fora do campo de
percepção da pessoa.
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
70
como acesso ao mundo da escrita, deve ser entendido tam-
bém como alfabetizar na linguagem audiovisual, aprender a
ler o mundo por meio das imagens e das palavras, isso sugere
uma compreensão da cultura e do sentido de liberdade que
envolve cada ato humano, individual ou coletivo.
Assim, para Amílcar Cabral (1976):
uma apreciação correta do papel da cultura no movimen-
to de pré-independência ou de libertação requer uma
distinção precisa entre cultura e manifestações culturais.
Cultura é a síntese dinâmica, no plano da consciência in-
dividual ou coletiva, da realidade histórica, material e es-
piritual de uma sociedade ou de um grupo humano, sín-
tese que abarca tanto as relações homem/natureza como
as relações entre os homens e as categorias sociais. Por
sua vez, manifestações culturais são as diferentes formas
que exprimem essa síntese, individual e coletivamente,
em cada etapa da evolução da sociedade ou do grupo
humano em questão.
As muitas imagens dos documentários cinematográficos, te-
levisivos e videográficos, sobre o povo brasileiro, constituído
de descendentes de europeus, de africanos e dos próprios ín-
dios deste país, retratam a multiplicidade de manifestações
culturais que constituem a cultura nacional. Imagens regis-
tradas, por meio de qualquer suporte, compõem um tipo de
memória artificial. Realizamos fotografias, filmes, vídeos para
transformar o que vemos em imagens inesquecíveis.
Essas imagens vão compor um acervo da memória e podem
ficar latentes durante certo tempo, mas podem, igualmen-
te, despertar em outras narrativas, em outro tempo e lugar.
Alguns dos vídeos já realizados sobre a cultura do país têm
UNIDADE 5 – O audiovisual e sua reprodução
71
I M P O R T A N T E
um pouco essa peculiaridade, embora tratando de universos
bem distintos.
Realizei, em 1986, um vídeo em que foi documentada uma
experiência de alfabetização de adultos com o método Paulo
Freire. Trata-se de uma situação de alfabetização de adultos
em uma cidade satélite de Brasília e que permanece, ainda,
como ação exemplar para muitos que se envolvem com o tra-
balho de alfabetizar adultos no Distrito Federal e fora dele.
Quase 20 anos depois, graças às técnicas de digitalização,
esse trabalho, feito originalmente no formato Umatic e copia-
do em VHS, foi transformado em DVD, ganhando assim uma
sobrevida bem maior.
As pessoas e as situações retratadas nos vídeos já não são as
mesmas, tomaram seus rumos naturais na vida. Mas restam
suas imagens, suas ações que insistem em permanecer nas fi-
tas, até que o desgaste pelo uso e o próprio tempo se incum-
bam de apagá-las, como a situação real, sempre efêmera e fugi-
dia, que deu origem a elas e que, há muito, não existe mais.
A título de reflexão, quero reafirmar aqui algumas idéias que
desenvolvi no livro O estúdio de televisão e a educação da
memória, que trás a idéia de que as histórias apresentadas
não se desenvolvem no tempo do programa, do filme, do ví-
deo. Elas tiveram um tempo anterior e continuarão até um
desenlace, o qual os telespectadores não assistirão. A sua
ação dramática, trágica ou cômica, com um valor de teste-
munho agregado, é apenas aludida. É a nossa inteligibilidade
das linguagens audiovisuais que nos permite olhar cada um
dos fragmentos da história apresentados e compreendê-los
no seu caráter exemplar, em toda a sua extensão e complexi-
dade (COUTINHO, 2003).
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
74
6.1 Entre a memória e o aprendizado
As primeiras lembranças da vida são lembranças visuais.
A vida, na lembrança, torna-se um filme mudo. Todos
nós temos na mente a imagem que é a primeira, ou uma
das primeiras, da nossa vida. Essa imagem é um signo, e,
para sermos mais exatos, um signo lingüístico, comunica
ou expressa alguma coisa. (PASOLINI, 1990, p. 125).
Assim como a primeira imagem da vida, a que se refere Pasolini
(1990), cada um de nós traz consigo a imagem da sua primeira
escola ou ainda a primeira imagem de uma escola, mesmo
que esta nem tenha sido a nossa. O primeiro professor ou
professora também podem compor nosso banco pessoal de
imagens escolares, assim como os primeiros colegas de tur-
ma, lembrados por meio de uma fotografia.
Todas essas imagens ensinam e conformam a idéia que vamos
ter dos lugares sociais por onde transitamos. É assim com a
escola, a família, o trabalho, a cidade, os hospitais, os hospí-
cios, as prisões, etc. O mundo de muitas pessoas é o mundo
das imagens que escolheram e muitas delas são imagens do
cinema e da televisão.
O que acontece nesses processos audiovisuais?
