Download PDF
ads:
Pedro Calabrez Furtado
ÉTICA E COMUNICAÇÃO
Prazeres fugazes, amores eternos, corpos sedutores e saudáveis na recepção dos
discursos de Men’s Health e Nova
Dissertação apresentada à ESPM como
requisito parcial para obtenção do título de
Mestre em Comunicação e Práticas de
Consumo.
Orientador(a): Profª. Dra. Tânia Márcia Cezar Hoff
São Paulo
2009
ads:
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
Pedro Calabrez Furtado
ÉTICA E COMUNICAÇÃO
Prazeres fugazes, amores eternos, corpos sedutores e saudáveis na recepção dos
discursos de Men’s Health e Nova
Dissertação apresentada à ESPM como requisito
parcial para obtenção do título de Mestre em
Comunicação e Práticas de Consumo.
Aprovado em ___ de Março de 2009
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________________
Presidente: Profª. Tânia Márcia Cezar Hoff. Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo
(USP) Orientadora, ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING (ESPM)
____________________________________________________________
Membro: Profª Rosana de Lima Soares. Doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de
São Paulo (USP)
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP)
____________________________________________________________
Membro: Prof. Vander Casaqui. Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São
Paulo (USP)
ESCOLA SUPERIOR DE PROPAGANDA E MARKETING (ESPM)
ads:
Para Sindina, minha avó, “mãezinha”
que de pequena nada tinha.
AGRADECIMENTOS
Quando abandonei a supostamente promissora carreira nos departamentos de
marketing de grandes multinacionais, muitos me chamaram de louco. Alguns poucos, no
entanto, me apoiaram em meus tropeços e aprendizados, me ajudando a superar as
dificuldades financeiras, intelectuais e afetivas de uma mudança tão radical. A esses poucos
dedico estes agradecimentos.
Primeiramente, agradeço à minha avó Sindina, que infelizmente não viveu para me ver
concluindo o mestrado. Ao mesmo tempo, agradeço à minha mãe, dona Bene. Não há
palavras para descrever a gratidão que tenho por tamanha confiança e carinho. Se pudesse
dedicar este trabalho – e minha vida – a alguém, seria a elas.
Ademais, agradeço ao meu pai, Benedito Furtado, irmão, Bruno Calabrez, e tio, Luiz
Carlos, que dedicaram muita energia para me apoiar – e suportar – nesta jornada.
Não poderia deixar de agradecer àquele que foi responsável pela minha entrada neste
programa de mestrado, e também pela profissão que hoje exerço: professor Clóvis de Barros
Filho.
Graças a todos vocês concluo este mestrado como professor da Escola Superior de
Propaganda e Marketing. Graças a todos vocês me vejo, hoje, como um pesquisador. Graças a
todos vocês encontrei, de fato, o caminho que, nele mesmo, é suficiente para minha
felicidade.
Obrigado!
“Há em nossos dias professores de filosofia, mas não filósofos”.
Walden Thoreau
RESUMO
Este trabalho tem por objeto a recepção dos discursos das revistas Men’s Health e
Nova. Abordamos o objeto a partir de um diálogo transversal entre os campos da
comunicação, ciências sociais e a filosofia do francês Michel Foucault. Nessa perspectiva,
propomos como pressuposto teórico a influência dos meios de comunicação sobre a
constituição subjetiva de seus receptores, ou seja, a influência sobre a maneira como eles
pensam sobre si próprios e se caracterizam seres donos de seus “eus”. Essa influência opera
fundamentalmente por meio de normas, ou seja, regras internalizadas nos indivíduos à guisa
de natureza – Men’s Health e Nova, publicações cujos discursos são prescritivos e
normativos, fazem parte dessa conjuntura. A norma, no entanto, não é inescapável: Foucault
propõe um caminho, uma resistência, uma dimensão livre de constituição da própria
subjetividade: a ética. Deitadas essas bases, analisamos os discursos de 6 edições de cada
revista, identificando um fio condutor, uma “fisiologia” desses discursos. O objetivo final do
trabalho é responder ao seguinte problema: existe, na recepção dos discursos de Men’s Health
e Nova, a possibilidade de uma dimensão ética, ou seja, de uma dimensão de livre
constituição da própria subjetividade? Para isso, fomos a campo, entrevistando em
profundidade 21 receptores (homens no caso de Men’s Health, mulheres no caso de Nova).
Constatamos, a partir dos relatos dos entrevistados, que a condução de suas vidas se dá num
complexo jogo em que as normas servem de apoio, seja na afirmação ou negação de suas
ações. Men’s Health e Nova operam – junto com diversas outras instâncias sociais – num
regime em que seus receptores se percebem e se refletem no mundo a partir de critérios pré-
estabelecidos, onde prazeres fugazes são praticados por muitos e mal vistos por todos,
enquanto amores eternos são, também, intenção unânime. Ao mesmo tempo, todos valorizam
um tipo específico de corpo saudável, que é ao mesmo tempo belo e sedutor – valorização que
identificamos na forma de intenção ou de conduta, propriamente. Nada disso, entretanto,
dentro de uma auto-reflexão, de uma ponderação livre, de uma dimensão ética, enfim.
PALAVRAS-CHAVE: Ética; mídia impressa; recepção; Men’s Health; Nova; Michel
Foucault.
ABSTRACT
Our object is composed by the discourses contained in two Brazilian magazines:
Men’s Health and Nova. We approach the object through a transversal dialogue between the
communication and social sciences fields and the philosophy of Michel Foucault. From this
perspective, we suggest as a theoretical proposition that mass media influences its receptors’
subjective constitutions – an influence upon the constitution of their individual self. This
influence operates mainly through “norms”: internalized rules that guide the individuals in a
natural-like fashion – Men’s Health and Nova, publications with prescriptive contents, are
part of this operation. The norm, however, is not inescapable: Foucault offers an alternative to
its objective restriction of our subjective identities: the dimension of ethics, an existential
dimension in which we create our own selves through a free self-reflected intellectual
exercise. After establishing our theoretical premises, we thoroughly investigate the way
through which the magazines’ discourses operate (analyzing 6 issues of each one of them),
defining what we called their “physiology”. Our aim is to answer the following problem: is
there, in the reception of the discourses contained in these magazines, an ethical dimension?
For that we interviewed 21 receptors, to find out that they conduct their lives in a complex
power play that is strongly established upon norms, either to affirm or deny them. Men’s
Health and Nova operate – along with many other social instances – in a regime where its
receptors think themselves based on pre-established criteria, where ephemeral pleasures are
desired by some and criticized by all, while the ideal of eternal love is also a unanimous
intention. At the same time, all value a specific kind of healthy body that is, at the same time,
beautiful and sexy. None of that, though, is perceived though an exercise of self-reflection,
free pondering. In other words, none of that comes from an ethical dimension.
KEYWORDS: Ethics; press media; media reception; Men’s Health; Nova; Michel Foucault.
ÍNDICE
INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 12
PARTE I – Comunicação, filosofia e ética na recepção midiática ..................................... 15
Capítulo 1 – Os caminhos de uma comunicação .............................................................. 16
1.1 – O ato de comunicar ................................................................................................. 16
1.2 – O campo da comunicação ....................................................................................... 19
1.3 – Mídia impressa: os discursos das revistas Men’s Health e Nova e a questão da
recepção midiática ............................................................................................................ 30
1.4 – A transdisciplinaridade ........................................................................................... 32
Capítulo 2 – Constituição do sujeito e ética em Michel Foucault: um problema
também da comunicação? ................................................................................................. 36
2.1 – Filosofia e história – pensamento e/ou fato? ......................................................... 37
2.2 – A filosofia para Michel Foucault ........................................................................... 46
2.3 – A constituição do sujeito ......................................................................................... 52
2.4 – Ética e comunicação ............................................................................................... 74
PARTE II – A recepção dos discursos de Men’s Health e Nova ........................................ 81
Capítulo 3 – Uma fisiologia dos discursos ......................................................................... 83
3.1 – Revista Nova ............................................................................................................ 87
3.2 – Revista Men’s Health ............................................................................................ 124
Capítulo 4 – A recepção dos discursos ............................................................................ 147
4.1 – Considerações metodológicas ............................................................................... 147
4.2 – Análise das entrevistas .......................................................................................... 156
4.2.1 – Prazeres efêmeros e o amor eterno ............................................................. 158
4.2.2 – O corpo belo, sedutor e o corpo saudável .................................................. 165
CONCLUSÃO ....................................................................................................................... 172
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................................... 174
ANEXOS ............................................................................................................................... 179
Anexo 1 – Capas das revistas Men’s Health estudadas ................................................. 180
Anexo 2 – Capas das revistas Nova estudadas ............................................................... 186
Anexo 3 – Síntese das entrevistas realizadas com o público masculino ....................... 194
Anexo 4 – Síntese das entrevistas realizadas com o público feminino ......................... 209
Anexo 5 – CD de Áudio contendo as entrevistas realizadas .......................................... 232
LISTA DE FIGURAS
Figura 3.1 ............................................................................................................................. 89
Figura 3.2 ............................................................................................................................. 90
Figura 3.3 ............................................................................................................................. 93
Figura 3.4 ............................................................................................................................. 95
Figura 3.5 ............................................................................................................................. 96
Figura 3.6 ............................................................................................................................. 97
Figura 3.7 ........................................................................................................................... 100
Figura 3.8 ........................................................................................................................... 101
Figura 3.9 ........................................................................................................................... 101
Figura 3.10 ......................................................................................................................... 102
Figura 3.11 ......................................................................................................................... 102
Figura 3.12 ......................................................................................................................... 103
Figura 3.13 ......................................................................................................................... 103
Figura 3.14 ......................................................................................................................... 104
Figura 3.15 ......................................................................................................................... 105
Figura 3.16 ......................................................................................................................... 106
Figura 3.17 ......................................................................................................................... 107
Figura 3.18 ......................................................................................................................... 107
Figura 3.19 ......................................................................................................................... 108
Figura 3.20 ......................................................................................................................... 109
Figura 3.21 ......................................................................................................................... 109
Figura 3.22 ......................................................................................................................... 110
Figura 3.23 ......................................................................................................................... 110
Figura 3.24 ......................................................................................................................... 111
Figura 3.25 ......................................................................................................................... 113
Figura 3.26 ......................................................................................................................... 114
Figura 3.27 ......................................................................................................................... 114
Figura 3.28 ......................................................................................................................... 117
Figura 3.29 ......................................................................................................................... 118
Figura 3.30 ......................................................................................................................... 120
Figura 3.31 ......................................................................................................................... 121
Figura 3.32 ......................................................................................................................... 126
Figura 3.33 ......................................................................................................................... 127
Figura 3.34 ......................................................................................................................... 129
Figura 3.35 ......................................................................................................................... 131
Figura 3.36 ......................................................................................................................... 133
Figura 3.37 ......................................................................................................................... 134
Figura 3.38 ......................................................................................................................... 134
Figura 3.39 ......................................................................................................................... 135
Figura 3.40 ......................................................................................................................... 135
Figura 3.41 ......................................................................................................................... 136
Figura 3.42 ......................................................................................................................... 136
Figura 3.43 ......................................................................................................................... 138
Figura 3.44 ......................................................................................................................... 140
Figura 3.45 ......................................................................................................................... 143
12
INTRODUÇÃO
Nos dias de hoje, nossa sociedade se configura de tal maneira que os indivíduos vivem
em uma complexa trama composta por instâncias e agentes sociais jogando, batalhando,
produzindo e consumindo em intensas relações multifacetadas. O objeto deste estudo é uma
dessas relações.
Uma corporação como o grupo Abril, maior grupo editorial do Brasil, chama atenção
por si só, devido ao tamanho e alcance de seus negócios e produtos. Alguns desses produtos
incitam um instigante olhar, uma ânsia pela investigação de suas operações e efeitos na
sociedade. As revistas Men’s Health e Nova, publicações do grupo, certamente se enquadram
nessa conjuntura.
Uma breve ponderação sobre as capas dessas revistas faz saltar aos olhos a forma de
seus discursos. Ao folhear suas páginas, essa percepção é ainda mais intensa. Verdadeiros
manuais de conduta, elas propõem as ações corretas e incorretas em diversas situações do
cotidiano dos homens e mulheres que as lêem. Mais do que isso, oferecem imagens que
simbolizam aquilo que os corpos dos leitores devem ser, na forma de ideais-tipos, faróis rumo
aos quais os indivíduos, armados das certezas que as próprias revistas oferecem, devem
navegar.
São produtos, primeiramente, em um mercado cuja dinâmica é tão econômica quanto a
de qualquer outro – o mercado editorial. Mas, além disso, Men’s Health e Nova são bens
simbólicos, discursos carregados de significados. Parte de um complexo regime de instâncias
sociais que denominamos meios de comunicação, ou mesmo mídia, elas estabelecem relações
com as centenas de milhares de leitores que se orgulham de possuir.
Nosso interesse é sobre essas relações. As relações entre os discursos de Men’s Health
e Nova e seus receptores. Como aqueles que leram ou lêem tais revistas conduzem suas
vidas? Como eles olham para si próprios e pensam sobre si próprios, frente aos modelos de
conduta dessas publicações?
Para responder tais perguntas, necessitamos compreender como operam os meios de
comunicação em nossa sociedade. Essa compreensão, entretanto, só é possível se
estabelecermos claramente o que é, como funciona e quais são as particularidades daquilo que
13
denominamos comunicação, termo tão apropriado pelo senso comum – apropriação que,
deixada sem esclarecimentos, prejudicaria nossa investigação.
Comunicação. Tantos autores, tantos pesquisadores e tantos campos científicos a
caracterizam de tantas maneiras diferentes! Compreendê-la cientificamente, longe das
apropriações do senso comum, nos permitirá definir de qual comunicação estamos falando.
Men’s Health e Nova se situam, dentro de nossa abordagem teórica, como meios de
comunicação. Como instâncias sociais que produzem complexos efeitos na sociedade. Efeitos,
inclusive, sobre a relação dos indivíduos consigo mesmos. A relação em que eles definem,
para si mesmos e perante o mundo, aquilo que dizem e crêem ser. Relação em que constituem
suas próprias subjetividades.
Necessitamos, então, compreender essa auto-constituição subjetiva em nossa
sociedade. Entender como as instâncias sociais influenciam esse processo estritamente
individual. Para isso, buscamos as idéias do filósofo francês Michel Foucault, que nos explica
como, desde o século XVIII, nossa sociedade passa por uma reconfiguração segundo a qual as
instâncias e agentes sociais se relacionam a partir de normas – regras de como ser e agir,
internalizadas à guisa de uma natureza na vida dos indivíduos.
Nesse intenso jogo de poder em que as ações dos indivíduos são influenciadas pela
ação das normas – tais como as prescritas pelos discursos de Men’s Health e Nova –, uma
inquietação surge clamando pela resposta a uma aparentemente simples pergunta: o que
fazer? Michel Foucault propõe uma saída. Um caminho que permite aos indivíduos construir,
livres, suas subjetividades. Formas de relação consigo mesmos e com os outros que não
partem de regras pré-estabelecidas. Ao contrário, são negativas, vazias, perpetuamente
carentes de forma. Pois é no exercício racional e ponderado de um constante estabelecimento
e restabelecimento das regras de nossas relações que encontramos liberdade. O critério é
simples: intensificar nossas relações. Intensificar nossas vidas. Viver, propriamente, não
deixando os critérios de nossa conduta partirem de medidas externas à vida, tais como corpos
musculosos ou esguios estampados em capas de revista. A essa dimensão livremente
constituída de nossa existência Foucault dá o nome de ética.
A Parte I deste trabalho se dedica à detalhada construção teórica dos pressupostos
daquilo que compreenderemos como comunicação e de como a mídia – Men’s Health e Nova
14
inclusos – opera na dinâmica de nossa sociedade (Capítulo 1). Além disso, trabalharemos
também as idéias de Michel Foucault, a fim de compreender como os discursos de Men’s
Health e Nova se situam no jogo de poder que subtrai dos indivíduos a liberdade para a
construção de suas subjetividades. Proporemos, enfim, a ética como possível caminho
alternativo a essa subjetivação operada pelas normas (Capítulo 2).
Na Parte II, investigaremos detalhadamente, em um primeiro momento, como operam
os discursos das revistas. Desejamos investigar o fio condutor lógico, aquilo que
denominamos uma “fisiologia dos discursos” de Men’s Health e Nova, ou seja, quais
operações e funções compõem seus conteúdos (Capítulo 3).
A partir disso, num segundo momento, deitaremos nosso olhar sobre a recepção dos
discursos, entrevistando receptores numa investigação sobre a relação que os discursos de
Men’s Health e Nova têm com a maneira como os entrevistados pensam sobre si próprios, em
relação a si próprios e aos outros (Capítulo 4).
Nosso objetivo último é responder ao seguinte problema: existe, na recepção dos
discursos de Men’s Health e Nova, a possibilidade de uma dimensão ética? Em outras
palavras: frente aos discursos dessas revistas, os indivíduos dedicam alguma parcela de suas
existências a uma livre e racional construção daquilo que os define, de suas condutas, de suas
vidas?
15
PARTE I
COMUNICAÇÃO, FILOSOFIA E ÉTICA NA RECEPÇÃO MIDIÁTICA
Quando alguém olha para si mesmo e diz “sou isto” ou “sou aquilo”, em que medida
esse “isto” e esse “aquilo” são impactados pelos discursos dos meios de comunicação? Quais
são os possíveis papéis representados pelos meios de comunicação nos processos de
subjetivação de nossa sociedade? Em outras palavras, como a mídia impacta a constituição da
identidade subjetiva dos receptores de seus conteúdos? Tentaremos responder essas perguntas
adiante.
Frente aos impactos dos meios de comunicação sobre nossas subjetividades, sobre
nossos “eus”, o que fazer? Michel Foucault nos ajuda a buscar um caminho alternativo, uma
resistência, uma luta pela liberdade na constituição de nossas próprias subjetividades: a ética.
Nesta parte deitaremos as bases teóricas de nossa investigação, explicando a relação
entre os discursos produzidos pelos meios de comunicação e seus efeitos na sociedade,
especialmente sobre a subjetividade dos receptores, num diálogo entre as ciências sociais e as
idéias de Foucault.
___________________________________________________________________________
16
1 – OS CAMINHOS DE UMA COMUNICAÇÃO
“Toda instância (agende ou instituição) que exerce uma ação pedagógica não dispõe da autoridade
pedagógica senão a título de mandatária dos grupos ou classes aos quais ela impõe o arbitrário cultural
segundo um modo de imposição definido por esse arbitrário, isto é, a título de detentor por delegação do direito
de violência simbólica”.
Pierre Bourdieu
“It’s all relative to the size of your steeple”.
Marilyn Manson
Seguiremos primeiramente situando o que, neste trabalho, será entendido por
comunicação (1.1) e campo da comunicação (1.2), e como o objeto – os discursos de Men’s
Health e Nova – está situado nessa conjuntura (1.3). Concluindo o capítulo, apontamos para a
proposta transdisciplinar da comunicação (1.4).
1.1 – O ato de comunicar
O termo comunicação possui significados múltiplos. Possui utilizações cotidianas e
científicas diversas, e essa polissemia torna primordial um esclarecimento – um enxugamento,
talvez – dos diversos significados a fim de que encontremos a comunicação em que o objeto
deste trabalho se situa. Necessitamos, portanto, em primeiro lugar, realizar uma análise formal
do termo comunicação.
Partamos da etimologia do termo, com origem no latim communicatio, que em linhas
gerais significa “atividade realizada conjuntamente”. O termo surgiu no cerne do cristianismo
da Antiguidade, onde a vida eclesiástica valorizava o isolamento como condição para o auto-
17
conhecimento
1
. Alguns cristãos se reuniam em mosteiros, e praticavam o isolamento em
comunidades. Nos mosteiros surge a prática que se denominou communicatio, que é o ato de
tomar a refeição da noite em comum. Diferente do simples jantar em comunidades primitivas,
esta prática é dotada de uma singularidade: o rompimento com um regime de isolamento
2
.
O termo não trata, portanto, de simplesmente partilhar algo em comum – como as
maçãs e o sangue partilham o vermelho, ou a idéia de vermelho, por exemplo. Também não
trata de um simples convívio, hábito, atividade que se realiza em conjunto por viver em
comunidade. A positividade por trás da origem do termo, ou seja, a intenção de rompimento
com o isolamento, situa a comunicação como produto de um encontro social – entre homens –
intencional, delimitado no tempo.
Os dicionários, em seu papel de inventário de uma determinada comunidade
lingüística, contribuem para polissemia do termo. Aludem, sempre, à concepção original, por
meio de expressões como compartilhar, transmitir, anunciar, trocar, reunir, ligar, pôr em
contato. Todas são variantes ou alusões a um sentido mais original de “relação”. Há, no
entanto, determinadas substantivações do termo que ampliam seu sentido
3
.
Primeiramente, situando comunicação como sinônimo de informação ou mensagem.
Devemos apontar, entretanto, que uma informação/mensagem só é comunicação de modo
relativo. Primeiramente, em relação àqueles que podem tomá-la como tal. Um livro, para um
animal ou um analfabeto, não se constitui como algo senão como objeto, “coisa”, ou seja, não
se constitui como mensagem. Está aqui definida a distinção da dimensão simbólica e material
da mensagem/informação: existe um suporte, material, para a informação (como a folha de
papel para o livro). Além disso, existe um trabalho simbólico, não-material, que é da ordem
do significado, ou seja, o código que organiza o material para que este signifique algo.
Isoladamente, folha e tinta são somente objetos materiais. O código que os organiza em textos
é que lhes dá significado, e que lhes transforma em mensagem/informação.

1
Os “padres do deserto” são um exemplo de como o isolamento era valorizado no cristianismo da Antiguidade.
Eram padres que se isolavam no deserto a fim de se distanciar da sociedade pagã, para devidamente se
relacionarem consigo mesmos por meio de um extensivo autoconhecimento. ORTEGA, F. Amizade e estética
da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999, p.88-89.
2
“Não se trata pois de relações sociais que naturalmente os homens desenvolvem, mas de uma certa prática, cuja
novidade é dada pelo pano de fundo do isolamento”. MARTINO, L. De qual comunicação estamos falando? In:
Teorias da comunicação: conceitos, escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2007, p.13.
3
Op.cit., p.15-20.
18
Por isso dizemos que mensagem/informação é comunicação somente de modo
relativo: em potencial. Um livro na estante não é comunicação, mas é uma
mensagem/informação potencialmente comunicável, ou seja, que pode se tornar comunicação
caso seja lida. Pois informar é dar forma a. Dar forma à matéria de suporte, sem dúvida. Mas
também, de alguma maneira, “a forma na matéria deve corresponder a certas reações no
psiquismo do receptor”
4
, dando formas à sua consciência, realizando um trabalho de
reorganização de sua consciência. Ou seja, a mensagem/informação só tem sentido se pelo
menos puder estar numa relação de comunicação. Numa relação de trocas simbólicas, trocas
de significado.
Comunicação e mensagem/informação são interdependentes, pois não há
mensagem/informação sem a possibilidade – potencial – de comunicação. Assim como não há
comunicação sem mensagem/informação. Aqui se explica por que comunicação aparece como
substantivo sinônimo de mensagem/informação. Não devemos, no entanto, ignorar as
peculiaridades de ambos.
Outra acepção presente nos dicionários, que também situa comunicação como
substantivo, define-a como sinônimo de vias de comunicação (estradas, artérias).
Comunicação, aqui, se aproxima muito dos significados de “transporte” ou “transporte de
coisas”. Isso indica, de certa maneira, como o termo comunicação é fortemente atrelado às
práticas econômicas, à troca de bens. Se nos detivermos por um instante na questão da
mensagem/informação, perceberemos que existe um produto nas relações de comunicação:
um produto simbólico, um produto de significado. A troca realizada nas relações de
comunicação é dentro de uma economia de bens simbólicos, ou seja, de significados. A
mensagem/informação, como produto, é um bem simbólico. Desta maneira podemos entender
a acepção da comunicação como transporte ou vias de ligação.
Essa pequena análise do termo comunicação, que em linhas gerais o situa como
“relação de trocas simbólicas”, nos permite excluir do nosso estudo algumas acepções mais
amplas. Sendo relação de trocas simbólicas (trocas de significados), reduzimos a comunicação
à esfera humana. Isso porque o significado é premissa da consciência – que nos permite
conhecer, significar – atributo que é reservado aos seres humanos. “Conhecer é atividade

4
Op.cit., p.17.
19
especificamente humana”
5
. Em outras palavras, “partindo do pressuposto de que a
comunicação é a troca de mensagens, pode-se dizer que o processo comunicacional é uma
práxis objetiva. Trata-se de uma habilidade que se aprende, uma habilidade exclusivamente
humana”
6
.
Retornamos, então, à concepção original de comunicação, e percebemos sua
importância: a comunicação é uma ação intencional, positiva, de quebra de isolamento, de
estabelecimento de relação. Mas mais do que isso, é uma ação que enseja uma relação de
troca. E não da troca de qualquer coisa, mas de significados, de informações/mensagens.
Troca entre homens, ou seja, social. Troca que demanda consciência, e por isso podemos
caracterizar a comunicação como uma relação entre consciências. “Comunicar é simular a
consciência de outrem, tornar comum (participar) um mesmo objeto mental (sensação,
pensamento, desejo, afeto)”
7
.
1.2 – O campo da comunicação
Os fenômenos que, de alguma maneira, estão situados nessa economia de trocas
simbólicas, são denominados fenômenos comunicacionais
8
. Ao reduzir a polissemia do termo
comunicação, restringindo-o aos fenômenos comunicacionais, não somos capazes de esgotar a
multiplicidade que ainda reside nesse significado. Estabelecemos, na parte anterior, o que
entendemos por comunicação. É necessário, agora, ir adiante, buscando compreender como o
campo científico da comunicação é configurado, ou seja, situar a especificidade da

5
FRANÇA, V. O objeto da comunicação / A comunicação como objeto. In: Op.cit., p.43. É necessário ressaltar,
entretanto, que essa visão não é um consenso científico, e sim nossa opção teórica. Sobre a capacidade de
cognição dos animais não-humanos, ver: ALLEN, C.; BEKOFF, M.; BURGHARDT, G. (org.). The Cognitive
Animal: empirical and theoretical perspectives on animal cognition. Massachusetts: MIT Press, 2002.
6
HOHLFELDT, A. As origens antigas: a comunicação e as civilizações. In: Op.cit., p.61.
7
MARTINO, L. Op.cit., p.23.
8
Alguns autores, como Maria Immacolata V. de Lopes, utilizam o termo “fenômenos comunicativos”.
Entendemos fenômeno, aqui, em sua acepção mais comum, apontada por Abbagnano como “a aparência sensível
que se contrapõe à realidade, podendo ser considerado manifestação desta, ou que se contrapõe ao fato, do qual
pode ser considerado idêntico. É este o sentido que essa palavra normalmente assume na linguagem comum
(...).” ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.510. É necessário
ressaltar, entretanto, que por utilizarmos a perspectiva de Foucault neste trabalho, fortemente enraizada no
materialismo de Nietzsche, não cremos que possa haver uma realidade una e absoluta por trás da historicidade
dos fatos, ou seja, não podemos contrapor realidade e sensação, pois estes são, em certa medida, idênticos.
Discutiremos essa questão no Capítulo 2.
20
comunicação como ciência, como campo científico, para finalmente encontrarmos o objeto de
nosso estudo dentro dela.
Primeiramente, precisamos compreender o que se entende por campo científico (ou
campo acadêmico, termos que são análogos neste contexto). A expressão é derivada da
sociologia da ciência de Pierre Bourdieu, e utilizada por muitos autores da comunicação
9
. Ela
serve para designar as condições de produção da ciência, que, como aponta Lopes, “são dadas
pelo contexto discursivo que define as condições epistêmicas de produção do conhecimento, e
pelo contexto social que define as condições institucionais e sócio-políticas dessa
produção”
10
. Em outras palavras, a produção de conhecimento científico tem dois alicerces
condicionais:
1) O contexto discursivo, onde “podem ser identificados paradigmas, modelos,
instrumentos, temáticas que circulam em determinado campo científico”
11
. Este contexto é
propriamente o contexto da cientificidade, ou seja, o contexto do que é legitimamente
científico em um campo, das características do discurso científico do campo – que, ao
estabelecerem determinadas verdades legitimadas da ciência em questão, automaticamente
afirmam o que não é legítimo e verdadeiro para o mesmo. Aqui se incluem sua história,
tradições e tendências de investigação. São os elementos em jogo, aquilo que está em jogo
12
.
2) O contexto social, propriamente político, onde os agentes do campo científico –
pesquisadores e estudantes, por exemplo – trabalham, num regime de competição, pelo
estabelecimento do critério de cientificidade do outro contexto. Aqui se estabelece um regime
de embate, de competição, em que o objeto de luta é “o monopólio da competência científica,
compreendida enquanto capacidade de falar e de agir legitimamente, isto é, de maneira

9
Tais como Clóvis de Barros Filho, José Luiz Aidar Prado, Maria Immacolata V. de Lopes e Vera Veiga França,
entre outros.
10
LOPES, M.I.V. O campo da comunicação: sua constituição, desafios e dilemas. In: Revista FAMECOS.
Porto Alegre, n.30, p.16.
11
LOPES, M.I.V. Pesquisa de comunicação: questões epistemológicas, teóricas e metodológicas. In: Revista
brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, Volume XXVII, n.1, p.16.
12
Alguns autores restringem a reflexão epistemológica a esse primeiro contexto. “Na área da comunicação, a
noção [de campo] encontra duas acepções, as quais é preciso bem distinguir. A mais corrente hoje é também a
menos apropriada, já que toma emprestada a noção de campo da sociologia de Bourdieu (...). Mas o uso da
noção de campo em termos epistemológicos se refere às correntes teóricas; os elementos em jogo, aquilo que
compõe o campo, são as teorias, as escolas (...)”. MARTINO, L. Abordagens e representação do campo
comunicacional. In: Revista Comunicação, mídia e consumo. São Paulo, v.3, n.8, p.36.
21
autorizada e com autoridade, que é socialmente outorgada a um agente determinado”
13
. É
propriamente o jogo, as regras do jogo e os agentes envolvidos no jogo.
Tais contextos são a condição para a produção científica. Produção daquilo que é
cientificamente verdadeiro; produção do conhecimento especializado. Indissolúveis, tais
contextos apontam para o fato de que a posição de um agente num campo científico é,
sempre, uma posição científica e também uma posição política. Para compreender
devidamente a coerência de um campo científico, portanto, é fundamental uma análise de seu
contexto social – um contexto de competição, embate, jogo.
Esse primeiro esclarecimento do que entendemos por campo é necessário,
primeiramente, para desmistificar qualquer tentativa de estabelecimento de uma “natureza”
científica no campo da comunicação. Nada há de natural no campo, dado que existe uma
dimensão política, de concorrência e luta, portanto, em sua própria gênese, o que caracteriza o
fato de que todo objeto científico é objeto de interesse político
14
. Em segundo lugar, a partir
dessas colocações podemos compreender as práticas dos agentes no campo da comunicação
como estratégias, numa dinâmica de conservação e subversão
15
, ou seja, a própria dinâmica
estratégica dos campos implica um embate entre o que pretende permanecer – a manutenção
da autoridade científica – e o que pretende subverter, modificar – a alteração da autoridade
científica.
Compreender o campo da comunicação, portanto, não nos parece somente uma tarefa
de situar suas tendências e escolas, mas de perceber como, num contexto social, as
preocupações com os fenômenos comunicacionais surgiram – numa dimensão discursiva, sim,
mas também social.
De uma perspectiva filosófica, encontramos o problema da comunicação como
fundamento do homem já em Nietzsche
16
. Para o filósofo alemão, a consciência humana
existe proporcionalmente à aptidão de comunicação do ser humano:

13
LOPES, M.I.V. O campo da comunicação: sua constituição, desafios e dilemas. Op.cit., p.17.
14
No capítulo 2 veremos que essa perspectiva do conhecimento é, em muito, partilhada por Foucault.
15
Op.cit., p.18.
16
Como aponta MARTINO, L. Interdisciplinaridade e objeto de estudo da comunicação. Op.cit., p.31. A
utilização de Nietzsche, aqui, não tem por objetivo expandir o escopo filosófico do trabalho, que é centrado em
Foucault. Ao contrário, a influência de Nietzsche sobre Foucault pode ser conferida em diversos momentos de
sua obra. Cf., por exemplo, as entrevistas e artigos: Michel Foucault e Gilles Deleuze querem devolver a
Nietzsche sua verdadeira cara; Introdução geral (às obras filosóficas completas de Nietzsche); e Nietzsche,
Freud, Marx. In: FOUCAULT, M. Coleção ditos e escritos II – arqueologia das ciências e história dos
22
Para que em geral consciência, se no principal ela é supérflua? – Ora,
parece-me, se se quer dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e à sua
suposição talvez extravagante, que o refinamento e força da consciência
estão sempre em proporção com a aptidão de comunicação de um ser
humano (ou animal), e a aptidão, por sua vez, em proporção com a
necessidade de comunicação (...). Mas bem me parece ser assim no que se
refere a raças inteiras e gerações sucessivas: onde a necessidade, a
indigência, coagiram longamente os homens a se comunicarem, a se
entenderem mutuamente com rapidez e finura (...)
17
.
Semelhante reflexão é encontrada na filosofia da linguagem de Mikhail Bakhtin, que
afirma que é mergulhado em uma rede discursiva – que ele denomina “polifonia discursiva” –
que o ser humano desenvolve sua consciência
18
.
Percebemos, então, a partir dessas perspectivas, duas questões complementares:
primeiramente, a importância fundamental da comunicação para o desenvolvimento da
consciência humana. Em segundo lugar – o que nos leva ao próximo ponto de nossa reflexão
–, que é a partir da necessidade de comunicação que a consciência e, portanto, o
conhecimento humano se desenvolvem. Os fenômenos comunicacionais estão no cerne de
tudo que o homem criou ao longo de sua história. A intensificação de tais fenômenos, a
acentuação da circulação dos bens simbólicos, que culminou com as preocupações científicas
sobre a comunicação e a conseqüente constituição do campo, pode ser vista “não somente
como um aspecto a mais da modernização, senão como o próprio centro e o sentido mesmo
deste processo”
19
.
O encontro entre todas as ciências humanas e a comunicação se dá nesse ponto. Na
própria objetividade do mundo, pois a única objetividade do mundo que conhecemos é

sistemas de pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005a, p.30-40. Também é emblemática a
leitura que Foucault faz de Nietzsche em A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, 2005.
17
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. In: Coleção Pensadores – Nietzsche. São Paulo: Abril Cultural, 1983, §354.
18
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2007.
19
LOPES, M.I.V. Op.cit., p.23.
23
justamente por meio do conhecimento. Por meio da consciência humana. Da comunicação,
portanto.
É no objeto-mundo “com sentido” que as ciências humanas e a comunicação
se encontram. No mundo “comunicado”, que tanto os media como as
ciências humanas nos oferecem, constitui-se a objetividade mesma do
mundo e não somente interpretações diferentes de uma “realidade” de
alguma maneira “dada”. A realidade do mundo como algo que enfim não é
uma reunião de visões disciplinares do empirismo ingênuo, mas algo que se
constrói como contexto de múltiplas narrativas
20
.
Os fenômenos comunicacionais são amplos, e de alguma maneira perpassam todas as
ciências humanas. Isso, ao mesmo tempo em que levanta a questão da importância de tais
fenômenos, traz também grandes dificuldades para o estabelecimento de um campo científico
que os tem como objeto. Nesse sentido, alguns autores optam por restringir os fenômenos
estudáveis pelo campo da comunicação àqueles que, de alguma maneira, gravitam ao redor
dos meios de comunicação
21
, pois ao conceber a comunicação como tal – relação de troca
simbólica entre consciências, ou entre homens, ou social –, “aparece uma série de novas
possibilidades de compreensão do termo, de modo que praticamente o conjunto das
disciplinas das ciências humanas se encontram implicadas”
22
. A restrição dos estudos à mídia
tem por objetivo outorgar maior precisão no recorte do objeto do campo, aumentando sua
autonomia e, conseqüentemente, potencializando seu estatuto disciplinar
23
. Essa abordagem
foi nomeada por Jesús Martín-Barbero como “midiacentrismo”.

20
Op.cit.
21
Utilizaremos, a partir deste ponto, o termo mídia como sinônimo de meios de comunicação, sem a conotação
publicitária que é comumente atrelada ao mesmo no Brasil, como fazem, por exemplo: ECOSTESTEGUY, A., e
JACKS, N. Comunicação e recepção. São Paulo: Hacker, 2005, e SILVERSTONE, R. Por que estudar a
mídia? São Paulo: Loyola, 2005.
22
MARTINO, L. Op.cit., p.24.
23
A dimensão “disciplinar”, como aponta Maria Immacolata V. de Lopes, está relacionada à reprodução do
conhecimento: “Etimologicamente, a palavra disciplina é vinculada a discípulo ou estudante e é antitética à
doutrina que é a propriedade do doutor ou professor. Portanto, doutrina concerne à teoria abstrata e disciplina é
relativa à prática e ao exercício. A primeira tem a ver com a produção e a segunda com a reprodução do
conhecimento. Na história das ciências sociais, uma disciplina só aparece depois de um longo trajeto de prática
quando torna-se doutrina, ensinada e justificada pelos doutores e professores”. Op.cit., p.21. O esforço do
24
A discussão sobre a pertinência do midiacentrismo, certamente fundamental ao campo,
não nos cabe aqui, posto que não pretendemos um embate epistemológico, mas apenas expor
as particularidades do campo da comunicação para nele situar nosso objeto. Propomos apenas
que
Deslocar o eixo da comunicação para fora dos meios ou entendê-la como um
processo social primário, que envolve a relação entre pessoas, não exclui,
entretanto, a presença dos meios de comunicação, apenas os considera como
um dos elementos que compõem a cena contemporânea
24
.
Sugerimos que os fenômenos comunicacionais não são o simples resultado da
modernização, estando presentes na própria constituição da consciência humana, do “objeto-
mundo” e, conseqüentemente, das ciências humanas. Podemos, a partir da perspectiva de
Nietzsche da consciência como resultado da necessidade de comunicação, dizer que os
fenômenos comunicacionais se desenvolvem de maneiras distintas em sociedades distintas,
cujas necessidades são igualmente distintas. Cada momento histórico enseja fenômenos
comunicacionais particulares, de maneira que, para compreender o campo da comunicação
como campo de estudo dos fenômenos comunicacionais, precisamos compreender o
surgimento das preocupações científicas com tais fenômenos – em seus contextos discursivos
e sociais – e seu desenvolvimento àquilo que, hoje, chamamos de campo da comunicação ou
campo comunicacional. A mídia, entendida aqui como elemento contido nos fenômenos
comunicacionais, é apontada pelos defensores do midiacentrismo como fundamental à
pesquisa em comunicação – certamente não sem razão. Temos, então, de responder a seguinte
questão: por que os fenômenos comunicacionais ganharam primeiro plano nas sociedades
contemporâneas e como a mídia é fundamental nesse arranjo?
Aidar Prado responde a essa questão considerando três pontos
25
:

midiacentrismo, portanto, é o de sedimentar a reprodução do conhecimento no campo da comunicação; a
instauração de um estatuto de reprodução, enfim.
24
ECOSTESTEGUY, A., e JACKS, N. Op.cit., p.14.
25
AIDAR PRADO, J. Regimes cognitivos e estésicos da era comunicacional: da invisibilidade de práticas à
sociologia das ausências. In: Revista Comunicação, mídia e consumo. São Paulo, v.3, n.8, p.11-32. Vale notar
que diversos outros autores também situam o início da crescente preocupação com os fenômenos
25
1) A passagem da cultura de massas para a cultura das mídias – No contexto das
revoluções iluministas, que culminaram com o início da era Moderna, surge o conceito
moderno de massa. Com o deslocamento do modelo de soberania administrativa, centrado em
valores religiosos, para o modelo de Estado de governo entre os séculos XVI e XVIII, no
contexto daquilo que Foucault chama de “razão de Estado”
26
, e que culmina com o início da
era Moderna no século XVIII e o surgimento das ciências humanas, as organizações sociais
sofrem mudanças consideráveis. A organização social – e também identitária, ou seja, que
permitia aos indivíduos se dizerem pertencentes a tal organização – em comunidades locais é
substituída pela organização em sociedades, forma que “pressupõe o convívio de uma
multiplicidade de comunidades”
27
. As multidões (entendidas como populacho animal,
dispersão meramente biológica dos seres humanos) são substituídas pelos públicos,
pertencentes a uma sociedade e, conseqüentemente, a uma cultura dessa sociedade, uma
cultura de massa. O vínculo coletivo deixa de ser assegurado por uma tradição – herança,
laços de sangue, valores da tradição –, ou seja, por um pressuposto passado, para ser
determinado positivamente nas relações com a sociedade – trabalho, escola, vizinhança,
círculo de amizades
28
– pressuposto presente. Tal vínculo, que também é identitário, apresenta
novas necessidades de comunicação. A massa pode ser vista como possibilidade de
eliminação do isolamento dos indivíduos, e conseqüentemente uma potencial forma de
resistência contra os valores hegemônicos
29
. A massa, assim, se apresenta como perigosa,
precisando ser conduzida e controlada. A configuração social e econômica da modernidade, a
fim de controlar a massa, a conduz segundo o que Foucault chama de governamentalidade e
regimes disciplinares
30
, guiando a vida dos corpos e das populações e esquadrinhando
sistematicamente o tempo, o espaço e o movimento dos indivíduos, de maneira que essa

comunicacionais nos séculos XVIII e XIX, com o surgimento da modernidade e os meios de comunicação. Entre
eles: Clóvis de Barros Filho, Luiz C. Martino e Vera Veiga França.
26
Essa razão de Estado, entre os séculos XVI e XVII, foi o princípio de uma reformulação da maneira de
governar, que no século XVIII se desprende efetivamente do modelo de soberania anterior e passa a caracterizar
aquilo que Foucault denomina governamentalidade, que exploraremos no Capítulo 2.
27
MARTINO, L. Op.cit., p.33.
28
Op.cit.
29
AIDAR PRADO, J. Op.cit., p.14-16.
30
Conceitos que serão aprofundados no Capítulo 2.
26
potencial resistência perca sua força. “Os meios de comunicação de massa atuaram, ao lado
do Estado, no sentido de construir o povo e de entreter e modelizar as massas, transformando-
as em públicos, reunidos diante de um programa, para não mais se reunirem ao redor de sua
potência”
31
.
2) As mudanças nos processos capitalistas de produção de valor a partir de meados
do século XX – A Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX levou ao surgimento do
mercado e sua expansão, que acarretou mudanças nos processos capitalistas de produção de
valor. O projeto da modernidade, instaurado devidamente no século XIX, propunha ao mesmo
tempo um regime de regulação – do Estado, do mercado e da sociedade – e um regime de
emancipação – da ciência, da arte e da moral. O desenvolvimento do projeto moderno, no
entanto, não se desvinculou das conseqüências sociais e econômicas iniciadas pela Revolução
Industrial e o surgimento do mercado, pois o “(...) projeto da modernidade, já instaurado,
caminhou intrinsecamente ligado ao desenvolvimento do capitalismo”
32
. Isso fez com que os
regimes de regulação e emancipação não trabalhassem em equilíbrio. A indissolubilidade
entre o projeto da modernidade e o capitalismo fez com que, no conhecimento moderno, o
conhecimento-emancipação estivesse subjugado ao conhecimento-regulação – de modo que a
governamentalidade e, dentro dela, a lógica capitalista, se mantivessem conduzindo os
indivíduos. As novas necessidades de comunicação, conseqüentes de uma nova organização
coletiva em massas, fazem emergir a mídia como importante instância mediadora de bens
simbólicos. O capitalismo, análogo e indissolúvel a essa lógica, imbrica na produção
simbólica seus valores. Os valores da sociedade moderna passam a gravitar ao redor de uma
cultura de consumo simbólico. O valor do trabalho e a produção medida em horas de trabalho,
ou seja, os valores de uso do início da modernidade, dão lugar a um valor imaterial,
simbólico, que é justamente uma “evolução” do capitalismo e de sua lógica. O consumo
fundado no valor de uso dá lugar ao consumo simbólico. A evolução das marcas e dos
conglomerados de bens de consumo – a criação da marca de sabão Sunlight, no século XIX,
por exemplo, marco inicial do surgimento da atual Unilever S.A., ou o empreendimento de
Henri Nestlé, também no mesmo século, que deu início à criação da marca que carrega seu

31
Op.cit., p.16-17.
32
Op.cit., p.17.
27
sobrenome até hoje – são situados nessa dinâmica. Lembrando a já mencionada acepção de
comunicação como troca de bens simbólicos, percebemos que a comunicação está no cerne
desse desenvolvimento da sociedade e da economia capitalista. A cultura de massa passa para
uma cultura das mídias na medida em que o valor simbólico dos bens passa a superar o valor
de uso. Nessa dinâmica, as massas tornam-se públicos – mais especificamente, públicos
consumidores.
3) A constituição dos públicos consumidores a partir do final do século XIX – O início da
modernidade representa ruptura com o regime vitoriano que a precedeu. Na lógica da ruptura,
a emancipação dos mercados e a proliferação da produção de mercadorias eram estranhas a
um regime vitoriano. A mudança ocorre justamente quando, no final do século XIX, essa
emancipação e essa proliferação deixam de ser ruptura, ou seja, deixam de ser estranhas à
sociedade. “A grande mudança está justamente aí, na maior receptividade daquilo que era
estranho nos modernistas”
33
. Com a experimentação cultural promovida pelo modernismo já
instalada, a lógica do consumo encontra suas bases estabelecidas, pois não é mais estranha à
sociedade. Entre o período após a Segunda Guerra e os anos 1960, preparam-se as bases
daquilo que, hoje, recebe nomes diversos de diversos autores: pós-modernidade, sociedade
global, contemporaneidade, segunda modernidade, modernidade líquida etc. O trabalho que
preparou a modernidade líquida, do ponto de vista cultural, social e também da produção do
capitalismo multinacional, é fundado, em grande parte, em programas cognitivos e afetivos
34
dos meios de comunicação.
No final do século XX, o capitalismo midiático tinha desenvolvido um
sistema perito de elaboração de mapas cognitivos, herdeiro das linhas
fordistas da indústria cultural, constituindo uma efusiva e colorida
corporação audiovisual – a identificação do consumidor-espectador se faz
pelo inteligível, pois se trata de propor valores para diferentes posições de
sujeito, por meio de contratos comunicacionais: a mídia mapeia valores e

33
Op.cit., p.20.
34
Op.cit., p.21. Optamos por substituir o termo original do autor, “programas estésicos”, por “programas
afetivos”, ou seja, aqueles que envolvem a experiência primária, os afetos, desejos etc.
28
modaliza para os leitores modos de saber, fazer e de ser para consegui-los (a
busca do sucesso, da beleza, do prazer e da riqueza)
35
.
Em outras palavras, os bens simbólicos são promovidos por meio de um mapa
cognitivo, lógico, que representa logicamente, apelando à compreensão dos indivíduos,
valores e os caminhos para obter tais valores. Junto com esses programas cognitivos estão os
programas afetivos, ou seja, “dispositivos passionalizadores das mídias, que têm função
pragmática de fazer encarnar os discursos em seus públicos cada vez mais específicos e
segmentados”
36
. Interpretamos esse encarnar sob a perspectiva de Michel Foucault, ou seja,
ele ocorre por meio de ambos os programas cognitivos e afetivos, a partir de normas. A norma
não é lei e não está ligada ao sistema jurídico: ela é uma espécie de lei que se naturaliza na
vida dos indivíduos a partir de técnicas governamentais e regimes disciplinares das sociedades
modernas. Nesse sentido, o trabalho da mídia é de normalizar “modos de saber, fazer e ser”,
apelando à compreensão e também aos afetos dos indivíduos, naturalizando tais modos à
guisa de lei, na forma de normas – regras de conduta disciplinar
37
. Nesse sentido, o apelo à
cognição trabalha junto com o apelo aos afetos, desejos, à experiência primordial. “A
sociedade de consumo tem por base a premissa de satisfazer os desejos humanos de uma
forma que nenhuma sociedade do passado pôde realizar ou sonhar”
38
. A sociedade
contemporânea e seus meios de comunicação constroem discursos fundamentados nessa
lógica, uma lógica que se constituiu de mãos dadas ao crescimento das economias capitalistas
em um grande mercado global de consumo.
___________________________________________________________________________
Com base nos três pontos apresentados, podemos compreender por que as
preocupações com os fenômenos comunicacionais vêm crescendo constantemente desde o

35
Op.cit.
36
Op.cit.
37
Novamente, exploraremos tais conceitos com maiores detalhes no Capítulo 2. A noção de norma, aqui, é
apresentada para que possa ser retomada adiante.
38
BAUMAN, Z. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007, p.106.
29
início da modernidade e, também, a importância fundamental da mídia nessa conjuntura, o
que não reduz os fenômenos comunicacionais aos fenômenos midiáticos. “O conjunto dos
objetos comunicacionais é, portanto, mais amplo do que o conjunto dos objetos midiáticos”
39
.
É fato, porém, que os meios de comunicação – a mídia – são elemento primordial para a
compreensão dos fenômenos comunicacionais na contemporaneidade, inclusive se
observarmos como tais fenômenos já foram estudados ao longo dos últimos anos.
A evolução do campo da comunicação se deu dentro da dinâmica social, política e
econômica apresentada nos três pontos acima. Ao longo do século XX iniciaram-se estudos
que tinham como objeto a mídia e seus efeitos. Entre os anos 1940 e 1950, por exemplo, há
um grande investimento em pesquisas em comunicação, a fim de um controle, por meio da
mídia, da população civil e militar, no período delicado de guerra. A produção de
conhecimento sobre a mídia, nesse período, centrada nos Estados Unidos, é estritamente
ligada à técnica, ou seja, à utilização da mídia com determinados fins. A partir de 1960, a
teoria crítica da Escola de Frankfurt passa a propor um debate social e político a respeito dos
efeitos da mídia sobre as massas, opondo-se à perspectiva tecnicista americana
40
. Nos anos
1970, a perspectiva dos efeitos – propriamente frankfurtiana – se defronta com os estudos de
recepção, com forte alicerce na psicologia cognitiva, que afirmam que o receptor midiático
não é passivo, e que os efeitos da mídia são relativos
41
.
Observando tais fatos, percebemos que as condições de produção do conhecimento
que tem por objeto os fenômenos comunicacionais variam de acordo com o palco social em
que se situam seus agentes sociais – como a dinâmica dos campos, de Bourdieu, muito bem
aponta. Não se trata somente de embates discursivos e científicos, mas também de embates
políticos, advindos de necessidades políticas, sociais e econômicas. O início dos estudos
propriamente científicos de comunicação, atrelados a uma necessidade técnica, nos
demonstram essa característica do campo. Ademais, percebemos que os fenômenos
comunicacionais – a mídia inclusa – são parte da sociedade, de nossa história e, portanto, de
nossa realidade humana, de nosso “objeto-mundo”. O estudo em comunicação não se dá de
maneira abstrata, como uma espécie de crítica metafísica da mídia. É sobre o fato, sobre os

39
AIDAR PRADO, J. Op.cit., p.24.
40
MARTINO, L. Abordagens e representação do campo comunicacional. In: Op.cit., p.42-43.
41
BARROS FILHO, C. Ética na comunicação. São Paulo: Summus, p.123-153.
30
problemas e acontecimentos presentes, que a pesquisa em comunicação se alicerça e
configura. Nesse sentido, a importância da mídia é inegável.
Os indivíduos contemporâneos experimentam o mundo ao longo de suas vidas. Essa
experiência possui uma base, uma textura fundamental, uma “textura geral da experiência” da
qual a mídia já faz parte
42
. Em outras palavras, a mídia é um daqueles elementos corriqueiros,
cotidianos, sem os quais a experiência de mundo que os indivíduos têm não seria a mesma. A
configuração social e econômica coloca os meios de comunicação no cerne da experiência de
mundo contemporânea.
1.3 – Mídia impressa: os discursos das revistas Men’s Health e Nova e a questão
da recepção midiática
A mídia opera na sociedade como textura geral da experiência. Mas não de maneira
corriqueira. A constituição da cultura de massas – que, como vimos, progrediu para a cultura
das mídias –, as mudanças nos processos capitalistas de produção de valor e a constituição de
uma lógica de consumo trouxeram para um plano de enorme importância, na sociedade
contemporânea, os fenômenos comunicacionais. Inserida de maneira fundamental nesses
fenômenos está a mídia. Os estudos científicos da comunicação foram ganhando importância
e autonomia na medida em que os fenômenos comunicacionais passaram a ser centrais na
sociedade.
O processo de autonomização científica do campo da comunicação é
correlato à crescente autonomização da organização cultural nas sociedades
contemporâneas, ou seja, a constituição da cultura de massas e de seus
principais agentes, os meios de comunicação de massa
43
.
Essa centralidade, como vimos, se alicerça fortemente numa economia de valores
simbólicos configurada a partir da operação de programas cognitivos e afetivos da mídia.
Programas cognitivos que apelam a valores materiais, lógicos, a uma economia de consumo

42
SILVERSTONE, R. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, p.13-14
43
LOPES. M.I.V. Pesquisa em comunicação. São Paulo: Loyola, 2005, p.14.
31
em que consumir possui um viés significativo – político, inclusive, pois poder de consumo é
poder político – que supera o meramente funcional. Programas afetivos, onde a mídia, em
suas diversas instâncias, tais como a propaganda e o marketing, apela “aos valores imateriais
dos produtos, ligados à identidade das marcas”
44
. Esses programas encarnam valores nos
indivíduos, nos receptores midiáticos. Na forma de normas, no sentido foucaultiano que será
apresentado no próximo capítulo, a mídia atua na constituição da subjetividade dos
receptores. Trabalha na constituição do próprio “eu” do receptor. Cria o que Aidar Prado
chama de supereu: “O novo supereu (tenha prazer, viva intensamente, seja uma nova pessoa
num novo corpo) aparece figurativizado nas capas das revistas semanais e mensais sobre o
culto ao corpo: aprenda a gozar; dicas para enriquecer; cinco passos para dinamizar seu corpo;
como se tornar outra pessoa nesse verão etc.”
45
A influência da mídia sobre a subjetividade
dos receptores é, por isso e inclusive, objeto nas discussões sobre a própria conduta do
profissional de comunicação
46
.
Os recursos utilizados pela mídia são diversos: discursivos, auditivos, visuais, táteis.
Apelam, enfim, para a compreensão e afetos humanos por meio de todos os mecanismos
possíveis. Em outro momento
47
, apontamos que as revistas Mens’s Health e Nova têm um
caráter manualístico, propondo em seus discursos as condutas apropriadas a determinadas
situações. Tais discursos, na forma de regras de conduta, podem operar dentro do conceito
foucaultiano de norma, ou seja, das regras que se internalizam e passam a constituir a
subjetividade dos indivíduos – neste caso, os receptores das revistas.
É no contexto da importância da mídia no papel de constituição da subjetividade dos
receptores que recortamos nosso objeto: os discursos das revistas Men’s Health e Nova no
período de 6 meses (o que equivale a 6 exemplares de cada revista). Quando necessário,
reportaremos às imagens às quais os discursos façam alusão, mas o foco central da análise
será os discursos: editoriais, artigos e cartas de leitores publicadas.

