AC – O que eu percebo é que todo envolvimento das pessoas, com quem eu já conversei, no MLPA, nessa
luta pela libertação dos padres, isso teve uma influência muito grande nas opções futuras, na vida das pessoas,
no comportamento das pessoas de forma geral. Pra ti como é que foi esse envolvimento, o que significou pra
tua vida, pro teu amadurecimento como pessoa?
Madi – Olha, eu acho assim, claro que contribuiu, eu já estava lá consciente de que estava na pastoral da terra
tentando fazer alguma coisa pelas atrocidades que eu via, conheci muitos trabalhadores que morreram
assassinados, conheci advogados que morreram defendendo, Gabriel Pimenta, Paulo Fonteles, João batista e
pra trás, desde o Gringo, que eu fui na missa de sétimo dia do Gringo, que o Brasil inteiro foi pra lá numa
época braba da ditadura ainda, então essas coisas todas me fizeram ter uma consciência de que eu devia fazer
alguma coisa, só que eu me sentia impotente e frágil, quem sou eu pra fazer alguma coisa indo lá? Eu não
tenho essa coragem, eu não tive essa coragem e acho que não tinha preparo intelectual pra me meter num
trabalho desses, Então o que fazia? Eu organizei o setor de documentação da pastoral da terra, quem
trabalhava com essa questão do trabalho escravo, eu assumi por causa disso, acho que eles me influenciaram
muito nessa parte assim, eu acho que eu tinha alguma coisa que fazer, então quem ia na polícia federal levar
trabalhador pra dar depoimento, trabalhador que fugia da fazenda, era eu, porque o Jerônimo era estrangeiro,
não queria se envolver, e foi bom pra mim, porque eu fui organizando meu trabalho da universidade, de
conclusão de curso, foi sobre o trabalho escravo, depois publicamos isso numa pesquisa. Nós formamos um
grupo pra ampliar esse trabalho e procuramos várias instituições, mas nenhuma se manifestou e a comissão
justiça e paz comprou a idéia. Infelizmente na época era o padre Adriano Cella, que era um padre que até teria
condições de fazer um trabalho sério se não tivesse uma vaidade exacerbada, e que ele usou uma coisa que eu
não quis brigar, porque a gente faz parte da CNBB, não tem nenhum problema, nunca tive, nem queria ter, ele
usou o nosso trabalho, foi muito bom, né? Fizemos um trabalho, foi publicado, conseguimos a publicação do
trabalho sobre trabalho escravo, que eu achava que devia denunciar de alguma forma, então o trabalho
publicado era um veiculo, só que ele se abonou, como diz o caboclo, da pesquisa e se colocou como
coordenador da pesquisa, um padre que não sabia nada sobre o assunto, mas não faz mal, eu fiz a minha parte,
fizemos a pesquisa, levantamos dados, entrevistamos juizes, procuradores, fizemos tudinho, eu acho que se o
trabalho tivesse saído na integra teria sido bacana, então foi uma forma de divulgar, eu participei de palestras,
eu acho assim, que me influenciou porque continuei com aquilo, infelizmente aqui meu trabalho é outro
também com a cultura, mas não é como tava lá.
AC – Madi, aquele momento, o último governo militar, a situação terrível de repressão, de vigilância sobre a
vida pessoal das pessoas, o MLPA e toda a mobilização pela libertação dos padres, foi algo pioneiro,
desafiador. A situação pós governo militar, até que ponto ouve progresso, até que ponto a situação hoje é
outra, como é que você avalia o atual estado da questão da luta pela terra, nós temos ai dados novos, como o
MST...
Madi – Olha, eu tenho uma opinião pessoal, mas eu não tenho subsídios suficientes para fazer uma avaliação
correta. Eu tenho poucos dados, de quem trabalhou na pastoral da terra, de quem viveu aquela situação toda...
Eu acho o MST, eu acho que no início ele tinha uma boa proposta, depois eu acho que desvirtuou, então...
primeiro que ele não tem o apoio da maioria da sociedade civil, eu acho que não tem, pelo que eu avalio.
Então eu acho que no rastro dessa... Como direi... No rastro dessa falência desse movimento, falência no
sentindo de que poderia ter sido uma coisa maravilhosa, que tinha mobilização, que tinha tudo...
Eu acho que entrou toda uma série de problemas, por exemplo, a pastoral da terra, ela aqui em Belém, ela
tinha um escritório historicamente forte, importantíssimo, que ele mobilizou, muitas instituições se reuniam
na CPT naquela época de ditadura, que teve a movimentação da MLPA, você tem que saber que naquela
época era muito difícil se organizar e arriscado inclusive. Então aquela era uma época muito difícil, nós
organizamos, eu falo nós porque eu também faço parte do bolo, né? Então, eu acho que poderia continuar com
um papel importante, mesmo não batendo de frente com... Porque em alguns lugares ela batia de frente com o
MST, mas tendo uma visão crítica do MST, uma visão crítica real inclusive, então eu vejo algumas situações
como algumas entidades dentro da CNBB, que se referem ao MST com expressões inclusive da época da
ditadura militar, o movimento estudantil, algumas coisas completamente defasadas, Lenin já dizia: “O
esquerdismo é a doença infantil do comunismo”, então eles já são da esquerda, é aquelas palavras de ordem,
aquelas coisas... Parecem que eles pararam no tempo. Então eu acho que não avançou não, poderia ter
avançado.