Criam imagens que são, ao mesmo tempo, imaginárias
por não terem existência material como reais, por
serem a expressão de coisas e pessoas com as quais
convivemos em nossas lembranças. E as lembranças têm
origem em muitos lugares e situações: nas histórias que
ouvimos em casa, nas experiências pessoais de cada
um, na televisão, nos filmes. Por isso, agrado-me muito
com a idéia de que o cinema é uma arte da memória.
As cenas que vemos estampadas nas telas não dizem somente
daquelas personagens, cuja história se desenvolve à nossa fren-
te, no tempo que durar a projeção, mas remetem a todas as ou-
tras histórias e personagens que habitam as nossas lembranças.
O cinema, com alguns dos seus filmes, faz-nos até mesmo sentir
saudade de lugares aonde nunca pisamos e de pessoas com as
quais jamais estivemos. Isso realiza-se na realidade e na ficção.
No cinema, encontra-se os ambientes nos quais nos
(re)conhecemos claramente, pois sugerem ações, comporta-
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
75
I M P O R T A N T E
mentos, atitudes que podem, além de nos fazer olhar para o
filme, olhar também para os lugares onde vivemos e, igual-
mente, para a vida que levamos em casa, na cidade, na escola,
no trabalho. Disse “(re)conhecemos”, porque, embora possa-
mos ver os lugares ficcionados que o cinema e a televisão
apresentam, pela primeira vez, os mecanismos de construção
da linguagem cinematográfica ativam as lembranças e, assim,
vemos as imagens na tela não somente com o que objetiva-
mente nos mostram, mas também em reminiscências.
Por meio da linguagem do cinema, é possível ver
tudo o que as imagens nos sugerem. No momento da
projeção, acontece sempre um jogo entre a objetividade
das imagens e a subjetividade das lembranças de cada
um dos espectadores. É nesse jogo, nesse espaço que é
possível construir o sentido da narrativa que vemos.
Por isso, o cinema na escola pode ser tão rico. Mais do que os
conteúdos que cada filme possa trazer, a presença do cinema,
da televisão, dos vídeos, na escola, podem se constituir em
momentos de reflexão que transcendam os próprios filmes e
incluam o olhar de cada um à narrativa que o diretor propôs e
nos ofereceu, em imagens e sons.
Quando vamos ao cinema, às salas escuras de projeção, ao
final, as imagens, as histórias, os personagens nos acompa-
nham, solitárias, para além do filme, às vezes, para sempre.
Na escola, quando o filme termina, é possível conversar sobre
ele e construir uma outra história ou quantas histórias cada
pessoa que viu quiser acrescentar.
São muitas as razões que justificam a
presença dos audiovisuais na escola.
A sala de aula não é uma sala de cine-
ma ou uma sala de estar, no limite uma
home theater. Talvez por isso mesmo
possa se constituir em um outro am-
biente, que não é nem um nem outro,
nem a simples soma dos dois. Pode
se transformar em algo novo, tão ou
mais rico em possibilidades expressi-
vas e reflexivas. Os filmes, na escola,
são projetados em telas de televisão
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
76
ou em telas próprias para projetores multimídias. Essas proje-
ções proporcionam outras formas de ver. Pode-se parar o fil-
me, voltar a fita, ver novamente. Acontece uma outra relação
com os filmes que, no cinema, uma vez iniciados, os filmes se-
guem certo percurso espaço-temporal sem ser interrompido.
Ainda que o espectador possa levantar e sair da sala, o filme
prossegue, a menos que falte luz.
Professores e alunos podem utilizar filmes por muitos motivos:
para enriquecer o conteúdo das matérias, para introduzir novas
linguagens à experiência escolar, para motivar os alunos para
certo tipo de aprendizagem, para o desempenho de determina-
da função, para entretenimento. Não que o cinema chegue na
escola sem conflitos. Talvez o cinema na escola deva mesmo
se constituir em oportunidades para a explicitação dos conflitos
com os quais a escola e a educação têm de lidar.
Nesse sentido, Milton José de Almeida (1999) afirma que
o filme é produzido dentro de um projeto artístico, cultu-
ral e de mercado – um objeto da cultura para ser consu-
mido dentro da liberdade maior ou menor do mercado.
Porém, quando é apresentado na escola, a primeira per-
gunta que se faz é: adequado para que série, que disci-
plina, que idade, etc. Às vezes, ouvimos dizer que um
filme não pode ser passado para a 6
a
série, por exemplo,
e, no entanto ele é assistido em casa pelos alunos, jun-
tamente com seus pais. [... A escola] está presa àquela
pergunta sobre a adequação, à idéia de fases, ao currícu-
lo, ao programa. Parece que a escola está em constante
desatualização, que é sublinhada pela separação entre
a cultura e a educação. A cultura localizada num saber-
fazer e a escola num saber-usar e, nesse saber-usar res-
trito, desqualifica-se o educador, que vai ser sempre um
instrumentista desatualizado (p. 8).