44
AIDAR PRADO, J. Op.cit., p.22.
45
Op.cit., p.24.
46
Cf. BARROS FILHO, C. Op.cit., p.103-163.
47
CALABREZ FURTADO, P. Moral, sociedade e mídia impressa: reflexões sobre os discursos do caderno
Turbine o seu prazer! O guia MH de sexo e relacionamento da revista Men s Health. In: INTERCOM - XIII
Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste 2008. São Paulo: XIII Congresso de Ciências da
Comunicação na Região Sudeste - Intercom, 2008; e Do egoísmo à juventude eterna: olhares sobre os discursos
de amor e desejo na revista Nova. In: Revista Contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, 2008, v. 6, p. 46-58.
32
O recorte foi assim realizado pois o problema que pretendemos investigar – a saber:
existe uma dimensão ética na recepção dos discursos das revistas Men’s Health e Nova? –
parte da concepção ética de Michel Foucault, onde a ética é uma dimensão existencial, uma
porção da existência do indivíduo em que ele se constitui sujeito não de normas ou códigos
morais, mas de maneira autônoma, escapando à subjetivação operada pela norma e pelos
dispositivos disciplinares e governamentais. Ética é a maneira pela qual, e em que situação de
sua existência, um indivíduo se constitui sujeito não como agente de um código, mas como
sujeito moral dessa situação. Não nos aprofundaremos nesta questão aqui, pois o pensamento
de Foucault será trazido no capítulo seguinte. É importante ressaltar, entretanto, que para
responder ao nosso problema, não podemos nos centrar somente na análise dos discursos das
revistas. Na Parte II, realizaremos um movimento duplo: a fundamental análise dos discursos
das revistas, que servirá para que efetivamente compreendamos como eles se configuram
(Capítulo 3), mas também a investigação da recepção dos discursos das revistas em campo, ou
seja, a análise de como Men’s Health e Nova operam junto aos receptores (Capítulo 4).
Somente assim poderemos verificar os impactos de tais discursos na constituição da
subjetividade dos receptores, para finalmente tentarmos um esboço de resposta ao problema
inicialmente proposto.
A perspectiva ética de Michel Foucault, conjunto de idéias comumente categorizado
sob o campo da filosofia, assim como todos os movimentos teóricos que realizaremos neste
trabalho, são trazidos num contexto de transdisciplinaridade, que será exposto no item
seguinte.
1.4 – A transdisciplinaridade
Como vimos, os fenômenos comunicacionais apontam para um contato múltiplo com
todas as outras disciplinas das ciências humanas. O midiacentrismo, na tentativa de recortar
com maior especificidade o objeto do campo comunicacional, primeiramente parece não levar
totalmente em conta a complexidade maior dos fenômenos comunicacionais. Em segundo
lugar, mesmo que instaurado, ele não seria capaz de isolar o campo da comunicação em uma
disciplina higienizada e livre da interface com outras. É nesse sentido que a
transdisciplinaridade, como alternativa a uma mera interdisciplinaridade, é proposta
48
.

48
LOPES, M.I.V. O campo da comunicação: sua constituição, desafios e dilemas. Op.cit., p.24.
33
De um lado, como pesquisadores no campo da comunicação, não podemos nos
contentar com a mera metáfora de que a comunicação é uma ciência “encruzilhada”, por onde
todas as outras ciências humanas passam e onde nenhuma fica. Por outro lado, não é possível
pensar comunicação sem pensar sua interface com as outras ciências humanas, visto que ela é
constitutiva do próprio “objeto-mundo” estudado por tais ciências. Nessa perspectiva, se nos
contentarmos com a simples sobreposição de outras ciências sobre a comunicação, estaremos
realizando aquilo que Lopes
49
chama de interdisciplinaridade.
Essa sobreposição, no entanto, mais afirma os limites de cada disciplina perante a
comunicação do que efetivamente propõe uma reflexão epistemológica crítica, aos moldes da
proposta de Aidar Prado
50
, ou seja, uma crítica que questione não só o objeto do pensamento,
mas a própria maneira como se pensa sobre o objeto.
A proposta transdisciplinar segue por esse rumo, ou seja, questiona as bases estanques
das disciplinas das ciências sociais, propondo uma relação que não somente sobreponha
diversos saberes, mas propriamente perpasse os saberes humanos, criando um estatuto
disciplinar distinto, propriamente transdisciplinar, transversal aos limites epistemológicos
estabelecidos.
A comunicação como campo científico, como já vimos, é um palco de dinâmicas
sociais e políticas, mais do que um recorte cirúrgico de objetos e métodos higienizados e
puros. Falar de “campo da comunicação” é, para nós, falar de um campo social, campo de
embates entre agentes sociais buscando legitimar ou manter a legitimação de suas
perspectivas. Propor uma abordagem transdisciplinar é realizar um movimento institucional,
propriamente disciplinar, afirmando que a comunicação não possui um objeto puro que só a
ela pertence. É derrubar as fronteiras disciplinares e permitir a criação de uma regulamentação
disciplinar nova, distinta, transdisciplinar.
Certamente esse não é um movimento institucional proposto isoladamente pelos
estudiosos da comunicação. As ciências sociais em geral, nos últimos anos, vêm discutindo o
estatuto transdisciplinar como alternativa aos estatutos disciplinares estabelecidos
51
.

49
Op.cit.
50
Proposta fundada na perspectiva crítica de Foucault. Cf. AIDAR PRADO, J. Op.cit., p.25-30.
51
LOPES, M.I.V. Op.cit., p.19-23.
34
Em outros termos, é um caso de luta para afirmar-se institucionalmente um
campo acadêmico transdisciplinar e para afirmar-se o estatuto
transdisciplinar da comunicação. Este estatuto (...) não constitui um caso
isolado, mas, antes, deve ser entendido como fazendo parte de movimento
contemporâneo de reconstrução histórica e epistemológica das ciências
sociais
52
.
É, sem dúvida, um desafio. Desafio para o qual apontam muitas perspectivas críticas
de estudiosos não somente da comunicação, como também das demais ciências sociais. O
desenvolvimento das ciências que têm por objeto o homem leva a uma espécie de “crise de
paradigmas”, que faz notar que os regimes disciplinares estabelecidos carecem de uma
configuração epistemológica capaz de abarcar a complexidade de seus objetos. Ignorar tal
desafio, no entanto, se resguardando na segurança de recortes epistemológicos precisos e
higienizados, foge à abordagem propriamente crítica proposta por Aidar Prado, Judith Butler
e Michel Foucault, entre outros: a de questionar a maneira como se conhece tanto quanto se
questiona o objeto do conhecimento. Pois seguindo a lógica dos campos de Bourdieu, na
gênese, no alicerce constitutivo do campo científico já existe uma dinâmica estratégica que
pressupõe um embate entre o que permanece – neste caso, os estatutos disciplinares tal como
estão determinados – e o que subverte – a proposta transdisciplinar.
Nesse sentido – num movimento certamente ousado, talvez não muito usual, mas que
cremos ser frutífero e desafiador –, trouxemos a filosofia de Michel Foucault (entre outros
movimentos teóricos) para este estudo. Não a sobrepondo à comunicação, como que fazendo
uma leitura de nosso problema de pesquisa somente comparando-o aos escritos foucaultianos.
Pretendemos que este seja um estudo que não se situe em qualquer disciplina recortada
pré-estabelecida. Trata-se de um trabalho de filosofia, sociologia ou comunicação? Filosofia
da comunicação? Sociologia do consumo de bens simbólicos? Quaisquer desses recortes são
tão arbitrários quanto o próprio estatuto disciplinar de suas disciplinas: movimentos sociais
interessados, políticos – jogos de poder em uma arena de embates entre agentes na luta por
mais poder, como nos mostra Bourdieu.

52
Op.cit., p.24.
35
Este é, sim, um trabalho no campo da comunicação, mas em um campo social, não
disciplinar. Desejamos, aqui, uma contribuição a sociólogos, comunicólogos, filósofos,
estudantes e, inclusive, aos não-acadêmicos.
Ensejamos, a partir do espírito crítico e questionador das idéias de Foucault – que,
como veremos, tinha dificuldades ele mesmo de definir em que campo atuava –, abordar
nosso problema: existe uma dimensão ética a partir da recepção dos discursos das revistas
Men’s Health e Nova? Para tanto, é necessário que situemos as idéias de Foucault no contexto
de nosso objeto de estudo e problema, tarefa a que se propõe o Capítulo 2, a seguir.
36
2 – CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO E ÉTICA EM MICHEL FOUCAULT: UM
PROBLEMA TAMBÉM DA COMUNICAÇÃO?
“There is always the possibility of proving any definite [well-defined] theory wrong; but notice that
we can never prove it right. Suppose that you invent a good guess, calculate the consequences, and
discover every time that the consequences you have calculated agree with experiment. The theory is
then right? No, it is simple not proved wrong. In the future you could compute a wider range of
consequences, there could be a wider range of experiments, and you might then discover that the
thing is wrong... We never are definitely right, we can only be sure we are wrong”.
Richard P. Feynman
“The farther I go, the less I know”.
Queens of the Stone Age
Não pretendemos, aqui, uma crítica e interpretação das idéias de Michel Foucault com
vistas a complementar a produção dedicada à leitura de sua obra. É dentro da proposta
transdisciplinar apresentada no capítulo anterior, ou seja, da comunicação como
transdisciplina, que ultrapassa transversalmente os limites disciplinares estabelecidos – tanto
dela mesma como da filosofia, neste caso –, que recorremos ao filósofo francês. Alertamos o
leitor, portanto, que o aprofundamento na complexa e extensa filosofia foucaultiana será
limitado ao escopo delineado pelo objeto e pelo problema deste estudo, ou seja, à intersecção
entre nosso problema de pesquisa e a filosofia de Foucault. Tal limitação é intencional, e
acreditamos que está em linha com a proposta transdisciplinar a que recorremos.
Acreditamos, além disso, que a própria abordagem filosófica de Foucault é, de alguma
maneira, transdisciplinar. Trazê-la, portanto, a um estudo de comunicação, é um exercício que
pode contribuir para a constituição de um estudo transdisciplinar na comunicação – mesmo
que apenas na forma de tentativa e esforço teórico. Por isso realizaremos, em primeiro lugar,
uma exposição de como Foucault compreendia sua própria obra (2.1).
37
Dentro desse contexto, seguiremos situando as particularidades da filosofia
foucaultiana (2.2), para então apresentar a questão da constituição do sujeito em sua obra
(2.3), que culmina com o problema da ética (2.4). Em todos os momentos, apresentaremos o
espaço de intersecção entre as idéias de Foucault e a perspectiva de comunicação apresentada
no Capítulo 1. Pretendemos, neste capítulo, ao entrelaçar as idéias de Foucault aos fenômenos
comunicacionais – e a mídia, em específico –, deitar as bases teóricas para a análise dos
discursos das revistas (Capítulo 3) e, posteriormente, para a abordagem, em campo, da
recepção dos discursos (Capítulo 4).
2.1 – Filosofia e história – pensamento e/ou fato?
É difícil encaixar os escritos de Michel Foucault em categorias e classificações
estabelecidas do conhecimento. Pode-se dizer que há uma certa “confusão” envolvendo que
tipo de pesquisador Foucault “foi”. Tal questão emerge como uma dificuldade ou impasse
freqüente nas discussões entre estudiosos de Foucault, e também entre aqueles que o criticam.
Essa dificuldade é resultado, principalmente, da maneira como ele estudou e abordou sua
própria produção. Ao longo de sua trajetória, Foucault sempre foi seguro e direto a respeito de
suas próprias incertezas. Sempre que questionado a abordar sua própria obra, ele o fazia para
questioná-la. Em entrevista, quando perguntado a respeito do primeiro volume da História da
Sexualidade, diz ser esta um “livro-programa, tipo queijo gruyere, cheio de buracos para que
neles possamos nos alojar. Não quis dizer ‘eis o que penso’, pois ainda não estou muito
seguro quanto ao que formulei”
53
. Ao fim de outra entrevista, Foucault diz: “Gostei muito
desta entrevista com vocês, porque mudei de opinião entre o começo e o fim”
54
. Em outra
passagem, afirma que os problemas que estudou entre 1970 e 1976 “constituem
aproximadamente o campo muito geral que escolhi percorrer apesar de saber claramente que
de maneira parcial e ziguezagueando muito”
55
. Há, portanto, uma certa resistência a partir do
próprio Foucault em aceitar classificações que categorizem seus trabalhos a partir de

53
FOUCAULT, M. Sobre a história da sexualidade. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979,
p.243.
54
FOUCAULT, M. Sobre a Geografia. Op.cit., p.164.
55
FOUCAULT, M. Soberania e disciplina. Op.cit., p.180.
38
continuidades inalteráveis – quando ele mesmo faz questão de apresentar descontinuidades
em sua obra.
A resistência apresentada por Foucault frente a quaisquer classificações dogmáticas do
conhecimento se explica pela maneira com que ele olha para a própria produção do
conhecimento. Para Foucault, o conhecimento – os saberes, que conseqüentemente constituem
as verdades, ou seja, as afirmações científicas; os discursos científicos – só é possível como
produção. Em outras palavras: a verdade não é algo que se pode possuir, que tem substância,
que se deve procurar no mundo com as “ferramentas” corretas para que possamos encontrar,
obter e guardar. A verdade tem a forma de produção, de algo que é criado pelo homem. Não
de algo que o homem encontra pronto no mundo para ser capturado.
O conhecimento da realidade toma a forma de verdade no discurso científico. Tal
conhecimento, entretanto, deriva de uma realidade que sempre se dá perante o homem, para o
homem e pelo homem. A realidade nunca se apresenta integralmente. Quando os homens
afirmam “conhecer” determinada realidade, eles só conhecem-na dentro dos limites de seus
próprios sentidos e signos; de sua capacidade humana de observação e interpretação. Há,
inexoravelmente entre a realidade e aquilo que se afirma ser a verdade sobre essa realidade,
pelo menos uma “janela”: o homem. É nesse sentido que Protágoras, 4 séculos antes de
Cristo, disse que “o homem é a medida de todas as coisas”
56
.
Se tudo aquilo que dizem ser verdade sobre a realidade é algo que necessariamente
passou pelos homens, torna-se difícil afirmar que existe uma realidade – e, portanto, uma
verdade – objetiva e integral, higienizada, livre de quaisquer convenções ou influências
situacionais. A realidade que conhecemos é uma realidade humana
57
.
Essa realidade, quando transmitida entre os homens, é mediada por meio da
comunicação. Por meio dos fenômenos comunicacionais. Pois sem os fenômenos
comunicacionais o mundo não tem “sentido”. Sem a comunicação, sem a significação, sem o

56
ABBAGNANO, N. História da Filosofia: volume 1. Lisboa: Presença, 2006, p.65-69.
57
É importante lembrar a perspectiva da fenomenologia da percepção, ao afirmar que, se os sentidos do homem
estão sempre entre o mundo e o que se conhece do mundo dentro dos limites que a visão humana, por exemplo,
possui em relação às cores, ou então das limitações da audição em relação a determinadas freqüências –, então o
que chamamos de “realidade” nada mais é do que uma série de fenômenos – recortes – capturados por nossa
percepção limitada. Sobre essa questão, ver: MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. São
Paulo: Martins Fontes, 2006.
39
valor simbólico outorgado ao mundo na comunicação, o mundo simplesmente é. O sentido,
ou seja, aquilo que nos permite dizer que o mundo é isto ou aquilo, é justamente o valor
simbólico. O mundo só é um objeto com sentido devido à comunicação – às relações de troca
simbólica entre os homens. É na comunicação que se fundam as ciências que pretendem dar
sentido ao mundo dos homens. Podemos retomar e compreender efetivamente a passagem
apresentada, de Lopes:
É no objeto-mundo “com sentido” que as ciências humanas e a comunicação
se encontram. No mundo “comunicado”, que tanto os media como as
ciências humanas nos oferecem, constitui-se a objetividade mesma do
mundo e não somente interpretações diferentes de uma “realidade” de
alguma maneira “dada”. A realidade do mundo como algo que enfim não é
uma reunião de visões disciplinares do empirismo ingênuo, mas algo que se
constrói como contexto de múltiplas narrativas
58
.
Foucault nos ajuda a compreender devidamente a perspectiva de que a comunicação é
necessariamente intrínseca às demais ciências humanas, e conseqüentemente as bases para a
proposta do estatuto transdisciplinar da comunicação. Pois tal estatuto, como alternativa às
disciplinas tais como são, afirma a característica mutante e auto-crítica do conhecimento
científico. Conhecimento sobre um mundo que não tem sentido senão aquele que é
comunicado, ou seja, o valor simbólico que dá significado ao mundo. Mas que não se
estrutura somente a partir disso – afinal, este é apenas o contexto discursivo dos campos
científicos –, mas depende muito mais de uma análise do contexto social, ou seja, do contexto
competitivo, combativo, do jogo em que os agentes sociais do campo jogam.
Para Foucault, inclusive, a referência para compreender a história do homem não deve
ser a dimensão dos signos. Muito mais importante é o contexto social.
Daí a recusa das análises que se referem ao campo simbólico ou ao campo
das estruturas significantes, e o recurso às análises que se fazem em termos
de genealogia das relações de força, de desenvolvimentos estratégicos e de
táticas. Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande
modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A

58
LOPES, M.I.V. Op.cit., p.23.
40
historicidade que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística.
Relação de poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o
que não quer dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível
e deve poder ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a
inteligibilidade das lutas, das estratégias, das táticas
59
.
Em outras palavras, a dinâmica das ciências deve ser compreendida em seu contexto
social, analisando os meandros dos interesses, troféus, legitimações e deslegitimações, enfim,
o regime competitivo que subjaz a produção científica, e não somente focar a produção
científica em si, como regime de significados que supostamente dão sentido a um mundo que,
nele mesmo, não tem sentido algum
60
.
E se o homem e suas relações sociais estão sempre entre a realidade e o conhecimento,
poder-se-ia ainda afirmar que o conhecimento está inscrito na própria natureza humana. Ou
seja, dizer que, mesmo o homem sendo a medida de todas as coisas, ele possui em sua
natureza, em sua gênese biológica, um instinto que o leva ao conhecimento da verdade, da
realidade em si, como ela é integral e objetivamente – do mundo nele mesmo. Dizer isso é
dizer que o homem nasce com um instinto, o qual ele deve aprender a utilizar, que o permite
descobrir as verdades universais da realidade. Foucault discorda dessa perspectiva.
Para Foucault, o homem está inserido em uma realidade constantemente mutante. O
mundo (realidade) muda a cada instante, e não pára em momento algum para ser observado e
estudado. Os homens são personagens em um palco que muda infinita e constantemente. A
cada momento histórico e social o mundo é diferente e, portanto, a maneira como os homens
agem nesse mundo também muda. O conhecimento seria uma maneira encontrada pelos
homens para tentar “domar” o mundo infinitamente mutante
61
. Aquilo que o homem utiliza
para compreender um mundo que não pára para se deixar compreender. A ferramenta para
categorizar, estudar e entender a realidade, tirando uma espécie de “fotografia” já perecida de

59
FOUCAULT, M. Verdade e poder. Op.cit., p.5.
60
Percebe-se, aqui, um diálogo entre Pierre Bourdieu e Michel Foucault. Não trataremos de aprofundar a relação
entre as idéias dos dois autores. Apenas apontamos um terreno fértil de diálogo acerca da produção científica e
do campo científico.
61
FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, 2005, p.17-18.
41
ofício, pois retrata algo que, no instante seguinte à foto, já mudou. Assim, o conhecimento
não está inscrito na natureza humana – como elemento absoluto e irredutível –, pois é algo
circunstancial. É uma estratégia humana frente à realidade e suas mudanças constantes e,
exatamente por isso, é também mutante. Por isso só pode ser compreendido na dinâmica das
estratégias humanas, das relações de força, e não isoladamente como algo essencialmente
científico, de valor simbólico, tentativa de sentido em um mundo sem sentido.
A realidade, diferente de um animal manso, imutável, estático e constante, não se
entrega ao homem – como já observado – em sua integralidade, pelo simples fato de que o
homem e suas relações sempre serão sua janela de observação. Mas, além disso, ela é arisca,
indomável, pois está a todo instante se atualizando. O conhecimento é justamente aquilo que o
homem utiliza para tentar “domar” a realidade em sua inconstância ríspida. Não é algo
absoluto inscrito na natureza humana que permite ao homem compreender o mundo como ele
é, em si. O conhecimento é a tentativa – forçosa, agressiva, não-natural e, portanto, não-
instintiva – de dizer que o mundo é isto, quando o mundo simplesmente é. O mundo existe, e
continuará existindo perpetua e ininterruptamente. O conhecimento é uma maneira violenta e
hostil que o homem encontrou de tentar tornar estático aquilo que não pára de se movimentar.
É uma invenção humana. Não é algo que possui substância e se pode encontrar, obter e
guardar. É produção.
Para Nietzsche, “Em algum remoto rincão do universo cintilante que se derrama em
um sem-número de sistemas solares, havia uma vez um astro, em que animais inteligentes
inventaram o conhecimento”
62
. Foucault, fazendo uma leitura deste texto nitzscheano,
conclui:
O conhecimento foi, portanto, inventado. Dizer que ele foi inventado é dizer
que ele não tem origem. É dizer, de maneira mais precisa, por mais
paradoxal que seja, que o conhecimento não está em absoluto inscrito na
natureza humana. O conhecimento não constitui o mais antigo instinto do

62
NIETZSCHE, F. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: Nietzsche: os Pensadores. São Paulo:
Abril Cultural, 1983, p.45. Este texto de Nietzsche é uma das bases nas quais Foucault ergue sua concepção de
conhecimento em A verdade e as formas jurídicas.
42
homem, ou inversamente, não há no comportamento humano, no apetite
humano, no instinto humano, algo como o germe do conhecimento
63
.
Cada momento histórico e social, portanto, enseja novas formas de conhecer a
realidade; de tentar amansar esse animal arisco que é o mundo. Cientes disso, podemos
compreender a razão pela qual Foucault sempre, com segurança, questiona sua própria
produção.
É também a partir dessas considerações que podemos compreender a maneira pela
qual Foucault trabalhava. Ou seja, sabendo-se que a realidade é mutante, e que o
conhecimento é uma produção humana para tentar controlar essa realidade, somos capazes de
compreender a maneira pela qual Foucault estudou o mundo – ou seja, seu método histórico.
Compreendemos, também, como o estatuto da transdisciplinaridade, nas ciências
humanas, e em especial na comunicação, é uma proposta sólida e frutífera. Percebemos que a
perspectiva foucaultiana é alinhada à visão apresentada por Lopes
64
, em que a própria
configuração dos campos científicos é situada numa dinâmica estratégica que presume
subversão, constituindo um fluxo de reestruturação contínuo como condição da configuração
dos campos científicos. Notamos uma relação entre o campo da comunicação e a filosofia de
Foucault, posto que a própria abordagem científica foucaultiana desmistifica um
“naturalismo” científico, e situa a cientificidade num regime de luta, guerra, embate – que
abre caminho justamente para a questão da transdisciplinaridade, onde o próprio Foucault é
um estudioso cujas idéias partilham da perspectiva transdisciplinar e certamente contribuem
para um pensamento transdisciplinar na comunicação.
___________________________________________________________________________

63
FOUCAULT, M. Op.cit., p.16.
64
LOPES, M.I.V. O campo da comunicação: sua constituição, desafios e dilemas. In: Revista FAMECOS.
Porto Alegre, n.30, p.24.
43
Mesmo frente à resistência perante as classificações de sua obra, Foucault jamais
negou que, em todos os momentos de sua produção, ele realizou estudos históricos
65
. Ao
contrário, não são poucas as vezes em que se refere a seu trabalho de historiador. À pergunta
“Qual o papel do intelectual na prática militante?”, Foucault responde que este não deve agir
como conselheiro, e sim como fornecedor de ferramentas analíticas, “e é este, hoje,
essencialmente, o papel do historiador”
66
. Os problemas estudados por ele, portanto, eram
buscados em períodos distintos, e investigados sob a perspectiva de suas continuidades e
descontinuidades no tempo. Em outras palavras, Foucault olhava para períodos históricos e
investigava como determinadas questões surgiam e desapareciam dentro deles. Isso porque,
somente dentro da história, dentro de cada momento específico, é possível compreender
aquilo que o homem chama de verdade e conhecimento. Pois verdade e conhecimento,
diferente de algo que está pronto para ser obtido pelo cientista, são objeto de luta – da violenta
tentativa de apreensão do mundo pelos homens –, e só podem ser compreendidos como
emergem e desaparecem: historicamente.
Dentro dessa perspectiva de estudos históricos, Foucault sempre percorreu a história
observando os discursos que emergiam em cada período. Mais especificamente, os discursos
científicos que tinham por objeto o homem, ou seja, a produção científica das ciências
humanas. A partir das verdades produzidas sobre o homem Foucault conduziu suas reflexões.
A partir dos discursos, portanto, pois é neles que as verdades se materializam. Mas não nos
discursos mesmos, não em suas próprias cientificidades, em suas verdades em si. Os estudos
históricos de Foucault analisavam os discursos dentro de suas condições de produção, da
historicidade, das relações de força, do embate de forças, da competitividade, dos jogos de
poder, enfim, que permitem a emergência dos discursos.
Pode-se dizer, de modo muito genérico, que os escritos de Foucault
investigam a verdade e seus vínculos com o poder. Mas pode-se igualmente
dizer que não é da verdade e do poder que eles tratam. É que a verdade não é
entendida enquanto identidade de uma essência una e sempre a mesma, mas

65
Razão pela qual muitos o consideram historiador, fato que contribui para a já mencionada confusão acerca de
que tipo de pesquisador ele foi.
66
FOUCALT, M. Poder-corpo. In: Microfísica do poder. Op.cit., p.151. O próprio título do curso ministrado
em 1982 no Collège de France indica como Foucault se vale dos estudos históricos para investigar seus
problemas: A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
44
enquanto produzida no decurso da história, constituindo-se na formação de
saberes reconhecidos como verdadeiros, portanto historicamente múltiplos e
diversificados; numa palavra, trata-se de verdades em seus diferentes modos
de produção em diferentes sociedades
67
.
Tal observação, novamente, aproxima a perspectiva foucaultiana ao campo da
comunicação – como apresentado no Capítulo 1. Pois a comunicação, como relação de troca
de bens simbólicos, relação entre os homens, começa a se materializar na palavra,
cristalizando-se no discurso. Palavra só tem sentido em curso, ou seja, dentro do contexto
social em que emerge, situada na história. Palavra em curso é discurso. “Assim é a palavra.
Ela é uma canção que só tem razão quando ‘cantada’ na materialidade do intercâmbio da vida
social (...). [As palavras] ‘Dançam conforme a música’, tocada no salão do baile onde estão. O
salão é o discurso (...) .”
68
É dentro dessa perspectiva, dessa proximidade entre a perspectiva
foucaultiana aos fenômenos comunicionais, que pretendemos, nas Partes II e III, analisar os
discursos de Men’s Health e Nova e seus impactos na constituição subjetiva dos receptores.
___________________________________________________________________________
Há, entretanto, uma questão que surge a partir dessas considerações
69
. A ela pode-se
dar diversos nomes, mas, em linhas gerais, trata-se da questão da dicotomia entre idéia e fato,
ou entre subjetividade e objetividade, ou então entre pensamento e acontecimento. É, no
fundo, a questão que divide filosofia – como pensamento; elucubração filosófica – da história
– como elaboração científica, frente ao fato e à objetividade. Neste trabalho pretendemos
trazer a filosofia de Michel Foucault a um problema – empírico –, a um fenômeno
comunicacional. Como compreender, então, a filosofia foucaultiana diante de seu método

67
MUCHAIL, S. De práticas sociais à produção de saberes. Op.cit., p.74.
68
BACCEGA, M.A. Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo: Ática, 2007, p.6.
69
Questão que, além de Foucault, é também muitas vezes apontada por Merleau-Ponty, como mostra Salma
Tannys Muchail, que aproxima Merleau-Ponty e Foucault em alguns textos reunidos em: Foucault,
simplesmente. São Paulo: Loyola, 2004. Ver, também, o texto: MERLEAU-PONTY, M. Elogio da filosofia.
Lisboa: Guimarães, 1998.
45
histórico de trabalho? O filosofar e o que efetivamente acontece – o empírico – estariam
divididos? Como, então, compreender Foucault como filósofo?
Foucault rejeita alternativas que confundem ou falseiam o conceito de história e que
fazem da filosofia e da história tradições rivais. Ou seja, não há a escolha entre uma filosofia
que postula uma consciência, um olhar crítico para fora do tempo, desligado de todo interesse
pelo fato – ou seja, uma filosofia que pensa para fora e para além, transcendente à história –,
ou outro tipo de filosofia, que, ao contrário, encontra dentro da história lógicas e valores
ocultos, que devem ser “descobertos” a partir de uma leitura devida. Não somos capazes de
olhar para o mundo e pensar nele fora da história – pois, nós mesmos, estamos inseridos em
um momento histórico. Da mesma maneira, essa particularidade limitante é justamente o que
nos permite olhar para outros períodos históricos – sempre enraizados em nossa história
particular – e buscar pensá-los e compreendê-los. Devemos rejeitar, assim, escolher entre uma
visão que busca uma lógica oculta nos acontecimentos históricos, mas também negar a visão
que é completamente desprendida da história, suprasensível e absoluta.
Filosofia e história, pensamento e fato, são inexoravelmente interligados. Somente
inserido numa determinada sociedade pode-se criticar outra. Toda posição, portanto, é
histórica e, por isso, Foucault busca na história entender qual o jogo que possibilita a
emergência dos problemas que ele estuda – na materialidade dos discursos. Nessa perspectiva,
ele mesmo afirma que a questão da filosofia hoje não deixa de ser igualmente uma questão de
história. À pergunta “Em muitos momentos você se definiu como ‘historiador’. O que
significa isto? Por que ‘historiador’ e não ‘filósofo’?”, Foucault responde que “A questão da
filosofia é a questão deste presente que é o que somos”, ou seja, que filosofia e fato,
acontecimento, história em curso, são indissociáveis
70
.
Se “Foucault faz filosofia fazendo pesquisa histórica”
71
, estudando as formações
discursivas em diferentes momentos e sociedades, são os fatos, os acontecimentos, o
empírico, a história humana, propriamente, que ele busca investigar. Em suma, ele busca, a
partir dos discursos aceitos como verdadeiros em distintos momentos históricos, uma melhor

70
FOUCAULT, M. Não ao sexo rei. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.239.
71
MUCHAIL, S. O mesmo e o outro: faces da história da loucura. In: Foucault, simplesmente. São Paulo:
Loyola, 2004, p.37.
46
compreensão das dinâmicas sociais, dos jogos de poder, das relações combativas e
interessadas que se desenvolvem na sociedade e na história, e que justamente deitam as bases
para o surgimento desses discursos. Mas ele o faz como filósofo. É fundamental compreender,
portanto, a perspectiva filosófica de Foucault, para situá-la com maior clareza em seu método
histórico.
2.2 – A filosofia para Michel Foucault
Como vimos, existe uma relação direta entre o palco histórico – ou seja, a dinâmica da
práxis; o empírico – e a filosofia de Foucault. Além disso, vimos que ele estuda a história por
meio dos discursos que emergem nessa história, mas não olhando para os discursos neles
mesmos, e sim tentando compreender os jogos sociais que permitem a tais discursos emergir
como verdades. Jogos que não são naturais ou desinteressados: pelo contrário, caracterizam
um regime belicoso, combativo, competitivo, de embate de forças, de relações de poder.
Cabe-nos compreender a que filosofia essa metodologia foucaultiana remete. Em outras
palavras, perguntar: o que é filosofar e qual é o papel da filosofia para Foucault? Não porque
desejamos adicionar, apreender, absorver tal informação numa acumulação de conhecimento
histórico ou catálogo. Mas porque a perspectiva filosófica de Foucault aponta para um
objetivo outro que não a simples execução do que seu método propõe. Ou seja, Foucault não
pretende, em seus estudos, simplesmente investigar as relações entre as práticas sociais e uma
formação discursiva que profere verdades sobre a delinqüência ou a loucura, por exemplo.
Apresentaremos uma abordagem filosófica que abrirá nosso caminho para a abordagem de
nosso próprio problema de pesquisa, pois ela culmina na grande questão que perpassa, como
fio condutor, toda a obra de Michel Foucault: a constituição do sujeito.
Na introdução do segundo volume da História da sexualidade – O uso dos prazeres –
Foucault apresenta uma noção de filosofia
72
que de certa maneira reúne as posições que já
havia tomado frente ao seu próprio trabalho. Nela, porém, ele vai além.
Foucault remonta às origens da filosofia, na Grécia antiga, e propõe a filosofia não
como conhecimento puramente teórico – conjunto de conceitos e teorias a se transmitir e

72
FOUCAULT, M. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 2007a.
47
apreender por meio do intelecto – ou teorético – mera contemplação, distante, da práxis –,
mas sim como conhecimento prático frente não somente a este ou outro objeto, mas à vida
como um todo. A filosofia é, na verdade, sob essa perspectiva, uma forma de viver. O objetivo
da filosofia, portanto, como exercício espiritual
73
, é não apenas informar, mas principalmente
formar seres humanos. Formação em vez da simples transmissão de informação. Prática do
espírito, para os gregos.
É um esforço intelectual (espiritual) que visa questionar-se e questionar aquilo que é
legitimado. Buscar saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa e perceber de
maneira diferente do que se percebe. Utilizar a razão não para confirmar caminhos, mas para
buscar descaminhos. Pensar diferente, mas não somente no sentido de mudar de perspectiva
sobre o objeto do pensamento, e sim de pensar o próprio pensamento de maneira diferente.
Não é uma prática isolada que, efetuada, termina seu papel. É um exercício constante
da razão (espírito). Exercício que funciona como uma espécie de ensaio constante. O ensaio
filosófico é a experiência
74
por meio da qual o indivíduo modifica-se a si mesmo em um jogo
de verdade, ou seja, em um jogo de saberes estabelecidos e conhecimentos sedimentados –
conhecimentos, estes, que emergem de um contexto social e histórico de lutas, embate,
competição.
Mas o que é filosofar hoje em dia – quero dizer, a atividade filosófica –
senão o trabalho crítico do pensamento sobre o próprio pensamento? Se não
consistir em tentar saber de que maneira e até onde seria possível pensar
diferentemente em vez de legitimar o que já se sabe? Existe sempre algo de
irrisório no discurso filosófico quando ele quer, do exterior, fazer a lei para
os outros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira encontrá-la,
ou quando pretende demonstrar-se por positividade ingênua; mas é seu
direito explorar o que pode ser mudado, no seu próprio pensamento, através

73
É importante entender, na filosofia antiga, o espírito ou a alma não de acordo com a concepção cristã ou
espírita – como entidade localizada em uma lógica religiosa, pertencente a um plano supra-sensível tal como o
além-vida ou o paraíso –, mas sim como aquilo que exerce nossa razão; aquilo que dá ao nosso corpo a
capacidade de refletir e agir; o sopro que anima nosso corpo a agir e pensar. De maneira simplificada, podemos
tratá-los como intelecto ou intelecção. É fundamental, também, não confundir a espírito ou alma com um eu
psicológico – ou seja, aquilo que me habita e me constitui sujeito. O conceito grego é mais simples, estando mais
próximo à simples noção de um sopro: aquilo que permite ao corpo viver, pensar, agir.
74
O conceito de experiência, em Foucault, tem um viés específico, que setratado no item seguinte.
48
do exercício de um saber que lhe é estranho. O “ensaio” – que é necessário
entender como experiência modificadora de si no jogo da verdade, e não
como apropriação simplificadora de outrem para fins de comunicação – é o
corpo vivo da filosofia, se, pelo menos, ela for ainda hoje o que era outrora,
ou seja, uma “ascese”, um exercício de si, no pensamento
75
.
Tal perspectiva é constante em todas as escolas filosóficas da Antiguidade greco-
latina. De maneira geral, o conhecimento – a matemática ou a física, por exemplo – era um
exercício do intelecto sobre si próprio, sobre a vida e o mundo, visando e buscando conduzir
uma vida bela, melhor, virtuosa. Esse exercício era filosofia. Ao dizer melhor, vale ressaltar
que o critério desse juízo de valor varia – por vezes drasticamente – entre as escolas
filosóficas da Antiguidade. Fato é, porém, que todas as filosofias antigas buscavam, por meio
do conhecimento como exercício da razão, refletir sobre a melhor vida possível de ser vivida.
Como aponta Nicola Abbagnano, “(...) na Grécia, a filosofia teve ainda o valor de uma sageza
que deve guiar todas as ações da vida”
76
. A formação do jovem grego, a Paidéia
77
, se funda
em tais preceitos.
Essa concepção da filosofia como exercício do espírito, também chamado de ascese
78
,
é muito explorada por Pierre Hadot
79
. A importante influência de Hadot sobre a obra
foucaultiana é apontada não somente por leitores de Foucault
80
, mas também por ele próprio:
“(...) os [livros] de P. Hadot e, em várias ocasiões, seus pareceres e as conversações que
mantivemos, me foram de grande valia”
81
. Um dos exercícios espirituais que caracterizam a

75
FOUCAULT, M. Op.cit., p.16.
76
ABBAGNANO, N. Op.cit., p.19.
77
Ver: JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
78
Não confundir, aqui, com a concepção ascética cristã – que, inclusive, figura nos dicionários da língua
portuguesa que consultamos –, onde ascese é relacionada à prática dos monges e ermitãos; à penitência; auto-
isolamento; abstinência.
79
HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 1999. Ver, principalmente: Philosophy as a
way of life: spiritual exercises from Socrates to Foucault. Oxford: Blackwell, 1995.
80
Cf. ORTEGA, F. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999, p.51-56.
81
FOUCAULT, M. Op.cit., p.12.
49
filosofia antiga que mais interessam Hadot se localiza no platonismo e no estoicismo: a
atenção (em grego, prosoche). Trata-se da concentração e ocupação filosófica no momento
presente, naquilo que tensiona o espírito, no que o espírito vive no instante em que vive.
Viver o momento presente, a história que se vive aqui e agora. É nesse sentido que Foucault
afirma que “A questão da filosofia é a questão deste presente que é o que somos”
82
. Pois se a
filosofia é um exercício a partir do pensamento (espírito), frente à vida e ao mundo, então
certamente é um exercício perante os jogos de verdade em que todo conhecimento sobre o
mundo se ergue: os já mencionados jogos de poder, o contexto social do conhecimento, as
práticas que permitem que verdades surjam.
Com o surgimento do cristianismo, aos poucos as práticas espirituais foram sendo
apropriadas pela Igreja sob a égide da fé. Finalmente, na Idade Média, a perspectiva sobre a
filosofia muda definitivamente. A divisão entre theologia e philosophia, devido à escolástica
cristã e ao surgimento das universidades, faz com que a filosofia torne-se um simples discurso
teórico, separada dos exercícios espirituais. Assim a filosofia permanece até a
contemporaneidade, desde o século XVIII, restrita aos muros da faculdade de filosofia (salvo
algumas exceções, como Nietzsche).
Foucault, ciente dessa transição no conceito de filosofia, vai olhar para a Antiguidade
grega e latina para restabelecer a então concepção de filosofia como prática do espírito, ascese
espiritual, forma de vida. Ao contrário da filosofia moderna, que se apresenta como um
discurso hermético restrito a especialistas, a idéia é atualizar o conceito de filosofia como uma
exercício ensaístico de reflexão e auto-reflexão sobre o palco da vida. Uma forma, maneira,
modo de viver possível a todos. E isso não por meio de uma aplicação de estereótipos, ou
seja, a simples tentativa de aplicar a solução de um problema antigo a outro problema, agora
novo. A questão é o exercício, a prática, o uso do conhecimento como forma de viver. Por
isso ele destaca que a discussão com a filosofia antiga e todos os demais movimentos
históricos que realizou não possuem um mero interesse histórico:
Os estudos que se seguem, assim como outros que anteriormente empreendi,
são estudos de “história” pelos campos que tratam e pelas referências que
assumem; mas não são trabalhos de “historiador”. O que não quer dizer que

82
FOUCAULT, M. Não ao sexo rei. Op.cit., p.239.
50
eles resumam ou sintetizem o trabalho feito por outros; eles são – se
quisermos encará-los do ponto de vista de sua “pragmática” – o protocolo de
um exercício que foi longo, hesitante, e que freqüentemente precisou se
retomar e se corrigir. Um exercício filosófico: sua articulação foi a de saber
em que medida o trabalho de pensar sua própria história pode liberar o
pensamento daquilo que ele pensa silenciosamente, e permitir-lhe pensar
diferentemente
83
.
Dessa maneira, percebemos que, apesar de seus estudos se situarem em um campo
histórico, eles não são feitos com olhos de historiador. Para além da história, eles buscam
atualizar, não por meio da cópia de modelos prontos, mas sim da abordagem filosófica, a
filosofia como forma de vida
84
.
Ao falar de filosofia, aqui, portanto, estaremos falando da concepção de filosofia
apresentada por Foucault – ao longo de toda sua obra e que culmina com a introdução de O
uso dos prazeres –, como forma de vida. Essa concepção tem suas raízes nas origens da
filosofia grega, mas, para Foucault, representa justamente a possibilidade teórica que
permitirá, como veremos nos capítulos seguintes, a reflexão ética sobre a constituição do
sujeito moderno.
É a preocupação com o conhecimento não como informação, mas como formação,
prática, conduta. Pois, como vimos, para Foucault o conhecimento não tem substância. É
produção. Se é produção, é fruto de exercício, de prática. O trabalho de historiador executado
por Foucault é, ao mesmo tempo, um trabalho de filósofo, mas não para tentar criar alguma
espécie de biblioteca; de conjunto de verdades a respeito de determinados períodos históricos.
A história é ligada à filosofia pois, para Foucault, a filosofia deve buscar pensar as maneiras
como se pensa – e conseqüentemente conhece – a atualidade, o presente, a contingência,
aquilo que acontece agora e que poderia acontecer diferente, e que por conseqüência enseja

