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[...]. Possibilidade de uma gramática universal permanece, pois, problemática, posto
que a língua é feita de significações em estado nascente, que ela está em movimento
e não se fixa, devendo talvez reconhecer, em última análise, “significações fluentes”,
conforme dizia Husserl em suas últimas obras
400
.
Na verdade, o leitmotiv dessa subversão husserliana emergente nos textos mais recentes,
apenas vem indicar o advento de uma experiência antepredicativa à própria lógica; quer dizer,
aos poucos, vai se reconhecendo a necessidade de se reconquistar outra interioridade não mais
desencarnada da experiência, mas que a esta, se compreenda intimamente. Husserl se vê na
tarefa de buscar outra fundação para os juízos, embora essa fundação, por mais que se
gênese da disputa contemporânea entre “análise intencional” e “análise lingüística” como que armada naqueles
referidos parágrafos. Assim, Merleau-Ponty incorre numa falsa e tendenciosa leitura intuicionista da obra
husserliana, ao ignorar a linguagem como elemento constitutivo do próprio ato intencional. Desse modo,
ainda, Merleau-Ponty descreve este “ato” como uma “espécie de olhar espiritual pousado sobre um objeto
dado”, sem conter nele, estrutura proposicional alguma. A “fenomenologia da linguagem”, sob este aspecto, só
permanece atrelada à filosofia do sujeito, devido “à redução da função comunicativa da linguagem que
encaminha a Fenomenologia em direção a um subjetivismo transcendental, pois é ela que permite apresentar o
conteúdo objetivo expresso por uma frase como o correlativo intencional da consciência de um indivíduo”
(ALMEIDA, G. “Sobre a fenomenologia da linguagem”, p. 78; 88). Ora, Merleau-Ponty jamais fizera “vistas
grossas” a essa relação recíproca entre intencionalidade e linguagem na obra de Husserl: “Ao contrário, à luz
das concepções de Husserl e Scheler, já não podemos considerar a aquisição da linguagem como a operação
intelectual de reconstituição de um sentido, já não estamos diante de duas entidades (expressão e sentido) das
quais a segunda estaria oculta atrás da primeira. A linguagem como fenômeno de expressão é constitutiva da
consciência” (MERLEAU-PONTY, M. Merleau-Ponty à la Sorbonne, p. 46). A questão central, contudo, que
interessa Merleau-Ponty é de outra ordem. Em primeiro lugar, o filósofo não negligencia o que se anuncia nas
últimas reflexões husserlianas: o aprofundamento de uma experiência ontológica da linguagem e seu valor
intersubjetivo. O que nesse contexto, Almeida esquiva de explorar, é precisamente o acento merleau-pontyano
dessa mudança significativa na concepção husserliana da linguagem, concepção esta, em que pese tratamentos
distintos, não se encontra extemporaneamente aquém da filosofia analítica. Desse modo, se por um lado, a
crítica merleau-pontyana às “Investigações lógicas” poderia ser igualmente estendida a todo o positivismo
lógico, por outro, a virada husserliana não mede distância com a reviravolta lingüística da filosofia analítica. O
fato é que, como bem lembra Bento Prado, “a filosofia da linguagem termina por tropeçar em problemas
fenomenológicos e a fenomenologia termina por enfrentar dificuldades semânticas” (JÚNIOR, B. P.
“Entrevista”, in Conversas com filósofos brasileiros, p. 221). Nessa direção, a nosso ver, Merleau-Ponty
jamais cava um abismo intransponível entre “fenomenologia” e “análise da linguagem”. É profundamente esta
leitura que se constata, a propósito da impressão merleau-pontyana na célebre conferência pronunciada por
Ryle: “Eu também tive a impressão, escutando o senhor Ryle, de que o que dizia não nos era tão estranho e se
existem distâncias, antes era ele que as estabelecia do que eu as constatava, ao escutá-lo [...]. Fiquei
constantemente impressionado, ao ouvir o senhor Ryle, quanto ao fato de que ele mesmo ampliara o
desenvolvimento de suas próprias reflexões [...]. O que é visível, não apenas nele, mas também, por exemplo,
nas pesquisas de Wittgenstein. Mui felizmente, o senhor Ryle tem sublinhado, o que há de insuficiente numa
análise conceptual da linguagem. Ele tem empregado aquela excelente expressão de que há, ‘finalmente, na
linguagem, a força viva do que de fato dizemos’. Ele tem sublinhado, com Wittgenstein e os demais autores,
de que não é possível conferir uma tradução conceptual de todas as palavras da linguagem [...]. E, justamente
com Wittgenstein, ele tem indicado a possibilidade de uma espécie de elucidação dos termos que não é uma
descrição de objetos” (MERLEAU-PONTY, M. “Discussion”. In: RYLE, G. “La phénoménologie contre The
concept of mind”, p. 93; 94).
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Como Husserl viera mais tarde confessar: “A filosofia como ciência, como ciência séria, rigorosa, e mesmo
apoditicamente rigorosa: esse sonho acabou” (HUSSERL, E. La crise §73 (Apêndice xxviii), p. 563).
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MERLEAU-PONTY, M. Merleau-Ponty à la Sorbonne, p. 75.