Compreendo a provocação proposta por Milton Almeida
(1999) como um desafio a todos os educadores que estão nas
escolas e encontram nos filmes e na linguagem cinematográ-
fica uma forma de ver o mundo em seus múltiplos cenários.
Um dos múltiplos cenários que o cinema contempla é a pró-
pria escola. Inúmeros filmes tratam dela. Assim, direta ou in-
diretamente, os filmes nos ajudam a construir nossa imagem
de escola, de professores, de alunos e, até mesmo, da forma
como a educação escolarizada se insere ou deve se inserir na
sociedade.
É bom lembrar, portanto,
que estamos falando de
linguagens que dependem
de energia elétrica. Na
televisão é possível
desligar a tevê ou, ainda,
usar o controle remoto
para compor uma nova
programação, mas aquela
anterior prossegue.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
77
I M P O R T A N T E
Convido, então, a uma breve reflexão sobre como
a escola é vista pelo cinema, ou como alguns filmes
tratam as relações que ocorrem nesse espaço social.
Os personagens que por ali transitam os papéis que
desempenham, as tramas, os desafios, os conflitos.
Penso que a filmografia que tem a escola como cenário
principal da narrativa não é tão extensa quanto a que
tem como cenário as prisões, por exemplo. Talvez
porque para haver um filme é preciso algum tipo de
conflito e, nas prisões, isso é mais evidente do que nas
escolas, tem mais impacto visual.
É bom lembrar que estamos falando de filmes de ficção e não de
documentários. Mas na televisão a história se repete, há muito
mais notícias sobre prisões, delegacias, assaltos do que de es-
colas, salas de aula, recreios escolares. Imagens de cinema e de
televisão necessitam de muito movimento e, claro, de conflitos.
6.2 A escola no cinema
Voltando às escolas, existem filmes que tratam de situações
escolares e educacionais, e, ainda, de outras coisas que acon-
tecem dentro das escolas. Alguns deles têm as escolas como
referência ou pano de fundo. Penso que o que professores
e alunos buscam, ao levar esses filmes para a escola, são as
situações exemplares que o cinema tão bem retrata.
Não quero aqui restringir o que chamo de exemplar, a simples
exemplo a ser seguido. Talvez fosse melhor dizer modelar,
como alguma coisa que pode conformar a nossa imaginação
e a nossa memória e, até mesmo, a nossa maneira de perce-
ber o mundo e a sociedade que nos cerca. Encontrei em mui-
tos escritos, filmes, programas de tevê, uma idéia sobre isso e
que pode ser traduzida mais ou menos assim: toda imagina-
ção é uma espécie de memória.
Assim, retorno ao que já expus no início do texto: a linguagem
cinematográfica, os filmes que vemos – na escola ou fora dela
– as situações que imaginamos depois dos filmes, irão com-
por, em estética e magia, a memória de cada um.
A idéia que cada um de nós tem de escola transita, em realida-
de e ficção, pelas imagens reais das escolas onde estivemos
Esta frase, em negrito,
encontrei no livro
de Shirley Maclaine,
(Dançando na luz, Rio de
Janeiro: Record, 1987, p.
37.) que, talvez não por
acaso, é atriz e roteirista,
embora esse livro não trate
de cinema.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
78
e imagens ficcionais que conhecemos através do cinema, da
televisão. Recorremos às nossas lembranças, sejam elas boas
ou ruins, sempre que queremos imaginar, projetar ou criar algo
novo. Ensinar, aprender, estudar, pesquisar, são atos de cria-
ção; recorrer aos filmes pode ser apenas parte desse esforço
criativo que empreendemos na escola, na vida, no trabalho.
O mundo, visto pelo cinema e pela televisão, tem matizes pró-
prios. Embora retratem a vida como ela é, cheia de contradi-
ções, as histórias apontam para a transformação, a mudança.
Talvez porque a escola seja mesmo um ambiente propício às
mudanças ou porque o filme não se concretizaria sem que
cumprisse a sua estrutura narrativa: apresentação, desenvol-
vimento, conflito, clímax, desenlace.
A narrativa parece ser o modo mais simples e eficaz de
nosso conhecimento, o modo pelo qual apresentamos
o mundo e os homens de forma que, por um momen-
to, sejam inteligíveis para nós mesmos. Conhecer pode
ser apenas isto: contar uma história onde o espaço e o
tempo do mundo se conjugam na sucessão linear dos
acontecimentos (LÁZARO, 1998, p. 151).
