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especificamente humana”
5
. Em outras palavras, “partindo do pressuposto de que a
comunicação é a troca de mensagens, pode-se dizer que o processo comunicacional é uma
práxis objetiva. Trata-se de uma habilidade que se aprende, uma habilidade exclusivamente
humana”
6
.
Retornamos, então, à concepção original de comunicação, e percebemos sua
importância: a comunicação é uma ação intencional, positiva, de quebra de isolamento, de
estabelecimento de relação. Mas mais do que isso, é uma ação que enseja uma relação de
troca. E não da troca de qualquer coisa, mas de significados, de informações/mensagens.
Troca entre homens, ou seja, social. Troca que demanda consciência, e por isso podemos
caracterizar a comunicação como uma relação entre consciências. “Comunicar é simular a
consciência de outrem, tornar comum (participar) um mesmo objeto mental (sensação,
pensamento, desejo, afeto)”
7
.
1.2 – O campo da comunicação
Os fenômenos que, de alguma maneira, estão situados nessa economia de trocas
simbólicas, são denominados fenômenos comunicacionais
8
. Ao reduzir a polissemia do termo
comunicação, restringindo-o aos fenômenos comunicacionais, não somos capazes de esgotar a
multiplicidade que ainda reside nesse significado. Estabelecemos, na parte anterior, o que
entendemos por comunicação. É necessário, agora, ir adiante, buscando compreender como o
campo científico da comunicação é configurado, ou seja, situar a especificidade da
5
FRANÇA, V. O objeto da comunicação / A comunicação como objeto. In: Op.cit., p.43. É necessário ressaltar,
entretanto, que essa visão não é um consenso científico, e sim nossa opção teórica. Sobre a capacidade de
cognição dos animais não-humanos, ver: ALLEN, C.; BEKOFF, M.; BURGHARDT, G. (org.). The Cognitive
Animal: empirical and theoretical perspectives on animal cognition. Massachusetts: MIT Press, 2002.
6
HOHLFELDT, A. As origens antigas: a comunicação e as civilizações. In: Op.cit., p.61.
7
MARTINO, L. Op.cit., p.23.
8
Alguns autores, como Maria Immacolata V. de Lopes, utilizam o termo “fenômenos comunicativos”.
Entendemos fenômeno, aqui, em sua acepção mais comum, apontada por Abbagnano como “a aparência sensível
que se contrapõe à realidade, podendo ser considerado manifestação desta, ou que se contrapõe ao fato, do qual
pode ser considerado idêntico. É este o sentido que essa palavra normalmente assume na linguagem comum
(...).” ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p.510. É necessário
ressaltar, entretanto, que por utilizarmos a perspectiva de Foucault neste trabalho, fortemente enraizada no
materialismo de Nietzsche, não cremos que possa haver uma realidade una e absoluta por trás da historicidade
dos fatos, ou seja, não podemos contrapor realidade e sensação, pois estes são, em certa medida, idênticos.
Discutiremos essa questão no Capítulo 2.