83
FOUCAULT, M. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Op.cit., p.13-14.
84
Alguns autores contemporâneos buscam a filosofia em sua reclusão no interior das universidades em tentativa
de trazê-la, de maneira mais acessível, a todos. Muitos puristas olham tais iniciativas com rejeição – mas, como
se pode observar, a postura destes não condiz com aquilo a que a filosofia se propôs quando surgiu, tampouco
com a perspectiva foucaultiana. Um bom exemplo de tais tentativas é: FERRY, L. Aprender a viver: filosofia
para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
51
maneiras de pensar também diferentes. Para isso, Foucault recorreu à história, à concepção
greco-latina de filosofia, a fim de reformular a filosofia moderna, atualizando-a como prática
do espírito e forma de vida.
Notamos, assim, que a pesquisa histórica de Foucault tem como alvo não um trabalho
de catalogar o passado, mas sim de abordar criticamente o presente. Pois isso é,
fundamentalmente, o papel da filosofia. A respeito de Foucault, Salma Muchail diz que “As
filosofias só estão associadas às investigações históricas do passado para possibilitar um olhar
mais atento sobre nosso tempo. Em outras palavras, para que elas possam ser o que devem
ser, a saber, diagnóstico do presente”
85
.
Primeiramente, não é um conhecimento teórico exclusivo a especialistas. Se fosse
conhecimento específico, diferente da bioquímica, por exemplo, não possuiria essa relação
diagnóstica com a reflexão sobre o presente, a história que se vive, a contingência da vida no
momento em que é vivida, a não ser que se convertesse em manual (proposta de especialistas
para a vida de todos), como fazem ciências como a bioquímica. Deixaria, se assim fosse, de
ser filosofia, passando a ser uma disciplina tecnicista. Se admitirmos que a capacidade
diagnóstica da filosofia sobre o presente é na forma de abordagem reflexiva perante a própria
maneira que se pensa a vida – e não submarinos atômicos ou aceleradores de partículas –, ela
perde o próprio sentido de ser ao permanecer restrita a especialistas.
Em segundo lugar, a filosofia, como propomos aqui, não é aplicável. Ela é, sim,
diagnóstico do presente que vivemos. Mas como abordagem. De si perante a maneira que se
pensa sobre si mesmo, a vida e o mundo. Como abordagem espiritual, é um enfoque
intelectivo que pode conduzir a proposição de técnicas, mas que não encerra técnica em si,
pois é um exercício que não tem fórmula prévia, só encontrando razão no exercício mesmo.
Se necessitássemos estabelecer a serviço de que está a filosofia que propomos, o máximo que
conseguiríamos é afirmar seu serviço à vida humana como um todo. Mas não na forma
manualística da aplicabilidade, e sim na forma reflexiva da abordagem.
Assim, para Foucault, a filosofia é uma prática do intelecto, é uma forma de viver que
tem por fim uma constante reconstrução de si mesmo por meio de uma crítica reflexiva sobre
a maneira pela qual pensamos e conhecemos o mundo. Desta maneira Foucault aborda

85
MUCHAIL, Salma. Foucault e a leitura dos filósofos. In: Op.cit., p.93.
52
filosoficamente os problemas do momento presente. As questões, enfim, histórico-sociais da
vida. Não diagnosticando as coisas nelas mesmas, mas a maneira pela qual se pensa as coisas
e quais jogos de poder, no mundo, permitem que essa maneira de pensar surja.
Terminamos este item propondo uma reflexão sobre um compromisso entre esta
perspectiva filosófica e o campo da comunicação (como apresentado no Capítulo 1). O
pensamento de Foucault suscita um espírito crítico propriamente filosófico. Espírito
questionador não só dos objetos que percebe e conhece, mas da própria percepção e
conhecimento que produz. As ciências, como instâncias sociais de produção discursiva de
saberes, nos aparecem como um evidente objeto da crítica filosófica proposta por Foucault. É
a esse espírito crítico que Aidar Prado recorre ao propor uma abordagem epistemológica do
campo da comunicação
86
. É, também, a partir desse espírito que podemos pensar a
transdisciplinaridade como alternativa aos sedimentados regimes disciplinares das ciências
humanas. Pois um cuidadoso olhar para tais ciências ao longo da história nos faz perceber
que, em vez de uma continuidade evolutiva, o campo científico “encontra na ruptura contínua
o verdadeiro princípio de sua continuidade”
87
.
Compreender como Foucault entende a produção do conhecimento, seu próprio
trabalho e a filosofia é fundamental para que prossigamos ao próximo ponto de nossa
reflexão: como a constituição do sujeito está situada nas idéias de Foucault.
2.3 – A constituição do sujeito
A obra de Foucault é extensa e complexa. Estende-se por mais de três décadas e
aborda diferentes objetos. Encara os objetos, também, de maneiras distintas. Estudou as
ciências humanas e as formas que elas tomaram ao longo da história; as prisões, clínicas,
manicômios e os saberes que operam num regime disciplinar dentro das instituições; a
maneira como determinados saberes e práticas discursaram sobre uma sexualidade na

86
Ele utiliza uma leitura de Judith Butler da obra de Foucault. Cf.: AIDAR PRADO, J. Regimes cognitivos e
estésicos da era comunicacional: da invisibilidade de práticas à sociologia das ausências. In: Revista
Comunicação, mídia e consumo. São Paulo, v.3, n.8, p.25-30.
87
BOURDIEU, P. Apud: LOPES, M.I.V. Op.cit., p.18.
53
modernidade; como os indivíduos na Antiguidade Clássica e greco-romana definiam-se a
partir de seus prazeres e práticas sexuais; entre outros.
Em todos os momentos de sua obra, entretanto, encontram-se de alguma maneira
articulados verdade e poder.
A verdade, como vimos, não possui substância, como algo que é possível encontrar ou
obter. Não há um caminho mais certo ou errado rumo à verdade. Ela é produzida na história,
sendo possível, portanto, apenas uma reconstituição histórica de verdades produzidas. Essa
produção de verdade se dá dentro do que Foucault chama de “jogos de verdade”, que são
distintos em cada sociedade, pois cada sociedade possui seu próprio regime de verdade. Os
regimes de verdade são todas as condições de produção dos discursos verdadeiros em uma
determinada sociedade, isto é,
os tipos de discurso que elas acolhem e fazem funcionar como verdadeiros;
os mecanismos e as instâncias que permitem distinguir os enunciados
verdadeiros ou falsos, a maneira como uns e outros são sancionados; as
técnicas e os procedimentos que são valorizados para a obtenção da verdade;
o estatuto daqueles que têm o poder de dizer aquilo que funciona como
verdadeiro
88
.
A filosofia de Foucault, em seu papel de abordagem reflexiva do presente, aponta qual
regime de verdade suas análises trazem à luz: nosso próprio regime de verdade. Ou seja, o
regime de verdade que tem por objeto o ser humano e que produziu, distintamente, até nossa
época, ao longo de diferentes períodos históricos, verdades sobre o homem.
Esse regime possui diversas especificidades. A verdade, primeiramente, está centrada
no discurso científico e nas instituições que o produzem, mas é permanentemente utilizada
tanto pela produção econômica quando pelo Estado. Para que opere devidamente, a verdade
nesse regime é amplamente difundida, tanto por meio das instâncias educativas quanto pelas

88
FOUCAULT, M. Apud: REVEL, J. Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005, p.86.
54
informativas. Sua produção e transmissão, portanto, é controlada por alguns grandes
aparelhos políticos e econômicos (universidades, mídia, exército)
89
.
Percebe-se, assim, que os jogos de verdade situados em nosso regime de verdade são
igualmente jogos políticos, ou seja, jogos de interesses que caracterizam relações de poder. É
na conjuntura dos jogos de verdade – e na verdade indissociável deles – que o conceito de
poder se encontra.
O poder, tal como a verdade, não é uma entidade coerente, unitária e estável que
possui substância. Não se pode dizer, por exemplo, que um indivíduo x possui poder sobre y.
Ele deve ser entendido em relações de poder, ou seja, o poder só existe quando exercido por
uns sobre os outros. É fundamental apontar que nem esses “uns” nem os “outros”
permanecem fixados em papéis, mas estão sucessiva e até simultaneamente situados nos dois
pólos da relação. Isso implica que o poder varia ao longo da história, e essa variação e
dinâmica é que deve ser compreendida – justamente as relações de poder. Essas relações,
além do mais, estão espalhadas por todos os interstícios da sociedade.
Não se trata, portanto, de compreender a substância do poder, ou mesmo o que
caracteriza o poder, e sim o “como” do poder, já que ele se dá sempre em relações. É
compreender os modos pelos quais ele foi exercido, ou seja, a análise de como,
historicamente, emergiram as maneiras de aplicação do poder. Também a compreensão dos
instrumentos utilizados para o exercício de poder, os campos onde ele intervém, as redes –
sociais, cognitivas, simbólicas, discursivas – que ele desenha e, finalmente, os efeitos que ele
implica numa época dada.
As relações de poder são, assim, modos de ação complexos sobre a ação dos outros.
Em outras palavras, são maneiras de agir que têm por objeto a ação de outros indivíduos.
A análise de tais relações exige que se fixe um certo número de pontos
90
:
1) O sistema das diferenciações que permite a ação sobre a ação dos outros, que é ao
mesmo tempo condição de emergência e efeito das relações de poder: diferença

89
REVEL, J. Op.cit., p.86-87.
90
REVEL, J. Op.cit., p.67-68.
55
jurídica de estatuto e de privilégios, diferença econômica na apropriação de
riqueza, diferença de lugar no processo produtivo, diferença lingüística ou cultural,
diferença de saber-fazer ou competência etc.
2) O objetivo dessa ação sobre a ação dos outros: manutenção de privilégios,
acumulação de proveitos, exercício de uma função etc.
3) As modalidades instrumentais do poder: as armas, o discurso, as disparidades
econômicas, os mecanismos de controle, os sistemas de vigilância etc.
4) As formas de institucionalização do poder: estruturas jurídicas, fenômenos de
hábito, lugares específicos que possuem um regulamento e uma hierarquia
próprios, sistemas complexos como aquele do Estado, os meios de comunicação
etc.
5) O grau de racionalização da relação, em função de alguns indicadores: eficácia dos
instrumentos, certeza do resultado, custo econômico e político etc.
A relação entre poder e verdade é que interessa Foucault. Em suma, é compreender
como relações de poder fazem emergir verdades e como verdades, por sua vez, possuem
efeitos de poder. Como exemplo, podemos citar a análise das relações de poder em uma
universidade particular. Teríamos de considerar os 5 pontos acima: o sistema de
diferenciações (as diferenças de estatuto entre aluno e professor, por exemplo); o objetivo da
ação (obtenção e transmissão de conhecimento vertical e conseqüente capacitação para o
mercado de trabalho); modalidades instrumentais (o discurso técnico e científico, as salas de
aula e suas configurações, as provas etc.); formas de institucionalização (os códigos
contratuais de conduta esperada dos alunos e professores, o hábito de respeito e silêncio
perante o professor nas salas de aula, a hierarquização na disposição das salas de aula como
teatros); o grau de racionalização (os indicadores de empregabilidade dos alunos já formados
no mercado, a avaliação do corpo docente realizada pelos alunos, a distribuição de notas e
faltas). Certamente este exemplo possui infinitas outras complexidades, mas apenas queremos
demonstrar como, num caso real, podemos analisar as relações de poder.
56
Ademais, no exemplo, percebemos como verdade e poder estão interligados. A relação
professor-aluno como apresentada é causa e condição de uma noção de hierarquização a priori
entre professor e aluno, identificada na própria etimologia do termo aluno: do latim alumnu,
ou seja, sem-luz, aquele que necessita ser iluminado. O professor, no caso, detém e oferece a
luz, o conhecimento. Está, desde a constituição do termo, superior hierarquicamente ao aluno
a priori. Percebemos, no entanto, que não é uma situação de “posse” do poder (aquilo que
Foucault denomina “estado de domínio”). Os alunos também exercem poder: por meio da
avaliação do corpo docente, por exemplo, como elemento de resistência a essa hierarquização
a priori, que pode resultar no desligamento de um professor freqüentemente mal avaliado.
Professor e aluno situam-se nos dois pólos dessa relação de poder.
A compreensão dos jogos de verdade se dá, portanto, juntamente com as relações de
poder. Estas, por sua vez, devem ser compreendidas em seu “como”, em suas
processualidades. A análise genealógica de Foucault sobre seus objetos – a penitenciária e a
clínica, por exemplo – se dá na busca por entender o “como” do poder, atrelado aos regimes
de verdade sobre o ser humano. Dito de outra maneira, é a análise das verdades sobre o
homem que permitiram emergir um tipo específico de ação sobre as ações dos outros homens,
e conseqüentemente como esse tipo de ação produziu, também, verdades sobre o homem. O
período parte do século XVIII (com o nascimento das ciências humanas) até a segunda
metade do século XX (época em que Foucault realizou seus estudos).
Foucault propõe, então, o “como” do poder desde o século XVIII em nossas
sociedades ocidentais: a governamentalidade e os regimes disciplinares.
Analisemos, primeiro, a questão da governamentalidade.
a) No Capítulo 1, apontamos que nos séculos XVI e XVII uma razão de Estado se
contrapunha ao modelo de soberania administrativa hegemônico. A soberania administrativa
partia de um princípio de que a soberania se exerce, por direito, sobre o território que pertence
ao soberano. Como conseqüência, também sobre os indivíduos que habitavam aquele
território (a população). O elemento central da soberania é o território, e esse governo se dá
sobre o território como elemento fundamental, de modo que
esses territórios podem ser férteis, ou estéreis, podem ter uma população
densa ou, ao contrário, dispersa, as pessoas podem ser ricas ou pobres, ativas
57
ou preguiçosas, mas todos esses elementos não são senão variáveis em
relação ao território que é o fundamento mesmo do principado ou da
soberania
91
.
A soberania exercida desta maneira possuía um fim ligado a um dogmatismo religioso.
O soberano tinha como objetivo exercer um bem comum, no sentido de manter a soberania na
forma de ordem, segundo a lei de Deus. Ou seja, o bem comum é um princípio de ordem em
que
todos os sujeitos obedecem, sem esmorecimento, a tais leis, exercem bem os
cargos que lhes são dados, praticam bem os ofícios aos quais se dedicam,
respeitam a ordem estabelecida à medida, ao menos, que essa ordem é
conforme à lei que Deus impôs à natureza e aos homens. Porém, de todo
modo, o que caracteriza a finalidade da soberania, esse bem comum, esse
bem geral, não é, no fim das contas, nada além do que a submissão
absoluta
92
.
Nesse sentido, a finalidade da soberania é garantir a submissão às leis tal como se deve
ser submisso às leis divinas. O bem é a obediência à lei e, portanto, existe uma circularidade
funcional no modelo soberano: o bem comum é a obediência às leis, e para isso o bem que o
soberano oferece é a própria obediência à soberania. Os instrumentos soberanos funcionarão
na forma de lei. Os sistemas jurídicos e mecanismos de segurança passam a operar ao redor
dessa lógica, buscando garantir uma obediência absoluta que é justamente o objetivo da
soberania. A finalidade da soberania é exercer soberania.
No contexto dos séculos XVI e XVII, um movimento tanto intelectual quanto social
começa a surgir, de forma um tanto tímida, em contraposição ao modelo de soberania que
governa. Esse movimento buscava propor uma “arte de governar”, ou seja, uma maneira de
governar os Estados muito própria, distinta da soberania vigente. Essa arte de governar partia

91
FOUCAULT, M. A “Governamentalidade”. In: Coleção ditos e escritos IV – Estratégia, poder-saber. Rio
de Janeiro: Forense Universitária, 2006c, p.290.
92
Op.cit., p.292.
58
de um princípio vertical de ascendência e descendência. Para governar bem um Estado, deve-
se antes governar bem a casa e a família, e antes disso governar bem a si mesmo (movimento
ascendente). Ao mesmo tempo, na medida em que um Estado é bem governado, as casas e as
famílias serão bem governadas, e também a conduta individual (movimento descendente). A
este último movimento deu-se o nome de “polícia”, ou seja, aquilo que deve garantir que as
instâncias abaixo do Estado são governadas de acordo com a maneira de governar (arte de
governar) do próprio Estado.
Notamos, segundo essa esquematização, que o governo da casa e da família é central
na arte de governar. Governar a casa e a família é denominado economia. Etimologicamente,
economia deriva do grego oikos (casa) e nomos (lei, princípio). Nesse sentido, a economia,
nos séculos XVI e XVII, se apresenta como forma de governo de acordo com a casa e família,
e se encontra no centro da arte de governar. É fundamental a um bom governante governar o
Estado tal como um pai governa a casa e a família. Notamos, aqui, uma primeira ruptura com
o modelo de soberania vigente.
O “governo econômico” – que, neste caso, é uma tautologia – não é um governo
fundamentalmente territorial. Ele pressupõe uma maximização do Estado por meio do
governo das pessoas, das relações entre as pessoas, das relações entre as pessoas e os bens e
riquezas, enfim, de toda uma trama complexa que se funda não somente na territorialidade do
governo, mas em todos os processos relacionados às pessoas que habitam esse território (a
população). Tal como um pai governa sua casa e família, maximizando as capacidades dos
membros da família e, conseqüentemente, as riquezas, os bens etc.
A finalidade do governo, nesse sentido, não se esgota nas leis e na obediência. O
governo soberano e suas leis formam um corpo uno, indivisível, cuja finalidade é se manter
tal como é. A arte de governar, em contrapartida, é muito mais uma disposição estratégica dos
elementos do Estado segundo determinadas finalidades: maximizar as riquezas, manter
saudáveis os indivíduos, férteis as terras etc. Dispor os sistemas jurídicos e dispositivos de
segurança estrategicamente, não com a finalidade de obediência à lei, mas utilizando mais
táticas do que leis, ou mesmo as leis como táticas
93
.

93
Op.cit., p.293.
59
Para dizer as coisas muito esquematicamente, a arte de governar encontra, no
final do século XVI e início do século XVII, uma primeira forma de
cristalização: ela se organiza em torno do tema de uma razão de Estado,
entendida não no sentido pejorativo e negativo que lhe dão hoje (destruir os
princípios do direito, da eqüidade ou da humanidade pelo único interesse do
Estado), mas em um sentido positivo e pleno. O Estado se governa segundo
as leis racionais que lhe são próprias, que não se conduzem das únicas leis
naturais ou divinas, nem dos únicos preceitos de sabedoria e de prudência. O
Estado, tal como a natureza, tem sua própria racionalidade, mesmo se ela é
de um tipo diferente. Inversamente, a arte de governar, em vez de ir buscar
seus fundamentos nas regras transcendentais em um modelo cosmológico ou
em um ideal filosófico e moral, deverá encontrar os princípios de sua
racionalidade no que constitui a realidade específica do Estado
94
.
A razão de Estado é justamente essa racionalidade estatal que tenta se desprender de
um modelo de governo soberano fundado em preceitos religiosos. Devemos ressaltar, no
entanto, que essa primeira “cristalização” da arte de governar, na forma de uma razão de
Estado, se deu num período que de alguma maneira sufocou o desenvolvimento da arte de
governo – por isso dissemos que esse movimento se deu de forma um tanto tímida.
Primeiramente, por razões históricas. As grandes crises do século XVII criaram um
cenário muito pouco propício à reformulação do modelo de soberania:
Em primeiro lugar a guerra dos Trinta anos, com suas devastações e suas
ruínas; em segundo lugar, durante toda a metade do século, as grandes
rebeliões rurais e urbanas; e, enfim, no final do século, a crise financeira, a
crise de subsistência igualmente, que onerou toda a política das monarquias
ocidentais no final do século XVII
95
.
Segundo lugar, análogo e complementar à questão das crises: as estruturas
institucionais e mentais da época. O problema do exercício da soberania, tanto como questão
teórica quanto como princípio de organização política, era predominante. De modo que as

94
Op.cit., p.295.
95
Op.cit., p.296.
60
instituições, o exercício do poder e o próprio problema organizacional do Estado gravitavam
ao redor da soberania, deixando pouco espaço para a emergência de uma problemática nova –
certamente ainda menor devido ao contexto de crise.
O mercantilismo constitui um exemplo desse convívio tímido da razão de Estado com
a hegemonia do modelo soberano vigente. Ao mesmo tempo em que a lógica mercantilista
partia de uma racionalização do exercício do poder como prática de governo, ou seja, um
saber do Estado que pudesse ser utilizável como estratégia, tática do governo, ela se via
atrelada a um objetivo essencialmente soberano. O alvo não era um enriquecimento do
Estado, mas do soberano, de como o soberano deve dispor as riquezas e acumular tesouros
para construir exércitos com os quais ele justamente aplicasse sua política soberana – cuja
finalidade, como dissemos, é exercer soberania.
Assim, durante todo o século XVII até a o verdadeiro encerramento dos temas
mercantilistas no início do século XVIII, a arte de governar permaneceu, de algum modo,
entre a hegemonia geral da soberania e a fragilidade de uma proposta estreita, ainda tímida, de
bases inconsistentes, fundada na família (economia). Pois esta era proposta da razão de
Estado: “Como fazer para que aquele que governa possa governar o Estado tão bem, de modo
tão preciso, meticuloso, quanto se pode governar uma família?” Tão pequeno e tímido perante
o Estado e o soberano, o modelo de governo do pai de família não era suficiente. “A arte de
governar ainda não podia encontrar sua dimensão própria”
96
.
O século XVIII é caracterizado por alguns processos gerais. Principalmente a
expansão demográfica, ligada à abundância monetária, relacionada ao aumento da produção
agrícola. Esse processo foi a base para que a arte de governar fosse “desbloqueada” e pudesse
emergir. Três grandes questões interdependentes, dentro desse processo geral, podem ser
apontadas como estritamente ligadas ao desbloqueio da arte de governar: o problema da
população, da economia e o surgimento de uma ciência do governo. Todas estas questões são
permeadas por um fator técnico fundamental: a estatística.
A estatística, dentro do modelo de soberania, se encontrava contida na administração
monárquica, de modo que obedecia a essa lógica de soberania. No século XVIII, dentro do
processo de expansão demográfica, a estatística passa a descobrir e mostrar, pouco a pouco,

96
Op.cit., p.297.
61
que a população tem suas regularidades próprias: seu número de mortes, número de doenças,
regularidades de acidentes. A estatística também mostra que a população comporta efeitos
próprios à maneira que se constitui, e que esses fenômenos não se reduzem à simplicidade dos
fenômenos da família: “serão as grandes epidemias, as expansões endêmicas, a espiral do
trabalho e da riqueza”
97
. Por meio desses deslocamentos, de suas maneiras particulares de
agir e produzir, que a população aparece como um quadro muito mais complexo do que o
quadro da família. Até então, a arte de governar atrelava a problemática da população à
dimensão restrita da família.
A partir deste momento a família passa a ser apenas um elemento privilegiado dentro
da população. Privilegiado porque a família, como reduto formador, é uma instância com
grande poder de influência sobre determinados comportamentos individuais. Isso a transforma
de modelo referencial – segundo o qual a população era concebida – para instrumento de
governo da população. Foucault nos dá exemplos dessa instrumentalidade da família: ela foi
alvo, no século XVIII, das campanhas sobre mortalidade, campanhas concernindo ao
casamento, às vacinações, às inoculações
98
. O deslocamento, ou melhor, o distanciamento do
problema da população para um escopo mais abrangente, permite um desbloqueio da arte de
governar.
O objetivo do governo, assim, deixa ser o de simplesmente governar; simplesmente
manter a obediência às leis. A finalidade passa ser melhorar o destino das populações,
aumentar suas riquezas, sua duração de vida, enfim, potencializar a própria população. É
importante que nos detenhamos nisto: “potencializar a própria população”. Isso significa que
não podemos reduzir essa governamentalidade a uma leitura jurídica, dizendo que o governo
se dá em função de formas e sistemas de direito. Também não podemos fazer uma leitura
econômica, dizendo que o governo opera em função de um sistema econômico. Fato é que
ambos, e todos os outros subsistemas possíveis – jurídico, econômico, de saúde etc. – operam
em função de uma tecnologia do poder que é maior, e cujo objeto é a própria população.
Com a percepção das complexidades das populações, elas deixam de ser vistas como
uma multidão dispersa e passam a ser vistas como uma massa que possui interesses e

97
Op.cit., p.299.
98
Op.cit.
62
necessidades individuais (de cada um) e coletivos (propriamente como massa), interesses
estes que agora farão parte da agenda do governo. Para o governo, portanto, a população
(massa), passa a possuir uma espécie de subjetividade, pois é sujeito de necessidades e
aspirações tanto individuais quanto coletivas. Ao olhar para a população como sujeito, o
governo também a olha como objeto: pois é sobre ela que incide o poder. Essa dinâmica faz
com que as populações sejam conscientes de si perante o governo, conscientes do que
querem, mas inconscientes perante o que lhe fazem fazer, perante o governo que lhes conduz.
A população será o ponto ao redor do qual se desenvolverá toda uma nova série de
técnicas de como governar, ou seja, uma nova ciência de governo.
Quer dizer que a população vai ser o objeto do qual o governo deverá ter em
conta em suas observações, em seu saber, para chegar efetivamente a
governar de modo racional e refletido. A constituição de um saber de
governo é absolutamente indissociável da constituição de um saber de todos
os processos que giram em torno da população em sentido amplo, o que
chamamos precisamente de “economia”
99
.
A economia deixa de ser um modelo de governo da casa e da família, e passa a ser
todo um nível de realidade, um campo de intervenção, uma dimensão da realidade. Passa-se
ao sentido de economia moderno: o nível, o campo, a dimensão dos processos populacionais
gerais, de produção, distribuição, consumo etc. O governo específico dessa dimensão
econômica da sociedade faz surgir a economia política, ou seja, a ciência que tem por objeto a
economia, e cujo fim é a gestão econômica dentro da conjuntura maior do governo, de uma
ciência do governo, a ciência política.
No século XVIII, portanto, a devida colocação do problema da população faz com que
uma arte de governar surja. O governo, segundo essa arte, tem por objeto a população e sua
potencialização. Para tanto, é necessária a compreensão devida dos processos que giram em
torno da população. Surge a economia, não mais como forma de governo baseada na família,
mas agora como dimensão da realidade social. O estudo da economia a serviço do governo
constitui a ciência chamada economia política. Tudo isso, no século XVIII, culmina com a
passagem de uma arte de governar para, propriamente, uma ciência política, ou seja, uma

99
Op.cit., p.300.
63
ciência do governo, um saber que postula as verdades sobre governar. Governar deixa de ser
arte, passando a ser ciência.
O papel da soberania, tal como era estabelecido nos séculos XVI e XVII, entra em
crise. Antes, tentava-se deduzir, a partir de uma teoria da soberania, uma arte de governar.
Agora, com uma ciência – e, portanto, verdades de governo –, a questão da soberania deveria
ser reformulada: as formas jurídicas, as formas institucionais, enfim, todos os subsistemas que
caracterizam o Estado soberano passam por uma reestruturação que culmina com o
estabelecimento de um novo tipo de soberania: o Estado de governo.
A governamentalidade, portanto, é esse conjunto de técnicas de governo que tem por
objeto a população. O Estado, no século XVIII, passou por uma governamentalização, ou
seja, incorporou as técnicas governamentais como regra do jogo político e único espaço
possível para o jogo político, justamente para que pudesse sobreviver como Estado. De modo
que essa governamentalidade é, ao mesmo tempo, interior e exterior ao Estado, pois enquanto
os Estados utilizam as táticas governamentais para governar suas populações, essas táticas
também são aquilo que define os limites do Estado, seu escopo de atuação, seus limites, o que
é público e o que é privado etc. Assim, a população não está subjugada à economia nem às
formas jurídicas ou qualquer outro sistema. É justamente o contrário: todos os sistemas
estatais e privados estão sujeitos às técnicas governamentais, ou seja, ao governo das
populações. O aumento de produtividade contribui para o sistema econômico, o aumento da
longevidade para o sistema de saúde, a diminuição dos crimes para o jurídico, mas todos esses
contribuem de maneira interdependente para a potencialização das populações, que é o alvo
do governo.
Essa governamentalidade que começa a surgir nos séculos XVI e XVII e se instala
devidamente nas sociedades ocidentais do século XVIII é uma maneira muito específica de
exercer o poder. As populações são o objeto desse poder. É, portanto, uma maneira de agir
sobra a ação das populações. Um poder não sobre este ou aquele meandro da vida dos
indivíduos e das populações, mas sobre a vida como um todo: poder sobre a vida das
populações. Bio-poder, portanto, que constitui uma bio-política (governo sobre a vida das
populações).
64
Essa bio-política se desdobra em diversos bio-poderes locais. “Se ocupará, portanto,
da gestão da saúde, da higiene, da alimentação, da sexualidade, da natalidade etc., na medida
em que elas se tornaram preocupações políticas”
100
. Ou seja, são poderes, ações sobre ações
das populações, que se embrenham nos menores interstícios da vida, de maneira inconsciente,
de modo que as populações são conduzidas a produzir mais ou menos, adoecer mais ou
menos, procriar mais ou menos, de maneira aparentemente “natural”, quando, na verdade, o
fazem governadas pela bio-política.
A potencialização das populações, o aumento da capacidade produtiva dos indivíduos,
das riquezas, a melhora da saúde, os controles demográficos, compõem um contexto de
relações de poder, na medida em que não há uma naturalidade nesses movimentos
populacionais: eles são operados pela bio-política. Essas relações de poder ocorrem junto a
jogos de verdade, pois funcionam a partir de saberes científicos como a demografia, a
medicina, a biologia, a psicanálise, entre outros, que produzem e afirmam verdades sobre a
sexualidade, corpo, saúde, natalidade, higiene, e todos os mínimos detalhes da vida das
populações. Tais saberes tanto se “alimentam” das práticas bio-políticas quanto são
propriamente constituídos por elas (campanhas para a vacinação, por exemplo, ou então o
desenvolvimento de pesquisas visando à criação de tratamentos para conter epidemias, por
exemplo).
Práticas e saberes formam um “dispositivo estratégico” da bio-política. Um exemplo é
o dispositivo de sexualidade, que é a reunião de instituições, práticas, códigos morais,
discursos científicos, enfim, de práticas discursivas e não-discursivas que compõem um
regime de verdade com efeitos de poder sobre as práticas sexuais, os prazeres e o corpo
humano
101
.
A bio-política e seus bio-poderes, em seus jogos de verdade e relações de poder,
formulam padrões daquilo que deve ser e não ser, daquilo que é normal ou não. Promovem a
normalização de determinadas práticas, e conseqüentemente relegam outras práticas a uma
“anormalidade”. De modo que, na sociedade contemporânea, por exemplo, a prática de sexo
sem o uso de preservativos é anormal e perigosa, enquanto a prática com preservativos é

100
REVEL, J. Op.cit., p.26.
101
FOUCAULT, M. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2007.
65
normal e incentivada. Da mesma maneira, é normal, aceitável e incentivado ser esbelto, ao
mesmo tempo em que é anormal e prejudicial ser gordo. Neste último exemplo percebemos
que a naturalidade dessas normas é completamente artificial: na primeira metade do século
XX, o corpo gordo era sinônimo de saúde, enquanto o corpo magro representava doença e
fraqueza
102
.
O que devemos perceber é que as verdades sobre esses elementos da vida e todas as
suas conseqüências são produzidas, interessadas, e emergem dentro do contexto social
combativo, de guerra, luta e não-naturalidade que já apresentamos. A governamentalidade é
uma maneira de governar as populações que faz parecer natural esse governo, naturalizando
ao inconsciente aquilo que é, na verdade, técnica governamental, forma de bio-poder.
___________________________________________________________________________
Foucault diz que, para a ciência política, “A população aparece então, mais do que
como a potência do soberano, como a finalidade e o instrumento do governo”
103
. É
importante uma leitura sóbria dessa visão: a ciência política, em seus postulados teóricos, diz
que a população é a finalidade do governo. Lembremos de dois pontos: 1) Para Foucault, a
produção científica é interessada, agressiva, possessiva, pois reflete e é parte do próprio
arranjo histórico sobre o qual a humanidade se ergueu; 2) Tanto a produção científica quanto
as populações, os Estados e todas as demais instâncias sociais, são compostos por seres
humanos que, por sua vez, são agentes de relações de poder.
Seria ingênuo crer que a visão foucaultiana sugere que a efetiva finalidade do governo
das populações seja aumentar as riquezas, a duração de vida ou a saúde das populações. Esta é
a finalidade do governo para a ciência política, que por sua vez é um discurso produzido a
partir de interesse humano. Na arena do embate interminável entre a população e as instâncias
governamentais (que, devemos lembrar, não se limitam ao Estado), a agressividade, interesse

102
HOFF, T. Corpos emergentes na publicidade brasileira. In: Cadernos de pesquisa – ESPM / Escola
Superior de Propaganda e Marketing. São Paulo: ESPM, 2006, ano II, n.2, p.11-62.
103
FOUCAULT, M. A “Governamentalidade”. Op.cit., p.300.
66
e possessão humanas aparecem como causa final – e, portanto, para onde aponta – o rearranjo
das formas de governar que ocorreu no início da modernidade.
O poder é exercido em relações e, por isso, necessita de agentes. Não podemos
acreditar que essa governamentalidade é um movimento que tem por alvo o bem-estar da
população como uma espécie de rearranjo bondoso das configurações sociais. Devemos
lembrar que ela surgiu a partir de uma necessidade do Estado para que este se mantivesse
Estado, em meio ao desenvolvimento inicial do sistema capitalista. Foi uma maneira que os
seres humanos que compunham o Estado soberano encontraram para sobreviver às mudanças
sociais e econômicas que o início da modernidade trouxe.
A governamentalidade é um conjunto de técnicas de governo que se imbricou em
todas as instâncias sociais para potencializar a população. Isso ocorreu pois, com o
surgimento das ciências sociais (discurso produzido e carregado de intenções), especialmente
a ciência política, percebeu-se que a própria sobrevivência de instâncias como o Estado, a
indústria e afins, seria potencializada (ou no mínimo mantida) pela potencialização das
populações. O alvo da governamentalidade é a população – seu fim, entretanto, é aumentar
ou, no mínimo, tentar manter o exercício de poder sobre a população. Em outras palavras, em
face dos arranjos e rearranjos sociais ocorridos nesse período, num complexo movimento cujo
objetivo era manter e potencializar o governo das populações, as instâncias sociais adotaram
as técnicas governamentais que têm por alvo o destino das populações (aumento de suas
riquezas, duração de vida, saúde, qualidade de vida etc.).
A lógica da guerra, do combate, da luta, que sempre guia as análises de Foucault, é
capaz de explicar as razões desse complexo movimento político. Parece-nos que, enquanto o
antigo modelo de Estado soberano era vigente, a abordagem governamental era uma via de
mão única: o soberano exercia poder sobre as populações como Deus exerce poder sobre os
homens, ou seja, a população era considerada um rebanho passivo a ser conduzido a qualquer
custo segundo as leis. Os anseios e interesses que mereciam atenção estavam isolados em um
dos pólos da relação: o do governante. O outro pólo, da população, era tratado como passivo e
pouco importante.
O desenvolvimento das ciências sociais, dos mercados de capitais e, enfim, de todo o
arranjo socioeconômico que deitou as bases para a modernidade, foi palco de um rearranjo do
67
Estado e de todas as instâncias políticas. A abordagem governamental, por isso, mudou,
passando a ser uma via de mão dupla: para melhor exercer poder sobre as populações, foi
necessário compreender que ela também exerce poder sobre as instâncias governamentais, ou
seja, que a compreensão e atenção aos anseios, aflições e necessidades da população são
fundamentais para que ela possa ser conduzida com maior eficiência. Em outras palavras:
compreendeu-se que, em vez de uma aplicação de poder, o governo eficiente se dá a partir de
uma relação de poder. Por isso todas as instâncias governamentais (Estado, indústria,
mercados etc.) se voltaram para um único objeto, a população, com um grande objetivo: a
potencialização da população. Por trás desse objetivo, entretanto, há uma finalidade última,
cujas raízes são a agressividade e o interesse possessivo humano – visivelmente presentes,
agora, em ambos os pólos da relação de governamentalidade: população e instâncias
governamentais.
As instâncias governamentais se reestruturaram conforme as ciências emergentes
faziam perceber que a população também era agressiva e possessivamente interessada –
diferente do rebanho passivo da abordagem anterior. A partir dessa constatação, o trabalho
governamental passou a considerar em suas complexas equações estas variáveis
fundamentais: as ações, desejos, necessidades, anseios, aflições e, enfim, todo o escopo da
agressividade e interesse possessivo que também habita os indivíduos da população. Se
observarmos, na contemporaneidade, como todas as instâncias sociais se alicerçam ao redor
do consumo – e, portanto, da promessa de satisfação dos desejos da população
104
–,
encontramos um possível referencial histórico-filosófico para o fenômeno daquilo que
Zygmunt Bauman denomina modernidade líquida, e tantos outros sociólogos nomeiam de
outras maneiras, tais como modernidade tardia, segunda modernidade e pós-modernidade.
A governamentalidade, fundamental à compreensão das relações de poder desde o
início da modernidade, não opera isoladamente. Funciona conjuntamente, como estratégia
última, com aquilo que Foucault chama de regimes disciplinares. Compreendê-los é
fundamental para que, finalmente, situemos a constituição do sujeito como questão que
permeia todo o pensamento de Foucault.
Passemos, então, à compreensão dos regimes disciplinares.

104
Ver nota 38.
68
b) Os regimes disciplinares, diferentemente do governo das populações, têm como
técnica um governo individualizado e localizado. Eles começam a surgir nos séculos XVI e
XVII, nos conventos, exércitos e oficinas. É no século XVIII, entretanto, que se instalam
como fórmulas gerais de exercício do poder, dentro da mesma conjuntura social onde o
Estado se governamentaliza. Eles são a individualização da governamentalidade, a operação
localizada das técnicas governamentais.
Entre os séculos XVIII e XIX, começam a surgir ciências que têm por objeto o ser
humano – as ciências humanas. Atreladas a tais ciências, determinadas instituições que, de
maneira ou de outra, fazem uso desses saberes humanos para funcionarem devidamente.
Fábricas, hospitais, escolas, prisões, casas de correção, surgem atrelados a saberes como a
medicina, biologia, psiquiatria, pedagogia, criminologia.
Tais saberes e instituições funcionam de modo a adestrar os indivíduos. O
adestramento, entretanto, não é realizado a partir de práticas negativas, de repressão, coerção
e violência. Tais práticas são reduzidas a um mínimo necessário. O adestramento é realizado
na forma da disciplina, de práticas disciplinares que têm por alvo muito menos o resultado das
ações dos homens (o que caracterizaria uma medida mais punitiva), mas mais propriamente a
ação individual
105
.
Nesse sentido, são técnicas de individualização do poder, pois operam sobre a ação
localizada do indivíduo. As ciências humanas criam uma “anatomia política”, um catálogo de
verdades sobre o corpo humano e suas ações que é investido “sobre as escolas, os hospitais,
os lugares de produção, e mais geralmente sobre todo espaço fechado que possa permitir a
gestão dos indivíduos no espaço, sua repartição e sua identificação”
106
. As populações, que
compõem massas e não mais multidões dispersas, são decompostas e reordenadas em
unidades que operam sob a lógica da disciplina.
Os regimes disciplinares não são exteriores à governamentalidade. Dentro da grande
lógica da governamentalidade de gerir as populações, a disciplina tem por objetivo controlar o

105
MUCHAIL, S. O lugar das instituições na sociedade disciplinar. Op.cit., p. 61-62.
106
REVEL, J. Op.cit., p.35.
69
espaço, o tempo e a conduta dos indivíduos de maneira mais pontual, pois “gerir a população
quer dizer geri-la igualmente em profundidade, em fineza, e no detalhe”
107
.
O controle do espaço se dá na disposição física das instituições disciplinares.
Tomemos como exemplo contemporâneo os escritórios administrativos. Os funcionários
trabalham em baias próximas, com divisórias baixas para facilitar a comunicação e
visualização entre eles, de modo a aumentar a produtividade e garantir a exposição do
trabalho individual a todos (técnica de vigilância).
O controle do tempo é a disposição do tempo do indivíduo de modo a atender as
necessidades governamentais. No mesmo exemplo acima, os descansos aos sábados e
domingos, as concessões para ausências no caso de doenças e gestação, as férias, a própria
remuneração pelo tempo trabalhado, todos funcionam para um aumento de produtividade e
menor risco à saúde, técnicas governamentais de potencialização das populações.
O controle da conduta se dá na forma de normas que regem o agir do indivíduo.
Continuando o exemplo, em escritórios geralmente há normas de vestuário, comportamentos
tolerados e esperados, linguajar, entre muitas outras.
Podemos, inclusive, fazer uma breve conjectura sobre nosso objeto de estudo: as
prescrições de Men’s Health e Nova ditam, por exemplo, os momentos apropriados para se
alimentar, exercitar, ter relações sexuais (controle do tempo) e, também, a maneira como fazê-
lo: evitar gorduras, comer mais fibras, se esforçar para ter ombros largos e braços grossos,
compreender o corpo feminino para surpreender as mulheres (controle da conduta).
É importante notar que a disciplina opera muito mais na forma da norma, ou seja, da
normalização de alguns comportamentos e condutas em contraposição à anormalização de
outros, do que na forma da lei. Nos regimes disciplinares encontram-se, sim, regras na forma
de leis, mas a norma é a técnica naturalizadora da disciplina, que interioriza a regra e torna-a
natural sem recorrer a leis e sanções.
Os regimes disciplinares, ao trabalharem sobre o espaço, tempo e conduta dos
indivíduos, realizam um trabalho disciplinar, de adestramento, sobre seus corpos. Esse

107
FOUCAULT, M. Op.cit., p.302.
70
trabalho tem por intuito tornar os corpos dóceis e úteis
108
, de modo que não atuem como
forças resistentes ao poder governamental (docilidade), ao mesmo tempo em que são úteis
para a própria dinâmica governamental (utilidade).
Na contemporaneidade, os regimes disciplinares necessitam de uma atenção especial.
É preciso notar que, com o advento da Internet e tantos outros “encurtadores de distâncias
espaciais”, ou mesmo “anuladores do espaço físico”, assim como a necessidade
socioeconômica profusa de mobilidade e fluidez temporal e espacial, o controle do espaço e
do tempo é consideravelmente distinto daquele do início da modernidade
109
. A vigilância,
inclusive, se modificou para atender as necessidades governamentais de uma sociedade fluida
e dinâmica: os supervisores paulatinamente são substituídos por câmeras, catracas e
mecanismos de vigilância nos computadores dos funcionários, por exemplo. Isso não significa
o fim do controle do espaço/tempo, muito menos dos regimes disciplinares. Os bio-poderes e
regimes disciplinares são cada vez mais capilares, mais imbricados nos mais íntimos
interstícios da vida, para que o controle do espaço e do tempo se dê a partir de um controle
primordial: o da conduta dos indivíduos.
O controle da conduta dos indivíduos se dá de modo que, eles mesmos, disciplinados e
adestrados, esquadrinhem o espaço/tempo e suas ações a partir das estratégias
governamentais. Assim compreendemos que a liberdade espacial, temporal e de conduta que
parece pairar sobre a sociedade contemporânea é, de fato, uma adequação normativa da
conduta da população às necessidades governamentais (estatais, industriais, mercadológicas,
econômicas, enfim) de um regime socioeconômico que, fundado no livre consumo, encontra
na fluidez da aparente liberdade espacial, temporal e comportamental um forte
potencializador.
Por essas razões, o poder disciplinar não é um poder repressor, negativo, mas sim um
poder positivo e produtivo. Ele não reprime comportamentos: ao contrário, ele incentiva
determinados comportamentos em detrimento a outros, produzindo a conduta que seja útil ao
governo e, a partir dessa produção, desestimula, relega à anormalidade, as demais condutas.

108
FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis, Vozes, 2007, p.117-137.
109
Sobre isso, ver BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p.16-18.
71
___________________________________________________________________________
As técnicas governamentais e disciplinares trabalham lado a lado nas sociedades
ocidentais desde o século XVIII, dentro da conjuntura maior de um governo das populações.
São técnicas utilizadas para governar as populações que utilizam, ambas, uma ferramenta
fundamental que devemos investigar: a norma.
Seja no controle geral das populações ou no controle individual dos corpos, a norma é
a maneira principal pela qual o poder é exercido. Ela não é submissa a um discurso jurídico,
às leis, às sanções. Ela é uma regra natural, interiorizada, advinda da “normalização” de
determinadas práticas pelos bio-poderes e regimes disciplinares. Práticas que são “naturais”
porque são normais, ou seja, práticas que seguem a regra natural da norma.
Certamente, ao normalizar determinadas práticas, automaticamente se anormaliza
outras. O que significa que a bio-política e a disciplina erguem regimes de normalidade e
anormalidade conforme as necessidades do governo. Como citamos anteriormente, a magreza
ou gordura dos corpos é um exemplo de normalização e anormalização.
O duplo caminho entre governo da vida das populações (bio-política) e governo pela
individualização (disciplina) aponta para uma grande economia do poder, uma economia
propriamente de controle social. Controle que se dá a partir do governo das populações e suas
normalizações gerais, como também a partir dos regimes disciplinares e suas normalizações
locais. “O controle é essencialmente uma economia do poder que gerencia a sociedade em
função de modelos normativos globais integrados num aparelho de Estado centralizado”, mas
também “trata-se igualmente de tornar o poder capilar, isto é, de instalar um sistema de
individualização que se destina a modelar cada indivíduo e a gerir sua existência”
110
.
Todo esse extenso percurso percorrido por Foucault não foi, certamente, gratuito,
como também não remeteu a uma tarefa que, nela mesma, se esgotava. Estudar a formação de
uma governamentalidade e de regimes disciplinares não foi um estudo que serviu, apenas,
para atestar essas próprias formações.

110
REVEL, J. Op.cit, p.30.
72
Ao olhar para a sociedade ocidental, desde o século XVIII, e perceber uma grande
economia do poder, na forma de controle, situada em um contexto de governamentalidade e
disciplina, erguidos sobre jogos de verdade, Foucault pretende compreender como o ser
humano se constitui sujeito. Pois, para ele, não existe uma subjetividade una que percorre toda
a humanidade ao longo da história. Ao contrário, toda subjetividade é construída justamente
na história e, portanto, nossa história dos últimos quatro séculos constituiu um sujeito
específico, particular a essa economia do poder.
Afinal de contas, aquilo a que me atenho – a que me ative desde tantos anos
– é a tarefa de evidenciar alguns elementos que possam servir para uma
história da verdade. Uma história que não seria aquela do que poderia haver
de verdadeiro nos conhecimentos; mas uma análise dos “jogos de verdade”,
dos jogos entre o verdadeiro e o falso, através dos quais o ser se constitui
historicamente como experiência, isto é, como podendo e devendo ser
pensado. Através de quais jogos de verdade o homem se dá seu ser próprio a
pensar quando se percebe como louco, quando se olha como doente, quando
reflete sobre si como ser vivo, ser falante e ser trabalhador, quando ele se
julga e se pune enquanto criminoso?
111
A história da verdade de Foucault é uma história dos jogos de verdade. Justamente
através desses jogos é que o ser se constitui como experiência, e “entendemos por experiência
a correlação, numa cultura, entre campos de saber, tipos de normatividade e formas de
subjetividade”
112
. Os saberes e sua constituição a partir de relações de poder, como também
seus efeitos de poder, criam normas. A relação dos indivíduos com essas normas, e a
influência delas na constituição da subjetividade dos indivíduos, é a experiência. A grande
questão para Foucault é: ao olhar para si próprio, em determinado momento histórico, frente
aos saberes e suas normatividades, como o homem pensa seu próprio ser?
A subjetividade é aquilo que o ser pensa sobre si próprio, aquilo que o ser caracteriza,
por meio do pensamento, como ele próprio. Ela pode ser constituída a partir do próprio

111
FOUCAULT, M. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Op.cit., p.11-12.
112
Op.cit., p.10.
73
indivíduo, que numa relação com ele mesmo, refletindo sobre suas próprias ações frente aos
códigos, prescrições e normas, se constitui sujeito moral de sua própria ação. Mas ela também
pode ser constituída a partir de modos de objetivação que constituem subjetividades e,
portanto, se caracterizam como processos de subjetivação. Esses modos de objetivação podem
ser três
113
:
1) Aqueles que, por meio de determinadas investigações, buscam o estatuto de
ciência e, a partir desse estatuto, constituem subjetividades: o sujeito falante da
lingüística, o sujeito sexual da psicanálise, o sujeito produtivo da economia etc.;
2) As “práticas divisoras”, que dividem o sujeito no interior dele mesmo (ou em
relação a outros sujeitos) para classificá-lo e fazer dele objeto – como a divisão
entre o louco e o são, o doente e o homem saudável, o homem de bem e o
criminoso etc. São, enfim, as práticas que dividem tipos de sujeito: quem rouba é
sujeito criminoso, quem trabalha é sujeito honesto etc.
3) A maneira pela qual o poder investe o sujeito ao se servir não somente dos dois
modos de subjetivação já citados, mas também ao inventar outros: é todo o jogo
das técnicas de governamentalidade.
Observando tais processos de subjetivação na conjuntura da governamentalidade e dos
regimes disciplinares, percebe-se que, nas sociedades ocidentais, desde o século XVIII, a
autonomia da constituição da subjetividade é ocupada pelos modos de objetivação. As normas
tiram a autonomia da constituição dos sujeitos: os sujeitos de nossa sociedade são sujeitos da
norma, e não sujeitos morais de suas próprias ações. Em outras palavras, ao olhar para si
próprio, o homem de hoje pensa seu próprio ser a partir da verdade da norma, e não de uma
verdade derivada de uma reflexão e trabalho de si sobre si.