Muitas das escolas que conhecemos nos filmes trazem a mar-
ca da sociedade americana. Somos alfabetizados audiovisual-
mente pelo cinema feito nos Estados Unidos. Gosto da idéia
de que o cinema americano é o maior do mundo porque re-
trata uma sociedade que acredita no milagre. Talvez por isso
mesmo tenha se apropriado, como nenhuma outra, da lingua-
gem cinematográfica e feito dela uma de suas mais poderosas
indústrias. Pequenos milagres se realizam a cada filme. Como
a redenção da escola pobre, de bairro mais pobre ainda, como
é mostrado no filme Meu mestre, minha vida, do diretor John
G. Avildsen, 1989. Lá os alunos estavam reféns de traficantes,
vândalos e toda sorte de bandidos e, pela intervenção de um
novo diretor com métodos nada convencionais de ensinar e
administrar uma instituição escolar, conseguem vencer o exa-
me estadual em tempo recorde.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
79
I M P O R T A N T E
Lembro que este filme deixa claro o fato de
basear-se em uma história real. Uma vez mais
realidade e ficção se fundem para realizar o milagre
de uma sociedade estratificada, hierarquizada,
legalista, centrada no esforço individual e na vida
comunitária, qual seja, formar vencedores. E o que é
ser um vencedor? A resposta a esta pergunta, podemos
encontrar em quase todas as imagens do filme, mas,
sobretudo, num dos discursos do diretor a seus alunos:
“precisamos mudar esta escola, pois vocês estão muito
longe do sonho americano que vemos na tevê”. Mas
uma vez vemos as narrativas audiovisuais – do cinema
e da televisão – constituindo a vida de uma nação, ou
pelo menos o seu imaginário.
São muitas as histórias que envolvem a escola que o cine-
ma retrata, posso citar algumas: A corrente do bem, 2000;
Conrak, 1974; Sociedade dos poetas mortos,1989; Perfume
de mulher,1992; Adeus meninos, 1987. Assistimos a histórias
completamente possíveis, não há nelas nenhum efeito espe-
cial de linguagem. Os professores, sobretudo os diretores, os
alunos e os pais cumprem a sua função e seu papel. Esses per-
sonagens estão ora mais próximos do herói redentor, ora do
bandido mais prosaico. A magia do cinema está no próprio
cinema, devido à sua linguagem que se expressa por meio da
realidade, mesmo sendo ficção.
Cena do filme Corrente do Bem, 2000. Cena do filme Escola de Rock, 2003.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
80
Encontrei poucos filmes brasileiros que passam em escolas.
É bom lembrar que a nossa filmografia não é mesmo muito
extensa por muitos motivos que não cabem nesta unidade.
Pensei que, talvez, diferentemente dos americanos, sejamos
um povo que não acredita no milagre, mas na vida como ela é.
Talvez, por isso, não estejamos cuidando o bastante do nosso
ensino público e tenhamos deixado o cinema para os ame-
ricanos e para alguns poucos obstinados conterrâneos que,
além de acreditar no milagre do cinema, acreditam também
neste país.
Para encerrar esta nossa reflexão, recorro a Jean-Claude
Carrière ao afirmar que a nação que não produz suas próprias
imagens está fadada a desaparecer. Por isso, penso no cine-
ma, produzidos por países que se dão a conhecer por seus
filmes de forma completamente diversa da que vemos nos
noticiários da tevê. A tevê nos revela imagens construídas por
um olhar estrangeiro. Os filmes por um olhar próprio.
É assim, por exemplo, o filme Os filhos do paraíso, 1997, pois
trata com delicadeza e poesia uma situação escolar. Muito di-
ferente do que vemos no cinema americano, embora a edu-
cação para todos os povos se constitua em um processo de
transformação.
Talvez não seja exagero dizer, e se o for, deixo como forma
de provocar o debate, que a nação que não recorrer às suas
próprias imagens para educar suas crianças e seus jovens
estará fadada a desaparecer duplamente. Mas, como lembra
Manoel de Barros (1998), o mundo não foi feito somente em
alfabeto ou em linguagens audiovisuais. Talvez possamos reu-
nir todas as linguagens e construir “uma didática da invenção”
(BARROS, 1998).
6.3 Fim
Para encerrar a nossa conversa sobre imagens e sons, temos visto
que o papel que os audiovisuais assumem no mundo em que vi-
vemos é cada vez mais importante. Fica difícil imaginar um mundo
sem o Jornal Nacional, a novela das “nove horas”, os programas
enfadonhos das tardes de domingo, a Casa dos Artistas, o Big
Brother e tantos outros.
Cinema e televisão fluem em tempos diferentes. Um filme termi-
na, a televisão parece não terminar nunca. Sobre isso, escrevi em
meu livro O estúdio de televisão e a educação da memória que:
Jean-Claude Carrière
é roteirista e escritor,
presidente da FEMIS,
Escola Francesa de
Cinema e autor do livro
A linguagem secreta do
cinema. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1995.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
81
I M P O R T A N T E
o tempo da tevê não é o da vida após a morte de que
fala Pier Paolo Pasolini, mas o tempo moto continuum,
onde todo fim já indicaria novo começo, prescindindo
assim de um juízo final que pudesse fazer aflorar o sen-
tido profundo da narrativa. Talvez, por essa razão, seja
mais difícil encontrar uma crítica mais consistente sobre
a televisão, como encontramos do cinema. A televisão
não morre. Quando muito, ela adormeceria. E enquan-
to ela não morre, permanece indecifrável (COUTINHO,
2003, p. 49).
