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Todo o cuidado e respeito ao popular é explicável, como já lembrou Boris
Fausto, pelo ambiente do início de século. As décadas de vinte e trinta são tempos áureos do
debate de nossa dependência cultural e de nossa estratificação social. Resultantes do clima de
excitação revolucionário que assolava diversos países, a partir da ascensão comunista de 1917
e, no caso nordestino, oriundos, também, do estrondoso descontentamento daquela região para
com sua situação de subalternidade econômica frente ao sul brasileiro, os temas
socioeconômicos funcionarão como motes para o desenvolvimento de romances e, cada vez
mais, irão impor o respeito à cultura popular. Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Jorge
Amado, só para citar alguns nordestinos, são exemplos de artistas que, como José Américo de
Almeida, partem da crítica à realidade para a construção de suas obras e usam de todo o
aparato da cultura popular, desde sua língua até suas crenças e costumes.
Assim, os capítulos formados pelos flash-backs nos quais os sertanejos
relatam a vida no sertão são muito expressivos. Neles a coragem dos sertanejos, os costumes e
toda a dignidade daquele povo avivam-se para logo depois vermos como tudo se definha
perante a exploração servil do brejo. Dentro da mesma perspectiva, o capítulo “A vertigem
das alturas” é capaz de compor um quadro de parte das tradições de pequenas cidades da
Paraíba. Desde a descrição das pessoas, das transações econômicas, dos objetos ofertados, até
o roubo, a visita da família sertaneja à feira parece exemplar da conjugação não pitoresca
(cultura e lingüisticamente falando), conseguida pelo romance de trinta, entre a retração da
cultura e o declínio econômico do povo nordestino. A citação, mesmo longa, é necessária para
ilustrar o procedimento:
Pouco interessavam os lugares-comuns da feira:
- As crianças arienses, como querubins evadidos do céu vizinho. Meninos
brancos com uma exposição de rosas nas faces.
-Uma mulher vendendo um papagaio. 10$000. Ninguém queria. Dava por
menos: 8$000, 6$000... E, com o papagaio no dedo, beijando - cheirando-lhe
as asas. Afinal vendeu-o e entristeceu, porque não tinha mais em casa, quem
lhe chamasse pelo nome... [...]
- Galdino Cascavel era um velho excêntrico. Trazia a carga de corda de
coroa num boi encangalhado. E, às tantas horas, comia, em plena feira, rolos
de cobra com farinha seca.
- Vendiam faca de ponta e cachaça, para que a polícia e a justiça
cumprissem, depois, o seu dever. [...]
Moeda corrente: pelega, bagarote, selo, cruzado, pataca, xenxém... [...]
A feira desarticulava-se. Barafustava-se na incerteza do rebuliço.
Um cego, com os olhos brancos volvidos para o céu, levou, maquinalmente,
as mãos aos bolsos. Então, o guia um garoto de ombro baixo, fez-lhe uma
careta que é a forma menos agressiva de injuriar a quem não vê. [...]
Apitos, apitos.
O ladrão escapara-se pela ladeira do Quebra. E os soldados apoderavam-se
dos cavalos da feira para encalçá-lo. [...] (ALMEIDA, 1978, p. 163-164)