113
REVEL, J. Op.cit., p.82.
74
2.4 – Ética e comunicação
É necessário, antes de tudo, estabelecer algumas questões terminológicas para definir
com maior precisão aquilo a que nos referimos. Ao falar de ética em filosofia, fala-se
automaticamente de moral. Ética tem origem grega, e moral tem origem latina, mas ambas,
etimologicamente, designam a mesma coisa: os costumes, as práticas. Ética e moral, portanto,
são sempre ciências práticas, ou seja, ciências que têm por objeto a ação humana. Além disso,
as reflexões éticas e morais sempre envolvem valorações. Ética e moral são reflexões e
discussões sobre o valor das condutas – se são boas ou ruins, virtuosas ou pusilânimes etc.
Como em praticamente todos os grandes filósofos, ética e moral possuem significados
muito particulares na obra de Foucault. Em primeiro lugar, esclareceremos três termos, para
que possamos dar continuidade à reflexão do item anterior
114
:
1) Código moral: é um conjunto de valores prescritos, ou seja, inventário de
valorações sobre determinadas condutas. Podem ser precisos e organizados, como,
por exemplo, o código moral para a conduta profissional, mas também
desorganizados e dispersos, como o código para a conduta sexual.
2) Moralidade de comportamentos: é a relação entre as práticas propriamente ditas e
o código, uma espécie de diferença comparativa. Em outras palavras, é quão moral
(de conduta livre) aquela ação é em relação às prescrições.
3) Subjetivação moral: frente a um código moral, pode-se agir de maneiras distintas –
a favor ou contra o código (a favor de tantas maneiras distintas, e contra de outras
tantas). Em vez de ser somente agente da ação, agente moral de um código, é
possível ser sujeito moral da ação, ou seja, constituir-se, de maneira autônoma,
como sujeito da ação que toma, refletindo e trabalhando sobre si mesmo para
tomar a ação. A ação que é tomada mediante uma reflexão e trabalho de si sobre si
frente ao código constitui o indivíduo como sujeito moral daquela ação.
Subjetivação moral é a constituição de si a partir de uma ação de si autônoma.

114
FOUCAULT, M. Op.cit., p.26-31.
75
Gostaria agora de retomar os pontos apontados por Aidar Prado, no Capítulo 1, como
explicação para a centralidade dos fenômenos comunicacionais e da mídia em nossa
sociedade. Em primeiro lugar, temos o desenvolvimento de uma cultura de massa que culmina
em uma cultura das mídias. Essa cultura de massa se desenvolve justamente no período da
constituição governamental das populações e do estabelecimento de regimes disciplinares
propostos por Foucault. A cultura das mídias, como uma espécie de “evolução” necessária da
cultura de massa, é uma adequação a uma necessidade governamental de controle: as massas
precisam ser controladas e, por isso, necessitam de uma cultura que as reúna ao redor de um
“programa” útil à governamentalidade.
Em segundo lugar, temos as mudanças nos processos capitalistas de produção de valor
e a constituição de públicos consumidores. O valor simbólico das marcas e a cultura de
consumo que esse movimento resulta são, ambos, engrenagens para o funcionamento de um
grande modo de objetivação. Esse modo cria processos de subjetivação, constituindo sujeitos
de consumo, das marcas, dos valores simbólicos que os bens carregam. A identidade das
marcas constitui a identidade dos indivíduos. Dessa maneira, o comportamento de consumo
dos indivíduos acaba os definindo, de modo que a subjetividade passa a ser constituída a
partir do consumo.
Devemos acrescentar, ainda, que não é só na forma de marcas que os modos de
subjetivação da mídia operam. Seja na ficção, jornalismo ou qualquer outro tipo de conteúdo
midiático, os discursos operam como processos de subjetivação na medida em que
normalizam comportamentos e, conseqüentemente, relegam outros à anormalidade. Como
Aidar Prado indica
115
, cria-se um “eu” propriamente midiático. Há inúmeros exemplos: as
novelas que expõem condutas, condenando algumas e enaltecendo outras; o jornalismo que, à
guisa de objetividade, naturaliza o viés com que relata os fatos e, conseqüentemente,
normaliza abordagens e comportamentos; entre tantos outros.
Ciente dessa característica de nossos tempos, Foucault muda, no fim de sua carreira, o
eixo de sua investigação. Da relação entre verdade e poder (que de maneira implícita continha
o sujeito), ele passa para a relação explícita entre sujeito, verdade e poder. Explícita, pois, em
vez de investigar relação verdade-poder a partir dos dispositivos disciplinares ou

115
AIDAR PRADO, J. Op.cit., p. 29.
76
governamentais, ele a investigará a partir da relação do indivíduo consigo mesmo. Frente aos
modos de objetivação constituintes de subjetividades normalizadas desde o século XVIII, ele
dará um grande salto histórico, e buscará na Antiguidade clássica e greco-romana uma forma
de relação consigo mesmo que escape à norma, de modo que permita uma constituição
autônoma do sujeito como sujeito moral de sua própria ação.
Ele encontra na sexualidade uma dimensão da existência dos indivíduos da
Antiguidade em que eles, de maneira autônoma, a partir de reflexão e trabalho de si sobre si,
de práticas pensadas e intencionais, estabelecem suas regras de conduta, modificam-se em
suas singularidades, moldam suas vidas como se elas fossem uma obra de arte. Esse trabalho,
essas técnicas de si, constituem propriamente uma estética da existência, ou uma arte da
existência, pois tratam de construir um esboço de si mesmo a partir de reflexão e trabalho, e
não a partir de normalizações prescritas ou regras naturalizadas.
Ao problematizar a sexualidade na Antiguidade, Foucault encontrou uma possibilidade
de alternativa aos modos de subjetivação governamentais e disciplinares.
Mas, ao colocar essa questão muito geral, e ao colocá-la à cultura grega e
greco-latina, pareceu-me que essa problematização estava relacionada a um
conjunto de práticas que, certamente, tiveram uma importância considerável
em nossas sociedades: é o que se poderia chamar “artes da existência”.
Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e voluntárias através das
quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também
procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua
vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a
certos critérios de estilo. Essas “artes de existência”, essas “técnicas de si”,
perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua importância e de sua
autonomia quando, com o cristianismo, foram integradas no exercício de um
poder pastoral e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou
psicológico. De qualquer modo, dever-se-ia, sem dúvida, fazer e refazer a
longa história dessas estéticas da existência e dessas tecnologias de si
116
.

116
FOUCAULT, M. Op.cit., p.15.
77
Essas artes da existência, essas técnicas de si, enfim, essas estéticas da existência são
diretamente ligadas à concepção filosófica de Foucault. Filosofia como forma pela qual se
vive, pensando sobre como se pensa a fim de se modificar e pensar diferente. Filosofia como
prática do espírito. Ascese.
Assim, podemos caracterizar essa dimensão como “ascética”, ou seja, a dimensão de
uma relação de reflexão e trabalho de si consigo e de si para si na construção de um eu
autônomo. É justamente essa dimensão ascética, essa porção, essa possibilidade existencial de
uma relação autônoma de auto-constituição da subjetividade, essa maneira autônoma de se
constituir sujeito moral de sua própria ação, que Foucault denomina ética. Assim, para ele,
uma história da ética é
história da maneira pela qual os indivíduos são chamados a se constituir
como sujeitos de conduta moral: essa história será aquela dos modelos
propostos para a instauração e o desenvolvimento das relações consigo, para
a reflexão sobre si, para o conhecimento, o exame, a decifração de si por si
mesmo, as transformações que se procura efetuar sobre si. Eis aí o que se
poderia chamar uma história da “ética” e da “ascética”, entendida como
história das formas de subjetivação moral e das práticas de si designadas a
assegurá-la
117
.
Para realizar essa investigação na Antiguidade, Foucault irá – como de costume –
investigar os textos da época. Seu foco, entretanto, será específico: textos prescritivos. Ou
seja, textos que propõem regras de conduta. Pois, como dito, o objeto da ética e da moral é a
práxis e, como tal, o foco é centrado nos textos que, de alguma maneira, remetem à prática, à
conduta, ao agir humano.
Em relação aos documentos que utilizarei, eles serão na maior parte textos
“prescritivos”; com isso, quero me referir a textos que, qualquer que seja sua
forma (discurso, diálogo, tratado, coletânea de preceitos, cartas, etc.), têm
como objetivo principal propor regras de conduta. (...) O campo que
analisarei é constituído por textos que pretendem estabelecer regras, dar

117
Op.cit., p.29.
78
opiniões, conselhos, para se comportar como convém: textos “práticos” que
são, eles próprios, objeto de “prática” na medida em que eram feitos para
serem lidos, aprendidos, meditados, utilizados, postos à prova, e visavam, no
final das contas, constituir a armadura da conduta cotidiana. O papel desses
textos era o de serem operadores que permitiam aos indivíduos interrogar-se
sobre sua própria conduta, velar por ela, formá-la e conformar-se, eles
próprios, como sujeito ético; em suma, eles participam de uma função
“etopoética”, para transpor uma expressão que se encontra em Plutarco
118
.
A mídia é uma instância em que ocorrem múltiplos processos de objetivação, que
culminam com a constituição de sujeitos objetivados sob normas governamentais e
disciplinares. As revistas Men’s Health e Nova se inserem nessa realidade com uma
peculiaridade ainda maior: seus discursos são prescritivos, propõem condutas,
comportamentos, formas de agir, soluções práticas.
A partir da abordagem ética de Michel Foucault, questionaremos, em primeiro lugar,
como se configuram os discursos das revistas. Analisaremos os editoriais, artigos e cartas de
leitores publicadas no período de 6 meses, remetendo às imagens às quais os textos aludirem,
caso se afigure necessário. O conteúdo propriamente moral, prescritivo e comportamental das
revistas é alvo de nossa investigação, pois, à maneira que Foucault investigou a Antiguidade,
pretendemos observar a relação sujeito-verdade-poder, respondendo ao seguinte problema:
existe uma dimensão ética na recepção dos discursos das revistas Men’s Health e Nova?
Para responder o problema, entretanto, não podemos nos restringir à esfera da
produção discursiva das revistas. É na recepção, nos indivíduos que lêem-nas, que as
prescrições operam. A questão que subjaz nosso problema é: ao ler Men’s Health ou Nova, os
receptores se constituem sujeitos morais de suas ações, ou sujeitos objetivados como agentes
da norma prescrita? Se vivemos numa sociedade em que diversas instâncias – dentre elas a
mídia – operam processos de subjetivação que ocupam o lugar de uma auto-constituição ética
ou ascética, há na recepção de Nova e Men’s Health algum espaço de criação de
subjetividades morais refletidas, intencionais, trabalhadas?

118
Op.cit., p.16.
79
Porque a possibilidade certamente há, e isso é fundamental esclarecer. Quando
falamos das relações de poder, dissemos que os agentes dessa relação estão sempre em ambos
os pólos, não havendo, portanto, uma posição estanque de exercício de poder. Todo poder
suscita algum tipo de resistência. De modo que mesmo o bio-poder e o poder disciplinar
também o fazem.
Foucault, ao remontar à Antiguidade, não está buscando uma fórmula pronta de um
problema antigo para aplicar ao problema do ocidente moderno, tampouco simplesmente
estudando gregos e romanos a fim de conhecê-los melhor e ponto. Ao trazer as técnicas de si
da Antiguidade, Foucault está propondo uma reflexão crítica sobre a maneira como
constituímos nossa subjetividade em um regime governamental e disciplinar. Pois, se na
atualidade os sujeitos se constituem a partir da normalização, criar e estabelecer uma ética é
uma alternativa, uma forma de resistência a essa economia de poder que controla os
indivíduos. Resistência que tem por objetivo libertar: a liberdade é a questão final proposta
por Foucault.
Como aponta muito bem Márcio Fonseca:
Foucault não elabora um modelo de ética, muito menos indica que um
eventual modelo deva ser transcrito da Cultura Antiga para o presente. O que
seu trabalho mostra é a necessidade que tem o indivíduo moderno de
construir uma ética capaz de proporcionar-lhe um modelo de constituição de
si como única possibilidade de esse indivíduo desvincular-se do modo de
constituição que o produz enquanto sujeito, o modo de constituição do poder
normalizador.
Essa ética a ser construída, segundo a forma pela qual Foucault a entende, é
aquela em que o indivíduo estabelece uma relação consigo mesmo e daí a
sua oposição à forma de constituição do poder da norma, onde não há lugar
para que essa relação se dê ou, em outros termos, onde não há lugar para a
liberdade. Tal ética almeja, assim, o exercício da liberdade. É uma ética do
pensamento e da responsabilidade individuais que objetivam tal fim. Desta
forma, seu conteúdo se expressa como “uma crítica permanente, visando
assegurar o exercício contínuo da liberdade”
119
.

119
FONSECA, M. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo: EDUC, 2001, p.145.
80
O conteúdo da ética é negativo, portanto. É vazio, a ser preenchido, incompleto por
definição e sempre, pois é sua forma que importa: a forma de um exercício constante de
reflexão e trabalho de si sobre si mesmo, modificando-se e constituindo uma existência como
uma obra de arte. Forma de vida que, em última instância, é propriamente filosófica.

81
PARTE II
A RECEPÇÃO DOS DISCURSOS DE MEN’S HEALTH E NOVA
Nesta parte seguiremos para a investigação dos possíveis impactos dos conteúdos
discursivos das revistas Men’s Health e Nova sobre a constituição da subjetividade de seus
receptores – nos termos de Michel Foucault: a possível objetivação dos sujeitos a partir de
normas disciplinares e governamentais.
Na primeira parte vimos que a comunicação da qual tratamos aqui é um processo
relacional. Relação de troca entre consciências. Troca de capitais simbólicos. Comunicação
como relação de troca de significados entre consciências, portanto. O que significa, em
primeiro lugar, que subjetividades – como aquilo que o ser pensa sobre si próprio; aquilo que
o ser caracteriza, por meio do pensamento, como ele próprio, ou seja, a noção de si que vem
ao indivíduo a partir de sua consciência – estão necessariamente envolvidas nesse processo.
Em segundo lugar, significa que o processo comunicacional não pode ser devidamente
compreendido senão em sua processualidade. Isso quer dizer que um olhar isolado para
qualquer elemento do processo comunicacional (olhar exclusivamente para o pólo da emissão,
ou então somente para o pólo da recepção, por exemplo) é um método limítrofe quando visa
abarcar a comunicação como ela ocorre, ou seja, como processo relacional. Iniciativas que
isolam elementos do processo fazem, inclusive, com que uma posterior união desses
isolamentos não seja sistematizada e, portanto, careça de solidez analítica. Isso porque o
campo da comunicação deve ser compreendido como “resultado do encontro dos pólos de
‘emissão’ e ‘recepção’, ou seja, enunciador e enunciatário, num intercâmbio permanente de
‘posições’”
120
. Essa característica fundamental do estudo científico da comunicação sugere
que o “campo da comunicação não deve configurar estudos que apenas se justaponham aos já
realizados nos pólos da ‘emissão’ e ‘recepção’ ou que busquem simplesmente somá-los”
121
,

120
BACCEGA, M.A. O campo da comunicação e os estudos de consciência verbal. In: Revista Logos. Rio de
Janeiro: UERJ, v.III, n.4, 1996, p.25.
121
BACCEGA, M.A. O campo da comunicação. In: Comunicação para o mercado: instituições, mercado,
publicidade. São Paulo: EDICON, 1995, p.51.
82
pois é em relação, ou seja, dentro da processualidade dos fenômenos comunicacionais, que a
comunicação se efetiva.
Pretendemos investigar a existência de uma dimensão ética (como proposta no
Capítulo 2) na recepção dos discursos das revistas Men’s Health e Nova. Nosso olhar é
voltado, portanto, ao pólo da recepção de um processo comunicacional em que as revistas
estão presentes. “O que caracteriza, entretanto, a análise da recepção são os procedimentos
comparativos entre o discurso dos meios e o da audiência, e entre a estrutura do conteúdo e a
estrutura da resposta da audiência em relação a este conteúdo”
122
. Ou seja, mesmo dentro de
um estudo de recepção, o discurso dos meios (enunciador) deve ser considerado, pois é na
comparação entre a estrutura dos conteúdos das revistas e a resposta dos leitores
(enunciatários) à leitura que a análise é realizada com eficiência.
Por isso, nesta parte analisaremos, em primeiro lugar, os discursos das revistas
(Capítulo 3). É importante notar que focaremos a identificação de um fio condutor que guie
esses discursos – o que denominamos “fisiologia do discurso” das revistas. Não desejamos
investigar os porquês dessa fisiologia – a isso caberia um estudo de estratégias de produção
discursiva, o que não é nosso caso –, e sim apenas identificá-la.
A seguir, examinaremos os discursos dos receptores a respeito de seus
comportamentos, dentro dos temas abordados pelas revistas (Capítulo 4). Concluiremos o
trabalho com uma reflexão comparativa entre os discursos das revistas e dos receptores, a fim
de responder o problema inicial proposto e, como objetivo, situar a dimensão dos impactos
socioculturais de Men’s Health e Nova.
___________________________________________________________________________

122
ESCOSTEGUY, A.C.; JACKS, N. Comunicação e recepção. São Paulo: Hacker Editores, 2005, p.42.
83
3 – UMA FISIOLOGIA DOS DISCURSOS
“O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram
de nós”.
Jean-Paul Sartre
“Men’s Health sabe o que é essencial para se viver bem e você leitor também”.
Airton Seligman
Partiremos, então, para a análise dos discursos de Nova e Men’s Health. É necessário,
antes da análise, retomar alguns pontos apresentados no Capítulo 2 e, também, esclarecer
algumas questões metodológicas.
Ao falarmos que analisaremos os discursos das revistas, não estamos dizendo que
utilizaremos o procedimento metodológico da Análise de Discurso (em maiúsculas),
especialmente de linha francesa (que, em muito, é influenciada pela primeira década da obra
de Foucault
123
). A análise que aqui realizaremos não seguirá essa metodologia. O que não
significa que, ao longo da análise, algumas abordagens não se assemelhem a processos de
Análise do Discurso (tais como o exame dos interdiscursos, por exemplo). A Análise do
Discurso é, certamente, frutífera em diversos casos, principalmente por não tratar com
ingenuidade a historicidade por trás dos discursos que analisa. O fato é, entretanto, que
optamos por uma abordagem metodológica cujo aporte teórico é centrado em Foucault, tal
como explicado no Capítulo 2. Ao recorrermos a outros autores, o faremos a fim de contribuir
para o constructo teórico foucaultiano.
Sendo assim, nosso arcabouço teórico-metodológico foi construído com base na
abordagem foucaultiana. Abordagem que, como vimos, não prescreve quaisquer tipos de

123
Trabalhos como GREGOLIN, M.R. Foucault e Pechêux na Análise do Discurso. Claraluz: São Carlos,
2006, são emblemáticos da influência de Foucault sobre a Análise de Discurso de linha francesa.
84
ferramentas metodológicas por ser necessariamente histórica e, portanto, contingente. A
contingência, advinda da característica combativa e belicosa do arranjo sócio-histórico em
que ocorre a produção científica nas ciências que têm por objeto o homem, é certamente o
único a priori metodológico que poderemos considerar. Por isso não poderíamos, também,
restringir a análise ao campo da linguagem ou dos significados. O método genealógico
foucaultiano tem por objeto dispositivos que configuram práticas discursivas e extra-
discursivas na constituição de sujeitos
124
, e é nessa conjuntura que analisaremos – como fez
Foucault perante os diversos discursos que analisou – os discursos das revistas. Lembremos a
já citada passagem de Foucault:
Daí a recusa das análises que se referem ao campo simbólico ou ao campo das
estruturas significantes, e o recurso às análises que se fazem em termos de
genealogia das relações de força, de desenvolvimentos estratégicos e de
táticas. Creio que aquilo que se deve ter como referência não é o grande
modelo da língua e dos signos, mas sim da guerra e da batalha. A historicidade
que nos domina e nos determina é belicosa e não lingüística. Relação de
poder, não relação de sentido. A história não tem “sentido”, o que não quer
dizer que seja absurda ou incoerente. Ao contrário, é inteligível e deve poder
ser analisada em seus menores detalhes, mas segundo a inteligibilidade das
lutas, das estratégias, das táticas
125
.
Isso significa que abordaremos o objeto de acordo com as necessidades metodológicas
que identificamos a partir do próprio objeto, mas levando em conta que este é situado em uma
realidade histórica cambiante que, necessariamente, enseja uma abordagem tão única e
interessada quanto quaisquer outras. Não poderíamos ter a pretensão de uma analise
“objetiva” ou meramente “transparente” dos discursos das revistas. Como agentes sociais
interessados, situados no regime de guerra em que a produção científica se dá, temos

124
As análises que, fundadas em Foucault, se restringem às práticas discursivas, são características da primeira
década de sua produção, conhecida como Arqueologia. Sobre isso, ver MUCHAIL, S. Foucault, simplesmente.
São Paulo: Loyola, 2004, p.7-13. Neste trabalho, por utilizarmos a perspectiva ética de Foucault, devemos
necessariamente recorrer à última fase de seu pensamento, que, de alguma maneira, se alimenta das anteriores,
sem jamais se restringir a elas.
125
FOUCAULT, M. Verdade e poder. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979, p.5.
85
consciência de que aquilo que realizaremos em nossas análises é um recorte – que poderia ser
feito de infinitas outras maneiras.
Estamos cientes disso. Cientes dessa violência simbólica que todo método científico
exerce sobre a realidade – lembrando aquilo que apontamos no Capítulo 2: a realidade
simplesmente é, enquanto a ciência, a fim de domá-la, diz que ela é isto ou aquilo. Assim,
trabalharemos dentro daquilo que está sob nosso controle: nossas ações, nossa abordagem.
Como afirmou Pierre Bourdieu:
O sonho positivista de uma perfeita inocência epistemológica oculta na
verdade que a diferença não é entre a ciência que realiza uma construção e
aquela que não o faz, mas entre aquela que o faz sem o saber e aquela que,
sabendo, se esforça para conhecer e dominar o mais completamente possível
seus atos, inevitáveis, de construção e os efeitos que eles produzem também
inevitavelmente
126
.
Abordaremos as revistas levando isso em conta e tentando, o máximo possível,
minimizar os efeitos que um método produz, ou seja, minimizar imposições e prescrições por
nossa parte naquilo que analisamos. Sem pretender, jamais, transparência, ensejamos que
nossa análise seja um recorte tanto mais ciente das condições agressivas e contingentes da
história dos homens quanto possível.
Os porquês da pesquisa
Por que Nova e Men’s Health? Nossa escolha foi, primeiramente, devida ao formato
dos discursos das revistas. Seguindo a abordagem de Michel Foucault no último momento de
sua produção, buscamos um objeto cujos discursos fossem, tanto quanto possível,
prescritivos. É desse tipo de discurso que emerge a questão da ética que aqui desejamos tratar.
Em segundo lugar, buscamos uma abordagem com escopo tão abrangente quanto possível: a
escolha de uma revista feminina e outra masculina se deu pelo fato de que, se optássemos por
qualquer uma delas isoladamente, necessariamente deixaríamos no ar a questão de um

126
BOURDIEU, P. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 2003, p.694-95.
86
discurso semelhante destinado ao gênero oposto. Finalmente, Nova foi escolhida devido à sua
sedimentação no mercado editorial brasileiro, com seus 35 anos de história – fato que, junto
com sua tiragem mensal, denota o interesse do consumidor brasileiro por esse tipo de
discurso. Men’s Health foi uma escolha comparativa: buscamos, no mercado editorial
brasileiro, o discurso destinado aos homens que mais se assemelhasse ao da revista Nova
127
.
Men’s Health é, certamente, o único e melhor exemplo atual desse tipo de publicação que
possui alguma representatividade em termos de número de leitores e tiragem mensal.
Qual problema pretendemos responder? Nossa intenção é responder se existe, na
recepção dos discursos de Men’s Health e Nova, a possibilidade de uma dimensão ética (tal
como exposta no Capítulo 2), ou seja, de uma parcela de auto-constituição subjetiva que
escape, de alguma maneira, às normas e prescrições contidas nos discursos das revistas.
De qual pressuposto partimos? Partimos do pressuposto teórico (tal como exposto na
Parte I) de que a mídia opera através de normas que acabam por impactar na constituição
subjetiva dos receptores, configurando mais uma objetivação dos indivíduos do que
propriamente um processo de subjetivação – a subjetividade individual é, em alguma medida,
objeto de tais normas, e não de uma reflexão autônoma.
Qual o objetivo do estudo? Identificando a existência ou não de uma dimensão ética na
recepção dos discursos das revistas, pretendemos obter uma visão dos impactos socioculturais
de tais discursos diretamente sobre a subjetividade dos receptores – contribuição que
acreditamos ser transdisciplinar, de valia para todas as ciências sociais. Ademais, havendo ou
não uma dimensão ética, nossa intenção é apontar como – na visão de Michel Foucault – a
ética, como conseqüência da filosofia, é uma saída às formas de vida prescritas, plásticas,
estanques (mesmo em sua mobilidade fluida) e preestabelecidas que advêm da relação dos
indivíduos com os meios de comunicação.
A partir de agora, analisaremos os discursos da revista Nova (3.1), para então partir
para Men’s Health (3.2). A ordem é intencional: Nova é um produto mais antigo e
sedimentado no mercado editorial brasileiro e, por isso, será primeiro analisada.

127
Isso explica por que não optamos por analisar, no lado feminino, a revista Women’s Health – versão feminina
de Men’s Health.
87
3.1 – Revista Nova
Nova é uma publicação já consagrada no mercado editorial brasileiro, com 35 anos
desde sua primeira edição, em Setembro de 1973. É editada pelo Grupo Abril, maior grupo
editorial do país, contando com uma projeção de 1.312.000 leitores e uma tiragem de mais de
300 mil exemplares
128
. O perfil do leitor é composto por mulheres (87% dos leitores são do
sexo feminino) com idade entre 20 e 49 anos (76% dos leitores estão nessa faixa etária) e
classe social A (26%), B (44%) e C (25%)
129
. Nova é a versão brasileira da revista
Cosmopolitan, de origem estadunidense (editada no resto do mundo com o mesmo nome),
popularmente conhecida como “Cosmo” – revista de comportamento feminino mais vendida
no mundo. Seguindo os passos da Cosmopolitan, Nova é a segunda revista de comportamento
feminino mais vendida no Brasil, atrás apenas de Claudia (também do Grupo Abril), que
possui projeção de 2.041.000 leitores.
A consagração de Nova no mercado editorial brasileiro se reflete nos custos de
publicidade de suas páginas: um anúncio de contra-capa mais página 3 (não é possível
anunciar isoladamente em apenas uma destas) custa R$ 185.500,00, enquanto um anúncio em
uma página indeterminada custa R$ 74.200,00
130
. Tais valores equivalem e, por vezes,
superam valores de publicidade televisiva.
Os conteúdos de Nova circundam, sempre, o comportamento feminino. De maneira
geral, a revista aborda quatro grandes temas (que são, inclusive, título de algumas das grandes
seções da revista): ‘amor e sexo’, ‘beleza e saúde’, ‘vida e trabalho’, ‘moda e estilo’ e ‘gente
famosa’
131
.
O corpus de nossa análise é composto por seis edições da revista, escolhidas após uma
leitura exploratória
132
:

128
Projeção Brasil de Leitores com base nos Estudos Marplan e IVC Consolidado 2007. Fonte:
http://publicidade.abril.com.br/homes.php?MARCA=32
, acesso em novembro de 2008.
129
Op.cit.
130
Op.cit., acesso em janeiro de 2009.
131
Voltaremos a essas divisões adiante, ao analisar os artigos das revistas.
132
Leitura que resultou em dois artigos, publicados e apresentados em congressos: CALABREZ FURTADO, P.
Do egoísmo à juventude eterna: olhares sobre os discursos de amor e desejo na revista Nova. In: Revista
88
- Março de 2007
- Abril de 2007
- Outubro de 2007
- Abril de 2008
- Março de 2008
- Agosto de 2008
A seleção destas edições específicas se deu a partir de uma preliminar e exploratória
observação dos discursos Tentamos, ao escolher tais edições para análise, encontrar uma
variedade de conteúdo que nos permitisse encontrar suficientes variações temáticas que, ao
mesmo tempo, fossem capazes de configurar um escopo suficientemente abrangente da
funcionalidade dos discursos de Nova, conquanto permitissem um olhar sólido sobre
elementos que perpassem todas elas.
O conteúdo de Nova é extenso: as revistas têm, em média, 150 a 200 páginas, com
fotos, artigos, publicidade, entre outros conteúdos. Optamos, aqui, por restringir nossas
análises a seções específicas da revista, investigando-as isolada e sistematicamente. Nossa
intenção é, no final desta parte, traçar (a partir da análise de todas as seções) uma “fisiologia
do discurso” de Nova, ou seja, um estudo detalhado de como operam os discursos da revista
de maneira não-isolada – a não ser, certamente, na hipótese de que a profusão de abordagens
isoladas seja uma característica fisiológica do discurso da revista, ou seja, da possibilidade de
que a abordagem de Nova funcione sempre através de enfoques isolados e não coerentes entre
si.
Para isso, dividimos os discursos da revista em duas grandes seções: os editoriais e
artigos. Os editoriais não contêm subdivisões. Os artigos, entretanto, possuem uma
diversidade considerável, mas são divididos pela própria revista em 8 subseções: capa; amor
e sexo; beleza e saúde; vida e trabalho; é quente, é nova; moda e estilo; gente famosa; e
mais (dentro desta última estão contidos os editoriais).
Analisaremos isoladamente, em primeiro lugar, os editoriais (3.1.1). A seguir, os
artigos serão analisados a partir de uma categorização temática (3.1.2). Ao final, pretendemos
traçar o fio condutor da operacionalidade dos discursos de Nova (3.1.3), ou seja, uma

Contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, 2008, v. 6, p. 46-58, apresentado no IV Encontro Científico Anhembi
Morumbi (2008), e A contradição moral do desejo por formas jovens: o ideal-tipo de corpo feminino na
mídia frente à pedofilia, apresentado no IV coMcult – Congresso Internacional de Comunicação, Cultura e
Mídia (2008).
89
fisiologia do discurso da revista que nos permita, em comparação ao discurso dos receptores
(Capítulo 4), responder o problema da ética na recepção da revista.
As edições de Abril de 2007 e Abril de 2008 contêm uma seção especial cujo tema é
homens. Estas seções possuem editorial, que será analisado no item (3.1.1), e artigos
específicos, que serão analisados no item (3.1.2), na categoria amor e sexo.
3.1.1 – Editoriais
Os editoriais de Nova têm o título de “Notícias da redação” (NR). Aqueles das edições
analisadas estão esquematizados na Figura 3.1.
Edi çã o Capa Ed ito rial Tema
Maode2007 PaolaOliveira NOVApuxandoaalavancadamudança Mudanças(cabelo,relacionamentos ,emprego)vêmparaobem
Abrilde2007 ScarlettJ o hansson Emdefesadasamigas Mulheressãocomp et itivas,mastambémamigas.NOVAéamiga
Abrilde2008 Came ronDiaz PelodireitodesermosSMESMAS Aceitarse comoseé,comtodososdefeitos, eassimmesmo
serfeli z
FláviaAles sandraMaode2008
Homensoomelhordomundofeminino,eNOVAajudaaencontrarojeito
cert odeenco nt rarohomemideal
Abrilde2007 MarcelloAntony Homens
Mentirvaleounãoape na?AeditoradeNOVAdiz omentir, poisestáem
seuDNA
VerdadesementirasAlinneMoraesOutubro
de2007
Asmulheresadoramastrologiapois compreendemacomplexidadedo
mundoeconfiamemseusinstintos.Aeditorasecircundade"altoastral",
mantendoselongedos"realis tas"
PorqueadoramosastrologiaSabrinaSatoAgostode2008
Homensofun damentaisparaavidafeminina.NOVAajudaaconhelos
demaneiradiver tida ,
apaixonante
HomensCa uãReymon dAbrilde2008
Editorialdomêsdasmulheres:especiais,elasrecebe mho menagens
(citadas)dehomens
Inspirãofeminina
Figura 3.1 – Relação dos editoriais das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
As NR seguem um esquema visual padronizado, encontrado necessariamente em todas
as edições. Analisaremos detalhadamente cada um dos elementos que compõem as NR, para
que tentemos compreender o modo como operam seus discursos. Lembramos que as edições
de Abril de 2007 e Abril de 2008 possuem dois editoriais especiais, destinados a uma seção
da revista cujo tema é homens.
Na Figura 3.2, temos o exemplo do editorial da edição de Março de 2007.
90
Figura 3.2Os editorias de Nova seguem, sempre, padrões visuais semelhantes.
Fonte: Edição de Março de 2007 da revista Nova.
91
O esquema visual dos editoriais de nova segue sempre a diagramação acima. O leitor
encontrará, neles:
1 – Uma foto da editora da revista, a diretora de redação Cynthia Greiner, sempre
sorridente, bem vestida e esteticamente produzida. Ela aparenta ter entre 30-40 anos de
idade, situando-se, portanto, em uma faixa etária média entre aquela à qual pertencem
os leitores da revista, e possui traços físicos enquadrados dentro do modelo de corpo
encontrado no restante da revista (rosto simétrico, nariz pequeno, sorriso grande,
sobrancelhas finas, corpo magro, cabelos lisos e brilhantes).
2 – O título do editorial, que é curto e geralmente chama atenção para a mensagem
geral contida no texto que seguirá.
3 – Imagens e detalhes de como a capa da revista foi construída, desde a maquiagem e
preparação estética da modelo até imagens da mesma com o fotógrafo e equipe da
revista. Ao descrever como a modelo foi preparada para as fotos, a revista sempre
sugere que a leitora pode seguir tais instruções caso queira um visual semelhante.
4 – Em certos editoriais, a foto de algum membro da equipe da redação da revista ou
leitor aparece no inferior da página, destacando alguma mudança de equipe ou então
mostrando algum leitor que, por algum motivo, se destacou. Neste caso específico, há
a foto da nova diretora de arte.
5 – O conteúdo do editorial, propriamente. Aqui há uma diversidade de temas, que
abrangem desde a vida pessoal da editora até acontecimentos dentro da redação da
revista, chegando a comentários sobre datas especiais ou acontecimentos que
marcaram o período em questão.
É importante atentar, em primeiro lugar, para as imagens contidas no editorial. Tanto a
foto da editora quanto o making-of da capa (juntamente com as estratégias utilizadas para
embelezar a modelo) parecem servir de modelo, ou seja, ideal-tipo para a leitora. Cynthia
Greiner é apresentada como uma mulher bela, independente, bem-sucedida (editora de uma
das mais vendidas revistas femininas do país) sem perder, no entanto, sua feminilidade, ou
92
seja, além disso, ela é sensível, romântica, carinhosa e amiga. Tais características se
materializam, ainda, no conteúdo discursivo dos editoriais, como observaremos adiante.
A modelo da capa é sempre uma personalidade famosa (ver Figura 3.1, acima), ícone
de beleza e fama ora no espaço público Brasileiro, ora no internacional. Assim, as estratégias
da produção estética da modelo são, de fato, estratégias para que a leitora se aproxime daquele
ícone ideal-típico (e, portanto, modelo estético a ser seguido). Isso se nota, inclusive, pelos
comentários que a própria editora tece a respeito da modelo da capa, como observamos,
abaixo, na Figura 3.3: “a divina Alinne”.
A seguir, devemos observar cautelosamente os conteúdos discursivos dos textos dos
editoriais. Em primeiro lugar, a editora utiliza uma abordagem que é, ao mesmo tempo,
fraternal e autoritária. Pelo lugar de onde fala, caracterizado pela maneira como é estampada,
descrita acima, há um tom de autoridade – a autoridade que, em primeiro lugar, permite a ela
estar naquela posição falando e, além disso, a autoridade de uma mulher exemplar; ideal-
típica.
Mas não é através de um tom autoritário que a editora se manifesta, e sim de um tom
fraternal. Sempre se situando como companheira das leitoras, compreensiva perante as
diferenças, sem perder, em momento algum, a assertividade característica de sua
personalidade forte. Na edição de Outubro de 2007, a editora discute se mentir vale ou não a
pena. Aponta prós e contras e, sem um tom autoritário proposital, encerra o editorial dizendo
que sua escolha pessoal é não mentir. Indaga, a seguir, se a leitora já fez sua escolha (ver
Figura 3.3).
É notável que a autoridade se exerce mais pelo lugar de onde fala a editora do que
propriamente por seu tom. O tom fraternal parece suavizar a autoridade tanto do discurso
quanto das imagens que, invariavelmente, apontam para ideais-tipos nos quais as leitoras
devem se inspirar e, conseqüentemente, buscar atingir.
O discurso dos editoriais de Nova se destina, invariavelmente, a uma mulher
independente e livre – ela é responsável pelas próprias escolhas e, por isso, deve saber decidir
bem. Nova entra exatamente nessa decisão livre, como uma amiga, uma companheira que,
entretanto, possui autoridade por apresentar modelos de conduta ideal-típicos (desde como
93
decorar o corpo até como usá-lo, ou seja, como conduzir-se em determinadas situações –
como no caso da mentira).
Figura 3.3 – A autoridade do discurso da editora parte de uma abordagem fraternal.
Fonte: Edição de Outubro de 2007 da revista Nova.
94
Os editoriais também enaltecem a figura dessa mulher independente e ressaltam a
combinação ideal-típica de uma mulher livre, bem-sucedida, assertiva e, também, feminina,
sensível, amiga, como podemos observar no primeiro parágrafo do editorial da edição de
Abril de 2007 (Figura 3.4).
Essa combinação ideal-típica é apontada como reflexo de uma complexidade que é
exclusivamente feminina e que, inclusive, faz com que as mulheres, a fim de encontrar uma
coerência entre suas complexidades – exercício que nem sempre conta com fatos concretos –
recorram à intuição, através, por exemplo, da astrologia. No editorial da edição de Agosto de
2008, lê-se, nas palavras da astróloga Susan Miller: “As mulheres sabem que o Universo
guarda mistérios e lidam bem com situações ambíguas. Estão cientes de que nem sempre há
fatos concretos em que se apoiar – e aí usam a intuição”. Notamos, aqui, uma característica
adicional da mulher ideal-típica de Nova: ela conta com uma sensibilidade intuitiva que é
exclusivamente feminina e que, na figura da astrologia, toma até o estatuto de ciência. Na
mesma edição, Cynthia continua:
A astrologia, garante Susan, nada tem a ver com enxergar o futuro em bola de
cristal. É o estudo de ciclos matemáticos que mostram áreas de expansão e
contração em nossa vida. Deve nos ajudar a tirar vantagem das oportunidades
e nos preparar para os desafios. Mostra como fazermos a diferença.
Percebemos, assim, nos editoriais de Nova, uma mensagem destinada a uma mulher
livre e independente, responsável por suas próprias decisões. Essa liberdade, entretanto, é
relativa, pois é fixada a uma construção ideal-típica de mulher que, sutilmente, num discurso
fraternal e compreensivo, se mostra como o melhor caminho a ser seguido pela leitora.
95
Figura 3.4A mulher de Nova é uma combinação de liberdade, sucesso, ousadia, sensibilidade e romantismo.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
96
Nas edições de Abril de 2007 (Figura 3.5) e Abril de 2008 (Figura 3.6), encontramos
editoriais específicos para uma seção especial da revista a respeito de homens. O homem é
apontado, em ambos, como elemento essencial na vida das mulheres; como o melhor do
mundo feminino. Apesar de quaisquer contratempos e dificuldades que o relacionamento com
homens possa causar, eles ainda assim são elemento central na vida feminina apontada por
Nova. Viver sem homens é chato, trágico e horrível, e Nova ajuda a leitora a se instruir para
escapar a essas angústias da vida sem homens (Figura 3.6).
Figura 3.5 – Editorial da edição especial Nova Homem.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
97
Figura 3.6 – Editorial da edição especial Nova Homem.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
Notamos aqui, novamente, um limite à figura aparentemente livre e independente
apresentada pelos editoriais de Nova. A centralidade da busca pelo relacionamento afetivo
com homens aponta para um telos, uma finalidade última na conduta feminina, que se
configura, em última instância, como uma dependência – mesmo que meramente intencional:
os homens.
Assim, não encontramos um estímulo a formas de se constituir, dentro dos editoriais
de Nova, que escape ao ideal-tipo feminino representado na sutil autoridade fraternal da
editora, nas imagens estampadas e, finalmente, na centralidade do relacionamento afetivo com
homens, como cerne e telos feminino. Há uma normalização de um tipo de mulher ideal que
98
deve ser perseguido – tal perseguição é, em si, boa, divertida, alegre, propriamente
característica da leitora de Nova, tal como a própria Nova a aponta.
3.1.2 – Artigos
Nova possui uma multiplicidade considerável de artigos que, no entanto, circundam
alguns poucos grandes temas. Em todas as edições, seus conteúdos são divididos nas
seguintes subseções: capa; amor e sexo; beleza e saúde; vida e trabalho; é quente, é nova;
moda e estilo; gente famosa; e mais. Pode-se dizer, em geral, que a revista trata do
comportamento feminino focando cinco grandes aspectos que, inclusive, figuram como títulos
de algumas das subseções: ‘amor e sexo’ (relacionamentos afetivos), ‘beleza e saúde’
(cuidados com a saúde, com um viés para a estética corporal), ‘vida e trabalho’ (assuntos
gerais e relacionados à carreira), ‘moda e estilo’ (cuidados estéticos relacionados à utilização
de maquiagem, roupas etc.) e ‘gente famosa’ (informações sobre personalidades conhecidas
no espaço público)
133
.
Optamos por analisar os discursos a partir destas cinco grandes categorias, em vez de
analisá-los a partir de suas divisões na revista. Essa opção metodológica se deve ao fato de
que a subseção ‘capa’ contém o maior número de artigos, com temas que pertencem a todas as
outras subseções. A seção ‘é quente, é Nova’ também possui multiplicidade temática. Assim,
distribuímos os diversos artigos das subseções ‘capa’ e ‘é quente, é Nova’ dentro das já
mencionadas categorias (‘amor e sexo’; ‘beleza e saúde’; ‘vida e trabalho’; ‘moda e estilo’; e
‘gente famosa’), como se pode observar nas Figuras 3.7 e 3.11. Para facilitar ao leitor uma
visão de como a revista divide seus conteúdos, os títulos dos artigos de todas as seções
analisadas podem ser observados nas figuras seguintes (Figuras 3.7 até 3.14).
Nosso intuito é realizar uma análise temática que permita identificar um fio condutor
nos discursos da revista. Não analisaremos, aqui, a seção ‘mais’. Ela contém informativos

133
Já mencionamos, em parte, esta categorização em: CALABREZ FURTADO, P. Do egoísmo à juventude
eterna: olhares sobre os discursos de amor e desejo na revista Nova. Op.cit. É importante ressaltar que, tanto em
Nova quanto Men’s Health, por se tratar de um estudo qualitativo, as categorias foram criadas a posteriori, ou
seja, primeiramente analisamos os dados colhidos para então categorizá-los. O estabelecimento de categorias a
priori é um movimento mais freqüente nas análises quantitativas.
99
periódicos, tais como horóscopos e guias culturais, que não se adéquam ao escopo prescritivo
que pretendemos investigar. Dessa seção, apenas analisamos os editoriais (3.1.1).
100
Figura 3.7 – Relação das matérias de ‘Capa’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
101
Figura 3.8 - Relação das matérias de ‘Amor e Sexo’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
Figura 3.9 – Relação das matérias de ‘Beleza e Saúde’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
102
Figura 3.10 – Relação das matérias de ‘Vida e Trabalho’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
Figura 3.11 - Relação das matérias de ‘É quente, é Nova’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
103
Figura 3.12 - Relação das matérias de ‘Moda e Estilo’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
Figura 3.13 - Relação das matérias de ‘Gente famosa’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Março, Abril e Outubro de 2007, Março, Abril e Agosto de 2008 da revista Nova.
104
Figura 3.14 - Relação das matérias de ‘Nova Homem’.
Fonte: Abril de 2007 e Abril de 2008 da revista Nova.
A distribuição numérica dos artigos das edições de Nova selecionadas dentro da
categorização de nossa análise (incluindo os artigos das matérias de capa, das seções especiais
Nova Homem e excluindo os artigos de ‘agite e use’, pertencentes à subseção ‘é quente, é
Nova’), é a seguinte:
 artigos %
AmoreSexo 74 31%
BelezaeSaúde 57 24%
VidaeTrabalho 48 20%
ModaeEstilo 35 15%
Gentefamosa 23 10%
total 237 100%
A distribuição mostra que há uma concentração de espaço dedicado às primeiras três
categorias, com foco especial na questão dos relacionamentos afetivos. Analisaremos, a partir
de agora, os discursos dos artigos da revista Nova a partir da já mencionada categorização.
105
3.1.2.1 – Amor e Sexo
Nos editoriais das edições especiais Nova Homem já foi possível notar a centralidade
da temática dos relacionamentos afetivos dentro dos discursos da revista. Essa centralidade é
refletida no volume de artigos dentro da temática ‘amor e sexo’ perante o total de artigos
publicados, totalizando 31% destes.
A abordagem de Nova sobre os relacionamentos amorosos é manualística, ou seja,
prescritiva – assim como todos os demais discursos da revista. Quando trata de assuntos
referentes à sexualidade feminina, a revista aponta quais condutas são boas e quais são ruins,
e os caminhos que as leitoras devem ou não seguir, como se pode observar na edição de
Agosto de 2008, subseção ‘Sexpert’ em ‘Amor e Sexo’ (Figura 3.15). Nota-se, tal como nos
editoriais, um ar fraternal, porém autoritário e prescritivo: “Nós sabemos que você arrasa na
cama”, “mas certos detalhes podem representar a diferença entre ser uma amante nota 10 – ou
1000”.
Figura 3.15 – A abordagem de Nova aponta o que é bom e o que é ruim ao agir.
Fonte: Edição de Agosto de 2008 da revista Nova.
106
Qual seria, então, o telos, a finalidade, ou então o critério que define a conduta afetiva
“boa” para Nova? Certamente há uma multiplicidade de abordagens e temas nos artigos
analisados, mas por todos eles perpassam necessariamente alguns elementos discursivos,
sempre dentro da abordagem prescritiva já mencionada.
Em primeiro lugar, há a elevação do próprio prazer como diretriz fundamental para os
relacionamentos afetivos. As mulheres de Nova não devem levar uma vida pouco prazerosa –
ao contrário, a máxima obtenção de prazer é condição fundamental para que um
relacionamento seja bom. Isso é observado em artigos como “Sexo – o ponto C”, matéria de
capa da edição de Outubro de 2007, onde são apresentadas instruções para a maximização do
prazer feminino a partir do estímulo do clitóris. Na edição de Março de 2007, o artigo “Sexo
Oral - O mais polêmico manual escrito por um médico” traz uma abordagem semelhante,
instruindo a leitora sobre como seu parceiro deve estimulá-la oralmente para máxima
obtenção de prazer (Figura 3.16). Em Abril de 2008, outra matéria de capa aponta para essa
questão: “Sexo exótico, secreto!” mostra às leitoras um suposto manual chinês secreto de
sexualidade, cujas dicas apontam para a elevação do próprio prazer (Figura 3.17). A temática
da obtenção de prazer é presente em diversos outros artigos, como se pode conferir pelos
títulos dos artigos dispostos nas Figuras 3.7 e 3.8.
Figura 3.16 – A maximização do prazer em Nova.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
107
Figura 3.17 – Os recursos discursivos de Nova ao propor o máximo prazer são diversos.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
Como corolário decorrente do estímulo da obtenção de prazer está a questão da fonte
desse prazer: os homens. Ao mesmo tempo em que as mulheres de Nova devem maximizar o
prazer, elas também devem fazê-lo relacionando-se com homens. As edições especiais Nova
Homem mostram com clareza em seus editoriais e artigos como as estratégias de sedução são
essenciais à boa vida feminina. Todas as prescrições da revista, inclusive de outras subseções
– salvo às referentes à carreira –, tem como fim a sedução. O comportamento feminino deve
ter por finalidade a conduta sensual, sexy, ou seja, conquistadora de homens. Essa conquista
necessita, por exemplo, de uma compreensão sobre como maximizar, também, o prazer do
parceiro (Figura 3.18).
Figura 3.18 – A conquista de homens requer um conhecimento de como o corpo masculino funciona.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
108
Essa conquista, dentro do ideal-tipo proposto pela revista, é sempre de um
relacionamento estável. Nova não estimula relacionamentos fugazes – a pluralidade de
relacionamentos só parece ser apreciada quando ocorre na busca por um namorado, marido ou
simplesmente amor ideal – o ideal-tipo do grande amor. Pode-se observar essa característica
na busca por uma compreensão de como o homem se apaixona (Figuras 3.19 e 3.20), de como
evitar comportamentos que impeçam futuros encontros com o parceiro (Figura 3.21), de como
decidir se faz ou não sexo no primeiro encontro (Figura 3.22) ou então de como fazer com
que ele ligue novamente após o primeiro encontro (Figura 3.23). É emblemática, também, a
atenção dada pela revista à questão do casamento (Figura 3.24).
Figura 3.19A sedução tem por objetivo um relacionamento estável.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
109
Figura 3.20 – Nova aponta os caminhos para seduzir completamente os homens.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
Figura 3.21 – As prescrições incluem, também, o que não fazer.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
110
Figura 3.22 – O caráter prescritivo remete até às condutas mais íntimas das leitoras.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
Figura 3.23 – O jogo de sedução tem medidas complexas, porém compreensíveis passo a passo.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
111
Figura 3.24 – Onde a sedução culmina: o casamento.
Fonte: Edição de Março de 2007 da revista Nova.
Uma última característica das prescrições de Nova sobre sexo e amor é a abordagem
que as leitoras devem adotar em seus relacionamentos. A busca por prazer máximo num
relacionamento estável com homens deve partir de uma leitora livre e independente que, em
última instância, possui total controle sobre as relações que busca. Como veremos adiante
(3.1.3), há uma contradição dupla nesse controle e liberdade postulados. Primeiramente pelo
fato de que é uma liberdade necessariamente atrelada a determinadas finalidades e ideais-tipos
– deixando, portanto, de ser liberdade. Em segundo lugar, porque Nova aposta, em alguma
medida em todas as edições, no que chama de “intuição” feminina, através da astrologia e
misticismos semelhantes, como uma espécie de ciência intuitiva capaz de preencher as
lacunas deixadas pelas prescrições da revista – servindo, pelo que observamos, ao propósito
de permitir à leitora uma sensação de controle sobre sua vida quando as evidências não forem
favoráveis, ou seja, proporcionando um controle aparente da situação, com fins de minimizar
as angústias.
112
3.1.2.2 – Beleza e Saúde
Beleza e saúde não estão reunidos dentro da mesma subseção na própria revista e em
nossa análise por acaso. Pode-se dizer que a saúde é uma variável dependente da variável
independente beleza, ou seja, o corpo saudável dependerá diretamente de alguma diretriz
estética prescrita pelos discursos de Nova. Assim, determinados tipos estéticos são
considerados saudáveis e, por conseqüência, infere-se que outros não o são. Há, sem dúvida,
artigos dedicados exclusivamente à saúde, sem quaisquer alusões a critérios estéticos – estes
são, no entanto, consideravelmente raros.
O corpo saudável em Nova é, em primeira instância, um corpo magro. A presença de
gordura ou de atributos estéticos que indiquem a presença de gordura – tais como celulite ou
culotes – é apontada pela revista, em todas as edições, como um mal a ser perseguido e
eliminado.
Em segundo lugar, o corpo saudável de Nova é um corpo livre de quaisquer
deformidades, tais como manchas na pele, rugas ou estrias. A pele das modelos que estampam
as capas da revista é lisa e livre desses atributos – há de se crer que, em grande medida,
devido à computação gráfica –, e os conteúdos discursivos da revista possuem sempre
estratégias para como eliminar, mascarar ou evitar adquirir tais deformidades.
Esses dois primeiros aspectos do discurso de corpo saudável e belo de Nova apontam
para uma característica única de estética/saúde, que se configura como norma para a leitora. A
magreza e ausência total de manchas, rugas e quaisquer sinais são característica constitutiva
do corpo jovem. O esforço da leitora deve ser, portanto, na busca por manter seu corpo jovem,
e também nos esforços para tornar seu aspecto cada vez mais jovem. Isso se evidencia em
artigos que, explicitamente, propõem estratégias para manutenção da juventude. A velhice é
malquista e deve ser evitada a todo custo, enquanto a juventude é justamente o ideal-tipo que
deve ser perseguido
134
. Essas características reunidas podem ser observadas nas Figuras 3.25,
3.26 e 3.27.