Quero, ainda, insistir nesse tema. Creio que ele é uma das
nuances mais sutis da linguagem audiovisual. Aprendi com
Pasolini (1982) que o filme tem a mesma estrutura da vida.
Podemos viver durante longo tempo como pessoas
honestas, cumpridoras de seus deveres, sermos bons
filhos, bons pais, mas se, no final da vida, alguma ação
é feita em outro sentido, por exemplo matamos alguém,
toda a nossa vida será resignificada. Assim, é o filme,
pois só podemos construir um sentido no final vendo-o
todo, se saímos, por acaso, antes do fim, podemos ter
apenas um sentido parcial da obra.
Por isso, vemos que antes do cinema a nossa forma de olhar
era outra:
Antes do cinema, você olhava para a sua vida da mes-
ma forma que um despreparado ouvinte de um concer-
to ouve a orquestra executando uma sinfonia. O que ele
ouve apenas é a melodia principal, enquanto que todo
o resto se confunde num ruído geral. Somente os que
conseguem distinguir a arquitetura dos contrapontos
de cada trecho da partitura é que podem realmente en-
tender e apreciar a música. E é assim que vemos a vida:
só a melodia principal chega aos olhos. Mas um bom
filme, com seus close-ups, revela as partes mais recôn-
ditas de nossa vida polifônica, além de nos ensinar a ver
os intrincados detalhes visuais da vida, da mesma for-
ma que uma pessoa lê uma partitura orquestral (BALÁZ,
1983, p. 90).
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
82
Você entra numa sala de cinema, apagam-se as luzes, ilumina-
se a tela. Uma sucessão de imagens, cores, luzes, sombras e
sonoridades preenche o espaço entre você e os personagens
que compõem a história, que se desenrola à sua frente, re-
constrói aquela narrativa cinematográfica.
Um filme é sempre visto como se fosse a primeira vez, mesmo
que você o tenha visto antes, ou ainda que o veja depois. A
linguagem cinematográfica conduz o espectador a um tempo
inaugural, sempre no presente. Primeiro a escuridão, minutos
depois a luz se faz. Tudo se passa, então, como se o filme, ao
apreender determinado tempo, pudesse transformá-lo em um
eterno presente. E é para esse presente que o espectador é
transportado a cada nova projeção.
As pessoas vão ao cinema em busca do tempo,
do tempo perdido da história, do tempo das muitas
histórias que os filmes contam. Este, talvez, seja o maior
poder do cinema: o de enriquecer a experiência viva e
presente de uma pessoa.
Por isso, repito que o filme está sempre no presente, mesmo
quando procura retratar histórias acontecidas em tempos re-
motos. Assim, o cinema inaugura uma maneira nova de estar e
de olhar para o mundo e, mais ainda, estabelece uma nova for-
ma de inteligibilidade. Depois do cinema, as pessoas passaram
a contar com um instrumento poderoso de conhecimento do
mundo, de si próprias, do comportamento humano, de lugares,
de situações, da história. Jamais o homem esteve tão exposto
com todas as suas virtudes e mazelas como no cinema.
Pela força que a imagem visual adquiriu, as narrativas do ci-
nema são aquelas que, em quantidade e intensidade, povoam
a imaginação de um número significativo de pessoas; perso-
nagens de filmes passam a compor certo imaginário coletivo,
de tal forma que transcendem o universo ficcional e, como
figuras exemplares de virtudes ou de vícios, transitam pela
vida de quem anda pela cidade, pela escola, pela academia e
institutos de pesquisa, de quem vê televisão.
É, sobretudo, por meio do aparato televisivo – emissoras com
canais abertos e por assinatura e, ainda, com o videocassete
– que o cinema, os filmes e seus personagens expandiram as
possibilidades de exposição, alcançando níveis antes inimagi-
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
83
I M P O R T A N T E
náveis. Se por um lado o cinema perdeu o requinte da proje-
ção em tela branca na sala escura, com acústica apropriada,
com um número reduzido de lugares, por outro ganhou a rua,
a escola, a casa, o ambiente de trabalho, a sala de espera.
Depois dessa pequena digressão, retomo a reflexão que fazia
sobre a linguagem do cinema, que tem como elemento essen-
cial a realidade, ainda que esta seja, quase sempre, criada em
estúdios. Algumas cenas de filme são rodadas em ambientes
naturais que não foram criados originalmente para o cinema,
mas servem como locais onde a narrativa se desenrola. São as
filmagens feitas em locações que podem estar a quilômetros de
onde se passa a história que o filme quer contar. As locações e
os cenários artificiais dos estúdios cinematográficos procuram
reproduzir a realidade com toda a verossimilhança possível.
