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ou nomeação de uma figura, ocorrerá a substituição da “palavra-alvo” por
uma outra mais freqüentemente utilizada e, por isso, dizem, mais fácil de
evocar. A hipótese dos autores prevê que “palavras vazias” (coisa, negócio,
isso, ele, etc.) são “preferidas” pelos doentes (lembremos a correlação
freqüência de ocorrência Î maior facilidade de uso Î perda de sentido).
Outros autores, como Almor et al. (1999), discordam da hipótese da
perda semântica porque ela não pode ser comprovada do ponto de vista
empírico, ou seja, não se encontrou correlação positiva entre “falhas de
evocação” e “fala vazia”
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. Teoricamente, diz Almor, o problema está em
que a explicação para a ocorrência de déficits de nomeação, quando
aplicada à fala vazia, não leva em conta diferenças cruciais como as que
existem entre nomear figuras e sustentar uma conversação
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: produzir
e/ou compreender a fala implica sustentar e manejar um grande volume de
informações, por essa razão é que, dizem, diz-se, esses processos são
dependentes da memória de trabalho. Resumidamente, o que Almor
assinala é que a tarefa de nomear figurar recorre mais à memória de longo
prazo e uma conversa espontânea à memória de trabalho – uma distinção
fundamental, segundo o autor, que é ignorada por pesquisadores que
defendem a hipótese de perda semântica.
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A fala vazia é avaliada através de medidas que levam em conta categorias que contribuem para uma fala
“não-informativa”. Entre elas, por exemplo, temos 1) os termos indefinidos: nomes altamente inespecíficos
(e.g. “coisa”, “negócio”, “tralha”); 2) termos dêiticos; 34) pronomes sem antecedentes; 5) neologismos.
Assume-se que quanto maior for o número dessas categorias na fala do sujeito (numa prova de descrever uma
figura, por exemplo) menos informativa, ou mais vazia, será essa fala.
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Isso porque, diz Almor,ao nomear figuras o sujeito, geralmente, necessita realizar apenas a ativação da
informação fonológica na memória semântica de longo prazo; 2) durante a conversação, diferentemente,
outras demandas cognitivas são criadas: o sujeito raramente conta com pistas visuais fortes e deve, ainda,
lidar com uma série de requerimentos colocados pelo contexto lingüístico. Por exemplo, ao produzir palavras
durante a conversação o falante precisa lembrar o que está sendo dito enquanto processa a fala – assim,
quando pensa em dizer “ontem eu fui ver meu filho” deve lembrar do referente “meu filho” enquanto diz:
“ontem eu fui ver...”. Além disso, durante a conversação são realizadas repetidas menções a um mesmo
referente já que a referência anafórica repetida é parte importante de uma fala coerente e bem estruturada.
Note-se que as diferenças entre nomear e referir, dizem respeito fundamentalmente a incrementos de
processos relativos à memória: grosso modo, conversar requer mais (outras) tarefas mnêmicas do que nomear;
essa pontuação ficará mais evidente na exposição a seguir.