134
Já discutimos a questão da juventude como ideal-tipo na mídia e, especificamente, em Nova: CALABREZ
FURTADO, P. Do egoísmo à juventude eterna: olhares sobre os discursos de amor e desejo na revista Nova.
Revista Contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, v. 6, p. 46, 2008, e A contradição moral do desejo por formas
jovens: o ideal-tipo de corpo feminino na mídia frente à pedofilia. In: IV coMcult - Congresso Internacional
de Comunicação, Cultura e Mídia. São Paulo, 2008.
113
Há, no entanto, um aspecto lúdico nos contos eróticos e em alguns artigos da revista,
que é a valorização da efemeridade sensual, ou seja, do sexo por puro prazer e da figura da
mulher que não se prende a um homem apenas (como a matéria sobre a ex-prostituta Bruna
Surfistinha), como podemos observar na figura 3.8.
Figura 3.25 A juventude é um ideal-tipo em Nova.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
114
Figura 3.26 – Sinais de velhice são tratados como deformidades, e a juventude é sinônimo de beleza e saúde.
Fonte: Edição de Agosto de 2008 da revista Nova.
Figura 3.27 – A beleza deve ser perseguida a todo custo.
Fonte: Edição de Março de 2008 da revista Nova.
115
A perseguição pelo corpo jovem acaba, invariavelmente, remetendo à questão
discutida no item (3.1.2.1). A sensualidade, como característica última da mulher de Nova, é o
alvo para o qual miram as prescrições de corpos belos e saudáveis na revista. Assim, o
percurso que a leitora deve trilhar é a eliminação (ou esquiva) da gordura, das marcas de
envelhecimento e de quaisquer deformidades, a fim de manter o corpo jovem (ou mesmo
rejuvenescê-lo) para que, finalmente, se seja sensual, sexy, ou seja, tenha-se maior potencial
de atingir os objetivos afetivos já mencionados: a maximização do prazer em relacionamentos
duradouros e apaixonados com homens.
É importante notar, também, o recurso da revista a discursos legitimados para dotar
suas prescrições de um caráter científico e, portanto, universal. Médicos, psicólogos,
nutricionistas e diversos outros profissionais fornecem suas opiniões à Nova para que os
discursos possuam um caráter menos opinativo e mais científico.
3.1.2.3 – Vida e trabalho
Aqui foram analisados artigos sobre os mais diversos temas. Essa diversidade
circunscreve um caráter utilitário, ou seja, são dicas úteis para o dia-a-dia da leitora de Nova.
Desde pequenas orientações cotidianas até estratégias de maior proporção, das quais o alvo é
a vida profissional da leitora, que acabam tendo um foco maior e, conseqüentemente, uma
solidez discursiva maior, o que nos permitiu identificar algumas características menos
pontuais.
O perfil da mulher profissional de Nova é alinhado às demais prescrições da revista.
Trata-se, em primeiro lugar, de uma mulher independente. Ela é responsável por sua profissão
e pelas decisões profissionais, havendo ao mesmo tempo uma grande responsabilidade sobre
seus ombros – por não depender de algo fora de si – aliada a uma liberdade que torna
premente o conhecimento de estratégias para driblar as dificuldades profissionais que
enfrenta.
116
Novamente, como apontamos em (3.1.2.1), há uma certa contradição nessa liberdade
ostentada, devido ao peso dado pela revista no aspecto intuitivo feminino, através de
horóscopos e misticismos semelhantes – que veremos no item (3.1.3).
3.1.2.4 – Moda e Estilo
Moda e Estilo é um conjunto de artigos que opera como espécie de apêndice de Beleza
e Saúde. Enquanto Beleza e Saúde tratam de um cuidado com o corpo para torná-lo belo nele
mesmo, ou seja, em sua anatomia e fisiologia, Moda e Estilo focam a decoração deste corpo, a
fim de dotá-lo de beleza.
O conteúdo desses artigos é pouco discursivo, optando por focar em imagens de
modelos vestidas ou maquiadas de determinada maneira, ou então apenas de roupas ou
produtos de beleza (Figuras 3.28 e 3.29). Devemos lembrar que as normas não tomam,
necessariamente, a forma de discursos. As imagens de nova são normas visuais, guias de
como as leitoras devem buscar ser.
Existe, aqui, um grande foco no consumo de produtos. As seções que tratam de Moda
e Estilo poderiam ser confundidas com catálogos de moda de lojas ou catálogos de produto de
perfumarias. É uma estratégia de orientação à leitora para que ela saiba o que comprar para
decorar seu corpo, tornando-se mais bela. Essa beleza não difere da beleza atrelada à saúde: o
foco na sensualidade é, também aqui, a diretriz que guia as prescrições de Nova.
117
Figura 3.28As imagens predominam, numa espécie de catálogo para consumo.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
118
Figura 3.29 – A forma de catálogo também se estende para produtos cosméticos.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Nova.
119
O critério de beleza dos produtos divulgados nos artigos – ou seja, o critério de moda e
estilos sedutores – é variável, pois acompanha tendências de moda e estilo que não
necessariamente possuem uma lógica una e sólida. É, entretanto, característica, tanto da
beleza do corpo anatômico e fisiológico quanto do corpo decorado, uma inspiração em ideais-
tipos que estão em destaque no espaço público. Assim, a referência a personalidades famosas
é o último componente dos discursos de Nova, que será analisada a seguir.
3.1.2.5 – Gente famosa
A menor concentração de artigos de Nova se situa nesta subseção. É importante,
entretanto, notar a que propósito discursivo ela se destina. Vimos que Nova, ao tratar de
relacionamentos afetivos, cuidados com o corpo, profissão e decoração do corpo, busca
apresentar ideais-tipos, ou seja, normas que contêm aquilo que deve ou não ser seguido para
que a leitora obtenha sucesso em diversas instâncias de sua vida.
Esses ideais-tipos contam com exemplos, observados desde a capa até as imagens
estampadas nos próprios artigos e publicidade: celebridades. As celebridades figuram em
Nova de duas maneiras: primeiramente, como o ideal-tipo masculino que elas devem
perseguir ao buscar sucesso em seus relacionamentos (Figura 3.31). Em segundo lugar, o
ideal-tipo feminino no qual devem espelhar seu cuidado com o corpo, cuidado profissional e
cuidado de decoração do corpo (3.30). É importante lembrar que, salvo o cuidado
profissional, todas as outras prescrições de Nova tocam, de alguma maneira, a questão afetiva
– ou seja, a busca por um relacionamento de sucesso com homens. Assim, espelhando-se em
celebridades, a leitora pode contar com uma espécie de farol guia que a direciona àquilo que
deve buscar em sua vida.
120
Figura 3.30Celebridades servem de modelo à conduta das leitoras.
Fonte: Edição de Março de 2007 da revista Nova.
121
Figura 3.31As celebridades masculinas aparecem como ideal-tipo ao desejo das leitoras.
Fonte: Edição de Abril de 2007 da revista Nova.
122
3.1.3 – Uma fisiologia dos discursos da revista Nova
Há um fio condutor entre cada uma das análises realizadas acima, de modo que é
possível construir uma lógica por trás dos discursos de Nova. Essa lógica é aquilo que
chamamos de fisiologia do discurso de Nova, ou seja, um detalhamento das funções gerais
que cada elemento discursivo contido na revista parece operar. Excluímos, nesta parte,
quaisquer pontualidades que aparecem – em grande volume – na revista. Desejamos
compreender a operação dos discursos de uma maneira científica e, portanto, comparável
entre as edições analisadas.
Em primeiro lugar, a revista valoriza a liberdade feminina em todas as instâncias:
desde relacionamentos afetivos até profissionais. A mulher de Nova é uma mulher
independente, livre, responsável por suas decisões e, portanto, consciente da necessidade de
conhecer os caminhos que, livremente, percorrerá. Nova entra justamente atacando essa
necessidade, mostrando os caminhos a serem percorridos para que essa liberdade seja
aproveitada em seu maior potencial. A liberdade, assim, é um elemento presente em todas as
condutas propostas pela revista.
A vida profissional deve ser orientada pela liberdade feminina, tendo em vista atingir
objetivos profissionais em pé de igualdade com homens. Não há, profissionalmente,
dependência da mulher de Nova sobre a figura masculina. Essa dependência, no entanto, é
fundamental nos demais discursos da revista.
A liberdade, elemento estrutural de todas as prescrições sobre relacionamentos e
beleza, é o palco sobre o qual surge o papel sedutor da mulher. A sedução é a razão pela qual
a mulher ideal-típica de Nova cuida de si, e a razão pela qual ela se relaciona com homens.
Essa sedução, entretanto, possui nela mesma uma finalidade: a obtenção de um
relacionamento estável com homens. Assim, ela não tem como fim uma profusão de
relacionamentos efêmeros, e sim um objetivo de obter e manter um relacionamento estável e
saudável – entendendo a saúde, aqui, como sobrevida – com um homem. Os meios para
atingir esse fim, certamente, passam, por vezes, por experimentações – fruto da liberdade já
mencionada – que podem parecer valorizar a efemeridade. Um olhar acurado, entretanto,
como visto em (3.1.2.1), faz perceber que não se trata de uma mulher a fim de
123
relacionamentos fugazes, mas sim de um amor que faça valer a pena os esforços que levaram
a conquistá-lo.
As prescrições de beleza, saúde, moda e estilo, assim, apontam para o papel sedutor da
mulher. Deve-se ser saudável para exibir beleza. O ideal de beleza, entretanto, é bastante
específico: um corpo tão jovem quanto possível, magro, livre de rugas, manchas ou quaisquer
sinais de velhice, que são tratados como deformidades. Da mesma maneira, ao se vestir e
maquiar, a mulher de Nova deve ter em mente a sedução, buscando roupas, acessórios e
produtos de beleza que ajudem-na a atingir a sedução, representada em celebridades
femininas que servem como modelo de corpo a ser conquistado pelas mulheres. Esse
movimento deve ser realizado para que, finalmente, se obtenha um relacionamento saudável e
estável com um homem ideal-típico – cuja representação se dá através de modelos e
celebridades masculinas.
A liberdade feminina encontra, em Nova, uma contradição dupla. Em primeiro lugar,
em relação à dependência última da mulher em relacionamentos afetivos com homens. Buscar
e conquistar um relacionamento estável e saudável (um grande amor) é uma diretriz para a
qual praticamente todos os discursos da revista apontam – salvo no que se refere à questão
profissional. Não há vida boa, não há escolha “livre”, não há, enfim, mulher que seja
efetivamente mulher caso não busque tornar-se sedutora para, finalmente, encontrar um
grande amor. Certamente a liberdade traz algumas peculiaridades para essa busca, tal como a
maximização do prazer e a saúde, mas em nenhum momento a revista parece efetivamente
valorizar uma vida autônoma de relacionamentos afetivos.
Em segundo lugar, Nova valoriza em grande medida aquilo que denomina “intuição”
feminina, que é representada em diversos momentos por intuições astrológicas, místicas ou
meramente afetivas da mulher. Essa intuição surge como uma caução da possibilidade de
falha nas empreitadas livres – e, portanto, carregadas de responsabilidade – da leitora de
Nova. Serve para cobrir quaisquer lacunas de fracasso possíveis nas empreitadas das mulheres
livres, no que parece justamente livrar a leitora da efetiva responsabilidade pelas ações que
toma. A intuição aparece como mecanismo de defesa para a ausência de sucesso naquilo que a
revista preconiza, de modo a assegurar à leitora uma consonância cognitiva, ou seja, uma
conformidade dos conteúdos de Nova com as experiências propriamente vividas pela
124
leitora
135
. Esse mecanismo de defesa – a intuição frente ao fato, o místico frente à experiência
– parece-nos ser calcado naquilo que denominamos auto-engano, ou seja, em uma habilidade
humana de iludir a si próprio para evitar transtornos, angústias ou quaisquer afetos
negativos
136
.
3.2 – Revista Men’s Health
Men’s Health (MH) é uma publicação jovem no mercado editorial brasileiro: sua
primeira edição foi lançada em 2006. É, assim como Nova, editada pelo Grupo Abril, maior
grupo editorial do Brasil. Conta com projeção de 281 mil leitores e tiragem superior a 180 mil
exemplares
137
. O perfil do leitor é de homens, de 18 a 40 anos de idade, classe social AB
138
. É
a versão brasileira de uma revista estadunidense homônima, e no final de 2009
139
seu sucesso
de vendas levou a editora a lançar a versão feminina: Women’s Health.
Comparada a Nova, seu número de leitores e tiragem não são tão expressivos. É
preciso notar, entretanto, o pouco tempo de circulação e a total ausência de concorrentes
semelhantes: não há, no mercado editorial brasileiro, revista semelhante a MH. Como produto
pioneiro e jovem, os quase trezentos mil leitores da revista representam um número
considerável em um mercado emergente no Brasil. Isso se exemplifica pelos custos de
publicidade que, apesar de inferiores à Nova, são também expressivos em MH: um anúncio
nas segunda e terceira páginas custa R$ 141.900,00, enquanto um anúncio em página

135
Assunto que discorremos em CALABREZ FURTADO, P. Do egoísmo à juventude eterna: olhares sobre os
discursos de amor e desejo na revista Nova. Revista Contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, v. 6, p. 46, 2008.
136
O auto-engano é um tema recorrente na filosofia. Para um panorama geral, ver: CANTO-SPERBER, M.
(org.). Dicionário de Ética e Filosofia Moral. São Leopoldo: UNISINOS, 2007, v.1, p.132-134. Uma rica
reflexão sobre o tema é realizada em: GIANNETTI, E. Auto-engano. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
137
Projeção Brasil de leitores com base nos Estudos Marplan e IVC Consolidado 2007. Fonte:
http://publicidade.abril.com.br/homes.php?MARCA=71
, acesso em novembro de 2008.
138
Op.cit.
139
Comomencionado,apósiniciarmosestapesquisa.
125
indeterminada custa R$ 56.800,00
140
. Além disso, o lançamento de sua versão feminina
aponta para algum sucesso editorial.
Os conteúdos de MH tratam fundamentalmente do comportamento masculino. Apesar
do título apontar para um cuidado específico com a saúde, a revista propõe conteúdos que, de
maneira geral, ajudam os homens a viver. Isso pode ser notado no slogan da revista: “Viver
melhor é fácil”. Há, certamente, uma semelhança entre os conteúdos discursivos de Nova e
Men’s Health. Tais semelhanças nos fizeram dividir a análise sob os quatro grandes temas:
Sexo e Relacionamento; Fitness, Saúde e Nutrição; Vida e Trabalho; e Visual e Estilo.
O corpus de nossa análise conta com as seguintes edições:
- Janeiro de 2007
- Fevereiro de 2007
- Junho de 2007
- Março de 2008
- Abril de 2008
- Maio de 2008
Tal como realizamos com a revista Nova, a seleção destas edições se deu a partir de
uma preliminar e exploratória observação dos discursos, identificando aqueles que mais se
adequariam à análise frente ao problema que este trabalho pretende responder. Buscamos uma
diversidade de conteúdo que nos permitisse encontrar suficientes variações temáticas que, ao
mesmo tempo, fossem capazes de configurar um escopo suficientemente abrangente da
funcionalidade dos discursos de MH, conquanto permitissem um olhar sólido sobre elementos
que perpassem todas as edições.
Tentaremos desenhar, a partir da análise de MH, uma fisiologia de seus discursos.
Assim como em Nova, encontramos uma dificuldade advinda da extensão dos conteúdos
analisados: as revistas possuem entre 110 e 130 páginas, contendo editoriais, artigos, imagens
e publicidade.
A fim de enfrentar essa dificuldade e ensejando solidez metodológica, abordamos MH
de maneira idêntica à que abordamos Nova: dividimos os discursos da revista em duas
grandes seções: os editoriais e artigos. Os editoriais não contêm subdivisões. Os artigos,

140
Op.cit.
126
entretanto, são diversos, divididos pela própria revista em 7 subseções: capa; fitness; saúde;
nutrição; sexo e relacionamento; cabeça de homem; visual e estilo; e sempre em Men’s
Health (onde figuram os editoriais).
Analisaremos isoladamente, em primeiro lugar, os editoriais (3.2.1). A seguir, os
artigos, a partir da já mencionada categorização temática em quatro temas (3.2.2). Ao final,
pretendemos traçar o fio condutor da operacionalidade dos discursos de MH (3.2.3), ou seja,
uma fisiologia do discurso da revista que nos permita, em comparação ao discurso dos
receptores (Capítulo 4), responder o problema da ética na recepção da revista.
3.2.1 – Editoriais
Os editoriais de MH têm o título de “Carta do Editor” (CE). Aqueles das edições
analisadas estão esquematizados na Figura 3.32.
Figura 3.32 – Relação dos editoriais das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
O esquema visual das CE segue um padrão imutável entre todas as edições, o qual
analisaremos a fim de compreender como operam seus discursos. Na figura 3.33 temos o
exemplo do editorial da edição de Abril de 2008.
127
Figura 3.33Editorial de Men’s Health.
Fonte: Edição de Abril de 2008 da revista Men’s Health.
128
1 – Na coluna esquerda das CE figura sempre um resumo de cinco artigos encontrados
na mesma revista.
2 – A foto do editor é outro elemento permanente. Airton Seligman aparenta ter entre
40 e 50 anos de idade, sempre com a barba por fazer e vestindo uma roupa social em
estilo casual (camisa com botões abertos embaixo de um paletó é uma combinação
encontrada em mais de uma revista), ou então somente camiseta. Sorridente, porém
com aparência séria, sua foto encabeça o conteúdo propriamente discursivo dos
editoriais. Nota-se, também, que a mesma foto se repete em algumas edições.
3 – Os conteúdos dos editoriais tratam, em geral, de um grande tema que é trazido pelo
editor para motivar os leitores a lerem as matérias (que, também, são mencionadas ao
longo do texto). Em ocasiões especiais – tais como carnaval ou edições de aniversário
– o tema/mensagem refere à ocasião específica.
4 – Em uma coluna horizontal inferior aparecem, sempre, citações de personalidades
famosas a respeito de algum tema presente na edição.
Os editoriais de MH têm um caráter objetivo e uma disposição gráfica e discursiva
simples. Seu esquema visual permanece sempre como observado na Figura 3.33, e seus
discursos também seguem um padrão inteligível.
Em primeiro lugar, nota-se um tom autoritário explícito na mensagem do editor. Em
todas as edições sentenças imperativas são proferidas para orientar os leitores a aproveitar
melhor a revista e, fundamentalmente, suas vidas. Como se pode observar no editorial da
edição de Abril de 2008 (Figura 3.33), é separado aquilo que é essencial e supérfluo na vida
masculina, e a disciplina é o caminho para efetivar essa separação.
O tom dos discursos dos editoriais de MH é de autoridade paternal, ou seja, opera
como uma espécie de pai que, com mão firme e sem rodeios, orienta o filho para a vida que
vale a pena. Essa característica é observável nas sentenças imperativas presentes no editorial
da edição de Fevereiro de 2007 (Figura 3.34): “Quer agüentar o tranco do dia-a-dia com mais
disposição? Veja as matérias que compõem este nosso conteúdo especial de fitness – tem até
dicas de postura e de roupa para malhar.”
129
Figura 3.34 – Editorial de Men’s Health.
Fonte: Edição de Fevereiro de 2007 da revista Men’s Health.
130
Ainda nesse mesmo editorial pode-se perceber outra característica da abordagem do
editor: apesar da autoridade paternal, a escolha final, ou seja, a responsabilidade final por
seguir as estratégias propostas e melhorar a vida, é do leitor – “depende de você”. O editor
utiliza argumentos racionais e afetivos (muitas vezes, como se pode observar, referindo-se à
própria história de vida), para mostrar de maneira direta e objetiva o que o leitor deve fazer se
quer buscar saúde ou sexo, por exemplo. O caminho está dado, mas o responsável por
percorrê-lo é, em última instância, o próprio leitor.
É freqüente nas CE um discurso que mostra ao leitor que, sem esforços, não há
resultados. Essa demonstração serve para apontar como, somente a partir de si próprio, o
leitor é capaz de seguir as estratégias da revista e conseguir viver melhor – afinal, como o
slogan da revista propõe, “viver melhor é fácil”.
Os elementos dessa “vida melhor”, ou seja, os critérios que definem qual é a vida boa
e qual não é, parecem estar dados a priori. Não há, por parte das CE, uma explicação de por
que dinheiro, um corpo malhado ou transar mais são condutas boas. O editor aponta apenas
que, para conseguir essas coisas, é necessário se esforçar – esforço, esse, que é minimizado se
o leitor seguir as dicas de MH. Porque, nas palavras do editor na edição de Janeiro de 2007
(Figura 3.35), “Sucesso, saúde, felicidade e dinheiro, meu amigo, não caem do céu – e por
mais que você tenha brindado a eles no Natal ou no réveillon isso não quer dizer que você
tenha preparado o caminho para chegar lá”.
131
Figura 3.35 – Editorial de Men’s Health.
Fonte: Edição de Janeiro de 2007 da revista Men’s Health.
132
3.2.2 – Artigos
Em suas mais de 100 páginas mensais, MH contém diversos artigos sobre temas
igualmente diversos. Todos são reunidos dentro de 7 subseções: capa; fitness; saúde;
nutrição; sexo e relacionamento; cabeça de homem; visual e estilo; e sempre em Men’s
Health (onde figuram os editoriais). A revista trata do comportamento masculino focando 4
aspectos específicos: ‘Sexo e Relacionamento’ (orientações no que se refere ao
comportamento afetivo e sexual); ‘Fitness, Saúde e Nutrição’ (orientações para o cuidado com
o corpo nele mesmo, em seu aspecto físico, saúde e alimentação); ‘Vida e Trabalho’
(orientações gerais sobre a vida pessoal e profissional dos homens); e ‘Visual e Estilo’
(orientações sobre como se vestir, quais acessórios utilizar, produtos de beleza etc.).
Analisaremos os discursos dos artigos das revistas selecionadas a partir dessas 4
categorias. A subseção capa contém artigos que se encaixam em todos as 4 categoria de
análise, e por isso eles foram devidamente analisados e distribuídos dentro da categoria a que
pertencem. Não analisaremos a subseção ‘sempre em Men’s Health’, pois o conteúdo dela que
recortamos para este trabalho (os editoriais) já foi analisado (3.2.1).
Para facilitar ao leitor uma visão de como a revista divide seus conteúdos, os títulos
dos artigos de todas as seções analisadas podem ser observados nas figuras seguintes (Figuras
3.36 até 3.42). Nosso intuito é realizar uma análise temática que permita identificar um fio
condutor que permeie os discursos da revista.
É importante ressaltar que MH, tal como Nova, possui um conteúdo manualístico e
prescritivo – característica que é desnecessário mencionar, se observarmos os títulos dos
artigos listados nas figuras seguintes. É dentro dessa perspectiva, portanto, que os
analisaremos.
133
Figura 3.36Matérias de ‘Capa’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
134
Figura 3.37Matérias de ‘Fitness’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
Figura 3.38 Matérias de ‘Saúde’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
135
Figura 3.39 Matérias de ‘Nutrição’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
Figura 3.40Matérias de ‘Sexo e Relacionamento’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
136
Figura 3.41Matérias de ‘Cabeça de homem’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
Figura 3.42Matérias de ‘Visual e Estilo’ das edições analisadas.
Fonte: Edições de Janeiro, Fevereiro e Junho de 2007, Março, Abril e Maio de 2008 da revista Men’s Health.
137
A distribuição numérica dos artigos das revistas que compõem nosso corpus dentro
das categorias de análise (excluindo a subseção ‘sempre em Men’s Health’) é a seguinte:
 artigos %
Fitness,SaúdeeNutrição 93 51%
VidaeTrabalho 40 22%
SexoeRelacionamento 37 20%
VisualeEstilo 13 7%
 183 100%
A distribuição mostra uma forte concentração dos conteúdos de MH na questão do
cuidado com o corpo, seguida por um equilíbrio entre a questão dos relacionamentos afetivos
e a vida pessoal e profissional, havendo um foco muito menor na questão da decoração do
corpo. Analisaremos, a partir de agora, os discursos dos artigos da revista MH a partir da já
mencionada categorização.
3.2.2.1 – Fitness, Saúde e Nutrição
O cuidado com o corpo nele mesmo representa mais da metade dos conteúdos de MH.
A preocupação que gravita ao redor da questão da saúde pode ser explicada pela proposta da
revista, que é cristalizada em seu próprio nome – que, traduzido, significa “saúde masculina”.
Ainda que uma revista sobre o comportamento masculino em geral, MH foca a questão do
cuidado físico do corpo – seja em relação a exercícios físicos que modelem o corpo para
torná-lo mais belo e saudável, orientações gerais sobre a saúde ou mesmo sobre como se
alimentar.
Ao orientar seus leitores a modelar seus corpos, MH utiliza freqüentemente o termo
“entrar em forma”. Todas as orientações da revista no que concerne modelar o corpo remetem
à “forma” que ele deve obter (Figura 3.44). Essa forma é, em primeiro lugar, magra, ou seja,
livre de gorduras. A questão da saúde é freqüentemente trazida quando se fala de gorduras em
MH: de como as gorduras trazem problemas cardíacos ou disfunções sexuais. A magreza, no
entanto, é acompanhada de uma outra característica do tipo físico valorizado por MH: a força.
138
O homem de MH deve ser forte: possuir músculos fortes e um abdome forte (e não
somente livre de gorduras). Em todas as edições analisadas o leitor recebe um pôster com a
imagem de um homem magro e musculoso realizando exercícios físicos, e uma tabela com a
série de exercícios ao lado da imagem – tem-se, assim, o ideal-tipo estampado e o caminho
para atingi-lo como acompanhamento.
Figura 3.43 Capa de Men’s Health. Há uma notável ênfase no corpo em “forma” e na questão da sexualidade.
Fonte: Edição de Janeiro de 2007 da revista Men’s Health.
139
Essa característica encontra, na revista, pouco lastro na questão da saúde: a forma
musculosa e forte é muito mais um atributo estético, de beleza, do que propriamente uma
questão de saúde. Essa valorização de uma forma esteticamente bela tem objetivos fora dela,
ou seja, não se deve ficar forte e musculoso simplesmente para se ficar forte e musculoso. O
intuito é externo à forma do corpo: acaba apontando, sempre, para a questão da sexualidade,
como podemos observar no próprio editorial do mês de Janeiro de 2007 (Figura 3.35): “Quer
transar mais e melhor? O plano: vou perder a barriga e ganhar mais resistência”. Há, portanto,
para além da questão da saúde envolvida no “corpo em forma” de MH, uma questão
propriamente afetiva: a preocupação estética masculina culmina no desejo de possuir um
corpo mais sedutor, que, em última instância, é capaz de conquistar mais mulheres, mais sexo,
mais prazer. A questão do prazer, central nos discursos de MH, será retomada ao tratarmos de
Sexo e Relacionamento (3.2.2.2). As formas valorizadas pela revista remetem, muitas vezes, a
um “rejuvenescer”, ou “manter-se jovem”, ou seja, são estratégias para driblar, esteticamente
– e, também, seus efeitos temporais sobre a saúde –, a velhice. O corpo jovem de MH,
entretanto, não é um corpo juvenil: o caráter musculoso e forte aponta para uma figura
masculina adulta.
Além de orientar os leitores na busca pela forma ideal de seus corpos, MH trata, em
grande medida, de questões de saúde que estão além da aparência. Problemas comuns aos
homens – principalmente conforme eles envelhecem –, tais como câncer na próstata, pressão
alta e diabetes, são constantemente tratados pela revista. O intuito é melhorar a qualidade de
vida do leitor, alertando-o para os caminhos que permitam evitar – ou mesmo remediar –
estados de saúde que prejudiquem seu dia-a-dia.
Ambos os aspectos do discurso saudável de MH – a questão estética e, propriamente,
de saúde – são auxiliados por orientações de alimentação. Todas as revistas contêm algum
tipo de dieta com algum fim específico: perder peso, aumentar a resistência física, diminuir a
probabilidade de gastrite etc.
Para legitimar suas prescrições, MH recorre a opiniões de profissionais de saúde:
médicos e nutricionistas são consultados pela revista em todas as edições. Nenhum artigo que
remeta à saúde do leitor carece de fundamentação em opiniões legitimadas (Figura 3.45).
140
Figura 3.44Os consultores de Men’s Health são profissionais legitimados no campo da saúde.
Fonte: Edição de Março de 2008 da revista Men’s Health.
141
3.2.2.2 – Vida e Trabalho
Apesar da distribuição numérica dos artigos das revistas analisadas apontar para uma
importância equilibrada entre Vida e Trabalho e Sexo e Relacionamento, esta primeira
categoria não recebe a atenção que os números parecem apontar. O motivo é simples: seus
conteúdos são pontuais e desconectados dos demais discursos da revista. As próprias capas de
MH destacam as questões de saúde, cuidado do corpo e sexualidade, sem mencionar, em
geral, as questões cotidianas ou profissionais dos homens (as capas de todas as revistas
analisadas estão incluídas nos anexos do trabalho). Por haver uma íntima ligação entre o
cuidado com o corpo, o cuidado em como vesti-lo e as questões de relacionamentos afetivos,
Vida e Trabalho acaba sendo uma categoria na qual caem artigos pontuais, que tratam de
pequenos aspectos do dia-a-dia na forma de dicas pontuais.
Essa característica traz uma certa dificuldade ao tentar encontrar um fio condutor por
trás dos discursos categorizados sob Vida e Trabalho. Isso não impede, no entanto, a
identificação de alguns aspectos comuns a boa parte dos artigos dentro desta categoria.
É nesta categoria que encontramos artigos sobre celebridades masculinas. Uma
abordagem pouco freqüente em MH – notável, inclusive, pela ausência de celebridades na
maioria de suas capas (Figura 3.32) –, neles encontramos depoimentos de celebridades a
respeito dos caminhos que tomaram para obter o sucesso, tais como conselhos sobre
superação, perseverança e as dificuldades de começar do zero. O foco, aqui, é muito mais
profissional – e, em linhas gerais, para a vida como um todo – do que estético ou relacionado
à saúde. As “lições” de pessoas que deram certo parecem servir de guia para que o leitor se
inspire e busque feitos semelhantes em sua vida. É notável a sutileza desta abordagem: seu
peso perante o restante das prescrições da revista apontam para um desinteresse da revista em
colocar ideais-tipos famosos perante seus leitores.
Os demais artigos tocam questões pontuais, sempre buscando trazer diversidade,
diversão e “sucesso” profissional para o leitor. Esse sucesso tem como critério o alcance de
objetivos específicos, não mapeáveis em uma visão geral: do cuidado com a manutenção do
sono para evitar dormir no trabalho até dicas para manter um cliente satisfeito.
Ademais, encontramos aqui dicas culturais diversas –filmes, discos e livros que foram
lançados no mês –, sem um critério específico identificável entre elas.
142
3.2.2.3 – Sexo e Relacionamento
Os relacionamentos afetivos são parte importante dos discursos de MH. Sua
representatividade numérica, apesar de tímida se comparada à questão da saúde, não traduz a
importância temática deles dentro da fisiologia discursiva da revista. A razão disso é a já
mencionada ligação entre todo o cuidado estético – a busca pelo “corpo em forma” – e as
questões de sexo e relacionamento.
A robustez física do corpo masculino forte, musculoso, magro e resistente, encontra
reflexo na maneira como MH propõe condutas afetivas aos seus leitores. O homem ideal de
MH é sedutor: a sexualidade é uma questão medular em sua vida, e a conquista de mulheres
desponta como uma das grandes finalidades de suas ações. Esse galanteio tem um alicerce
fundamentalmente sexual: o aumento do número e da qualidade das relações sexuais é uma
proposta presente em todas as edições analisadas. Esse aumento é proporcional a uma
proposta de aumento de prazer: quanto mais sexo, melhor; um “verão cheio de sexo” é
exemplo de um bom verão (Figura 3.44).
A vida prazerosa é, segundo MH, aquela em que o homem tem quanto mais relações
sexuais quanto lhe for possível, não desprezando a qualidade dessas relações – segundo aquilo
que, em diversos momentos, a revista denomina “transar melhor”. O aumento do próprio
prazer, em muitos momentos, parte de uma perspectiva puramente egoísta
141
. O homem deve
utilizar quaisquer estratégias que lhe estiverem à mão para conseguir transar com mais
mulheres, onde quer que seja.
Os caminhos para isso envolvem, quase sempre, a ação de “decifrar” as mulheres
(Figura 3.46). Para conquistá-las, o homem deve conhecê-las muito bem. Assim, a revista
oferece diversas estratégias, fundadas sempre em discursos de especialistas (médicos,
psicólogos e afins), para o devido conhecimento do corpo e da mente das mulheres. Nestes
casos, um extensivo cuidado com o prazer da mulher é muitas vezes o caminho para o
aumento do próprio prazer.

141
Já estudamos a perspectiva de egoísmo moral presente em Men’s Health em: CALABREZ FURTADO, P.
Moral, sociedade e mídia impressa: reflexões sobre os discursos do caderno Turbine o seu prazer! O guia MH de
sexo e relacionamento da revista Men s Health. Op.cit.
143
Figura 3.45 – Decifrar as mulheres é uma estratégia freqüentemente proposta pelos artigos de Men’s
Health.
Fonte: Edição de Junho de 2007 de Men’s Health.
144
Quando não está decifrando as mulheres, o homem de MH deve cuidar para que nunca
falhe: seu corpo, mente e abordagens devem estar “afiadas” para o jogo de sedução. O homem
deve estar preparado para ser uma “máquina de sexo”.
A figura de um relacionamento estável, da busca por um grande amor, é muito pouco
encontrada nos discursos de MH. A compreensão dos interesses femininos tem como intuito
único o direto aumento do próprio prazer. Isso é notável no volume de artigos que tratam de
estratégias sobre como conseguir, com a maior rapidez possível, relações sexuais com as
parceiras. A figura da esposa é praticamente ausente nos discursos, enquanto que a namorada
aparece com uma levemente – ainda não significativa – maior freqüência.
3.2.2.4 – Visual e Estilo
A decoração do corpo é a questão de menor peso numérico dentro dos conteúdos de
MH. Não é, no entanto, desimportante no panorama geral de seus discursos. Isso porque ela é
uma questão acessória de todos os demais discursos da revista. O corpo em forma, saudável e
sedutor deve ser devidamente vestido e decorado para que sua eficiência seja maximizada. O
mesmo ocorre com a busca pelo sucesso profissional.
Os artigos de Visual e Estilo funcionam alicerçados em uma lógica de consumo. Como
catálogos de lojas de moda ou relojoarias, são oferecidos cardápios de opções estilísticas aos
leitores, sempre apontando qual opção é mais apropriada para determinada situação. Estes
artigos utilizam recursos muito mais visuais do que discursivos, por necessitarem
exemplificar as opções que oferecem aos leitores.
3.2.3 – Uma fisiologia dos discursos de Men’s Health
Ao propor determinadas condutas, dizer quais caminhos devem ser tomados e quais
devem ser evitados; ao exibir imagens de corpos ideais e fornecer os caminhos para
conquistar formas semelhantes; ao situar a sexualidade de determinada maneira e, a partir daí,
tecer caminhos inquestionáveis sobre como abordá-la, MH cria uma figura masculina
peculiar, específica, que é justamente a representação da funcionalidade e operação de seus
145
discursos, ou seja, essa figura masculina deve ser retratada para que definamos aquilo que
denominamos uma fisiologia do discurso de MH.
O homem de MH é uma figura masculina espelhada em um ideal animal de “macho”.
Fisicamente ele é forte, musculoso, robusto, resistente. Os cuidados com a saúde e a “boa
forma” tratam de criar e manter esse ideal pelo maior período de tempo possível enquanto ele
é vivo. A manutenção dessa robustez, no entanto, não tem uma finalidade de competição
física entre os homens – embate que, em uma sociedade civilizada, não tem sentido.
Em um primeiro lugar, temos uma preocupação com a saúde nela mesma. Manter-se
vivo evitando doenças é uma diretriz fundamental para o homem de MH. A saúde, neste caso,
tem um fim em si mesma, pois não está a serviço de qualquer outra coisa – no máximo pode-
se dizer que o homem deve se manter saudável para viver mais e melhor e, portanto, ser mais
feliz.
Há, no entanto, uma segunda finalidade para o cuidado de si proposto por MH. Ela
tem por alvo o aumento do próprio prazer através da sexualidade – cujos meios exclusivos são
relacionamentos com mulheres. Tanto quanto lhe for possível, o homem de MH deve ser
sedutor, capaz de conquistar a mulher que desejar, quando e como desejá-la. Essa conquista
envolve um fim básico: relações sexuais. A potencialização das relações sexuais se dá,
primeiramente, em um viés quantitativo: quanto mais, melhor. Mas é igualmente importante,
segundo a revista, uma preocupação qualitativa.
A qualidade do sexo tem como critério o prazer obtido durante uma relação sexual.
Independe, portanto, do número de relações sexuais. A maximização do próprio prazer
durante uma relação sexual não é um exercício puramente individual, afinal é um ato que
necessita de parceiro. O aumento da qualidade das relações sexuais, portanto, depende
diretamente da disposição da parceira a se dedicar a esse aumento. É aqui que encontramos a
razão da parcela conscienciosa, cuidadosa e atenciosa do homem perante a mulher.
O conhecimento do corpo e da mente das mulheres opera em um regime de aumento
do próprio prazer – egoísta, apesar de não-individual, portanto. A preocupação final com o
próprio prazer é notável, inclusive, no caráter descartável dos relacionamentos, tais como são
tratados em MH. O sexo, nele mesmo, já encontra seu propósito, havendo quase nenhum
espaço para condutas que visem relacionamentos com alguma durabilidade temporal.
146
Assim, o homem saudável e sedutor de MH é um homem solitário, apesar de nunca
sozinho. A busca intensa por parceiras mantém-no sempre em relacionamentos. Estes, no
entanto, são de uma durabilidade fugaz, em que laços fortes não parecem ser bem-vindos.
147
4 – A RECEPÇÃO DOS DISCURSOS
“É preciso estender ao máximo as mãos e fazer a tentativa de apreender essa espantosa finesse, a de que o valor
da vida não pode ser estimado.”
Nietzsche
“And there is really nothing, nothing we can do,
Love must be forgotten, life can always start up anew!
We’ll choke on our vomit and that will be the end,
we’re fated to pretend.”
The MGMT Project
4.1 – Considerações metodológicas
Frente à compreensão da maneira como operam os discursos de Nova e Men’s Health,
partimos agora rumo ao objetivo último deste trabalho: a investigação, dentro da recepção
desses discursos, da existência ou ausência de uma dimensão ética, segundo os termos de
Michel Foucault.
Necessitamos, brevemente, retomar nosso alicerce teórico (trabalhado na Parte I) para
que possamos compreender a metodologia aqui utilizada. A dimensão ética é a dimensão
individual na qual ocorre um processo de auto-constituição subjetiva, ou seja, uma relação de
si consigo mesmo, reflexiva, para que o ser se constitua sujeito; para que, ao dizer “sou isto”,
esse “isto” seja algo constituído autonomamente. Como vimos, esse processo de auto-
constituição é perpétuo: não é uma reflexão que busca a solução de um problema pronto e
imutável, e sim a decifração constante de si por si mesmo através da reflexão.
A ética se mostra, em Foucault, como uma dimensão negativa. Seu conteúdo é sempre
vazio, e o processo de “preenchimento” daquilo que nos definimos como nós mesmos (a partir
148
de reflexão sobre si, decifração de si, exame racional de si) é justamente o que lhe mantém
autônoma e livre. Não é possível, para Foucault, uma ética pronta, terminada ou determinada.
É justamente por ser sempre negativa que a ética necessita da positividade da constante
reflexão autônoma de si sobre si, sobre papel de si perante si mesmo, os outros e o mundo.
Assim, é no constante processo de reflexão autônoma que a ética tem sentido.
Trazemos de volta a já citada passagem, na qual Foucault aponta que uma história da
ética é a
história da maneira pela qual os indivíduos são chamados a se constituir
como sujeitos de conduta moral: essa história será aquela dos modelos
propostos para a instauração e o desenvolvimento das relações consigo, para
a reflexão sobre si, para o conhecimento, o exame, a decifração de si por si
mesmo, as transformações que se procura efetuar sobre si. Eis aí o que se
poderia chamar uma história da “ética” e da “ascética”, entendida como
história das formas de subjetivação moral e das práticas de si designadas a
assegurá-la
142
.
A possibilidade de uma auto-constituição livre e autônoma, ética, é a possibilidade
apresentada por Foucault para resistência frente à configuração social em que vivemos. Nossa
sociedade, desde o século XVIII, passou por uma reconfiguração social e econômica em que
se instauraram regimes governamentais que operam a partir de normas biopolíticas e
disciplinares. Assim, diversas instâncias sociais – tais como escola, família, Estado e,
especialmente, os meios de comunicação –, operam processos complexos de objetivação que
definem os sujeitos não a partir de suas reflexões autônomas, mas a partir das normas, como
objetos da norma e não sujeitos de suas condutas.
Dentro dessa conjuntura situam-se as revistas que compõem nosso corpus de análise.
MH e Nova são, em primeiro lugar, meios de comunicação. Essa característica primeira os
situa em um pólo de uma relação comunicacional que, necessariamente, envolve trocas
simbólicas e, portanto, consciências, com algum efeito sobre as subjetividades envolvidas.