Mais do que uma realidade composta de elementos reco-
nhecidos, identificados, verdadeiros, o cinema cria imagens
e sons que possam construir para o espectador uma sensa-
ção de realidade. Assim, o cinema cria uma linguagem que
expressa o real, com toda a multiplicidade de aspectos que
o compõem. Muitos destes aspectos não são vistos ou ouvi-
dos objetivamente, são apenas sugeridos. Alguns podem ser
encontrados no espaço que Gilles Deleuze (1985) chamou de
extra-campo ou espaço-off. O extra-campo pode ter duas na-
turezas distintas:
um aspecto relativo, através do qual um sistema fechado
remete a um conjunto que não se vê e que pode, por sua
vez, vir a ser visto, com o risco de suscitar um novo con-
junto não visto ao infinito; um aspecto absoluto, através
do que o sistema fechado se abre para uma duração ima-
nente ao todo do universo, que não pertence à ordem do
visível (DELEUZE, 1985, p. 29).
Para Pier Paolo Pasolini (1990), “o cinema não evoca a realida-
de como a língua da literatura; não copia a realidade como a
pintura; não mima a realidade como o teatro. O cinema repro-
duz a realidade: imagem e som! E reproduzindo a realidade,
que faz o cinema então? Expressa a realidade pela realidade”.
Esse mesmo autor ainda afirma, já em outro texto, que sobre
esse novo olhar que o cinema cria: “nada como fazer um fil-
me obriga a olhar as coisas. O olhar de um literato sobre uma
paisagem, campestre ou urbana, pode excluir uma infinidade
de coisas, recortando do conjunto só as que o emocionam ou
lhe servem” (PASOLINI, 1990, p. 107).
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
84
O olhar de um cineasta, sobre a paisagem, não pode deixar,
pelo contrário, de tomar consciência de todas as coisas que ali
se encontram, quase as enumerando. De fato, enquanto para
o literato as coisas estão destinadas a se tornar palavras, isto
é, símbolos, na expressão de um cineasta as coisas continu-
am sendo coisas: os signos do sistema verbal são, portanto,
simbólicos e convencionais, ao passo que os signos do siste-
ma cinematográfico são efetivamente as próprias coisas, na
sua materialidade e na sua realidade (PASOLINI, 1982).
O cinema é feito de imagens e sons em seqüência e, embora
se expressando por meio da realidade, convencionou uma lin-
guagem que revela um modo de ver completamente artificial,
criado por meio do olhar ciclópico das câmeras e de todo o
aparato tecnológico que está presente desde o momento da
captação das imagens até o instante em que surgem, ilumi-
nando as telas e contando todos os tipos de dramas, comé-
dias, tragédias, reais ou fictícias.
As inúmeras possibilidades do olhar que a câmera criou, as
múltiplas formas de aproximação e distanciamento que vão
dos enormes planos gerais ao close-up, os enquadramentos
e movimentos que as novas tecnologias de captação de ima-
gens permitem, quando percorrem grandes distâncias indo de
um ponto de vista a outro na mesma tomada, deram origem à
linguagem cinematográfica atual e, ao mesmo tempo, altera-
ram irreversivelmente a própria percepção visual das pessoas
e, por isso, a própria realidade em que vivem.
Tudo isso acontece no mesmo espaço 4x3 das telas, que per-
manece inalterado enquanto objetos, pessoas e detalhes au-
mentam ou diminuem à frente do espectador, que está acos-
tumado com a forma de expressar que o cinema inventou,
pois já nasceu mergulhado nesse universo de imagens criadas
pela linguagem cinematográfica. As cabeças decepadas do iní-
cio do cinema já não surpreendem mais (CANEVACCI, 1990),
porque o espectador aprendeu, cedo, como todas as pessoas
com as quais convive, a decifrar os códigos do cinema que
perpassam as relações da sociedade contemporânea.
Todo espectador é capaz de perceber, identificar e reconstituir,
por inteiro, a imagem que se apresenta fragmentada na tela,
um big close é hoje tão natural quanto qualquer figura que
aparece inteira na tela. Posso dizer que é natural apenas no
cinema, pois essa não é uma experiência que as pessoas pos-
sam ter sem contar com os aparatos de captação e tratamento
Olhar ciclópico, relativo
a ciclope, que segundo o
dicionário Houssais, na
mitologia grega, era uma
designação comum aos
gigantes com um olho
único e redondo na testa,
os quais se caracterizam
pela força prodigiosa e
pelo gênio laborioso.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
85
I M P O R T A N T E
de imagem – câmera, lentes, gravadores, editores.
A linguagem cinematográfica é o resultado de um processo
de elaboração que envolveu muitas escolhas e precisou de
certo tempo para tornar-se a linguagem global como é hoje.
Jean-Claude Carrière (1995) conta que, no início do cinema,
para que espectadores entendessem a narrativa, havia a figu-
ra do explicador, uma pessoa que, postada ao lado da tela, ia
fazendo a relação entre as imagens e contando a história.
Ninguém vê enquadrado ou mesmo se aproxima de tal manei-
ra de coisas e pessoas para captar determinados detalhes que
compõem muitas narrativas fílmicas. São lentes especiais que
realizam esse trabalho. Essa naturalização da linguagem faz
que não haja uma maior preocupação com ela. Ver um filme é
algo trivial para alguém que nasceu no século passado.
O olhar enquadrado é parte essencial e corriqueira
do viver contemporâneo, mas requer uma infinidade
de técnicos e profissionais, o qual movimenta
uma indústria poderosa que lança, no mercado dos
consumidores de histórias, uma profusão cada vez
maior de narrativas, procurando atender a todos os
gêneros e gostos.
Um filme é feito de tudo o que vemos estampado na tela e
ouvimos pelas caixas de som, mas também por tudo o que
os cortes que conduzem o olhar do espectador de uma para
outra cena evocam. Os vazios entre os planos supõem uma
supressão temporal e abrem o espaço para a imaginação do
espectador. Por isso, talvez, o procedimento da montagem do
filme é chamado de específico fílmico, ou seja, aquilo que faz
do cinema, cinema. Traduz a essência da linguagem cinema-
tográfica e diferencia o cinema da realidade da qual se destaca
e se separa.
A realidade, diz Pasolini (1982), seria um plano-seqüência in-
finito e o filme, ao contrário, um plano-seqüência finito, pois
começa, desenvolve-se e termina. O filme é feito de tudo o
que se oferece à visão e, igualmente, do que não será vis-
to. Alguns elementos serão apenas sugeridos e irão compor
os vazios, os intervalos que, no cinema, são tão significativos
quanto o que as imagens e sons explicitam.
Visite o site www.cineduc.
org.br com rica produção
na área do cinema e
educação, abrange
aspectos da história do
cinema e de atualidades.
Instituição que se dedica
a ensinar linguagens
audiovisuais para crianças
e adolescentes.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
86
É nesse intervalo que os sentidos conversam: o sentido do
filme que o diretor quis expressar e o sentido acrescido de
quem o vê. Assim, posso dizer também que o filme é sempre
uma obra aberta. Não se presta a uma única interpretação.
Pode ser visto e revisto de várias maneiras, tudo fica a depen-
der do contexto, da capacidade, do interesse, das expectati-
vas de quem vê.
O cinema cria uma linguagem específica, portanto,
uma inteligibilidade peculiar. Assim, ao pensar o
cinema, a escola pode também refletir sobre a educação
que realiza, os métodos, o programa e até mesmo a sua
organização. Como os filmes – e com eles a linguagem
cinematográfica – chegam à escola, à sala de aula, aos
ambientes educacionais? Registre sua opinião em seu
memorial.
Nessa unidade dedicamos, prioritariamente, aos filmes produ-
tos da cultura, manifestações estético-culturais, obras abertas
e que, portanto, não foram pensadas para a escola ou para a
educação. Filmes dessa natureza são realizados para um pú-
blico muito amplo, para a massa heterogênea de pessoas que
vão ao cinema, vêem televisão e assim consomem os produ-
tos da indústria cultural.
Como produtos dessa indústria, os filmes não foram pensa-
dos para atender a determinados requisitos que a educação
realizada pela escola exige: a adequação a um conteúdo pre-
determinado, à seriação, às especialidades, às disciplinas, aos
horários. A educação escolar ainda está, em grande parte,
centrada na escrita e na oralidade das aulas expositivas que os
professores ministram. Assim o filme, que é imagem e som,
chega ao ambiente escolar como ilustração, anexo, acessório
do texto que, ainda, é o mais forte referencial para a escola,
mesmo com todo o vigor que a linguagem audiovisual adqui-
riu na sociedade contemporânea.
O cinema já nasceu com certa vocação científico-educacio-
nal para além dos espetáculos e curiosidades dos vaudevilles
do início do século XX. O cinema documentário e a tradição
dos filmes etnográficos confirmam essa tendência. No Brasil,
o diálogo cinema e escola tem o seu mito de origem, como já
relatamos anteriormente com Humberto Mauro e o as ações
Os Vaudevilles no século
XVIII, atores profissionais
que visavam romper com
o monopólio mantido
pelo teatro do Estado,
a Comédie Française.
Representavam suas peças
no circuito popular. Os
vaudevilles tornaram-
se atrações nos bairros
operários franceses e
no Teatro de Bouffes
Parisiens, fundado por
Jacques Offenbach.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
87
I M P O R T A N T E
do Instituto Nacional do Cinema Educativo (INCE), criado em
1936 por Roquette Pinto.
Nada nos obriga a olhar para a escola como
a utilização de um filme em sala de aula. Posso
afirmar que era essa a preocupação dos criadores do
INCE, formulada a partir das seguintes questões: que
educação é essa que estamos promovendo, no cinema,
na televisão, na sala de aula? Como o cinema pode,
em realidade e magia, penetrar o universo educacional
da sala de aula? Como seria uma escola que também
pudesse se expressar na língua do cinema e não somente
na língua dos livros? Essas questões parecem persistir
depois de tanto tempo e de tantas experiências. A TV
Escola não tem fugido a essas questões, pelo contrário,
as vem recolocando de novas maneiras, buscando
sempre sob novos enfoques que esse diálogo se
concretize.