142
Op.cit., p.29.
149
Ademais, como vimos no Capítulo 3, seus conteúdos são prescritivos e manualísticos,
contendo explicitamente normas de conduta para seus públicos.
Ao proporem uma “normalização” de determinadas condutas, as revistas
automaticamente relegam quaisquer outras à anormalidade. Implicitamente, decerto, mas
muitas vezes de maneira explícita, ao propor, por exemplo, que se “fuja da velhice”. Assim,
conteúdos como os de MH e Nova operam dentro da dinâmica governamental de uma
sociedade que prescreve aquilo que os indivíduos devem ser. O indivíduo que se constitui
sujeito a partir de tais normas não é, efetivamente, sujeito de sua ação, e sim objeto de uma
normalização. A operação das normas se dá sobre a própria subjetividade do indivíduo,
tirando-lhe aquilo que justamente lhe torna sujeito: sua liberdade de auto-constituição.
Homens musculosos, máquinas de sexo em busca de tantas relações sexuais quanto puderem,
ou mulheres eternamente jovens, máquinas de sedução em busca de um grande amor – estes
são ideais-tipos perseguidos em nossa sociedade, como podemos inferir a partir das tiragens
de MH e Nova.
A perseguição desses ideais, no entanto, é refletida? É auto-refletida? É autônoma? No
processo de constituição da própria subjetividade, em que medida a livre reflexão sobre si
convive com as prescrições das normas? Essas são as questões que pretendemos responder ao
indagar: existe uma dimensão ética na recepção dos discursos de Men’s Health e Nova?
Essa investigação é, portanto, sobre uma possibilidade estritamente subjetiva, que
compete à esfera individual. Ademais, é uma dimensão processual. Com isso queremos dizer
que a ética, aqui, é justamente o processo constante e perpétuo de reflexão de si sobre si a fim
de criar e moldar uma subjetividade autônoma. Fora desse processo reflexivo não há ética –
pelo menos não aquela que nos apresenta Michel Foucault.
Nossa investigação é sobre a maneira como se constituem sujeitos os indivíduos que
lêem ou leram as revistas MH e Nova. Investigação que não enseja, portanto,
representatividade numérica ou comprovação estatística, por ser uma investigação sobre a
qualidade de um processo. Também não partimos, aqui, de categorias pré-estabelecidas.
Qualquer categorização, em um estudo que tenha como foco esta questão, deve se livrar de
amarras iniciais, de classificações anteriores à investigação propriamente dita. Em outras
palavras, uma investigação como a nossa requer uma abordagem qualitativa.
150
Por se tratar de uma abordagem qualitativa, os resultados que esperamos estão
estritamente ligados à maneira como abordaremos a questão que pretendemos investigar.
Segundo Barros Filho:
Numa investigação qualitativa não cabe, portanto, discussão sobre
representatividade das amostras, investigações comparativas padronizadas e
relações entre as medidas. Todas essas cautelas, que povoam o senso comum
sobre pesquisa, são próprias de métodos não qualitativos. A ênfase na
qualidade supõe que o sentido dos dados colhidos e analisados não está neles
mesmos, mas lhes é atribuído pelo pesquisador num contexto determinado e
em função de critérios que emergem ao longo do processo de coleta
143
.
O estudo de uma possível dimensão ética na constituição de si, por se tratar de uma
investigação estritamente individual sobre a qualidade, o “como” da constituição de si, nos
pareceu necessitar de uma abordagem metodológica igualmente individual. Escolhemos,
portanto, como metodologia, a entrevista em profundidade.
A entrevista em profundidade não permite testar hipóteses, dar tratamento
estatístico às informações, definir a amplitude ou quantidade de um
fenômeno. (...) Deste modo, como nos estudos qualitativos em geral, o
objetivo muitas vezes está mais relacionado à aprendizagem por meio da
identificação da riqueza e diversidade, pela integração das informações e
síntese das descobertas do que ao estabelecimento de conclusões precisas e
definitivas
144
.
Dessa maneira, partimos dos pressupostos teóricos construídos na Parte I, e não de
hipóteses fechadas a serem comprovadas ou refutadas, pois, em entrevistas em profundidade,
“a noção de hipótese, típica da pesquisa experimental e tradicional, tende a ser substituída

143
BARROS FILHO, C; THORNTON, R. Dos números às letras. In: Comunicação na Polis: ensaios sobre
mídia e política. Petrópolis: Vozes, 2002.
144
DUARTE, J. Entrevista em profundidade. In: Métodos e técnicas de Pesquisa em Comunicação. São Paulo:
Atlas, 2007, p.63.
151
pelo uso de pressupostos, um conjunto de conjecturas antecipadas que orienta o trabalho de
campo”
145
.
Diversos outros métodos qualitativos seriam possíveis nas circunstâncias de nosso
problema de pesquisa. Descartamos aqueles que, em uma pesquisa de mestrado, aparentassem
grandiloqüência demasiada perante o limitado escopo do trabalho – ignorando empecilhos
como viabilidade técnica ou financeira –, tais como grupos focais. A complexidade destas
metodologias não se limita à esfera da fronteira de tempo que um trabalho de mestrado
possui, pois engloba dificuldades tais como os necessários acordos com indivíduos
pesquisados dentro de uma amostra não-viciada, que, dentro das restrições propriamente
operacionais de um trabalho de mestrado, demandariam esforços dificilmente superáveis.
Optando por, dentro da precisão de nosso recorte, oferecer resultados sólidos e concisos, não
recorremos a caminhos desse tipo.
As entrevistas foram realizadas após a análise dos discursos de Nova e MH que deram
origem ao Capítulo 3 deste trabalho. Foram feitas, portanto, tendo consciência dos caminhos
pelos quais operam os discursos das revistas.
A consciência de que tanto Nova quanto MH tratam, em seus discursos, de questões
que gravitam ao redor do comportamento humano, permitiu um direcionamento inicial de
nossas entrevistas: o estudo do comportamento dos entrevistados. Todas as entrevistas,
portanto, iniciaram com uma grande questão a respeito do que o entrevistado fazia em seu
dia-a-dia, seja para se divertir ou dentro de suas obrigações.
Esse direcionamento, no entanto, devido à sua vasta abrangência, necessitamos de
futuros redirecionamentos. Todos os direcionamentos não se deram na forma de perguntas
fechadas. O pesquisador, ao entrevistar, apenas propôs temas para discussão, a partir dos
quais o entrevistado, livremente, tecia suas observações e comentários. Muito mais um
balizamento do discurso colhido do que, propriamente, uma indução a determinadas respostas
previstas, a abordagem permitiu grande liberdade ao entrevistado para se manifestar.
Essa liberdade foi uma tentativa de minimizar, tanto quanto possível, os efeitos de
nossa abordagem. Não ensejamos uma coleta limpa e pura de discursos verdadeiros que os

145
Op.cit.
152
entrevistados proferiram sobre si próprios. Estamos conscientes dos efeitos que todo método
de pesquisa possui sobre os resultados que dele surgem. Segundo Bourdieu:
Ainda que a relação de pesquisa se distinga da maioria das trocas da
existência comum, já que tem por fim o mero conhecimento, ela continua,
apesar de tudo, uma relação social que exerce efeitos (variáveis segundo os
diferentes parâmetros que a podem afetar) sobre os resultados obtidos. Sem
dúvida a interrogação científica exclui por definição a intenção de exercer
qualquer forma de violência simbólica capaz de afetar as respostas; acontece,
entretanto, que nesses assuntos não se pode confiar somente na boa vontade,
porque todo tipo de distorções estão inscritas na própria estrutura da relação
de pesquisa. Estas distorções devem ser reconhecidas e dominadas; e isso na
própria realização de uma prática que pode ser refletida e metódica, sem ser
a aplicação de um método ou a colocação em prática de uma reflexão
teórica.
Só a reflexividade, que é sinônimo de método, mas uma reflexividade
reflexa, baseada num “trabalho”, num “olho” sociológico, permite perceber e
controlar no campo, na própria condução da entrevista, os efeitos da
estrutura social na qual ela se realiza. Como pretender fazer ciência dos
pressupostos sem se esforçar para conseguir uma ciência de seus próprios
pressupostos? Principalmente esforçando-se para fazer um uso reflexivo dos
conhecimentos adquiridos da ciência social para controlar os efeitos da
própria pesquisa e começar a interrogação já dominando os efeitos
inevitáveis das perguntas
146
.
Conduzimos nossas entrevistas cientes daquilo que os discursos de MH e Nova
abrangem. Apesar de serem publicações destinadas ao comportamento masculino e feminino,
seu foco nas questões de cuidado com o corpo (nele mesmo, em sua forma, como também em
como vesti-lo e decorá-lo), saúde e relacionamentos afetivos é evidente. Ao iniciar as
entrevistas propondo que o entrevistado falasse abertamente sobre seu comportamento, seu

146
BOURDIEU, P. Op.cit., p.694.
153
dia-a-dia, necessitamos, quando a entrevista não adentrasse automaticamente alguma dessas
questões, propor que o entrevistado falasse mais sobre dois pontos.
Primeiramente, relacionamentos afetivos. Direcionamos as entrevistas para
compreender como o entrevistado se relaciona afetivamente, o que busca em relacionamentos,
em quais lugares e como, nesses lugares, busca parceiros. Esse direcionamento se deu,
geralmente, quando o entrevistado relatava aquilo que fazia, em suas horas vagas, para se
divertir.
Por se tratar de uma questão delicada, que busca investigar a privacidade do
entrevistado, os potenciais efeitos de abordá-la em uma entrevista em profundidade são
diversos. A fim de minimizá-los, mantivemos a identidade dos entrevistados anônima,
explicitando esse fato a eles antes das entrevistas.
Em segundo lugar, cuidados com o corpo e com a saúde. Buscamos compreender
quais condutas os entrevistados utilizavam para cuidar de seus corpos, e quais as razões pelas
quais eles acreditavam agir assim. A prática de esportes, quando mencionada pelo
entrevistado, levava a esta questão, ou então ela era trazida espontaneamente pelo
entrevistador.
O anonimato das entrevistas não é, certamente, suficiente para anular os efeitos que
essa abordagem possui sobre os resultados produzidos. Consideramos algumas outras
complexidades ao analisar os discursos dos entrevistados.
Um problema comum em todos os métodos baseados em perguntas é que as
pessoas freqüentemente introduzem vieses em suas respostas. Em especial,
elas podem hesitar em revelar informações pessoais que lancem sobre elas
uma luz negativa. (...) Um problema é a extensão em que as perguntas
produzem respostas socialmente desejáveis, ou “se fazer de bonzinho”,
quando a pessoa responde da maneira socialmente mais aceitável. (...) Além
disso, mesmo quando os respondentes são honestos, suas respostas podem
refletir uma percepção pouco exata de si mesmos. Em outras palavras,
pesquisas mostram que as pessoas tendem a se descrever de maneira
especialmente positiva, e, em muitos casos, isso ocorre porque elas têm
crenças sobre si mesmas que nem sempre correspondem à verdade. Por
154
exemplo, a maioria das pessoas acredita que dirige melhor do que a média
dos motoristas
147
.
As questões que tratamos são delicadas – especialmente os relacionamentos afetivos.
Todas tratam da privacidade dos entrevistados, de suas visões sobre si próprios e, finalmente,
de como eles se vêem dentro da sociedade. A fim de, de alguma maneira, contornar essas
dificuldades, tomamos algumas precauções.
Primeiramente, ao escolher nossa amostra (veremos adiante como ela é composta).
Buscamos indivíduos que partilhassem algumas características básicas (além da adequação ao
perfil de leitores das revistas): no caso do público jovem, todos são universitários estudantes
de universidades particulares, com idades aproximadas; no caso do público mais velho, todos
são profissionais liberais ou donos de seus próprios negócios, com situações financeiras e
idades semelhantes. Esse recurso nos permitiu uma estratégia, sempre que surgiu a
desconfiança sobre a honestidade de uma resposta, ou mesmo sobre quão acurada ela era em
relação aos reais motivos que buscávamos identificar: a pergunta sobre como o entrevistado
via a maioria das pessoas agindo.
Ao excluir-se da maioria, o entrevistado, certamente, poderia se tratar de uma exceção.
Por pertencerem a grupos com algumas afinidades entre si, entretanto, a comparação das
respostas dos entrevistados sobre “como age a maioria”, se apresentasse qualidades
semelhantes, apontaria para possível ocultação – intencional ou não – do fato de que estes
mesmos entrevistados se comportam como dizem que apenas a maioria o faz. Em outras
palavras: caso predominante, nas entrevistas, relatos de que a maioria age de uma maneira
distinta de si mesmo, consideramos a possibilidade desse relato estar fundado numa descrição
positiva de si, seja pela visão distorcida do entrevistado sobre si próprio ou para que ele
soasse socialmente mais aceitável
148
.
Em segundo lugar, buscamos identificar contradições no discurso dos entrevistados.
Dedicamos especial atenção a afirmações que, comparadas, fossem de alguma maneira

147
GAZZANIGA, M.; HEATHERTON, T. Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Porto Alegre:
Artmed, 2007, p.72-73.
148
Devemos ressaltar que essa observação é puramente qualitativa. Não ensejamos afirmar que, por amostragem,
a probabilidade estatística desse fenômeno é maior.
155
excludentes, contraditórias ou ambíguas. Esse recurso nos permitiu questionamentos diversos,
pois ensejar um questionamento unívoco a partir de uma contradição qualitativa não nos
parece condizer com a construção teórica que realizamos até aqui. Apontaremos, nas análises,
as contradições e tais questionamentos.
Essas precauções têm por intuito refletir sobre os efeitos da abordagem metodológica
escolhida, tentando minimizá-los não só na condução das entrevistas, mas na própria análise
dos dados colhidos.
Nossa amostra é composta por 21 entrevistas em profundidade, com duração variável
entre 15 minutos e 1 hora. A tabela abaixo apresenta as características gerais da amostra.
 Homens Mulheres
Jovens(1821anos) 8 8
Adultos(3043anos) 3 2
Todos os entrevistados já leram pelo menos uma edição das revistas estudadas (Men’s
Health para homens e Nova para mulheres). Além disso, todos se situam nas classes sociais
AB, ou seja, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa, possuem renda
individual acima de R$ 2.012,67, como se pode observar na tabela abaixo.
Classe Rendamédiaindividual
Rendamédiafamiliar(4
pessoas)
%da
população
A1 R$9.733,47  R$38.933,88  1%
A2 R$6.563,73 R$9.733,47 R$26.254,92 R$38.933,88 4%
B1 R$3.479,36 R$6.563,73 R$13.917,44 R$26.254,92 9%
B2 R$2.012,67 R$3.479,36 R$8.050,68 R$13.917,44 15%
C1 R$1.194,53 R$2.012,67 R$4.778,12 R$8.050,68 21%
C2 R$726,26 R$1.194,53 R$2.905,04 R$4.778,12 22%
D R$484,97 R$726,26 R$1.939,88 R$2.905,04 25%
E R$276,70 R$484,97 R$1.106,80 R$1.939,88 3%
Tabeladeclassificaçãosocialda
sociedadebrasileira   
Fonte:ABEP‐AssociaçãoBrasileiradasEmpresasdePesquisa
www.abep.org    
156
Devemos notar que essa renda é declarada, ou seja, foi uma enunciação informal
proferida pelo entrevistado ao ser selecionado, não havendo documentação que a comprove.
Dentro de um trabalho como o nosso, não possuímos os recursos legais, financeiros e técnicos
para comprovar essa declaração. Devemos ressaltar, no entanto, que o dia-a-dia dos
entrevistados, tal como declarado nas entrevistas, indica que, caso sua renda não seja a
declarada, a entrevista foi em grande parte fabricada por sua imaginação. Ou seja, as
declarações sobre quais atividades realizam, tal como profissão ou atividades de lazer, não
condizem com uma renda individual inferior a R$ 2.012,67. Crendo na maior dificuldade para
a fabricação imaginativa de uma entrevista – mas não descartando sua possibilidade
conduzimos o trabalho presumindo que as declarações foram verdadeiras.
Nosso objetivo geral, em cada entrevista, foi identificar como o entrevistado enxerga a
própria vida, para que, em nossa análise, pudéssemos investigar a relação dele consigo mesmo
e, conseqüentemente, com aquilo que ele disse constituir sua própria vida.
Numa comparação direta com aquilo que denominamos uma fisiologia dos discursos
de Men’s Health e Nova, pretendemos tentar responder a pergunta final deste trabalho: a
relação dos entrevistados, receptores de Men’s Health e Nova, consigo mesmos, permite que
aquilo que eles denominam “eles mesmos” seja algo produzido autonomamente, a partir de
uma reflexão sobre si, ou seja, dentro de uma dimensão ética? Em outras palavras: existe uma
dimensão ética na recepção dos discursos de Men’s Health e Nova?
4.2 – Análise das entrevistas
No Capítulo 3, analisamos separadamente Nova e Men’s Health. Por se tratarem de
publicações que, salvo semelhanças discursivas, se destinam a públicos diferentes –
principalmente pela questão de gênero –, acreditamos que essa separação permitiu um olhar
mais acurado sobre os aspectos peculiares a cada uma delas.
Não utilizaremos essa abordagem para analisar as entrevistas. Acreditamos que, neste
momento, nossa análise deve ser comparativa entre não somente as entrevistas, mas também
aquilo que identificamos como fio condutor do discurso das revistas. Assim, seguiremos com
157
uma leitura analítica das entrevistas realizadas, à luz dos ideais-tipos masculino e feminino
produzidos por Men’s Health e Nova na forma de normas segundo as quais seus leitores
devem conduzir suas vidas.
Nos Anexos, no fim deste trabalho, o leitor pode conferir uma descrição mais
detalhada dos tópicos discutidos em cada uma das entrevistas, individualmente, com um perfil
do entrevistado e algumas de nossas observações. Também nos Anexos disponibilizamos um
CD com as gravações das entrevistas. A consulta aos Anexos é recomendada ao leitor que
desejar verificar, na especificidade de cada entrevista, os pontos que serão abordados a seguir.
___________________________________________________________________________
158
4.2.1 – Os prazeres efêmeros e o amor eterno
Os entrevistados jovens utilizam, com freqüência, o termo “pegação”. Com isso se
referem ao ato de sair, geralmente à noite, para boates, danceterias ou festas universitárias, as
quais denominam “baladas”. A pegação é uma conduta na qual eles – homens e mulheres –
engajam em relacionamentos fugazes com desconhecidos, geralmente limitados a beijos, os
quais muitas vezes não duram mais do que alguns minutos. Quando saem para a pegação,
muitas vezes beijam mais de uma pessoa desconhecida por noite. As razões apresentadas
pelos entrevistados para esse tipo de conduta são o prazer e a “curtição” momentânea, como
também a ausência de responsabilidades e laços.
Segundo os entrevistados, a pegação não é uma conduta estritamente masculina. Muito
diferente disso, alguns chegam a afirmar que, nos dias de hoje, as mulheres partilham dessa
conduta mais do que os homens. De maneira geral, todos os entrevistados afirmam que, tanto
homens quanto mulheres, quando estão na balada, em geral, têm o intuito de estar na pegação.
A balada, portanto, é um local em que o propósito geral – eles reconhecem exceções – das
pessoas é a pegação; é ficar com estranhos. “Ficar” é outra terminologia coloquial muito
utilizada. Ficar é muito semelhante a pegar: significa beijar uma pessoa, mas também pode
implicar o ato sexual (significação menos utilizada).
Eles explicam que as mulheres, hoje, partilham muito dessa prática, pois, com a
liberdade que ganharam nos últimos anos, estão se esforçando ao máximo para se
assemelharem aos homens. Os homens, nessa conjuntura, sempre partilharam de práticas
semelhantes, e o discurso dos entrevistados (homens e mulheres jovens) a esse respeito afirma
que está na natureza masculina a busca pelo número máximo de encontros afetivos num
período de tempo mínimo. As mulheres, ao contrário, apesar de agirem como os homens, são
mais emotivas e românticas, e estão na pegação apenas para afirmar a liberdade que possuem.
Os jovens, ao responderem quais atividades realizam nas horas de lazer, se dividiram
em dois grandes grupos. Aqueles que são mais tranqüilos preferem sair para bares e
programas culturais, tais como cinema e teatro. Os mais agitados preferem baladas. Todos os
entrevistados de ambos os grupos afirmam que, em suas opiniões individuais, a maioria das
pessoas que freqüenta baladas tem o intuito de estar na pegação. Os agitados nem sempre
admitem que seu intuito, nas baladas, é a pegação, mas em geral não negam que,
159
eventualmente, partilham dessa prática. A justificativa, como já apontamos, é “curtir” o
momento, o prazer instantâneo.
Há nessa prática, ademais, o prazer e alívio advindos da ausência de laços e da isenção
de uma possível responsabilidade afetiva. O fato de não haver o peso de um compromisso
parece agradar aos jovens, e todos os entrevistados que admitem ir para a balada com o intuito
de ficar com as pessoas na pegação confessam, também, que essa leveza e não-compromisso
são grande parte da razão por trás de tal conduta.
É importante apontar que, para todos os jovens
149
, a pegação tem um caráter
pejorativo. Dentro do grupo dos mais tranqüilos, a pegação é condenada pois não encontra
razão de ser: é um comportamento pouco justificável, cuja superficialidade é demasiado
artificial e não caracteriza um prazer que valha a pena. Mesmo assim, alguns entrevistados do
grupo dos tranqüilos admitem que já saíram para a pegação, mas que foi algo esporádico.
Já os mais agitados, em primeiro lugar, relutam ao admitir que praticam a pegação – o
que já indica que não crêem que seja um comportamento socialmente aceitável e que,
portanto, possui conotação negativa. Além disso, todos os jovens, tranqüilos ou agitados,
tanto os que admitem a prática quanto os que dizem não apreciá-la
150
, relatam que homens e
mulheres que gostam da pegação não são confiáveis, e que seria difícil estabelecer um
relacionamento afetivo sério com tais pessoas.
A incidência dessa desconfiança sobre o comportamento do “pegador” é maior nos
homens. As mulheres parecem crer que é da natureza masculina ser pegador e, apesar de
admitirem ter dificuldade em confiar em homens que praticam a pegação, não negam que
namorariam – ou mesmo que namoram – tais rapazes. Os homens, no entanto, são mais
incisivos: condenam as mulheres que praticam a pegação, e admitem que só se relacionam
com elas de maneira efêmera, utilizando termos como “galinha”, ou então dizendo que elas
“não prestam”.

149
Este ponto, especificamente, também é uma visão partilhada pelos entrevistados mais velhos.
150
Sobre estes, é interessante indagar se efetivamente dizem a verdade. Todos os entrevistados admitiram que a
maioria das pessoas que freqüenta baladas tem como intuito a pegação. Alguns dos entrevistados (especialmente
mulheres) se disseram freqüentadores de baladas, mas que rejeitam a pegação. Podemos crer que são exceções,
ou então que não admitem a prática para não prejudicarem sua imagem social perante o entrevistador.
160
No discurso dos entrevistados mais velhos também encontramos, com muito menor
incidência, a referência à pegação. Todos eles admitiram freqüentar baladas, como também
bares e programas culturais. As mulheres mais velhas admitem que a pegação é uma prática
corrente em baladas, mas não se dizem partidárias dela. Além disso, condenam a visão que os
homens têm das mulheres freqüentadoras de baladas, que são vistas como objetos, numa
espécie de supermercado afetivo.
Os homens mais velhos também reconhecem a pegação. Dos três entrevistados,
entretanto, somente um admitiu diretamente a prática (Entrevistado 10), enquanto outro negou
(Entrevistado 11) e o terceiro deu a entender que a pratica, mas sem deixar evidente
(Entrevistado 9).
O fato é que, também no discurso dos mais velhos, há uma condenação da prática. A
diferença é que essa condenação é mais direta, e o caráter pejorativo e negativo da pegação
parece saltar mais aos olhos. As razões para isso são claras: todos os entrevistados mais
velhos (homens e mulheres) estão em busca de – ou já se encontram em – relacionamentos
sérios e estáveis. Um dos entrevistados mais velhos (Entrevistado 10) afirma taxativamente
que as mulheres, hoje, vão para as baladas para a pegação, e que isso é algo péssimo, pois
impede um relacionamento de confiança – já que mulheres “fáceis” não são confiáveis.
A estabilidade de um relacionamento afetivo sério, intenção imediata no discurso dos
entrevistados mais velhos, também é encontrada nos mais jovens. Todos os jovens
entrevistados, homens e mulheres, pretendem, no futuro, encontrar uma pessoa com a qual
pretendem ficar por muito tempo – alguns chegam a dizer que pelo resto da vida. Essa
preocupação, no entanto, não é tão imediata nos jovens. Os 30 anos de idade, para eles,
representam a linha divisória entre a efemeridade e a necessidade de se estar em um
relacionamento estável, como o casamento, com o intuito de construir uma família.
Verifica-se que é a partir de tal preocupação em construir um relacionamento estável
que a condenação à pegação se fundamenta.
Assim, temos jovens de ambos os sexos que apreciam relacionamentos fugazes, por
vezes diversos em uma mesma noite, devido ao prazer imediato e à ausência de compromisso.
É interessante destacar que duas entrevistadas (Entrevistadas 6 e 8) mencionam que a prática
é ainda mais freqüente entre adolescentes de 13 a 16 anos de idade. A Entrevistada 6, que se
161
diz já mais velha e madura, admite que quando mais jovem freqüentava micaretas e beijava
diversas pessoas. Percebemos, aqui, indícios de uma cada vez mais precoce sexualização do
jovem.
Encontramos, também nos mais velhos, relatos dessa prática, com menor incidência.
Para todos, no entanto, a prática é condenada e vista com um olhar pejorativo: pessoas que
agem assim não merecem confiança e, portanto, não permitem um relacionamento duradouro
e estável. Isso nos permite perceber, novamente, que a intenção de encontrar uma pessoa
especial, com a qual é possível dividir experiências, momentos, afetos e responsabilidades,
não é algo mal visto por nenhum dos sexos. Ao contrário, mesmo para os jovens essa é uma
meta.
Os discursos de Men’s Health e Nova sobre relacionamentos afetivos e suas posições
quanto ao papel do homem e da mulher nesses relacionamentos, como vimos, diferem. Em
MH encontramos um homem sedutor cujo objetivo último é a maximização do prazer próprio
através do maior número possível de relações sexuais – a sedução, assim, é um meio para esse
fim. Nova apresenta uma mulher também sedutora, mas cujos objetivos são distintos: ela
busca um grande amor, na forma do parceiro ideal em um relacionamento estável que,
também, maximize seu prazer, mas não na fugacidade de encontros efêmeros, e sim na solidez
de uma união duradoura.
A partir das entrevistas, percebemos que existem dois pontos de análise para a maneira
como os entrevistados vivenciam os prazeres efêmeros. Um primeiro é aquilo que parece ser,
efetivamente, praticado. O segundo é a visão que os entrevistados declaram a respeito das
práticas.
Percebemos que a prática dos relacionamentos efêmeros é presente tanto entre homens
quanto entre mulheres, e que aparentemente há um equilíbrio nesse balanço, pois as mulheres
participam desse tipo de relacionamento tanto quanto os homens. Nesse sentido, as
perspectivas de MH e Nova carecem de uma atualização propriamente de gênero.
A busca pelo prazer instantâneo profuso não é, como as revistas parecem preconizar,
prerrogativa exclusivamente masculina. As mulheres, pelo que os entrevistados apontam
como um desejo de se mostrarem iguais aos homens, também são partidárias dessa profusão.
162
Esse desejo, situado na liberdade que a mulher pretende ostentar nos dias atuais, faz com que
elas ajam de maneira semelhante aos homens.
A prática feminina da pegação, nesse sentido, aparece como uma negação direta à
valorização da busca pelo grande amor, tal como encontramos em Nova. Em oposição a um
discurso que enaltece a mulher que se esforça, tanto quanto pode, para construir um corpo
sedutor e, com esse corpo, encontrar o grande amor de sua vida, a prática da pegação é uma
reapropriação do ideal feminino de sedução, aplicado diretamente à maximização do prazer.
Essa maximização é idêntica a que MH propõe como boa conduta para os homens, ou seja, na
efemeridade profusa de relacionamentos fugazes.
Em um primeiro momento, essa prática feminina pode parecer fruto de uma auto-
constituição autônoma, livre da norma prescrita por um discurso como o de Nova. A pegação
feminina apareceria como uma dimensão ética na auto-constituição da mulher contemporânea.
Cremos ser importante, no entanto, uma reflexão sobre essa suposta autonomia.
Em primeiro lugar, devemos considerar que a negação irrefletida de uma norma, por si
só, já não caracteriza autonomia, pois está invariavelmente atrelada à norma e,
conseqüentemente, limitada por ela. Ademais, ao negar a prescrição normativa que estabelece
que a mulher deve viver em busca de um grande amor, a escolha da pegação como caminho é,
de fato, a escolha por uma outra norma, que já é prescrita aos homens em discursos como o de
MH. Em outras palavras, participando da prática de profusos relacionamentos efêmeros, as
mulheres tentam escapar da norma predominantemente feminina encontrada em Nova,
segundo a qual a mulher deve cuidar de si para seduzir e encontrar um grande amor. Mas essa
fuga faz com que elas passem a se conduzir a partir de uma nova norma, aquela
predominantemente masculina, presente em discursos como o de MH, segundo a qual a boa
conduta é a maximização do número e qualidade de relacionamentos efêmeros.
A prática de relacionamentos efêmeros, apesar de fortemente presente nos discursos
dos entrevistados, convive com uma intenção unânime de pertencer a um relacionamento
afetivo estável e sério. Essa intenção, também predominante no discurso masculino,
caracteriza o segundo ponto de análise sobre a maneira como os entrevistados relatam
vivenciar prazeres efêmeros. Esses prazeres, tanto para homens quanto para mulheres,
justamente por serem efêmeros, não caracterizam uma boa política de vida – pelo menos não
163
como intenção futura. Os indivíduos que se conduzem a partir desses prazeres não merecem a
confiança de um relacionamento sério. E um relacionamento sério é a intenção, presente ou
futura, de todos os entrevistados.
Assim, percebemos que a defesa aparentemente refletida apresentada pelos
entrevistados a respeito da opção por relacionamentos efêmeros, ou seja, a maximização do
prazer sem os laços de responsabilidade, frente a normas discursivas tais como as de MH e
Nova, apresenta contradições. Tais contradições lhe tiram o caráter de escolha refletida,
impedindo que se situe dentro daquilo que Michel Foucault denomina ética.
Por outro lado, ao defenderem os relacionamentos afetivos estáveis e duradouros, os
entrevistados recorreram a ideais quase dogmáticos. Argumentos como “é da natureza
humana querer estar com alguém”, ou então “ninguém gostaria de estar sozinho para sempre”
foram utilizados com freqüência, sem qualquer recurso a um possível processo reflexivo que
os levou a postular a naturalidade da intenção humana de estar afetivamente ligado a um
parceiro, seja casados ou morando juntos.
Resumidamente, alguns costumam participar de relacionamentos cuja duração é,
muitas vezes, na casa dos minutos. Todos, uns no presente e outros no futuro, desejam
encontrar uma pessoa para amar, dividir afetos, experiências e responsabilidades, em um
relacionamento estável e sério. Nenhum, no entanto, apresenta uma reflexão sobre essa
intenção. Nessa conjuntura, Nova propõe às mulheres seduzir para amar na estabilidade,
maximizando o prazer. Men’s Health propõe seduzir para conquistar na efemeridade,
maximizando, também, o prazer.
Salta aos olhos a contradição entre discursos, práticas e intenções. Normas como as de
Men’s Health e Nova claramente não operam em um regime estratégico segundo o qual a
produção midiática causa efeitos diretos em sua audiência passiva (como os estudos de
recepção já nos mostraram tantas vezes). Mais do que isso, não operam isoladas, pois
convivem com tantas outras instâncias sociais que constituem a conjuntura da
governamentalidade, tal como proposta por Michel Foucault.
O discurso prescritivo e propriamente normativo de MH e Nova encontra resistências
e aceitações que convivem conjuntamente. Parece-nos claro, no entanto, que tais resistências
não se dão na forma da auto-constituição autônoma, ética, livre, dos receptores. As normas
164
são apropriadas e reapropriadas, trabalhadas e retrabalhadas nas práticas sociais e na imagem
que os receptores possuem de tais práticas. Permanecem, no entanto, normas, enquanto se
caracterizam como regras irrefletidas segundo as quais as pessoas se conduzem, quase que
naturalmente. A regra internalizada, à guisa de natureza, como vimos no Capítulo 2, é
justamente a forma da norma.
A esfera dos relacionamentos é, para Michel Foucault, justamente onde a ética pode
encontrar um palco fértil. O relacionamento ético, ou seja, auto-constituído refletida e
autonomamente, é o que ele denomina amizade
151
. A amizade é um relacionamento em que as
partes que o constituem não recorrem a formatos pré-estabelecidos de papéis, intenções e
resultados esperados (ou seja, normas). Ao contrário, é uma relação em que, livremente, seus
participantes criam e recriam suas regras, com apenas uma intenção: a intensificação da
relação
152
.
Essa intensificação não significa a pura e simples maximização do próprio prazer –
que, por si só, já apresenta complexidades. Qual o critério de tempo para a mensuração do
prazer? O que fazer em relação a prazeres que, ao mesmo tempo, causam angústias? Qual a
ordem desse prazer: sensorial ou reflexivo?
Mais do que isso, a intensificação das relações é a livre constituição, quase estética –
tal como a criação de uma obra de arte –, de uma relação entre duas ou mais pessoas na qual
todas participem de suas regras, modificando-as e as reinventando, com o intuito de
intensificar o prazer de todas as partes envolvidas de forma refletida, levando em
consideração o prazer próprio e do outro a partir de medidas refletidas decididas na
conjuntura da própria relação. E essa relação é ética, ou seja, necessariamente negativa,
carecendo perpetuamente de forma. É no exercício da criação de uma estética da existência
que a amizade faz sentido. É em sua reinvenção constante que um relacionamento permanece
ético.
Assim, a amizade é um esforço de Foucault para apontar a possibilidade de novas
formas de relação social, pois não existe nada dado e necessário que pertença exclusivamente

151
O sentido de amizade foucaultiano é muito distinto da amizade pertencente ao senso comum.
152
ORTEGA, F. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999, p.151-167.
165
a determinados grupos sociais. Homens e mulheres, jovens e adultos, podem participar de
relações afetivas, sexuais ou não, cujas regras não estão dadas; cujas formas, talvez, nunca
tenham sido experimentadas e, caso tenham, que a opção por elas seja livre e refletida, e não
uma apropriação de prescrições (que as afirme ou negue).
Tanto os homens de MH e as mulheres de Nova quanto os homens e mulheres por nós
entrevistados se situaram em práticas e intenções cujas formas são pré-estabelecidas,
irrefletidas, ora buscando seguir normas, ora apenas as atacando ao negá-las. Não
encontramos um esforço pelo estabelecimento de algum tipo de relação que, dentro desse jogo
de poder operado por normas, permitisse alguma resistência subtraída de artificialidade. As
contradições encontradas tanto nos relatos dos entrevistados quanto na relação desses relatos
com os discursos das revistas limitam – ou mesmo impedem – a intensificação das relações
afetivas. A razão disso é a positividade com que os entrevistados abordam suas relações: cada
tipo de relacionamento deve ser isto ou aquilo a priori.
A ética da amizade só pode ser uma ética negativa, cujo programa é vazio, isto é,
capaz de oferecer ferramentas para a criação de relações variáveis, multiformes, concebidas
de forma individual
153
. Cada indivíduo deve construir sua própria ética – a ética da amizade
prepara o caminho para a criação de formas de vida sem prescrições. Na recepção dos
discursos de Men’s Health e Nova, encontramos sujeitos objetivados, cujas subjetividades
partem de prescrições que eles próprios não são capazes de defender e que, no limite, parece
livrá-los da oportunidade de livremente conduzir seus relacionamentos.
4.2.2 – O corpo belo, sedutor e o corpo saudável
Parte dos entrevistados pratica exercícios físicos com regularidade, enquanto outra
parte não os pratica. Todos, entretanto, crêem que deveriam praticar. O cuidado com o corpo
nele mesmo, ou seja, em sua forma física, é uma preocupação unânime entre os entrevistados.
Essa preocupação, no entanto, não toma sempre a forma de um efetivo cuidado com o corpo:
naqueles que não praticam exercícios físicos, aparece como um sentimento de culpa, como a
consciência de que deveriam cuidar melhor de seus corpos.

153
Op.cit., p.167-169.
166
A prática de exercícios físicos, entre os entrevistados mais velhos, é diretamente
atrelada a uma consciência de que a atividade é boa para seus corpos, permitindo-os
envelhecer melhor e com maior qualidade de vida. Um dos entrevistados (Entrevistado 10)
admite que não pratica exercícios e não controla a alimentação, e que isso é um ponto
negativo em sua vida. Outro deles (Entrevistado 9) aponta que a prática de exercícios físicos
foi recomendação médica após o término de seu casamento: ele teve de optar pelos exercícios
ou por um regime de medicamentos prescritos, e ficou com o primeiro.
Entre os mais novos, a preocupação com a saúde parece não chamar tanta atenção,
apesar de ser mencionada com freqüência. A prática regular de exercícios entre eles aparece
como algo presente em suas vidas desde a infância, ou então como uma atividade que lhes
traz um bem-estar físico e psicológico.
Entre todos os entrevistados, os exercícios físicos são uma espécie de válvula de
escape. Servem para liberar as energias, tirar a cabeça do cotidiano estressante e se dedicar a
uma prática cujo alvo é eles mesmos. O bem-estar proporcionado pela atividade física é
mencionado por todos os entrevistados que praticam ou já praticaram esportes. Um dos
entrevistados (Entrevistado 11) chega a correr 10km aos domingos, dia em que não pratica
musculação. Se por alguma eventualidade não pode se exercitar, afirma se sentir mal e tentar
compensar no dia seguinte. Alguns deles (como o Entrevistado 5) praticam esportes desde
muito jovens, de modo que não conseguem se ver sedentários.
Esse bem-estar, esse “sentir-se bem” trazido pelos exercícios físicos tem três origens.
Primeiramente, a dedicação a uma atividade cujo alvo é si mesmo, ou seja, possuir um
momento exclusivamente para si próprio. Em segundo lugar, a questão da saúde que
invariavelmente é atrelada à atividade física, ou seja, a satisfação proporcionada pela
consciência da prática de uma atividade que melhorará a qualidade de vida. Em terceiro lugar,
e não menos importante, a manutenção de uma aparência bela.
Muitos dos entrevistados relutaram ao afirmar que a prática de exercícios físicos tem
por alvo um trabalho estético. Mesmo estes, no entanto, em algum momento, afirmaram que,
ainda que secundária, essa preocupação existe. Naqueles que não relutaram ao fazer tal
afirmação, a preocupação estética também apareceu como secundária – a prioridade é o bem-
167
estar e a saúde. Os entrevistados não desejaram demonstrar que o cuidado com seus corpos
escondia uma preocupação com a maneira como as outras pessoas os olhariam.
Uma abordagem semelhante – ao ponderarem sobre quanto do cuidado de si tem por
preocupação o olhar do outro – é encontrada nos relatos dos entrevistados a respeito de outros
cuidados estéticos, tais como manicure, cabeleireiro, depilação e maquiagem, ou mesmo em
relação a maneiras de se vestir. Os entrevistados evitam afirmar que tais cuidados estão
atrelados a uma preocupação com suas imagens perante o círculo social. Entretanto, nenhum
deles afirma isenção desse tipo de preocupação.
Relatos de duas entrevistadas se destacam por serem muito distintos um do outro, mas
apontarem para um mesmo ponto: o cuidado com o corpo, seja através de exercícios físicos,
nutrição ou mesmo na decoração do corpo, é uma estratégia para manutenção de uma auto-
estima elevada, que tem por base um julgamento social do que é um corpo belo.
A Entrevistada 6 afirma taxativamente que considera hipócritas aqueles que dizem se
vestir para si mesmos, pois tudo o que fazemos é para que os outros nos avaliem e
valorizem.Também afirma ser uma pessoa muito carente afetivamente, que depende da
aceitação das pessoas ao seu redor para que esteja bem e feliz. Considera-se acima do peso,
não controla sua alimentação, nem pratica exercícios físicos, mas tem extensivos cuidados
cosméticos com o corpo – como o uso diário de maquiagem, sem a qual ela diz não conseguir
se considerar bonita.
A Entrevistada 7, por outro lado, afirma que pessoas que necessitam decorar seus
corpos em excesso provavelmente têm algum problema de auto-estima. Durante a entrevista,
se mostrou assertiva e segura do que dizia. Pratica exercícios físicos com grande freqüência,
tem uma alimentação estritamente regrada e, além disso, tem um corpo magro, alto e, de
acordo com os padrões observados na revista Nova, belo: loura, olhos azuis, pele clara. Não
abdica de cuidados cosméticos com seu corpo, mas acredita que são secundários e
superficiais.
Ao comparar os relatos das duas entrevistadas, percebemos um nexo entre os
discursos: ambas concordam que a auto-estima baixa é beneficiada por cuidados com o corpo.
Outro entrevistado (Entrevistado 2) admite ter gorduras acumuladas na barriga, e diz que se
sente mal ao tirar a camisa quando está num ambiente social. Em casa, consigo mesmo, diz
168
não enxergar qualquer problema em seu corpo. Mas o desconforto social advindo de sua
barriga faz com que ele acredite que deveria praticar exercícios e tomar outras medidas para
minimizar o problema. Este mesmo entrevistado, que afirma não ter grandes cuidados
estéticos com o corpo, claramente depila a sobrancelha.
Dois dos entrevistados mais velhos (Entrevistados 9 e 11), que afirmam praticar
exercícios físicos principalmente por motivos de saúde, depilam o corpo inteiro – prática que
não é exigência dos esportes que praticam – e ostentam uma musculatura protuberante em
todo o corpo. Seus corpos são muito semelhantes àqueles estampados nas páginas de Men’s
Health.
Verificamos, aqui, uma grande preocupação com a imagem social dos corpos, que se
reflete nos esforços para torná-los belos neles mesmos, através dos exercícios físicos, ou então
(por vezes simultaneamente) para decorá-los com o intuito de torná-los mais belos. Vale
lembrar que, em Men’s Health, a subseção que trata de exercícios físicos é denominada
fitness’, cuja raiz é o termo inglês ‘fit’, que significa, ao mesmo tempo, aquilo que tem a
medida e formatos certos, justos, apropriados. O corpo belo é aquele que possui a medida de
justeza apropriada ao julgamento social do que é belo. Medida essa que tem relação direta
com a auto-estima do indivíduo a que pertence o corpo medido.
A Entrevistada 7, que pratica exercícios físicos freqüentemente, cujo corpo é belo nele
mesmo e está de acordo com os padrões normalizados pelo discurso de Nova – entre tantos
outros –, verifica um problema de auto-estima nas pessoas que se preocupam em excesso com
a decoração do corpo. Já a Entrevistada 6, que diz detestar exercícios físicos e não conseguir
controlar a alimentação – apesar de, também, afirmar que deveria fazê-lo –, se esforça tanto
quanto pode para decorar seu corpo, caso contrário não se sente bela.
O corpo aparece como um reduto a partir do qual se regula grande parte da auto-
estima do indivíduo. A decoração do corpo parece servir a duas estratégias distintas: é uma
espécie de compensação sobre uma deficiência percebida no próprio corpo, ou então uma
capitalização sobre aquilo que já é percebido como belo, também no corpo. Já o cuidado do
corpo nele mesmo, em seu aspecto físico e fisiológico, serve a uma estratégia mais basal: é a
modelação daquilo que é estrutura da auto-estima. Ambos (decoração e fitness) trabalham
conjuntamente numa desesperada busca por valorização social. Como já apontamos, mesmo
169
aqueles que não praticam exercícios físicos afirmam que deveriam fazê-lo, e confessam que
se sentiram melhores consigo mesmos caso o fizessem.
Com isso verificamos que a auto-estima dos entrevistados está diretamente relacionada
às suas relações sociais, que acabam sendo a medida reguladora do cuidado que destinam a
seus corpos. O peso desse cuidado sobre todas as relações sociais pende especialmente para o
lado das relações afetivas, amorosas e sexuais.
Os entrevistados relutaram ao admitir que os cuidados com o corpo tinham relação
com a ostentação de um corpo sedutor, ou seja, de um corpo capaz de conquistar mais e
melhores parceiros. A maioria deles, no entanto, tanto homens quanto mulheres, afirmou que
não se sente atraída por pessoas gordas. Alguns de maneira mais sutil, outros mais
taxativamente. O Entrevistado 11, por exemplo, disse categoricamente que não se relaciona
com pessoas gordas.
É unânime, entre os entrevistados, a perspectiva de que a atração física é o primeiro
filtro na seleção de parceiros afetivos. Muitos dizem não outorgar tanta importância ao
aspecto físico do parceiro, mas não deixam de confessar que, invariavelmente, a atração por
esse aspecto é o primeiro estágio de um possível relacionamento.
Nesse sentido, o corpo belo e o corpo saudável, como propõem MH e Nova, são a
mesma coisa. A saúde nela mesma, preocupação mais evidente nos relatos dos entrevistados
mais velhos, não está desassociada da preocupação estética. Na verdade elas caminham lado a
lado. Além disso, esse corpo é, também, um corpo sedutor – a beleza é mensurada nas
relações sociais em que o corpo está inserido, nas quais os relacionamentos afetivos,
amorosos e sexuais têm um papel central.
Os relatos colhidos nas entrevistas a respeito dos cuidados com o corpo, comparados
aos discursos de MH e Nova, apresentam considerável consonância. As revistas parecem
manuais descritivos daquilo que os entrevistados efetivamente seguem em suas vidas, ou
então do que crêem que deveriam seguir. São, inclusive, quadros referenciais dos corpos
desejados e desejáveis, tanto para si próprios quanto em potenciais parceiros afetivos.
Há uma certa tirania em prescrições como as de MH e Nova acerca dos corpos
saudáveis, belos e sedutores. Tais prescrições, quando encontram na recepção uma aceitação –
170
mesmo que apenas na forma de idéias sobre como se deveria conduzir o corpo –, como em
nosso caso, possuem efeitos sociais excludentes e, por vezes, preconceituosos. A categórica
rejeição aos corpos gordos é um exemplo disso.
Como nos mostra Michel Foucault, o poder é capilar, e mergulha nos mais íntimos
interstícios da vida, controlando-a muito menos a partir de coerções diretas do que a partir de
ações que partem dos próprios indivíduos inseridos nas relações de poder. O investimento do
poder sobre os corpos individuais a partir de instâncias sociais como a mídia certamente
possui efeitos de poder – mais ou menos visíveis – na sociedade. O corpo sadio, magro,
sedutor, belo, musculoso e jovem, de um lado, e o corpo doente, gordo, feio, flácido,
manchado e velho, de outro, são elementos centrais em um jogo de poder que, não só a partir
da mídia, mas de tantas outras instâncias sociais, ocorre ao nosso redor.
Os corpos, em nossa sociedade, são verdadeiros redutos de investimento do poder.
Exatamente por isso são elementos cruciais na resistência contra tais investimentos. A partir
do próprio corpo, em suas relações sociais, podemos talvez vislumbrar a possibilidade de uma
ética.
O domínio, a consciência de seu próprio corpo só puderam ser adquiridos
pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o
desenvolvimento muscular, a nudez, a exaltação do belo corpo... tudo isto
conduz ao desejo de seu próprio corpo através de um trabalho insistente,
obstinado, meticuloso, que o poder exerceu sobre o corpo das crianças, dos
soldados, sobre o corpo sadio. Mas, a partir do momento em que o poder
produziu este efeito, como conseqüência direta de suas conquistas, emerge
inevitavelmente a reivindicação de seu próprio corpo contra o poder, a saúde
contra a economia, o prazer contra as normas morais da sexualidade, do
casamento, do pudor. E, assim, o que tornava forte o poder passa a ser aquilo
por que ele é atacado... O poder penetrou no corpo, encontra-se exposto no
próprio corpo... Lembrem-se do pânico das instituições do corpo social
(médicos, políticos) com a idéia da união livre ou do aborto... Na realidade, a
impressão de que o poder vacila é falsa, porque ele pode recuar, se deslocar,
investir em outros lugares... e a batalha continua
154
.