O cinema, com o seu aparato tecnológico apropriado para
documentar, encenar e narrar histórias, construiu uma nova
maneira de olhar para o mundo e, com isso, estabeleceu uma
forma peculiar de inteligibilidade e conhecimento.
O cinema na escola, precisa ser debatido, prioritariamente, nas
salas de aula, após a apresentação dos filmes. Pouquíssimas
escolas podem contar com salas apropriadas para sessões de
cinema. Tampouco as escolas têm se organizado para a recep-
ção de novas linguagens. O tempo recortado das aulas quase
sempre não permite que os filmes sejam vistos na sua integra-
lidade. Há uma incompatibilidade temporal entre o cinema e
a escola que talvez pudesse ser superada com um pouco de
boa vontade e determinação.
Os filmes, na escola, chegam, em geral, por meio do video-
cassete e da televisão, sendo vistos nas telas de televisão, me-
nores. Isso faz, também, que se perca uma das características
do cinema – o escurinho. As imagens dos filmes, além de con-
correrem com as imagens da própria sala, quadro, cartazes,
pois os ambientes nem sempre podem ser escurecidos,são
vistas em salas que não são apropriadas. Se o cinema, na es-
cola, perde em qualidade de projeção, ganha em público que
pode se ampliar a cada nova projeção.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
88
Muitas pessoas somente terão acesso a certos filmes se eles
estiverem presentes nas salas de aula. Ademais, o videocas-
sete permite, para o bem ou para o mal, que o filme seja
decupado a critério de quem o assiste. As imagens podem
ser facilmente vistas e revistas. Ver filmes e as imagens que
eles propõem deve ser um exercício de liberdade, uma frui-
ção. Sem isso o cinema estará reduzido à mera ilustração de
conteúdos curriculares e pouco dirá ao aluno.
Cinema é arte e talvez possa se constituir em uma chama-
da que desperte funcionários, professores, alunos, para uma
nova visão educativa, na qual os tradicionais e os modernos
métodos de ensinar e aprender possam fundir-se em novas
possibilidades expressivas. E como ainda há muito que fazer
nessa área para que cheguemos a um resultado satisfatório,
devemos, por isso mesmo, contribuir para a construção de
uma escola com pessoas que possam concorrer significativa-
mente para a construção da educação brasileira.
Por último mais um lembrete: a linguagem audiovisual tem
muitas sutilezas. Aprendi com muitos autores que escreveram
sobre ela, alguns deles estão referidos ao longo do texto, que
para se compreender imagens e sons é preciso também pro-
duzi-las.
A leitura só não é suficiente, é preciso ver muitos filmes com
muita atenção na cor, no cenário, no figurino, na movimen-
tação dos personagens, na história que contam. Sobretudo,
é preciso ver bons filmes. Da mesma forma a televisão, só
observando com cuidado é possível decifrá-la.
Há muita coisa interessante para além de certa mediocridade
que impera nos canais. Mais uma observação: para fazer gra-
vações, fotografias, filmagens, edições, a melhor maneira é
ler com cuidado os manuais que acompanham os equipamen-
tos. As máquinas são muito potentes, mas só fazem aquilo
para o que estão programadas. E, ainda, precisam ser tratadas
com delicadeza, portanto, se algum botão está emperrado é
porque não estamos seguindo os passos corretos ou o equi-
pamento está com defeito. Usar um equipamento defeituoso
pode comprometer todo o trabalho.
Decupar, vem do francês
decupé e significa em
linguagem audiovisual,
cortar, separar os planos
e seqüências para serem
montadas.
UNIDADE 6 – Audiovisuais na escola
89
I M P O R T A N T E
Para completar nossa reflexão, para além do que
escrevi sobre audiovisuais, desejo boas leituras,
bons filmes e bons programas de tevê e, ainda,
boas visitas a museus, sejam eles reais ou virtuais.
Há muitos sites que podemos visitar! Conheça alguns
deles:
www.kinedia.hpg.ig.com.br – Divulga informações
gerais sobre cinema.
www.cenaporcena.com.br – Apresenta links de entrada
para várias instituições e assuntos relativos a cinema.
www.revbravo.com.br – Site da Revista Bravo que trata
dos múltiplos aspectos do audiovisual, com ênfase no
cinema e na televisão.
www.classicvideo.com.br – Site onde é possível
encontrar para encomenda filmes que não existem em
muitas locadoras.
www.casacinepoa.com.br – Site que divulga as
atividades da Casa de Cinema de Porto Alegre e, ainda,
artigos e sinopses de filmes.
www.studium.iar.unicamp.br – Site do Instituto de
Artes da Unicamp. Divulga atividades e artigos sobre
arte, incluindo audiovisual, cinema e televisão.
REFERÊNCIAS
90
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