154
Foucault, M. Poder-corpo. In: Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2007, p.146.
171
Com isso Foucault nos mostra que o poder, mais do que um elemento abstrato que
paira sobre a humanidade, é, na verdade, um complexo arranjo estratégico sobre o qual todas
as relações sociais operam. É na dinâmica dos jogos de poder que, hoje, os corpos devem
buscar formas como as de MH e Nova, ou então sofrer por não possuí-las.
Nossos entrevistados, em seus relatos, mostraram ser objeto de normas que
esquadrinham a conduta de seus corpos no que concerne o cuidado consigo mesmos e,
conseqüentemente, com suas relações afetivas. Essa observação, no entanto, não significa que
discursos como os de MH e Nova operem num regime ditatorial inescapável. A tirania desses
discursos só se dá a partir de um investimento sobre os corpos, de modo que, eles mesmos,
investidos pelo poder, produzam efeitos sociais de poder.
Cabe aos corpos, portanto, em sua materialidade e sociabilidade, reinvestir esse poder
que lhes é investido. Como um reduto penetrado pelo poder, o corpo possui a possibilidade de
se voltar contra o poder que lhe é investido. É na construção de relações, consigo mesmos e
com outros corpos, livres de critérios, classificações, valorações e condições pré-
estabelecidas, que o corpo adentrará uma dimensão ética, de constituição autônoma de
sujeitos de seus próprios corpos, diferente de corpos-objeto de normas prescritas.
Em outras palavras, a centralidade do corpo em nossa sociedade é um elemento crucial
para a ação dos homens. Essa ação é limitada ou potencializada, como nos mostraram os
entrevistados, por uma auto-estima socialmente adquirida a partir da relação de seus corpos
com a sociedade. Relação que remete, invariavelmente a uma relação consigo mesmos.
Escapar à objetivação dos indivíduos significa repensar essas relações, formulando e
reformulando, individual e pontualmente, as regras das relações consigo mesmos e com outras
pessoas, com seus próprios corpos e com os corpos de outros, cuidando de si e do outro como
quem constrói uma obra de arte, uma estética da existência, uma produção refletida, racional,
ponderada, intensificadora das relações – um esforço propriamente filosófico, enfim.
172
CONCLUSÃO
A boa técnica de redação de textos acadêmicos nos diz que as conclusões não devem
repetir com outras palavras o que foi proposto durante o corpo do texto. Mais do que isso, o
objetivo é abrir novas perspectivas para a abordagem do tema. Dessa maneira, o nome
“conclusão” é o menos cabível, pelo menos em nosso caso. Concluímos o trabalho, mas
deixamos diversas portas abertas ao questionamento científico.
Não cremos que os resultados aqui obtidos tenham uma valia destinada
exclusivamente a este ou aquele campo social – pelo menos no limite das ciências sociais, e
possivelmente das humanas. Defendemos a abordagem transdisciplinar, que questiona o
estatuto disciplinar dos campos que compõem as atuais ciências sociais, trabalhando, tanto
quanto as condições de produção permitem, a partir de uma perspectiva que perpasse
transversalmente tais estatutos.
Uma questão fundamentalmente filosófica, que remonta ao primeiro grande filósofo,
Platão, emerge a partir de nossas observações: quão determinados por nossa natureza
biológica são nossos comportamentos? Filósofos materialistas, particularmente Nietzsche,
defendem com entusiasmo uma fisiologia subjacente às nossas ações. Nos últimos dez anos,
psicólogos, em trabalho conjunto com neurobiólogos, mapeiam as funções cerebrais e
corpóreas do ser humano, na profícua tentativa de determinar o que, em nós, permite escolha,
e o que é determinado, inscrito em nossos aparelhos fisiológicos. Em vista das extensivas
mudanças sociais e econômicas nos últimos 200 anos, sociólogos indagam em que medida a
enaltecida emancipação da teoria crítica mudou de forma, hoje, promovendo uma
individualização que isola pessoas em universos particulares, desconexos e despreocupados
com a realidade social. Fenômenos comunicacionais, dentro dessa conjuntura, saltam aos
olhos dos pesquisadores do campo da comunicação, participando, influenciando e sendo
influenciados pela dinâmica social em que se inserem.
Nesse sentido, a busca por relacionamentos efêmeros ou duradouros encontra alguma
explicação fisiológica? O cuidado com o corpo remontaria a um imperativo genético? Em que
medida a prática de relacionamentos fugazes, aliada à intenção irrealizada de relacionamentos
estáveis, participa de nossa dinâmica socioeconômica? Como os meios de comunicação
173
trabalham tais questões? Que medidas a administração pública utiliza que possuem efeitos
sobre elas?
Essas são algumas das muitas – talvez inúmeras – questões que desejamos propor
àqueles que, terminando a leitura deste trabalho, sintam-se instigados a pesquisar adiante. O
espírito de diálogo, medular na abordagem transdisciplinar, é característico e fundamental ao
espírito propriamente científico.
174
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
______. História da Filosofia: volume 1. Lisboa: Presença, 2006.
AIDAR PRADO, J. Regimes cognitivos e estésicos da era comunicacional: da invisibilidade
de práticas à sociologia das ausências. In: Revista Comunicação, mídia e consumo. São
Paulo, v.3, n.8, p.11-32.
ALLEN, C.; BEKOFF, M.; BURGHARDT, G. (org.). The Cognitive Animal: empirical and
theoretical perspectives on animal cognition. Massachusetts: MIT Press, 2002.
ARAÚJO, I.L. Foucault e a crítica do sujeito. Curitiba: UFPR, 2001.
BACCEGA, M.A. O campo da comunicação. In: Comunicação para o mercado:
instituições, mercado, publicidade. São Paulo: EDICON, 1995.
______. O campo da comunicação e os estudos de consciência verbal. In: Revista Logos. Rio
de Janeiro: UERJ, v.III, n.4, 1996.
______. Palavra e discurso: história e literatura. São Paulo: Ática, 2007.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2007.
BARROS, A.; DUARTE, J. (org.). Métodos e técnicas de Pesquisa em Comunicação. São
Paulo: Atlas, 2006.
BARROS FILHO, C. Ética na comunicação. São Paulo: Summus.
175
BARROS FILHO, C; THORNTON, R. Dos números às letras. In: BARROS FILHO, C.
(org.). Comunicação na Polis: ensaios sobre mídia e política. Petrópolis: Vozes, 2002.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
______. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.
BEAUD, S.; WEBER, F. Guia para a pesquisa de campo: produzir e analisar dados
etnográficos. Petrópolis: Vozes, 2007.
BOURDIEU, P. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 2003.
CALABREZ FURTADO, P. A contradição moral do desejo por formas jovens: o ideal-tipo
de corpo feminino na mídia frente à pedofilia. In: IV coMcult - Congresso Internacional de
Comunicação, Cultura e Mídia. São Paulo, 2008.
______. Moral, sociedade e mídia impressa: reflexões sobre os discursos do caderno Turbine
o seu prazer! O guia MH de sexo e relacionamento da revista Men s Health. In: INTERCOM
- XIII Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste 2008. São Paulo: XIII
Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste – Intercom, 2008.
______. Do egoísmo à juventude eterna: olhares sobre os discursos de amor e desejo na
revista Nova. In: Revista Contemporânea. Rio de Janeiro: UERJ, 2008, v. 6, p. 46-58.
CANTO-SPERBER, M. (org.). Dicionário de Ética e Filosofia Moral. São Leopoldo:
UNISINOS, 2007, v.1.
ECOSTESTEGUY, A., e JACKS, N. Comunicação e recepção. São Paulo: Hacker, 2005.
EFENDY MALDONADO, A. Metodologias de pesquisa em comunicação: olhares, trilhas
e processos. Porto Alegre: Sulina, 2006.
176
FERRY, L. Aprender a viver: filosofia para os novos tempos. Rio de Janeiro: Objetiva,
2006.
FONSECA, M. Michel Foucault e a constituição do sujeito. São Paulo: EDUC, 2001.
FOUCAULT, M. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
______. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 2006a.
______. A verdade e as formas jurídicas. Rio de Janeiro: Nau, 2005.
______. Coleção ditos e escritos I – Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e
psicanálise. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006b.
______. Coleção ditos e escritos II – Arqueologia das ciências e história dos sistemas de
pensamento. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2005a.
______. Coleção ditos e escritos III – Estética: literatura e pintura, música e cinema. Rio de
Janeiro: Forense Universitária, 2005b.
______. Coleção ditos e escritos IV – Estratégia, poder-saber. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2006c.
______. Coleção ditos e escritos V – Ética, sexualidade, política. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2006d.
______. História da sexualidade 1: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 2007.
______. História da sexualidade 2: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 2007a.
______. História da sexualidade 3: o cuidado de si. Rio de Janeiro: Graal, 2007b.
177
______. Microfísica do poder. Rio de janeiro: Graal, 2007c.
______. Resumo dos cursos do Collège de France (1970-1982). Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 1997.
______. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2007d.
FRANÇA, V; HOHLFELDT, A; MARTINO, L. (org.). Teorias da comunicação: conceitos,
escolas e tendências. Petrópolis: Vozes, 2007.
GAZZANIGA, M.; HEATHERTON, T. Ciência psicológica: mente, cérebro e
comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.
GIANNETTI, E. Auto-engano. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
GREGOLIN, M.R. Foucault e Pechêux na Análise do Discurso. Claraluz: São Carlos, 2006.
HADOT, Pierre. O que é a filosofia antiga? São Paulo: Loyola, 1999.
______. Philosophy as a way of life: spiritual exercises from Socrates to Foucault. Oxford:
Blackwell, 1995.
HOFF, T. Corpos emergentes na publicidade brasileira. In: Cadernos de pesquisa ESPM /
Escola Superior de Propaganda e Marketing. São Paulo: ESPM, 2006, ano II, n.2, p.11-62.
LOPES, M.I.V. O campo da comunicação: sua constituição, desafios e dilemas. In: Revista
FAMECOS. Porto Alegre, n.30, p.16-30.
______. Pesquisa em comunicação. São Paulo: Loyola, 2005.
______. Pesquisa de comunicação: questões epistemológicas, teóricas e metodológicas. In:
Revista brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, Volume XXVII, n.1, p.13-39.
178
JAEGER, W. Paidéia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às mediações. Rio de janeiro: UFRJ, 2001.
MARTINO, L. Abordagens e representação do campo comunicacional. In: Revista
Comunicação, mídia e consumo. São Paulo, v.3, n.8, p.33-54.
MERLEAU-PONTY, M. Elogio da filosofia. Lisboa: Guimarães, 1998.
______. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
MUCHAIL, S. Foucault, simplesmente. São Paulo: Loyola, 2004.
NIETZSCHE, F. A gaia ciência. In: Coleção Pensadores – Nietzsche. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
______. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. In: Nietzsche: os Pensadores. São
Paulo: Abril Cultural, 1983.
ORTEGA, F. Amizade e estética da existência em Foucault. Rio de Janeiro: Graal, 1999.
PRADO FILHO, K. Michel Foucault: uma história da governamentalidade. Rio de Janeiro,
Insular/Achiamé, 2006.
REVEL, J. Michel Foucault: conceitos essenciais. São Carlos: Claraluz, 2005.
SILVERSTONE, R. Por que estudar a mídia? São Paulo: Loyola, 2006.
TESHAINER, M. Psicanálise e biopolítica: contribuição para a ética e a política em Michel
Foucault. Porto Alegre: Zouk, 2006.
179
ANEXOS
180
ANEXO 1 – CAPAS DAS REVISTAS MEN’S HEALTH ESTUDADAS
Edição de Janeiro de 2007
181
Edição de Fevereiro de 2007
182
Edição de Junho de 2007
183
Edição de Março de 2008
184
Edição de Abril de 2008
185
Edição de Maio de 2008
186
ANEXO 2 – CAPAS DAS REVISTAS NOVA ESTUDADAS
Edição de Março de 2007
187
Edição de Abril de 2007
188
Edição especial Nova Homem de Abril de 2007
189
Edição de Outubro de 2007
190
Edição de Março de 2008
191
Edição de Abril de 2008
192
Edição especial Nova Homem de Abril de 2008
193
Edição de Agosto de 2008
194
ANEXO 3 – SÍNTESE DAS ENTREVISTAS REALIZADAS COM O PÚBLICO
MASCULINO
ENTREVISTADO 1
Perfil: 18 anos, universitário, solteiro (namorou antes por 2 anos).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: O entrevistado se dedica majoritariamente à
faculdade. Costuma freqüentar a academia, mas pouco. Gosta de correr, também. Os
exercícios físicos tem um foco estético, mas também servem para que ele tenha mais fôlego e
corra melhor, e conseqüentemente se sinta melhor. Joga futebol todos os finais de semana,
gosta de jogar pôquer, e nos finais de semana prefere programas mais tranqüilos, tais como
bares. Terminou o namoro porque a ex-namorada se mudou para a Alemanha, mas eles
continuam ficando. A vantagem de namorar é estar com alguém com quem se pode dividir
momentos. É gostoso ter a companhia de alguém não somente pela estética. Quando solteiro,
ele também preferia bares, mas ia para baladas para “pegar a quota do mês” de mulheres.
Balada, para ele, é para “pegar mulher”. Juntam-se alguns amigos, “enchem e cara e atiram
para todo lado”. Quando fica com alguém em balada, ele jamais pensa em um relacionamento
duradouro. Para namorar ele busca pessoas que conhece, das quais já gosta. As mulheres, para
ele, geralmente vão para a balada para “pegação”, mas mais para ficar com uma pessoa só do
que várias (apesar de existirem as que “pegam” vários). Ele não gosta de mulheres que vão
para a balada para “pegação”, e não gostaria de saber que, antes de namorá-lo, a parceira era
“pegadora”. O problema maior é a imagem que ela tem perante o círculo social: se for
pejorativa, é o pior caso. Mas, independente disso, não confia em mulheres “pegadoras”, que
ele chama de “rodadas”, ou seja, que já “rodaram” pela mão de vários homens. Acha que
mulheres valorizam homens que não sejam gordos, e não se sente atraído por mulheres
gordinhas, pois acha feio. Acha importante que as mulheres se cuidem, não necessariamente
em academia, mas que cuidem para que tenham um corpo “legal”. Ele tem uma alimentação
variada, sem grandes restrições. Gosta de frutas, legumes e verduras porque foi educado a
comer assim desde cedo. Não tem planos para casar, mas depois dos 35 anos de idade acha
que é ruim não estar casado. O principal motivo é porque acha que é melhor ter filhos quando
jovem. Não usa produtos de beleza, não segue tendências de moda.
195
Observações adicionais: Foi uma entrevista breve e direta. O entrevistado aparentou não ter
grandes objetivos além dos prazeres momentâneos, e quando indagado sobre perspectivas
futuras parecia pensar em algo a que, outrora, não tinha dedicado tanta energia. Mensura a
vida a partir do momento que vive, e tem percepções claras daquilo que, no momento que
vive, é bom ou ruim para ele mesmo. Essa clareza, no entanto, é presente em sua
assertividade, apenas – não há uma reflexão que a justifique. A busca por prazer, “pegando a
cota do mês” na balada, não condiz com a imagem negativa que ele tem das mulheres que são
“pegadoras” em baladas. Aqui encontramos mais uma evidência de sua conduta a partir de um
prazer momentâneo.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 2
Perfil: 19 anos, universitário, solteiro (nunca namorou).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: O entrevistado diz que sua vida é diferente da
maioria das pessoas, pois já morou em diversos países e já teve muito mais experiências do
que a maioria dos colegas. Mora com os pais, num apartamento com o irmão, mas os pais
trabalham fora de São Paulo. Assim, ele tem todo o conforto de morar com os pais, com toda
a liberdade de morar sozinho. Sua vida gravita em torno da faculdade: estuda e trabalha no
centro acadêmico da faculdade. Fuma narquile todos os dias. Gosta de teatro, shows, baladas,
festas da faculdade. O que importa é estar em boa companhia. A intenção é se divertir, “de
qualquer maneira que seja, seja bebendo com os amigos, enchendo a cara ou pegando um
monte de mulher”. Segundo ele, a maioria das pessoas vai para a balada para ficar com outras
pessoas. Ele, normalmente, é para curtir a noite: “encher a cara, dar risada com os amigos,
causar”. Ficar com alguém não é algo pré-estabelecido, é algo que acontece naturalmente, e
ele não se preocupa ou fica triste caso não aconteça de ficar com alguém. Mulheres
desconhecidas em baladas não são confiáveis, e segundo ele não há a menor possibilidade de
relacionamentos estáveis com elas. “Mulher que é fácil em balada não presta”, porque
uma pessoa que você não conhece de jeito nenhum, conversar cinco minutos e
ficar, ou ela está muito fácil ou está muito bêbada, e nenhuma das duas é uma
qualidade que quero numa namorada. Em uma ficante tudo bem, porque vai
196
ficar na balada, isso é uma coisa que eu nunca deixaria de ficar por isso, mas
eu deixaria de namorar, porque eu não quero uma menina que todo mundo já
tenha pego, ou então que todo mundo fala “ah, essa aí é fácil”, que vá ter
alguma possibilidade dela me trair, alguma coisa assim. (5:00 – 5:50)
Além da preocupação com a traição, ele diz simplesmente não sentir vontade de namorar
mulheres assim. Para ele, boa parte das mulheres, nas baladas, vão para “pegação”, a não ser
que já tenham algum “alvo” certo. Ele pensa em namorar, em ter um relacionamento estável
para o resto da vida, no entanto não pensa em casar formalmente. Esse passo em sua vida, no
entanto, só é pretendido aos 30 anos de idade, pois nessa idade ele já teve tempo de crescer
profissionalmente e juntar dinheiro, e também já teve tempo de ter feito tudo o que a liberdade
da juventude exige. “Não quero ser um daqueles caras que tem 45 anos e é solteirão”. Para
ele, o relacionamento fugaz, de balada, é apenas “para curtir”, uma felicidade momentânea. O
relacionamento estável é para crescer, para criar algo maior junto com outra pessoa, uma
felicidade mais duradoura. Ele não faz academia. Quando inquirido, responde: “não faço, mas
deveria” porque está “gordo” segundo os índices de massa corporal e peso por idade que
consultou. Ele acha que, se perdesse um pouco de barriga, ele seria um pouco mais feliz
porque sua auto-estima aumentaria; ele estaria mais confortável em tirar a camisa em um
churrasco com os amigos. Ele reconhece que as razões disso são psicológicas, para “entrar
nos padrões da sociedade”. Ele com ele mesmo está muito bem. Não restringe a alimentação,
pois ele é “um cara que gosta de comer”. Não tem restrições físicas naquilo que ele valoriza
em uma mulher para namorar: a personalidade da parceira importa muito. Diz que “se é uma
menina que não é a mais magra de todas, mas não vai para a academia (...) e é feliz com o
jeito que ela é eu gosto dela, eu vou ficar com ela e vou ficar com ela mais feliz do que
qualquer coisa” (20:00 – 20:40).
Observações adicionais: O entrevistado não tem um corpo magro. Como ele mesmo admite,
tem uma barriga protuberante. Não pratica exercícios físicos e não tem grandes preocupações
com a maneira como se alimenta e veste. Diz, no entanto, que deveria mudar isso, pois se
sente mal ao tirar a camisa perto de outras pessoas: notamos, aqui, que aquilo que parece ferir
sua auto-estima é o julgamento social. É importante notar que, observando o entrevistado, que
diz não ter cuidados estéticos com o corpo, percebe-se que ele depila a sobrancelha.
___________________________________________________________________________
197
ENTREVISTADO 3
Perfil: 18 anos, universitário, namora.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Mora longe de onde estuda, e faz uma “viagem”
para chegar à universidade. Quando não está se dedicando a atividades da faculdade, tenta
sempre chamar algum amigo para correr, jogar bola ou jogar tênis, pois é hiperativo e prefere
atividades físicas a ficar no computador ou videogame. Nos finais de semana, há um dia para
a namorada (Sexta-feira), um dia para os amigos (Sábado) e outro para a família (Domingo).
Jogava hugby na faculdade, e acabou se machucando – teve que ficar quase sete meses
parado, voltando só agora. Com a namorada ele freqüenta programas tranqüilos, tais como
cinema e jantares. Com os amigos costuma sair para bares e, menos freqüentemente, para
baladas (as quais ele chama de boates). Aos domingos, a família se reúne em algumas
atividades, tais como churrascos. Diz sentir inveja dos amigos que estão na pegação. “Quem é
solteiro quer namorar, quem namora quer morrer”. Diz pensar em casar, mas não com a
namorada atual pois ainda tem muito o que viver. Adora a idéia de ter filhos, pois “gosta
muito de moleque”. A condição para casar é estar financeiramente estável. Não pretende casar
“porra louca, por amor”. Acredita que é inevitável que, num casamento, alguma das partes se
dedique menos ao trabalho do que à família, para que os filhos tenham uma boa educação.
Para ele, que se diz “meio machista”, quem tem de fazer isso é a mulher, a não ser que ela
esteja ganhando mais. Diz ter um “tesão imenso por esportes desde moleque”. Não tem
quaisquer restrições alimentares, pois gosta muito de comer. Admite, no entanto, que queria
estar mais em forma, primeiramente pelo problema de saúde que teve que o impediu de
praticar esportes, mas também para se sentir bem consigo mesmo ao ir à praia, por exemplo.
Apesar de querer, o “preço não vale a pena”: deixar de comer o que gosta e praticar esportes
como a musculação, que não é um esporte coletivo. Afirma que não gostaria de “ser obeso, ou
até ter ‘tetinha’ ou um barrigão, mesmo, eu não ia me sentir bem; ter ‘papa’, espinha pra
caralho, que eu tinha, sei lá, monocelha... Mas mais ser gordo, mesmo, obeso, ou então
anoréxico: tenho uns amigos magrelões que eu acho feio” (19:30 – 20:20). “Ou então ser
baixinho”. Gosta de mulheres baixas, com “a bunda legal” e personalidade forte. Não gosta de
mulher “magrela”, mas não gosta de mulheres gordinhas – a não ser que seja bonita de rosto,
198
cabelo e tenha uma personalidade legal. Admite que, mesmo assim, não sabe se a
personalidade iria compensar o fato de ser gorda.
Observações adicionais: Apesar de apresentar com assertividade suas perspectivas em
relação às questões abordadas, o entrevistado não mostrou uma construção reflexiva por trás
das mesmas. Aparentou tranqüilidade, e por vezes pareceu nunca ter dedicado energia às
questões discutidas. No geral, foi uma entrevista breve e direta.
ENTREVISTADO 4
Perfil: 18 anos, universitário, namora há 3 anos.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Sua vida gravita em torno da universidade.
Nas horas vagas gosta de jogar sinuca, ir à academia e jogar futebol. Nos finais de semana,
nunca sai sem a namorada. Não sai para baladas sem a namorada pois “não tem como eu
sozinho não pegar outra menina numa balada”. Diz que antes eram mais baladeiros, mas no
último ano passaram a freqüentar programas mais tranqüilos, como bares ou cinema. Para ele,
homens e mulheres vão para baladas para se divertir, e também para a pegação, mas não
necessariamente esta última. Ele diz que a mulher tem mais necessidade de “pegar um cara”
para curtir a noite, enquanto o homem consegue se divertir sem isso. Afirma praticar esportes
por causa da endorfina, da sensação. Quando está parado, diz ficar de saco cheio, e sentir
vontade de se mexer, de fazer alguma coisa. Quando faz musculação, pretende ficar sempre
sem gordura, mas nunca musculoso demais. “É importante estar saudável e esteticamente
bem”. Admite que, conscientemente, o cuidado do próprio corpo não tem como alvo seduzir
as mulheres, mas inconscientemente sim. Isso, para ele, é igualmente verdade no caso das
mulheres. Quanto à alimentação, não tem restrições, pois afirma ter um metabolismo
acelerado. Veste-se priorizando o conforto, sem preocupações com marcas ou estilos. Só
busca se arrumar um pouco mais quando sai à noite, porque todos estão assim. Diz detestar a
idéia de ser muito gordo ou de ter “tetinhas”. Em seu corpo, gostaria apenas de ter as pernas
mais grossas. Valoriza as mulheres que cuidam do corpo, e não admite a possibilidade de ficar
com uma menina gorda ou “suja”. Diz que essa mulher “suja” é um critério pessoal difícil de
explicar. Gosta de mulheres magras, de cintura fina e bunda bonita. Acredita que as mulheres
preferem os homens mais sossegados, não espalhafatosos. Não acha impossível ter um
relacionamento sério com uma mulher que freqüenta baladas na pegação, mas acredita que é
199
algo muito raro. Acha que os homens são menos confiáveis: “não tem um que não pega outra
mina, não tem um que se salve, não tem um, não sei por quê, mas não tem”. Mulheres “têm,
muito, mas são menos”, pois elas apreciam um romantismo antes dos relacionamentos. Os
homens, ao contrário, têm em sua natureza esse instinto. “Homem é homem em todo lugar”.
Ele ressalta, no final da entrevista, o caráter “cada um por si” e fugaz dos relacionamentos, da
pegação. “Só para zoar”. Diz, também, que seria melhor para as outras pessoas que cuidassem
melhor dos seus corpos.
Primeiro, porque eu gosto (...) e eu acho que, todo mundo, é impossível não
se preocupar com estética, é impossível. Você tem que se importar, hoje eu
acho que é preciso. É chato uma pessoa relaxada demais, ninguém curte.
Não sei, é uma tendência, mesmo, eu vejo hoje todo mundo, hoje, assim. Se
tem uma pessoa que se cuide, para que eu vou ficar com uma que não se
cuida? (minutos finais da entrevista)
Observações adicionais: O final da entrevista revelou uma importância outorgada à questão
estética – tanto dele próprio quanto das mulheres que deseja – que, antes, não foi admitida. Ao
contrário, no início da entrevista o entrevistado relutou ao afirmar que tinha esse tipo de
preocupação. Com o andamento da conversa, ele se soltou mais e passou a responder as
perguntas sem tantas preocupações.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 5
Perfil: 19 anos, universitário, solteiro (namorou uma vez, por quatro meses).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Dedica grande parte do seu tempo à
universidade, para atingir um nível intelectual que o permita conseguir um emprego.
Paralelamente, é professor da equipe de natação da universidade. Para se divertir gosta muito
de praticar esportes: surfe, wakeboard, velejar. Pratica esportes desde os 7 anos de idade.
Quando parou, na pré-adolescência, engordou, e se sentiu muito mal com isso. Por isso,
quando adolescente, voltou ao esporte, e hoje não consegue mais se ver longe dele. Chegou a
200
nadar 12km diariamente. Pratica corrida, também, mas com um intuito estritamente de
manutenção da aparência, para emagrecer. Acha importante manter um físico magro, não só
esteticamente, mas também pela questão da saúde – ele sofria de dores nas costas na época em
que era gordo. Em geral, no entanto, pratica esportes porque se considera hiperativo e
necessita gastar energia. Acredita que seria bom para as pessoas se cuidarem. “Se você está
bem com você, se você está saudável, se está se cuidando, se gosta de você mesmo, você se
sente mais seguro para esse lado mais social, de socializar com as pessoas”. Um corpo
saudável e trabalhado esteticamente traz segurança, traz auto-confiança. Não gosta muito de
baladas, especialmente as de São Paulo que considera muito caras. Freqüenta, na maioria das
vezes, as festas da faculdade. “A maioria busca, acho, ir em balada para pegar mulher. Eu vou
mais para me divertir, seja com os meus amigos ou pegando meninas.” Mas, também,
“depende da balada, tem balada que você vai para beber, ficar louco, dar risada. Aí tem balada
que você vai com mais dois ou três, e aí o intuito é pegação, ficar louco e partir para cima”.
Os relacionamentos de balada, em sua maioria, devido à intenção das mulheres, são fugazes.
“Eu não sou muito dessas de pegada, mas na maioria dessas baladas, as meninas estão com
esse pensamento”. Quando, no entanto, as meninas da pegação têm um papo legal, há a
possibilidade do relacionamento se estender. Ressalta que esses casos são minoria, pois a
maioria das pessoas estão na balada para a pegação. Mulheres e homens, equilibradamente,
praticam a pegação. Ele afirma pensar em relacionamentos sérios. Admite estar num
relacionamento com uma menina que tem potencial. Pensa em casar e construir uma família,
“lá pelos 28, depois que eu estiver bem financeiramente, bem empregado”. A principal razão
disso é sua cultura familiar, pois vem de uma família religiosa. Acha possível um
relacionamento estável com meninas pegadoras, apesar de mais difícil. Ele, por já ter
participado da pegação, acredita que é possível mudar, mas é difícil. Para ele, as mulheres
quando querem se divertir buscam homens pegadores, mas quando querem um
relacionamento sério fogem deles. Não tem restrições alimentares, mas aprecia muito comidas
magras. Nega ter quaisquer cuidados estéticos além dos esportes. Afirma, apenas, que já se
depilou devido à prática de natação.
Observações adicionais: O entrevistado permaneceu um tanto defensivo, aparentando grande
preocupação com aquilo que falava. No decorrer da entrevista, no entanto, se soltou um pouco
mais. É um praticante assíduo de esportes que tem um rigoroso cuidado com o corpo, mas não
201
admite quaisquer outros cuidados cosméticos. Observando seu rosto, no entanto, observa-se
que ele depila a sobrancelha.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 6
Perfil: 19 anos, universitário, namora há 10 meses (namorou anteriormente durante o ensino
médio).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Sua vida cotidiana é focada na faculdade e,
em menor grau, na academia de musculação. Nos finais de semana freqüenta bares, baladas e
festas da faculdade. Nesses casos, pode ou não ir com a namorada. A intenção é beber e se
divertir. Quando solteiro, suas intenções ao sair eram diferentes. “É bem diferente, né, quando
você está solteiro você fica o tempo inteiro querendo ir atrás de mulher”. Admite que, por
vezes, mesmo namorando, vai para baladas e fica com outras mulheres: “Então, na medida do
possível, quando você tá indo para balada e tá sem ninguém conhecido por perto, e já que está
ali, né...” Diz que não tem muita graça ir para a balada sozinho com a namorada, só quando há
o aniversário de um amigo ou algum evento especial. Reconhece que há, também, o problema
de que muitos homens tentam ficar com sua namorada nas baladas. Afirma, no entanto, que
essa é a “ordem natural” das coisas. Para ele, o objetivo geral das pessoas nas baladas “é ficar
bem louco e cair na putaria, salvo raras exceções”. Afirma que isso não se restringe ao
comportamento masculino:
Depende, não dá para falar de maneira geral porque tem mulher que é pior
que homem, mulher que vai para a balada para pegar mesmo, muitas vão e
pegam mais do que homem, e muito homem vai para ficar de boa. Mas está
pau a pau, equilibrado. (7:30 – 8:30)
Afirma que é ciumento, e que devido ao comportamento das mulheres hoje em dia, de
sair para a pegação, não consegue confiar. Diz ser essa uma das razões pelas quais ele
202
namorou pouco durante a vida, pois é difícil encontrar uma menina que “presta”. Uma menina
que não presta é aquele que vive em função de buscar homens. Freqüenta a academia de
musculação diariamente. Desde jovem pratica esportes, e se sente mal quando fica parado.
Diz-se hiperativo, e os esportes são uma maneira de focar essa hiperatividade. Não restringe a
alimentação, pois diz que é difícil manter uma disciplina desse tipo por muito tempo. Afirma,
no entanto, que às vezes tenta regular a alimentação. Não gostaria de ter em seu corpo uma
“barriga de chope”. Diz que é “lógico” que seu cuidado com o corpo está relacionado à
sedução de mulheres, à ostentação de um corpo bonito, pois isso está relacionado à
quantidade de mulher que se sentirão atraídas por eles. Afirma categoricamente que tanto ele
quanto as mulheres dão muita importância à aparência. Diz que não é por maldade, mas não
tem o menor interesse em gordinhas. Ao se vestir, busca um balanço entre conforto e aquilo
que ele acredita ser bonito. Diz pensar em se unir num relacionamento estável, mas apenas
depois dos 30 anos de idade. Quando inquirido sobre ter ou não esse plano, diz “tenho, tenho
pra caralho”. Antes dos 30 ele acredita que se é muito novo para isso. Depois dos 40 ele
acredita que o homem já “está com aspecto de tiozão”, e que esse é o limite para se estar
solteiro. Sobre estar solteiro ou num relacionamento sério: “Quando você está solteiro é bom
pra caralho, mas alguma hora você vai e fala ‘pô, queria estar com uma namorada’”, assim
como quando se está namorando, tem-se muita vontade de se estar solteiro.
Observações adicionais: Esta foi a entrevista mais honesta realizada com os homens. O
entrevistado admitiu trair a namorada, entre outros detalhes íntimos que, geralmente, as
pessoas tendem a ocultar.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 7
Perfil: 20 anos, universitário, namora.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: O entrevistado tem uma vida agitada,
envolvendo-se em diversas atividades na faculdade, e também buscando já adentrar o
mercado de trabalho. Em sua vida, portanto, sobra muito pouco tempo para atividades de lazer
e cuidado com o próprio corpo. Com o término do semestre, começa a surgir algum tempo
203
para que ele possa se dedicar a outras atividades. Afirma que desde pequeno participa de
atividades físicas com freqüência, e que a rotina dos últimos tempos o impediu de manter esse
hábito – fato que, segundo ele, não é bom, e que ele pretende, agora com tempo, mudar. A
razão por gostar de esportes é o prazer: gosta muito de atividades físicas. Mas não reclama,
pois gosta muito do que faz atualmente. Para ele, os esportes são importantes para duas
coisas: qualidade de vida e aparência física. Por isso, são importantes para as pessoas. “Ter
uma boa aparência física acaba interferindo em sua auto-estima”. Admite que, apesar de não
ser um fator fundamental, um dos elementos importantes para o jogo de sedução é a aparência
física – diz que, em cidades de praia, essa preocupação é muito maior, enquanto numa cidade
como São Paulo a preocupação é mais com a decoração do corpo, com como as pessoas se
vestem. Afirma que, principalmente em baladas, onde as pessoas se relacionam com pessoas
desconhecidas, a aparência é um dos principais critérios para a escolha do parceiro. Não
controla a alimentação por falta de tempo: a rotina acelerada o impede de se alimentar como
gostaria, ou como acha que deveria, de maneira mais saudável, equilibrada. Ele aponta que o
namoro, diferente da vida de solteiro, permite um envolvimento emocional mais profundo
que, para ele, é melhor. Ele afirma ser uma pessoa tranqüila, que prefere programas tranqüilos
e, por isso, gosta de namorar. Pensa em casar em construir uma família, sem um limite de
tempo para isso – apenas aponta que é necessário ter uma estrutura financeira sólida.
Observações adicionais: esta foi uma entrevista direta e simples. O entrevistado falou
bastante, mas muito mais sobre suas ponderações a respeito dos temas propostos para
discussão do que, propriamente, sobre como ele enxerga tais temas em sua vida. Resumimos
esta síntese, portanto, àquilo que foi dito e que remete ao interesse de nossa análise.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 8
Perfil: 18 anos, universitário, solteiro.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Sua vida gravita ao redor dos estudos – da
faculdade, portanto. Tentou, nas horas vagas, freqüentar a academia de musculação, mas
desistiu porque acha muito chato. Ele desistiu porque não vê sentido em ficar frente ao
204
espelho levantando pesos. Engordou um pouco desde que começou a faculdade, fato que o faz
se sentir mal. Os motivos são a aparência e também a questão da saúde. Se pudesse mudar seu
corpo, afirma que gostaria de ser mais magro. Apesar disso, não deixa de fazer nada para
atingir esses ideais. Diz, no entanto, que deveria se matricular em uma academia de ginástica,
ou então controlar mais sua alimentação. Para se divertir, gosta de freqüentar bares, e com
muito menor freqüência baladas. Ele vai para baladas quando os amigos vão, mas não aprecia
muito esse tipo de programa pois considera caro e barulhento, o que o impede de conversar.
Nas baladas, segundo ele, as pessoas vão para ficar com outras pessoas. Afirma que, no caso
dos homens, isso é mais explícitos. As mulheres, segundo ele, dizem que vão apenas para
dançar, mas que isso é mentira – pois, na maioria das vezes, elas além de dançar, acabam
ficando com alguém. Diz que vai atrás de mulheres com tranqüilidade: conhecidas, amigas de
amigas e pessoas próximas. Não de maneira obsessiva, ele diz que está sempre com alguém
ou buscando alguém. Mas afirma, também, que se não está ficando com alguém, não está
infeliz. Ele o faz porque acha legal, porque é divertido e traz prazer. Não afirma ter restrições
físicas naquilo que o permitiria se relacionar ou não com uma mulher. Não tem nada contra
pessoas que participam da pegação, mas afirma que não namoraria com uma mulher assim,
por não poder confiar nela. As idéias de casamento e filhos não fazem parte de seus planos.
Por não ter conhecido uma pessoa que incite a vontade de permanecer num relacionamento
estável, afirma que a idéia do casamento é distante. Diz que é possível, mas que depende
muito de encontrar alguém que efetivamente promova um afeto que sustente essa intenção.
Afirma que gosta muito de assistir e conversar sobre futebol, mas reconhece que não há razão
para isso. Ele afirma que, refletindo sobre por que gosta disso, não há razão, mas mesmo
assim é algo que promove fortes afetos.
Observações adicionais: Esta foi uma entrevista de curta duração, mas interessante. Este foi,
provavelmente, o único dos entrevistados homens que apresentaram uma reflexão sobre suas
condutas e sobre aquilo que diz ser bom e ruim. Mesmo naquilo que faz em conformidade
com as normas, ele baliza as ações a partir uma reflexão sobre o que gosta e o que tem alguma
explicação e sentido. Nesse sentido, apesar de perceber o ônus social de um corpo que
considera gordo, questiona as razões de levantar pesos frente a espelhos ou limitar o prazer
trazido pela alimentação. Também não vê razões para postular ou pretender casar, pois não
viveu algo que permitisse nutrir um afeto que sustentaria tais intenções. Ao mesmo tempo, diz
205
não partilhar da pegação das baladas, por preferir programas tranqüilos em que pode
conversar com os amigos.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 9
Perfil: 42 anos, representante de uma cooperativa de trabalho, namora (já foi casado por 3
anos).
Pontos abordados e discutidos durante a entrevista: Diariamente o entrevistado segue uma
rotina consideravelmente uniforme: toma café da manhã na padaria, trabalha o dia todo e,
aproximadamente quatro vezes por semana, freqüenta a academia, onde pratica musculação e,
às vezes, corrida ou spinning. Costuma sair à noite durante a semana para o cinema ou para
jantar, ou seja, programas mais tranqüilos. Nos finais de semana gosta de ir à praia, ao
cinema, a barezinhos e baladas – depende do estado de espírito. Os bares se destinam à
conversa com os amigos. A balada é um programa “forte”, para curtir música, para beber,
para “curtir”, “de brincadeira com o pessoal”. Namorando, freqüentar baladas não tem o
intuito de buscar relacionamentos. Solteiro, o intuito é se divertir, mas essa busca ocorre. Em
geral, afirma que as pessoas que freqüentam baladas têm o intuito de buscar relacionamentos
ou, no mínimo, se mostrarem disponíveis. Mulheres e homens, para ele, têm esse intuito, mas
as mulheres também gostam de danças em baladas, coisa que os homens não fazem – a
intenção masculina, portanto, é mais diretamente buscar relacionamentos. Mas ele afirma que
a busca por relacionamentos em baladas é “meio a meio. No meu caso, ela que veio a mim”.
Ele afirma que as mulheres, hoje, são mais assertivas na busca por relacionamentos do que
quando ele tinha 20 anos de idade. Ele não enxerga isso como algo ruim: “Eu acho que a
vontade é igual, a vontade é algo que você não consegue mensurar”. Afirma que ocorre,
esporadicamente, em sua vida, casos de ficar com mais de uma pessoa na balada. No entanto
diz que, em seu caso, por estar em uma idade mais avançada, tem preferência por um
relacionamento mais estável, com a intenção de um dia e casar e ter filhos. Não possui um
cronograma específico, não tem pressa e acredita que o que tiver que acontecer, vai acontecer.
Mas pensa em construir uma família. A prática de exercícios em sua vida veio depois do fim
do casamento, aos 33 anos, quando surgiram problemas de colesterol e pressão advindos do
206
alto índice de gordura. O médico propôs que se exercitasse ou tomasse medicamentos. Desde
então ele trouxe a atividade física para sua rotina. Para ele, a prioridade é a saúde, enquanto a
aparência é uma conseqüência secundária. Para ele, a aparência é importante para o interesse
afetivo, é algo que ajuda, principalmente por ser aquilo que chama atenção primeiro, mas não
é fundamental. É importante, no entanto, a pessoa ter uma personalidade interessante, “numa
balança”. Afirma que mulheres gordas são aquelas que teriam a menor chance de lhe causar
interesse afetivo. Quanto ao seu próprio corpo, ele tenta manter um equilíbrio, nem ser “um
palito”, nem um obeso.
Observações adicionais: O entrevistado ostenta uma musculatura visivelmente desenvolvida.
Além disso, depila o corpo inteiro – prática que não é exigência dos esportes que pratica. O
balanço saúde/estética, portanto, não pende tanto para a saúde quanto ele afirma.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 10
Perfil: 37 anos, empresário, solteiro.
Pontos abordados e discutidos durante a entrevista: O entrevistado trabalha muito. Sua
rotina, portanto, é pesadamente influenciada pela intensa dinâmica de trabalho. Nos finais de
semana costuma freqüentar bares, ir a casa de amigos ou então baladas. O intuito em
frequentar bares é conversar com os amigos. “Barzinho geralmente você vai para conversar,
encontrar amigos. Balada é mais para bagunça, se está solteiro é pegação, né? Não que
barzinho não tenha isso, mas geralmente em balada o negócio é mais agressivo” (2:00 – 2:50)
Afirma que, em sua turma, o intuito geral é se divertir, e não necessariamente pegação. Não
nega, entretanto que, caso aconteça .
“Hoje em dia a mulherada está – todo caso tem sua exceção – querendo fazer
o que muitos homens faziam antigamente. Estão meio que se achando muito
espertas, estão meio saídas, mais, assim, não estão ficando tanto na
defensiva, geralmente estão partindo para cima, mesmo. (...) É complicado,
eu sou um cara que não... não vou falar que sou santo. Mas é complicado
você achar uma namorada, né? O negócio talvez já comece errado, você vê a
207
garota na balada... É difícil você já montar um perfil legal da garota. Acho
que num barzinho, você conhece – quando conhece – e acontece alguma
coisa diferente”. (3:00 – 4:00)
Afirma que, na idade em que está, não tem como intuito relacionamentos fugazes. Diz que só
não se casou até hoje porque realmente não conseguiu se acertar com uma garota. Já morou
com uma ex-namorada por alguns anos, mas não deu certo. Não pratica exercícios físicos ou
controla sua alimentação, devido ao pouco tempo livre que tem. Acredita que sua vida
melhoraria se o fizesse, pois sua saúde melhoraria e, também, sua aparência, de modo que ele
se sentiria melhor consigo mesmo por estar se cuidando. Diz, inclusive, que a prática de
exercícios permite que você conheça mais pessoas novas. Afirma que a aparência física é algo
que chama a atenção das mulheres – mais das mais novas –, mas que não é o único elemento
que permite os relacionamentos. Ele se diz plenamente satisfeito com sua vida, e afirma que a
única coisa que falta é conhecer alguém, casar e construir uma família. Repete isso ao longo
da entrevista, denotando a importância que essa meta possui em sua vida.
Observações adicionais: Não há grandes observações adicionais possíveis nesta entrevista. O
entrevistado foi direto em suas respostas, buscando responder as perguntas da maneira mais
objetiva possível. O foco da sua vida é o trabalho, e ele sente grande falta de um
relacionamento estável que possa levar a um futuro casamento.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADO 11
Perfil: 41 anos, empresário, solteiro.
Pontos abordados e discutidos durante a entrevista: O entrevistado segue uma rotina
regrada: trabalho, academia e corrida todos os dias. A prática freqüente de exercícios físicos
tem como prioridade a saúde – viver bem, dormir bem, acordar bem, aliviar o stress –, e em
segundo plano a questão estética. Pretende “envelhecer bem”, “envelhecer o mais saudável
possível, e isso inclui você, de repente, não engordar, por exemplo. Talvez seja minha única
208
preocupação”. Se sente atraído por mulheres que cuidam do corpo, afirmando
categoricamente:
Nisso eu sou radical. Não estou dizendo que tem que vir para a academia
feito um maluco como eu. Mas é se cuidar porque, sei lá, você se cuida e
quer alguém que se cuide, também. Que seja boa de cabeça, também, não só
de corpo. (9:00 – 9:30)
Afirma taxativamente que não se sente atraído por “gordinhas”. Diz que nunca gostou, e que
agora, que freqüenta academia diariamente, isso é ainda maior. Ele diz que todas as pessoas
viveriam melhor se fizessem como ele, e que não o fazem por preguiça. A razão disso é viver
mais e “envelhecer melhor”. Ele controla a alimentação: procura balancear as refeições
evitando frituras, por exemplo. Aos finais de semana sai com alguém, com os amigos, vai ao
cinema, barzinhos, “baladinhas”. Diz que, quando sai, é uma vez por semana, e sai para não
ficar em casa, para variar a rotina. Apesar de gostar de ficar em casa, gosta também de, uma
vez por semana, mudar um pouco. Diz que todas as pessoas saem para baladas com a intenção
de conhecer parceiros, mas também para se divertir. Ele se inclui nesse grupo. Afirma que
homens e mulheres estão equilibrados nessa busca. “Hoje a mulherada está chegando, cara,
não é como eram 20 anos atrás”. Afirma que é possível encontrar pessoas “legais”, confiáveis,
em baladas, devido ao número elevado de pessoas que as freqüenta. Por estar num
relacionamento complicado, “num enrosco”, ele atualmente não busca um relacionamento
estável. Quando sai para as baladas e acontece de ficar com alguém, é só pela noite. Pretende
ter filhos e casar. “Dá tempo, ainda!”
Observações adicionais: O entrevistado ostenta uma musculatura forte e o corpo
inteiramente depilado – fato que não é exigência dos esportes que pratica. Assim como o
Entrevistado 9, encontramos aqui, possivelmente, uma contradição quanto ao balanço entre a
preocupação estética e com a saúde ao cuidar do corpo. Foi o único dos entrevistados que,
sem pestanejar, respondeu que não se sente atraído por gordinhas. Pareceu, após afirmar,
claudicante devido a uma certa vergonha, mas disse que é sua opinião e não abdica dela.
209
ANEXO 4 – SÍNTESE DAS ENTREVISTAS REALIZADAS COM O PÚBLICO
FEMININO
ENTREVISTADA 1
Perfil: 21 anos, universitária, solteira.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Veio de fora de São Paulo para estudar. Vive
sozinha com o irmão, longe da universidade (depende de transporte público). Frequenta
diariamente academia e pratica musculação. Nos finais de semana gosta de frequentar
baladas, com o objetivo de dançar, se divertir. Por vezes, a intenção é ficar com algum
"gatinho". A seriedade do relacionamento depende da cidade da balada: em cidades grandes
onde está de passagem, os relacionamentos são mais fugazes. Em cidades pequenas, com
poucas pessoas, não é fugaz, porque pega mal. Em São Paulo, como é onde ela vive, ela busca
relacionamentos mais estáveis. Ela busca, nos homens, um tipo físico forte e alto, moreno,
bem-sucedido e mais velho, educado e despretencioso, que divida as mesmas aspirações que
ela. Não gosta de homens magros ou gordos: por frequentar academia diariamente, aprecia
homens que cuidem do corpo. Ela se alimenta de maneira estritamente regrada, evitando
frituras, por exemplo. Quando está na balada, não abdica do consumo de álcool. O cuidado
com o corpo leva em conta a saúde, mas muito dele é pela questão estética. Ela acha
"péssimo" mulheres e homens "magricelas" e "branquelas", pois gosta de apreciar um corpo
trabalhado em academia e moreno de sol. Costuma vestir roupas simples e confortáveis, sem
se prender a estilos pré-estabelecidos, sem vergonha de exibir o corpo no calor, usando
biquini na praia, por exemplo. Veste-se de acordo com aquilo que cai bem no corpo, e se
preocupa para não ser vulgar. É frequentadora de praia, pois viveu toda a vida em uma cidade
de praia. Diz que aquele que não gosta de praia, é porque não gosta do próprio corpo, mas diz
não se importar com isso quando está numa fase "ruim" (quando está com barriga ou as
pernas finas). Detestaria ter estrias, seios caídos, espinhas, acúmulos de gordura, pernas finas,
e "várias coisas", pois é "noiada" com seu corpo. Quer, com 25 anos, achar o homem com
quem vai casar. Com, no máximo, 27 ou 28 anos quer estar casada, para ter filhos com 30.
Após essa idade, "passou do ponto", o corpo é prejudicado. Se, com 25 anos, não tiver
encontrado alguém legal, ficará "desesperada". Em princípio, pretende amenizar a carga
dedicada ao trabalho quando tiver filhos, a não ser que haja uma necessidade grande de
210
trabalhar muito. Apesar de ter esse desejo, muitas vezes frequenta baladas e fica com pessoas
com as quais não pretende, destarte, algum relacionamento futuro. A vantagem do
relacionamento fugaz é a diversão sem compromissos, aproveitando o momento sem
responsabilidade, sem se preocupar se o parceiro seria ou não um bom namorado ou marido.
A vantagem do relacionamento duradouro é a divisão de responsabilidades e interesses.
Observações adicionais: A entrevistada pareceu despreocupada e direta em suas respostas,
sem pestanejar, o que nos pareceu indicar que seus relatos não ocultavam fatos. É
extremamente preocupada com a questão do cuidado com o corpo, e ostenta um corpo talhado
por exercícios físicos, fato que se reflete em seus discursos. A razão pela qual cuida do corpo
encontra bases fundamentalmente estéticas: ela quer ser bela e quer parceiros belos. Diz
pretender um relacionamento afetivo duradouro e estável, mas pratica relacionamentos
fugazes pelo prazer do momento, o que aparenta uma contradição moral.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 2
Perfil: 18 anos, universitária, solteira (nunca namorou).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Mora com a família. Busca, em tudo o que
faz, incrementar-se intelectualmente, por acreditar que é algo necessário na época da vida em
que está. Participa do time de vôlei da faculdade, mas não considera isso importante e central
em sua vida. Além disso, aprecia sair com os amigos para programas tranqüilos. Sua vida
gravita ao redor da faculdade, pois sua dedicação é quase exclusiva às atividades
universitárias. Ainda assim, encontra tempo para se divertir com os amigos. Sua diversão,
com os amigos, é ir para bares e botecos. Baladas somente as promovidas pela faculdade. Em
geral, prefere lugares mais tranqüilos. Em baladas há desconhecidos e o preço é alto, por isso
não as prefere, apesar de não recusar. Costuma, também, visitar amigas e passar a noite
cozinhando ou bebendo com elas. Aponta que, após entrar na faculdade, passou a ingerir
muito mais álcool do que antes. Em menor grau, gosta de cinema. Nunca namorou, e diz que
quando era mais nova costumava ir às "baladinhas" e festas para ficar com pessoas
desconhecidas, mas que hoje isso mudou. Hoje é mais exigente, prefere conhecer a pessoa
211
"um pouco" antes de ficar, ou seja, prefere conversar um pouco antes de beijar a pessoa. No
entanto, quando começa a perceber que o relacionamento está se tornando sério, ela "foge".
Diz que foge porque é uma reação natural, mas que "não deveria" fazê-lo. Pensa em namorar,
casar e ter filhos, mas ao olhar a irmã mais velha de 25 anos vê que não se imagina casando
antes dos 30, pois mulheres de 30 anos estão desesperadas, e ela quer segurança. Acredita que
será mais feliz se for casada após os 30, e vê as pessoas solteiras com mais de 30 anos
infelizes, solitárias e carentes (angústia que ela aponta ser muito mais feminina do que
masculina). Acredita que é natural para o ser humano a necessidade de estar com alguém e ter
filhos, e que, por mais que as pessoas se divirtam e aproveitem o momento, cedo ou tarde vão
se sentir sozinhas e isso é ruim. Por outro lado, diz admirar a vida de Elis Regina, e gostaria
talvez de se casar mais de uma vez, por acreditar que todo relacionamento possui defeitos e
pode se desgastar. O que não pode faltar é a sensação de companhia, é não se estar solitário.
Diz que sempre ficou com todos os meninos que desejou, e acredita que isso é um ponto
positivo e que lhe traz uma certa tranqüilidade. Sente-se atraída por motivos diferentes, mas
principalmente por homens que tenham experiência em conversar e em como tratar uma
mulher. Por isso, acaba ficando com os homens mais "galinha", e não vê a possibilidade de
um relacionamento futuro por não confiar neles. Aponta que, muitas vezes, o álcool faz com
que ela fique com pessoas que, sóbria, não ficaria, mas pelas quais, se pensar a fundo, ela tem
alguma atração. Admira, nos homens, costas largas e fortes, sem exagero, e sorriso bonito
(sem aparelho). Não ficaria com homens magros demais ou gordos: o limite é "mais
gordinho". Também não gosta dos musculosos demais. Pratica vôlei, gosta de musculação,
mas a faculdade limitou seu tempo. A razão pela qual pratica exercícios físicos é,
principalmente, estética. Acha feio mulheres que não têm glúteos protuberantes, pois é algo
difícil de superar, mesmo com exercícios. Não gosta de barriga com acúmulo de gorduras,
mas acha que é algo contornável com exercícios. Para se vestir, busca roupas confortáveis e
não segue estilos pré-determinados, mas admite preferir vestidos e, algumas vezes, acha
roupas bonitas porque todos estão usando, e se adequa à vida urbana, admitindo que se
morasse em outra cidade poderia se vestir de outra maneira. Quando está saindo com algum
menino diz que "inconscientemente" se veste de acordo com o que ele goste. Diz que os
cuidados com a estética (depilação, manicure) aumentam muito quando se está num
relacionamento, pois é uma exigência dos homens de que as mulheres estejam assim
naturalmente, a priori.
212
Observações adicionais: A entrevistada, muitas vezes, relutou ao responder, mostrando um
conflito entre o que efetivamente deseja e o que acredita que deveria desejar. Apesar de não
gostar da responsabilidade de relacionamentos estáveis, diz desejá-los por acreditar que, no
futuro, não quer estar sozinha. Apesar de dizer que ficaria com "gordinhos", claramente
gagueja ao afirmar o limite entre aquilo que rejeita e que aceita esteticamente. Apesar de
aparentar um descaso em relação ao cuidado com o corpo (exercícios físicos e cuidados
estéticos em geral), mostra que se preocupa com isso, principalmente quando pretende
agradar um parceiro do sexo oposto.
ENTREVISTADA 3
Perfil: 18 anos, universitária, solteira (namorou duas vezes anteriormente: por 1 ano e meio, e
2 anos).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Ela apenas estuda, e vive restrita ao círculo
social que a universidade proporciona (acredita que isso é algo ruim). Para se divertir gosta de
sair: baladas, festas, bares, reuniões com amigos e cinema. Prefere se divertir em grupo,
saindo com os amigos para ver pessoas. Ao sair com as amigas, gosta de conversar, bagunçar,
“falar de homem”. Quando namorava diz que era diferente: não gostava tanto de sair. Prefere
relacionamentos estáveis, não gosta de pessoas que saem para baladas para ficar com
desconhecidos. Diz ter nojo de pessoas que fazem isso, pois gosta de conhecer as pessoas
antes de se relacionar com elas. Esse “conhecer” não significa ser amigo antes de ficar, e sim
conversar um pouco para conhecer a pessoa. Na balada prefere conhecer a pessoa, trocar
telefone ou e-mail e depois talvez buscar um relacionamento. Quando namorava não
freqüentava tantas baladas porque o namorado era ciumento. Aqui, indagamos sobre como ela
vê a maioria das mulheres: ela diz que, em geral, a maioria das meninas vai para a balada para
“pegação”, assim como os homens, havendo poucas exceções em ambos os lados. Acredita
que todos (homens e mulheres) preferem se sentir seguros e ter alguém estável a ficar com
diversas pessoas – isso, para ela, é mais uma fuga, porque não se tem a segurança de um
relacionamento estável, do que uma opção de vida. No entanto, afirma que é mais da natureza
feminina buscar um romance, enquanto o homem, apesar de também gostar do
relacionamento estável, tem uma tendência maior a querer relacionamentos fugazes. Quando
inquirida sobre se pensa casar no futuro, no entanto, diz que não pensa nisso e que não é o
momento para isso. Não diz que se obrigará a ficar com alguém porque não quer estar
213
solteira, mas que tem que acontecer naturalmente. Diz que prefere viver o momento e deixar
que as coisas aconteçam, mas reitera que, por princípio, prefere um relacionamento estável
(não como uma necessidade). Não pratica esportes com freqüência, apenas vôlei e tênis
esporadicamente. Diz não controlar a alimentação, apenas evitando algumas coisas tais como
frituras e doces. Entra em dietas esporadicamente quando olha no espelho e percebe que o
corpo não agrada (quando identifica gordura na barriga), mas acha que deveria cuidar mais
desse aspecto. A pior coisa em relação ao próprio corpo seria ser gorda, não só pela questão
da aparência, mas também pela questão de saúde. A atração física é, sempre, a primeira
atração – ela diz que isso é algo natural do ser humano. No entanto, é possível conhecer uma
pessoa esteticamente bela que não vale a pena, ou então uma esteticamente não tão bela, mas
que seja interessante de se conviver. Prefere homens altos e bem vestidos. Não gosta de
homens gordos, mas diz que nada a impediria de ficar com alguém “fofinho” que fosse
agradável de se conviver. Quando inquirida novamente sobre a questão, admite que a
aparência é fundamental e pode limitar o interesse afetivo que sente por homens. Diz que não
cuida do próprio corpo com o intuito de atrair homens, e sim para si mesma. Freqüenta
manicure, depila o corpo e utiliza maquiagem todos os dias, mas tudo para si própria, porque
diz gostar e se sentir melhor assim, e não porque os outros acham mais bonito. Acha que “é
muito mais legal uma pessoa que se cuida, que se importa com você mesma do que aquelas
que não estão nem aí”. Pois “sempre tem que se tentar buscar o melhor, tanto fisicamente
quanto psicologicamente”. “É muito mais legal você ver uma mulher que se preocupa com a
beleza dela, porque é uma coisa feminina querer se cuidar e ficar mais bonita. Eu acho muito
mais legal você ver uma pessoa que está se cuidado, que vez a unha, que cortou o cabelo, do
que aquelas pessoas que não estão nem aí, que estão acomodadas com a situação”.
Observações adicionais: a entrevistada pareceu ser honesta quando inquirida sobre seu
objetivo ao ir para baladas. No entanto, essa honestidade talvez não reflita uma percepção fiel
dos reais motivos por trás de suas ações. Em primeiro lugar, há uma contradição interna no
próprio discurso: solteira, ela sai todos os finais de semana com as amigas para baladas (onde,
segundo ela mesma, a maioria das mulheres deseja “pegação”). Quando era compromissada,
não saía. A preferência por um relacionamento mais duradouro, que se mostra verdadeira no
relato dos dois relacionamentos anteriores (3 anos totais aos 18 anos de idade), aparenta ser
genuína, mas ao se situar (tal como outras entrevistadas) como exceção da maioria das
mulheres, que vai para baladas com o intuito de ficar com várias pessoas desconhecidas,
214
percebemos uma intenção de aparentar um comportamento socialmente aceitável. Ou seja,
nos parece que, apesar de preferir relacionamentos mais duradouros, ela solteira participa do
que diz que a maioria das mulheres faz: a “pegação” em baladas. Ao dizer que não se
preocupa com o que os outros pensam de sua aparência, ao mesmo tempo em que relata um
extensivo cuidado com a aparência (cujo motivo, segundo ela, é uma satisfação própria com
fim nela mesma), ela parece ocultar – intencionalmente ou não – uma grande preocupação
com a maneira como é vista pela sociedade. O que não deseja é aparentar essa preocupação.
215
ENTREVISTADA 4
Perfil: 18 anos, universitária, solteira (namorou quatro vezes anteriormente: 3 meses, 3
meses, 1 ano e 5 meses).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Mora sozinha em São Paulo, vinda do
interior. Dedica a maioria do seu tempo à universidade, onde também é líder de torcida. Para
se divertir freqüenta as festas da faculdade. Quando está em sua cidade natal, prefere
programas mais tranqüilos, tais como bares ou ir à casa das amigas. Não gosta muito de
baladas – quando vai, vai para dançar. Quando vai a bares, gosta de conversar e se divertir.
Apesar disso, está, no momento, evitando relacionamentos estáveis, pois tem muitas outras
coisas em que focar. Não vê problema em relacionamentos fugazes – no momento, no
entanto, diz que está num momento em que prefere apenas se divertir com os amigos. Aqui
inquirimos sobre como ela vê a maioria das pessoas. Segundo ela, a maioria das mulheres,
hoje, mais do que os homens, saem em busca de relacionamentos fugazes, pela liberdade que
têm agora e que não tinham antes. Apesar de ciumenta, diz que o parceiro pode ter sido, um
dia, um apreciador de relacionamentos fugazes que mudou – mas diz não acreditar que,
conhecendo alguém na balada, é difícil estabelecer laços de confiança. Para ela, o
comportamento feminino que quer “ser homem demais”, ou seja, que vai para as baladas para
ficar com diversas pessoas, tem uma conotação negativa – por isso, ela diz que às vezes se
sente uma “velha arcaica”. Ela crê que as mulheres ultrapassam “limites” quando “abusam”
da liberdade. Apesar de não freqüentar baladas com freqüência, ela às vezes age de maneira
semelhante. Quanto aos homens, ela diz que eles “sempre foram assim, mas não significa que
é legal”. Diz que, no futuro, pretende buscar um relacionamento saudável, talvez casar depois
dos 30 anos. Segundo ela, a “ordem natural das coisas” é encontrar alguém, pois, salvo
exceções, as pessoas não vivem sozinhas. O momento presente, no entanto, é de liberdade.
Não deseja ter filhos antes dos 30, pois deseja crescer profissionalmente, e acha que a maioria
das mulheres pensa assim hoje em dia. Pratica esportes com freqüência, sem se preocupar
excessivamente com isso. Os motivos são evitar engordar, primeiramente. Diz odiar barriga
com gorduras acumuladas, e não gostar de estrias. Não gosta de fixação por academia, mas
admira um corpo que tem “tudo no lugar”, “durinho, direitinho”. Tem também uma
preocupação com a saúde. Ela se preocupa com a alimentação, evitando algumas coisas pouco
saudáveis, como refrigerantes. Diz que pretende viver muito, e por isso cuida do corpo. No
216
geral, acha que todas as pessoas deveriam se cuidar, tanto por razões estéticas quanto de saúde
– acha errado as que não se cuidam. Procura cuidar também de outros aspectos estéticos, tais
como depilação, manicure e afins. Utiliza maquiagem todos os dias, para esconder suas
olheiras e parecer mais saudável. Não segue estilos específicos ou tendências de moda ao se
vestir.
Observações adicionais: A entrevistada aparentou sinceridade em suas respostas, sendo
assertiva nas opiniões que manifestou. Não negou participar da “pegação”, apesar de criticá-la
e dizer preferir relacionamentos estáveis. Apesar de defender suas opiniões com assertividade,
não o fazia de maneira racional: acredita que determinadas coisas são erradas ou ultrapassam
limites, mas sem propriamente justificar tais crenças.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 5
Perfil: 18 anos, universitária, namora há 1 ano e meio (teve outros 2: 3 meses e 1 ano).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Veio do sul do Brasil para São Paulo a fim de
estudar. Mora em um pensionato em São Paulo. Diz que sua vida toda gravitou ao redor dos
estudos, de esportes e de canto. Hoje, diz que sua vida se resume a uma grande dedicação à
faculdade (80% de seu tempo). Dedica o máximo de tempo que consegue aos esportes,
tentando conciliar com o tempo dedicado ao namorado (que mora em sua cidade natal), e diz
não conseguir mais se dedicar ao canto, por falta de tempo. Já praticou natação desde recém-
nascida, devido ao fato de ter vivido por muito tempo em cidade de praia; ginástica rítmica
por 2 anos; tênis por 4 anos; boxe por 2 anos, judô por 1 ano; musculação por muito tempo;
corrida; handebol. Atualmente pratica musculação de 4 a 5 vezes por semana por 1 hora, e
corre por 1 hora e meia. Diz que a razão disso é o fato de ser hiperativa, e principalmente por
razões de saúde e estéticas. Exercita-se para relaxar, para se sentir melhor, para gastar energia
que gastaria, de outra maneira, comendo. Para ela, saúde e estética estão diretamente
relacionados: um corpo belo é um corpo saudável, e sentir-se bonita faz com que ela esteja
feliz. Tem uma alimentação regrada, evitando doces, refrigerantes e frituras, e comendo
muitos legumes, verduras e frutas. Esteticamente, não gostaria de ser exageradamente magra.
217
Acredita que seria melhor para as pessoas que se cuidassem dessa maneira, pois teriam uma
auto-estima maior – o cuidado com o corpo causa uma maior auto-estima e,
conseqüentemente, comportamentos melhores, como por exemplo uma menor devassidão
sexual ou o não-uso de drogas. Gostaria de ter os cabelos lisos, em vez de cacheados. Não
gasta dinheiro com salões de beleza, mas busca, em casa, hidratar o cabelo, fazer as unhas e se
depilar. Usa maquiagem com freqüência, mas sem exageros, “para tirar a cara abatida”.
Quando vai a festas, se produz um pouco mais. Diz que o cuidado com o corpo, quando está
solteira, passa por uma fase de não se preocupar, seguida por uma em que ela se esforça muito
até atingir “o auge”. Quando namora, passa por um período em que se cuida, e depois que o
relacionamento fica estável deixa de se esforçar tanto – mas admite que tem certos cuidados
exclusivamente porque o namorado prefere. Afirma que o cuidado com o corpo é uma
preocupação social: ela quer fazer mais amigos, paquerar, conhecer mais pessoas, e isso faz
com que se sinta bem. Não é, para ela, uma questão estritamente física. Ela acredita que, ao
estar bem fisicamente, automaticamente a pessoa se sente melhor, e é por aparentar estar se
sentindo bem que a pessoa atrai mais as outras (para quaisquer fins). Não gosta de baladas e
boates, pois se sente pressionada pela questão “da azaração”. Segundo ela, a maioria das
pessoas vai para baladas a fim de paquerar (o que elas chamam de “azaração”). Para ela,
mesmo aqueles que dizem que vão dizendo que estão “sossegados” se vestem a fim de
seduzir. Ela acredita que isso é uma fase importante, que todos devem passar por essa fase de
“pegação”, e que por isso teria um relacionamento duradouro com uma pessoa que, antes dela,
vivia na “azaração”. O contrário é diferente: enquanto as meninas adoram o cara que é
“pegador”, os homens olham desconfiados para mulheres que têm comportamento
semelhantes, evitando-as em relacionamentos estáveis. Para ela, a maioria das mulheres vive
buscando seduzir, vestindo-se para isso, ficando com quantas pessoas quiserem e com as
quais quiserem quando vão para as baladas. Apesar disso, ela possui amigas que são mais
tranqüilas, e acredita que essa característica é mais predominante nas universitárias de São
Paulo. Ela prefere barezinhos e programas mais tranqüilos. Ela tem o “sonho dourado” de
casar e ter filhos, e muito do que faz é pensando nisso. Apesar disso, pondera, pois olha a
liberdade que possui hoje e acredita que ela é importante. Independente disso, ela acredita que
encontrar o “amor da vida” traz uma beleza, um sentido para a vida que supera as vantagens
da liberdade de solteiro. Diz que 70 a 80% de seus planos estão relacionados a construir uma
família. Reconhece que, se amar uma pessoa, abdica da dedicação profissional para se dedicar
218
à família, pois acredita que isso é mais importante do que o sucesso profissional. Pretende, até
os 30 anos de idade, realizar tudo aquilo que deseja como solteira (viajar, por exemplo), para
então se dedicar exclusivamente à família.
Observações adicionais: A entrevistada aparentou sinceridade em suas respostas. Possui um
ar – e conseqüentemente uma tonalidade em seu discurso – sereno, que condiz com os relatos
que fez. Respondeu as questões com assertividade, e parece ter claros em sua mente os
princípios que regem sua vida. Não nos pareceu evidente, no entanto, os critérios da valoração
que ela dá às finalidades que diz buscar, tais como a beleza de se casar e construir uma
família. O extensivo cuidado com o corpo a fim de aumentar a auto-estima, que potencializa
uma vida social plena, mostra uma forte preocupação com o pertencimento social. Isso pode,
de alguma maneira, explicar o anseio pelo casamento e pela família, seja pela norma social de
que essa é a finalidade da mulher, pelo desejo de não viver carente, ou ambos.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 6
Perfil: 19 anos, universitária, namora há 1 ano e meio (com uma separação que durou oito
meses, no sétimo mês de namoro). Antes namorou outra pessoa, quando tinha 15 anos de
idade.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Mora com a família. Dedica-se quase
integralmente à universidade. Em suas horas vagas, gosta de ir a pagodes, cinema, bares e
jantares. Não gosta de baladas agora que namora – mas admite que as freqüentava muito
quando era solteira. Sua diversão é necessariamente atrelada ao namorado: ela não sai sem o
namorado, assim como ele não sai sem ela. Quando isso acontece, é raro. A razão é o ciúme
do namorado, pois para ela a mulher é muito mais facilmente abordada por homens, enquanto
o homem tem mais dificuldade de ser abordado por mulheres com interesses afetivos e
sexuais. Ela acredita que as pessoas vão para baladas para “pegação”, porque gostam da
música (e a “pegação pode ou não ser conseqüência”) ou vão “encher a cara”. Em festas da
faculdade, em geral, ela acredita que as pessoas vão para “pegação” e para “encher a cara”. A
maioria das pessoas, no entanto, vai para “pegação”. Dentro destes, a distribuição entre
219
homens e mulheres é idêntica. “É que hoje em dia a mulher está tão vagabunda”. A mulher
vagabunda é a que não sabe se portar, que se veste vulgarmente e se insinua para os homens,
bebendo muito e “dá vexame”, não se valorizando. Para ela, o senso comum diz que é bom o
homem que faz o mesmo, o “pegador”. Ela, no entanto, não aprecia esse tipo de
comportamento em um homem – fato que não a impede de confiar em uma pessoa que agia
assim (ela admite que o namorado era “pegador”), apenas dificulta. O homem, no entanto,
para ela, tem muito mais dificuldade para confiar em mulheres “vagabundas”. “A mulher é
mais sentimental do que o homem”. “A tendência é o homem ser mais infiel do que a mulher.
Acho que o homem se controla menos”. Ela admite que já teve vontade de ficar com outra
pessoa, mas controlou a vontade – é natural do ser humano ter atração por outras pessoas, mas
a mulher é mais capaz do que o homem de controlar essa natureza.
Com o namorado anterior, ela não era tão séria: diz que por ser muito nova, ela o traía, ia para
micaretas e beijava várias pessoas. Hoje não consegue se ver assim, acha que isso é
comportamento de criança. Com o namorado atual, que tem 25 anos de idade, ela nutre um
sentimento mais sério, pois ele a ensinou uma “filosofia de namoro, de cumplicidade”. No
período em que se separou dele, inicialmente ela ficou muito deprimida e abdicou da vida
social. Depois ficou com um amigo, pois não conseguia mais ficar sozinha. Disse ter algumas
experiências que foram aventuras, das quais ela não se arrepende, mas, ao olhar para a vida
agora, ela não se vê fazendo isso novamente, pois ela está “dominada pelo relacionamento”, e
não vê a vida sem ele. Ela acha isso ruim, pois na eventualidade desse relacionamento
terminar, ela sofrerá muito por depender tanto do namorado. Ela se reconhece fortemente
dependente afetivamente das pessoas, e isso é uma fraqueza, enquanto o namorado não tem a
mesma dependência. Apesar de se sentir controlada, aos 19 anos, por um parceiro, ela não tem
coragem de se desprender, pois tem medo de perder “uma certeza, uma coisa certa” para ela,
com a qual já se acostumou, e que foi construída com o tempo. Ela aponta como desvantagem
do relacionamento com o namorado um distanciamento dos amigos, entre outros limites da
liberdade – os quais ela afirma que, no início, parecer não incomodar. A opção por um
relacionamento sério, no entanto, é fruto de sua maturidade. Quando nova, com seus 14 ou 15
anos de idade, ela diz que não tinha maturidade, e por isso saía e seguia a conduta das amigas,
de sair e beijar diversas pessoas desconhecidas. Para o futuro, tem planos de casar e construir
uma família. O crescimento profissional, que sempre foi prioridade em sua vida, pode dar
lugar à esse objetivo de casar. O surgimento do namorado atual talvez antecipe esses planos,
220
prejudicando a questão profissional. Para ela, no entanto, o sentimento de amor pelo
namorado é mais importante. Aos 27 anos ela se vê casada, no máximo aos 30. Acima dos 30
ela não quer mais estar solteira, jamais depois dos 35. O balanço entre profissão e família tem
um peso maior sobre a questão da família, no caso da mulher, pois a figura da mãe é mais
familiar e cuidadosa. Ela diz detestar academia e exercícios físicos – a única vez em que se
dedicou a isso foi antes da viagem de formatura do ensino médio, para “ficar linda” para a
viagem. Diz que seria bom se conseguisse superar essa dificuldade, mas não consegue, pois
realmente odeia exercícios físicos. Quanto à alimentação, tem consciência dos limites que
deveria seguir, mas acaba comendo de tudo e, em seguida, se arrepende. Ela admite, mais de
uma vez, que é incapaz de frear os desejos, e que só limitará realmente sua conduta esportiva
e nutrição quando estiver efetivamente insatisfeita com o próprio corpo. Ela acha “ridículo,
abominável e feio” gorduras protuberantes nas laterais do abdome e estrias. Também não
gosta de gorduras na parte anterior do braço. Aprecia seios fartos, e colocaria implantes de
silicone mesmo sabendo que tem seios grandes. Ela acredita que deveria em uma academia e
controlar a alimentação, pois acredita que está gorda e que melhoraria seu corpo. Mas não está
incomodada e não sente motivação para iniciar esse esforço. Pinta o cabelo, faz as unhas toda
a semana, limpeza de pele todos os meses, passa cremes hidratantes no corpo, delineia as
sobrancelhas e depilação. Usa maquiagem todos os dias pois não consegue se ver com a cara
com que acorda, pois diz não gostar dela. Não gosta das sardas, das olheiras e bolsas sob os
olhos. Não consegue gostar de si mesma sem a produção que realiza diariamente. Ela realiza
um “ritual” diário de maquiagem, para ir à padaria ou à faculdade, tanto faz. Somente em
festas mais sérias ela se produz mais. Esse comportamento, em geral, não mudou agora que
namora – ela faz isso desde que tem 14 anos de idade. Somente algumas coisas ela faz porque
o namorado pede, tais como usar menos maquiagem quando está com ele. Ao escolher as
roupas que veste, ela leva em conta a marca das roupas, porque acredita que,
involuntariamente, procura as marcas que gosta, que são as que mais a agradam. Antes de
namorar usava muito roupas decotadas, por elas valorizarem seus seios – com o namoro,
deixou de usar. A prioridade ao se vestir é a roupa torná-la mais bela e, também, estar na
moda (importância secundária). A questão do conforto não é prioritária sobre a questão
estética: a roupa deve deixar o corpo mais belo. Para ela, “o conforto é secundário, é mais
importante estar bonita do que estar confortável. O sapato de salto-alto, se ficou bem eu uso.
Para mim, eu coloco beleza na frente do conforto. Me sinto melhor estando bonita do que
221
confortável”. Isso é destinado “para os outros, por uma coisa de ego, para ficar mais bonita”.
Essa preocupação é menos com o namorado e mais com as outras pessoas, pois o nível de
intimidade que tem com ele não torna primordial que esteja bela para ele. Quando solteira, a
carência torna mais primordial que outras pessoas acham-na bonita.
“Você quer ser vista, sabe. Porque quando você namora, você sabe que você é
vista todos os dias por aquela pessoa. Sabe que ele está reparando em você.
Agora, quando você não namora, parece que você fica com uma carência,
sabe, então você quer que as outras pessoal olhem e reparem. Você quer ver o
outro ali olhando para você. É hipócrita quem diz que não. É hipócrita quem
diz que se veste só pra você. É mentira, isso. Você se veste para os outros, se
comporta para os outros te avaliarem”. (42:00 – 44:00)
Ela se admite vaidosa, e admite querer ser reconhecida não só pela aparência física,
mas pelo trabalho, estudos e tudo mais – ela deseja que as pessoas estejam comentando
positivamente sobre ela. Reconhece o aspecto negativo, que pode aparentar egocentrismo,
mas não vê a coisa dessa maneira: ela simplesmente quer reconhecimento e pertencimento.
“Para mim, a melhor coisa é quando vem alguém, não forçado, naturalmente, me dar parabéns
ou elogiar”.
Observações adicionais: Esta foi a entrevista mais longa e frutífera realizada com mulheres.
A entrevistada não mostrou quaisquer restrições em seus relatos, aparentando honestidade nas
respostas. Cabe uma observação: após desligar o gravador, a entrevistada relatou estar se
sentindo infeliz, limitada e pressionada pelo relacionamento com o namorado, mas não ter
coragem de terminar. A tranqüilidade com que abordou todas as questões, somada à
capacidade que teve de identificar as razões e limitações da própria conduta, mostrou uma
grande lucidez por parte da entrevistada a respeito de como constitui sua própria vida. De
maneira geral, apesar de aparentar uma orientação cega a partir de normas, este foi, ao
contrário, o caso em que mais identificamos uma reflexão consciente sobre si nas ações
declaradas a respeito dos temas abordados. O único aspecto em que ficou clara uma percepção
enviesada e pouco refletida foi a valorização do namoro: nos pareceu que, apesar de valorizar
a idéia de um namoro sério, duradouro e estável, a entrevistada utiliza diversos artifícios para
222
tornar ideal seu namoro, enquanto, de fato, ele é desgastante e traz mais limitações e
infelicidades do que alegrias, propriamente.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 7
Perfil: 19 anos, universitária, solteira (nunca namorou, o relacionamento mais logo teve, no
máximo, um mês de duração).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Mora com os pais. Sua vida gravita em torno
da universidade e de seu trabalho. Em seu tempo livre, busca ir à academia, baladas, bares e
festas da faculdade. É sócia de um clube que freqüenta periodicamente. Seu intuito, ao sair
para se divertir, é justamente se divertir: sem usar drogas, sem beber em excesso, sem
“pegação”. Ela gosta de dançar e de conversar com os amigos. Para ela, a maioria das pessoas
vai para baladas para beber, usar drogas (caso não tenha feito isso antes da balada em si), para
esquecer os problemas, se divertir, se distanciar da realidade. A maioria das pessoas, na
balada, busca a “pegação”, um relacionamento estritamente físico, sem envolvimento
emocional. Ela não partilha dessa perspectiva – ela vai para a balada para se divertir e dançar.
O balanço da “pegação” está cada vez mais equilibrado entre homens e mulheres. Enquanto
os homens ainda tendem mais à “pegação”, as mulheres estão cada vez mais tendendo à
mesma “pegação”. A razão, para ela, é um desejo por equivalência, por serem semelhantes
aos homens, desejo que ela acha péssimo. Para ela, isso faz com que se perca a essência do
que ela “acha certo”, que é o homem se esforçar e conquistar a mulher, a partir de sinais, mas
ele se esforçando. O certo é o homem vir, com o tempo, e não de uma hora pra outra. Hoje o
beijo não significa nada para as pessoas em geral. Para ela, no entanto, significa muita coisa.
Desse galanteio é que surgem “relacionamentos legais”, duradouros, respeitosos, em que
ambas as partes se valorizam não só pelo físico, mas “pela essência”. Para ela, um homem
“pegador” é algo negativo, ela sentirá desconfiança e terá dificuldades em respeitá-lo. Para a
maioria das mulheres, ela acredita que o homem “pegador” é o mais desejado em uma
situação de balada, de relacionamento fugaz, mas para um relacionamento sério elas preferem
os homens mais contidos. Ela acredita que, para os homens, “quanto mais melhor”, então eles
valorizam mulheres que gostam da “pegação”. Ela acha que, infelizmente, a aparência física é
223
o primeiro filtro para escolher um parceiro, mas que é necessário um balanço entre o físico e o
psicológico. Fisicamente, ela admira homens altos que praticam esportes. Psicologicamente,
ela não valoriza homens que se drogam, que bebem em excesso, que não valorizam a família.
Por isso nunca namorou, por ser exigente. Pensa em casar, mas acha difícil encontrar uma
pessoa que satisfaça suas exigências. Mas é algo que ela gostaria muito que acontecesse, pois
“deve ser muito bom, deve ser muito gostoso você achar alguém que combina
com você, que tem os mesmos pensamentos, prega as mesmas coisas, os
mesmos valores e, ao mesmo tempo, você não está com ela como amigo, está
como homem e mulher, tem uma atração, tem, sabe, uma vida legal junto,
quer fazer as coisas junto, quer estar compartilhando as coisas com a pessoa,
como namorado, como casamento, que seja, entendeu? E não... E sair um
pouco desse superficial, de namoros muito artificiais, ou ‘ficadas’, uma coisa
em que você vai compartilhar sentimentos, emoções mais profundas”. (35:00
– 36:00)
Apesar da possibilidade sempre presente de se estar sozinho, ela acredita que é da natureza
humana querer compartilhar a vida com outro, de sair da solidão e estar com alguém com
quem possa dividir as coisas, de não viver apenas no superficial – e isso só é possível em
relacionamentos mais longos, sérios, estáveis. Reconhece que, quando mais nova, se
preocupava muito em encontrar essa pessoa. Hoje diz que vale mais a pena viver para si
próprio e, caso surja alguém, caso “o destino” traga alguém, melhor ainda. Admite que, às
vezes, sai procurando um parceiro ideal, geralmente quando está sofrendo de TPM ou se
sentindo carente.
“Isso é porque eu não tenho ninguém. Não tenho namorado, não tenho, no
momento não estou ficando com ninguém, estou sozinha, estou muito bem
assim. Mas acho que essa carência, principalmente para mim, é porque eu
ainda não encontrei ninguém. Então, ao mesmo tempo em que eu não sei o
que é viver com intensidade um namoro, uma paixão, eu sei que isso existe.
Essa carência que vem é uma vontade de ter isso, que eu ainda não tive.”
(39:50 – 40:30)
224
Pratica tênis desde os 7 anos de idade, musculação e ginástica aeróbica, natação e alguns
esportes esporádicos como futebol, vôlei, caminhada, bicicleta, que geralmente ocorrem no
clube que freqüenta. O esporte, para ela, é algo fundamental para a saúde, para a estética e
para a mente. O caminho do esporte faz com que ela evite caminhos como as drogas e o
excesso de álcool. Fala muito de saúde ao se exercitar, principalmente a saúde mental: “fico
muito mais tranqüila, jogo tudo para fora, todas as aflições, e o físico também melhora, não
tem como não melhorar, porque quando você está fazendo uma atividade física o físico vem
como conseqüência”. Quando inquirida sobre outras maneiras de melhorar a saúde mental,
tais como estudos ou trabalho, ela diz que o esporte é diferente de todas as outras atividades,
pois “raras vezes você está lá por obrigação”. Diz que não gosta de “gordurinhas localizadas,
barriga”, e que o esporte evita isso. Afirma que seria melhor que todas as pessoas se
exercitassem, ou ao menos possuir um
“foco que não seja a bebida, o cigarro, drogas, pode ser teatro, podem ser
outras coisas que não prejudiquem o corpo e a saúde mental”. “E o esporte é
inevitável falar, o esporte é uma saída legal para isso. Então, se as pessoas
fossem mais, assim, que nem eu, talvez deixariam de fazer coisas que
prejudicam elas mesmas”. (18:00 – 19:00)
Não tem o hábito de freqüentar salões de beleza, apenas esporadicamente para cuidar do
cabelo. Apenas faz as unhas e se depila, sozinha em casa. Usa raramente maquiagem, apenas
para sair à noite, para ir a barezinhos, baladas ou ocasiões especiais. No dia-a-dia passa
hidratante no rosto e, às vezes, blush, para “não ficar tão branca”. A razão disso é:
“Acho muito superficial. Além de perder um tempão de sua manhã fazendo –
porque muita menina perde meia hora, quarenta minutos, fazendo maquiagem
–, eu acho muito superficial. Eu... Sei lá, eu acho que a pessoa tem que se
gostar do jeito que é. Tá, a maquiagem ela é legal, ela ressalta a beleza da
mulher, é bacana. Só que sem exagero, entendeu? Não adianta a menina tentar
se maquiar para esconder coisas no rosto, tentar modificar traços, não é legal,
entendeu? Agora, coisas básicas, assim, eu não tenho nada contra, no dia-a-
dia. Só que eu acho muito fútil, muito, quando a menina se dedica muito a isso
ela tem algum problema de personalidade, falta alguma coisa, não é normal”.
(20:30 – 21:30)
225
Ao olhar as mulheres que usam maquiagem todos os dias, ela acredita que os motivos pelos
quais elas o fazem é:
“Auto-estima, às vezes, auto-confiança. Às vezes a menina não se acha tão
bonita, e às vezes com maquiagem acha que dá uma melhorada. Ou até mesmo
a menina é muito bonita e usa maquiagem porque gosta, não tem nada a ver,
também, para ela é normal. Não sei, os motivos, assim, cada uma tem o seu
motivo. Eu não uso porque, para mim, não faz muita diferença, não é normal
usar muita maquiagem”. (21:30 – 22:00)
Raramente sai para fazer compras em shoppings, e não segue estilos específicos. Não tem
lojas ou marcas de preferência, busca roupas que, ao mesmo tempo, sejam confortáveis e
caiam bem em seu corpo. Como nunca teve relacionamentos longos, diz que todo o cuidado
que tem consigo mesmo é porque gosta de se sentir bem consigo mesma, mas admite que há
uma preocupação secundária:
“Eu faço isso mais para mim, mesmo, porque gosto de estar bem comigo
mesma e, depois, conseqüentemente, para as outras pessoas. Amigos,
familiares, enfim, ninguém gosta de ser chamado de feio ou de alguém olhar e
falar ‘nossa, como ela está mal vestida’. Mas primeiramente é para mim. Se eu
gosto desta blusa eu vou colocar porque gosto. Se eu quero usar maquiagem
hoje, vou colocar porque eu quero. Para quem namora, não sei, talvez seja
diferente, óbvio que vai ter alguma coisa assim ‘ah, quero ficar bonita para
ele’, mas no meu caso não”. (24:20 – 25:00)
Condena pessoas que bebem muito todos os dias, que não tem limites e, toda vez que saem
para balada,“enchem a cara até cair”. Isso não somente pelo lado físico, mas também
psicológico. O problema, apesar de reconhecer exceções e problemas individuais às vezes
sério,
“normalmente é uma coisa que já foi construída na sociedade, de que bebida é
legal, de que deixa num estado bacana, de que sem bebida a festa não é legal,
226
tem que estar ‘altinho’. Isso para mim não é, eu não valorizo isso. Eu consigo
curtir as festas da mesma maneira que eles curtem, provavelmente, sem beber,
sem, sabe, usar nada de drogas, cigarro, até. Isso eu condeno porque eu sei que
é isso possível sem usar isso. É possível ter essas sensações gostosas, legais. E
essas pessoas fazem questão de, mesmo sabendo que faz mal, continuam
fazendo. Isso me deixa louca”. (25:45 – 26:30)
Acredita que o problema é a pessoa se prejudicar, e que a educação influencia muito na
maneira como a pessoa lida com seus problemas. Em vez de recorrer a coisas que prejudicam
o corpo, quando tem problemas e angústias ela foca nos esportes, no relacionamento saudável
com os amigos, cinema, viagens – atividades que, apesar de necessitar de algum dinheiro,
compensa o prejuízo financeiro que cigarro, por exemplo, traria. Ela busca tentar orientar os
amigos, mas se considera minoria, “de dez são dois, três que são que nem eu”. Não se sente
rejeitada, mas percebe que algumas pessoas a admiram e até tentam se guiar como ela, mas a
maioria, apesar de não rejeitá-la, não muda seu comportamento quando ela está perto.
Observações adicionais: A entrevistada é uma jovem bonita (de acordo com os padrões
valorizados pelos discursos de Nova), alta (mais de 1,70m de altura), magra, de pele clara,
olhos azuis e cabelos louros. Ao discursar, demonstra segurança e assertividade. Por possuir
um tipo físico considerado belo segundo os padrões que analisamos em nosso corpus,
podemos explicar essa auto-confiança e assertividade: sua busca por coisas menos superficiais
e mais “profundas” e “essenciais” talvez encontre razão na menor necessidade que possui de
cuidar dos aspectos estéticos – naturalmente belos – que possui. Quando entrevistada, estava
maquiada com rímel e blush – apesar de dizer não costumar se maquiar. Quando defende seu
cuidado com o corpo, utiliza uma reflexão racional aparentemente sólida: a canalização das
ações naquilo que não prejudica o corpo. Quando defende seu ideal de relacionamento
afetivo, no entanto, parece se basear numa finalidade ideal-típica de grande amor que não
encontra bases reflexivas: ela diz saber que existe a felicidade de um amor mesmo nunca
tendo namorado, sem dizer de onde vem esse conhecimento. Ela se define como
“mentalmente saudável”, enquanto considera aqueles que prejudicam o próprio corpo não-
saudáveis. Com isso, faz ver que considera que a ação boa é aquela que beneficia – ou, no
mínimo, não prejudica – o corpo, reflexão que parece derivar da educação familiar. É
227
interessante ver que ela se situa como exceção por esse cuidado com o próprio corpo. Dentre
as entrevistadas jovens, de fato, essa preocupação não aparece como uma conduta freqüente.
Com isso, nota-se que ela se percebe diferente do grupo social que a rodeia: ela se considera
melhor que as demais pessoas. Aqui parecemos encontrar explicação para a aparente
exigência afetiva que ela diz ser difícil de saciar.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 8
Perfil: 19 anos, universitária, solteira (namorou 2 vezes, por 2 anos e 1 ano e nove meses).
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Dedica grande parte de seu tempo à
faculdade. Também pratica natação desde os 7 anos de idade. Nada cerca de 2km diariamente.
Também já praticou diversos outros esportes, como handebol, capoeira, balé. Prefere a
natação por ser um esporte individual. A prática de esportes é comum em sua família: todos
os parentes diretos praticam esportes com freqüência. Diz que a preocupação com esportes e
alimentação não tem bases estéticas: ela o faz porque tem tendência genética a ter diabetes.
Diz gostar de todos os tipos de diversão, tanto as mais tranqüilas (como bares, cinema, teatro)
quanto as agitadas (baladas). Diz preferir programas diferentes, incluindo baladas – não gosta
das festas da faculdade.
“Eu acho que tem baladas diferentes que são muito boas. Que nem essa que eu
fui, a festa da FAAP de cinema, foi uma festa diferente. Foi num clubezinho
na Augusta, que tinha um drag queen na porta, e tocou de tudo, tinha gente
diferente, a galera conversa, é gente que tem uma conversa interessante”.
(8:00 – 8:20)
Ela diz já ter freqüentado baladas de Segunda a Segunda, e percebeu que a maioria das
baladas é muito semelhante, as mesmas pessoas e as mesmas músicas. Seu objetivo, nas
baladas, é dançar e sair com os amigos. Em geral, diz que o comportamento em baladas varia
com a idade. “Acho que depende da idade. Você vai numa baladinha onde tem uma galera de
13, 15 anos saindo, que sai e pega dez em uma noite” (9:10 – 9:20). Na idade dela: “Acho que
228
aí começa a mudar, acho que começa a sair com a galera... Aí a galera começa até a enjoar das
baladas, começa a ir em barzinho” (9:25 – 9:35). Para ela, as mulheres não vêem problemas
em ficar com homens “pegadores”, mas não namorariam com eles. Os homens também: não
gostam de “galinhas” para namorar, mas gostam porque são “fáceis”. Diz não acreditar em
casamento, pois vê muitos casamentos dando errado na sociedade. Apesar do casamento não
lhe agradar, ela planeja ter uma família, talvez morar junto com alguém que goste, mas para
isso quer estar resolvida profissionalmente. Diz que não há idade para isso, mas quando
inquirida novamente afirma que, no máximo, aos 30 ou 35 anos, porque acima disso estaria
prejudicada sua capacidade de engravidar. Gosta de homens extrovertidos, assertivos e
divertidos, de visual “descolado” e que se interessem por tudo, assim como ela. Ela costuma
freqüentar salões de beleza para cuidar das unhas, se depilar (por necessidade da natação) e,
em menor grau, o cabelo. Tem preferência por algumas marcas, mas não é algo necessário.
Diz se vestir priorizando o conforto, sem deixar de notar se acha ou não a roupa bonita. Usa
maquiagem todos os dias: corretivo e blush para ocultar as olheiras e “dar uma corzinha”.
Reluta muito em admitir que seus esforços para cuidar do corpo têm como alvo a beleza
estética, mas acaba admitindo que, hoje em dia, “tudo é corpo”, mas diz que não tem
problemas com isso. Diz estar feliz como está, e que não mudaria nada em seu corpo – apenas
o nariz. Ela se considera uma pessoa diferente, principalmente por sua história de família –
apesar de morar com a família, permanece muito tempo sozinha em casa e tem que se virar
sozinha. De resto se diz igual a todo mundo.
Observações adicionais: Esta entrevista foi muito difícil. A entrevistada respondia as
perguntas com dificuldade, não mantinha um contato visual constante, parecia relutar e pensar
muito antes das respostas, o que nos levou a crer que, muitas delas, foram fabricadas. Em
geral, percebemos uma forte tentativa de parecer ser diferente e querer se destacar da maioria
das pessoas – essa tentativa, no entanto, não encontra qualquer base reflexiva: parece ser um
simples esforço para se agir na direção oposta à norma. Alguns aspectos, como a maquiagem
diária, adicionada ao fato de que a entrevistada possui um corpo que não é magro (mas
também não obeso), indicam que a rejeição ao que ela crê ser o “comum” pode ser uma
maneira que encontrou de se destacar socialmente, pertencendo ao não pertencer.
229
ENTREVISTADA 9
Perfil: 35 anos, microempresária, solteira (já foi casada por 10 anos, separou-se aos 32), mora
sozinha.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Durante a semana se dedica principalmente ao
trabalho. Nos finais de semana costuma sair para barezinhos com música ao vivo, baladas.
Apenas não gosta de funk. O que importa, na hora de sair, é a turma. Diz não gostar de
paquerar em baladas – quando vai, é para dançar e se divertir. Acha difícil paquerar em
baladas, pois os homens tratam as mulheres como objeto, achando que as mulheres estão ali
para ficar com alguém. As razões para isso são complexas, mas as mulheres estão ficando
“mais fáceis”, sem limites, e os homens, a partir de uma generalização, pensam que todas as
mulheres são assim. Apesar da complicação, não nega que paquera em baladas, mas diz que
depende muito da maneira como é abordada. É professora de dança do ventre, e costuma
freqüentar academia de ginástica, pois já foi proprietária de uma e tem grande preocupação
com os cuidados com o corpo. Atualmente, no entanto, está parada por falta de tempo. Isso,
para ela, é ruim, pois “sempre foi viciada”, e quando se exercita “tudo fica melhor”, ela se
sente mais enérgica, além de que ajuda a evitar o “efeito da gravidade”, ou seja, que os seios,
glúteos etc. fiquem caídos. O cuidado com o corpo traz segurança na hora de buscar um
parceiro. Quando inquirida sobre para quem dedica seu cuidado com o corpo, respondeu que
“não confia mais no cupido”, mas que certamente a preocupação com o corpo ajuda no caso
de, eventualmente, aparecer um amor. Ela diz não ter perdido a esperança de encontrar
alguém, um companheiro para toda a vida, apesar de acreditar ser difícil, pois o casamento de
10 anos não deu certo. Após a separação, passou a ser mais vaidosa e se cuidar mais. Sua
maior preocupação estética é com o cabelo, por ser crespo ela faz muitos tratamentos para
alisá-lo. Atrai-se mais pelo caráter do homem mais do que pelo físico. Reconhece que prefere
homens de olhos claros, mas afirma que o ex-marido não era esteticamente aprazível – o que
chamou atenção foi o caráter. Diz não ter muitas amigas de verdade (apenas quatro), que são
as companheiras de balada, e um amigo, que é como irmão. Se diz feliz, mesmo nas
dificuldades, pois “dificuldades todo mundo passa”. Atualmente, em sua vida, diz faltar uma
maior estabilidade financeira e alguém no coração, pois é algo que faz falta e, cedo ou tarde,
cansa estar sozinha. Orgulha-se de sua independência: sempre foi dona de seus próprios
negócios e responsável por suas finanças. Foi sócia do ex-marido e do sobrinho do ex-marido,
230
e se sentia mal porque eles a tratavam com uma funcionária, quando na verdade deveriam ter
responsabilidades equivalentes. Terminou a sociedade por isso. Mas alega que tem o
problema de ser uma “má administradora”, pois sente que não tem competência para
administrar, apesar de não rejeitar qualquer tipo de trabalho mais operacional. A figura do
administrador, para ela, é mais masculina, mais paternal. Por isso ela está buscando um sócio
para a empresa que possui atualmente: uma papelaria dentro de uma universidade.
Observações adicionais: A entrevistada aparenta uma certa frustração ao relatar que é feliz.
Na verdade, fica evidente que gostaria de não estar solteira, e que sente falta de um grande
amor. Também é claro que se frustra pelo fato de que o casamento de 10 anos, que ela
acreditava que seria eterno, terminou. Busca se divertir ao máximo, mas a diversão não parece
ser suficiente para que tenha uma vida plena: seu coração, como ela mesma diz, está vazio.
___________________________________________________________________________
ENTREVISTADA 10
Perfil: 30 anos, dentista, namora (sempre namorou, teve 4 longos namoros {2 anos; 2 anos; 4
anos; 2 anos} desde os 20 anos de idade, quando namorou pela primeira vez), mora com os
pais.
Pontos abordados e discutidos na entrevista: Sua rotina circunscreve o trabalho.
Freqüentava academia de ginástica todos os dias, mas atualmente apenas 3 vezes por semana.
Mesmo nos dias em que está exausta, ela se cobra e vai à academia, pois melhora todos os
aspectos de sua vida. O exercício físico é um momento para ela mesma, em que ela se dedica
exclusivamente para si própria. Apesar de sempre crer que tem algo a ser aperfeiçoado, não se
sente desconfortável com algo em seu corpo. Nos outros momentos da vida ela sempre está
entre amigos, em atividades sociais. Nos finais de semana, para se divertir, gosta de sair de
casa: boates, discotecas, barezinhos. Gosta muito de praia, de caminhar e tomar sol. Desde
que começou a namorar, ficou muito pouco tempo solteira: gosta muito de estar com alguém.
Prefere pessoas mais velhas e mais experientes, maduras, que desejam relacionamentos
estáveis. Conheceu dois dos quatro namorados em discotecas. No relacionamento atual vive
com muita liberdade, ambos saem sozinhos com os amigos sem problemas. Mora com os
231
pais, apesar de poder morar sozinha, pois o relacionamento de amizade com os pais permite
uma grande liberdade. Os cuidados com o corpo são para si mesma, e não costuma dedicar
muito tempo tratando da decoração do corpo. Apenas dedica um maior tempo ao cabelo. Diz
levar uma vida equilibrada, se cuidando durante a semana e relaxando nos finais de semana.
Admite que alguns cuidados com o corpo são destinados ao parceiro afetivo, como uma
preocupação de sempre estar agradando o outro, o que ela acha normal. Diz nunca ter pensado
em casar, mas depois de um tempo começou a considerar possibilidades de dividir mais as
coisas, morando junto, por exemplo. Disse nunca ter tido tal preocupação, disse já ter
abdicado da idéia de engravidar, mas que hoje já pensa em morar junto com alguém e ter
filhos, adotados, talvez, ou mesmo dela mesma. Reconhece que gosta muito de agradar as
pessoas, que quer muito ser amada, algo que pode ser um defeito, mas demonstra respeito
pelas pessoas de que gosta.
Observações adicionais: A entrevista foi breve, e a entrevistada pareceu tranqüila ao
responder as questões. Parece ser uma pessoa carente e emocionalmente dependente, fato que
se mostra no discurso e no relato dos quatro longos namoros nos últimos 10 anos. Tem uma
certa independência – apesar de morar com os pais – advinda da profissão e do estilo de vida,
mas dá sinais de que, na verdade, pretende constituir uma família e permanecer em um
relacionamento estável, num grande amor.
232
ANEXO 5 – CD DE ÁUDIO CONTENDO AS ENTREVISTAS REALIZADAS
Conteúdo em formato MP3, necessita ser aberto em um computador PC ou Macintosh.
Livros Grátis
( http://www.livrosgratis.com.br )
Milhares de Livros para Download:
Baixar livros de Administração
Baixar livros de Agronomia
Baixar livros de Arquitetura
Baixar livros de Artes
Baixar livros de Astronomia
Baixar livros de Biologia Geral
Baixar livros de Ciência da Computação
Baixar livros de Ciência da Informação
Baixar livros de Ciência Política
Baixar livros de Ciências da Saúde
Baixar livros de Comunicação
Baixar livros do Conselho Nacional de Educação - CNE
Baixar livros de Defesa civil
Baixar livros de Direito
Baixar livros de Direitos humanos
Baixar livros de Economia
Baixar livros de Economia Doméstica
Baixar livros de Educação
Baixar livros de Educação - Trânsito
Baixar livros de Educação Física
Baixar livros de Engenharia Aeroespacial
Baixar livros de Farmácia
Baixar livros de Filosofia
Baixar livros de Física
Baixar livros de Geociências
Baixar livros de Geografia
Baixar livros de História
Baixar livros de Línguas
Baixar livros de Literatura
Baixar livros de Literatura de Cordel
Baixar livros de Literatura Infantil
Baixar livros de Matemática
Baixar livros de Medicina
Baixar livros de Medicina Veterinária
Baixar livros de Meio Ambiente
Baixar livros de Meteorologia
Baixar Monografias e TCC
Baixar livros Multidisciplinar
Baixar livros de Música
Baixar livros de Psicologia
Baixar livros de Química
Baixar livros de Saúde Coletiva
Baixar livros de Serviço Social
Baixar livros de Sociologia
Baixar livros de Teologia
Baixar livros de Trabalho
Baixar livros de Turismo